UM ANO DEPOIS DO MUITO ESPERADO CASAMENTO, CASAL BNEI MENASHE TEM UM FILHO

Um casal Bnei Menashe de Tiberias celebrou recentemente o brit milá do seu primeiro filho. Pinhas e Linor Vaiphei casaram no ano passado em Israel depois de Linor ter feito aliá desde Manipur, na Índia, com o apoio da Shavei Israel. Tinham esperado cinco longos anos para se reunirem em Israel. Nas fotografias podem ver o recém-nascido Ziv Vaiphei com o sandak (padrinho) Ovadia Manlun, tio do bebé, casado com a irmã de Linor.

A Shavei Israel deseja aos felizes pais um grande mazal tov por terem trazido o seu filho ao pacto de Abraão, e abençoa-os para que o criem orgulhosamente judeu na Terra de Israel.

Parashat Bamidbar

O censo e os Leviim – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

De’s, ao dizer-nos os limites da terra, fá-lo para que saibamos tudo o que temos que conquistar, mas também para que saibamos que só até aí se deve conquistar, e não mais. O nosso objetivo não é sermos imperialistas.
Nesta parashá encontramos várias coincidências: O povo no total são 603 mil pessoas; o valor numérico das palavras Bene Israel – “Filhos de Israel” é 603.
Diz-nos que havia 22.000 leviim e, em contraposição, havia 22.273 primogénitos, que são aqueles que foram trocados pelos leviim. Os leviim são poucos, quase 30% da população das demais tribos. Isto é assim porque o povo ia ter que os sustentar e dar-lhes territórios nas suas cidades. De’s não quis que fossem muitos para não se transformarem num peso para o povo, pois, se os leviim fossem muito numerosos, o povo, em vez de lhes dar o dízimo, iriam ter que lhes dar o 20% para os poder sustentar.
Se a Terra era dividida por goral — sorteio – , para quê saber quantos são em cada tribo?
Para demonstrar que o que saiu por goral — por sorteio — é o correto. Não só é necessário fazer Tzedek — justiça —, mas, para além disso, é necessário que essa justiça seja visível para todos.
Porquê quando eram contados os leviim no censo, contavam-se aqueles que tinham entre 30 e 50 anos, enquanto que, para o resto do exército (o resto do povo), eram contados desde os 20 aos 60 anos?
Isto é assim porque para o exército faz falta força física, enquanto que no santuário faz falta Shikul daat — maturidade inteletual e sensatez, e não ter maus pensamentos. É por isso que se preferia indivíduos mais maturos intelectualmente.
Como sabemos que agora o povo de Israel sai do monte Sinai para entrar na Terra de Israel? Se analisarmos mais à frente, quando a Torá nos relata que partiram do monte Sinai, notaremos que é a mesma data que diz aqui no princípio do livro Bamidbar, quando se ordena o censo. E aí vemos claramente que o povo se dirige à Terra de Israel. Para além disso, Moisés, nessa ocasião, tinha dito a Itró, seu sogro, que iam até a terra de Israel, tal como já tinha mencionado em Shemot.
Se vão para a terra de Israel, o mais provável é que tenham que preparar o exército para a luta e para a conquista, pelo que é lógico ter que os contar, para poder organizar o exército. Mas está escrito que De’s vai lutar por eles. Para quê então contar o povo para a guerra? A resposta é que, se bem que é De’s que nos faz triunfar, temos que fazer o nosso hishtadlut — o nosso esforço. De’s ajuda-nos derech hateva — de forma natural – , e não de forma milagrosa, tal como aconteceu por exemplo na Guerra dos Seis Dias.
Apesar de não ter sido de forma natural com o rei Ezequias, pois De’s feriu com uma peste os inimigos que estavam a sitiar a cidade de Jerusalém, de tal forma que todos os inimigos morreram e o povo de Israel não teve que lutar, nessa ocasião foi assim porque não havia outra opção para além do milagre.
Se bem que as tribos de Simeão e Levi receberam a mesma bênção por parte de Jacob (de que seriam dispersados entre as demais tribos), mais do que uma bênção foi uma reprimenda pelo que tinham feito ao povo de Shchem. Apesar disso, Levi melhorou até ao ponto de chegar a ser Nachalat HaShem — Herança de De’s –, enquanto que Simeão passou a ser a tribo menos numerosa. Isto foi assim porque perdeu muita gente por causa das diferentes pestes que De’s enviou ao povo como castigo pelas numerosas rebeliões que efetuaram no deserto, por exemplo com baal peor — idolatria. Isto demonstra que esta tribo estava muito envolvida nesses erros.
Qual é o objetivo do censo? Um reduzido número de indivíduos que servem a De’s, ou um grande povo que faz a vontade de De’s, não é o mesmo. É notavelmente mais louvável quando se pode ver uma pequena família no meio de um povo idólatra, que se desenvolve e se transforma num povo numeroso, conhecedor de De’s, e que se torna meritório de ouvir a voz do Criador. Que construa um santuário para Ele e que Ele se transforme no centro das suas vidas. Estes são os que foram denominados de tzivot HaShem— as Hostes de De’s – , e, tal como está escrito: Verov am, hadarat Melech – Quanto mais numeroso for o público, mais se notará o louvor ao Rei. Portanto, o facto de serem frutíferos e numerosos, isso, em si mesmo, já é um louvor a De’s.
Para além disto, o facto de serem tantos é uma prova de que De’s cumpriu o que tinha dito aos patriarcas, que se transformariam num povo muito numeroso.
Outro motivo é que, ao sermos conscientes de que se trata de um povo muito numeroso (aproximadamente 3 milhões de pessoas ou mais), torna-se mais notória a maravilhosa proteção divina, que não só tirou toda esta gente do Egito, como também os conduziu e os alimentou no deserto e os levou à Terra de Israel.
A tribo de Levi é quem leva o Aron — a Arca, ou seja, a mercavá — a carroça celestial, por isso se diz: Shuva HaShem (…) ribebot alfe Israel (Regressa, De’s, a residir entre as dezenas de milhares de Israel) Ribebot = dezenas de milhares. Ao dizer “dezenas”, no plural, devemos supor que pelo menos são duas, ou seja 20.000, e alfe = milhares, pelo menos dois, quer dizer 2000. No total são 22.000, que é o número dos integrantes da tribo de Levi.

Parashat Bechucotai

As bênçãos – Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Em primeiro lugar, temos que analisar se todas estas coisas boas que nos são  prometidas são milagre ou são algo natural. Quer dizer, é normal a natureza comportar-se assim tão bem, ou não?

Nachmánides defende que a Torá está a falar de uma época milagrosa. A natureza geralmente não se comporta assim.

No entanto, para rabi Simcha Cohen, no seu livro Meshech Chochmá, não se trata de uma época milagrosa, mas sim esse é o estado normal da natureza. De’s criou a natureza para que ela funcione bem (chuvas boas e a seu tempo e não inundações, furacões ou desastres), mas, quando o ser humano não anda no bom caminho, então a natureza não se comporta como se deveria comportar. Os milagres existem para que não nos esqueçamos de que a natureza não é tudo, mas sim que há Alguém que está acima dela, que é quem a criou e quem a controla.

É possível que Nachmánides e Meshech Chochmá se não se contradigam, e que na realidade estejam a dizer o mesmo, apenas de ângulos diferentes. O milagre acontece quando as coisas deixam de agir como costumavam fazê-lo e passam a agir de uma maneira mais benéfica no momento em que se necessita. Hoje em dia (devido ao nosso estado atual), a natureza comporta-se como se comporta, e não vemos todas as coisas boas que a Torá nos anuncia aqui. No entanto, quando o povo se comportar da maneira correta, então a natureza deixará de agir assim e será muito mais benéfica.

O mais provável é que a Torá, quando fala de todas estas bênçãos no caso de nos mantermos fiéis à Torá, se refira a todo o povo e não a casos particulares. Prova disso é que a Torá expressa esta ideia no plural e não no singular.

No que diz respeito a quais são os requisitos para que nos aconteçam estas coisas boas, seria propício analisar outras passagens da Torá, onde ela nos fala de coisas parecidas, quer dizer, do bem-estar no caso de andarmos pelo caminho dos preceitos.

Isto acontece na parashá Ekev (Deuteronômio capítulo 7), em Ki Tissá (Deuteronômio capítulo 28) e no Shemá (Deuteronômio capítulo 11). Nas duas primeiras, a Torá fala-nos de efetuar os preceitos; não nos diz nada acerca da intenção, do pensamento ou do sentimento que devem acompanhar esses preceitos. No Shemá, fala-nos específica e claramente de fazermos as coisas sinceramente e com o coração. Mas, se observarmos com maior profundidade, notaremos que, na realidade, tanto em Ekev como em Ki Tissá a Torá também nos fala acerca da intenção sincera. Tal como diz o comentarista Seforno, em Vaikrá 26:3, o termo hebraico shamor— cuidar — refere-se também a cuidar de realizar os preceitos da maneira mais correta, e isto obviamente inclui um pensamento e um sentimento corretos.

Em conclusão, vê-se claramente que sempre que a Torá nos fala de uma recompensa por ter cumprido os preceitos, não se refere a cumpri-los de forma automática, sem reparar no sentido e na mensagem dos mesmos.

Porque não nos promete a Torá o bem maior, quer dizer, o mundo vindouro? Para responder a esta pergunta recorreremos às palavras de Rambam na introdução ao Perek Chelek: No entanto, o significado dos benefícios e das desditas que estão escritas na Torá é o seguinte: Ele assegura-te que se cumprires esses preceitos, ajudar-te-á a poder praticar os mandamentos de forma íntegra, retirando do teu caminho todo o tipo de obstáculos que te impeça de os realizar, já que é impossível ao Homem cumprir os preceitos[na sua integridade] estando doente, com fome ou com sede, como também não em época de guerra ou perseguições, portanto, De’s assegura que afastará todas estas coisas e nos manterá sãos e tranquilos para que, deste modo [possamos realizar os preceitos e] alcançar um conhecimento pleno, tornando-nos então meritórios do mundo vindouro.

Portanto, o objetivo desta recompensa pelo cumprimento dos preceitos não é atingir a abundância terrena ou desfrutar de uma vida longa e saudável; todas estas recompensas são um meio para poder cumprir a Torá plenamente.

Algo similar é expresso em Hilchot Teshuvá, capítulo 9.

Que quer dizer que “De’s andará entre nós”? Encontramos um texto similar a este, que nos fala metaforicamente de que De’s “andava” entre os homens. Refiro-me ao princípio do livro de Génesis (3: 8), quando a Torá nos fala do Jardim do Éden. Ali diz-nos que ouviram a voz do Criador, que andava no meio do jardim. Quer dizer, aqui diz-nos que, se cumprimos bem todos os preceitos, então vamos atingir um nível tão alto como o de Adão quando estava no Jardim do Éden.

E é precisamente este o objetivo da saída do Egito, quer dizer, deixar de servir e de ser escravos deste mundo. Dessa maneira atingiremos um nível superior, e então este mundo servir-nos-á a nós, como um meio para nos tornarmos meritórios da vida eterna.

Uma vez que atinjamos esse nível superior, então chegaremos ao nível de compreender que De’s é o centro da nossa vida. A isto se refere a Torá quando diz: Eu serei para vós De’s. \lsdpriority47

Uma história de marranos: duas cozinhas, mas ninguém sabia porquê

um artigo de Shimon Cohen

Arutz Sheva falou com Sarah Israel, uma descendente de marranos (judeus forçados a converterem-se ao cristianismo durante a Inquisição Espanhola), que encontrou o caminho de volta ao judaísmo na sua Espanha natal.

Sarah explicou que a sua mãe passou por um processo de busca espiritual, mas nenhuma religião a satisfazia, até que descobriu o judaísmo e sentiu que “é onde está o verdadeiro D’us e é onde ela pertence”. A sua mãe aproximou-se do judaísmo e Sarah também se interessou. Mais tarde, Sarah participou de uma reunião de Shabat organizada por emissários da Shavei Israel que tinham ido a Espanha. (A Shavei Israel é uma organização israelita que ajuda judeus perdidos e escondidos a voltarem às suas raízes.)

“Fui no Shabat e eles falaram sobre os marranos”, diz Sarah, explicando que, inicialmente, não via nenhuma conexão entre os Marranos e ela e a sua família. Naquela altura, Sarah desejava juntar-se ao povo judeu como Rute, a moabita, mas, durante esse Shabat, a conversa girava em torno de costumes tradicionais que eram preservados entre os marranos de geração em geração e que tinham raízes no judaísmo.

A conversa levou-a a pensar sobre os costumes com os quais cresceu em sua casa. Entre outras coisas, lembrava-se do costume de quebrar um copo em casamentos, o que ninguém na família podia explicar.

Sarah também conta que na casa da sua avó havia duas cozinhas, por uma razão desconhecida. Ninguém sabia porquê e ninguém perguntava, e a família habituou-se a isso. Quando a sua avó morreu, foi colocada no chão, contrariamente aos costumes cristãos normais na região. Mais tarde, quando falou com voluntários da organização funerária judaica em Madrid, Sarah descobriu que esse também é um costume judaico. (Há um costume judaico de, se uma pessoa morrer em casa, o cadáver ser colocado se possível no chão e coberto até que seja levado para ser preparado para o enterro.)

A conversa que Sarah teve depois do Shabat com os emissários da Shavei Israel sobre os costumes da sua família foi para ela o fechar de um círculo. Sarah, que queria conectar-se com o povo judeu, descobriu que era, na verdade, parte do povo judeu – uma parte que teve que abandonar o judaísmo e andar errante por centenas de anos.

No seu livro Vasijas Reparadas (publicado em hebraico  [e em espanhol]), Sarah descreve como ela e o seu filho Baruch lidaram com a adaptação à vida judaica numa pequena vila espanhola, onde ela e a sua família passaram pelos primeiros estágios da conversão. Por um lado, foi muito difícil, pois ninguém na aldeia estava familiarizado com os costumes judaicos ou mesmo com os próprios judeus. Por outro lado, Sarah disse que o relacionamento com as pessoas da sua aldeia era muito bom. Os vizinhos eram compreensivos e respeitavam as escolhas da família, tendo acompanhado o processo de transição da família e sua mudança final para Madrid.

Quando a família chegou a Madrid, a prática do judaísmo tornou-se muito mais fácil, graças à grande comunidade judaica ali existente. Depois de passarem por um processo de conversão preliminar em Madrid, a família mudou-se para Israel para concluir o processo, estabelecendo-se em Beit El.

Quando lhe perguntámos sobre os relatos de dezenas de milhões de pessoas em Espanha, Portugal, Brasil, Honduras e outros países que afirmam terem ligação ao povo judeu por serem descendentes de marranos, Sarah diz que, na sua opinião, esse é um dos sinais da redenção. “Há uma promessa de De’s de que todas as almas retornarão para que a redenção seja completa – este é definitivamente um sinal de redenção.” No entanto, de acordo com Sarah, cada caso deve ser examinado em profundidade, pois pode assumir-se que, ao longo dos anos, tenha havido oportunistas que tenham tentado “apanhar boleia” do povo que produziu tantos intelectuais, líderes e pessoas de influência.

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA BNEI MENASHE EM SAFED

A nossa fotógrafa, Laura Ben David, tem tirado milhares de fotografias aos Bnei Menashe, desde a Índia a Israel, e tem-nas apresentado a públicos de todo o mundo. A sua exposição mais recente, que conta a história dos Bnei Menashe, esteve patente no lançamento do GATI (Festival de Artes de Safed) neste Pesach.

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Parashá Behar

Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Rambam menciona mais de 13 preceitos que têm a ver com o servo hebreu. Não o maltratar, não o vender nos mercados de escravos, não lhe dar tarefas que se dão a um escravo, libertá-lo no ano sabático, quando sair em liberdade não sai com as mãos vazias, resgatar a serva hebreia que foi tomada prisioneira, etc.

O primeiro assunto de que a Torá nos fala, a seguir aos 10 mandamentos, é o assunto dos servos. É a primeira ordem que a lei hebraica dá aos juízes: como deve ser a lei do servo hebreu. E só depois virão os casos mais graves, como aqueles que levam à pena de morte.

De acordo com os historiadores, deixou de haver escravos hebreus no fim da época do Segundo Templo (em Roma, que foi posterior ao segundo templo, 80% da população eram escravos e apenas 20% eram cidadãos do império) e, apesar de ser difícil de acreditar, ainda hoje em dia há sociedades onde existem escravos.

O Profeta Jeremias conta-nos que logo após a saída do Egito já havia entre o povo de Israel indivíduos que eram escravos de outros israelitas.

Temos que saber que na antiguidade a escravidão era algo muito aceitável.

Há quem defenda que as tribos de Ruben, Simeão e Levi não foram escravizadas pelos egípcios. É por isso que quando a Torá nos relata em Shemot a lista dos cabeças de família traz Ruben, Simão e Levi, e nada mais. Meshech Chochmá, um comentarista bíblico, diz que este foi o motivo pelo qual estas três tribos não tiveram parte na terra de Israel, já que eles não foram escravos no Egito e, para além disso, tomaram escravos para eles de entre os filhos de Israel.

Na Bíblia, apenas uma vez aparece o termo “servo hebreu” (fora do contexto desta parashá), e é com Yosef, mais precisamente com a esposa de Putifar, que o chama assim. É como se a Torá não quisesse aceitar esta condição, não desejando que existam servos hebreus, e é por isso que não os menciona tanto.

Mas se a Torá não está de acordo, então, porque não os proibiu definitivamente? Porque não abolir a escravidão?

A Torá não pede coisas que os homens não possam fazer. Por exemplo, a Torá não nos obriga a jejuar durante três dias, etc. E apesar de poder ser possível, da mesma maneira, não nos ordenou anular a escravidão, mas sim impôs-lhe muitos limites.

Mais à frente, em Devarim 15:18, vemos que o motivo dos seis anos é que o servo trabalhe apenas seis anos, quer dizer, a Torá não quer que ele trabalhe mais de seis anos com a mesma pessoa, porque depois de tanto tempo o servo habitua-se a ser dependente de outros para toda a vida. Mais para a frente vamos ver que mal tem isso.

Rambam, em Mishneh Torá, explica-nos como se adquiria um servo hebreu: não era adquirido no mercado de escravos normal, mas sim era o tribunal rabínico quem autorizava a venda de um escravo, e isso acontecia quando o indivíduo se tornava demasiado pobre e não se conseguia sustentar, ou quando um ladrão não tinha posses para repor os danos causados.

A mulher não poderia vender-se como escrava, pelo perigo de os homens se aproveitarem da sua condição, prostituindo-a ou abusando dela.

A mulher, aos 12 anos de idade sai em liberdade, quer o dono queira ou não queira, a não ser que ela própria escolha ficar com ele. Quer dizer, na idade em que se começa a desenvolver e se torna atraente fisicamente, é nessa altura que ela corre o risco de abuso sexual, e é por isso que é posta em liberdade.

Porque não se dá o mesmo tratamento ao servo não judeu? Se a Torá está em desacordo com a escravidão, então, porque não colocar também muitos limites no caso de escravos não judeus?

O objetivo ou plano da Torá não é consertar toda a humanidade de uma só vez; o método é conseguir uma sociedade boa, que neste caso serão os judeus. Então, quando os demais povos virem como funciona uma sociedade boa, inspirar-se-ão e quererão fazer parte desta boa sociedade; a decisão depende deles.

Algo similar ocorre com a cobrança de juros nas dívidas. O não-judeu, quando me empresta dinheiro, cobra juros. Então, quando eu lhe empresto a ele, porque tenho que perder?

Não se pode dar ao servo hebreu trabalhos que não são necessários ou tarefas que apenas lhe são dadas para não estar sem fazer nada. No entanto, esta atitude é permitida para com o escravo não-judeu. Isto é assim porque se o escravo não-judeu estiver sem fazer nada, corremos o risco de ele se dedicar a seduzir mulheres judias, pois, como dizem os sábios, a ociosidade conduz à promiscuidade.

Este é um assunto mais profundo, mas, para o abordar brevemente, recordemos que o judeu se diferencia dos demais povos, entre outras coisas porque não se conduz de acordo com as suas paixões, enquanto que os demais povos querem ser “livres“ e correm atrás dos seus impulsos, defendendo que para serem felizes devem poder fazer o que quiserem (ou, melhor dito, o que apetece aos seus instintos). É por isso que os sábios decretaram: Torat goim, araiot. A ética ou moral dos não-judeus está minada de perversão sexual.

Outro dos motivos pelo qual a Torá se opõe à existência de servos hebreus é porque a Torá não quer que o judeu tenha outro senhor que não seja De’s. Para que desta maneira não se sinta aprisionado e possa então servir a De’s. É por isso que no tempo do Profeta Jeremias, quando o povo não quis libertar os servos judeus, De’s disse-lhes: Vós não quereis receber o jugo de De’s, então ficareis expostos ao jugo deste mundo (guerras, epidemias, conquistas, etc.)

E porquê o escravo que quisesse continuar a ser escravo devia furar a orelha? Porquê precisamente nesse local do corpo?

Um dos motivos é para que seja algo bem visível, para que ele se envergonhe e então não queira ficar como escravo. Outro motivo é porque essa orelha não ouviu bem o que De’s disse no monte Sinai: Meus são os filhos de Israel. Este escravo está a colocar sobre si outro senhor fora de De’s.

Porque deve furar a orelha na porta? No Egito, o povo de Israel, ao colocar o sangue do cordeiro nas ombreiras das suas portas, demonstrou dessa maneira que era livre; fez algo contra os seus senhores, exatamente contrário à cultura e aos deuses dos seus amos, sem os temer nem se submeter a eles. Agora este escravo, ao escolher ficar com o seu patrão, está a fazer precisamente o contrário. É por isso que ele é levado à porta, para recordar esta mensagem.

Poderíamos perguntar: Que diferença há entre ser servo de De’s ou ser servo de outra pessoa? Ao fim e ao cabo, continuamos a ser servos.

A realidade é ao contrário. Aquele que é servo de De’s, é na verdade livre, e apenas é chamado servo porque queremos dizer que ele faz o que De’s lhe ordena, e De’s ordena coisas que são para o nosso bem, não se trata de caprichos de algum homem. É algo a que os sábios se referem quando dizem que as tábuas da lei estavam talhadas (em hebraico diz-se “charut”) e os sábios dizem que em vez de talhadas pode ler-se “cherut”, que quer dizer liberdade (em hebraico diz-se “cherut”, que é muito parecido com “charut”). Quer dizer, as tábuas da lei dão-nos a verdadeira liberdade.

A sociedade liberal, ao contrário, apregoa que cada um faça o que bem lhe apetecer, sendo a única limitação o não prejudicar os outros (e, mesmo isto, não é por uma questão ética, mas sim para que o outro não me prejudique a mim). Não pensa no último bem do indivíduo, ou de quê é que aquele indivíduo precisa para se realizar e crescer; responde apenas a um padrão egocentrista.

A Torá é o sistema mais completo e perfeito, que pensa em todos os aspetos e não só em alguns. (Quer dizer, não pensa apenas nos aspetos mais prazerosos ou momentâneos e não nos outros). É por isso que a Torá permite que uma pessoa se venda como escravo quando é pobre, apesar de hoje em dia isso estar mal visto, mas, por acaso a alternativa moderna é melhor? Que a pessoa se rebaixe mais? Que viva a mendigar nas esquinas ou dormindo na rua? Ou talvez é melhor recorrer ao roubo ou às drogas?

Esta é a diferença entre o empregado e o escravo. O empregado pode ser obrigado durante mais de três anos (contrato?) E depois, se quiser, pode continuar ou ir embora, mas o escravo tem seis anos, porque precisa de mais tempo, já que tem menos recursos que o assalariado.

A Torá definitivamente não quer que o Homem se rebaixe tanto e se escravize, mas, perante casos extremos, essa opção é melhor que a outra.

Apesar de passados seis anos o escravo sair livre gratuitamente, porque é dada opção ao escravo de ficar até ao Jubileu? A Torá vela pelo bem-estar do servo, e é por isso que impõe limites ao patrão, mas não ao servo. Se o servo quiser, pode abrir mão do seu direito de sair em liberdade. No entanto, a Torá não lhe permite ficar nessa situação eternamente, mas sim apenas até ao Jubileu. No entanto, o servo tem que fazer tudo isto perante os juízes, para não correr o risco de ser pressionado pelo seu amo a ficar.

A Torá dá o direito ao servo de ter a sua família, que é uma necessidade básica. Assim, se o servo vier com uma boa esposa, ao sair em liberdade, a sua esposa sai com ele, para não acontecer que o dono o liberte apenas a ele só para ficar com a esposa.

No caso de um homem querer vender a sua filha como escrava, (porque não tem os meios para a sustentar ou para lhe dar um bom lar ou educação) nesse caso há mais limitações, já que se corre o risco de ela ser prostituída. É por isso que logo a seguir a tê-la vendido, já recai sobre ele ou sobre os seus familiares obrigação de a redimir.

Por outro lado, também existe um ponto positivo: é possível que aquela menina acabe por casar com algum membro da família à qual foi vendida. É por isso que a Torá deve manter o equilíbrio entre dar um bom futuro a essa jovem que nasceu no seio de uma família sem os mais básicos recursos e o perigo de ser abusada.

Até ao ponto de que a Torá obriga quem adquirir uma escrava hebreia, ele próprio ou o seu filho, a casar com ela, ou, senão, deve libertá-la. Assim, ao ter um marido, os outros escravos não abusarão dela (entre os escravos existe muita promiscuidade). Deste modo, praticamente não existe a serva hebreia, pois passado pouco tempo transforma-se na esposa do seu senhor.

Os sábios obrigam a que o servo coma da mesma comida que o senhor. Se existir apenas uma almofada na casa, e temos que decidir para quem será, se para o dono ou para o servo, o servo tem prioridade. O dono tem que cobrir todas as necessidades do servo, mesmo à custa das suas próprias necessidades. E no caso de não as poder cobrir, o escravo deve libertado.

Portanto, se o indivíduo for sábio e souber isto, facilmente comprovará que não é conveniente ter servos hebreus, e é exatamente isto o que a Torá pretende.

Por outro lado, se era roubado algo alguém e o ladrão já gastou o produto do roubo, o facto de o ladrão ir para a prisão, não serve para nada a quem foi prejudicado; ninguém devolve a sua perda.

Para além disso, na maior parte dos casos, o ladrão, na prisão, não deixa de ser ladrão. Ao contrário, aperfeiçoa ainda mais a arte de roubar, pois está rodeado de gente muito baixa e por isso corrompe-se mais ainda.

Para o conjunto da sociedade, isso também não é bom, porque agora este ladrão, que na maior parte dos casos não se corrige na prisão, ainda tem que ser sustentado com o dinheiro dos impostos dos contribuintes.

Em síntese, não é justo nem para o prejudicado, nem para o ladrão, nem para a sociedade.

Pelo contrário, para a Torá, quando alguém rouba e não tem bens para reparar o dano causado, é vendido como escravo até que possa pagar com o seu trabalho ao prejudicado, os danos estipulados pelo juiz.

Para além disso, não era vendido a uma família qualquer, mas sim a alguma família na qual o escravo se possa corrigir. Ao viver entre gente boa, o ladrão tinha mais possibilidade de se corrigir, de os querer imitar e constituir um lar como esse.

Por outro lado, a sociedade não tem que o sustentar, mas sim ele sustenta-se a si próprio com o seu próprio trabalho.

Para aprofundar mais ainda sobre como a Torá se ocupa também dos transtornos psicológicos que os escravos podem sofrer, ver Mishne Torá Hilchot Avadim, Cap 1 Halachot 5,6, 7 e 8.

RABINO DE SHAVEI ISRAEL VIAJE A GILGAL

Shavei Israel: Este feriado da Páscoa, Rabi Elisha Salas de Shavei Israel e sua esposa Avigail viajaram para o Kibbutz Gilgal e compartilharam conosco algumas fotos e belas histórias.

… Lembram-se do vídeo que o rabino Elisha Salas fez desde Gilgal? Pois é, ficámos a dever-vos as fotografias e os vídeos da visita, onde se podem ver as paisagens e os locais mais representativos da região.

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