O Sidur Catalão dos Judeus Convertidos

Podemos dizer, sem medo de errar, que todas as orações feitas nas sinagogas catalãs durante o século XV, à época da expulsão, foram apenas em hebraico, assim como o estudo da Torá e do Talmud.

Igualmente claro que os judeus que viviam nessas terras falavam catalão em suas casas e com os seus parceiros, bem como com os gentios das cidades que viviam (assim como aqueles que viviam em Castilla falavam o castelhano). Este não falavam um “catalojudaico” ou um “judaicolhano”, simplesmente falavam ‘catalão’ e ‘castelhano’. Claro que haviam palavras e expressões hebraicas intercaladas, mas não acho que estas possam ser suficientes para considerar a língua praticada pelos judeus nestes tempos, uma língua em separado.

Também podemos garantir que, as mulheres que queriam rezar, e eu não tenho certeza que o faziam regularmente, que o faziam em uma língua vernácula, ou seja, em Catalão.

Sidur Catalão por fora
Sidur Catalão por fora

Assim também, como resultado dos massacres anti-semitas de 1391, milhares de judeus foram forçados a se converter ao cristianismo, e proibidos de frequentas as sinagogas sem correr grave risco de vida, este continuaram a orar na privacidade de suas próprias casas. Portanto, não é de se estranhar que estes, sozinhos, já não eram capazes de fazê-lo numa língua que desconheciam e não tiveram escolha a não ser, traduzir os trechos para catalão, assim como os judeus de Castela o fizeram para o castelhano.

Como prova disso, vemos o chamado, ‘sidur catalão’. E cito aqui a notícia do “Diário de Barcelona” do dia 20 de abril de 1848, citado na “Apresentação da edição do sidur mencionado na Academia Real de Belas Artes de Sant Jordi”. Segue a notícia (deixei alguns erros de ortografia, especialmente em razão da mudança do ‘x’ pelo ‘s’):

Na casa dos senhores Soler e Freginals, que seguem pelo Call, houve uma descoberta notável, que recorda o antigo destino desta parte da cidade. Dentro de um muro encontrou-se três livros manuscritos em tal condição que parecem recém-saídos das mãos daqueles que os utilizaram, mas todos pertencem ao século XV.

Este que, pelo caráter da letra, parece mais antigo é um pequeno códice em 16.º de um precioso e fino pergaminho, escrito com grande regularidade e limpeza. Contém vários salmos de David e algumas orações judaicas, tudo em Catalão, muito cuidado e gerenciado, para rezar em dias diferentes da semana dos hebreus.

Outra códice de tamanho 8º, menor, embora escrito em papel, compete com o primeiro em limpeza e vence todos na boa conservação. Vendo a limpeza de suas folhas grossas, a pele reluzente de suas capas usadas em partes por fricção, e a cor amarela da extremidade de suas folhas em intervalos sem brilho, diria que se sabe onde o hebreu colocou seus dedos. É composto por 247 páginas: Da segundo a quinta contém uma lista de todos os meses do ano judaico, com a explicação das principais festas; da 6º a 10º, o índice, 17-226 orações para as festas e para diferentes momentos e atos diários; 226-235 bênçãos de antes e após as refeições e de antes de dormir, e para a Páscoa e para os sábados; 235-238 uma oração chamada “Pittum aquettoret, el qual dientlo ab gran devocio val contra pestilencia e qui no pronuncia els mots distintament pecca mortalment”. A esta acima fornece uma explicação dos aromas e outros materiais usados para o incenso. Da 238 a 242 há uma bela tradução do Salmo 103, 242-243 contém uma oração ‘per aquant se veu la luna nova’ . Do 243-245 os treze artigos da ‘Ley de escriptura els cuals els hebreus tenen en orde dirlos cascuna nit en lo llit’ (são a sua profissão de fé), e termina com o codex com os sete preceitos da lei natural e os dez da lei escrita e uma oração para rezar quando entrar em qualquer cidade ou aldeia. O catalão deste belo codex contêm frases bastante antigas e conserva restos de Provence, pelo menos alguns de seus ditongos e terminações verbais são encontrados somente na idade mais antiga desta linguagem. Na parte de trás da tampa traseira lê-se: ‘Penyora dabramet jueu de Caller per nolit per… fflori dor’.

O terceiro códice, menos notável pela sua parte material, em 4º maior, pertencia a um comerciante cristão chamado Bartolomé Rodríguez, sem dúvida, situado em Valência, já que nesta data a cidade se encontra a maioria dos itens nele listados. É provável que tenha sido um judeu Converso pois, com excessão das folhas que contêm suas notas e dados de carga, todas as outras são de estudos do Antigo Testamento, consulta a frades e médicos, especialmente em relação ao povo judeu e a vinda do Messias e da divindade de Jesus Cristo. Mesmo no meio destas anotações religiosas Rodriguez intercala uma lista de itens insignificantes para empréstimo comparando com as qualidades características destas pessoas infelizes. O livro foi iniciado em julho 1468 e concluído em 1470. O pobre dono teve o cuidado de anotar quem de villadiego recebeu cada montante, uma prova de nossa suposição anterior. Pelos diferentes itens anotados, vê-se que ele possuía uma caravela e tinha parte em outro navio (balener), que viajou por Mallorca, Sardenha e Nápoles além de ter tido relações com pessoas de diferentes países e classes. O resto do manuscrito, exceto a notícia de um filho nascido e batizado em 1478, apenas contém os extratos das Escrituras por meio de notas de estudo ou lembretes.

Não é explanação dizer algumas coisas sobre a conjetura tocante a origem desses códices. Sabemos que a Call se reunia na Sinagoga dos judeus de Barcelona, e que, em 5 de agosto de 1391 esta sinagoga virou palco de saco e faca, ao mesmo tempo que outras da Coroa de Aragão, entre elas a de Valência, foi a que menos sofreu, já que seus hebreus receberam o santo batismo. Os resultados das conferências e debates realizados em Tortosa do 7 de fevereiro de 1413 a 12 novembro de 1414 frente ao Papa Bento XIII, resultou na derrota dos rabinos, a partir do decreto que proibia ler e escutar o Talmud e assim, mandou recolher todas suas cópias. Quanto a expulsão dos judeus pelos reis católicos, Valencia foi uma das cidades que viu mais deles partir, enquanto que o decreto apenas deixou uma impressão em Barcelona, praça frequentada por todos os tipos de pessoas e classes. Será que o proprietário desses códices veio se estabelecer em Barcelona e buscar uma segurança aqui, segurança esta que o seu reino não podia oferecer? Foi o medo da Inquisição e a necessidade de deixar também Barcelona o que o forçou a deixar seus livros na parede e ir embora, mesmo que já convertido?

Eu poderia acrescentar, depois de acompanhar as orações da sidur, que, quem o traduziu sabia perfeitamente tanto o idioma hebreu, que são as orações originais, assim como o idioma para que foi traduzido, o catalão.

Certamente eles deveriam ter um sidur em hebraico diante de seus olhos, para evitar erros, ou conheciam as orações de cor. Mas isso não impede que vários erros, trocas de palavras ou expressões apareçam em seu magnífico trabalho. Instruções sobre o uso do sidur: “no sábado vá a ‘E se Alegrou Moshé’, em tal em tal # na página 125”. Ou mesmo anotações e gráficos fora da página, para assim, mais facilmente, encontrar a referência.

As orações não podem ser consideradas Ashkenazitas, poderia chamá-las de Sefaraditas, mas não se trata do rito Sefaradita que conhecemos hoje, com muitas mudanças, além dos textos adicionados, muito mais tarde ao sidur convencional.

Em suma, é uma verdadeira pérola cultural, quer no estudo das orações no século XV, como no estudo da língua catalã, destes dias, como também as traduções de algumas passagens que eu vejo com um enorme interesse. Eu acho apropriado dedicar a devida atenção ao seu estudo e até mesmo ‘re-traduzir ” para o hebraico para assim, encontrar mais facilmente as discrepâncias, as mudanças no ‘núsach’ (costume) e tudo o que foi adicionado ou suprimido durante os últimos 600 anos da história judaica!

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O significado das rezas: A Reza Pessoal – Noções sobre o Judaísmo

A Reza Pessoal

Em artigos anteriores, estudamos a reza”nacional”, focada nas necessidades do nosso povo. Contudo, certamente, existem problemas e questões puramente privadas das quais devemos orar e pedir ajuda ao Criador.

No Talmud, os Sábios nos instruem que podemos, e devemos, adicionar nossos pedidos específicos na reza da Amida. Dependendo da razão de cada um de nossos pedidos, devemos associá-los aos pedidos já existentes da Amida, tornando-os um pouco mais pessoal.

familia-haciendo-tefilc3a1-en-el-kotel-yerushalaim-jerusalem-jewishnet-mexico-la-red-judc3ada-mc3a9xico-conversic3b3n-al-judac3adsmo-ortodoxo-en-mc3a9xico-e1419097575365Deste modo, na bênção da saúde, poderíamos acrescentar um pedido de cura para um parente doente, e etc. Cada um dos nossos pedidos deve encontrar um espaço apropriado, e quando não somos capazes de “configurá-lo” corretamente, podemos acresentá-los na bênção final, na qual podemos incluir e adicionar qualquer questão que tenhamos.

Podemos aprender com o Rei David que, ao longo dos Salmos que escreveu, comparou sua situação pessoal com a fase da história nacional, que se desenrolava. Assim, o pedido permanece pessoal, mas é subjugado a uma capacidade nacional. Eu, como parte do povo de Israel, quero que meu povo tenha saúde, e é portanto, é imprescindível que este indivíduo em particular também seja curado e esteja em pleno estado de saúde. Desta forma é possível converter o problema nacional em algo muito mais pessoal, nos envolvemos muito melhor com os passos da história. Já não se trata de um problema abstrato mas sim, torna-se um problema pessoal: é essencial a existência de Saúde no povo e, portanto, o indivíduo deve ser curado.
Todo o dia orando

Tudo isso não nos impede de criar um sistema de conexão com o Criador, que abrange todos os momentos de nossas vidas. Os sábios dizem no Talmud que “oxalá que o homem reze todo o dia”, ou seja, esperamos que possamos ser capazes de manter contato com o Criador durante todos os momentos do dia. Esperamos ser capazes de buscar a verdadeira ajuda aonde realmente podemos encontrá-la.

Qualquer hora e qualquer lugar é adequado para estabelecer contato com o Criador. Qualquer assunto é apropriado: saúde física ou espiritual de um ente querido; pequenos problemas com vizinhos ou parentes; estudo e problemas de aprendizagem; dificuldades financeiras; e etc.

Assim, estabelecemos um contato contínuo com o Criador, algo que deveria ser a maior aspiração de qualquer pessoa, como aprendemos através da história de Yosef. A Torá descreve a vida de um escravo na casa de Potifar exclamando: “Vejo que o Senhor está com você e tudo que você faz, D’us traz sucesso” (Gênesis 39:3). Isso pode ser entendido como uma reação de Potifar às ações de Yosef, que continuamente pedia a ajuda divina em tudo o que fazia, e agradecia ao Criador por cada pequeno sucesso que alcançava.
Bênçãos de agradecimento

Além de pedidos especiais, importantes e indispensáveis existem, ​​também, as bênçãos de agradecimento que preenchem o dia de um judeu.

Existem bênçãos para praticamente tudo. Ao nos levantarmos de manhã, agradecemos ao Criador por haver nos dado um novo dia de vida, devolvendo a alma para o corpo deitado na cama. Agradecemos por abrir nossos olhos todas as manhãs. Agradecemos pelas roupas que nos cobrem, pelos sapatos em nossos pés, pela possibilidade de ser capaz de endireitar-nos e caminhar, de livrar-nos dos laços que nos prendem e que nos permite fazer uso da liberdade que nos concedeu.

Existe uma bênção para quando saímos do banheiro, depois de fazer nossas necessidades corporais: bênção esta que agradece a boa saúde, o bom funcionamento do nosso corpo, mas também a maravilha que representa o fato de que as pessoas são o convívio conjunto de corpo e alma, matéria e espírito , animal e divino.

Na primavera há uma bênção ao ver as flores das árvores e no inverno outras bênçãos ao se ouvir trovões, relâmpagos e arco-íris. Por um terremoto e por uma paisagem de tirar o fôlego, por uma criatura particularmente linda ou uma criatura que tenha sofrido alguma deformidade.

Existem também as bênçãos das quais rezamoscpara que nosso trabalho seja recompensado de maneira positiva e abundante, ou, agradecendo a abundância reservada.
Agradecer e Reconhecer

Nossos Sábios explicam que o nome “judeu” vem de Judá, filho de Yaakov. A Torá explica que o significado do nome é “agradecer”, expressado pela mãe ao ver o recém-nascido. Assim, qualquer judeu deve ser considerado uma pessoa ‘agradecida’.

Na verdade, o verbo “agradecer” em hebraico é idêntico a “reconhecer”. Quando digo “Modê ani” pode significar “Eu agradeço”, ou, pode ser, “Eu reconheço “. Reconhecer que o benfeitor é o Criador, é como agradecer a D’us.

Consequentemente, o judeu é aquele que reconhece que tudo vem d’Ele e é para Ele. Essa é a grande missão do povo de Israel: conectar os pontos de um mundo que parece muito desintegrado e conectá-los com o Criador do Mundo.

Fazemos isso através de todas estas bênçãos. “Você é Aquele que liberta os prisioneiros ”, “que levanta os caídos”, “que cura os doentes”. Do Criador provêm os terremotos e as chuvas. Agradecemos pela comida que comemos, a boa notícia que ouvimos e a oportunidade de celebrar suas festividades.
A intenção direito

O judeu deve aprender todas estas bênçãos, sendo que muitas destas podem pegá-lo de surpresa: de repente viu brilhar um relâmpago no céu nublado, ou um arco-íris a distância. Cada vez que quiser comer ou beber, é necessário reconhecer que tudo vem d’Ele, e não é o resultado de uma coincidência natural.

Ao recitar estas bênçãos, devemos lembrar a intenção adequada, já que um dos maiores perigos é que, depois de algum tempo, as bênçãos possam se tornar uma rotina prejudicial. Devemos preservar a inocência de uma criança nova descobrindo coisas novas, novos mundos em sua vida, e, assim, ir acrescentando sabedoria a experiência sabendo relacionar tudo, com o Criador.

Antes de concluir, é importante observar que a redação das bênçãos inclui o Nome Divino e Seu Poderoso Reinado Sobre o Universo, pois sem estas devidas menções explícitas na bênção, esta perde muito seu valor. Como filhos do povo de Israel, temos conhecimento do nome revelado aos nossos Patriarcas e Profetas, e também reconhecemos Seu completo poder sobre tudo o que acontece no nosso mundo e em qualquer outra galáxia.

A Oração dos Anussim

571244_54Anular a Promessa aos Sacerdotes

Há uma oração com a qual os Anussim particularmente se identificam, na medida em que, alguns, acreditam que, inclusive, foi escrita por eles ou para eles. Trata-se da oração com a qual abrimos a noite mais sagrada do ano, a noite do Yom Kipur. Esta oração é chamada de ‘Kol Nidrei’.

Em 1391 houve uma terrível onda anti-semita nos reinos de Castela e Aragão, que formam a atual Espanha.

Durante os meses de verão, a ira dos cristãos correu furiosamente pelos bairros judeus, matando, destruindo e fazendo com que milhares de judeus corressem para as igrejas onde foram batizados, acreditando que, assim, poderiam salvar suas vidas. Da mesma forma, cem anos mais tarde, os judeus tinham que se decidir se cumpriam com o Édito de Expulsão dos reinos da Península Ibérica, ou se permaneciam, abandonando seus valores espirituais mas salvando seu patrimônio material.

Obviamente que a intenção daqueles que permaneciam não era de trair seu próprio povo, ou sua fé ancestral, deste modo, segundo estes afirmavam, escreveram uma oração na tentativa de “apagar” este mal comportamento, na qual afirmavam que todas as promessas feitas aos sacerdotes cristãos, não possuíam nenhum valor. Nesta oração, cuja esta interpretação resulta estar errada, os Anussim anulam tudo aquilo que poderiam ter declarado à Igreja ou aos sacerdotes, ou melhor ainda, anulavam uma possível vontade de viver uma vida que ia em contra os princípios do judaísmo. Esta opinião foi expressa pelo Rabino Chefe da Inglaterra, Joseph Hertz, apoiado por outros autores do início do século XX, como Abraham Idelsohn.

Contudo esta associação não está correta, uma vez que esta oração já é mencionada séculos antes dos Anussim, nos textos dos Gaonim da Babilônia que viveram, no mínimo, quatro séculos antes.
Votos sem Valor

Para entender o problema devemos nos referir ao Tratado de Nedarim, o tratado talmúdica que discorre sobre a questão dos votos e promessas.

Um voto é uma promessa na qual o próprio Criador Torna-se uma testemunha. As pessoas podem prometer comer uma fruta ou abster-se de come-la, ir a algum lugar ou não ir, fazer algo ou se recusar a fazê-lo e etc. Um exemplo deste tipo de voto pode ser visto no Livro do Gênesis, quando o patriarca Yaakov promete entregar o dízimo de seus lucros ao Criador, caso ele retornasse, sem problemas, de sua perigosa jornada no exterior. Este também pode ser utilizado como um estímulo para cumprir uma boa ação quando, por exemplo, alguém promete estudar este livro ou outra coisa.

A questão do voto é muito grave, pois, ao ter o Criador como testemunha, deixar de cumprir com este voto seria tratar o nome do Senhor em vão.

É claro que o voto deve ser cumprido a menos que, um tribunal de três sábios examinem a pessoa e suas intenções (no momento da promessa) e decidam declarar que o voto pode ser anulado. Existem alguns critérios muito específicos para decidir como, quando e por que, o voto pode ser anulado.

Surpreendentemente, o Talmud propõe uma solução incomum na página 23b.

No terceiro capítulo do Tratado de Nedarim, é apresentado alguns tipos de votos que não precisam ser anulados, uma vez que, se assume, que não foram feitas com uma verdadeira intenção de cumpri-los. Estes são chamados, também, de “voto de: ‘persuasão”, ou ’em vão”, ou ‘errado” ou ‘coagido”. Os “votos de persuasão” são aquelem que surgem, por exemplo, numa discussão entre um lojista e seu cliente, quando um diz que não vende por menos do preço X e o outro diz que não paga mais de Y. Estes, na verdade, estão pechinchando e buscando atingir um preço intermediário e portanto a promessa não é considerada. Os “votos em vão” ou “exagerados” são como, por exemplo, quando alguém diz, “ter visto um milhão de pessoas na loja”, com certeza esta não se referia a “um milhão” e sim , muitas pessoas. Os “votos errados”, quando, por exemplo, alguém esquece de algum acontecimento e diz que este não aconteceu, e depois volta a se lembrar. E os “votos coagidos”, são aqueles que a pessoa não pode cumpri-los por algum motivo inesperado ou que foram realizados sob um estado de coerção.

Anular desde Rosh Hashana

Dando um exemplo sobre o primeiro tipo de votos mencionado, a Mishná (23a) conta que, “[foi dito] em nome do Rabino Eliezer, que, quando uma pessoa quer convencer o outro a comer em sua casa (e a pessoa se recusa), esta pode dizer de antemão que ‘todos os votos que fizer, não valerão nada’, desde que ele lembre desta condição na hora de fazê-los”, e assim este será capaz de prometer, por exemplo,”lhe proibo utilizar qualquer um dos meus pertences caso você não venha almoçar comigo”, sem que este voto tenha qualquer valor, já que se trata somente de uma falsa ameaça para encorajá-lo a aceitar.

Deste ensinamento o Talmud aprende que “aquele que quer se isentar de cumprir os votos que fizer durante o o ano, pode, em Rosh Hashana, (ou qualquer outro dia do ano) dizer, “qualquer voto que fizer durante o ano, já está anulado”.

Na sequencia, o Talmud traz um debate se é necessário lembrar-se desta anulação no momento da promessa, durante todo o ano, ou exatamente o contrário, que caso a pessoa lembre desta anulação e mesmo assim faça uma promessa, é como se estivesse dizendo que esta anulação já não vale mais. Deixemos este debate de lado, apesar da sua enorme importância.

Enfim, nesta seção o Talmud já apresenta a possibilidade de que em Rosh Hashana seja feita esta declaração oficial, que já se tornou uma popular ‘oração’, na qual afirma que os votos feitos durante o ano, sejam cancelados, pela grave risco de não chegar a cumpri-los.

Esta possibilidade foi discutida nas Yeshivot (centros de estudo) babilônicos, ao concluirem a redação do Talmud, e sobre a pergunta de se seria possível fazer esta declaração pública no dia de Rosh Hashana, respondeu o Rav Natronay Gaon que ele não costumava fazê-la, mas que havia escutado que em outros países diziam. Outros autores acrescentam que o texto da oração está erradi, pois os verbos estão no passado quando, na verdade, deveriam estar declarando sobre a anulação dos votos ‘no futuro’.

Durante a Idade de Ouro dos judeus em Castela e Aragão, esta controvérsia ainda existia, ao ponto de que o Rabino Yitsjac Bar Cesat, de Barcelona, declarou que ninguém na Catalunha dizia esta oração, seja em Rosh Hashana e seja Yom Kipur e que, anos antes, Don Vidal de Perpignan, conhecido pelos judeus como o Rabino Menachem Hameiri, afirmou que não era conveniente menosprezar o valor das promessas, anulando-as de antemão.

E, inclusive, esta oração do “Kol Nidrei” já havia sido usada para acusar os judeus de não quererem manter suas promessas, e, por isso que o Rabino Yechiel de Paris (no famoso Julgamento de Paris em 1240) teve de defender o ponto de vista da Halachá, dizendo que esta reza serve apenas para anular os votos que são esquecidos durante o ano, e assim, evitar deixar de cumprir, por esquecimento, uma promessa ao Criador. Devido a esta oração, em muitas partes da Europa medieval, o modo de juramento que os judeus eram submetidos nos tribunais civis foi alterado, forçando-os a utilizar, muitas vezes, expressões degradantes.

No entanto, apesar da clara oposição de muitos grandes rabinos (o Maimônides não a menciona, assim como o Rabino Yitschak Alfasi), esta declaração transformada em “oração”, foi incluída no ritual da noite de Yom Kipur em muitas comunidades, primeiramente nas comunidades ashkenazitas (França e Alemanha) e, em seguida, nas comunidades sefaraditas. E, então, foi finalmente introduzida, como halachá, pelo Shulchan Aruch. No entanto, quase todas as autoridades rabínicas afirmam que esta declaração não possui nenhum valor haláchico (anulando as promessas) e sim, espiritual, ao expressar remorso pelas ofensas que dissemos contra o Criador.

E assim deve ser entendido que, portanto, não é considerada uma declaração de futuras intenções, como a que consta no Tratado de Nedarim, e sim uma oração, e como tal, deve seguir sendo utilizada.

Quantas vezes por dia/semana os judeus rezam?

PERGUNTA: QUANTAS VEZES POR DIA/SEMANA, OS JUDEUS REZAM?

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RESPOSTA: A lei judaica orienta todo judeu a rezar três vezes por dia: pela manhã, à tarde e ao anoitecer. Estas orações são chamadas de Shacharit, Mincha e Arvit (ou Maariv), respectivamente.

Nossos Sábios nos dizem que o costume de orar três vezes ao dia foi originalmente introduzido pelos nossa patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob. Abraham introduziu a oração da manhã, Isaac a da tarde, e Jacob, adicionou uma reza ao anoitecer.

Durante os primeiros mil anos, mais ou menos, desde o tempo de Moisés, não havia uma definição especifica de como rezar. Cada indivíduo tinha o dever de orar a D us todos os dias, mas a forma e a quantidade de rezas, era escolha de cada um.

No entanto, se estabeleceu, no periodo do Templo Sagrado em Jerusalém, os horarios das rezas de acordo com os sacrifícios. Em dias especiais, como o Shabat, o Rosh Chodesh e as Festas, foi acrescentado uma outra reza, relativa a um sacrificio adicional que era acrescentado.

Desde então, tornou-se parte da lei judaica (Halachá) que todo e cada judeu deve rezar três vezes ao dia, correspondendo aos sacrifícios diários no Templo Sagrado, adicionando a reza de Musaf, nos dias especiais de Shabat, Rosh Chodesh e as demais Festas, alem de uma reza especial de “fechamento” (Neila) do perdão divino, no dia sagrado de Yom Kipur.

Sendo assim, normalmente se rezam três rezas por dia, no Shabat, Rosh Chodesh e nas demais Festas, são quatro rezas, e somente em Yom Kipur, se rezam cinco rezas!

A Halachá dos Horários! – O que fazemos se perdemos os horários das rezas da manhã e da noite?

2257229200612211317Shacharit e Maariv

Às vezes, nos surge a oportunidade de orar antes da hora determinada pela Halachá (lei judaica) para fazê-lo, por exemplo, no verão, quando se escurece relativamente tarde, ou, quando vamos viajar e ele não temos outra escolha a não ser orar cedo para poder desfrutar a paz de espírito necessária para que a oração seja feita com a devida atenção.

Como sabemos, o horário da oração matutina, ‘Shacharit’, começa com a primeira luz da manhã e à da noite, ‘Maariv’, começa com o pôr do sol ou, de acordo com a opinião mais difundida, quando se escurece.

Na verdade, existem duas partes importantes em cada uma destas orações – a matutina e a noturna: a primeira se trata da leitura do “Shemá Israel”, e, a outra é a própria reza, a “Amidá”, que também é proferida na reza da tarde, a reza de “Minchá”. Na teoria, estas duas partes não estão relacionados uma com a outra, mas já desde a época do Talmud, ou mesmo da Mishná, estas foram colocadas juntas, por causa de uma Halachá que diz que a “Amidá” deve ser recitada imediatamente após a leitura do “Shemá”. E assim escreve o Maimônides (Leis de Oração, capítulo 7:17-18; 9:1-2 e 9:9). Porém, ainda assim, existem algumas leis que diferem entre as duas partes, especialmente, ao se tratar dos horários.

Os horários da leitura do “Shemá”, à noite, foram estabelecidos pela Mishná (Brachot 1:1) como sendo “a partir do momento em que os sacerdotes entravam para comer as oferendas”, ou seja, com o início das estrelas. (Ibid. 2b) Embora o Talmud apresente algumas outras opiniões sobre este assunto, o Maimônides (Leis de Leitura Shemá 1:9) afirma que esta opinião é a correta, e assim também afirma o Shulchan Aruch (235:1).
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