Livro sobre a jornada de uma família Bnei Anussim da Espanha para Jerusalém – e o papel da Shavei Israel

Baruch Israel lembra que sua mãe costumava cantar o Hatikva, o hino nacional israelense, todas as noites antes de ir dormir, em Elda, na Espanha, onde Baruch cresceu. Era o sonho de sua mãe, Sarah, fazer aliá algum dia, sonho este que realizou em 2015 com seu filho e a avó de Baruch. Escrevemos anteriormente sobre o emocionante Bar Mitzvá de Baruch no Kotel aqui.

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Após um atraso de 10 anos, Yonatan e Shifra Haokip se casam!

Happy-couple-252x300Já compartilhamos com vocês, aqui na Shavei Israel, a história de Yonatan Haokip, um jovem Bnei Menashe, que sozinho, traduziu todo o livro dos Salmos para o Kuki, a língua dos Bnei Menashe. Agora, temos mais novidades para compartilhar – e lê-se bem em todas os idiomas: Yonatan acaba de se casar. E esta história é digna de destaque como mais uma grande conquista alcançada por Yonatan.

Yonatan conheceu sua pretendida esposa, Shifra, em 2001, quando os dois estudaram juntos no Centro ORT de Estudos Judaicos em Mumbai, na Índia. Se apaixonaram e prometeram um ao outro que iriam esperar até que fossem capazes de fazer aliá para se casar em Israel.

Shifra foi a primeira a dar um passo em direção a este sonho, em 2007, quando fazia parte do último grupo de Bnei Menashe com permissão para imigrar a Israel, logo antes de as portas da Aliá se fecharem abruptamente. Estas portas não reabririam até o final do ano passado, quando por meio de um lobby incessante por parte da Shavei Israel, a imigração foi reiniciada e um novo grupo de 274 Bnei Menashe chegou a Israel.

Yonatan havia seguido Shifra em 2009, mas não “oficialmente”. Como a Aliá da Índia não era possível no momento, ele apenas havia recebido um visto de turista para visitar Israel e, portanto, não estava elegível para receber a assistência dada aos Bnei Menashe pelo governo. Shifra e sua família começaram a aprender hebraico e passaram por um processo de conversão formal. Yonatan, enquanto isso, estudou na Yeshiva Machon Meir em Jerusalém. Voltou para a Índia, aonde passou o ano de 2011 como um “Parceiro” da Shavei Israel para a comunidade Bnei Menashe local.

Mas quando a Aliá dos Bnei Menashe foi retomada no final de 2012, o visto de Yonatan foi finalmente atualizado para uma licença completa de Residente Temporário. Junto com seus colegas Bnei Menashe, ele se mudou para Israel, morando no Centro de Absorção Givat Haviva, patrocinado pela Shavei Israel, e terminou sua própria conversão formal ao judaísmo. Estava então – finalmente – pronto para se casar com Shifra. O amor deste casal, embora distantes em alguns momentos, tinha permanecido forte por mais de uma década.

“É raro, mas é verdade”, diz Yonatan. “Estamos apaixonados por 10 anos, o que torna o casamento especial para todos os Bnei Menashe que conhecem o nosso amor e o nosso relacionamento.”

O casamento aconteceu em Migdal HaEmek, uma das duas principais cidades israelenses do norte que receberam os novos imigrantes Bnei Menashe. Como era o primeiro casamento Bnei Menashe que acontecia por lá, Yonatan contou que foi um evento repleto de personalidades, incluindo o prefeito, o vice-prefeito, parte da gestão da cidade, bem como o coordenador da Shavei Israel para os Bnei Menashe em Israel, Tzvi Khaute. O casamento foi realizado pelo neto do falecido Rabino Chefe de Israel, Mordechai Eliyahu.

Yonatan diz que ele e Shifra convidaram quase todos os Bnei Menashe de língua Kuki que vivem em Israel para o casamento, e a julgar pelas fotos, muitos se esforçaram para vir. E por que não? Uma história de amor como esta de Yonatan e Shifra não acontece todos os dias.

Parabenizamos Yonatan e Shfira e desejamos-lhes um caloroso Mazel Tov!

Perfil Shavei Israel: Fabian Spagnoli – uma questão de identidade leva de volta para casa, para Israel

03/06/2013

Fabian-Spagnoli-203x300Fabian Spagnoli não sabe por que o homem da pequena loja na Espanha disse isso. Spagnoli tinha ido comprar um cobertor novo para sua cama. O homem na loja olhou para ele e disse direto: “Você é judeu.” Spagnoli e o lojista começaram a conversar e os dois se tornaram grandes amigos. O lojista, que era judeu, começou a ensinar Spagnoli coisas sobre judaísmo, sinagoga e oração. “A vida é um mistério”, diz Spagnoli. “É um equilíbrio entre nossas vontades pessoais e o que D’s quer. Claramente, estava escrito que este homem tinha que me dizer isso. É algo que não é lógico. Além do materialismo.”

Seja qual foi o motivo, o resultado deste “curioso” encontro tem sido uma grande mudança de vida para Spagnoli, que no início deste ano mudou-se para Israel com sua esposa e sua filha de 10 anos. Spagnoli, 50 anos, está agora explorando suas raízes como parte dos Bnei Anussim (um descendente de judeus que foram convertidos à força ao catolicismo, cerca de 500 anos atrás, e que são muitas vezes referidos pelos historiadores pelo nome depreciativo de ‘Marranos’) no Machon Miriam Instituto de Shavei Israel para Conversão e Retorno.

Spagnoli já se sentia um peixe fora d’água muito antes do incidente do cobertor. Nascido na Argentina, sua família emigrou para a América do Sul da Suíça após a Segunda Guerra Mundial. Mas o avô de Spagnoli não era de lá também, ele nasceu na Itália e seu nome – Spagnoli – significa “povo da Espanha” em italiano.

 

“Eu tinha um problema de identidade real”, Spagnoli admite. “Quando eu tinha 15 anos, eu costumava me perguntar: quem sou eu? Quem são meus ancestrais? Eu não me sentia totalmente argentino já que costumava viajar a cada verão para a Suíça para visitar meus parentes que ainda estavam lá. ”

Para tornar as coisas ainda mais complicadas, o pai de Spagnoli, embora não descrevendo-se um judeu, revelou uma história da família: a razão pela qual os Spagnolis – “pessoas da Espanha” – estavam na Itália, era em primeiro lugar porque eles eram judeus que haviam fugido da Inquisição. O jovem Spagnoli ficou completamente confuso!

Após o colegial, Spagnoli viajou pela Europa à procura de um lugar de conexão, mas acabou por regressar à Argentina para estudar Direito. Foi lá que ele conheceu sua esposa. Em 2001, porém, a crise econômica na Argentina enviou os Spagnolis para sua própria diáspora pessoal. “Minha esposa estava grávida e perdi meu emprego. A empresa fechou.”, diz ele. Decidiram, então, se estabelecer na Itália, na pequena cidade de Perugia, cidade natal de seu avô. Abriram uma hospedaria com cama e café-da-manhã e assim Spagnoli se sentiu finalmente à vontade. Mas não era para durar!

As palavras de seu pai e do lojista espanhol continuam a reverberar. Ele sabia que era judeu. “Na Itália, todos os escritórios públicos e escolas tem uma cruz”, diz ele. “Eu não queria viver em uma cultura católica. O fogo dentro de mim ainda estava queimando.”

Ainda na Itália, Spagnoli conheceu a Shavei Israel através da Internet. Ele começou a participar de seminários para Bnei Anussim (ele viajaria até a Espanha, uma vez que a Shavei ainda não tinha começado o seu trabalho no sul da Itália).

Sua convicção era cada vez mais forte. Sua jornada o levou a se casar com uma mulher judia. E o seu passado não era de Bnei Anussim ou oculto como o dele: ela cresceu em uma área judaica de Buenos Aires e seu pai, um imigrante da Ucrânia, era membro completo da comunidade judaica de lá. Como resultado, os Spagnolis eram legalmente elegíveis para fazer aliá sob a Lei do Retorno do Estado de Israel.

“Essa é a magia da vida”, diz Spagnoli. “Primeiro, eu estou em um seminário para Bnei Anussim em Barcelona, e agora estamos aqui em Israel. Há uma parte da vida que nós mesmos podemos gerenciar e outra parte que está além de nós. Pode chamar de destino … Eu não gostava desta palavra. Mas, agora, estando aqui, acho que poderia ser isso. ”

A esposa e a filha de Spagnoli já estão em Israel há três anos, mas Spagnoli ficou na Itália para cuidar de seu pai doente, que também se mudou para a cidade de sua família. Quando o pai de Spagnoli faleceu no ano passado, seu filho finalmente foi capaz de fazer aliá.

Spagnoli agora participa das novas aulas de língua italiana no Machon Miriam em Jerusalém ministradas pelo mais novo emissário da Shavei Israel, o rabino Pinchas Punturello. E já encontrou trabalho em uma operadora de viagens que se aproveita de sua proficiência em espanhol e italiano para o trabalho. (A esposa de Spagnoli também trabalha lá).

“Foi um desafio contar aos amigos na Itália que eu estava vindo para cá”, ele confessa. “Eles disseram -, há uma série de problemas em Israel”. Spagnoli aproveita esta falta de conhecimento sobre o Oriente Médio para “explicar às pessoas como aqui realmente é” e por vezes faz a função de comentarista em Israel em vários programas de rádio transmitidos na Argentina. Seu sonho é ainda maior. “Eu gostaria de ajudar a abrir um canal de notícias 24 horas, como a CNN, saindo de Israel”, diz ele.

Neste meio tempo, ele diz estar muito satisfeito com a decisão que tomou de vir para cá. E ele está particularmente satisfeito que sua filha está crescendo em um ambiente israelense ao invés de “uma cultura não-judaica na Europa.” Em última análise, ele acrescenta, “não há nenhum outro lugar para ir”.

Ainda assim, Spagnoli não tem ilusões. “Agora que estamos em Israel, a parte romântica da história, o flerte e o namoro, acabaram. Eu vou trabalhar e tomo o ônibus como qualquer outro cidadão israelense”. “Nem sempre é fácil. Mas é sempre fascinante.”

“Todo mundo aqui tem uma história, um livro sobre eles”, diz Spagnoli. “Eu gosto disso. Porque eu tenho o meu livro, também.”

 

“Ainda não está perdido” – o perfil de Michael Freund no jornal israelense Ma’ariv

13/06/2013Michael-at-home-Maariv

Em algum lugar, nos países e cidades que parecem nunca terem recebido qualquer estrangeiro, existe uma rica e dinâmica vida comunitária que gira em torno de antigos costumes judaicos, e às vezes até mesmo para os próprios residentes a origem deste folclore tradicional não é bastante clara . Em uma época em que declarar seu judaísmo não parece ser a opção mais segura, a organização Shavei Israel atua em diversas áreas remotas com as comunidades mais distantes, e os auxilia na luta pela sua identidade, suas tradições e sua religião.

Descendentes de Anussim (conversos) de Espanha, Portugal e América Latina; os Bnei Menashe da Índia; os judeus escondidos da Polônia; os Subbotniks da Rússia e mesmo as comunidades judaicas de China, Peru e Itália – a organização tem mantido conexões com todos estes em um esforço em manter a centelha judaica viva. “Somos um pequeno povo de um país pequeno, não temos muitos amigos no mundo”, diz Michael Freund, fundador da organização que transformou a sua visão na missão de sua vida. “Mas, por outro lado, existem essas comunidades que faziam parte de nós, e, se incentivarmos e fortalecermos estas conexões, apenas nos beneficiaríamos.”

 

A jornada de Freund com estas comunidades perdidas começou em 1996, quando imigrou para Israel de Nova York e encontrou trabalho no escritório de diplomacia pública do primeiro governo de Netanyahu. Freund foi o vice-diretor, e lidava, principalmente, com a comunicação com jornalistas estrangeiros. O trabalho deste novo imigrante estava calmo, até que lhe chegou uma carta que mudou seu mundo.

“Lembro-me deste envelope até hoje, feito de papel enrugado, laranja”, lembra Freund. “Era da comunidade dos Bnei Menashe, no nordeste da Índia, dirigida ao primeiro-ministro, em que eles pediam para voltar para a terra de seus pais, a Terra de Israel. Minha primeira resposta foi que isso parecia completamente absurdo – como poderiam os membros de uma tribo em uma área remota na fronteira com a Birmânia, Índia, serem nossos irmãos? – Mas algo na carta tocou meu coração, e eu lhes respondi.”

“Então me encontrei com eles. Vi que são muito sérios em seu desejo de se juntar ao povo judeu e viver uma vida de Torá e mitzvot, e eu disse para mim mesmo – se alguém é louco o suficiente para querer se juntar a nós, e fazem isso com honestidade e um desejo real, por que mandá-los embora? Eu aprendi suas tradições e costumes, até que me convenci de que estes eram realmente descendentes das tribos perdidas, e que são nossos irmãos”.

Freund conseguiu 100 vistos para eles virem a Israel, se converterem e receberem o status de novos imigrantes. Hoje, 17 anos após a primeira parada de sua jornada, Freund conseguiu reunir dezenas de comunidades que afirmam pertencer ao judaísmo mas, que perderam suas tradições ao longo dos anos.

Hoje, a Shavei Israel é a única organização judaica que atinge os “judeus perdidos” nas extremidades da terra, a fim de ajudá-los a voltar ao judaísmo. “Nós não somos apenas uma equipe de pesquisadores”, os membros da organização esclarecem “abordamos cada caso em um nível humano, oferecendo ajuda, apoio e compreensão em suas buscas sobre suas raízes judaicas, sua história judaica e a possibilidade de voltar a nação de Israel”. Freund e sua equipe estão ativos em 10 países, com uma grande variedade de comunidades especiais. Os Bnei Menashe na Índia são a maior delas, com cerca de 2.000 que já emigraram para Israel. No próximo ano, espera-se uma imigração adicional de 7.000.

“Após 2700 anos de peregrinação, eles estão voltando para casa. É o fechamento do círculo da história”, acrescenta Freund.

Os descendentes das 10 tribos

Os Bnei Menashe não são os únicos. Os descendentes dos conversos forçados de Espanha, Portugal e do sul da Itália estão lentamente voltando ao seu passado judaico que seus ancestrais tentaram esconder do terror da Inquisição. Em 1391, pogroms anti-judaicos varreram a Espanha. Milhares de pessoas foram mortas e milhares de outras foram forçadas a se converter ao cristianismo. As perseguições não pararam pelos próximos cem anos e, atingiram seu pico com a expulsão dos judeus da Espanha em 1492. Somente a Sicília, que era, então, parte do reino espanhol, tinha mais de 50 comunidades com milhares de judeus. Freund: “Nos últimos anos, mais e mais conversos estão “saindo do armário” e tentando voltar às suas raízes e ao seu povo.”

Nesta busca por diferentes judeus, tornou-se claro que algumas tribos indígenas, étnicas e grupos folclóricos em todos os continentes, foram identificados como possíveis descendentes das 10 tribos. Mas nem toda comunidade que tem costumes judaicos está necessariamente relacionada ao judaísmo. “Alguns anos atrás, fui abordado por um grupo de nativos americanos do Tennessee, que se autodeclararam descendentes das 10 tribos. Eu pedi para ver provas, o que praticavam, o que tinham, como sabiam, e eles me enviaram provas infundadas – era mais um desejo. Eu respeito o direito de cada pessoa de se auto-identificar com o que querem, mas isso não significa que temos que concordar com eles “, Freund diz. “Em certos casos, são pessoas que apenas querem uma passagem para um novo mundo. Tentamos ter muito cuidado para trabalhar apenas com casos de que estamos bem convencidos.”.

Libertação do comunismo

Os nativos americanos não foram tão bem sucedidos, mas na China, nos últimos anos, uma comunidade judaica real foi descoberta. Nos séculos VIII e IX, os comerciantes judeus chegaram na China através da ‘Rota da Seda’ entre a Pérsia e o Iraque, e lá se instalaram, com a bênção do rei. Segundo a lenda, eles não podiam dizer seus nomes judaicos e, assim, Levy, por exemplo, se tornou Li.

A comunidade cresceu, construindo uma sinagoga em 1163, chegando a uma população de 4.000 – 5.000 judeus durante a Idade Média, com instituições locais. Até os dias de hoje, na cidade de Kaifeng, existem cerca de 1.000 pessoas que parecem chineses, mas são identificados como os descendentes da comunidade judaica, inclusive com árvores genealógicas para provar isso.

A Shavei Israel diz que o comunismo chinês não conseguiu, nos últimos 70 anos, apagar completamente a memória desta tradição. “Há ainda jovens desta comunidade que se lembram de um avô que não trabalhava no sábado ou que mantinha certos costumes”, diz Freund.

Nos últimos anos, a China se abriu para o mundo e para a Internet, e a nova geração descobriu novas fontes de informação que anteriormente não tinham acesso. Freund: “Tudo o que esta geração sabe é que eles são descendentes do povo judeu. Recentemente, após terem sido expostos à mais informações, começaram a se reunir uma vez por semana, a fim de celebrar o Shabat e estudar juntos. Nos últimos anos, trouxemos dois pequenos grupos de 12 pessoas a Israel, e todos foram convertidos.”.

Vingança por anos de exílio

Não entenda errado: Estas mesmas comunidades judaicas ou talvez-judaicas, mundo afora, não estão somente esperando “para serem descobertas” e voltar a Israel. Muitos dos conversos de Espanha e Portugal, por exemplo, não estão interessados na religião, mas estão conscientes de sua conexão com o povo judeu. Mesmo assim, a Shavei Israel ainda acredita que reforçar a ligação com estas comunidades pode ser útil para a diplomacia pública, para a luta contra o anti-semitismo e, para o turismo.

Freund promete não abandonar a obra de sua vida: “Devemos fechar o círculo da história. Pode ser a melhor vingança por tudo o que nos foi feito no decorrer do Exílio – trazer o povo judeu de volta para casa!”

 

Este artigo foi publicado originalmente no site do Ma’ariv em Inglês, como parte da série “Os 100 Judeus Mais Influentes no Mundo.”

 

O mais novo emissário da Shavei Israel para os Bnei Anussim Italianos compartilha a história de sua própria jornada ao judaísmo e à Israel

Rabbi-Pinchas-sm-221x300Quando o avô do Rabino Pinchas (Pierpaolo) Punturello morreu em Nápoles, Itália, seu pai, de família católica, cobriu todos os espelhos da casa aonde os visitantes vinham prestar suas homenagens. O Rabino Punturello era muito jovem na época e não prestou muita atenção a este fato. Mas tal ato – um costume de luto especificamente judeu – foi o primeiro indício sutil de que poderiam possuir raízes judaicas escondidas na família.

Anos mais tarde, porém, o rabino Punturello começou a encontrar evidências judaicas em todos os lugares. Pesquisando mais a fundo o lado do seu pai, ele descobriu que o nome de família da mãe de seu pai, “Mussumechi”, remonta há mais de 500 anos, aos tempos da Inquisição no sul da Itália, listado como judeu em livros de registro da Inquisição. O nome, na verdade, deriva do hebraico Mish-mish para “damasco”.

Além disso, grande parte da família havia deixado a Itália e agora estava morando em Nova York, onde o rabino Punturello descobriu que cerca de 25 por cento deles eram casados com judeus. Quando ele perguntou ao seus primos que moravam lá o por quê disso, estes apenas podiam apontar para a semelhança na importância que a “família” tinha para ambos os povos, italianos e judeus. Mas o rabino Punturello sabia que tinha algo mais.

E assim começou a notável jornada de um jovem que acabaria se convertendo formalmente ao judaísmo, se mudaria para Jerusalém para estudar e se tornar um rabino, e agora, volta para o sul da Itália para servir como rabino e emissário em prol de outros Bnei Anussim – judeus cujos antepassados foram convertidos à força ao catolicismo nos séculos 15 e 16 e que alguns historiadores referem-se a este pelo termo depreciativo ‘Marranos’ – de sua terra natal.

Entretanto, não foi o lado de seu pai que lhe deu o empurrão final em seu despertar judaico. A mãe do Rabino Punturello também tinha raízes judaicas – e estas não eram tão escondidas. Sua mãe sabia sobre seu passado, mas raramente falava disso abertamente em casa. Mas quando o rabino Punturello visitou em sua adolescência o cemitério judaico em Nápoles, ele ficou chocado ao descobrir que estava cheio de lápides com o nome “Russo” – nome de sua mãe antes de se casar.

Convencido, então, de sua herança, o rabino Punturello retornou formalmente ao judaísmo quando tinha 18 anos. Estudou com o Rabino Giuseppe Laras, presidente da Assembleia de Rabinos Italianos e chefe do Tribunal Rabínico do norte da Itália. Ele também recebeu seu bacharelado e mestrado em História e Ciências Políticas em um programa conjunto das universidades “L’Orientale” de Nápoles e Paris. E foi, posteriormente, nomeado para servir como “Rabino” de Nápoles. Mas não tinha realmente recebido a Smicha – “ordenação rabínica”.

“Há uma tradição na Itália,” o Rabino Punturello explica, “de que a smicha é dividida em duas partes: o Maskil (ou educador) e o Chacham (o “sábio”).” Pode-se ser Maskil – um primeiro nível “rabínico” – na Itália, enquanto ainda estuda para se tornar um Chacham, que foi o que ele fez. De 2004-2010, foi o “rabino chefe” de Nápoles, uma cidade com cerca de 250 judeus. “É a última comunidade judaica ‘oficial’ do sul da Itália”, acrescenta. “Assim todos os judeus da Sicília pertencem a esta comunidade”.

Quando chegou o momento de avançar para a segunda parte de seu título rabínico, o rabino Laras então enviou o Rabino Punturello, com 35 anos, casado e com quatro filhos pequenos, a Jerusalém para estudar no prestigiado “Beit Midrash Sefaradi” na Cidade Velha e depois a Yeshivat HaMivtar sob os auspícios do Rabino Shlomo Riskin, uma das principais vozes do mundo da Ortodoxia Moderna. O rabino Laras também colocou o jovem Punturello em contato com o diretor educacional da Shavei Israel, o Rabino Eliyahu Birnbaum, que também dirige um programa para treinar rabinos para o serviço no exterior. Foi um encaixe perfeito. Dois anos mais tarde, o rabino Punturello tinha plena Smicha “internacional”.

Mas durante estes dois anos em Israel, algo mudou. Depois de passar quase toda a sua vida na Itália, comprometido com as comunidades judaicas de lá, o rabino Punturello descobriu que ele tinha se apaixonado por Israel. E que queria construir sua casa na Terra Santa.

Como, tão frequentemente acontece, descobrir e seguir uma paixão pode levar a oportunidades inesperadas. A Shavei Israel e a União das Comunidades Judaicas Italianas (UCEI), a organização oficial da comunidade judaica italiana, estavam ansiosos para colocar o enérgico e simpático Punturello para trabalhar e uma posição foi criada que, se encaixava perfeitamente com o jovem rabino como uma Kipá de crochê (cobertura na cabeça ou solidéu).

O plano era que, ele continuaria vivendo em Israel, aonde seus filhos já frequentavam a escola e estavam a caminho de se tornar israelenses completos, enquanto viajaria para a Itália de 10 dias a duas semanas por mês, para trabalhar com os Bnei Anussim – a própria comunidade do Rabino Punturello que conhecia bem. Ele é o primeiro rabino nomeado para trabalhar especificamente com os Bnei Anussim do sul da Itália e da Sicília.

Durante suas duas semanas em Israel, ele ensina judaísmo em um novo programa em italiano para Bnei Anussim criado pelo Instituto de Conversão e Retorno Machon Miriam em Jerusalém da Shavei Israel, e oferece, também, aulas on-line através da parceria da Shavei Israel com a WebYeshiva.

O trabalho começou em março e o Rabi Punturello já foi para a Itália várias vezes. Ele tem alguns planos ambiciosos. A prioridade em sua lista é organizar um Shabaton – um seminário de fim de semana para os Bnei Anussim do sul da Itália – duas vezes por mês. Estes ‘Shabatonim’ irão se deslocar para as pequenas comunidades aonde os Bnei Anussim vivem, muitas vezes em locais muito isolados e com nomes que soam exóticos: Puglia, Palermo, Campania, Calabria.

A variedade de Bnei Anussim que o Rabbi Punturello já conheceu é inspiradora. “Há pessoas que possuem famílias, solteiros querendo começar as suas, pessoas que começaram a estudar 5, 10 anos atrás, pessoas que não sabem nada”, explica ele. “A idéia é fazer parte de cada família que vive lá, de qualquer ponto de vista cultural judaico que estão vindo”.

A principal comunidade judaica italiana nem sempre foi acolhedora com os Bnei Anussim, na verdade, estes muitas vezes os olhavam com desconfiança. É por isso que o mais recente Shabbaton que o Rabino Punturello participou foi tão notável – era um seminário para toda a comunidade judaica italiana, organizado pela UCEI, com a participação de cerca de 400 pessoas. Mas este ano, pela primeira vez, os Bnei Anussim foram convidados a participar também.

Quantos Bnei Anussim existem no sul da Itália e na Sicília, hoje? O Rabino Punturello diz que é muito cedo para dizer. “Recebo e-mails todos os dias de novas pessoas”, diz ele. Na Calábria, há cerca de 100 pessoas que já iniciaram o processo de conversão. Outros 60 Bnei Anussim estão estudando em Palermo. O Rabino Birnbaum da Shavei Israel acrescenta que “com certeza estamos falando de milhares de pessoas”.

O Sul da Itália deve muito de sua história judaica a expulsão dos judeus da Espanha em 1492, quando muitos dos que fugiram buscaram refúgio na região. Muitos destes, judeus proeminentes como Don Isaac Abarbanel, o grande estudioso da Torá e comentarista bíblico, que também serviu como ministro das Finanças para o rei espanhol Fernando, junto com sua família. Mas quando os monarcas espanhóis capturaram a região em 1510, uma série de novas perseguições começou na Itália, que incluiu conversões forçadas e expulsões.

A Inquisição ficou ativa na região por séculos e queimou marranos e conversos até 1700 e, possivelmente até mais tarde. Mas os Bnei Anussim da área agarraram-se a sua identidade judaica, passando seuas tradições de uma geração para a seguinte e, hoje, seus descendentes estão começando a voltar.

O Rabino Punturello tem uma agenda dupla para as comunidades com as quais ele é responsável. “Por um lado, vou ensiná-los a trabalhar com a sua identidade judaica”, explica ele. “Mas, por outro lado, quero ajudá-los a construir comunidades auto-sustentáveis. Não quero ser o único professor ou o único Chazan (cantor) lá. O objetivo é fazer com que as comunidades judaicas se tornem independentes em todo o sul da Itália”.

As mídias sociais irão, é claro, desempenhar um importante papel. A Shavei Israel criou um novo site, um newsletter e a página do Facebook em italiano que o próprio Rabino Punturello está gerenciando. “O número de ‘curtidas’ na nossa página do Facebook deu um salto de 50 por cento em apenas dois dias depois de termos anunciado isto”, diz ele. Como observamos anteriormente, o rabino Punturello também fornece aulas “virtuais” através do site da WebYeshiva. Alguns dos mais jovens Bnei Anussim mostraram interesse em fazer Alyah para Israel, iniciativa que o rabino Punturello estará apoiando.

Ele vai ter alguma ajuda. No papel de organização patrocinadora, a UCEI planeja enviar rabinos de Roma para ensinar e liderar orações durante alguns dos ‘Shabbatonim’. “Mas eu sou o rabino responsável por todo o projeto da Shavei Israel”, diz o rabino Punturello. Sua formação ampla, incluindo os estudos não-judaicos acadêmicos, as muitas línguas (ele fala italiano, hebraico, Inglês, Francês e Espanhol), e seu trabalho ocasional como jornalista na imprensa italiana, o torna particularmente apropriado.

“Voltar para casa depois de 500 anos não é fácil, mas é maravilhoso”, diz ele com orgulho. Ele terá bastante trabalho pela frente. Mas com certeza é um trabalho que, literalmente, nasceu para cumprir.