Parasha Ki Tetze

E eliminarás o mal do meio de ti – retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe.

Na Torá, este termo aparece 11 vezes, todas no livro de Deuteronómio.

  1. A primeira vez é com o filho rebelde 
  2. Depois com uma mulher que se prostitui estando comprometida e quando ainda vive na casa do seu pai
  3. A terceira vez é o caso de um homem que comete adultério com uma mulher casada
  4. A quarta, quando uma mulher comprometida se deixa violar e não faz nada para o impedir.
  5. A quinta é quando sequestram alguém e o vendem como escravo.
  6. Na parashá Ree aparece este termo quando se refere a um falso profeta
  7. Na parashá Shoftim é utilizada esta palavra para se referir a um idolatra
  8. Outra quando desobedece ao máximo tribunal de justiça
  9. Também sobre aquele que mata e vai buscar resguardo numa cidade de refugio
  10. É utilizado novamente quando as testemunhas conspiram para inventar uma acusação falsa contra outro indivíduo 
  11. Por último quando se encontra o cadáver de alguém no caminho e não se sabe quem o matou

Todos os casos que a Torá define como mal têm a ver com idolatria, transgressões sexuais graves, adultério e assassinato. 

O resto dos casos:

Aquele que não ouve os pais

Aquele que não ouve os sábios

Aquele que se revolta contra o tribunal de justiça

Falso testemunho 

O sequestrador 

Na realidade podemos notar que cada um destes casos está relacionado com os Dez Mandamentos.

É por isso que a Torá faz tanto finca-pé em eliminar este mal; pois vai contra as coisas pelas quais estabelecemos um pacto com De’s.

Assim, vemos que o assassinato, o adultério e o roubo/ sequestro estão literalmente proibidos nos Dez Mandamentos. Também a idolatria, o filho rebelde que não respeita os pais e os falsos testemunhos.

Este é o motivo pelo qual a Torá insiste tanto nestes temas e exige que sejam extirpados do acampamento.

O que vem fortalecer ainda mais esta ideia é o facto de, em Deut. 12:11 dizer: Por quanto ele te afasta do Eterno teu De’s, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão. Porque se alonga tanto este versículo? Teria sido suficiente dizer apenas: Por quanto ele te afasta do Eterno. Vemos que se alonga de propósito, utilizando as mesmas palavras usadas no primeiro e segundo mandamentos: Eu Sou o Eterno teu De’s, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão.

De acordo com a concepção da Torá, o mal não é só aquilo que perjudica a sociedade, mas sim também aquelas coisas que não prejudicam os outros, mas que a Torá considera igualmente graves, como por exemplo relações sexuais proibidas tidas de mútuo acordo.

Porquê no livro de Deuteronómio aparecem todas estas coisas?

Porque é o livro que mais nos fala e sublinha o pacto com De’s, e aquilo que mais representa este pacto são os Dez Mandamentos; é por isso que aqui se alonga e nos faz notar a gravidade destes temas.

Parashat Shoftim

Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Analisemos o episódio em que Israel vai pedir para ter um rei. Para isso, devemos ler no livro de Samuel 1, capítulo 8, versículos 4 a 7: E ocorreu que se reuniram todos os anciãos de Israel e vieram a Samuel em Ramá e disseram-lhe: — Eis que tu envelheceste e os teus filhos não andam nos teus caminhos. Portanto, põe sobre nós um rei que nos julgue, como os demais povos. — E foi mau aos olhos de Samuel quando disseram: «Dá-nos um rei que nos julgue.» E implorou Samuel a De’s, e disse o Eterno a Samuel: Faz tudo o que o povo te pediu, pois não é a ti que desprezaram, mas sim a Mim que desprezaram para Eu reinar sobre eles.

Em primeiro lugar, devemos saber que um rei é algo louvável. Vemos isto quando De’s abençoa Abraão e Jacob e diz-lhes que deles sairão reis. Portanto, se De’s lhes assegura que sairão reis de entre os seus filhos quando lhes promete uma grande descendência, então isto é sinal de que se trata de algo bom.

Em segundo lugar, se colocar um rei é um preceito da Torá, então tem que ser algo bom; a Torá não pode ordenar que façam algo mau.

Então porque Samuel se zanga tanto? Porque é mau a seus olhos que o povo peça um rei? Ao fim e ao cabo, estão a fazer o que a Torá disse…

Pedir um rei quando não há um (um líder), isso é algo bom e positivo, mas pedir um rei quando já existe alguém que cobre essas funções (neste caso Samuel), isso é algo mau. Esta é a razão pela qual Samuel se zanga.

É por isso que De’s diz a Samuel que não se zangue, pois não é a ele que desprezaram, mas sim a De’s, que reinava sobre eles através do seu profeta Samuel (como acontecia com Moisés)

Aparentemente, o texto que aparece em Samuel é quase literalmente igual ao da Torá. Eles estão a pedir tal e qual como a Torá disse: Quando tiveres chegado à terra que o Senhor vos dá, e a tiverdes em possessão, e habitardes nela e disserdes: «Porei para mim um rei como todas as nações que estão ao meu redor», pôr, porás, sobre ti por rei, aquele que o Senhor teu De’s escolher.

Aparentemente, isto é exatamente o que o povo pediu a Samuel: Eis que tu envelheceste e os teus filhos não andam nos teus caminhos. Por isso, põe sobre nós um rei que nos julgue como os demais povos.

Se nos detivermos a analisar, veremos que há uma palavra a mais, que é o que faz mudar radicalmente a intenção que o povo tem ao pedir um rei. Quando vão falar com Samuel, apesar de pedirem ter um rei e de utilizarem as mesmas palavras mencionadas na Torá, desta vez acrescentam uma palavra: Para que nos julgue como as demais nações. E se prestarmos atenção, veremos que o versículo diz que o que incomodou Samuel foi: E foi mau aos olhos de Samuel quando disseram: «Dá-nos um rei que nos julgue

O povo queria um tipo de governo laico, que os julgasse de acordo com um sistema de leis criado pelo seu rei, como o resto dos povos, e não de acordo com as leis da Torá.

Quer dizer, eles queriam ser como os demais povos. O motivo pelo qual eles pedem um rei não é porque faltava um líder que fizesse justiça e ordem no povo, pois já tinham alguém que cumpria essa função. O motivo deles era ter um sistema governamental como os demais povos. Não gostam do sistema da Torá; eles preferem trocar o reinado e estatutos de De’s pelo reinado e ordens de um ser humano.

Ao desprezar as leis da Torá, estão a desprezar a De’s, e é isso que De’s diz a Samuel. Não foi a liderança de Samuel que eles repudiaram, mas sim os estatutos de De’s.

De’s aceita que eles coloquem um rei, pois, como vimos na Torá, é um preceito, mas o que não tolerará nem permitirá é que esse rei os guie segundo regras e leis diferentes da Torá.

O motivo pelo qual não se tinha designado um rei até àquele momento é porque, durante todo o tempo dos profetas ou dos juizes, eles exerciam esse cargo e portanto não tinha cabimento pedir um rei. No momento em que não houvesse um juiz ou um profeta, então aí o povo deveria pedir um rei que os conduzisse, sempre pelos caminhos que De’s lhes designou. 

Parashat Ekev

Ser ou Ter – Retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

  • O que é a Tefilá (Oração)?
  • É a expressão dos meus sentimentos para com De’s?
  • Então porque tem horários e textos fixos? Deveria ser completamente espontânea, quando eu precisasse e com as minhas próprias palavras.

Para entender a essência da Tefilá, devemos saber que, para o judaísmo, a fé não é um sentimento espontâneo, nem uma questão de acreditar ou não acreditar.

A fé é a força, a disciplina e o caminho para descobrir De’s. Uma arte que cada um deve desenvolver segundo o seu potencial espiritual.

A Tefilá é o instrumento da fé que nos desperta da rotina e nos faz ver a manifestação Divina nas coisas naturais.

A natureza é um conjunto de milagres, de manifestações de De’s que sucedem periodicamente.

Por acaso a aurora e o crepúsculo deixam de ser um milagre só porque se repetem diariamente?

O judeu entende que não, e todos os dias, de manhã e à noite, abençoa e reconhece a intervenção divina no nascer e no pôr do sol, observando nestes fenómenos naturais a perfeita harmonia que Ele impõe no Seu universo.

A prática constante destes exercícios capacita o judeu para descobrir De’s nas coisas de todos os dias.

Certa vez, o neto de Rabi Baruch estava a brincar às escondidas com outro menino. Escondeu-se e permaneceu no seu esconderijo durante um longo tempo, acreditando que o seu amigo procuraria por ele.

Por fim saiu e comprovou que o seu amigo se tinha ido embora sem ter procurado por ele, de modo que se tinha escondido em vão. Então correu para o escritório do seu avô e, entre lágrimas, queixou-se do seu amigo.

Depois de ouvir a história, Rabi Baruch rompeu em pranto e disse: – Também De’s diz Eu oculto-Me, e não há quem Me procure.

De’s esconde-se à espera que O descubramos, que O admitamos na nossa vida.

E quando percebemos que Ele se oculta, já O começamos a descobrir.

Mas para isso precisamos de poder dispor de tempo diariamente para poder meditar neste assunto. Infelizmente, a rotina louca na qual vivemos não nos deixa tempo para o que é verdadeiramente importante. O nosso trabalho ou a necessidade de sustento às vezes impede-nos de nos podermos dedicar àquilo que é mais importante.

Ser ou ter. O grande dilema. Dedico-me ao meu enriquecimento interior ou ao meu enriquecimento material? Somos valorizados pelo que somos ou pelo que temos?

Uma vez, um famoso rabino que vivia muito modestamente recebeu na sua casa a visita de uma das pessoas mais ricas da Europa, que se encontrava de passagem por essa cidade. O rabino era um erudito de renome, e a sua sabedoria era tão conhecida, que o milionário não quis deixar de aproveitar a oportunidade de o conhecer. Ao entrar na casa do rabino, ficou muito surpreendido ao ver que se tratava de apenas um cómodo, bastante escuro e com poucos móveis. Depois de conversar com o rabino e de se deleitar com a sua sabedoria, não pôde deixar de lhe perguntar: –  Rabino, o senhor é um dos maiores eruditos da nossa época. Porque vive de uma maneira tão precária? Porque não se muda para uma casa melhor, mais bonita, mas de acordo com aquilo que o senhor merece? – O rabino preferiu evitar responder naquele momento, mas prometeu responder no próximo encontro, que seria no quarto de hotel onde o rico visitante estava a hospedado.

Passados poucos dias, o ilustre rabino apresenta-se no hotel, e o rico convida-o a entrar no seu quarto. Aquele quarto, como todos os daquela época e naquela pequena cidade, era um quarto pequeno, com uma cama e um armário, sem casa de banho privativa. O rabino franziu o sobrolho e, espantado, perguntou ao milionário: – Diga-me, bom homem, como uma pessoa como o senhor pode viver num lugar tão precário como este? O senhor fala de mim, mas eu, para além da cama e do armário, tenho mesa e cadeiras, e para além disso, tenho casa de banho privativa… – A resposta daquele homem tão importante não se fez esperar:

– Rabino, acho estranha a sua pergunta. O senhor bem sabe que eu me encontro de passagem por este lugar. Não me incomoda hospedar-me num quarto assim durante a minha curta estadia por aqui. – O rabino sorriu e respondeu:

– Eu sabia que uma pessoa inteligente como o senhor iria estar de acordo comigo. Eu penso exatamente como o senhor, e é por isso que vivo onde vivo. Eu também estou de passagem por este mundo, que é apenas um corredor para o mundo verdadeiro. É por isso que não quero dedicar todas as minhas forças e o meu dinheiro a um lugar onde estou de passagem.

Depois de um tempo, o rabino encontrava-se de visita à cidade onde vivia aquele abastado homem, que, com muito gosto, o convidou a conhecer a sua casa. Ao entrar no magnífico palácio, o rabino deteve-se a observar as grandes obras de arte e os maravilhosos detalhes decorativos tão valiosos, mas, de repente, voltou-se para o seu anfitrião e ficou a olhar atentamente para ele, como se nada existisse ao seu redor. O milionário olhou para ele e disse: – Que se passa, Rabino? Viu algo de que não gostou? Então o senhor não me ensinou que tudo isto não é importante, e que estamos de passagem pela vida? – O rabino respondeu:

– Continuo a pensar o mesmo. Não mudei o meu ponto de vista. Só que, ao entrar na sua mansão, eram tantas as coisas belas para observar, que deixei de lhe prestar atenção a si, ao que o senhor é, e dediquei-me a prestar atenção ao que o senhor tem. Quando reparei nisso, pensei que deve ser muito triste convidar alguém, e o convidado, em vez de prestar atenção ao seu anfitrião, se dedicar àquilo que este tem. Por isso interrompi essa postura tonta e dediquei-me ao senhor, como se nada mais existisse. Mas quando as pessoas vêm visitar-me à minha humilde casa, não tenho dúvidas de que o fazem porque é a mim que valorizam. Na minha casa não há nada para ver, mas quando vêm visitar o senhor no seu palácio, é realmente a si que querem visitar? É a si que desejam ver? Ou às suas posses?

O ser humano não transcende na vida pelo cargo ao qual chegou na sua passagem pelo mundo. O Homem não se realiza como tal por acumular mais riquezas ou nobreza. Devemos dedicar tempo e esforço ao nosso enriquecimento inteletual, ao nosso crescimento espiritual, pois é isso o que verdadeiramente perdura.

Assim como o corpinho de um bebé é pequeno e precisa de cuidados e de alimentação, a alma, ao vir ao mundo, também é pequena e precisa de cuidados e alimento. O bebé é alimentado com leite, depois purés de legumes e depois carnes, mas a alma não se alimenta de sanduíches nem de batatas fritas. Se não alimentarmos o bebé, ele não crescerá, ficará doente e morrerá. Do mesmo modo, se não alimentarmos a alma, ela não cresce, não se desenvolve, fica doente e morre.

Como alimentamos a alma? A alma alimenta-se das mitzvot (preceitos). Ao cumprirmo-las, não só a alimentamos e a fazemos crescer, como conseguimos transcender na vida. A alma é o que fica quando o corpo se vai.

Para expressar isto numa fórmula matemática poderíamos afirmar: Alma = Eu – O meu corpo.

Mas se nunca nos dedicarmos ao cuidado ou nutrição da nossa alma, então, muito antes do corpo morrer, a alma que estava dentro dele já terá morrido. A alma não é um ser que vive incondicionalmente. A alma também morre, desaparece. Por isso devemos cuidá-la, dedicar-lhe tempo. Não é necessário que seja todo o tempo das nossas vidas, mas pelo menos que seja um pouco…

É melhor viver de um modo mais simples do ponto de vista material, reduzindo um pouco mais os luxos, para poder dedicar mais tempo à parte espiritual. Por tanto, tenhamos um momento diariamente para a nossa alma, preocupemo-nos por crescer todos os dias, assistindo a algum curso de judaísmo, meia hora por dia. Diminuamos um pouco a nossa dedicação àquilo que é material e enchamos a nossa alma de conteúdo, tal como diz o ditado «Não há pobre mais pobre do que o pobre em sabedoria e conhecimento».

Parashat Vaetchanán

Objetivo do discurso de Moisés – Retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Esta parashá fala de muitos temas e é difícil estabelecer a relação entre eles. Qual é o fio condutor?

1º Parágrafo:

Servir a De’s. Não fazer figuras ou imagens de De’s. Não se trata de acreditar noutros deuses; refere-se a não dar formas ou imagens físicas a De’s, mesmo que o façam sem maldade e apenas por engano. Por isso devem recordar o momento em estiveram no monte Sinai, pois lá não viram imagem alguma.

2º Parágrafo:

Aqui diz-nos o que é que lhes sucederá se agirem contra De’s e fizerem idolatria. Faz alusão a um futuro quando se esquecerem de De’s e forem contra Ele, atrás de ídolos, abandonando-O. É por isso que lhes volta a repetir os Dez Mandamentos; para lhes recordar que só o Senhor é De’s. Não há outro fora dEle. Para que o indivíduo possa retornar do seu mau caminho, primeiro deve analisar a sua história e chegar a esta conclusão: Existe a possibilidade de voltar ao bom caminho. Uma vez que esta premissa estiver clara, então cuidará dos mandamentos de De’s.

3º Parágrafo:

Fala-nos acerca das cidades de refúgio. Entre os povos de Canaã, a vida não era muito valorizada. Vemos isto quando Abraão temia que Avimelech o matasse para ficar com a sua esposa, Sara. Agora que vão entrar na terra de Canaã, não devem adquirir essa má qualidade. É por isso que Moisés sublinha a importância de salvar a vida e fazer o que estiver nas nossas mãos para não ser derramado sangue inocente.

4º Parágrafo:

Até agora não lhes tinha dito quais eram os chukim e mishpatim. (No 1º parágrafo diz shemá el haChukim; agora diz shemá et haChukim.). Tinha falado em forma geral, agora fala de forma mais específica. A partir de agora vai especificar os preceitos. Moisés dá testemunho de que esteve entre eles e De’s no monte Sinai: Acreditastes em mim para eu ser intermediário entre De’s e vós. E comprometestes-vos a cumprir os preceitos, que são o vosso próprio bem.

5º Parágrafo:

Os Dez Mandamentos.

6º Parágrafo:

Moisés diz que se constituiu o intermediário entre o povo e De’s. Apesar de os Dez Mandamentos terem sido ouvidos pelo povo mais de perto, o resto dos preceitos e chukim também foram dados por De’s por intermédio de Moisés.

7º Parágrafo:

O Shemá Israel. Fala-nos de conhecer De’s, da unicidade de De’s de amar De’s com tudo o que possuímos. No parágrafo anterior falou-nos do básico e do que devemos fazer, mas agora diz-nos o principal, o resumo de toda a Torá.

8º Parágrafo:

Com todo o bem que há na Terra, não devemos esquecer-nos de De’s. Quando podem começar os problemas? Historicamente, o povo de Israel afasta-se de De’s e dos Seus preceitos quando está bem e não lhe falta nada.

9º Parágrafo:

Fazer o correto aos olhos de De’s para que a vida lhes corra bem. Outro motivo que os pode desviar é não fazer o correto perante De’s, quando são desconfiados e pedem provas da existência de Deus.

10º parágrafo:

Quando nos perguntarem para que são os preceitos, devemos responder que são para o nosso bem. É por isso que se deve explicar o sentido dos preceitos, o que há por trás dos preceitos, pois se estes se transformarem em algo técnico e ritual, sem haver entendimento da sua sabedoria, transformam-se numa carga e são desprezados.

11º parágrafo:

Não se assimilar aos povos da terra, mas sim destruí-los. Devem ser fiéis a De’s, pois estabelecemos um pacto com Ele e jurámos-Lhe fidelidade. O perigo é a assimilação. No que diz respeito aos povos idólatras, se eles não desejarem abandonar os deuses pagãos, então a solução dada é destruí-los. Por outro lado, recordar e ser fiéis ao pacto com De’s, pois são o povo escolhido.

Em resumo: Fala-nos das coisas que são importantes, que perigos esperam o povo de Israel e como os evitar.

Parashat Devarim

O vosso irmão Esav – Retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Antes de entrar na Terra de Israel, Moisés quer transmitir-nos uma mensagem muito importante.

Anteriormente, em Bamidbar 20, Moisés tinha enviado mensageiros ao rei de Edom, dirigindo-se-lhe muito fraternalmente e pedindo-lhe licença para passar pelo seu território a caminho da terra de Canaã. Edom recusa-se. Moisés insiste e tenta convencê-lo com palavras amáveis, mas Edom recusa-se novamente e posiciona-se frente a Israel em formação de batalha.

Moisés volta a repetir a História: Tal como Yaacov enviou mensageiros a Esav antes de regressar à terra de Canaã, Moisés envia mensageiros aos descendentes de Esav. São utilizadas palavras muito similares: Envía mensageiros, trata Esav como seu irmão, e é mencionada a terra de Seir. Isto é o que os sábios chamam Maasé avot siman le banim. (As ações dos patriarcas são um guia para os seus filhos).

Vemos que antes de entrar na Terra de Israel, os israelitas têm que passar pelo território de Esav.

Os israelitas vêm de um longo caminho, cansados, tendo andado durante 40 anos pelo deserto sem poder assentar, e agora que por fim estão tão perto, têm que ter em conta todos os caprichos de Esav, que se recusa a deixá-los passar? Qual é o mérito tão grande de Esav para De’s nos exigir que não o provoquemos nem lhe façamos o menor mal?

O Midrash Rabá diz-nos que Isaac deu a Esav uma só bênção («que pela sua espada viverá»), enquanto que Yaakov foi abençoado com 10 bênçãos. Então temos que ser muito cuidadosos em não lhe retirar esta bênção, caso contrário De’s retira-nos as nossas.

O que o midrash nos está a insinuar é que a bênção que Isaac deu a Esav deve ser respeitada. Por um lado, Isaac abençoou Esav para ele viver pela sua espada (quer dizer, que não seria vencido pela espada), e, por outro lado, Isaac abençoou Iaacov e fê-lo herdar a terra que De’s prometeu a Abraham. Agora bem: Se Iaacov enfrentar Esav, uma das bênçãos deixa de se cumprir: Se Iaacov ganhar, então Esav perde o seu poder militar e deste modo toda a sua autoestima cai. Por outro lado, também não pode deixar de se cumprir o que foi dito a Iaacov sobre a terra prometida a Abraham. É por isso que De’s quer evitar esta situação, e como Israel tem a possibilidade de entrar por outro lado, ordena-lhe que não provoque nem incite Esav.

Outro midrash diz-nos que o motivo pelo qual De’s faz questão de não enfrentarmos Esav é que Esav tem um grande mérito, que é o respeito ao seu pai.

Um terceiro midrash conta-nos que De’s quis recompensar Esav pela atitude que teve com Iaacov quando se reencontrou com ele, que não lhe fez mal, não o enfrentou, não se aproveitou da sua fraqueza nem fez uso ou exibiu a sua força. Ofereceu-se para lhe organizar uma escolta de proteção para o acompanhar e chama-o meu irmão. É por isso que agora De’s impede que Israel faça mal a Esav, e exige-lhe que o trate como um irmão.

Parashat Matot-Masei

As viagens pelo deserto – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Sabemos que a Torá não é um livro de História nem de Geografia, então, para quê nos relata tão detalhadamente cada uma das viagens e paragens feitas pelos israelitas durante a sua travessia pelo deserto?

Que podemos aprender de tudo isso?

Na realidade, o facto de a Torá nos relatar todas e cada uma das paragens não é um mero capricho mas sim algo de muita importância.

Em primeiro lugar, vemos que a Torá nos relata com muita precisão cada paragem onde chegavam. Isto dá-nos uma prova sobre a veracidade da Torá, pois são citados lugares verdadeiros e conhecidos onde os filhos de Israel acamparam.

Em segundo lugar, podemos ver que durante os quarenta anos, a maior parte do tempo estiveram assentados, acampando em locais fixos. Não andaram a caminhar durante os quarenta anos.

O terceiro ponto é para nos demonstrar outra das maravilhas que De’s fez pelo povo de Israel, pois não só os tirou do Egito e dividiu as águas do Mar Vermelho, como também os conduziu pelo deserto, grande e terrível, durante quarenta anos, fazendo-os chegar a lugares bons. Não iam à deriva.

O quarto ponto é para nos ensinar que De’s cumpriu a promessa que fez aos nossos patriarcas, que enviou o Seu emissário para os tirar da terra do Egito e para os conduzir à Terra Prometida.

O quinto ponto é que tudo foi feito de acordo com a vontade de De’s, não foram andando errantes pelo caminho; por ordem de De’s acampavam e por ordem de De’s viajavam.

O sexto ponto é vermos que era De’s quem os fazia chegar a cada lugar, não chegavam a um lugar por acaso; foi De’s quem quis que chegassem a cada um desses lugares, mesmo àqueles onde não havia água para beber, e fê-lo para pôr o povo à prova e ensinar-lhes uma lição importante para aprender.

Por último, para demonstrar quão grande é o amor e a fidelidade do povo de Israel para com De’s, em palavras do profeta: Recordo a mercê dos teus pais, e o amor da tua mocidade, quando foste atrás de mim pelo deserto, terra que não se semeia.

Parashat Pinchas

A escolha de Yehoshua – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Yehoshua pertencia à tribo de Efraim. A primeira vez que a Torá menciona Yehoshua é no contexto da guerra contra Amalec, logo após a saída do Egito. Vemos que se trata de uma pessoa ágil na luta, que é valente e que merece a confiança de Moisés e do povo. Por isso foi colocado à frente do exército contra Amalec.

Moisés, por ordem de De’s, abençoá-lo-á, para que ele tenha força e valentia. Assim está relatado no primeiro capítulo do livro de Yehoshua.

É forte e valente.

Teve sucesso em todas as guerras e os povos temeram-no, tal como De’s tinha predito. 

De onde provêm a força e a valentia de Yehoshua?

Na primeira guerra contra Amalec, a Torá relata-nos que quando Moisés levantava as suas mãos para o céu, triunfava Israel. Quer dizer que Yehoshua recebe uma influência espiritual do céu. A figura de Moisés é muito influente nele. Também cumpriu a sua missão até ao fim: matou todos os amalequitas que saíram ao seu encontro. Não fez como Saul, que deixou o rei vivo. Yehoshua é um enviado fiel que cumpre a sua missão até ao fim.

Quando Moisés sobe ao monte, Yehoshua sobe com ele até determinado ponto, depois fica ali à espera que Moisés regresse. Tem uma fidelidade e uma proximidade muito grandes a Moisés.

Era tal o apego de Yehoshua a Moisés, que se desliga de todos durante 40 dias, até ao ponto em que, quando Moisés voltou e se escutaram as vozes vindas do acampamento, Yehoshua se preocupa, e pensa que o povo está a ser atacado. Inquieta-se e preocupa-se pelo povo. Não pensa mal deles; o seu primeiro pensamento é que o povo está em perigo.

Outro detalhe que a Torá nos mostra é que Yehoshua não se separava de tenda de Moisés. Era como se fosse o seu guardião, como os Cohanim que cuidam do santuário.

Depois, De’s diz a Moisés: Yehoshua, aquele que está de pé diante de ti… Quer dizer, está sempre a servir Moisés e não se afasta dele.

Mais à frente vai dizer: Yehoshua, o servo de Moisés. E noutra passagem, diz ainda: Yehoshua, que serve Moisés desde a sua mocidade.

De onde vem este apego tão grande a Moisés?

Quando alguém se apega muito a outra pessoa é porque gosta muito dela e a tem em alta estima. Até ao ponto de Yehoshua zelar por Moisés, e quando os dois sábios que tinham sido selecionados para estar perante Moisés ficam e profetizam no acampamento, diz a Moisés que os aprisione. Assim como Pinchas zela por De’s, Yehoshua zela por Moisés.

O apego e vontade de servir Moisés chega ao ponto de que a Torá não nos diz que ele fosse casado ou que tivesse filhos, pelo menos durante o tempo em que Moisés foi vivo.

A Torá conta-nos que Moisés lhe mudou o nome, de Hoshea para Yehoshua, da mesma maneira que um pai escolhe o nome para o seu filho. Hoshea quer dizer «que salva». Yehoshua quer dizer «que De’s salva». Moisés ama Yehoshua como a um filho.

Yehoshua sempre viveu à sombra de Moisés. Não tem mal nenhum ser o segundo. Tal como diz o rei Salomão, é melhor ser cauda de leão do que cabeça de lobo. Não sempre aquilo que é novo e inovador é o que é importante; manter e continuar também é um grande objetivo.

Mas Yehoshua não é só uma sombra de Moisés. Vemo-lo a agir por iniciativa própria, por exemplo no caso dos espiões, quando, ao ouvi-los, rasga as suas vestes. Isto demonstra-nos que tem critério próprio, não vai atrás da maioria, não se deixa levar.

Para além disso, não fica calado; congrega todo o povo em torno de Moisés e fala-lhes palavras de valentia e de fé em De’s. Arrisca-se, e, apesar de o povo o querer linchar, ainda assim continua a falar.

Aí mesmo, De’s declara que ninguém entrará na terra de Israel, à exceção de Caleb e Yehoshua, pois eles foram fiéis a De’s. Quer dizer, não é que o faça por Moisés; o que Yehoshua tem na sua mente e o que o conduz é De’s, e como Moisés é o servo fiel de De’s, então, Yehoshua apega-se a ele.

Em Devarim 31:3 diz: O Senhor teu De’s irá diante de ti. Ele aniquilará os povos que estão diante de ti e os herdarás. Yehoshua, ele passará diante de ti, tal como De’s o disse. Vemos que, por um lado, a Torá diz-nos que Deus irá diante do povo, e, seguidamente, diz que Yehoshua irá diante deles, quer dizer, Yehoshua é o servo fiel de De’s, que faz exatamente o que De’s lhe ordena; é como se De’s o estivesse Ele próprio a fazer.

Yehoshua tem um grau de proximidade e providência divina muito altos, pois De’s assegura-lhe: Eu estarei contigo, tal como estive com Moisés.

Tal como com Moisés, De’s divide as águas do Mar Vermelho para o povo passar por terra seca. Também com Yehoshua, De’s divide o rio Jordão para o povo passar. Mais ainda, vemos no livro Yehoshua, 10, que De’s acede ao pedido de Yehoshua, quando este Lhe pede que o sol e a lua se detenham até que acabem a batalha. De’s faz por ele um milagre de tal magnitude que o sol e a lua se detêm.

Talvez o famoso sonho de Yossef, no qual ele vê que o sol e a lua se prostram diante dele, se cristaliza com Yehoshua, que é descendente de Yossef, pois Yehoshua ordenou que o sol e a lua se detivessem no céu e eles obedeceram como se fossem seus servos.

Tal como Moisés, em Yehoshua 24, ele foi chamado Servo de Deus. Mais ainda, é-nos dito que todo o povo de Israel serviu a De’s todos os dias de Yehoshua (nem com Moisés o povo chegou a esse nível, pois o próprio Moisés disse Até hoje não estão com De’s)

Como corolário de tudo isto, a virtude e a qualidade mais alta a que Yehoshua chega é que atinge o grau de profecia. Este é o nível mais elevado que o ser humano pode alcançar.

Este grau de profecia era um nível muito alto, pois, numa oportunidade, De’s fala-lhe com o mesmo nível de profecia de Moisés, Diber, enquanto que com o resto dos profetas utiliza-se sempre o termo Vaiomer.

O livro de Yehoshua diz-nos que De’s fala com Yehoshua catorze vezes.

Este é o significado de Um homem dotado de espírito, tal como diz o versículo 34:9: Yehoshua estava cheio de espírito de sabedoria. Quer dizer, era tão sábio que chegou a esse nível tão alto. Yehoshua sabia que De’s é o mais elevado, o mais verdadeiro e o único a que vale a pena apegar-se. Aquele que estava mais apegado e que mais sabia acerca de De’s era Moisés. Portanto, ele decide não se afastar de Moisés, para assim poder aprender e saber mais acerca da divindade.

É por tudo isto que Deus escolhe Yehoshua. Não se trata de algo gratuito, mas sim de que Yehoshua realmente era o indivíduo mais digno de suceder a Moisés. Não porque estava fisicamente próximo dele ou porque era o seu servidor, ou por favoritismo, mas sim porque Yehoshua, graças ao seu esforço, era o mais digno para ocupar esse posto.

Era um líder valente, fiel a De’s, com os objetivos bem claros e imbuído do espírito de De’s.