Parashat Vaielech

Mitzvat Hakehel – Reunir todo o povo de Israel – Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Texto a analisar: Devarim 31:9-13

O primeiro que notamos é que quando diz esta Torá, não se refere a toda a Torá, pois a Torá ainda não estava acabada; faltavam acontecimentos que ainda não tinham sido escritos. É por isso que, mais à frente, 31:24-26 diz: E foi quando acabou de escrever as palavras desta Torá no livro, até que o completou (…) Tomai este livro da Torá e colocai-o o na arca do pacto do Eterno. Nesse versículo vê-se claramente que somente aí se completou a escrita da Torá. Portanto, o nosso versículo da parashá de Hakehel (E escreveu Moisés esta Torá), não se refere a toda a Torá.

O livro Devarim pode dividir-se da seguinte maneira: as três primeiras parashiot (Devarim, Vaetchanan e Ekev) tratam dos temas fundamentais do judaísmo, os que têm a ver com a fé em De’s e com as boas qualidades.

Depois, as próximas três (Ree, Shoftim e Ki Tetzé) são parashiot de mitzvot específicas.

A três seguintes (Ki Tavó, Netzavim e Vaielech) fazem finca-pé na importância de nos mantermos firmes e fiéis ao pacto.

As duas últimas (Haazinu e VeZot Habrachá) são as últimas palavras de Moisés, ditas em forma poética.

A expressão esta Torá já foi mencionada antes, na parashá Ki Tavó, e, tal como dissemos, essa parashá faz parte das parashiot que se referem a nos mantermos fiéis à Torá. Portanto, a nossa parashá não faz alusão aos cinco livros da Torá, mas sim àquelas partes da Torá que sublinham o facto de sermos fiéis ao Pacto.

E era precisamente isto que o rei tinha que ler. As partes do livro de Devarim que falam da importância de cumprir a Torá e manter o Pacto.

Por outras palavras: deve escrever todos os parágrafos que advertem sobre os benefícios e consequências do cumprimento dos preceitos (sem entrar nos detalhes dos preceitos), quer dizer, as bênçãos e as maldições e todos os parágrafos que nos incitam ao cumprimento de toda a Torá.

O motivo pelo qual é entregue aos cohanim e aos sábios, é porque os cohanim eram quem ensinava a Torá ao povo, e por isso era importante que tivessem estes parágrafos à mão para poder ensiná-los a toda a gente.

E é a isto que faz alusão quando diz que se devia ler a cada sete anos, pois a Torá deve sempre ser lida e estudada, e não só os cohanim e os sábios, mas sim todo o povo.

Portanto, vê-se claramente que a intenção deste preceito não é estudá-la e aprendê-la, mas sim renovar o Pacto entre o povo e De’s, lendo-a a cada sete anos.

O povo fez um Pacto com De’s no monte Sinai, e depois renovou-o aos quarenta anos em Arvot Moav. Se prestarmos atenção, veremos que nessas duas ocasiões são utilizadas as mesmas palavras mencionadas agora.

A cada sete anos, quando a ideia do Pacto consertado com De’s se vai esquecendo na consciência do povo, Moisés diz-lhes que é necessário renová-lo. É por isso que isto foi dito logo depois de Moisés ter reunido o povo inteiro para renovar o Pacto.

O que Moisés fez foi juntar todo o povo e renovar o Pacto, e agora diz-lhes que isso deve ser feito cada sete anos. É por isso que têm que vir todos: homens, mulheres e crianças, tal como aconteceu no monte Sinai.

É precisamente isto o que diz Rambam em Hilchot Chaguigá 3:1-3: É um preceito reunir todo Israel, homens, mulheres e crianças, ao finalizar o ano sabático, quando sobem ao santuário. Devem ler-se aos seus ouvidos parashiot que incentivem ao cumprimento dos preceitos e que os fortaleçam na religião verdadeira. Parashiot cujo objetivo é o cumprimento geral das mitzvot.

Quando se reunia e se lia tudo isso? No final do sétimo ano sabático, depois do primeiro dia da festa de Sucot, lia-se a Torá. E era o rei quem devia lê-la no pátio do Templo. O que é que o rei lia? Lia desde o princípio do livro de Devarim até à primeira parte do Shemá; depois saltava até à segunda parte do Shemá e depois saltava até às bênçãos e às maldições. (Acaba aqui a citação de Rambam em Hilchot Chaguigá).

O motivo pelo qual se lia exatamente estes parágrafos é porque neles vê-se claramente o incentivo para cumprir todos os preceitos.

Tal como quando um indivíduo quer juntar-se ao povo de Israel, o que se faz é explicar-lhe os princípios básicos do judaísmo, a existência de De’s, a Sua unicidade, que opera a justiça, etc. E sobre estes temas diz Rambam que nos devemos estender e abundar em detalhes, e depois ensinam-se de forma breve o resto dos preceitos. Com isto, é suficiente para entrar no Pacto.

É isto mesmo que se deve fazer a cada sete anos.

Porquê os sábios estipularam que era precisamente o rei quem devia ler esta Torá diante de todo o povo no fim dos sete anos? De onde aprenderam isto, se a Torá não disse nada ao respeito?

Se observarmos o parágrafo anterior ao nosso, ele fala-nos justamente de que Yehoshua seria quem faria entrar o povo de Israel na terra. E ele era precisamente o líder político do povo, aquele que exercia o cargo de rei.

É por isso que aprenderam que o rei é que devia ler tudo isto aos ouvidos do povo e renovar o Pacto com De’s. E porque o rei é o líder deles, é ele que tem a autoridade para comprometer e obrigar a todos a cumprir o Pacto, já que todo o povo o teme e obedece às suas palavras. Este é o motivo pelo qual deve ser lido pelo rei. Para além disso, desta maneira o Pacto ganha uma conotação muito mais solene e séria.

Porquê deve ser feito a cada sete anos? Porquê no ano sabático? Justamente depois do ano sabático, quando estão tranquilos, não estão atarefados com os trabalhos do campo e as dívidas foram perdoadas, então é quando têm a mente tranquila para poder pensar em tudo isto.

Mais um ponto a ter em conta é que precisamente agora as pessoas começavam novamente a se dedicar aos seus trabalhos. Por isso, antes de iniciarem os seus afazeres de rotina, a Torá ordena este ritual, para que o povo tenha o Pacto bem presente nas suas mentes. Tal como o fizeram no deserto com Moisés, onde reafirmaram o Pacto antes de entrar na terra, para não terem medo de tudo o que iam ter que enfrentar, assim também, a cada sete anos, repetem isto, para terem força e poderem enfrentar tudo aquilo com que se terão que deparar nos próximos anos de trabalho, e para a sua confiança e fé em De’s não se debilitarem.

Liam-se estes parágrafos no fim do ano sabático, antes de começar tudo novamente; desta maneira vão aprender que não devem temer nada, que o único caminho e a única fórmula para triunfar é fazer a vontade de De’s.

No momento em que vai começar a vida diária e a rotina, é quando é necessária uma dose extra de fé e temor a De’s para não tropeçar.

É por isso que se fazia em Sucot, pois nesta festa consciencializamo-nos de que tudo depende de De’s e não só de nós. Em Sucot recordamos que fomos atrás de De’s por caminhos inóspitos e Ele nos conduziu pelo deserto e fez com que nada nos faltasse.

Está escrito: Reunirás o povo, homens, mulheres, crianças e os estrangeiros que estejam nas tuas cidades, para que escutem e para que aprendam e temam o Eterno vosso De’s e cumpram todas as palavras desta Torá.

Porquê está escrito para que escutem e para que aprendam? Deveria ter dito para que escutem e aprendam.

O comentarista Or HaChaim diz que o motivo pelo qual se repete a palavra para duas vezes é porque se dirige tanto ao homem como à mulher. A maneira em que a mulher capta algo é geralmente diferente da maneira do homem: A mulher vivencia-o, recorda-o, e fá-lo. O homem, pelo contrário, é mais analítico: estuda-o, e aí é que se convence e se compromete.

O objetivo a que se deve chegar é temer a De’s, e isso vai levar-nos a cumprir todas as palavras desta Torá e cumprir os seus preceitos. É por isso que se repete duas vezes a palavra para, pois refere-se à internalização, seja da maneira feita pela mulher ou pelo homem. (Por experiência ou analiticamente).

Então, qual é o objetivo: Temer a De’s ou cumprir a Torá? Na realidade, os dois são o objetivo. Que o cumprimento dos preceitos seja com temor a De’s, com um profundo respeito reverencial. Que não seja um ato reflexo e automático, sem pensar no que faz ou onde isso o conduzirá.

O facto de ser o rei quem lhes lê tudo isto ajuda a gerar temor no povo.

O motivo pelo qual as crianças pequenas também devem estar presentes, apesar de ainda não entenderem, é para adquirirem temor a De’s. Não é para aprenderem os preceitos, pois, como dissemos, ainda não têm raciocínio; o objetivo é que, ao ver todo o povo e o rei a ler a palavra de De’s, eles adquiram uma tal experiência que fique gravada na sua memória e nunca seja esquecida.

Estas palavras voltam a repetir-se outra vez na Torá, e é precisamente no sopé do Monte Sinai. Ali diz: Cuida-te muito de não esqueceres o que viste com os teus olhos, e que não se afaste do teu coração todos os dias da tua vida. E ensinarás aos teus filhos e aos filhos dos teus filhos, o dia em que estiveste perante De’s no monte Chorev quando De’s disse: – Reúne-Me o povo e faz-lhe ouvir as Minhas palavras, que lhe ensinarão a temer-Me todos os dias que vivam sobre a terra e os seus filhos o aprenderão.

Não se trata só de recordar e renovar o Pacto. É algo que vai mais além; trata-se de reviver o Pacto. Não é algo meramente intelectual, mas também um acontecimento emocional; vivenciar o Pacto com De’s como se fôssemos nós que estamos de pé no monte Sinai aceitando os mandamentos de De’s.

Este é o motivo pelo qual não se fazia todos os anos em Sucot, pois seria algo muito rotineiro. Mas ao fazê-lo a cada sete anos, passa a ser algo mais especial. Como, por exemplo, quando se faz Bircat Hachamá (a bênção quando começa um novo ciclo solar), que ocorre uma vez a cada muitos anos. Apesar de ser somente uma bênção rabínica, é realizada do mesmo modo, com muita emoção e entusiasmo, porque é algo que ocorre a cada muitos anos.

Uma vez a cada sete anos a Torá fazia-nos reviver todo este evento para que, com alta emoção e no meio de todo o povo, o Pacto e o temor reverencial a De’s ficassem gravados no mais profundo do nosso ser.

É por isso que se fazia no santuário, pois o tabernáculo (como já explicámos) era como se fosse um monte Sinai portátil.

Rambam, em Hilchot Chaguigá 3:4 diz: Antes de o rei ler no sétimo ano, tocavam-se as trombetas em toda Jerusalém para reunir todo o povo e construia-se uma grande plataforma no santuário e o rei lia dali para que todos o escutassem e todo o povo se reunia ao redor dessa plataforma.

De aqui vemos que as trombetas fazem-nos recordar o som do Shofar no monte Sinai. As pessoas ao redor da plataforma recordam-nos todo o povo a rodear o monte Sinai para escutar a voz do Eterno.

Continua Rambam dizendo: Cada um deve ver-se a si mesmo como se estivesse a receber nesse momento a Torá e está a ouvi-la da boca de De’s.

O número sete é muito recorrente em todo este parágrafo, pois tem em total sete versículos, 140 palavras (20 × 7); sete vezes aparece o nome de De’s; deve ler-se no sétimo dia da festa de Sucot; essa festa cai no sétimo mês, e fazia-se a cada sete anos.

Tudo isto nos faz recordar quando saíram do Egito, e que ao fim de sete semanas (7 × 7) estiveram no sopé do Monte Sinai para fazer o Pacto com De’s.

O acontecimento do monte Sinai não foi chamado «Dia do Sinai» ou algo do género, mas sim precisamente: Yom HaKahal, e este preceito da nossa parashá chama-se precisamente a mitzvá Hakehel.

O dia em que todo o povo (Kahal) esteve frente a De’s, com temor reverencial, para se transformar no povo de De’s.

Parashat Ki Tavo

Servir a D’us com alegria – Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O tema de servir a D’us com alegria aparece na Torá seis vezes. Em todos os casos refere-se a situações nas quais estamos perante D’us, por exemplo Vaikrá 33:40: E alegrar-vos-eis perante o Eterno vosso D’us durante os sete dias. Devarim 12:7 diz: E comereis aí, perante o Eterno, vosso D’us, e vos alegrareis com toda a obra das vossas mãos, vós e a vossa família… Devarim 27: E te alegrarás diante do Eterno vosso D’us.

Vemos que a obrigação de nos alegrarmos ordena-se nas festas, produto de toda a abundância que D’us nos dá, e isso deve ser feito no santuário perante D’us.

Outro lugar onde nos é ordenado estarmos contentes é nas bênçãos do monte Eval e Guerizim. Fora destes casos não existe nenhum versículo que nos ordene estarmos contentes a todo o momento.

Na nossa parashá, Devarim 28:45-47 diz: Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens, por isso servirás os teus inimigos que o Eterno mandará contra ti.

As perguntas que nos surgem são:

  • Porque nos envia um castigo tão grave por não servir a D’us com alegria?
  • Por acaso alguma vez nos foi ordenado servir a D’us com alegria em todo o momento?
  • Por acaso é possível que um indivíduo, apesar de servir a D’us, seja castigado porque não o fez com alegria?
  • Aprende-se deste versículo que devemos estar alegres a todo momento?

Rambam, em Hilchot Iom Tov capítulo 6 diz: Tanto durante os sete dias de Sucot e de Pesach como no resto das festividades, é proibido pronunciar discursos fúnebres e jejuar. É dever do ser humano estar alegre e com o coração contente nesses dias. Tanto ele como os seus filhos, a sua esposa e os seus netos, e quem estiver com ele, tal como está escrito: Alegrar-te-ás na tua festaAssim, oferece-se por exemplo guloseimas às crianças, o marido oferece joias e roupas à mulher de acordo com o seu poder de compra, e os homens comem carne e bebem vinho, pois não há verdadeira alegria sem carne e vinho.

De aqui vemos claramente a obrigação de estarmos alegres nos dias festivos. No entanto, o próprio Rambam mais à frente diz: Quando um homem bebe, come e se alegra nas festas, não deve exagerar a beber vinho, nem se entregar à libertinagem, nem à gargalhada desmedida, pensando erradamente que quanto mais se entregar a tudo isto melhor estará a cumprir o preceito de se alegrar. Pois a embriaguez, a gargalhada desmedida e a libertinagem não são chamados regozijo, mas sim tolice e falta de bom senso. E não é isso o que nos foi ordenado, mas sim uma alegria onde existe regozijo pelo serviço divino, tal como está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens.» Disto se aprende que apenas se deve servir a D’us com alegria. E não é possível servi-Lo estando com atitudes vulgares ou desavergonhadas, ou estando embriagado.

Deste último parágrafo, Rambam não está necessariamente a legislar que se deve estar contente a todo o momento, mas sim que, nos momentos em que se deve servir a D’us, devemos estar num estado de regozijo que permita o serviço divino, não no estado de insensatez.

Mais adiante, Rambam volta a referir-se a este tema, em Hilchot Sucá VeLulav capítulo 8:15, e diz: A alegria que uma pessoa obtém ao cumprir os preceitos e amar a D’us, que os ditou, é uma maneira sublime de servir a D’us. Quem se abstiver deste regozijo merece castigo, pois está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com o coração contente.» Aquele que, mergulhado na sua arrogância, insiste em preservar o seu porte e a sua seriedade, considera-se um pecador e um tonto. A isto se referiu o rei Salomão ao dizer, em Provérbios: «Diante do Rei não te engrandeças.» Por outro lado, aquele que renuncia à sua honra perante D’us e não age de forma pedante, nem se honra a si próprio, esse é o indivíduo honorável, e de alta estima, que serve a D’us com amor, tal como disse David, rei de Israel, a Mical, que o recriminou por dançar diante da multidão, diante da arca de D’us. Samuel 26: 22: «Tornar-me-ei mais insignificante do que isso, humilhando-me muito mais.» Não há grandeza nem honra verdadeira se não aquela que se atinge regozijando-nos perante o Eterno.

Aqui Rambam não diz que é uma ordem servir a D’us com alegria; diz que é uma maneira sublime de servir a D’us. Outro ponto que se aprende com este parágrafo é que quem se abstiver deste regozijo merece castigo, pois está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com o coração contente.»

O motivo pelo qual merece um castigo é porque coloca a sua própria honra antes da de D’us. Quer dizer, por guardar o seu decoro e a sua postura, prefere não se alegrar perante D’us.

Existe outro texto no qual Rambam volta mencionar este tema, e é em Hilchot Teshuva: A Torá assegura-nos que, se a cumprirmos com alegria e bem predispostos e estudarmos sempre a sua sabedoria, então D’us preservar-nos-á de todos os impedimentos que nos impossibilitariam de a cumprir, tais como doenças, guerras… Por outro lado, a Torá adverte-nos que, se a abandonarmos de propósito para nos ocuparmos das vaidades deste mundo, o Juiz Verdadeiro privar-nos-á de todos os prazeres deste mundo…

Neste parágrafo, Rambam sublinha que quem serve a D’us com alegria será recompensado. No entanto, não diz que é uma obrigação servi-Lo com alegria. Por outro lado, diz que quem abandonar a Torá e   for atrás das vaidades deste mundo será castigado. Temos que ter atenção, pois não diz que será castigado quem não O servir com alegria.

Em conclusão: Em todos os textos onde Rambam analisa este ponto, vemos que não diz que é uma obrigação servir a D’us com alegria. Diz que quem assim o fizer é digno de louvor, mas em lado nenhum diz que é uma obrigação.

Mas, apesar de tudo isto, o versículo é categórico e proclama que receberão um castigo grave pelo facto de não terem servido a D’us com regozijo. No entanto, é impossível supor que a Torá imponha um castigo sem antes nos ter advertido ou dado uma ordem a esse respeito. O que temos que analisar é onde a Torá nos ordenou servi-Lo com alegria. Talvez não tenha utilizado estas mesmas palavras, mas referiu-se a isso.

Há comentaristas que dizem que o versículo que estamos a analisar deve ser entendido da seguinte maneira: «Porque não serviste a D’us quando gozavas de todo o bem estar, quando estavas em alegria, então perderás tudo isso». Quer dizer, devido ao facto de estares a usufruir dos prazeres deste mundo, e de teres tudo para servir a D’us, abandonaste-O e não O serviste, então mereces castigo.

É similar ao que disse Rambam: A Torá adverte-nos que, se a abandonarmos de propósito para nos ocuparmos das vaidades deste mundo, o Juiz Verdadeiro privar-nos-á de todos os prazeres deste mundo. A diferença é que Rambam diz que tudo isto acontece no caso de ser feito de propósito, enquanto os demais comentaristas defendem que isto será assim mesmo que seja feito sem querer, quer dizer, por estar mergulhado na alegria, esqueceu-se de D’us.

De acordo com estes comentaristas, o versículo, em vez de se ler:

Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens,

Deve ler-se:

Porque não serviste a D’us quando estavas com alegria e com o coração contente quando tinhas abundância de bens.

Talvez exista a possibilidade de que a Torá nos tenha sim advertido para servirmos a D’us com alegria.

Em Devarim 10:12: Servir ao Eterno, teu D’us, com todo o teu «lev» (coração) e com toda a tua «nefesh» (alma)

Em Devarim 11, o segundo parágrafo do Shemá, também diz: Para servi-Lo com todo «levavchem» (o vosso coração), e com toda «nafshechem» (a vossa alma).

EmDevarim 26: E cuidareis e cumprireis os mandamentos, com todo o teu «lev» (coração), e com toda a tua «nefesh» (alma)

Em Devarim 30 diz: Escutarás as Suas palavras (…) com todo o teu «lev» (coração) e com toda a tua «nefesh» (alma)

De todos estes versículos, podemos ver que, na realidade, a Torá diz-nos sim como servir a D’us: Com todo o «lev» (coração), e com toda a «nefesh» (alma). Por tanto, poderíamos concluir que quando diz: Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente, isto é sinónimo de: Com todo o teu «lev» (coração), e com toda a tua «nefesh» (alma)

Parasha Ki Tetze

E eliminarás o mal do meio de ti – retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe.

Na Torá, este termo aparece 11 vezes, todas no livro de Deuteronómio.

  1. A primeira vez é com o filho rebelde 
  2. Depois com uma mulher que se prostitui estando comprometida e quando ainda vive na casa do seu pai
  3. A terceira vez é o caso de um homem que comete adultério com uma mulher casada
  4. A quarta, quando uma mulher comprometida se deixa violar e não faz nada para o impedir.
  5. A quinta é quando sequestram alguém e o vendem como escravo.
  6. Na parashá Ree aparece este termo quando se refere a um falso profeta
  7. Na parashá Shoftim é utilizada esta palavra para se referir a um idolatra
  8. Outra quando desobedece ao máximo tribunal de justiça
  9. Também sobre aquele que mata e vai buscar resguardo numa cidade de refugio
  10. É utilizado novamente quando as testemunhas conspiram para inventar uma acusação falsa contra outro indivíduo 
  11. Por último quando se encontra o cadáver de alguém no caminho e não se sabe quem o matou

Todos os casos que a Torá define como mal têm a ver com idolatria, transgressões sexuais graves, adultério e assassinato. 

O resto dos casos:

Aquele que não ouve os pais

Aquele que não ouve os sábios

Aquele que se revolta contra o tribunal de justiça

Falso testemunho 

O sequestrador 

Na realidade podemos notar que cada um destes casos está relacionado com os Dez Mandamentos.

É por isso que a Torá faz tanto finca-pé em eliminar este mal; pois vai contra as coisas pelas quais estabelecemos um pacto com De’s.

Assim, vemos que o assassinato, o adultério e o roubo/ sequestro estão literalmente proibidos nos Dez Mandamentos. Também a idolatria, o filho rebelde que não respeita os pais e os falsos testemunhos.

Este é o motivo pelo qual a Torá insiste tanto nestes temas e exige que sejam extirpados do acampamento.

O que vem fortalecer ainda mais esta ideia é o facto de, em Deut. 12:11 dizer: Por quanto ele te afasta do Eterno teu De’s, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão. Porque se alonga tanto este versículo? Teria sido suficiente dizer apenas: Por quanto ele te afasta do Eterno. Vemos que se alonga de propósito, utilizando as mesmas palavras usadas no primeiro e segundo mandamentos: Eu Sou o Eterno teu De’s, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão.

De acordo com a concepção da Torá, o mal não é só aquilo que perjudica a sociedade, mas sim também aquelas coisas que não prejudicam os outros, mas que a Torá considera igualmente graves, como por exemplo relações sexuais proibidas tidas de mútuo acordo.

Porquê no livro de Deuteronómio aparecem todas estas coisas?

Porque é o livro que mais nos fala e sublinha o pacto com De’s, e aquilo que mais representa este pacto são os Dez Mandamentos; é por isso que aqui se alonga e nos faz notar a gravidade destes temas.

Parashat Shoftim

Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Analisemos o episódio em que Israel vai pedir para ter um rei. Para isso, devemos ler no livro de Samuel 1, capítulo 8, versículos 4 a 7: E ocorreu que se reuniram todos os anciãos de Israel e vieram a Samuel em Ramá e disseram-lhe: — Eis que tu envelheceste e os teus filhos não andam nos teus caminhos. Portanto, põe sobre nós um rei que nos julgue, como os demais povos. — E foi mau aos olhos de Samuel quando disseram: «Dá-nos um rei que nos julgue.» E implorou Samuel a De’s, e disse o Eterno a Samuel: Faz tudo o que o povo te pediu, pois não é a ti que desprezaram, mas sim a Mim que desprezaram para Eu reinar sobre eles.

Em primeiro lugar, devemos saber que um rei é algo louvável. Vemos isto quando De’s abençoa Abraão e Jacob e diz-lhes que deles sairão reis. Portanto, se De’s lhes assegura que sairão reis de entre os seus filhos quando lhes promete uma grande descendência, então isto é sinal de que se trata de algo bom.

Em segundo lugar, se colocar um rei é um preceito da Torá, então tem que ser algo bom; a Torá não pode ordenar que façam algo mau.

Então porque Samuel se zanga tanto? Porque é mau a seus olhos que o povo peça um rei? Ao fim e ao cabo, estão a fazer o que a Torá disse…

Pedir um rei quando não há um (um líder), isso é algo bom e positivo, mas pedir um rei quando já existe alguém que cobre essas funções (neste caso Samuel), isso é algo mau. Esta é a razão pela qual Samuel se zanga.

É por isso que De’s diz a Samuel que não se zangue, pois não é a ele que desprezaram, mas sim a De’s, que reinava sobre eles através do seu profeta Samuel (como acontecia com Moisés)

Aparentemente, o texto que aparece em Samuel é quase literalmente igual ao da Torá. Eles estão a pedir tal e qual como a Torá disse: Quando tiveres chegado à terra que o Senhor vos dá, e a tiverdes em possessão, e habitardes nela e disserdes: «Porei para mim um rei como todas as nações que estão ao meu redor», pôr, porás, sobre ti por rei, aquele que o Senhor teu De’s escolher.

Aparentemente, isto é exatamente o que o povo pediu a Samuel: Eis que tu envelheceste e os teus filhos não andam nos teus caminhos. Por isso, põe sobre nós um rei que nos julgue como os demais povos.

Se nos detivermos a analisar, veremos que há uma palavra a mais, que é o que faz mudar radicalmente a intenção que o povo tem ao pedir um rei. Quando vão falar com Samuel, apesar de pedirem ter um rei e de utilizarem as mesmas palavras mencionadas na Torá, desta vez acrescentam uma palavra: Para que nos julgue como as demais nações. E se prestarmos atenção, veremos que o versículo diz que o que incomodou Samuel foi: E foi mau aos olhos de Samuel quando disseram: «Dá-nos um rei que nos julgue

O povo queria um tipo de governo laico, que os julgasse de acordo com um sistema de leis criado pelo seu rei, como o resto dos povos, e não de acordo com as leis da Torá.

Quer dizer, eles queriam ser como os demais povos. O motivo pelo qual eles pedem um rei não é porque faltava um líder que fizesse justiça e ordem no povo, pois já tinham alguém que cumpria essa função. O motivo deles era ter um sistema governamental como os demais povos. Não gostam do sistema da Torá; eles preferem trocar o reinado e estatutos de De’s pelo reinado e ordens de um ser humano.

Ao desprezar as leis da Torá, estão a desprezar a De’s, e é isso que De’s diz a Samuel. Não foi a liderança de Samuel que eles repudiaram, mas sim os estatutos de De’s.

De’s aceita que eles coloquem um rei, pois, como vimos na Torá, é um preceito, mas o que não tolerará nem permitirá é que esse rei os guie segundo regras e leis diferentes da Torá.

O motivo pelo qual não se tinha designado um rei até àquele momento é porque, durante todo o tempo dos profetas ou dos juizes, eles exerciam esse cargo e portanto não tinha cabimento pedir um rei. No momento em que não houvesse um juiz ou um profeta, então aí o povo deveria pedir um rei que os conduzisse, sempre pelos caminhos que De’s lhes designou. 

Parashat Matot-Masei

As viagens pelo deserto – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Sabemos que a Torá não é um livro de História nem de Geografia, então, para quê nos relata tão detalhadamente cada uma das viagens e paragens feitas pelos israelitas durante a sua travessia pelo deserto?

Que podemos aprender de tudo isso?

Na realidade, o facto de a Torá nos relatar todas e cada uma das paragens não é um mero capricho mas sim algo de muita importância.

Em primeiro lugar, vemos que a Torá nos relata com muita precisão cada paragem onde chegavam. Isto dá-nos uma prova sobre a veracidade da Torá, pois são citados lugares verdadeiros e conhecidos onde os filhos de Israel acamparam.

Em segundo lugar, podemos ver que durante os quarenta anos, a maior parte do tempo estiveram assentados, acampando em locais fixos. Não andaram a caminhar durante os quarenta anos.

O terceiro ponto é para nos demonstrar outra das maravilhas que De’s fez pelo povo de Israel, pois não só os tirou do Egito e dividiu as águas do Mar Vermelho, como também os conduziu pelo deserto, grande e terrível, durante quarenta anos, fazendo-os chegar a lugares bons. Não iam à deriva.

O quarto ponto é para nos ensinar que De’s cumpriu a promessa que fez aos nossos patriarcas, que enviou o Seu emissário para os tirar da terra do Egito e para os conduzir à Terra Prometida.

O quinto ponto é que tudo foi feito de acordo com a vontade de De’s, não foram andando errantes pelo caminho; por ordem de De’s acampavam e por ordem de De’s viajavam.

O sexto ponto é vermos que era De’s quem os fazia chegar a cada lugar, não chegavam a um lugar por acaso; foi De’s quem quis que chegassem a cada um desses lugares, mesmo àqueles onde não havia água para beber, e fê-lo para pôr o povo à prova e ensinar-lhes uma lição importante para aprender.

Por último, para demonstrar quão grande é o amor e a fidelidade do povo de Israel para com De’s, em palavras do profeta: Recordo a mercê dos teus pais, e o amor da tua mocidade, quando foste atrás de mim pelo deserto, terra que não se semeia.

Parashat Balak

A força de uma maldição  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Vemos que Bilam está muito interessado em amaldiçoar o povo de Israel.

De’s impede-lho, mas, apesar disso, Bilam continua a tentar e a insistir, até ao ponto de que, seja consciente ou inconscientemente, parece-lhe entender que De’s lhe ordena ir.

O que é óbvio é que nada pode suceder sem que De’s assim o queira. Portanto, se De’s não quer amaldiçoar o povo de Israel, por mais que apareçam mil pseudoprofetas, bruxos, ou as pessoas mais importantes a tentar amaldiçoá-lo, não vão ter sucesso nem vão modificar a vontade de De’s. Não existe nenhuma força física, cósmica ou mística que possa limitar ou influenciar De’s.

Então a pergunta que surge é: Porque De’s interfere para impedir Bilam de amaldiçoar, se de todas as maneiras essa maldição não vai ter nenhum efeito?

De’s não quer que Bilam amaldiçoe o povo, não porque isso possa ter algum efeito, mas sim pelos seguintes motivos:

1) De’s ama o povo de Israel, tal como um pai ama os seus filhos. Assim como um pai não gosta que ninguém amaldiçoe o seu filho, nem sequer uma pessoa ordinária da rua, do mesmo modo, De’s também não quer que ninguém amaldiçoe Israel, não porque essa maldição possa ter algum efeito, mas sim porque Ele ama o Seu filho e não quer que ninguém fale mal dele.

2) A estratégia de Balac era amaldiçoar o povo e assim poder atacá-los e ganhar-lhes. Se De’s permitisse que Bilam amaldiçoasse o povo de Israel, isso iria ocasionar que Balac e o seu povo se entusiasmassem, tomassem coragem e saíssem em guerra contra Israel. Por um lado, De’s não quer que ninguém lute contra Israel, e, por outro, também não quer que o povo de Israel lute contra Moav, pois são os descendentes de Abraão, e se Balac atacasse Israel, Israel ver-se-ia obrigado a defender-se e iria ter que aniquilar Balac e Moav. Portanto, De’s impede isto desde o princípio.

3) Outro motivo é que, se permitisse que Bilam amaldiçoasse o povo de Israel, talvez este ficasse a saber e pudesse decair na sua autoestima e acreditar que já estava amaldiçoado, o que não seria conveniente logo antes de começar a conquista da terra de Israel. Neste momento mais do que nunca, o povo de Israel deve ter a confiança e a autoestima em alta.

Em resumo: 1. Não quer que ninguém fale mal de Israel. 2. Quer evitar uma guerra desnecessária e 3. Não quer que a autoestima de Israel seja prejudicada.

O motivo pelo qual De’s permite a Bilam ir, é para Balac escutar que não são amaldiçoados mas sim o contrário, são abençoados. Isto vai desanimá-lo e ele não vai querer sair para a guerra contra Israel.

Por outro lado, o motivo pelo qual o deixa ir é para demonstrar a todo o mundo que não se pode mudar a vontade de De’s. Nem sequer Bilam, com toda a grandeza que os povos lhe conferiam, e com todos os atributos do que ele mesmo se vangloriava, pode interceder para mencionar nem uma só palavra contra o que De’s decretou.

Isto fica mais satiricamente marcado quando o próprio Bilam, que está a caminho para ir amaldicoar o povo, ao zangar-se com o seu burro porque este se afasta do caminho, lhe diz que se tivesse ali uma espada o mataria imediatamente. O que é sarcástico é que, por um lado, ele pensa que pode destruir um povo inteiro com a força das suas palavras, mas para matar um burro precisa de uma espada e não pode matar com a sua palavra…

A lição é clara: O que De’s diz ou faz é absoluto, e não importa o que façam ou digam os demais povos ou bruxos. Devemos depositar a nossa confiança em De’s e saber que o que Ele diz é o que sucederá, e não prestar atenção a nenhum tipo de feitiçarias, bruxarias, o conjuras.

Parasha da Semana – Corach

Aarão e o Ketoret – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O texto conta-nos que todo o povo de Israel se queixou. Quer dizer, todos os representantes do povo vieram queixar-se de Moisés e Aarão. Vemos o que é algo muito grave.
A acusação é muito grave e drástica: Moisés e Aarão mataram o povo de De’s.
O povo atribui a Moisés e Aarão a morte destas pessoas. Não foi De’s que os matou, foram Moisés e Aarão.
Quando dizem que mataram o povo de De’s, não se estão a referir a Corach nem a Datan e Aviram, mas sim aos 250, pois os anteriores eram indivíduos, não eram «o povo». Além disso, entre os 250 havia representantes de todo povo. Eram pessoas de renome…
O que os levou a pensar assim foi o facto de terem sido Aarão e Moisés a sugerirem a prova do incenso. Eles pensaram que Moisés e Aarão os levaram a fazer algo que sabiam que os ia matar, de propósito, como aconteceu com os filhos de Aarão, quando um fogo de De’s e os matou. Eles pensaram que Moisés e Aarão os fizeram cair na armadilha para morrerem.
São vários os pecados destas pessoas:

  1. A queixa em si. Acusam diretamente. Não vêm perguntar ou investigar, o que mostra falta de confiança nos seus líderes e sentimento de zanga para com eles.
  2. Acusam-nos de terem matado o povo de De’s. Sugerem que Moisés e Aarão são injustos e que mataram pessoas inocentes.
  3. Dizem que mataram «o povo de De’s». Isto não é assim, eles não eram o povo de De’s. Povo de De’s são aqueles que são fiéis a De’s. Estas pessoas, tal como os 250 anteriores que se congregaram contra Moisés e Aarão, estão a revoltar-se contra De’s, portanto, não se podem denominar povo de De’s.
  4. Congregaram-se contra Moisés e Aarão. São insolentes e agressivos. Isto também denota uma falta de respeito perante os seus mestres e líderes.
  5. Estão a renegar de todo o bem que Moisés e Aarão fizeram por todo o povo desde que saíram do Egito.
  6. Põem em dúvida que aquilo que Moisés faz é por ordem de De’s.
    Esta acusação é muito grave, mas não suficientemente grave para causar a praga. Depois diz que «se congregaram», o mesmo termo utilizado para explicar o que fez Corach, que congregou o povo contra Moisés e Aarão, o que quer dizer que o assunto já está tomar um ar de rebelião popular. Antes tinha sido apenas uma queixa, agora já é mais desafiador, enfrentam-se a Moisés e Aarão e gritam-lhes que mataram o povo de De’s. Isto também mostra uma falta de respeito para com Moisés e Aarão.
    Perante esta situação, Moisés e Aarão dirigem os seus olhares para o santuário, como querendo aconselhar-se com De’s para saber o que fazer. É então que vêem que a Glória Divina se revela com fumo e fogo sobre o santuário.
    De’s diz-lhes que se afastem para poder destruir a congregação. Isto insinua que enquanto Moisés e Aarão estiverem entre eles, não haverá morte. São Moisés e Aarão que impedem a praga de começar, praga essa que matará o povo. Moisés e Aarão estão a salvar o povo, exatamente o contrário do que a congregação dizia sobre eles, que tinham matado o povo de De’s.
    Porque não pede e não intervém Moisés por eles para os salvar, tal como tinha feito em outras situações, quando a ira de De’s se acendeu contra o povo? O motivo é que Moisés não encontra nenhum argumento para poder defendê-los perante De’s. Nos outros casos havia argumentos válidos, e Moisés utilizou-os, mas aqui, Moisés vê que não tem nenhum fundamento para pedir por eles. É por isso que não reza por eles.
    O motivo pelo qual a salvação vai ser através do incenso é porque o povo pensava erradamente que o incenso era algo que matava, tal como aconteceu aos filhos de Aarão e agora aos 250 que também morrem perante De’s por um fogo, por oferecer incenso.
    Para tirar esta ideia errada do povo é que De’s vai utilizar precisamente o incenso para deter a morte. Para lhes demonstrar que não é o incenso que mata, pois aqui utiliza-se o incenso para salvar a vida.
    O que realmente mata é o pecado. Com os filhos de Aarão ou os 250, o que os matou não foi a oferta de incenso, como se este fosse algum “material radioativo“, cujo mero contacto produzisse a morte. O que acontece é que oferecê-lo fora do momento estipulado, isso é pecado, e por causa disso foram castigados com a morte. No entanto agora, Aarão, utilizando o incenso corretamente, vai salvá-los precisamente através dele.
    Porque é Aarão que vai com o incenso e não Moisés? Moisés quer limpar o nome de Aarão. Não quer que o povo pense mal dele. Não quer que o continuem a acusar. Moisés não se importa que sujem o seu próprio nome. O que quer é deixar limpo o nome de Aarão.
    A Torá diz que Aarão vai rapidamente deter a praga; exatamente o contrário daquilo de que o povo os tinha acusado: eles não matam o povo; pelo contrário, apressam-se a salvá-lo.
    Um ponto importante que é necessário sublinhar é que quando a Torá diz que Aarão ficou com o incenso entre os vivos e os mortos e a praga se deteve, diz-nos que Aarão fez Capará (Expiação) pelo povo com o incenso. Que quer dizer que fez Capará pelo povo?
    Este termo utiliza-se quando a Torá nos descreve o serviço de Yom Kipur, quando o sumo-sacerdote está frente ao cordeiro e faz Capará pela sua família e por todo o povo, e aí refere-se a que faz vidui, que quer dizer confessar todos os seus erros e arrepender-se.
    Portanto, aqui não se trata de Aarão colocar incenso e de repente a epidemia acabar; ele faz também vidui por eles, e agora que existe arrependimento e confissão do erro, então De’s perdoa-os e a praga detém-se. Com isto fica demonstrado que não são Moisés e Aarão nem nenhuma magia do incenso que mata; o pecado é que mata.
    Esta será também a mensagem da prova das varas. A vara de Aarão é a que vai florescer e dar frutos, enquanto as outras não. A vara representa a liderança. Normalmente, com a vara demonstra-se o poder; castiga-se, bate-se com ela. Mas no caso de Aarão, a sua liderança é justa, ao contrário das acusações do povo. Não só não é uma vara usada para bater ou castigar, mas é uma vara que chega a dar flores e frutos, quer dizer, uma liderança que é boa, suave e com frutos.