O Gaon de Vilna e a identidade judaica

333Foi ha quase 215 anos atrás, em 19 de Tishrei, durante os dias de Sucot, que o rabino Eliahu, o Gaon (gênio, em hebraico) de Vilna devolveu sua alma ao Criador.

A maioria dos judeus contemporâneos já deve ter ouvido falar deste prodigo estudioso, seu vasto conhecimento e seu compromisso profundo em explorar todos os aspectos do conhecimento e da educação judaica.

Mas poucos estão familiarizados com a forma pela qual o mesmo contribuiu para o renascimento intelectual, espiritual e físico do Estado judaico moderno um século antes de Tehodor Herzl levantar a bandeira do sionismo político.

E à luz de alguns dos desafios enfrentados atualmente por Israel na arena internacional, vale a pena analisar a revolução do Gaon e algumas lições relevantes para hoje.

Na verdade, muito foi escrito sobre o desempenho escolar do Gaon de Vilna. Como o professor Jay M. Harris, de Harvard, disse uma vez, o Gaon de Vilna “estabeleceu uma forma revolucionária de estudo no mundo rabínico”.

O mesmo, reavivou o estudo do Talmud hierosolimitana e outros textos antigos, tentou criar harmonia entre as diferentes passagens que confundiam estudiosos em outras gerações e meticulosamente traçou as fontes dos pareceres do Shulchan Aruch (Código da Lei Judaica). Ele atravessou o vasto mar de tradições judaicas, corrigindo as inconsistências e fazendo as emendas necessárias, impulsionado por um desejo de verdade e exatidão.

Um homem profundamente humilde, o Gaon de Vilna, nunca tinha tido qualquer posição pública ou comunitária, completamente devotando-se aos textos de nosso povo. Mas a sua influência se estendeu muito além dos livros, em parte graças a uma ideia simples, mesmo que de muito peso mas que defendeu apaixonadamente: o povo judeu não deve ser passivo em trazer a sua própria redenção.

Embora essa crença foi contra o que a maioria dos judeus europeus pensavam naquele momento, de qualquer maneira, o Gaon incentivou seus alunos a fazer aliá, o que muitos fizeram em três grandes ondas que começaram em 1808.

Eventualmente, milhares de discípulos e suas famílias se mudaram para a terra de Israel. Como resultado, em meados do século XIX, a maioria da população de Jerusalém era judaica, pela primeira vez desde a invasão romana, e assim permanece desde então.

Tudo graças à visão de um único estudioso em uma sala de estudos na Lituânia.

A forte convicção do Gaon de Vilna sobre a necessidade de o povo judeu realizar coisas práticas sobre suas queixas sobre a sua antiga casa, foram excelentemente expressas no volume chamado de Kol Hathor, que foi escrito por seu aluno Rabino Hillel de Shklov.

O livro cita as palavras do profeta Isaías (54:2-3), que disse: ” Expanda (Archivi em hebraico) o lugar de sua tenda e estenda a sombra de seus quartos sem poupar-las … porque você vai espalhar-se para a direita e para a esquerda e seus descendentes herdarão as nações, e fara habitáveis as cidades assoladas.”

Kol Hathor diz em nome do Gaon de Vilna que estes versos são a chave para a redenção judaica, porque o que o profeta Isaías chamou de “Archivi” é um mandamento – uma chamada para ação em todo o mundo judeu se mudar para Israel e se estabelecer em todos os lugares da Terra.

Ele, assustadoramente, nota que a única alternativa para “Archivi” o crescimento judaico e a expansão, é “Achrivi” (hebraico para destruição). Em outras palavras, não há nenhuma possibilidade de recuo.

Finalmente, o Gaon diz, “sabemos de antemão que todos os tesouros preciosos incluídos na bênção de Archava (Expansão) só virão se o povo de Israel primeiro realizar as ações em um despertar da terra.”

Com estas palavras, o Gaon de Vilna estabeleceu um claro desafio para cada um dos judeus no mundo, delineando a nossa tarefa de não sentar-se passivamente e esperar a redenção no exílio, mas agir e trazê-la para nós.

Através desta nova abordagem, o Gaon tornou-se o precursor do sionismo moderno, um forte defensor do ativismo judaico e um restaurador da auto-confiança e da auto-estima dos judeus.

Viu e superou o impossível. Impulsionado por uma crença na justiça da causa e uma profunda fé no Criador, ele deixou para trás um legado de reivindicação judaica e restauração.

Depois de séculos de exílio e perseguição, o Gaon de Vilna nos ensinou uma lição muito importante, uma muito especial para estes dias: o povo judeu não é um prisioneiro do destino, mas sim um sócio de D’s na formação deste!

Uma lição que todos devem aprender.

Manduzio – O pai de tantos

Um camponês de uma vila no sul da Itália teve uma revelação, que levou à conversão em massa de seu grupo de seguidores e sua Aliya para Israel. As mulheres, que não se converteram, mantiveram a tradição por mais de cinco gerações.
San Nicandro, Itáliamaxresdefault

O sul da Itália é uma bela região. Belas paisagens, agricultura simples e gentis aldeões que criam uma atmosfera agradável e pastoral para qualquer um que vem para uma estadia. Esta semana, gostaria de descrever sobre uma das experiências mais interessantes e poderosas que tive durante minhas viagens entre as comunidades judaicas afastadas, ao redor do mundo.

Esta descrição é sobre o que aconteceu em torno da cidade de San Nicandro, que hoje possui cerca de 15 mil habitantes. A cidade está localizada na ponta da famosa “bota” italiana, não muito longe da cidade de Fuja.

A história dos conversos de San Nicandro é única. Constitui um símbolo e um exemplo não só em observar o judaísmo, mas também, principalmente, na sua transmissão de uma geração para a outra, sob condições de incerteza e até mesmo em famílias “mistas”.

Volto duas semanas para um Shabat que passei em San Nicandro. O acendimento das velas era um pouco antes das oito horas da noite. Desde as sete e meia, os membros da congregação já começavam a fluir em direção a pequena e pura sinagoga da comunidade. A sinagoga está localizada na rua principal da cidade. Em sua parede oriental está um grande quadro dos Dez Mandamentos.

Meus anfitriões me informaram que cerca de 30 pessoas vêm para o Shabat, nas orações da noite e cerca de 40 vêm para as orações da manhã. Apenas, se esqueceram de me dizer que destes, 37 eram mulheres e apenas três, homens…

Então, na verdade, havia um “quorum de Mulheres”, com uma cantora do sexo feminino, Constantina, uma viúva de cerca de 50 anos de idade. Ela sabia como envolver toda a congregação com melodias cativantes, com passagens de oração e músicas que foram adicionadas à oração clássica, pelo líder espiritual e fundador da comunidade, o Sr. Donato Manduzio, mais tarde conhecido como Levi Manduzio.

As orações do Shabat de manhã duraram cerca de quatro horas. As mulheres começaram a oração com a parte das ofertas de sacrifício, depois os ‘Versos de Louvor’, a leitura do Shemá e a Oração Silenciosa. Este foi o Shabat do novo mês, mas estes leram toda a oração de ‘Hallel’ (louvor), sem pular nada e cantando cada trecho. Algumas orações foram lidas em hebraico e outras em italiano.

Quando chegou o momento de retirar o rolo da Torá, entoaram todos o cântico de ‘Vayehi Binsoa’ – “Quando a Arca viajou…” e sete mulheres, leram cada uma, uma seção da porção semanal fazendo um breve sermão sobre a parte lida. No serviço vespertino as mulheres voltaram à sinagoga até encerrar o Shabat com a reza noturna e a ‘Havdalah’. Desta maneira, todas as mulheres da comunidade se reúnem três vezes na sinagoga, para as orações do Shabat.

A comunidade de San Nicandro de 5767 é uma continuação da de 5706 (1946), que depois de muitas lutas, converteram-se e tornaram-se parte do povo judeu. O que causou com que 74 homens e mulheres que não conheciam o judaísmo ou mesmo como os judeus eram, decidiram se converter de maneira haláchica e fazer Aliyah para Israel?
Um discípulo de Abraão

Toda mudança requer uma faísca. No nosso caso, esta apareceu na pessoa de Donato Manduzio (1885-1948). Donato era um camponês e um inválido da Primeira Guerra Mundia. Até seus 33 anos, não sabe ler e nem escrever. Quando completou 45 anos, descobriu a Bíblia.

Manduzio primeiro deixou sua aldeia, quando foi recrutado para o exército em 1915. Quando ferido e hospitalizado em 1918, começou a aprender o alfabeto italiano. Assim que aprendeu a ler, a sede de ler e aprender apenas havia começado. O dia em que Manduzio começou a ler a Bíblia é chamado de “The Birthday” (O Aniversário) por seus seguidores, porque um novo nascimento espiritual começou naquele dia.

A vida esp220px-Donato_Manduzioiritual de Manduzio estava repleta de constantes aparições e visões. Estas visões aparecem no diário de Manduzio em um rascunho com mais de 400 páginas, que tive o privilégio de segurar na minha mão. Ele esta armazenado na casa do presidente da comunidade de San Nicandro (estes diários, principalmente as visões, foram curiosamente pesquisados por Noa Hartum, de Kvutzat Yavneh, para um artigo).

Os diários descrevem a biografia espiritual de Manduzio, aonde sua primeira visão foi a que o levou a descobrir o judaísmo e divulgá-lo aos seus seguidores, na cidade de San Nicandro .

Os diários abrem com as palavras únicas e emocionantes do autor: “Nestas páginas, uma história curta e simples será relatada. Você lerá nelas como a luz se mostra ao longo da escuridão, a luz que dissipou as trevas da noite e distanciou as sombras da morte. Você, meu caro leitor, não rirá de minha escrita perversa e falha, porque em todos os dias da minha existência eu nunca passei sequer um dia numa sala de aula. Meu mestre e professor era o D´us de Abraão, que resgatou nosso antepassado, Abraão, da idolatria, e mostrou-lhe o caminho para a terra de Canaã”.

Em seu sonho , Manduzio vê a si mesmo em um campo arado no escuro. Enquanto ainda estava de pé ali, confuso e assustado, um homem aproximou-se dele segurando uma lamparina apagada e disse “Venha Manduzio e acenda a lamparina”. “Como posso acendê-la? Eu não tenho nenhum fósforo”, respondeu Manduzio. O homem estende a mão e retira um fósforo aceso de entre os dedos da mão de Manduzio. O homem ergue a lamparina, Manduzio a acende, e então se viu luz … Deste sonho, Manduzio percebeu que estava destinado a “difundir a palavra do Senhor ao público”.

E assim Manduzio que, sem dúvida, era uma personalidade carismática, começou a ensinar a Bíblia para seus amigos e vizinhos, juntamente com os mandamentos da religião judaica e se tornou o ímã das pessoas da cidade que desejavam sentido nas suas vidas. Muitas pessoas viram em Manduzio um homem sábio e conselheiro em muitos assuntos e se voltavam a ele para receber conselho e bênção.

Manduzio via-se como o mensageiro de D’us e começou a difundir a luz da Bíblia e do judaísmo. No entanto, ele não sabia que havia qualquer outros judeus no mundo. Uma certa vez, um policial que visitava a cidade em 1936, revelou-lhe que haviam judeus vivendo em Roma. Manduzio, animado, escreveu uma carta para o rabino-chefe de Roma, numa linguagem rebuscada , dizendo: “Encontrei meus irmãos perdidos!”.

Hoje, a comunidade de San Nicandro vive a sua sombra. Conheci uma senhora idosa de 80 anos que me contou como em sua juventude Manduzio a repreendia se não tivesse o cuidado de se vestir modestamente e com mangas compridas. Quando a perguntei se se lembrava dealgum ensinamento de Manduzio, ela começou a citar “o versículo diário”, o Salmo do dia para cada dia da semana, que Manduzio escreveu para ela. Ela segue murmurando-os até hoje.

Manduzio faleceu pouco tempo antes de seu rebanho fazer Aliya para a Terra de Israel. Ele foi enterrado no cemitério [local], distante das sepulturas cristãs. Há uma estrela de David em seu túmulo. Gravado em sua lápide está: “Donato Manduzio, nascido em 1885, viveu como um idólatra até 1930 mas, neste ano, recebeu uma revelação divina, foi chamado de Levi pelo Senhor, ou seja , um padre, e começou a espalhar sobre esta pedra escura, a unidade de D’us e o descanso do Shabat”.
Conversão Autodidática

Uma das primeiras pessoas a descobrir este grupo, e entrar em contato com eles foi Pinhas Lapid, um sargento da Brigada Judaica, na Itália. Mais tarde, ele escreveu um livro sobre a comunidade e sobre Manduzio (Reuven Mas Publishers, 1952).

Durante 1943, a Brigada Judaica da Palestina, que lutou a serviço do exército britânico para libertar a Itália da ocupação alemã, chegou ao sul da Itália. Toda vez que a brigada passava pela cidade, os membros da comunidade agitavam bandeiras israelenses em sua honra. Até que um dia, os soldados pararam perto deles e tentaram entender quem e o que eles eram. Foi assim que Pinhas Lapid começou a conhecer o grupo.

Mesmo que existam muitos casos na história judaica de conversões em grupo, dois fatores fizeram de San Nicandro algo tão especial e, na realidade, único.

Em primeiro lugar, esta foi uma conversão de um grupo de pessoas que não foram preparadas de antemão para a conversão. Ao contrário, estes se autoensinaram. A Conversão Autodidática foi uma inovação no campo das conversões de judeus. A conversão não é apenas um processo pessoal e íntimo, esta exige um tribunal religioso que aceite que o convertido abrace do povo judeu.

A pessoa que se converte sozinha, sem a presença de um tribunal rabínico, não é um convertido. E por isso havia, em San Nicandro, um tribunal rabínico que cuidava de todas as diversas fases necessárias de conversão (a aceitação dos mandamentos, a circuncisão, a imersão e etc).

Manduzio estava ciente de que o caminho que tinha traçado para o judaísmo tinha sido feito por conta própria, até mesmo comparando sua trajetória com a que nosso pai Abraão tomou. Em uma de suas cartas ao rabino-chefe de Roma, ele escreve, “Eu respondi que não tinha ouvido nada de ninguém, mas aceitei a revelação celestial, como fez nosso pai Abraão…”

Portanto, uma vez que não têm um professor da própria comunidade judaica, adotaram costumes um tanto quanto estranhos. Manduzio e “seu rebanho” no começo, apenas observavam os mandamentos baseados no texto bíblico literal. Eles leeiam a Torá e a partir disso definiam o que era permitido e o que era proibido, sem qualquer explicação da Lei Oral, que, não estava disponível para eles.

Eles cumpriam os versos, “Você não ateara fogo em nenhuma das vossas moradas no dia do sábado” ou “…não sairá ninguém do seu lugar no sétimo dia”, em seu significado literal. Eram inclusive cuidadosos em sacrificar o cordeiro Pascal no décimo quarto dia de ‘Nissan’, no período da tarde.

Outra maravilha é o tempo e o lugar em que ocorreu todo este episódio. Durante a Segunda Guerra Mundial e durante o reinado de Mussolini, não foi fácil ser judeu, não na Europa e não na Itália. Neste período em que os judeus tentavam sobreviver e salvar suas famílias, ocultando suas identidades, um grupo de pessoas surgia em San Nicandro que não só buscava unir o povo judeu, mas também declarava publicamente que eram judeus!

Mesmo na escola cristã, onde as crianças da comunidade estudavam, os filhos insistiam em ser chamados pelos seus nomes hebraicos.
Uma noite de Seder

Após Manduzio enviar algumas cartas para o rabino-chefe de Roma, o Rabino Angelo Saccardetti escreveu, “Devido às leis que foram aprovadas pelo governo de Sua Majestade (isto é , o governo de Mussolini) e a relação hostil da autoridade para com os judeus, vejo como meu dever aconselhá-los a adiar a conversão para um momento mais apropriado…”

O rabino-chefe finalmente escreveu para o grupo. Apesar de haver recebido várias cartas, ele se absteve de responder até receber a quarta carta. Ele tinha certeza de que alguém estava fazendo uma brincadeira com ele, pois nunca havia ouvido falar de tantos cristãos querendo se converter, especialmente vindo de uma cidade abandonada do sul da Itália. O rabino alertou tanto Manduzio quanto aos membros do grupo de que a conversão não era uma coisa fácil, que os judeus são um povo perseguido e discriminado em muitos países.

No entanto, as palavras de Manduzio e a seriedade do grupo manteve-se forte. O Rabino de Roma ouviu seu pedido e começou o processo de conversão do grupo. No entanto, a conversão não ocorreu de imediato, e sim somente após a Segunda Guerra Mundial ter chegado ao fim e a paz restaurada em todas as questões relativas aos judeus. E, em agosto de 1946, 74 pessoas foram convertidas por um tribunal rabínico enviado pelo rabino-chefe de Roma.

Em 1949, o grupo fez Aliya para Israel e estabeleceu-se no Moshav Alma. De lá, se dispersaram para vários outros lugares na Galiléia, Safed e arredores. Manduzio não chegou a ir para Israel, pois faleceu duas semanas antes da data da Aliya. No entanto, também não está claro se ele havia se convertido, uma vez que estava doente e não podia ser circuncidado.

Até hoje, uma tocha judaica arde em San Nicandro, bastante original e sem precedência ou instância semelhante em qualquer outro lugar do mundo. Os membros da comunidade que vivem em San Nicandro hoje se baseiam nas mulheres que não se converteram em 1946 e não imigraram para Israel em 1949. A comunidade de hoje ainda possui relações familiares e estão relacionados entre si, seja paternalmente ou maternalmente. As mulheres, ainda hoje, se encontram na noite do Seder, mantendo o Seder de Pessach juntos, como uma família.

Mesmo que não tenha sobrado nenhuma família judia em San Nicandro (nem mesmo uma) de acordo com a Halachá, as mulheres e as famílias dos convertidos continuam a viver como judeus em todos os sentidos. As mulheres guardam o Shabat e as festas, comem carne kosher trazida de Roma (depois de muito esforço), separam o leite da carne, preparam a Chala e as velas para o Shabat, rezam na sinagoga todos os sábados e festas, jejuam no Dia da Expiação (Yom Kippur) e são casadas com homens não-judeus…

Cinco gerações já mantem fiel este fenômeno da crença em um só Deus, observando os mandamentos e repassando a tradição judaica de geração em geração. O Comitê Italiano de Congregações [judias] continua a acompanhar o grupo, enviando-lhes um rabino a cada poucas semana, que permanece lá para o Shabat e continua a ensinar-lhes a Torá, tanto para as mulheres quanto para os poucos homens que desejam continuar mantendo a sua trajetória judaica.
O poder das mulheres

Qual é o segredo da existência e da observância deste grupo de convertidos que permaneceram em San Nicandro? Como se explica que os indivíduos continuam, particularmente, mantendo seu judaísmo? Como que a comunidade continua a observar uma vida religiosa, a guardar os mandamentos, as orações, as festas e manter uma sinagoga ativa sem nenhuma liderança espiritual? Na minha opinião, só há uma resposta: O poder das mulheres! Uma pessoa precisa ter que viajar todo o caminho até o sul da Itália para entender o poder dos mulheres.

Pelo que se sabe hoje em dia, mesmo no início, a maioria dos seguidores de Manduzio eram mulheres. Elas eram as únicas que começaram a estudar, rezar e observar os mandamentos e, foram verdadeiras discípulas em seu caminho judaico. Hoje, as filhas da comunidade se sentem judias. Apenas há alguns anos atrás, um rabino veio e revelou-lhes que eles não eram judeus, uma vez que nunca haviam se convertido.

Nas longas discussões que tive com as mulheres da comunidade e os poucos homens, que pertencem a elas, as mulheres repetidamente relatavam e salientavam sua fé judaica e o fato de serem parte do povo judeu, em todos os sentidos. “Você pode dizer o que quiser… Somos judias! Crescemos e fomos criadas como judias. Nascemos para o judaísmo desde o ventre de nossas mães… Recebemos o judaísmo como um tesouro de nossas mães e avós… Estaremos felizes em se converter, mas somos judias!”

Seu fervor e sua crença me convenceram de que este é um fenômeno verdadeiro e profundo.

Hoje, as mulheres membros da comunidade são casadas com homens não-judeus, como eles se chamam, “italianos” e não “hebreus”. “Mesmo que os homens não sejam da fé mosaica, eles respeitam a crença das mulheres e estão dispostos a dar-lhes a escolha de viver a sua vida judaica, observar o Shabat: não cozinhar para a família e os maridos, passar meio dia na sinagoga e etc. Assim como manter os feriados judaicos, não batizar seus filhos e, é claro, não se casar na igreja.

Às vezes, as mulheres judias de San Nicandro escondem seus costumes judaicos de seus maridos para “manter a paz na família” e não contam a seus maridos que estão indo à sinagoga para rezar ou que estão indo observar outros mandamentos; um tipo de cripto-judaísmo dentro da família…

Um dos mandamentos que as mulheres decidiram não observar para “manter a paz na família” foi a circuncisão de seus filhos, pois entendem a necessidade de respeitar o lado não-judeu da família e manter suas vidas “neutras” no seio da casa.

Geralmente, as filhas na família continuam a se identificar com a “Yiddeshe Mamma”, ao passo que os filhos optam por se identificar com o pai não-judeu e não aceitar a continuidade da tradição judaica dentro da sua família. Na verdade, temos aqui um fenômeno de uma “fé judaica feminina”, uma tradição que é passada de geração em geração, de mãe para filha, de avó para neta, um tipo de culto feminino que guarda um tesouro de uma geração para a próxima.

O lugar da mulher e sua força nesta região da Itália não é um fato tão óbvio. A sociedade italiana na época, especialmente a rural, possuia uma mentalidade patriarcal e não matriarcal. No entanto, apesar de tudo, essas mulheres encontraram a maneira de definir a sua influência no seio da família, uma espécie de – ‘A sabedoria das mulheres edifica a sua casa’ !

JACOB LOPEZ, Palma de Mallorca,1672

A expulsão dos judeus de Oran

6a00d8349889d469e2014e8842c36e970d-800wiNo ano de 1672, encontramos um importante relato na história dos cripto-judeus de Mallorca, Espanha.

Um Navio chegou no porto de Palma de Mallorca com muitos judeus que fugiam do Norte da África. Fernando Fajardo, o Marquês de Vélez e protegido da rainha Mariana (mãe de Carlos ‘O Enfeitiçado’) tinha decretado a expulsão de 500 judeus que viviam na cidade de Oran, no norte da Argélia moderna, que estavam sob domínio espanhol desde que a cidade foi conquistada pelo Cardeal Cisneros em 1509. Mas, concordando com suas mudanças para a cidade portuária de Livorno, a nordeste da península italiana, que havia sido declarada porto livre em 1590.

Parece que um grande número de judeus já haviam estado em Mallorca, quase trezentos anos antes, após o assalto em Call em agosto de 1391, que causou a conversão forçada de centenas de judeus. Alguns conseguiram escapar, seja durante os motins sangrentos, seja nas semanas e meses que se seguiram e, apesar dos decretos que limitavam sua saída da ilha. Supõe-se que a maior parte chegou a Oran e de lá foram distribuídos entre outras cidades, como Ténès e Mostaghanem, todos na costa oeste da moderna Argélia.
Três anos de prisão

Devido à expulsão, o navio chegou carregado com uma dezena de judeus ao porto de Mallorca. Entre eles estava um jovem de cerca de 16 anos, chamado Jacob Lopez, que esperava encontrar sua noiva na cidade toscana. No momento em que o navio chegou ao Porto Pi, porto onde estavam ancorados os navios estrangeiros, os guardiões da Inquisição encarregados de monitorar a pureza da Espanha subiram no navio. Os judeus foram cuidadosamente examinados e os jovens despertaram as suspeitas dos guardas, sendo presos e permitindo que o navio continuasse seu caminho a Livorno, sem eles.

O menino permaneceu cerca de três anos na prisão, enquanto a Inquisição investigava seus detalhes. Após o envio de mensagens para 14 tribunais inquisitoriais na Península Ibérica, receberam informações de Madrid, sobre uma família Lopez, descendentes de judeus que fugiram em direção a Málaga e de lá para o Norte de África. Supostamente ali haviam abandonado o Cristianismo e teriam abraçado a fé de seus antepassados judeus.

Cruzando informações concluiu-se que Jacob era realmente Alonso Lopez, filho da família, que arriscou sua vida ao voltar para o território espanhol. Na verdade já tinham tentado sair de Oran vários anos antes, com a publicação do decreto de Fajardo, mas ao chegar ao porto de Nice, de onde continuariam a viagem até Livorno foram capturados por piratas e trazidos de volta à terra que habitavam, onde passaram vários meses na prisão, até que foram resgatados, e agora novamente se arriscavam no caminho à Livorno.
Relaxado ao braço secular

O jovem “marrano” não negou as acusações e afirmou que permaneceu fiel a sua fé ancestral. O Inquisitor Pedro de Aliaga apresentou documentos para Inquisitor Maior Rodriguez de Cossio, que assinou sua sentença de morte. Mas a Inquisição, como uma instituição religiosa que era, não queria matar ninguém, de modo que o réu foi considerado “relaxado ao braço secular”, permitindo a sentença.

No dia 12 de janeiro de 1675, multidões se reuniram perto da porta de Jesus, ao norte da cidade de Palma, onde estão hoje, provavelmente, os edifícios do Institut Joan Alcover na Avinguda Alemanha de Palma, ou talvez perto da faculdade Lluís Vives, onde estudei na minha juventude.

Jacob Lopez subiu à fogueira aonde mais uma vez rejeitou a oportunidade de se arrepender de sua apostasia ao cristianismo católico e permaneceu fiel ao judaísmo, para que então, ateassem fogo à estaca e o queimassem vivo.
Exemplo para os Cripto-Judeus

Seu exemplo repercutiu de imediato sobre as famílias dos descendentes de judeus, chamados xuetas, moradores da cidade, que haviam se convertido ao cristianismo três séculos antes. Logo eles se organizaram para exigir, em segredo, só para si, sua lealdade ao judaísmo. No entanto, dois anos depois, foram presos cerca de 270 “judaizantes” e então começaria a odisséia dos Xuetas Maiorquinos, mas isso é outra história!

O pai do sionismo sefaradita

O sionismo moderno é uma criação Ashkenazi, ou pelo menos o que a maioria das pessoas pensam. Afinal de contas, a Organização Sionista Mundial foi fundada na Europa em 1897 e dominada por judeus Ashkenazim, que também formaram as massas dos pioneiros que construíram a terra e, em seguida, declararam a criação do Estado.

Assim que não deveríamos ficar surpresos ao ler histórias da criação do movimento sionismo no início do século XX, sem encontrar a palavra sefaradita, sem que seja, as vezes, em uma breve passagem.

Mas ignorar a contribuição dos judeus sefaraditas para retornar a Zion, é uma grave injustiça, não só para com os nosso irmãos orientais mas com a própria história judaica em si. Embora tenha passado despercebido, o papel dos sefaraditas em preservar o desejo sionista ao longo dos séculos, esta tem sido indispensável. Por exemplo, o rabino e poeta espanhol do século XII, o rabino Yehuda Halevi, cujo poema “O meu coração está no leste” ainda soa hoje.

Embora seu nome não se19_ot1ja familiar para a maioria dos israelenses, seu legado intelectual lançou as bases para o renascimento do moderno Estado de Israel.

Apesar de ter nascido em Sarajevo, em 1798, os anos de formação do Rabino Alcalai foram passados em Jerusalém, onde estudou mais profundamente antigos textos do misticismo judaico.

Aos 27 anos, ele foi oferecido o cargo de rabino na cidade de Zemun, que agora faz parte da capital sérvia de Belgrado. Neste ponto, no entanto, estava dentro dos limites do Império Austro Húngaro e com fronteira a Sérvia ocupada pela Turquia.

O nacionalismo estava em ascensão nos Bálcãs. Sérvios e outros estavam sob a mão forte do controle otomano. Isso teve um efeito profundo sobre o rabino Alcalai, pois seus vizinhos sérvios queriam a libertação e cada vez mais pressionavam para a independência. Como o professor Arthur Hertzberg no livro The Zionist Idea: A Historical Analysis and Reader, propõe: “as idéias de libertação nacional e restauração vieram à mente do Rabino Alkalai devido ao ambiente que se formava em seu tempo e lugar.”

Apos uma década, em 1834, publicou um livreto chamado Shemá Israel propondo algo que foi então considerado radical: construir assentamentos judeus na terra de Israel como um prelúdio para a redenção.

Em outras palavras, o rabino Alcalai advogava pela ação humana para trazer a emancipação nacional judaica.

Essa noção, ia contra a sabedoria convencional, que acreditava que os judeus deveriam aguardar passivamente a chegada do messias.alk_00_001_s2

No entanto, ele desenvolveu o conceito, escreveu mais livros e panfletos e viajou pela Europa para espalhar a mensagem.

Em seu trabalho de 1845, Minchas Yehudah, o rabino Alcalai escreveu, “na primeira conquista sob Josué, o Todo-Poderoso trouxe os israelitas para uma terra preparada: as casas estavam cheias de coisas úteis, teve seus poços de água, e vinhedos e oliveiras estavam cheios de frutas. Esta nova redenção – infelizmente pelos pecados – sera diferente: Nossa terra está cheia de lixo e desolada, teremos que construir casas, cavar poços, plantar vinhas e oliveiras”.

A “redenção”, escreveu ele, “deve vir lentamente. A terra deve, gradualmente, ser construída e preparada.”

Para conseguir isso, o rabino Alcalai sugeriu coisas novas e altamente proféticas, que incluíam o lançamento de um fundo nacional para comprar terras em Israel, a criação de uma “Grande Assembléia”, encarregada dos assuntos judeus nacionais, e intensificação dos esforços para reavivar a língua hebraica na conversa.

No momento em que vários judeus estavam começando a se desesperar após séculos de perseguição, o rabino Alcalai ofereceu uma esperança concreta.

Mais importante ainda, salientou aos judeus medidas práticas que poderiam ser tomadas, conferindo poderes aos judeus de todo o mundo para participar de um ato de auto-redenção nacional que engendraria a misericórdia Divina. Em 1874, aos 76 anos, o rabino Alcalai e sua esposa fizeram aliá, estabelecendo-se em Jerusalém e cumprindo seu sonho tao acalentado. Quatro anos depois, ele morreu.

Observando suas idéias, podemos facilmente levá-las em consideração, já que muitas se tornaram parte da nossa realidade. Mas isso só sublinha o sucesso do rabino Alcalai, pois estamos colhendo os frutos de seu trabalho.

Na verdade, a influência deste sábio sefaradita pode ter sido maior do que sabemos.

Em uma dessas reviravoltas curiosas do destino que mesmo o maior romancista nao teria imaginado, um dos discípulos mais fervorosos do rabino Alcalai, era um homem chamado Simon Loeb Herzl, cujo neto, Theodore, mais tarde, alteraria o curso da história sionista e judaica.

Poderia Simon voltar para casa da sinagoga no Shabat, muito animado com o sermão do rabino sobre a necessidade de os judeus voltarem a Sião, e ter compartilhado esta paixão com seus descendentes? Pode ser que as idéias que lemos nos escritos do rabino foram passadas para seu famoso descendente? A resposta a esta pergunta, como de muitos outras, foi perdida na história. Mas o impacto do rabino Yehuda Alcalai, e de outros judeus sefaraditas, não pode e não deve sofrer um destino semelhante.

Eles tiveram um papel central no drama sionista, e nós devemos isso a eles, preservando sua memória e legado que nos foi deixado, porque, mesmo mais de um século depois, as palavras do rabino alcalino tem o poder de nos guiar e inspirar-nos em nossa missão nacional.

“Nós, como povo, somos apropriadamente chamados de Israel”, escreveu certa vez, “só na terra de Israel … mesmo que esta aventura começara modestamente, seu futuro sera genial.”

Por que não o chamamos de Chaim Colombo?!

2054862_wa-300x284Em outubro, dezenas de milhares de pessoas se reuniram nas ruas de Manhattan, como fazem todos os anos, para celebrar o legado de Cristóvão Colombo, descobridor do Novo Mundo. Com pompa e cerimônia, manifestantes lotaram a Quinta Avenida, enchendo-na com uma série de fantasias, carros alegóricos coloridos e música animada, como parte do desfile do Dia de Colombo, realizado em Nova Iorque desde 1929.

Políticos locais e dignitários participaram, bem como pessoas de toda a área metropolitana, no que se tornou uma saudação popular ao patrimônio do país ítalo-americana.

Agora, no entanto, novas evidências convincentes sugerem que eles comemoraram a coisa errada por todo o tempo. Colombo, ao que parece, não era nem italiano nem espanhol e nem Português. Era – acredite ou não – um judeu.

Esta é, pelo menos, a conclusão a que chegou Estelle Irizarry, professora da Georgetown University em Washington, que estudou a gramática linguagem e sintaxe de Colombo em mais de 100 cartas restauradas, diários e documentos que escrevia.

Inconsistências na sua ortografia juntamente com numerosos erros gramaticais levaram Irizarry a crer que nem catalão e nem espanhol eram a língua nativa do grande navegador que veio de Aragão, no nordeste da Espanha.

Mas ela também encontrou no seu estilo e pontuação algo que correspondia com a do ladino, dialeto judeu-espanhol falado por judeus da Espanha. E, junto com outros aspectos de seus escritos, levou-a a concluir que Colombo era um judeu ou um converso (um judeu convertido ao cristianismo) que tentou esconder sua identidade.

Se Irizarry estiver certa, então talvez seja mais correto se referir ao homem apelidado de Almirante do Mar Oceano como Chaim, em vez de Cristóvão Colombo.

Antes de rir disso como apenas mais um exemplo de suposições banais, é interessante notar que o mistério por trás das origens de Colombo têm sido objeto de debate por muito tempo, e os historiadores continuam a discordar sobre os fatos mais básicos de sua vida.

O próprio Colombo era vago ao se tratar sobre sua herança, dizendo aos que perguntavam: “Vine de nada” – “. Eu vim do nada”. Como resultado, pesquisadores sugeriram diversas teses com as de que era filho de um genovês tecelão, filho ilegítimo de um duque Português ou mesmo um membro de uma família nobre grega.

Mas um grande número de estudiosos espanhóis, como Jose Erugo, C. Garcia de la Riega, Otero Sanchez e Nicholas Dias Perez, todos postularam que Colombo era um marrano, o termo depreciativo para os judeus convertidos à força ao catolicismo.

Os defensores desta teoria adicional incluindo o falecido caçador de nazistas Simon Weisenthal, cujo o livro de 1973 ”Sails of Hope” (‘Velas da Esperança , em português) argumentam que a viagem de Colombo de 1492 foi motivada por um desejo de encontrar uma nova pátria para os judeus na luz da sua expulsão da Espanha.

Diga o que quiser, mas as evidências são intrigantes. Columbo adotou o sobrenome espanhol Colon, que era comum entre os judeus na época. Após a sua morte, ele deixou parte de seu legado para um judeu convertido em Lisboa, e seu filho Fernando afirmou em uma biografia de seu pai que os seus antepassados “eram do sangue real de Jerusalém.”

A partida de Colombo em sua viagem à América coincidiu com o ultimato dado aos judeus da Espanha para deixar o reino para sempre, e os judeus e conversos apareciam entre os seus apoiadores financeiros, bem como de sua tripulação. Como o historiador Cecil Roth, notou em seu livro ‘The Jewish Contribution to Civilization’ (‘A Contribuição Judaica para a Civilização’, em português) é incontestável que o grande explorador tinha uma relação com a sociedade judaica e que os judeus eram intimamente associados com a sua investida desde o início.

Estes incluíram Luis de Santangel, descendente de judeus convertidos que forneceu a maior parte dos fundos para fazer a viagem, assim como Don Isaac Abravanel, o rabino famoso e financiador real.

Curiosamente, Roth observa ainda que quando Colombo chegou à América, “a terra foi avistada pela primeira vez pelo marinheiro marrano Rodrigo de Triana, e Luis de Torres, o intérprete, que tinha sido batizado apenas alguns dias antes da expedição, foi o primeiro europeu a pisar no Novo Mundo.”

Agora, você pode estar se perguntando: será que isso faz alguma diferença? Sera que alguém realmente se importa se Colombo era judeu em segredo? Acho que a resposta é um sim definitivo. Isso é mais do que apenas uma questão de curiosidade histórica. É um ponto de orgulho, e mais um exemplo convincente de como os judeus têm ajudado ao longo da história em fazer do mundo um lugar melhor.

Apesar de Colombo nunca ter descoberto a passagem para a Ásia que estava procurando, descobriu um mundo novo e expandiu as fronteiras do pensamento da humanidade, além de sua compreensão sobre o mundo. E a colonização que veio na sua esteira, finalmente abriu o caminho para o nascimento da América, com tudo de bom que tem acarretado.

Naturalmente, nós podemos nunca saber ao certo se Colombo era, de fato, um judeu. Mas certamente há fragmentos de evidência o suficiente para sustentar tal teoria, e para justificar a afirmação de que ele era de fato um dos “nossos”.

Então, ao invés de deixá-lo para os espanhóis, italianos e outros, reivindicar esta celebridade histórica, eu acho que é hora de Israel e os judeus do mundo fazê-lo também. Homenagens e exposições em museus devem ser organizadas e deve ser feito um esforço para destacar a origem judaica de Colombo.

Para um momento em que o anti-semitismo na América está em ascensão, e Washington está pressionando Israel a fazer concessões perigosas, seria bom lembrá-los da dívida que têm com aqueles que querem difamar.

50 Anos do Falecimento do “Dreyfus Português”

Foi um dos grandes historiadores judeus, Cecil Roth, quem denominou ao Capitão do exército português, Arthur Carlos de Barros Basto, o “Dreyfus português”.Basto-238x300

Para entender melhor sua história de vida e porque foi assim denominado por um historiador de renome mundial, passaremos a conhecer melhor quem foi este judeu convertido, de família anussita (convertidos à força) e que este ano, 2011, fazem 50 anos de seu falecimento.

Possivelmente seu nome não seja tão familiar, porém, sua história merece ser relatada, por tratar-se de uma memória de tenaz velentia e heroísmo e seu último capítulo está ainda por ser escrito.

Entretanto, por um certo prisma, a história de Barros Basto é inclusive mais fascinante, já que diferentemente de seu homólogo francês, ele ainda não recebeu a exoneração e a acolhida que tanto merece. De fato, fazem mais de sete décadas que o exército português decidiu expulsar o Capitão Barros Basto retirando-lhe suas insignias, considerando esta medida “boa e positiva” e sem justificar nada além disso.

A verdade do incidente é, entretanto, muito mais inquietante.

O Capitão Barros Basto, era um dos descendentes de judeus cujos ancestrais foram forçados a se converter ao catolicismo durante a época da Inquisição em portugal. Conforme seus biógrafos, Dr. Elia Mea e o jornalista Inácio Steinhardt, Barros Basto era um soldado condecorado que dirigiu uma companhia de infantaria na Primeira Guerra Mundial, lutou nas trincheiras de Flandes e participou da ofensiva aliada para a libertação da Bélgica.

Depois de voltar da guerra, decidiu abraçar a fé de seus antepassados, fazendo formalmente, perante um tribunal rabínico no Marrocos espanhol, em dezembro de 1920, sua conversão.

Instalado na cidade portuguesa do Porto, casado com uma judia da comunidade de Lisboa, Barros Basto lançou-se em uma campanha pública para convencer a outros anussim que se apresentaram depois de séculos de clandestinidade, a retornarem a seu povo. O valente herói de guerra viajou por vilarejos nas zonas urbanas e rurais, em seu uniforme militar, já que mesmo após a guerra continuou servindo sua pátria, realizando os serviços judaicos essenciais e tentando inspirar os anussim para que seguissem seu exemplo.

Teve grande êxito ao construir a formosa Sinagoga Mekor Chaim, que existe até hoje na cidade do Porto, e abriu uma Yeshivá que funcionou por nove anos, onde ensinava a jovens anussim suas raízes e heranças. Barros Basto editou por mais de três décadas o memorável jornal que ele denominou Ha-Lapid (O Facho, como ele próprio o traduziu), e que foi o responsável pela divulgação para o mundo judaico de todo esse seu trabalho, de toda a sua obra, a “Obra do Resgate”.

Porém, sua aberta identificação com o judaísmo e as milhares de pessoas a quem inspirou, tornaram-se o seu grande problema e esta sua postura nada comum naqueles dias, não foi vista, segundo os historiadores, com bons olhos pelo governo português e as autoridades da Igreja de então. Eles tentaram sufocar seu movimento vitorioso, acusando-o injustamente de libertinagem moral.

Um processo judicial civil foi aberto contra Barros Basto, tendo sido o caso encerrado em 1937, por falta de evidências. Entretanto, nesse mesmo ano, o Ministro da Defesa português abriu um inquerito militar que culminou com a expulsão do herói de guerra português, Capitão Arthur Carlos de Barros Basto, do exército, humilhando-o injustamente e dando um ponto final aos seus esforços de trazer de volta para o judaísmo milhares de anussim portugueses.

Barros Basto, morreu no ano de 1961 a exatamente cinquenta anos atrás, na pobreza e tristeza total.

Assim, enquanto Alfred Dreyfus foi eventualmente perdoado em 1899 e reintegrado ao exército francês em 1906 com todas as honras, o Capitão Barros Basto foi enterrado sem rever suas insígnias, e o que é pior, até hoje, a injustiça ainda não foi corrigida.

Cerca de cinco anos atrás, estivemos a frente de uma campanha pública e massiva, para tentar persuadir o governo português de limpar o nome do Capitão Barros Basto.

Reuni com o embaixador de Portugal em Tel Aviv de então, fiz uma petição para que seu governo reconheça a inocência de Barros Basto e peça desculpa pelo mal que causou a sua família e ao povo judeu.

Petições similares foram enviadas ao governo português e seus representantes no exterior. Organização judaicas, entre elas a “Conference of Presidents”, “Orthodox Union” e “Religions Zionists of America” envolveram-se naquela campanha, escrevendo ao embaixador português em Wshington sobre o caso.

Um congressista americano, Gary Ackerman, membro do comitê de relações internacionais de então, também involveu-se, insistindo com os portugueses para que resolvam o caso do “Dreyfus Português”.

Infelizmente, todo esse esforço não obteve nenhum resultado concreto, e a mancha sobre o nome desse nobre homem ainda não foi retirada.

Por tanto, este ano, quando completam-se cinquenta anos de seu falecimento, precisamos retomar nossa campanha e fazer ainda mais pressão para que o governo português tome a decisão correta.

O Capitão Barros Basto arriscou sua carreira e sua reputação em nome de seu povo, o povo judeu. O mínimo que podemos fazer é ristituir a dignidade que lhe foi arrancada tão injustamente.

Exigidas desculpas à família de oficial expulso

O director da Organização Shavei Israel – que auxilia qualquer pessoa com raízes judaicas a reassumir esta religião – apelou ontem ao Governo português para “corrigir a injustiça” cometida com o capitão Barros Basto, expulso do Exército em 1943.

“Gostávamos que o Governo pedisse desculpas à família de Barros Basto e esperamos que em breve seja feita justiça”, disse Michael Freund, que está no Porto para participar até domingo no 1º Congresso dos Marranos.

Em 1943,download o Ministério da Defesa, citando razões não especificadas de “bom e bem-estar”, revogou a patente de oficial a Barros Basto e retirou-o do serviço das Forças Armadas, levando os historiadores a chamá-lo “Dreyfus português” (oficial francês que foi injustamente acusado e condenado por traição em 1894).

Artur de Barros Basto, que conseguiu edificar a sinagoga judaica que existe no Porto, é considerado “o apóstolo dos Marranos” – descendentes de judeus cujos antepassados foram forçados a converter- se ao cristianismo para permanecer em Portugal no reinado de D. Manuel II.

Barros Basto dedicou-se à missão de encorajar os marranos, ou “cristãos-novos”, a “sair do armário” e abertamente voltar a assumir a condição de judeu, fundando em 1938, um ano antes do início da II Guerra Mundial, a sinagoga do Porto.

Michael Freund lembrou ainda que a sua organização já enceta esforços há cerca de dois anos para que o Governo português honre Barros Basto, cujo trabalho de despertar de consciências dos judeus é hoje seguido. “Resgatar” aos “cristãos-novos” a sua identidade judaica é o grande objectivo deste 1º Congresso.