Parashá Behar

Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Rambam menciona mais de 13 preceitos que têm a ver com o servo hebreu. Não o maltratar, não o vender nos mercados de escravos, não lhe dar tarefas que se dão a um escravo, libertá-lo no ano sabático, quando sair em liberdade não sai com as mãos vazias, resgatar a serva hebreia que foi tomada prisioneira, etc.

O primeiro assunto de que a Torá nos fala, a seguir aos 10 mandamentos, é o assunto dos servos. É a primeira ordem que a lei hebraica dá aos juízes: como deve ser a lei do servo hebreu. E só depois virão os casos mais graves, como aqueles que levam à pena de morte.

De acordo com os historiadores, deixou de haver escravos hebreus no fim da época do Segundo Templo (em Roma, que foi posterior ao segundo templo, 80% da população eram escravos e apenas 20% eram cidadãos do império) e, apesar de ser difícil de acreditar, ainda hoje em dia há sociedades onde existem escravos.

O Profeta Jeremias conta-nos que logo após a saída do Egito já havia entre o povo de Israel indivíduos que eram escravos de outros israelitas.

Temos que saber que na antiguidade a escravidão era algo muito aceitável.

Há quem defenda que as tribos de Ruben, Simeão e Levi não foram escravizadas pelos egípcios. É por isso que quando a Torá nos relata em Shemot a lista dos cabeças de família traz Ruben, Simão e Levi, e nada mais. Meshech Chochmá, um comentarista bíblico, diz que este foi o motivo pelo qual estas três tribos não tiveram parte na terra de Israel, já que eles não foram escravos no Egito e, para além disso, tomaram escravos para eles de entre os filhos de Israel.

Na Bíblia, apenas uma vez aparece o termo “servo hebreu” (fora do contexto desta parashá), e é com Yosef, mais precisamente com a esposa de Putifar, que o chama assim. É como se a Torá não quisesse aceitar esta condição, não desejando que existam servos hebreus, e é por isso que não os menciona tanto.

Mas se a Torá não está de acordo, então, porque não os proibiu definitivamente? Porque não abolir a escravidão?

A Torá não pede coisas que os homens não possam fazer. Por exemplo, a Torá não nos obriga a jejuar durante três dias, etc. E apesar de poder ser possível, da mesma maneira, não nos ordenou anular a escravidão, mas sim impôs-lhe muitos limites.

Mais à frente, em Devarim 15:18, vemos que o motivo dos seis anos é que o servo trabalhe apenas seis anos, quer dizer, a Torá não quer que ele trabalhe mais de seis anos com a mesma pessoa, porque depois de tanto tempo o servo habitua-se a ser dependente de outros para toda a vida. Mais para a frente vamos ver que mal tem isso.

Rambam, em Mishneh Torá, explica-nos como se adquiria um servo hebreu: não era adquirido no mercado de escravos normal, mas sim era o tribunal rabínico quem autorizava a venda de um escravo, e isso acontecia quando o indivíduo se tornava demasiado pobre e não se conseguia sustentar, ou quando um ladrão não tinha posses para repor os danos causados.

A mulher não poderia vender-se como escrava, pelo perigo de os homens se aproveitarem da sua condição, prostituindo-a ou abusando dela.

A mulher, aos 12 anos de idade sai em liberdade, quer o dono queira ou não queira, a não ser que ela própria escolha ficar com ele. Quer dizer, na idade em que se começa a desenvolver e se torna atraente fisicamente, é nessa altura que ela corre o risco de abuso sexual, e é por isso que é posta em liberdade.

Porque não se dá o mesmo tratamento ao servo não judeu? Se a Torá está em desacordo com a escravidão, então, porque não colocar também muitos limites no caso de escravos não judeus?

O objetivo ou plano da Torá não é consertar toda a humanidade de uma só vez; o método é conseguir uma sociedade boa, que neste caso serão os judeus. Então, quando os demais povos virem como funciona uma sociedade boa, inspirar-se-ão e quererão fazer parte desta boa sociedade; a decisão depende deles.

Algo similar ocorre com a cobrança de juros nas dívidas. O não-judeu, quando me empresta dinheiro, cobra juros. Então, quando eu lhe empresto a ele, porque tenho que perder?

Não se pode dar ao servo hebreu trabalhos que não são necessários ou tarefas que apenas lhe são dadas para não estar sem fazer nada. No entanto, esta atitude é permitida para com o escravo não-judeu. Isto é assim porque se o escravo não-judeu estiver sem fazer nada, corremos o risco de ele se dedicar a seduzir mulheres judias, pois, como dizem os sábios, a ociosidade conduz à promiscuidade.

Este é um assunto mais profundo, mas, para o abordar brevemente, recordemos que o judeu se diferencia dos demais povos, entre outras coisas porque não se conduz de acordo com as suas paixões, enquanto que os demais povos querem ser “livres“ e correm atrás dos seus impulsos, defendendo que para serem felizes devem poder fazer o que quiserem (ou, melhor dito, o que apetece aos seus instintos). É por isso que os sábios decretaram: Torat goim, araiot. A ética ou moral dos não-judeus está minada de perversão sexual.

Outro dos motivos pelo qual a Torá se opõe à existência de servos hebreus é porque a Torá não quer que o judeu tenha outro senhor que não seja De’s. Para que desta maneira não se sinta aprisionado e possa então servir a De’s. É por isso que no tempo do Profeta Jeremias, quando o povo não quis libertar os servos judeus, De’s disse-lhes: Vós não quereis receber o jugo de De’s, então ficareis expostos ao jugo deste mundo (guerras, epidemias, conquistas, etc.)

E porquê o escravo que quisesse continuar a ser escravo devia furar a orelha? Porquê precisamente nesse local do corpo?

Um dos motivos é para que seja algo bem visível, para que ele se envergonhe e então não queira ficar como escravo. Outro motivo é porque essa orelha não ouviu bem o que De’s disse no monte Sinai: Meus são os filhos de Israel. Este escravo está a colocar sobre si outro senhor fora de De’s.

Porque deve furar a orelha na porta? No Egito, o povo de Israel, ao colocar o sangue do cordeiro nas ombreiras das suas portas, demonstrou dessa maneira que era livre; fez algo contra os seus senhores, exatamente contrário à cultura e aos deuses dos seus amos, sem os temer nem se submeter a eles. Agora este escravo, ao escolher ficar com o seu patrão, está a fazer precisamente o contrário. É por isso que ele é levado à porta, para recordar esta mensagem.

Poderíamos perguntar: Que diferença há entre ser servo de De’s ou ser servo de outra pessoa? Ao fim e ao cabo, continuamos a ser servos.

A realidade é ao contrário. Aquele que é servo de De’s, é na verdade livre, e apenas é chamado servo porque queremos dizer que ele faz o que De’s lhe ordena, e De’s ordena coisas que são para o nosso bem, não se trata de caprichos de algum homem. É algo a que os sábios se referem quando dizem que as tábuas da lei estavam talhadas (em hebraico diz-se “charut”) e os sábios dizem que em vez de talhadas pode ler-se “cherut”, que quer dizer liberdade (em hebraico diz-se “cherut”, que é muito parecido com “charut”). Quer dizer, as tábuas da lei dão-nos a verdadeira liberdade.

A sociedade liberal, ao contrário, apregoa que cada um faça o que bem lhe apetecer, sendo a única limitação o não prejudicar os outros (e, mesmo isto, não é por uma questão ética, mas sim para que o outro não me prejudique a mim). Não pensa no último bem do indivíduo, ou de quê é que aquele indivíduo precisa para se realizar e crescer; responde apenas a um padrão egocentrista.

A Torá é o sistema mais completo e perfeito, que pensa em todos os aspetos e não só em alguns. (Quer dizer, não pensa apenas nos aspetos mais prazerosos ou momentâneos e não nos outros). É por isso que a Torá permite que uma pessoa se venda como escravo quando é pobre, apesar de hoje em dia isso estar mal visto, mas, por acaso a alternativa moderna é melhor? Que a pessoa se rebaixe mais? Que viva a mendigar nas esquinas ou dormindo na rua? Ou talvez é melhor recorrer ao roubo ou às drogas?

Esta é a diferença entre o empregado e o escravo. O empregado pode ser obrigado durante mais de três anos (contrato?) E depois, se quiser, pode continuar ou ir embora, mas o escravo tem seis anos, porque precisa de mais tempo, já que tem menos recursos que o assalariado.

A Torá definitivamente não quer que o Homem se rebaixe tanto e se escravize, mas, perante casos extremos, essa opção é melhor que a outra.

Apesar de passados seis anos o escravo sair livre gratuitamente, porque é dada opção ao escravo de ficar até ao Jubileu? A Torá vela pelo bem-estar do servo, e é por isso que impõe limites ao patrão, mas não ao servo. Se o servo quiser, pode abrir mão do seu direito de sair em liberdade. No entanto, a Torá não lhe permite ficar nessa situação eternamente, mas sim apenas até ao Jubileu. No entanto, o servo tem que fazer tudo isto perante os juízes, para não correr o risco de ser pressionado pelo seu amo a ficar.

A Torá dá o direito ao servo de ter a sua família, que é uma necessidade básica. Assim, se o servo vier com uma boa esposa, ao sair em liberdade, a sua esposa sai com ele, para não acontecer que o dono o liberte apenas a ele só para ficar com a esposa.

No caso de um homem querer vender a sua filha como escrava, (porque não tem os meios para a sustentar ou para lhe dar um bom lar ou educação) nesse caso há mais limitações, já que se corre o risco de ela ser prostituída. É por isso que logo a seguir a tê-la vendido, já recai sobre ele ou sobre os seus familiares obrigação de a redimir.

Por outro lado, também existe um ponto positivo: é possível que aquela menina acabe por casar com algum membro da família à qual foi vendida. É por isso que a Torá deve manter o equilíbrio entre dar um bom futuro a essa jovem que nasceu no seio de uma família sem os mais básicos recursos e o perigo de ser abusada.

Até ao ponto de que a Torá obriga quem adquirir uma escrava hebreia, ele próprio ou o seu filho, a casar com ela, ou, senão, deve libertá-la. Assim, ao ter um marido, os outros escravos não abusarão dela (entre os escravos existe muita promiscuidade). Deste modo, praticamente não existe a serva hebreia, pois passado pouco tempo transforma-se na esposa do seu senhor.

Os sábios obrigam a que o servo coma da mesma comida que o senhor. Se existir apenas uma almofada na casa, e temos que decidir para quem será, se para o dono ou para o servo, o servo tem prioridade. O dono tem que cobrir todas as necessidades do servo, mesmo à custa das suas próprias necessidades. E no caso de não as poder cobrir, o escravo deve libertado.

Portanto, se o indivíduo for sábio e souber isto, facilmente comprovará que não é conveniente ter servos hebreus, e é exatamente isto o que a Torá pretende.

Por outro lado, se era roubado algo alguém e o ladrão já gastou o produto do roubo, o facto de o ladrão ir para a prisão, não serve para nada a quem foi prejudicado; ninguém devolve a sua perda.

Para além disso, na maior parte dos casos, o ladrão, na prisão, não deixa de ser ladrão. Ao contrário, aperfeiçoa ainda mais a arte de roubar, pois está rodeado de gente muito baixa e por isso corrompe-se mais ainda.

Para o conjunto da sociedade, isso também não é bom, porque agora este ladrão, que na maior parte dos casos não se corrige na prisão, ainda tem que ser sustentado com o dinheiro dos impostos dos contribuintes.

Em síntese, não é justo nem para o prejudicado, nem para o ladrão, nem para a sociedade.

Pelo contrário, para a Torá, quando alguém rouba e não tem bens para reparar o dano causado, é vendido como escravo até que possa pagar com o seu trabalho ao prejudicado, os danos estipulados pelo juiz.

Para além disso, não era vendido a uma família qualquer, mas sim a alguma família na qual o escravo se possa corrigir. Ao viver entre gente boa, o ladrão tinha mais possibilidade de se corrigir, de os querer imitar e constituir um lar como esse.

Por outro lado, a sociedade não tem que o sustentar, mas sim ele sustenta-se a si próprio com o seu próprio trabalho.

Para aprofundar mais ainda sobre como a Torá se ocupa também dos transtornos psicológicos que os escravos podem sofrer, ver Mishne Torá Hilchot Avadim, Cap 1 Halachot 5,6, 7 e 8.

Parashat Emor

Parashá Emor
Aquele que amaldiçoou – Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

A Torá fala-nos de diferentes tipos de maldições:
• Aquele que amaldiçoa os juízes ou De’s
• Aquele que amaldiçoa o príncipe (ou o governante)
• Aquele que amaldiçoa um sábio
• Aquele que amaldiçoa os seus pais
• Aquele que amaldiçoa o surdo

Deste último tipo de maldição, aprendemos que o motivo de não amaldiçoar não é só a honra da pessoa que ouve a maldição; trata-se de um ato mau por si só, que inclui o sentimento de ódio, vingança e maldade.
Voltando ao nosso caso: O que é que realmente aconteceu ali?
A primeira coisa que notamos é que este indivíduo que amaldiçoou não era considerado judeu, pois a Torá diz-nos que ele era filho de uma judia, não nos diz que ele era judeu. Vemos que a Torá evita deliberadamente designar este indivíduo como judeu. Também podemos concluir que se tratava de um adulto e não de uma criança. A prova é que ele é castigado, e sabemos que a Torá não castiga menores de idade.
É-nos dito que o seu pai era egípcio, quer dizer, converso. Saiu com o povo de Israel do Egito, estava presente no monte Sinai e lá, ao aceitar a Torá, converteu-se ao judaísmo.
A pergunta seria então: se se converteu, porque o continuamos a chamar egípcio? Continuamos a chamá-lo egípcio porque um egípcio que se converte, apesar de recaírem sobre ele todos os preceitos, obrigações e benefícios do judaísmo, ainda não pode fazer parte da congregação de Israel, até à terceira geração. Quer dizer que não se pode casar com uma judia mas sim apenas com uma conversa, e apenas os seus netos se poderão casar com uma judia.
Como é possível então que um egípcio converso case com uma judia e tenha filhos? Neste caso, eles já tinham casado antes de saber que isso era proibido, por isso é que tiveram filhos. No entanto, a partir de agora, o filho é considerado a segunda geração. Ele também quis casar com uma judia, mas não lho permitiram, porque agora a Torá já tinha sido entregue e essa proibição já estava em vigor. Então começou a discussão, foram a tribunal, que também deu o seu parecer negativo, e ele saiu amaldiçoando.
Porque é necessário esperar até à terceira geração para poder casar com uma judia? O motivo é que as más qualidades não desaparecem nos filhos. Este é um exemplo tangível desta situação, pois a maldição era algo muito normal entre os filhos dos egípcios.
O povo de Israel comportou-se apropriadamente ao impedir o filho da israelita de se casar. O povo agiu tal como De’s lhe tinha ordenado.
Apesar deste indivíduo ter agredido e batido, não foram todos atrás dele para o linchar, mas sim apanharam-no e levaram-no a tribunal. Quer dizer, não tomaram a lei pelas suas próprias mãos.
Vemos que o levam para fora do acampamento. Porquê? Porque através da sua maneira de falar, vemos que este filho do egípcio está fora do povo do ponto de vista espiritual, pelo que também estará fora de forma física. Amaldiçoar como este indivíduo o fez era algo muito desprezível para o povo.
A Torá não tem reparos em nos dizer a que tribo pertencia, pois apesar da tribo de Dan não ser uma das tribos mais destacadas pela sua grandeza e religiosidade, não permaneceram indiferentes. Agiram e não deixaram passar o incidente em branco.
A Torá esclarece-nos que o converso recebe a mesma pena dada a um judeu de nascimento. Isto é algo que já sabemos: todo aquele que se converte passa a ser como todos os judeus, mas neste caso os juízes tinham dúvidas sobre se ele era considerado judeu ou não.
Se aquele que amaldiçoasse a De’s o fizesse sem testemunhas, então a sua alma carregaria o castigo, quer dizer, De’s ocupar-se-ia do castigo. Mas se acontecesse perante testemunhas que pudessem confirmar o que foi dito, então eram os juízes que se encarregavam do castigo: pena capital. É por isso que o versículo nos diz: O homem que amaldiçoar o seu De’s carregará com a culpa e seguidamente diz-nos Quem amaldiçoar o nome do Eterno, morrer, morrerá. Um versículo refere-se a quando não há testemunhas, e o outro a quando há testemunhas.
Depois da pena ser executada, a pessoa era pendurada, mas por pouco tempo, pois, por outro lado, temos um versículo que diz para não deixar um condenado pendurado até à tarde: Maldição de De’s é o pendurado. Isto também se pode entender como que o facto de o deixar pendurado iria causar que as pessoas falassem mais e se perguntassem o porquê daquela pessoa estar pendurada, e então outra pessoa, para explicar, iria repetir a maldição dita pelo primeiro.
Outro motivo tem a ver com o facto de De’s ter criado o ser humano à Sua imagem e semelhança, por isso, o facto de permanecer pendurado é um desprezo ao seu status de ser criado à imagem e semelhança de De’s.
Porquê De’s, junto com este assunto das maldições, nos fala também da pena para o assassino?
A relação entre estes dois casos é que, assim como quem mata outro ser humano está a desprezar a imagem divina com que esse indivíduo foi criado, igualmente, aquele que amaldiçoa está a desprezar a imagem divina com que o ser humano foi criado. Como? Uma das coisas mais claras que nos diferenciam dos animais é a capacidade da fala que o género humano tem, e essa supremacia está a ser utilizada para o mal e contra De’s, ou seja, quem amaldiçoa é muito mal agradecido.
Em resumo, quem amaldiçoa a De’s faz três coisas más: 1) Utiliza uma das qualidades mais supremas do ser humano para coisas baixas; 2) É mal agradecido e 3) Renega de De’s. É por isso que esta pessoa é pendurada, pois a imagem divina com a qual foi criada foi em vão e não lhe ficou nada dela.
Daqui se vê que todo aquele que não respeita ou estima o seu próximo está de certa maneira a desprezar também a De’s, que o criou à Sua imagem e semelhança (salvo em casos especiais, onde a própria Torá nos sublinha que quem age de determinada maneira, é desprezado pelo próprio De’s.)
Porquê todo este acontecimento é relatado aqui? Todo o contexto desta parashá refere-se a assuntos de kedushá (santidade), e o contrário a isto é profanar o nome de De’s, quer dizer, tornar profano algo que é santo e elevado. Amaldiçoar a De’s é algo muito grave porque despreza o que há de mais sagrado. O que a Torá considera elevado, a pessoa torna baixo. Em hebraico, o termo “klalá” (maldição) vem de “kal” (leve) quer dizer, algo que é grave, para a pessoa que amaldiçoa é leve.
Como se chegou a isto? Chegou-se a isto, porque a mãe casou com um egípcio. A Torá adverte-nos para não fazermos todas as coisas más que os egípcios faziam, e todas essas coisas estão detalhadas nas parashot Acharei Mot e Kedoshim. Na parashá Emor, a Torá fala-nos de sermos santos, pois estamos frente a De’s.
É por isso que diz: Santificar-me-ei dentro dos filhos de Israel, e este indivíduo faz precisamente o contrário, e fá-lo dentro do povo dos filhos de Israel.
Este individuo foi: 1) Desavergonhado; 2) Violento; 3) Grosseiro; 4) Desprezou De’s; 5) Renegou de De’s.
Todas estas coisas eram típicas da sociedade egípcia. É por isso que a Torá nos dá tantos detalhes sobre este acontecimento.
Vemos um exemplo disto no faraó, que era a cabeça da civilização egípcia. O faraó foi mal agradecido, pois não reconheceu o que Yosef fez quando salvou todo o Egito da fome. Falava com falta de respeito e arrogância: quando Moisés lhe falou em nome de De’s, o faraó respondeu-lhe: “Quem é De’s para que eu lhe obedeça? Não penso enviar os filhos de Israel!” Também foi cruel e violento, tendo mandado matar todos os bebés recém-nascidos.

Desfasagem Parashiot

Perguntas:

O que são parashiot?

Quem as instituiu?

Quando começamos a ler a Torá?

Por que às vezes lemos uma Parashá em Israel e outra diferente na Diáspora?

O que acontece se um dia festivo coincide com Shabat?

Parashá traduz-se como o “caso”, “tema” ou porção” da Torá a estudar. É uma divisão do texto da Torá em partes, para facilitar a leitura da mesma. Cada parshá tem como nome a expressão ou palavra com a qual começa. Por exemplo, a Parshá Vaikrá tem esse nome porque começa assim: Vaikrá El Moshe vaidaber HaShem elav …(E o Eterno chamou Moisés e falou Hashem com ele…).

Cada parashá, por sua vez, é dividida em partes chamadas “aliot” (plural de “aliá”, que literalmente significa “subida”). Essas partes são chamadas aliot porque, para a leitura de cada parte, na sinagoga, é chamado um homem diferente, que sai fisicamente do lugar onde está sentado e se desloca (“sobe”) para o lugar onde está a Torá, para a “ler.” (Entre aspas, porque na verdade há na sinagoga um leitor de Torá, que lerá por ele.)

A Torá, no mundo judaico, é lida publicamente por partes: a cada semana corresponde uma parashah, e a leitura pública, na sinagoga, é feita todas as segundas, quintas e Shabat. Nas segundas e quintas é lida a primeira aliá da parashá, e no Shabat é lida a parashah completa.

Segundo o Talmud, este sistema de leitura foi estabelecido pelo escriba Esdras, após o retorno do exílio na Babilônia. Este sistema acontece em todas as sinagogas do mundo. A divisão por parashiot faz com que o mundo judaico se conecte, já que todos nós lemos a mesma parte pré-definida a cada semana, por ordem, de tal modo que, no final do ano, temos a Torá completa lida por inteiro.

Quando isso acontece, ou seja, quando chegamos ao fim da Torá, celebra-se uma festa, que é a festa de Simchat Torá. Nesta festa celebra-se o final de um ciclo de leitura e o começo de outro. Lê-se a última parashá, que é VeZot HaBerachá, e a primeira aliá da primeira parashá da Torá, que é Bereshit (que significa, precisamente, “no principio”, e nos relata o principio da Criação, sendo também precisamente o princípio da Torá).

Mas há exceções a este sistema de leitura: quando uma das três festas chamadas Shalosh Regalim (Pessach, Shavuot e Sucot) coincide com Shabat, lê-se a parte correspondente à festa, e não aquela que seria “normal” ler naquele Shabat, de acordo com a ordem das Parashiot. Por exemplo, este ano (5779), o primeiro dia de Pessach coincidiu com Shabat, pelo que, em vez de se ler a parashá Acharei Mot (que seria o normal, porque a anterior foi Metzorá), leu-se a parte correspondente à festa de Pesach, que se encontra na parashá Beshalach. Quando isso acontece, a leitura normal é retomada no Shabat seguinte. Neste caso, foi lida então Acharei Mot.

Por outro lado, devido à lentidão das comunicações e à ausência de tecnologia que existia no mundo antigo, os nossos sábios determinaram que fora de Israel, na diáspora, estas três festas (Pessach, Shavuot e Sucot) fossem celebradas com dois dias festivos consecutivos, e não apenas um como em Israel, para evitar que, por algum erro de cálculo, alguma comunidade isolada corresse o risco de se enganar no dia e celebrar o Yom Tov (dia festivo) no dia errado. Isto é, para cada feriado ordenado pela Torá, os sábios acrescentaram mais um dia para a diáspora.

Por esta razão, e embora, como eu disse, todo o mundo judaico leia as mesmas parashiot ao mesmo tempo, quando na diáspora o segundo dos dois dias festivos consecutivos coincide com Shabat, há um  desfasamento entre Israel e o resto do mundo judaico em relação à leitura da Torá.

Este ano, esse desfasamento ocorre esta semana, quando na diáspora estarão a ler Acharei Mot, enquanto em Israel já estaremos a ler Kedoshim. (Porque quando lemos Ajarei Mot em Israel, na diáspora leram a leitura do oitavo dia de Pessach, que não existe em Israel, porque em Israel apenas se celebram 7 dias de Pessach.)

Outra particularidade da organização da leitura da Torá em parashiot é o fato de existirem parashiot que podem ser lidas juntas. (Mejubarot). As razões para o estabelecimento desses “pares” de parashiot são complexas e estão fora do âmbito deste texto, mas pode dizer-se, para simplificar, que esses pares foram estabelecidos porque as semanas do ano não seriam suficientes para ler a Torá inteira, devido à própria duração do ano judaico e ao facto de que quando uma festa coincide com Shabat, não se lê a parashá correspondente ao Shabat mas  sim a da festa, como vimos anteriormente.

Graças à existência destas parashiot mejubarot, as leituras de Israel e da Diáspora serão igualadas novamente em agosto, (no 2º dia do mês hebraico de Av), quando as Parashiot Matot e Masei forem lidas juntas na diáspora. A partir desse dia, até novo desfasamento, estaremos novamente todos juntos.

Mas em pensamento estamos sempre! A nossa Torá une o povo de Israel no seu espírito e na sua devoção, mesmo que a sua leitura esteja temporariamente desfasada. É curioso pensar que, no que diz respeito à leitura da Torá, pode considerar-se que Israel, em certos momentos, está à frente no tempo, vivendo de certa maneira no futuro. Quem viajar da Diáspora para Israel numa dessas semanas e regressar ao seu país no Shabat seguinte, sentirá essa “viagem no tempo”, porque, quando regressar e ouvir novamente a mesma parashá, sentirá que viajar para Israel é como viajar para o futuro.

Shabat Shalom desde Israel,

Rabino Elisha Salas

Parasha Acharei mot

Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

VeChai baEm– E viverão com elas

Há uma frase na Parashá que passa despercebida, mas que é a base de tudo o que foi escrito até aqui: “E cuidareis as Minhas leis (mishpatim) e os meus caminhos (chucot), que o homem fará para viver com elas, Eu sou o Senhor

Perguntas:

  • A que leis e a que caminhos se refere?
  • A que se refere quando diz que vai viver com elas?
  • O que quer dizer “cuidareis“?

Respostas:

Mishpatim são as leis, são ordens que me indicam o que fazer e o que não fazer. Chucot são os caminhos ou princípios por onde nos devemos encaminhar, tal como diz o versículo: bechucotai telechu – nas Minhas chucot andarão.

Cuidareis refere-se a prestar atenção e cuidar para fazê-lo bem e não de forma automática.

A Torá não é um livro de leis sem sentido. Existe um princípio, uma ideia que é o fio condutor de todos os preceitos. O princípio ao qual nos referimos neste caso é viver com elas.

Podemos analisar isto em três categorias diferentes:

  1. Como um princípio básico da Torá,
  2. Como um detalhe de uma lei, ou
  3. Como um ensinamento: A preservação da vida antecede o cumprimento dos preceitos.

Se alguém corre risco de morte, deve transgredir imediatamente os preceitos que forem necessários e salvar-se. Ou se um não judeu obrigar um judeu a transgredir um preceito sob ameaça de morte, o judeu (salvo muito raras exceções) deve transgredir e salvar-se, pois está escrito e viverás com elas, não está escrito morrerás com elas.

O sentido profundo de tudo isto é que as leis da Torá não são violentas mas sim fruto da misericórdia, da bondade e da harmonia.

Como vemos, a Torá não exige demasiado do homem, nem espera que ele entregue a sua vida por qualquer preceito ou ordem; ao contrário, o objetivo é dirigi-lo pelo caminho que lhe assegure a manutenção da vida, tanto física como espiritual, da melhor maneira possível.

Parashat Metzorá

Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaak Sakkal e Natan Menashe.

Metzorá (A Lepra?)

Como é sabido, os sábios de Israel relacionam a doença bíblica de Tzaraat (mal traduzida por lepra) com o falar mal: o Lashon Hará (falar mal do seu próximo), Rechilut (fofoquice), falar desenvergonhadamente, etc.

Rambam explica-o assim: a doença de Tzaraat refere-se a vários temas. Alguns tinham a ver com a pele do ser humano que se tornava branca, outras vezes tinha a ver com a queda do pêlo, fosse no couro cabeludo ou na barba. Os efeitos causados pela infeção nas roupas ou nas casas, onde apareciam manchas de cor, recebiam o mesmo nome.

Estas manchas ou mudanças, fossem no corpo do ser humano ou no seu cabelo, no seu vestuário ou na sua casa, não eram uma doença natural ou conhecida nos nossos dias, mas sim algo milagroso, cujo objetivo era advertir o povo para não cair em falatórios e para controlar a sua fala, pois esta pode destruir um indivíduo.

É por isso que quando uma pessoa falava mal de outra, as paredes da sua casa mudavam de cor, infetando-se com umas manchas. Se o indivíduo se arrependesse, então a casa voltava ao normal. Senão, os utensílios de couro da casa também se infetavam e apareciam manchas. Se, apesar disto, a pessoa continuasse na sua maldade, então o seu próprio vestuário começava a ganhar manchas de Tzaraat. Se se arrependesse, então tudo voltava ao normal. Senão, era a sua própria pele que mudava de cor e desta maneira o indivíduo ficava infetado de Tzaraat. Nesse caso era separado do povo até ao ponto de não poder conversar com ninguém, e tinha que ficar só.

Aquele que causasse que as pessoas se afastassem do seu próximo com os seus falatórios, era agora quem ficava afastado dos outros. Tal como fez aos demais, agora acontecer-lhe-á o mesmo.

Isto é o que De’s enfatiza quando nos diz que recordemos o que De’s fez a Miriam quando ela falou de mais acerca do seu irmão Moshé. Apesar de Miriam ser vários anos mais velha que Moshé, e de ter sido ela que salvou Moshé das mãos dos Egípcios que o iam matar, e apesar de não ter falado mal de Moshé, mas sim de apenas ter considerado Moshé no mesmo nível dos outros profetas, e apesar de Moshé não ter ficado incomodado por isso, De’s castigou Miriam com Tzaraat. A conclusão à que deveríamos chegar é a de que se isto aconteceu com Miriam, quanto mais cuidado temos que ter nós de não falar mal do nosso próximo.

Por tanto, é apropriado que quem quiser andar nos caminhos de De’s se afaste daquelas pessoas que nas suas reuniões falam mal dos outros ou criticam os seus semelhantes, para que deste modo não fique preso nas malhas destes falatórios e seja passível de castigo. Porque as pessoas vulgares costumam começar por falar de assuntos sem importância e logo passam a falar mal das pessoas justas e boas, e deste modo costumam criticar todo o mundo, inclusive os profetas, põem em causa a palavra destes mensageiros de De’s, e acabarão por falar mal de De’s e por renegar Dele.

No entanto a maneira de falar de uma pessoa justa e piedosa é abundante em palavras de Torá e sabedoria, com cuidado de não agredir ou magoar os outros.

Isto é o que Rambam escreve sobre este assunto no seu cometário a Pirkei Avot:

            Capítulo 1 Mishná 16

            Shimón seu filho diz: Todos os meus dias me eduquei entre os sábios e não encontrei       nada melhor para o corpo do que o silêncio. O principal não é o estudo, mas sim a ação            [ou seja, levar o estudo à prática quotidiana], e todo aquele que se excede em palavras,        carrega para si uma transgressão.

“Todo aquele que se excede em palavras, carrega para si uma transgressão.”

Afirmou o sábio [rei Salomão]: Da multidão de palavras, não se ausenta a transgressão. O motivo disto é devido a que quando a pessoa acrescenta comentários, certamente cairá em transgressão, pois é impossível que nos seus acrescentos não haja algo que não seja apropriado dizer [e que estava a mais]. A melhor prova de que alguém é sábio é que fala pouco, e o melhor indício de que alguém é insensato é falar em demasia [Refere-se a que se for possível dizer algo que possa ser perfeitamente compreensível utilizando duas ou três palavras, não deve fazer um grande discurso para dizer a mesma coisa], como está dito: A voz do insensato [vem acompanhada] da multidão de palavras e já disseram os sábios “Ser breve é a característica dos sábios” e foi dito no livro Hamidot: Um dos sábios mantinha-se bastante calado, porque não falava nem uma palavra que não fosse digna de ser dita, por tanto falava bastante pouco. E foi questionado: Qual é a causa dos teus assíduos silêncios? E respondeu: Analisei todos os diálogos e encontrei que se dividem em quatro categorias:

A primeira é completamente nociva, sem proveito algum, tal como as maldições das pessoas ou palavrões e coisas desse estilo, que quem as diz comete uma grande estupidez.

A segunda tem um prejuízo por um lado e um benefício por outro, como sejam os elogios às pessoas. Por um lado o elogiado [e os que escutam] aprendem o que é bom fazer, mas, por outro lado, esse elogio é algo que vai encolerizar o inimigo daquele indivíduo, e tentará prejudicá-lo. Por esse motivo, é preferível abster-se deste tipo de diálogos.

A terceira são aquelas coisas que não têm nenhum proveito nem nenhum dano, como é o caso da maioria dos diálogos das pessoas comuns, [como por exemplo] como foi construída tal parede, ou como foi construído o portão, o descrever a beleza da casa de fulano, ou a quantidade de torres de tal cidade, e coisas desse estilo. Apesar de todas estas coisas estarem dentro da categoria das coisas permitidas [de falar], isso não quer dizer que tenham algum proveito.

A quarta categoria contém aqueles diálogos cujo conteúdo é útil na sua totalidade, como as conversas sobre temas de sabedoria, de boas qualidades, ou das necessidades básicas do ser humano, como as necessárias para nos mantermos com vida e preservarmos [a nossa saúde]. Sobre estes assuntos é sim permitido falar.

Cada vez que escuto [ou participo de uma conversa], analiso-a. Se corresponderem à quarta categoria então converso, mas se pertence a alguma das outras três categorias, então fico calado.

Disseram os sábios de musar [ética]: este homem é digno de imitar.

E eu digo que a fala, de acordo com a Torá, se divide em cinco géneros: 1) Os que são um preceito, 2) Os que fomos advertidos [para não falar], 3) Desprezíveis, 4) Desejados e 5) Permitidos.

Na primeira categoria, os que são um preceito, incluem-se a leitura da Torá e o seu estudo, que é um preceito específico, como foi dito “E falarás delas” (Deut. 6:7), até ao ponto que [a sua importância] foi equiparada à de todos os preceitos [em conjunto].

A segunda categoria, as coisas que nos estão vedadas de falar, como o falso testemunho, a mentira, falatórios, maldições, palavrões e maledicências, tal como a Torá nos adverte em vários versículos.

A terceira classe refere-se às [conversas] desprezíveis, que não têm nenhum proveito para a alma do Homem, nem bom, nem mau. Como a maioria das coisas que as pessoas contam acerca do que aconteceu, ou quais eram os costumes de tal rei no seu palácio, ou qual foi o motivo da morte de fulano, ou como enriqueceu sicrano. Este tipo de diálogos foram chamados pelos sábios “Conversas vãs” e os piedosos esforçam-se por evitar este tipo de conversa. Conta-se acerca de Rab, aluno de Rabi Chiá, que nunca teve conversas vãs na sua vida. A esta categoria também pertencem aquelas conversas onde algum valor importante é desprezado, ou alguma baixa qualidade, seja moral ou racional, é enaltecida.

A quarta categoria pertence aos diálogos desejados, quer dizer, quando se fala acerca da importância [e elogio] de alguma boa qualidade, tanto das racionais como das morais, ou, pelo contrário, denegrir as más qualidades dos dois tipos [tanto as racionais como as morais]. Incentivar o espírito na direção das [coisas] elevadas, seja através de relatos e cantos, ou igualmente evitar, através desses mesmos meios, a baixeza. Do mesmo modo, elogiar as pessoas importantes e exaltar as suas boas qualidades, para serem imitados pelas demais pessoas. Igualmente menosprezar [a atitude de] os malvados, para que as suas ações sejam desprezadas aos olhos das pessoas e se afastem deles e não queiram imitá-los.

A quinta categoria, as conversas permitidas, refere-se às coisas que são lícitas falar para o seu comércio e manutenção, alimentos e bebidas, vestuário e demais coisas necessárias para a sua subsistência, tudo isto é permitido.

No entanto, esta categoria não é nem desejada nem desprezada. Se desejar pode falar sobre estes assuntos o quanto quiser, ou, se assim preferir, pode não falar nada destes assuntos.

Nesta categoria [enquadram-se] as pessoas que são elogiadas por fugir a este tipo de conversa. Os sábios do Musar já advertiram de não ter este tipo de conversa em abundância, mas quanto às conversas que se enquadram na categoria das vedadas (a segunda categoria), ou das desprezíveis (a terceira categoria), não é necessária advertência alguma, onde se impõe guardar um absoluto silêncio. [E não falar de coisas que estão proibidas]. Ao contrário, os diálogos cujo tema são preceitos (a primeira categoria), ou os desejados (a quarta categoria), se a pessoa pudesse falar deles todo o dia, seria o ideal.

No entanto há que ter cuidado com duas coisas: a primeira, que os seus atos sejam coerentes com as suas palavras, tal como disseram: “Belas são as palavras que saem da boca de quem as pratica.”, a isto se referiram ao dizer: “Não é a prédica o essencial, mas sim a prática.” e os sábios elogiavam quem lhes ensinava as boas qualidades dizendo: “Prega, pois tu és digno de pregar.” e disse o rei David: “Regozijai-vos no Eterno, ó justos. O elogio é belo para os justos.” (Sal. 23:1)

A segunda é ser breve, quer dizer, que se esforce em poder dizer muitas coisas com poucas palavras e não ao contrário. Isto é o que disseram os sábios: “Constantemente deve o mestre ensinar aos seus alunos o caminho sintético”.

É preciso que saibas que as canções, qualquer que seja a língua, devem ser selecionadas de acordo com a classificação de categorias que mencionamos no que diz respeito às conversas. Esclareço este ponto apesar de ser evidente, pois tenho visto anciãos e pessoas piedosas, pessoas de [muita] Torá, que, nos festejos, como nos casamentos ou parecidos, quando se quer entoar uma canção, [em honra dos homenageados] se as canções forem em qualquer língua [sem ser em hebraico], apesar do tema da canção ser a valentia ou a generosidade, e nesse caso se enquadrar na quarta categoria (dos desejados), ou [se o tema da canção for] acerca das virtudes do vinho, são [do mesmo modo] recusadas terminantemente. Mas se a canção for em hebraico, são aceites independentemente do conteúdo da canção, apesar de se tratar de coisas enquadradas na segunda categoria, do que nos está vedado, ou na terceira categoria, das desprezíveis. [Sem dúvida agir assim, ou seja, aceitar ou rejeitar as canções segundo a língua, independentemente do seu conteúdo] é um total disparate, porque não é a língua [o que as qualifica ou desqualifica], mas sim o conteúdo, pois se o seu conteúdo é bom, então deve dizê-lo, em qualquer língua que seja, e se a intenção da canção for algo desprezível, independentemente da língua, não deve entoá-la.

Mais um esclarecimento tenho para acrescentar acerca deste ponto, e é que, se houver duas canções, cujo tema em ambas seja aumentar a paixão e enaltecê-la, e se se agradará muito [às pessoas com esta canção], apesar de ser uma baixeza que se insere na categoria dos diálogos desprezíveis, pois inculca e incentiva uma baixa qualidade, tal como mencionei no quarto capítulo da introdução ao Pirkei Avot; se uma dessas duas canções é noutra língua qualquer e a outra em hebraico, ouvi-la em hebraico é uma afronta mais grave para a Torá, devido ao carácter exemplar do idioma hebraico, o qual não é digno utilizar senão para coisas elevadas. [A coisa] é pior, se acrescentarem versículos da Torá ou do Cântico dos Cânticos para esse tipo de canções, em cujo caso, já sai do grupo dos diálogos desprezíveis para se qualificar na categoria dos diálogos vedados. Pois a Torá proíbe que se faça com as profecias qualquer tipo de cantos [ou “slogans”] baixos para coisas desprezíveis.

Como já mencionei que o assunto da maledicência [Lashon Hará] entra dentro da categoria das conversas vedadas, vi oportuno esclarecer este tema, e recordar algumas coisas das que foram ditas a esse respeito. Pois o ser humano ignora que se trata da transgressão mais grave entre o Homem e o seu próximo, que se comete frequentemente. Ainda para mais tendo em conta o que disseram os sábios, que nenhuma pessoa está limpa do pó [quer dizer, não da calúnia em si mas de algo que ainda não chega a ser calúnia, mas está muito perto de o ser] da maledicência  (Avak Lashon Hará), e quem me dera que se pudesse salvar da maledicência em si.

A maledicência [Lashon Hará] é quando se relatam os erros ou defeitos de um indivíduo, ou desprezar a qualquer judeu, através de qualquer tipo de humilhação, apesar de na verdade o humilhado realmente ter esse defeito que foi relatado. Pois a maledicência não se trata de dizer sobre uma pessoa coisas que não sejam verdade, pois [quando não é verdade] isto denomina-se calúnia, [Motzí shem rá al chaveró –  tirar mau nome ao seu companheiro] mas a maledicência é humilhar um indivíduo, mesmo que com coisas que são verdade. Tanto quem diz [a maledicência] como quem ouve, estão a cometer uma transgressão. Disseram os sábios: “São três os que a maledicência mata: quem diz, quem escuta e aquele de quem se diz [o defeito].” Mais ainda disseram: “Quem escuta a maledicência peca mais do que quem a diz.”

O pó da maledicência é [por exemplo] falar dos defeitos de uma pessoa sem os especificar. Assim disse o rei Salomão, com respeito a este assunto: às vezes a pessoa transmite aos outros sem reparar algum defeito de um companheiro, sendo outra a sua intenção: “Como um louco que lança tochas acesas, setas e morte, assim é o homem que engana o próximo e diz: ‘Mas não o fiz eu na brincadeira?’ (Prov. 26:18-19) [Existe um relato no qual] um dos alunos de Rabí enalteceu em público um livro que o próprio autor lhe mostrou. E admoestou Rabí a ação de enaltecer em público o autor desse livro dizendo-lhe: “Afasta-te da maledicência.” O que lhe quis dizer [Rabí ao seu aluno, foi] tu provocas um dano [ao autor] ao elogiá-lo em público, pois entre os assistentes certamente se encontram pessoas que gostam [desse autor] e pessoas que o detestam, e então, aqueles que o criticam, ao ouvir os teus elogios, deverão sublinhar também os defeitos e os erros [desse autor]. Isto é o ponto ideal de afastamento da maledicência.

E o que a Mishná expressa: “A sentença sobre os nossos antepassados não foi selada senão pela [transgressão] da maledicência. Quer dizer, no acontecimento dos espiões que Moisés enviou para espiar a Terra de Israel, sobre os que foi dito: “E trouxeram as humilhações da terra” (Num. 13:32), disseram os sábios “Se os que não disseram calúnias, senão somente contra as árvores e contra as pedras, foram submetidos a semelhante castigo, aquele que fala dos defeitos do seu próximo, quanto mais grave será [o castigo]!” E assim se expressou a Toseftá [conjunto de dizeres dos sábios da época da Mishná, que não foram compilados na Mishná, mas sim na Toseftá – que literalmente quer dizer “acrescentados”]. Três coisas o Homem tem que pagar neste mundo e não tem parte no mundo vindouro: Idolatria, relações sexuais proibidas e assassinato, e a [gravidade da] maledicência [equipara-se] aos três juntos.” e disseram no Talmud: “Quando fizeram idolatria [o bezerro de ouro], foi utilizado o adjetivo ‘grande’, tal como diz: ‘Cometeu este povo um pecado grande’ (Ex. 32:31) e sobre as relações sexuais proibidas também foi utilizado o adjetivo ‘grande’, como disse [José]: ‘Como farei um mal tão grande?’ (Gen. 39:9) e no que diz respeito ao assassinato, também foi utilizado o adjetivo ‘grande’, como disse [Caim]: ‘Grande é a minha dor para poder carregá-la’ (Gen. 4:13). Mas quanto à maledicência, utilizou-se a palavra ‘grandes’ [no plural], querendo dizer que é equiparável às três juntas, é o que diz: ‘Uma língua que fala coisas grandes’ (Sal. 12:4). Muito falaram os sábios acerca do pecado da maledicência, e o mais grave que disseram sobre este tema: “Todo aquele que conta maledicências, renega dos princípios básicos do judaísmo, como está escrito: ‘A nossa língua faremos poderosa, nossos lábios estão connosco, quem é senhor sobre nós?’ (Sal. 12:5)

Apesar de me ter estendido bastante, referi-te apenas uma parte de tudo o que disseram no que diz respeito a este pecado; para que a pessoa se afaste com todas as suas forças, e tente permanecer em silêncio, refiro-me a esta terceira categoria de diálogos [Os desprezíveis].

Parashat Mishpatim

Retirado do livro Ideas de Bereshit, dos rabinos Isaak Sakkal e Natan Menashe.

Enviarei o meu anjo diante de vós

Eis que enviarei um anjo diante de ti, para te cuidar no caminho e trazer-te ao lugar que designei para ti. A ele obedecerás e a sua voz escutarás. Não te rebeles contra ele porque não o perdoará, já que o Meu Nome está nele. Mas se escutares a sua voz e cumprires os seus mandamentos, Eu serei inimigo dos teus inimigos oprimirei os teus opressores (…) Não te inclinarás perante o seus deuses, nem os servirás nem farás como eles fazem. Destrui-los-ás totalmente e as suas estátuas destruirás (…) E enviarei a Tzirá diante de vós e expulsará os povos jiví, cnaani e jití (…) Não pactuarás com eles nem com os seus deuses e não habitarão na tua terra, não aconteça que te façam pecar contra Mim, tentando-te a que sirvas os seus deuses.

A função do anjo é guiar o povo pelo caminho e conduzi-lo à Terra de Israel. Em princípio, este anjo apenas os iria guiar pelo caminho, mas ao terem feito o bezerro de ouro, agora o anjo não só lhes indicará o caminho, mas também será ele a aplicar a justiça, quer dizer, estarão nas mãos dele. No entanto, pelo mérito de Moisés, De’s continuou com o povo. É por isso que quando Moisés morre, vem um anjo, que é o anjo que Yehoshua vê.

A ideia é deixar bem claro que é De’s (através de um anjo) quem os conduz. Para que não pensem que são eles mesmos que farão as coisas e que lutarão e semearão o medo entre os inimigos, mas sim De’s.

O homem precisa de grandes exércitos para vencer. De’s não precisa disso. Fá-lo com a Tzirá, que são abelhas, pequenos insetos. Talvez se trate da vespa assassina de abelhas asiáticas (Vespa Simillima Xanthoptera). Esta vespa causa na atualidade uma média de 108 mortes por ano, devido ao choque anafilático que o seu veneno causa nos seres humanos.

Tal como foram enviados gafanhotos ao Egito, agora serão enviadas vespas aos povos de Canaã.
Por outro lado, o motivo pelo qual será a De’s a lutar por eles é porque De’s não quer que o povo se torne demasiado agressivo e belicista, afundado em guerras, ou, talvez, porque não quer que se cansem das guerras e façam a paz e convivam com os outros povos idólatras e malvados aos Seus olhos. Estes são os motivos pelos quais é De’s quem se encarregará dos inimigos e eles terão apenas uma pequena participação. As guerras são vencidas graças à ajuda de De’s. Às vezes será graças a um milagre manifesto e outras será através de uma influência de De’s menos exteriorizada.

Existe outro perigo latente, que é a assimilação dos filhos de Israel com os povos cananitas. É por isso que De’s quer evitar que se relacionem com eles ou que aprendam com eles. Esse é o motivo pelo qual lhes prescreve agora todas estas leis:

1 — Para se afastarem e se diferenciarem dos idólatras, e
2 — Para servir a De’s

Parashat Yitro

Retirado do livro Ideas de Bereshit, dos rabinos Isaak Sakkal e Natan Menashe.

Anochí HaShem

O primeiro versículo dos Dez Mandamentos começa assim: Eu sou o Senhor teu De’s, que te tirou da Terra do Egito, de casa da servidão.

Este versículo tem duas partes: A primeira é Eu Sou e a segunda é te tirou do Egito.

A pergunta que o Midrash faz é: Para que vem esta segunda parte?

Há quem diga que é a explicação de Anochí, quer dizer, é para quem pergunta quem é Anochí.

Isto está de acordo com Rabí Yehuda Halevi (Kusari). Para ele, se queres saber quem é HaShem, tens que saber HaShem é quem te tirou do Egito, é quem fez todos aqueles milagres.

Ramban (Nachmánides) diz, sobre Anochí, que se realmente queres saber quem é Anochí, tens que observar as Suas obras, e a Sua maior obra é a Criação. No Egito vimos os milagres, e estes milagres falam-me de um Criador que controla a natureza e altera-a quando quer. Portanto, quem é HaShem? Ele é Bore Olam, o Criador do Mundo e quem controla a natureza.

Rambam (Maimónides) define-O de uma maneira completamente diferente destas duas definições anteriores, e diz que o versículo não vem explicar quem é Anochí, sendo Anochí o próprio preceito, quer dizer, saber que De’s existe e é o soberano de tudo, que controla tudo e que tudo Lhe pertence, tal como mencionado no Sefer HaMitzvot. E como explica a continuação do versículo? Rambam defende, tal como explicado no Midrash, (Shemot Rabba secção 29:3): “Tirei-te para isto”, para tomares HaShem como teu De’s, teu Senhor. Por isso depois diz Mi beit avadim, quer dizer, antes eram escravos do faraó, agora são servidores de HaShem. Por outras palavras, De’s “obriga-nos” a receber a Sua Malchut, a reconhecer que Ele é o Rei, e se perguntarmos “Porque tenho que aceitar isso?” – Porque Ele te tirou do Egito; agora és dEle. Ele adquiriu-te.

Foi para isso que nos tirou do Egito (Para servir De’s neste monte): Para deixarmos de ser escravos do faraó ou de qualquer outra coisa deste mundo, e sermos servos de De’s, que é o mais sublime, e, dessa maneira, estarmos elevados por sobre todas as coisas deste mundo.

E porque diz Elokecha (teu De’s), e não Elokim (De’s)? Seria melhor utilizar o termo mais geral. Porque utilizar um termo tão particular?

Existem duas possíveis respostas a esta pergunta:
1) É como se De’s nos dissesse: “Tu viste tudo o que fiz, tu eras escravo, sobre ti recai mais do que sobre os outros a obrigação de aceitar Kol Malchut Shamaim, reconhecer que Ele é soberano.
2) Porque tirou apenas o povo judeu e não outros povos.