Parashat Vaerá

Num lugar onde todos os homens são livres e não há escravos, De’s é reconhecido como rei. Mas onde há senhores e escravos, Seu nome é profanado.

A Libertação de Israel

Baseado nos ensinamentos de  Rav Mordejai Elon

A partida do povo de Israel do Egito não é apenas um relato histórico, é a eterna busca do homem pela liberdade que é continuamente apresentada em cada geração. A libertação como conceito abstrato parece distante para nós, no entanto, na consciência judaica, é expressa em nosso comportamento diário com os que estão ao nosso redor.
Esse aspecto é mencionado no relato da partida do Egito, que simboliza a libertação da opressão de uns sobre outros e transcende a consciência universal.
Nesta Parashá, encontramos um facto pouco conhecido: no povo de Israel havia aqueles que tinham uma situação melhor e que podiam dar-se ao luxo de ter escravos do seu próprio povo. Quem o fazia não teve pressa de deixar o Egito.
Dentro do povo judeu, o particular e o universal estão interconectados e refletidos nos preceitos. Vejamos a mitzva de comer reclinado (Hasavah) na noite do Seder de Pessach. De acordo com nossos exegetas, não basta comer a matzá e beber os quatro copos de vinho, é necessário que isso seja feito em conformidade com a mitzva de nos reclinarmos, um símbolo de que aqueles que o fazem são homens livres. E os sábios dizem: “até o homem mais pobre deve obedecer ao preceito de comer reclinado”.
Por que comer reclinado é tão importante? Como aparece nos escritos de Maimonides: “Em cada geração, cada um deve sentir-se como se tivesse saído da escravidão no Egito, como está escrito, Ele nos redimiu”, isto é, todos nós temos um “Mitzraim (Egito) do qual devemos nos libertar.” Do mesmo modo, o primeiro dos Dez Mandamentos expressa: “Eu Sou o teu De’s, que te tirei da terra do Egito, de uma casa de servidão” (Êxodo 20-2). A casa de servidão, neste caso, não se refere ao Egito, mas à servidão que o povo de Israel infligiu a seus irmãos. Como é isso? No Egito, o povo tinha classes sociais e os mais ricos tinham escravos de seu próprio povo; convenientemente, eram eles os que desejavam adiar a saída do Egito.

Algo semelhante aconteceu na época do Primeiro Templo, conforme declarado pelo profeta Jeremias no capítulo 34, onde se diz que ele ordenou que o povo libertasse seu escravo ou escrava hebreus, para que ninguém usasse seus irmãos judeus como escravos. Mas então eles mudaram de ideia e trouxeram de volta os escravos e escravas que haviam libertado e os subjugaram. Então De’s disse: “Eu fiz um pacto com seus pais, disse De’s de Israel, no dia em que os tirei da terra do Egito, de uma casa de escravidão, dizendo: A cada sete anos libertará cada um o seu irmão hebreu que se lhes tiver vendido. Mas seus pais não me ouviram, nem inclinaram o ouvido.”
Visto que o povo não proclama liberdade aos seus irmãos e irmãs, o Altíssimo proclama a liberdade à espada para a praga e a fome, para que estas possam destruir a terra.
A própria essência de possuir escravos é uma profanação do nome divino, porque num lugar onde todos os homens são livres e não há escravos, De’s é reconhecido como rei. Mas onde há senhores e escravos, Seu nome é profanado, pois a presença divina está oculta aos homens.
Infelizmente, em muitos estágios da história do povo judeu, essa situação foi repetida. O problema no Egito, e o que é descrito em Jeremias sobre a escravidão do povo nas mãos do próprio povo, foi repetido em momentos diferentes, só que em cada período recebe outra denominação. Devemos enfatizar que é muito provável que esses judeus que compraram seus irmãos dos egípcios simplesmente o fizeram porque podiam receber mão de obra barata e pagar.
Isso nos remete a Moisés, que vem ao povo de Israel para propor que haverá liberdade, e alguém o impede de o dizer: “não vai dar, todo o sistema está estabelecido assim …”, ou, na linguagem do profeta Jeremias: “Mas seus pais não ouviram nem inclinaram o ouvido”.

É uma situação clara: por parte dos que escravizam, há um interesse econômico em deixar a situação como está e, por parte dos escravizados, é a única situação que eles conhecem. Não é em vão que a praga das trevas que aparecerá na próxima Parashá é considerada “dupla escuridão”, porque a pior escuridão é a escuridão onde se encontram aqueles que não têm consciência do estado em que estão e que, portanto, não podem conceber uma mudança na sua situação. Nessas circunstâncias e aos seus olhos “dois quilos de liberdade” valem menos que “cem gramas de pão”.
Agora podemos entender por que é tão importante que, no Seder de Pessach, mesmo quem é pobre possa comer reclinado, para ter consciência de que é um homem livre.
A partida do povo do Egito é, em primeira ordem, a redenção de Israel de si mesmos, numa situação em que nenhum judeu escraviza outro e, quando chegarmos a isto, pode então dar-se a partida do povo do Egito e a transformação do povo em “luz para as nações”.
Como dizem nossos sábios, o povo de Israel foi libertado pela mão divina porque não mudou seus nomes, roupas ou idioma, mas não apenas porque foram culturalmente preservados, mas também porque sofreram uma transformação socioeconômica que os libertou de se verem como senhores uns dos outros, vendo-se como todos iguais, para não profanar o nome divino no mundo.
O preceito de comer reclinado no Seder não recai apenas sobre os indivíduos, mas é uma obrigação de toda a comunidade cuidar dos pobres e dos necessitados, para que possam comer reclinados, sentindo-se verdadeiramente livres.
Enquanto houver um judeu que não possa comer reclinado, é possível pensar que, embora deixemos o Egito, o povo de Israel ainda não foi resgatado …
É então que entendemos o que Maimônides escreveu: cada um de nós deve sentir-se como se tivesse deixado o Egito e poderemos fazer isto ao nos preocuparmos e cuidarmos para que todos os pobres possam “comer reclinados”, sentindo-se livres.

Com base nos ensinamentos de Rav Mordechai Elon, para mais informações, consulte http: // www. elon.org/archives/archives.htm

Parashat Shemot

Quem é o Moisés que foge do Faraó e que é chamado perante a sarça ardente para libertar a nação de Israel? Quais são as mudanças que lhe ocorrem?

A crise de Moisés

E consentiu Moisés em morar com o homem e ele deu Tsipora, sua filha, para Moisés. E deu à luz um filho e chamou seu nome Guershom, porque disse: «Estrangeiro sou, em terra alheia.» E foi passado muitos dias, e morreu o rei do Egito, e suspiraram os filhos de Israel por causa do trabalho, e gemeram, e subiram os seus clamores a De’s pelo trabalho. E ouviu De’s os seus clamores e lembrou-se De’s da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacob. E viu De’s os filhos de Israel, e conheceu-os. E Moisés estava a pastar o rebanho de Itró seu sogro, sacerdote de Midián, e levou o rebanho para trás do deserto, e veio a Choreb, monte de De’s. (Êxodo 2:21 a 3:1)

Com estes escassos versículos, a Torá fala-nos sobre a vida adulta de Moisés, a partir do momento em que sai para ver os seus irmãos até que regressa ao Egito, aos oitenta anos de idade.

Várias décadas são sintetizadas nestes três versículos. Todo o desenvolvimento espiritual e a construção do caráter do Moisés adulto são-nos ocultos. Quem é o Moisés que foge do Faraó e que é chamado perante a sarça ardente para libertar a nação de Israel? Quais são as mudanças que lhe ocorrem?

Mas antes de nos determos no conteúdo da Parasha, vamos comparar Moisés com outra grande personalidade: A de Abraão, nosso Patriarca.
Abraão também aparece na cena bíblica já na idade adulta, cheio de glória espiritual, depois de se ter transformado em Abraham Haivri, o hebreu, que vem do outro lado do rio, o escolhido pelo Altíssimo para a fundação do povo de Israel.

Embora pouco saibamos sobre estes dois pró-homens através do relato bíblico, o Midrash, no caso de Abraão, expande o nosso conhecimento, através da narração das suas aventuras em Haran e Ur Kasdim. Mas no caso de Moisés, o Midrash continua a mesma tendência bíblica da ocultação. Por quê?

A resposta está numa diferença básica entre estas duas personalidades, em relação à natureza desse período desconhecido das suas respectivas vidas. No caso de Moisés, a Torá conta-nos a sua vida «desde o berço até ao túmulo»; o silêncio na história ocorre no meio da sua vida. Conhecemos o nascimento do jovem levita, lemos sobre a sua infância no palácio do faraó e acompanhamos as suas ações de perto quando ele é um jovem que simpatiza com o destino dos seus irmãos e depois desaparece, e o texto mergulha num longo silêncio, que não se dissipa até ao seu reaparecimento várias décadas depois.

Este desaparecimento no meio da história é, portanto, parte integrante da própria história. A falta de eventos representa uma lacuna a ter em conta, o que indica o isolamento de Moisés do mundo, e a sua profunda transformação altera o curso da sua vida.

Ele não segue o mesmo caminho que seguira até àquele dia, mas está caminhando numa direção completamente nova: Afastamento e isolamento. O silêncio do texto é uma expressão da vida hermética que Moisés vive durante esses anos.

Uma análise cuidadosa da história revela-nos que o afastamento auto-imposto provém de uma crise. O que a causou e quais foram as suas consequências?

Para responder a isso, precisamos de rever o que aconteceu com Moisés antes da sua partida do Egito e o seu caráter espiritual naquele momento, como aparece no texto.

A Torá fornece-nos dois episódios: Um é o encontro com o homem egípcio que está batendo num escravo judeu, e o segundo é sobre o que aconteceu com Moisés quando viu dois judeus brigando.

Se tivermos que descrever a personalidade de Moisés com base nestes dois relatos, diríamos que é um jovem com alta sensibilidade moral, que não pode tolerar nenhuma expressão de injustiça. Uma profunda chama moral ilumina-o desde as profundezas da sua personalidade quando vê o egípcio atingindo o escravo judeu, e uma grande sensibilidade à injustiça se manifesta quando vê dois membros do povo judeu brigando.

No entanto, há uma qualidade adicional: A sua natureza sensível. Ele deve agir, por isso reage, tentando corrigir a situação: Ataca o egípcio para fazer justiça e repreende os dois judeus pela sua briga.

É importante destacar o contexto em que essas duas ações ocorrem: Até àquele momento Moisés tinha passado a sua vida no palácio do Faraó, sem que nada lhe faltasse. Conseguiu sempre tudo o que queria, não passou nenhuma necessidade, discriminação ou injustiça direcionada a ele ou aos que o rodeavam, até que enfrenta em primeira mão o sofrimento dos seus irmãos. A sua alma nobre e sensível, sem experiência nas turbulências da vida fora do palácio, confronta-o com a realidade obtusa do mundo e leva-o a uma profunda crise. Quando ele vê os dois judeus brigando, reage tentando separá-los, mas apercebe-se da profunda dificuldade de impor a justiça.

Antes dessa exposição à cruel realidade , ele nunca imaginaria uma nação tão oprimida e humilhada nas mãos de inimigos cruéis, por isso assume que é uma nação capaz de fazer tudo o que for necessário para alcançar a liberdade. Mas, ao ver a realidade socioeconómica a que foram resumidos, percebe que eles não têm nem o desejo nem a inclinação de se opor à sua situação amarga. Só encontra apatia e mais injustiça na maneira em que o povo escravizadao por um tirano vê o mundo. Estes seres que vivem em opressão reagem com desdém e zombaria às suas tentativas de impor justiça, o que aumenta em Moisés o sentimento de que nada pode ser feito e de que o que resta é desespero e depressão. Moisés tenta voltar as costas a essa realidade, fugindo para Midian, onde é confundido com um egípcio pelas filhas de Itró.

Passará um longo período até que Moisés consiga matar o seu egípcio interior, para poder se aproximar dos seus irmãos novamente. Das profundezas da sua alma ferida pela deceção, ele escolhe viver uma vida solitária, onde «leva o rebanho para trás do deserto»

E veio a Choreb, monte de De’s: A sua tentativa de isolamento confronta o seu desejo de encontrar De’s.

Não encontramos De’s na sociedade corrupta e agressiva, mas sim no deserto. É aí que Moisés encontra a espiritualidade e a sabedoria, o que lhe permitirá, sob a tutela divina, mudar a dura realidade e ser capaz de redimir os oprimidos. O único objetivo do episódio da sarça ardente é tirá-lo do seu isolamento e devolvê-lo à esfera de ação num nível histórico nacional, que é acompanhado pelo reconhecimento, por parte de Moisés, da transformação do nome de De’s, que lhe revela outra faceta do Altíssimo, Aquela que age no meio da realidade histórica da humanidade e que o acompanhará ao longo de toda a narrativa do livro de Shemot.

Autora: Edith Blaustein

Parashat Vaiechi

Não há maior bênção do que a paz entre irmãos.

A Bênção de Efraim e Menashe

Jacob percebe que está prestes a morrer, e, para fazer um «testamento ético», convida os seus doze filhos para receberem uma bênção. Mas primeiro chama, para os abençoar, os seus dois netos, filhos de José: Efraim e Menashe.

Por que Jacob prioriza a bênção dos seus netos? Há um significado muito profundo na bênção dada por Jacob. Um dos mais belos costumes da vida judaica é que os pais abençoam os filhos no início do jantar de Shabat, todas as sexta-feiras à noite. As meninas recebem a bênção «Que De’s te faça como as matriarcas, Sara, Rebeca, Raquel e Léia.» Enquanto que aos meninos se diz: «Que De’s te faça como Efraim e Menashe».

Que aconteceu aos patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob? Porque foram Efraim e Menashe escolhidos em vez deles, para essa importante tradição?

Os nossos Sábios oferecem duas explicações:

Uma ideia é que Efraim e Menashe foram o primeiro grupo de irmãos que não brigaram. Os filhos de Abraão, Isaac e Ismael, não conseguiram dar-se bem e as suas divergências formaram a base do conflito árabe-israelita de hoje em dia.

Os dois filhos de Isaac, Jacob e Esav, eram tão contenciosos que Esav quis matar Jacob repetidamente e ordenou aos seus descendentes que fizessem o mesmo.

Os filhos de Jacob também caíram na violência ao vender o seu irmão Joseph como escravo.

Isto explica a razão pela qual, quando Jacob abençoou Efraim e Menashe, trocou intencionalmente as mãos, abençoando primeiro o mais novo e depois o mais velho. Jacob queria enfatizar que não deveria haver rivalidade entre esses dois irmãos (Génesis 48:13 e 14).

É com esse pensamento que os pais abençoam os seus filhos hoje em dia, pois não há maior bênção do que a paz entre irmãos.

Esse mesmo desejo é o que De’s tem em relação a todo o povo judeu.

Outra explicação para entender porque as crianças judias recebem a bênção de Efraim e Menashe é dada pelo rabino Shimshon Rafael Hirsch:

A primeira geração de judeus, Abraão, Isaac e Jacob, educou os seus filhos principalmente na terra de Israel. A Terra Sagrada é o ambiente judaico mais receptivo, sobre o qual o Talmud relata que «até o ar te faz sábio». Então, de certo modo, educá-los foi relativamente fácil. Mas depois, devido à fome, Jacob e a sua família foram para o Egito. A geração seguinte cresceria cercada por paganismo e imoralidade. Começava o desafio do judaísmo: Sobreviveria no meio de todas essas distrações e desafios da vida na diáspora?

Os netos, muito mais do que os filhos, são quem revela o fundamento e a futura direção da linhagem familiar. Ao longo dos anos, os pais judeus rezaram para que os seus filhos resistissem às tentações do exílio e pudessem manter orgulhosamente a sua forte identidade judaica.

Qual foi o resultado com Efraim e Menashe? Apesar de grandes obstáculos, eles cresceram no Egito e mantiveram sua adesão ao judaísmo. E é por essa razão que abençoamos os nossos filhos para serem como eles.

Autora: Edith Blaustein

Parashat Vaieshev

A Redenção estava no horizonte…

A Redenção que quase aconteceu (Uma oportunidade perdida)

Adaptação: Edith Blaustein

O meu rabino e professor, o rabino Yosef Dov Halevi Soloveitchik, Z’l, trouxe uma nova abordagem ao seguinte tópico, que nos ajudará a explicar este paralelismo e a dar-lhe um significado histórico importante. Este é o resumo do que ouvi dele:

O ponto de partida para a compreensão do exílio de Israel é a Aliança entre as partes (Génesis 15), onde Abraão foi informado sobre o exílio e a redenção que ocorreriam com os seus filhos. Depois da promessa de descendência: Não será ele quem te herdará, mas quem sair das tuas entranhas será quem te herdará (Gén. 15:4), e a promessa da terra: Eu sou De’s, que te tirei de Ur dos Caldeus, para te dar esta terra como possessão (ibidem, 7), foi estabelecida uma condição: Então De’s disse a Abrão:

Extraído do texto do rabino Dr. Daniel Tropper na antologia Potchim Shavua (Abrimos a semana), editado por Naftalí Rotemberg.

Sabe com certeza que os teus descendentes serão estrangeiros numa terra que não será deles e serão escravizados e oprimidos durante 400 anos (ibidem, 13). Mas também julgarei a nação a que servirão e depois disso sairão com grande riqueza (ibidem 14).

Por outras palavras, foi dito a Abraão que antes de a sua semente herdar aquela terra, seria exilada em outra terra. Mas que semente? O filho? O neto? Ou o bisneto? E para que terra serão exilados? Quando?

Muito mais foi oculto do que revelado, e, para descobrir as respostas, não temos outro caminho a seguir senão o dos eventos históricos.

O rabino Soloveitchik chega a estas conclusões: a partida de Jacob para Charan e o seu retorno à Terra de Israel podem ter sido, e talvez devessem ter sido, o exílio e a redenção sobre os quais Abraão, o nosso Patriarca, foi informado.

Esta é a interpretação do midrash de Génesis 37: 2 que Rashi traz: Jacob pediu para se estabelecer em paz. A que paz se refere? À paz da vinda do Messias. A Redenção estava no horizonte.

O Midrash sobre o versículo: Naquele tempo, Judá deixou os seus irmãos (Gén. 38:1) trata precisamente desse ponto. Diz o Midrash (Bereshit Rabba 85:1): As tribos estavam ocupadas na venda de Joseph, e Joseph estava ocupado no seu luto, Reuben estava ocupado no seu luto, e Jacob estava ocupado no seu luto, e Judá estava ocupado em procurar mulher, e De’s estava ocupado na vinda do Messias.

Nesta base, o rabino Soloveitchik sugere uma explicação original, perante estes versículos enigmáticos da Torá. No final da parashá da Torá Vaishlaj (Gén 36), quando é descrito o retorno de Jacob à Terra de Israel, a Torá explica as gerações que nasceram de Esav e conta os chefes de Esav e os seus reis. Dentro desta descrição está o versículo Estes foram os reis que reinaram na terra de Edom, antes que houvesse rei dos filhos de Israel.

Os exegetas encontram dificuldades em explicar este versículo, que sugere Saul e David várias centenas de anos antes de eles nascerem. Há quem veja Moisés no rei mencionado no versículo, já que sobre ele é dito: e houve um rei (Deut. 33:5).

Por outro lado, a explicação proposta pelo rabino Soloveitchik permite discernir, precisamente através da palavra «rei» que aqui aparece, o seu amplo significado no capítulo. No versículo que aparece antes da lista dos chefes de Esav, com a entrada de Jacob na Terra de Israel após o exílio, é dito: (Gén 35:11): E disse-lhe De’s:

Eu sou De’s Todo-Poderoso, sê frutífero e multiplica-te. Uma nação e um grupo de nações virão de ti; reis sairão dos teus flancos.

De que reino se está a falar? Do reinado do Messias, porque Jacob está prestes a entrar na Terra de Israel para realizar a Redenção. E é então que aparece a lista dos chefes de Esav, e nela o seguinte versículo: Estes foram os reis que reinaram na terra de Edom, antes que houvesse rei dos filhos de Israel. E, novamente, de que rei se está a falar? Do Messias, que está prestes a aparecer para redimir o mundo.

Daqui se depreende que a permanência em Charan devia ser a realização da profecia referente a uma terra que não será deles. O trabalho para Labão corresponderia ao versículo serão escravizados e oprimidos, enquanto os teus descendentes serão estrangeiros se refere a Jacob.

Se é assim, então o que aconteceu? Por que falhou essa Redenção?

Quanto ao versículo E estabeleceu-se Jacob na terra dos seus antepassados, na terra de Canaã, Rashi diz-nos: Jacob desejava estabelecer-se tranquilamente, e desfrutar dos dias do Messias. Mas sobreveio-lhe a ira contra Joseph. O «plano» falhou devido ao ódio entre irmãos, ódio que acabou por levar à venda de Joseph.

O rei Messias vem para estabelecer a paz no mundo (tal como exposto por Maimonides no fim das leis dos reis), e é impossível construir um tempo de paz sobre uma base de ódio entre irmãos. Foi assim que se perdeu uma oportunidade histórica.

Portanto, esta é a mensagem central da Haftará (parte dos Profetas que é lida todos os sábados após a leitura da Torá) da Parashá Vaieshev (que significa: «E ele se estabeleceu»): Por causa do triplo e do quádruplo crime de Israel não serão perdoados, por terem vendido um justo por dinheiro, e um pobre por um par de sapatos (Amós 2:6). A venda de irmãos também leva à destruição do Templo. Uma enorme perda histórica caiu sobre Jacob e os seus filhos: a Profecia de Abraão não se tornou realidade.

Cria-se então a necessidade de voltar a começar o processo, para cumprir as condições estabelecidas no Pacto entre as partes. Jacob desce uma segunda vez ao exterior, desta vez ao Egito, e lá concretiza-se a profecia do nosso patriarca Abraão.

A antologia Potchim Shavua, intelectuais israelitas escrevem sobre a Parashat Hashavua, compilada por Naftalí Rotemberg, foi publicada por Iediot Achronot, Tel Aviv, 2001.

Esta é, na minha opinião, a razão pela qual a Torá acentua a semelhança entre a descida de Jacob a Charan e a descida ao Egito: a história da descida da Terra é uma história que se repete como um círculo vicioso, e os filhos de Israel descem ao Egito com a esperança de que desta vez a Redenção seja cumprida, mas ainda não será a redenção final e última.

Parashat Vaishlach

Autora: Edith Blaustein

Elie Wiesel, no seu livro Mensageiros de De’s diz-nos: No seu sonho, Jacob viu uma escada cujo fim chegava ao céu. Ainda existe. Há quem a tenha visto, em algum lugar da Polónia, ao lado de uma estação de comboio abandonada, e um povo inteiro estava a subir em direção às nuvens ardentes. Esse era o caráter do medo que o nosso Jacob deve ter sentido.

Wiesel continua a descrever o nosso patriarca:

Um homem solitário, um sonho incandescente, um conflito. Dois irmãos, dois destinos. Amarrados e separados à noite. Um homem face à morte, um homem que imagina o seu futuro.

Um exame de si mesmo que implica um questionamento do seu passado. Memórias da primeira infância, das primeiras brigas com o seu irmão mais velho, triunfos seguidos de remorsos, os primeiros amores, a primeira e última deceção. Todos esses acontecimentos tinham-no conduzido ao confronto que acabava de ter com o seu tio Labão e o que teria amanhã com o seu irmão Esaú.

Jacob estava preocupado, o que era compreensível. Amanhã poderia morrer. O seu irmão, que ele não via há vinte anos, não compareceria sozinho ao encontro: Estaria acompanhado, pelo menos, por quatrocentos homens armados. O que aconteceria amanhã? Jacob estava com medo.

Na verdade, se ele tivesse o menor domínio sobre questões práticas, Jacob teria tentado descansar. Amanhã ele iria precisar de toda a sua energia, de todas as suas faculdades. Não conseguia, porque esta noite marcaria o início de uma nova aventura, a mais importante de todas.

Uma aventura estranha, misteriosa do princípio ao fim, de uma beleza avassaladora, intensa a ponto de nos fazer duvidar do que os nossos sentidos experimentam. Filósofos e poetas, rabinos e narradores, todos aspiraram lançar luz sobre o enigmático evento que ocorreu naquela noite, a poucos passos do rio Chabok. Um episódio contado na Bíblia com a sua sobriedade habitual e majestosa. Lembram-se?

Deixaram Jacob sozinho. E um homem lutou com ele até ao amanhecer. Quando viu que não o derrotara, deslocou-lhe a anca. E disse-lhe:

O dia está a chegar, deixa-me ir.

Jacob respondeu:

Não te deixarei ir, a menos que me abençoes.

E ele disse:

Qual é o teu nome?

Jacob respondeu:

Jacob.

O outro disse:

O teu nome não será mais Jacob, mas Israel, porque lutaste com De’s e o derrotaste.

Então Jacob pediu:

Peço-te que me digas o teu nome.

E ele respondeu:

Para quê o queres saber? E abençoou-o.

Jacob chamou aquele lugar Peniel:

Pois vi De’s face a face, e no entanto, continuo com vida.

Existem diferentes interpretações. Aqui as dimensões do episódio são modificadas: Testemunhamos um confronto entre Jacob e Jacob. O heroico sonhador e o inveterado fugitivo, o homem modesto e o fundador de uma nação, lutaram em Peniel numa batalha feroz e decisiva. E ganhou. Podia ser um anjo, o seu outro «eu» ou um homem, mas uma coisa é certa: O adversário foi derrotado. Agora Jacob estava preparado para enfrentar o seu irmão inimigo. Esse é, então, o significado principal deste episódio: A história de Israel ensina-nos que a verdadeira vitória do homem é aquela que ele consegue sobre si próprio.

Peniel: Encruzilhada, momento dramático para o espírito de Jacob. Já não estava satisfeito com a sua condição de filho de Isaac e neto de Abraão; desejava ter um nome que lhe pertencesse. Carregar com um significado completamente próprio e ligar-se a um evento que o imortalizasse.

Israel já não é decididamente o Jacob desorientado e sentimental que conhecemos até agora. Aprendeu a ser duro e determinado. A derrotar os seus adversários e inspirar respeito aos anjos. Sim, sem dúvida: Podia contemplar Peniel e lembrá-la com orgulho.

Parashat Toldot

E Rebeca escuta

Extraído do texto de Avirma Golán na Antologia Korot meBereshit, de Ruth Ravitzky.

Rebeca, diz o rabino Adin Steinsaltz no seu maravilhoso comentário sobre a figura da segunda matriarca («Rebeca, a ovelha branca da família»), é uma mulher assertiva, que sabe sempre o que faz. Aos olhos de Steinsaltz, Rebeca tem um «poder de visão acima dos sentidos», semelhante ao poder de profecia, conforme descrito por Maimonides.

O homem de fé deve explicar a personalidade de Rebeca da maneira mais positiva possível; caso contrário, as suas ações não seriam compreendidas, uma vez que sua preferência pelo filho mais novo  em detrimento do primogénito e o enorme engano que ela faz ao marido suscitam perguntas difíceis. Quando a base de todas as análises é que Jacob tinha que ser o terceiro patriarca, o grande líder, que o seu nome foi mudado para Israel e que as doze tribos seriam descendência sua, não há problema em apresentar Rebeca como uma grande mulher, como aquela que complementa Isaac nas suas dúvidas e na sua fragilidade.

O rabino Steinsaltz propõe uma descrição que também pode ser aceite pelo leitor não religioso, que tenta interpretar as personagens bíblicas com a luz humana que ele entende. Rebeca, diz Steinsaltz, é o oposto absoluto de Isaac: Ela cresce numa família onde não se pode confiar em ninguém, deve ser ativa e agir sempre à sua maneira. Isaac, que sempre esteve rodeado de pessoas em quem podia confiar, num mundo hierárquico ordenado, não tem consciência do mundo do mal. O próprio Steinsaltz conta a história de Rebecca a partir de um mundo de fé absoluta (onde todos os relacionamentos e as causas são divinos); certamente não está interessado em que esta interpretação não saia destes limites. E, apesar disso, é difícil não relacionar a sua aguçada percepção com figura de Rebeca pequenina, que foge do seu cruel pai, que cai do camelo com um gesto engraçado, que entra com segurança na tenda de Sara e envolve Isaac num grande amor. Esta é a Rebeca que, quando os gémeos pulam dentro dela, não se queixa aos ouvidos do marido, mas dirige-se, com surpreendente coragem, a De’s: E foi procurar De’s. Há comentaristas que dizem que foi perguntar a Abraão, que ele era o intermediário. No entanto, não é uma explicação aceitável, que se vem impôr à surpresa dos homens perante descrição e o grito dela: Se é assim, porquê a mim?

E esta é a Rebeca que sabe muito bem, com uma percepção a roçar a crueldade, que Jacob é, dos seus dois filhos, aquele que está destinado a continuar a descendência. Não apenas porque o ama tanto, mas também pela sua profunda necessidade de influenciar e estabelecer o futuro. Nesse sentido, é Rebeca, e não Isaac, o verdadeiro líder. E com o sentido de missão que ela tem e não pouca megalomania (mesmo na medida necessária para quem se atreve a mudar o curso da História), decide rapidamente, com uma frieza de espírito e uma assertividade que provoca temor e que lhe é característica, trair o marido.

E Rebecca escuta. Isaac, que cinquenta anos antes da sua morte já estava sentado em casa e temia a cada segundo que a morte, tão conhecida por ele, chegasse e o levasse com ela, não conseguia diferenciar o importante do acessório. O seu coração sentía-se atraído pelo filho diferente dele, e  dirigiu-lhe a voz com amor. O cheiro do meu filho é como o cheiro do campo, disse ele ao filho errado. Rebecca ouviu tudo. Não só o que foi dito, mas também o que era necessário dizer e também o que seria dito. Os olhos de Isaac ficaram enevoados. Talvez ele nunca tenha visto com a certeza necessaria a um líder? Mas Rebecca, por outro lado, viu tudo: O passado, o presente e o futuro.

E assim, com uma segurança que congela, ela acalmou o seu filho mimado e confuso. Sobre mim a tua maldição, meu filho, disse ela, e, assim, só ela pagou o preço.

A antologia Korot meBereshit, mulheres israelenses escrevem sobre o livro Bereshit, compilado por Ruth Ravitzky, foi publicada por Iediot Ajronot, Tel Aviv, 1999.

Tradução livre de Edith Blaustein

Parashá Chaiei Sarah

Sara, a verdadeira vítima da Akedá

Autora: Edith Blaustein

Não é em vão que, imediatamente após a história da Akedá, «o amarrar de Isaac», somos informados de que Sara morreu aos cento e vinte e sete anos. Rashi explica que a morte de Sara é narrada logo depois da Akedá, porque, como resultado de o seu filho ter sido levado ao altar e ter estado prestes a ser sacrificado pelo seu pai, a alma de Sara deixou o seu corpo e morreu. E acrescenta: Sara é a verdadeira vítima da Akedá.

Podemos ver Sara, que sofreu esterilidade até uma idade avançada, nas palavras da poetisa Rachel Bluwstein, que em 1928 escreveu o poema Uri:

Se eu tivesse um filho! Um menino pequenino,

moreno, com o cabelo encaracolado e inteligente.

Se eu lhe pudesse dar a mão e caminhar com ele lentamente

pelos caminhos do jardim.

Um menino.

Pequenino.

Chamar-lhe-ia Uri, o meu Uri!

Delicado e claro é este curto nome.

Pedaço de luz.

Ao meu menino moreninho,

– Uri!

Chamarei!

Ainda sentirei amargura, como Raquel, a matriarca.

Ainda rezarei, como Chana em Shiló.

Ainda esperarei

por ele.