Parashat Naso

Bircat Cohanim – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Na Torá, o termo Brachá aparece em Bereshit 1:22, quando De’s abençoa os peixes, e depois também com Adão, que é abençoado por De’s. Aparentemente, refere-se a abundância, capacidade de se multiplicar. Depois voltamos a encontrar este termo com Abraão, Sara, Isaac, Jacob, Yosef, o povo de Israel, e posteriormente com Bilam, quando troca a maldição por bênção. Em Devarim 28, a Torá fala das bênçãos e das maldições. Aí repete-se dez vezes o termo Brachá, fazendo alusão a bênção de comida, paz, descendência, bem estar, etc. Em conclusão, podemos observar que as bênçãos se referem à abundância de bem em todos os sentidos.

Na Brachá dos Cohanim, não se explica nem se especifica muito; apenas diz: Que De’s te abençoe e te guarde. Podemos deduzir que, tal como nas demais passagens onde aparece a palavra bênção, aqui também se refere a uma abundância geral. Não está limitado a uma coisa em particular. Então Brachá é dar-nos tudo de bom.

Que nos guarde refere-se a cuidar e manter tudo isso que estava incluído com o termo Brachá.

Isto gera uma questão: se este versículo inclui toda a brachá — abundância de bem — e cuidar-nos para não perdermos todo esse bem, então para que fazem falta as duas bênçãos que vêm a seguir? Já está tudo incluído; o que vêm acrescentar os versículos seguintes?

A resposta a esta pergunta é que quando diz Que De’s te abençoe e te guarde, é o título, e agora vai especificar, vai desenvolver o que nos disse. Um versículo vai desenvolver o termo te abençoe e o outro vai desenvolver o termo te guarde.

Para entender a diferença entre ilumine o Seu rosto sobre ti, que se relaciona com te abençoe e o outro versículo, que diz torne o Seu rosto sobre ti, que se relaciona com te guarde, devemos analisar o contrário de cada um destes conceitos.

O contrário de ilumine o Seu rosto sobre ti é que De’s o despreze (Charon af) e o contrário de torne o Seu rosto sobre ti é que De’s oculte o seu rosto de ti (Ester Panim).

Portanto, que De’s nos ilumine quer dizer que não nos despreze, e que nos dê abundância, nos ilumine, e isto inclui o maior bem, que é o bem espiritual, por isso diz te agracie, e encontrar Graça aos olhos de De’s refere-se a estar num nível alto de espiritualidade.

Então: ilumine é dar e alcançar o nível alto da espiritualidade.

Depois, ao dizer torne o Seu rosto sobre ti, refere-se a que não estejamos no nível de Ester Panim, que é quando De’s se oculta. Ao não estarmos sob a Sua proteção, ficamos à mercê dos outros, que nos podem prejudicar. O que este versículo diz é que De’s não se oculte e que permaneçamos sob a Sua proteção. É por isso que acaba dizendo que nos concederá o Shalom, quer dizer, que De’s nos proteja, e então estaremos em paz e harmonia, tendo abundância de bem-estar físico e espiritual, estando sob a proteção de De’s e não à mercê dos demais.

Em resumo:

Que De’s nos envie grande abundância e que no-la conserve.

Que não nos despreze e nos dê abundância e que possamos alcançar um nível alto de espiritualidade.

Que não se oculte de nós, que nos proteja, para assim podermos estar em paz e harmonia.

Não há dúvidas de que quem abençoa é De’s, o que fica especificado ao dizer E porão o Meu Nome sobre os filhos de Israel e Eu os abençoarei.

O motivo pelo qual a bênção é através dos Cohanim é porque De’s quer que o povo seja consciente e saiba que Ele nos abençoa diariamente. Devido ao facto de não ser realista pretender que todos os dias surja uma voz celestial a pronunciar a bênção ao povo de Israel, De’s estipulou que aqueles que estão mais próximos ao Seu culto, os mais elevados espiritualmente, sejam eles a pronunciar, em nome de De’s, esta bênção. Desta maneira, o povo escutará diariamente a bênção de De’s.

O povo de Israel não é abençoado por si só, não se trata de algo genético; é tal como De’s estabeleceu no monte Sinai, quando fez um pacto com o povo e lhes disse: Se escutardes a Minha voz e cuidardes do Meu pacto, então sereis um povo seleto e elevado para Mim. Ao longo de toda a Torá, vemos que a bênção e a prosperidade prometidas por De’s ao povo de Israel são algo condicional; existirão durante o tempo que o povo transitar pelos caminhos de De’s.

Em hebraico, o termo Brachá escreve-se com as letras Beit, Reish e Caf. O valor numérico da primeira letra é igual a 2 , o da segunda letra é igual a 200 e o da terceira é 20. São números que falam de multiplicação e abundância.

Parashat Bamidbar

O censo e os Leviim – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

De’s, ao dizer-nos os limites da terra, fá-lo para que saibamos tudo o que temos que conquistar, mas também para que saibamos que só até aí se deve conquistar, e não mais. O nosso objetivo não é sermos imperialistas.
Nesta parashá encontramos várias coincidências: O povo no total são 603 mil pessoas; o valor numérico das palavras Bene Israel – “Filhos de Israel” é 603.
Diz-nos que havia 22.000 leviim e, em contraposição, havia 22.273 primogénitos, que são aqueles que foram trocados pelos leviim. Os leviim são poucos, quase 30% da população das demais tribos. Isto é assim porque o povo ia ter que os sustentar e dar-lhes territórios nas suas cidades. De’s não quis que fossem muitos para não se transformarem num peso para o povo, pois, se os leviim fossem muito numerosos, o povo, em vez de lhes dar o dízimo, iriam ter que lhes dar o 20% para os poder sustentar.
Se a Terra era dividida por goral — sorteio – , para quê saber quantos são em cada tribo?
Para demonstrar que o que saiu por goral — por sorteio — é o correto. Não só é necessário fazer Tzedek — justiça —, mas, para além disso, é necessário que essa justiça seja visível para todos.
Porquê quando eram contados os leviim no censo, contavam-se aqueles que tinham entre 30 e 50 anos, enquanto que, para o resto do exército (o resto do povo), eram contados desde os 20 aos 60 anos?
Isto é assim porque para o exército faz falta força física, enquanto que no santuário faz falta Shikul daat — maturidade inteletual e sensatez, e não ter maus pensamentos. É por isso que se preferia indivíduos mais maturos intelectualmente.
Como sabemos que agora o povo de Israel sai do monte Sinai para entrar na Terra de Israel? Se analisarmos mais à frente, quando a Torá nos relata que partiram do monte Sinai, notaremos que é a mesma data que diz aqui no princípio do livro Bamidbar, quando se ordena o censo. E aí vemos claramente que o povo se dirige à Terra de Israel. Para além disso, Moisés, nessa ocasião, tinha dito a Itró, seu sogro, que iam até a terra de Israel, tal como já tinha mencionado em Shemot.
Se vão para a terra de Israel, o mais provável é que tenham que preparar o exército para a luta e para a conquista, pelo que é lógico ter que os contar, para poder organizar o exército. Mas está escrito que De’s vai lutar por eles. Para quê então contar o povo para a guerra? A resposta é que, se bem que é De’s que nos faz triunfar, temos que fazer o nosso hishtadlut — o nosso esforço. De’s ajuda-nos derech hateva — de forma natural – , e não de forma milagrosa, tal como aconteceu por exemplo na Guerra dos Seis Dias.
Apesar de não ter sido de forma natural com o rei Ezequias, pois De’s feriu com uma peste os inimigos que estavam a sitiar a cidade de Jerusalém, de tal forma que todos os inimigos morreram e o povo de Israel não teve que lutar, nessa ocasião foi assim porque não havia outra opção para além do milagre.
Se bem que as tribos de Simeão e Levi receberam a mesma bênção por parte de Jacob (de que seriam dispersados entre as demais tribos), mais do que uma bênção foi uma reprimenda pelo que tinham feito ao povo de Shchem. Apesar disso, Levi melhorou até ao ponto de chegar a ser Nachalat HaShem — Herança de De’s –, enquanto que Simeão passou a ser a tribo menos numerosa. Isto foi assim porque perdeu muita gente por causa das diferentes pestes que De’s enviou ao povo como castigo pelas numerosas rebeliões que efetuaram no deserto, por exemplo com baal peor — idolatria. Isto demonstra que esta tribo estava muito envolvida nesses erros.
Qual é o objetivo do censo? Um reduzido número de indivíduos que servem a De’s, ou um grande povo que faz a vontade de De’s, não é o mesmo. É notavelmente mais louvável quando se pode ver uma pequena família no meio de um povo idólatra, que se desenvolve e se transforma num povo numeroso, conhecedor de De’s, e que se torna meritório de ouvir a voz do Criador. Que construa um santuário para Ele e que Ele se transforme no centro das suas vidas. Estes são os que foram denominados de tzivot HaShem— as Hostes de De’s – , e, tal como está escrito: Verov am, hadarat Melech – Quanto mais numeroso for o público, mais se notará o louvor ao Rei. Portanto, o facto de serem frutíferos e numerosos, isso, em si mesmo, já é um louvor a De’s.
Para além disto, o facto de serem tantos é uma prova de que De’s cumpriu o que tinha dito aos patriarcas, que se transformariam num povo muito numeroso.
Outro motivo é que, ao sermos conscientes de que se trata de um povo muito numeroso (aproximadamente 3 milhões de pessoas ou mais), torna-se mais notória a maravilhosa proteção divina, que não só tirou toda esta gente do Egito, como também os conduziu e os alimentou no deserto e os levou à Terra de Israel.
A tribo de Levi é quem leva o Aron — a Arca, ou seja, a mercavá — a carroça celestial, por isso se diz: Shuva HaShem (…) ribebot alfe Israel (Regressa, De’s, a residir entre as dezenas de milhares de Israel) Ribebot = dezenas de milhares. Ao dizer “dezenas”, no plural, devemos supor que pelo menos são duas, ou seja 20.000, e alfe = milhares, pelo menos dois, quer dizer 2000. No total são 22.000, que é o número dos integrantes da tribo de Levi.

Parashá Behar

Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Rambam menciona mais de 13 preceitos que têm a ver com o servo hebreu. Não o maltratar, não o vender nos mercados de escravos, não lhe dar tarefas que se dão a um escravo, libertá-lo no ano sabático, quando sair em liberdade não sai com as mãos vazias, resgatar a serva hebreia que foi tomada prisioneira, etc.

O primeiro assunto de que a Torá nos fala, a seguir aos 10 mandamentos, é o assunto dos servos. É a primeira ordem que a lei hebraica dá aos juízes: como deve ser a lei do servo hebreu. E só depois virão os casos mais graves, como aqueles que levam à pena de morte.

De acordo com os historiadores, deixou de haver escravos hebreus no fim da época do Segundo Templo (em Roma, que foi posterior ao segundo templo, 80% da população eram escravos e apenas 20% eram cidadãos do império) e, apesar de ser difícil de acreditar, ainda hoje em dia há sociedades onde existem escravos.

O Profeta Jeremias conta-nos que logo após a saída do Egito já havia entre o povo de Israel indivíduos que eram escravos de outros israelitas.

Temos que saber que na antiguidade a escravidão era algo muito aceitável.

Há quem defenda que as tribos de Ruben, Simeão e Levi não foram escravizadas pelos egípcios. É por isso que quando a Torá nos relata em Shemot a lista dos cabeças de família traz Ruben, Simão e Levi, e nada mais. Meshech Chochmá, um comentarista bíblico, diz que este foi o motivo pelo qual estas três tribos não tiveram parte na terra de Israel, já que eles não foram escravos no Egito e, para além disso, tomaram escravos para eles de entre os filhos de Israel.

Na Bíblia, apenas uma vez aparece o termo “servo hebreu” (fora do contexto desta parashá), e é com Yosef, mais precisamente com a esposa de Putifar, que o chama assim. É como se a Torá não quisesse aceitar esta condição, não desejando que existam servos hebreus, e é por isso que não os menciona tanto.

Mas se a Torá não está de acordo, então, porque não os proibiu definitivamente? Porque não abolir a escravidão?

A Torá não pede coisas que os homens não possam fazer. Por exemplo, a Torá não nos obriga a jejuar durante três dias, etc. E apesar de poder ser possível, da mesma maneira, não nos ordenou anular a escravidão, mas sim impôs-lhe muitos limites.

Mais à frente, em Devarim 15:18, vemos que o motivo dos seis anos é que o servo trabalhe apenas seis anos, quer dizer, a Torá não quer que ele trabalhe mais de seis anos com a mesma pessoa, porque depois de tanto tempo o servo habitua-se a ser dependente de outros para toda a vida. Mais para a frente vamos ver que mal tem isso.

Rambam, em Mishneh Torá, explica-nos como se adquiria um servo hebreu: não era adquirido no mercado de escravos normal, mas sim era o tribunal rabínico quem autorizava a venda de um escravo, e isso acontecia quando o indivíduo se tornava demasiado pobre e não se conseguia sustentar, ou quando um ladrão não tinha posses para repor os danos causados.

A mulher não poderia vender-se como escrava, pelo perigo de os homens se aproveitarem da sua condição, prostituindo-a ou abusando dela.

A mulher, aos 12 anos de idade sai em liberdade, quer o dono queira ou não queira, a não ser que ela própria escolha ficar com ele. Quer dizer, na idade em que se começa a desenvolver e se torna atraente fisicamente, é nessa altura que ela corre o risco de abuso sexual, e é por isso que é posta em liberdade.

Porque não se dá o mesmo tratamento ao servo não judeu? Se a Torá está em desacordo com a escravidão, então, porque não colocar também muitos limites no caso de escravos não judeus?

O objetivo ou plano da Torá não é consertar toda a humanidade de uma só vez; o método é conseguir uma sociedade boa, que neste caso serão os judeus. Então, quando os demais povos virem como funciona uma sociedade boa, inspirar-se-ão e quererão fazer parte desta boa sociedade; a decisão depende deles.

Algo similar ocorre com a cobrança de juros nas dívidas. O não-judeu, quando me empresta dinheiro, cobra juros. Então, quando eu lhe empresto a ele, porque tenho que perder?

Não se pode dar ao servo hebreu trabalhos que não são necessários ou tarefas que apenas lhe são dadas para não estar sem fazer nada. No entanto, esta atitude é permitida para com o escravo não-judeu. Isto é assim porque se o escravo não-judeu estiver sem fazer nada, corremos o risco de ele se dedicar a seduzir mulheres judias, pois, como dizem os sábios, a ociosidade conduz à promiscuidade.

Este é um assunto mais profundo, mas, para o abordar brevemente, recordemos que o judeu se diferencia dos demais povos, entre outras coisas porque não se conduz de acordo com as suas paixões, enquanto que os demais povos querem ser “livres“ e correm atrás dos seus impulsos, defendendo que para serem felizes devem poder fazer o que quiserem (ou, melhor dito, o que apetece aos seus instintos). É por isso que os sábios decretaram: Torat goim, araiot. A ética ou moral dos não-judeus está minada de perversão sexual.

Outro dos motivos pelo qual a Torá se opõe à existência de servos hebreus é porque a Torá não quer que o judeu tenha outro senhor que não seja De’s. Para que desta maneira não se sinta aprisionado e possa então servir a De’s. É por isso que no tempo do Profeta Jeremias, quando o povo não quis libertar os servos judeus, De’s disse-lhes: Vós não quereis receber o jugo de De’s, então ficareis expostos ao jugo deste mundo (guerras, epidemias, conquistas, etc.)

E porquê o escravo que quisesse continuar a ser escravo devia furar a orelha? Porquê precisamente nesse local do corpo?

Um dos motivos é para que seja algo bem visível, para que ele se envergonhe e então não queira ficar como escravo. Outro motivo é porque essa orelha não ouviu bem o que De’s disse no monte Sinai: Meus são os filhos de Israel. Este escravo está a colocar sobre si outro senhor fora de De’s.

Porque deve furar a orelha na porta? No Egito, o povo de Israel, ao colocar o sangue do cordeiro nas ombreiras das suas portas, demonstrou dessa maneira que era livre; fez algo contra os seus senhores, exatamente contrário à cultura e aos deuses dos seus amos, sem os temer nem se submeter a eles. Agora este escravo, ao escolher ficar com o seu patrão, está a fazer precisamente o contrário. É por isso que ele é levado à porta, para recordar esta mensagem.

Poderíamos perguntar: Que diferença há entre ser servo de De’s ou ser servo de outra pessoa? Ao fim e ao cabo, continuamos a ser servos.

A realidade é ao contrário. Aquele que é servo de De’s, é na verdade livre, e apenas é chamado servo porque queremos dizer que ele faz o que De’s lhe ordena, e De’s ordena coisas que são para o nosso bem, não se trata de caprichos de algum homem. É algo a que os sábios se referem quando dizem que as tábuas da lei estavam talhadas (em hebraico diz-se “charut”) e os sábios dizem que em vez de talhadas pode ler-se “cherut”, que quer dizer liberdade (em hebraico diz-se “cherut”, que é muito parecido com “charut”). Quer dizer, as tábuas da lei dão-nos a verdadeira liberdade.

A sociedade liberal, ao contrário, apregoa que cada um faça o que bem lhe apetecer, sendo a única limitação o não prejudicar os outros (e, mesmo isto, não é por uma questão ética, mas sim para que o outro não me prejudique a mim). Não pensa no último bem do indivíduo, ou de quê é que aquele indivíduo precisa para se realizar e crescer; responde apenas a um padrão egocentrista.

A Torá é o sistema mais completo e perfeito, que pensa em todos os aspetos e não só em alguns. (Quer dizer, não pensa apenas nos aspetos mais prazerosos ou momentâneos e não nos outros). É por isso que a Torá permite que uma pessoa se venda como escravo quando é pobre, apesar de hoje em dia isso estar mal visto, mas, por acaso a alternativa moderna é melhor? Que a pessoa se rebaixe mais? Que viva a mendigar nas esquinas ou dormindo na rua? Ou talvez é melhor recorrer ao roubo ou às drogas?

Esta é a diferença entre o empregado e o escravo. O empregado pode ser obrigado durante mais de três anos (contrato?) E depois, se quiser, pode continuar ou ir embora, mas o escravo tem seis anos, porque precisa de mais tempo, já que tem menos recursos que o assalariado.

A Torá definitivamente não quer que o Homem se rebaixe tanto e se escravize, mas, perante casos extremos, essa opção é melhor que a outra.

Apesar de passados seis anos o escravo sair livre gratuitamente, porque é dada opção ao escravo de ficar até ao Jubileu? A Torá vela pelo bem-estar do servo, e é por isso que impõe limites ao patrão, mas não ao servo. Se o servo quiser, pode abrir mão do seu direito de sair em liberdade. No entanto, a Torá não lhe permite ficar nessa situação eternamente, mas sim apenas até ao Jubileu. No entanto, o servo tem que fazer tudo isto perante os juízes, para não correr o risco de ser pressionado pelo seu amo a ficar.

A Torá dá o direito ao servo de ter a sua família, que é uma necessidade básica. Assim, se o servo vier com uma boa esposa, ao sair em liberdade, a sua esposa sai com ele, para não acontecer que o dono o liberte apenas a ele só para ficar com a esposa.

No caso de um homem querer vender a sua filha como escrava, (porque não tem os meios para a sustentar ou para lhe dar um bom lar ou educação) nesse caso há mais limitações, já que se corre o risco de ela ser prostituída. É por isso que logo a seguir a tê-la vendido, já recai sobre ele ou sobre os seus familiares obrigação de a redimir.

Por outro lado, também existe um ponto positivo: é possível que aquela menina acabe por casar com algum membro da família à qual foi vendida. É por isso que a Torá deve manter o equilíbrio entre dar um bom futuro a essa jovem que nasceu no seio de uma família sem os mais básicos recursos e o perigo de ser abusada.

Até ao ponto de que a Torá obriga quem adquirir uma escrava hebreia, ele próprio ou o seu filho, a casar com ela, ou, senão, deve libertá-la. Assim, ao ter um marido, os outros escravos não abusarão dela (entre os escravos existe muita promiscuidade). Deste modo, praticamente não existe a serva hebreia, pois passado pouco tempo transforma-se na esposa do seu senhor.

Os sábios obrigam a que o servo coma da mesma comida que o senhor. Se existir apenas uma almofada na casa, e temos que decidir para quem será, se para o dono ou para o servo, o servo tem prioridade. O dono tem que cobrir todas as necessidades do servo, mesmo à custa das suas próprias necessidades. E no caso de não as poder cobrir, o escravo deve libertado.

Portanto, se o indivíduo for sábio e souber isto, facilmente comprovará que não é conveniente ter servos hebreus, e é exatamente isto o que a Torá pretende.

Por outro lado, se era roubado algo alguém e o ladrão já gastou o produto do roubo, o facto de o ladrão ir para a prisão, não serve para nada a quem foi prejudicado; ninguém devolve a sua perda.

Para além disso, na maior parte dos casos, o ladrão, na prisão, não deixa de ser ladrão. Ao contrário, aperfeiçoa ainda mais a arte de roubar, pois está rodeado de gente muito baixa e por isso corrompe-se mais ainda.

Para o conjunto da sociedade, isso também não é bom, porque agora este ladrão, que na maior parte dos casos não se corrige na prisão, ainda tem que ser sustentado com o dinheiro dos impostos dos contribuintes.

Em síntese, não é justo nem para o prejudicado, nem para o ladrão, nem para a sociedade.

Pelo contrário, para a Torá, quando alguém rouba e não tem bens para reparar o dano causado, é vendido como escravo até que possa pagar com o seu trabalho ao prejudicado, os danos estipulados pelo juiz.

Para além disso, não era vendido a uma família qualquer, mas sim a alguma família na qual o escravo se possa corrigir. Ao viver entre gente boa, o ladrão tinha mais possibilidade de se corrigir, de os querer imitar e constituir um lar como esse.

Por outro lado, a sociedade não tem que o sustentar, mas sim ele sustenta-se a si próprio com o seu próprio trabalho.

Para aprofundar mais ainda sobre como a Torá se ocupa também dos transtornos psicológicos que os escravos podem sofrer, ver Mishne Torá Hilchot Avadim, Cap 1 Halachot 5,6, 7 e 8.

Parashat Emor

Parashá Emor
Aquele que amaldiçoou – Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

A Torá fala-nos de diferentes tipos de maldições:
• Aquele que amaldiçoa os juízes ou De’s
• Aquele que amaldiçoa o príncipe (ou o governante)
• Aquele que amaldiçoa um sábio
• Aquele que amaldiçoa os seus pais
• Aquele que amaldiçoa o surdo

Deste último tipo de maldição, aprendemos que o motivo de não amaldiçoar não é só a honra da pessoa que ouve a maldição; trata-se de um ato mau por si só, que inclui o sentimento de ódio, vingança e maldade.
Voltando ao nosso caso: O que é que realmente aconteceu ali?
A primeira coisa que notamos é que este indivíduo que amaldiçoou não era considerado judeu, pois a Torá diz-nos que ele era filho de uma judia, não nos diz que ele era judeu. Vemos que a Torá evita deliberadamente designar este indivíduo como judeu. Também podemos concluir que se tratava de um adulto e não de uma criança. A prova é que ele é castigado, e sabemos que a Torá não castiga menores de idade.
É-nos dito que o seu pai era egípcio, quer dizer, converso. Saiu com o povo de Israel do Egito, estava presente no monte Sinai e lá, ao aceitar a Torá, converteu-se ao judaísmo.
A pergunta seria então: se se converteu, porque o continuamos a chamar egípcio? Continuamos a chamá-lo egípcio porque um egípcio que se converte, apesar de recaírem sobre ele todos os preceitos, obrigações e benefícios do judaísmo, ainda não pode fazer parte da congregação de Israel, até à terceira geração. Quer dizer que não se pode casar com uma judia mas sim apenas com uma conversa, e apenas os seus netos se poderão casar com uma judia.
Como é possível então que um egípcio converso case com uma judia e tenha filhos? Neste caso, eles já tinham casado antes de saber que isso era proibido, por isso é que tiveram filhos. No entanto, a partir de agora, o filho é considerado a segunda geração. Ele também quis casar com uma judia, mas não lho permitiram, porque agora a Torá já tinha sido entregue e essa proibição já estava em vigor. Então começou a discussão, foram a tribunal, que também deu o seu parecer negativo, e ele saiu amaldiçoando.
Porque é necessário esperar até à terceira geração para poder casar com uma judia? O motivo é que as más qualidades não desaparecem nos filhos. Este é um exemplo tangível desta situação, pois a maldição era algo muito normal entre os filhos dos egípcios.
O povo de Israel comportou-se apropriadamente ao impedir o filho da israelita de se casar. O povo agiu tal como De’s lhe tinha ordenado.
Apesar deste indivíduo ter agredido e batido, não foram todos atrás dele para o linchar, mas sim apanharam-no e levaram-no a tribunal. Quer dizer, não tomaram a lei pelas suas próprias mãos.
Vemos que o levam para fora do acampamento. Porquê? Porque através da sua maneira de falar, vemos que este filho do egípcio está fora do povo do ponto de vista espiritual, pelo que também estará fora de forma física. Amaldiçoar como este indivíduo o fez era algo muito desprezível para o povo.
A Torá não tem reparos em nos dizer a que tribo pertencia, pois apesar da tribo de Dan não ser uma das tribos mais destacadas pela sua grandeza e religiosidade, não permaneceram indiferentes. Agiram e não deixaram passar o incidente em branco.
A Torá esclarece-nos que o converso recebe a mesma pena dada a um judeu de nascimento. Isto é algo que já sabemos: todo aquele que se converte passa a ser como todos os judeus, mas neste caso os juízes tinham dúvidas sobre se ele era considerado judeu ou não.
Se aquele que amaldiçoasse a De’s o fizesse sem testemunhas, então a sua alma carregaria o castigo, quer dizer, De’s ocupar-se-ia do castigo. Mas se acontecesse perante testemunhas que pudessem confirmar o que foi dito, então eram os juízes que se encarregavam do castigo: pena capital. É por isso que o versículo nos diz: O homem que amaldiçoar o seu De’s carregará com a culpa e seguidamente diz-nos Quem amaldiçoar o nome do Eterno, morrer, morrerá. Um versículo refere-se a quando não há testemunhas, e o outro a quando há testemunhas.
Depois da pena ser executada, a pessoa era pendurada, mas por pouco tempo, pois, por outro lado, temos um versículo que diz para não deixar um condenado pendurado até à tarde: Maldição de De’s é o pendurado. Isto também se pode entender como que o facto de o deixar pendurado iria causar que as pessoas falassem mais e se perguntassem o porquê daquela pessoa estar pendurada, e então outra pessoa, para explicar, iria repetir a maldição dita pelo primeiro.
Outro motivo tem a ver com o facto de De’s ter criado o ser humano à Sua imagem e semelhança, por isso, o facto de permanecer pendurado é um desprezo ao seu status de ser criado à imagem e semelhança de De’s.
Porquê De’s, junto com este assunto das maldições, nos fala também da pena para o assassino?
A relação entre estes dois casos é que, assim como quem mata outro ser humano está a desprezar a imagem divina com que esse indivíduo foi criado, igualmente, aquele que amaldiçoa está a desprezar a imagem divina com que o ser humano foi criado. Como? Uma das coisas mais claras que nos diferenciam dos animais é a capacidade da fala que o género humano tem, e essa supremacia está a ser utilizada para o mal e contra De’s, ou seja, quem amaldiçoa é muito mal agradecido.
Em resumo, quem amaldiçoa a De’s faz três coisas más: 1) Utiliza uma das qualidades mais supremas do ser humano para coisas baixas; 2) É mal agradecido e 3) Renega de De’s. É por isso que esta pessoa é pendurada, pois a imagem divina com a qual foi criada foi em vão e não lhe ficou nada dela.
Daqui se vê que todo aquele que não respeita ou estima o seu próximo está de certa maneira a desprezar também a De’s, que o criou à Sua imagem e semelhança (salvo em casos especiais, onde a própria Torá nos sublinha que quem age de determinada maneira, é desprezado pelo próprio De’s.)
Porquê todo este acontecimento é relatado aqui? Todo o contexto desta parashá refere-se a assuntos de kedushá (santidade), e o contrário a isto é profanar o nome de De’s, quer dizer, tornar profano algo que é santo e elevado. Amaldiçoar a De’s é algo muito grave porque despreza o que há de mais sagrado. O que a Torá considera elevado, a pessoa torna baixo. Em hebraico, o termo “klalá” (maldição) vem de “kal” (leve) quer dizer, algo que é grave, para a pessoa que amaldiçoa é leve.
Como se chegou a isto? Chegou-se a isto, porque a mãe casou com um egípcio. A Torá adverte-nos para não fazermos todas as coisas más que os egípcios faziam, e todas essas coisas estão detalhadas nas parashot Acharei Mot e Kedoshim. Na parashá Emor, a Torá fala-nos de sermos santos, pois estamos frente a De’s.
É por isso que diz: Santificar-me-ei dentro dos filhos de Israel, e este indivíduo faz precisamente o contrário, e fá-lo dentro do povo dos filhos de Israel.
Este individuo foi: 1) Desavergonhado; 2) Violento; 3) Grosseiro; 4) Desprezou De’s; 5) Renegou de De’s.
Todas estas coisas eram típicas da sociedade egípcia. É por isso que a Torá nos dá tantos detalhes sobre este acontecimento.
Vemos um exemplo disto no faraó, que era a cabeça da civilização egípcia. O faraó foi mal agradecido, pois não reconheceu o que Yosef fez quando salvou todo o Egito da fome. Falava com falta de respeito e arrogância: quando Moisés lhe falou em nome de De’s, o faraó respondeu-lhe: “Quem é De’s para que eu lhe obedeça? Não penso enviar os filhos de Israel!” Também foi cruel e violento, tendo mandado matar todos os bebés recém-nascidos.

Desfasagem Parashiot

Perguntas:

O que são parashiot?

Quem as instituiu?

Quando começamos a ler a Torá?

Por que às vezes lemos uma Parashá em Israel e outra diferente na Diáspora?

O que acontece se um dia festivo coincide com Shabat?

Parashá traduz-se como o “caso”, “tema” ou porção” da Torá a estudar. É uma divisão do texto da Torá em partes, para facilitar a leitura da mesma. Cada parshá tem como nome a expressão ou palavra com a qual começa. Por exemplo, a Parshá Vaikrá tem esse nome porque começa assim: Vaikrá El Moshe vaidaber HaShem elav …(E o Eterno chamou Moisés e falou Hashem com ele…).

Cada parashá, por sua vez, é dividida em partes chamadas “aliot” (plural de “aliá”, que literalmente significa “subida”). Essas partes são chamadas aliot porque, para a leitura de cada parte, na sinagoga, é chamado um homem diferente, que sai fisicamente do lugar onde está sentado e se desloca (“sobe”) para o lugar onde está a Torá, para a “ler.” (Entre aspas, porque na verdade há na sinagoga um leitor de Torá, que lerá por ele.)

A Torá, no mundo judaico, é lida publicamente por partes: a cada semana corresponde uma parashah, e a leitura pública, na sinagoga, é feita todas as segundas, quintas e Shabat. Nas segundas e quintas é lida a primeira aliá da parashá, e no Shabat é lida a parashah completa.

Segundo o Talmud, este sistema de leitura foi estabelecido pelo escriba Esdras, após o retorno do exílio na Babilônia. Este sistema acontece em todas as sinagogas do mundo. A divisão por parashiot faz com que o mundo judaico se conecte, já que todos nós lemos a mesma parte pré-definida a cada semana, por ordem, de tal modo que, no final do ano, temos a Torá completa lida por inteiro.

Quando isso acontece, ou seja, quando chegamos ao fim da Torá, celebra-se uma festa, que é a festa de Simchat Torá. Nesta festa celebra-se o final de um ciclo de leitura e o começo de outro. Lê-se a última parashá, que é VeZot HaBerachá, e a primeira aliá da primeira parashá da Torá, que é Bereshit (que significa, precisamente, “no principio”, e nos relata o principio da Criação, sendo também precisamente o princípio da Torá).

Mas há exceções a este sistema de leitura: quando uma das três festas chamadas Shalosh Regalim (Pessach, Shavuot e Sucot) coincide com Shabat, lê-se a parte correspondente à festa, e não aquela que seria “normal” ler naquele Shabat, de acordo com a ordem das Parashiot. Por exemplo, este ano (5779), o primeiro dia de Pessach coincidiu com Shabat, pelo que, em vez de se ler a parashá Acharei Mot (que seria o normal, porque a anterior foi Metzorá), leu-se a parte correspondente à festa de Pesach, que se encontra na parashá Beshalach. Quando isso acontece, a leitura normal é retomada no Shabat seguinte. Neste caso, foi lida então Acharei Mot.

Por outro lado, devido à lentidão das comunicações e à ausência de tecnologia que existia no mundo antigo, os nossos sábios determinaram que fora de Israel, na diáspora, estas três festas (Pessach, Shavuot e Sucot) fossem celebradas com dois dias festivos consecutivos, e não apenas um como em Israel, para evitar que, por algum erro de cálculo, alguma comunidade isolada corresse o risco de se enganar no dia e celebrar o Yom Tov (dia festivo) no dia errado. Isto é, para cada feriado ordenado pela Torá, os sábios acrescentaram mais um dia para a diáspora.

Por esta razão, e embora, como eu disse, todo o mundo judaico leia as mesmas parashiot ao mesmo tempo, quando na diáspora o segundo dos dois dias festivos consecutivos coincide com Shabat, há um  desfasamento entre Israel e o resto do mundo judaico em relação à leitura da Torá.

Este ano, esse desfasamento ocorre esta semana, quando na diáspora estarão a ler Acharei Mot, enquanto em Israel já estaremos a ler Kedoshim. (Porque quando lemos Ajarei Mot em Israel, na diáspora leram a leitura do oitavo dia de Pessach, que não existe em Israel, porque em Israel apenas se celebram 7 dias de Pessach.)

Outra particularidade da organização da leitura da Torá em parashiot é o fato de existirem parashiot que podem ser lidas juntas. (Mejubarot). As razões para o estabelecimento desses “pares” de parashiot são complexas e estão fora do âmbito deste texto, mas pode dizer-se, para simplificar, que esses pares foram estabelecidos porque as semanas do ano não seriam suficientes para ler a Torá inteira, devido à própria duração do ano judaico e ao facto de que quando uma festa coincide com Shabat, não se lê a parashá correspondente ao Shabat mas  sim a da festa, como vimos anteriormente.

Graças à existência destas parashiot mejubarot, as leituras de Israel e da Diáspora serão igualadas novamente em agosto, (no 2º dia do mês hebraico de Av), quando as Parashiot Matot e Masei forem lidas juntas na diáspora. A partir desse dia, até novo desfasamento, estaremos novamente todos juntos.

Mas em pensamento estamos sempre! A nossa Torá une o povo de Israel no seu espírito e na sua devoção, mesmo que a sua leitura esteja temporariamente desfasada. É curioso pensar que, no que diz respeito à leitura da Torá, pode considerar-se que Israel, em certos momentos, está à frente no tempo, vivendo de certa maneira no futuro. Quem viajar da Diáspora para Israel numa dessas semanas e regressar ao seu país no Shabat seguinte, sentirá essa “viagem no tempo”, porque, quando regressar e ouvir novamente a mesma parashá, sentirá que viajar para Israel é como viajar para o futuro.

Shabat Shalom desde Israel,

Rabino Elisha Salas

Parasha Acharei mot

Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

VeChai baEm– E viverão com elas

Há uma frase na Parashá que passa despercebida, mas que é a base de tudo o que foi escrito até aqui: “E cuidareis as Minhas leis (mishpatim) e os meus caminhos (chucot), que o homem fará para viver com elas, Eu sou o Senhor

Perguntas:

  • A que leis e a que caminhos se refere?
  • A que se refere quando diz que vai viver com elas?
  • O que quer dizer “cuidareis“?

Respostas:

Mishpatim são as leis, são ordens que me indicam o que fazer e o que não fazer. Chucot são os caminhos ou princípios por onde nos devemos encaminhar, tal como diz o versículo: bechucotai telechu – nas Minhas chucot andarão.

Cuidareis refere-se a prestar atenção e cuidar para fazê-lo bem e não de forma automática.

A Torá não é um livro de leis sem sentido. Existe um princípio, uma ideia que é o fio condutor de todos os preceitos. O princípio ao qual nos referimos neste caso é viver com elas.

Podemos analisar isto em três categorias diferentes:

  1. Como um princípio básico da Torá,
  2. Como um detalhe de uma lei, ou
  3. Como um ensinamento: A preservação da vida antecede o cumprimento dos preceitos.

Se alguém corre risco de morte, deve transgredir imediatamente os preceitos que forem necessários e salvar-se. Ou se um não judeu obrigar um judeu a transgredir um preceito sob ameaça de morte, o judeu (salvo muito raras exceções) deve transgredir e salvar-se, pois está escrito e viverás com elas, não está escrito morrerás com elas.

O sentido profundo de tudo isto é que as leis da Torá não são violentas mas sim fruto da misericórdia, da bondade e da harmonia.

Como vemos, a Torá não exige demasiado do homem, nem espera que ele entregue a sua vida por qualquer preceito ou ordem; ao contrário, o objetivo é dirigi-lo pelo caminho que lhe assegure a manutenção da vida, tanto física como espiritual, da melhor maneira possível.

Parashat Metzorá

Retirado do livro Ideas de Vaikra, dos rabinos Isaak Sakkal e Natan Menashe.

Metzorá (A Lepra?)

Como é sabido, os sábios de Israel relacionam a doença bíblica de Tzaraat (mal traduzida por lepra) com o falar mal: o Lashon Hará (falar mal do seu próximo), Rechilut (fofoquice), falar desenvergonhadamente, etc.

Rambam explica-o assim: a doença de Tzaraat refere-se a vários temas. Alguns tinham a ver com a pele do ser humano que se tornava branca, outras vezes tinha a ver com a queda do pêlo, fosse no couro cabeludo ou na barba. Os efeitos causados pela infeção nas roupas ou nas casas, onde apareciam manchas de cor, recebiam o mesmo nome.

Estas manchas ou mudanças, fossem no corpo do ser humano ou no seu cabelo, no seu vestuário ou na sua casa, não eram uma doença natural ou conhecida nos nossos dias, mas sim algo milagroso, cujo objetivo era advertir o povo para não cair em falatórios e para controlar a sua fala, pois esta pode destruir um indivíduo.

É por isso que quando uma pessoa falava mal de outra, as paredes da sua casa mudavam de cor, infetando-se com umas manchas. Se o indivíduo se arrependesse, então a casa voltava ao normal. Senão, os utensílios de couro da casa também se infetavam e apareciam manchas. Se, apesar disto, a pessoa continuasse na sua maldade, então o seu próprio vestuário começava a ganhar manchas de Tzaraat. Se se arrependesse, então tudo voltava ao normal. Senão, era a sua própria pele que mudava de cor e desta maneira o indivíduo ficava infetado de Tzaraat. Nesse caso era separado do povo até ao ponto de não poder conversar com ninguém, e tinha que ficar só.

Aquele que causasse que as pessoas se afastassem do seu próximo com os seus falatórios, era agora quem ficava afastado dos outros. Tal como fez aos demais, agora acontecer-lhe-á o mesmo.

Isto é o que De’s enfatiza quando nos diz que recordemos o que De’s fez a Miriam quando ela falou de mais acerca do seu irmão Moshé. Apesar de Miriam ser vários anos mais velha que Moshé, e de ter sido ela que salvou Moshé das mãos dos Egípcios que o iam matar, e apesar de não ter falado mal de Moshé, mas sim de apenas ter considerado Moshé no mesmo nível dos outros profetas, e apesar de Moshé não ter ficado incomodado por isso, De’s castigou Miriam com Tzaraat. A conclusão à que deveríamos chegar é a de que se isto aconteceu com Miriam, quanto mais cuidado temos que ter nós de não falar mal do nosso próximo.

Por tanto, é apropriado que quem quiser andar nos caminhos de De’s se afaste daquelas pessoas que nas suas reuniões falam mal dos outros ou criticam os seus semelhantes, para que deste modo não fique preso nas malhas destes falatórios e seja passível de castigo. Porque as pessoas vulgares costumam começar por falar de assuntos sem importância e logo passam a falar mal das pessoas justas e boas, e deste modo costumam criticar todo o mundo, inclusive os profetas, põem em causa a palavra destes mensageiros de De’s, e acabarão por falar mal de De’s e por renegar Dele.

No entanto a maneira de falar de uma pessoa justa e piedosa é abundante em palavras de Torá e sabedoria, com cuidado de não agredir ou magoar os outros.

Isto é o que Rambam escreve sobre este assunto no seu cometário a Pirkei Avot:

            Capítulo 1 Mishná 16

            Shimón seu filho diz: Todos os meus dias me eduquei entre os sábios e não encontrei       nada melhor para o corpo do que o silêncio. O principal não é o estudo, mas sim a ação            [ou seja, levar o estudo à prática quotidiana], e todo aquele que se excede em palavras,        carrega para si uma transgressão.

“Todo aquele que se excede em palavras, carrega para si uma transgressão.”

Afirmou o sábio [rei Salomão]: Da multidão de palavras, não se ausenta a transgressão. O motivo disto é devido a que quando a pessoa acrescenta comentários, certamente cairá em transgressão, pois é impossível que nos seus acrescentos não haja algo que não seja apropriado dizer [e que estava a mais]. A melhor prova de que alguém é sábio é que fala pouco, e o melhor indício de que alguém é insensato é falar em demasia [Refere-se a que se for possível dizer algo que possa ser perfeitamente compreensível utilizando duas ou três palavras, não deve fazer um grande discurso para dizer a mesma coisa], como está dito: A voz do insensato [vem acompanhada] da multidão de palavras e já disseram os sábios “Ser breve é a característica dos sábios” e foi dito no livro Hamidot: Um dos sábios mantinha-se bastante calado, porque não falava nem uma palavra que não fosse digna de ser dita, por tanto falava bastante pouco. E foi questionado: Qual é a causa dos teus assíduos silêncios? E respondeu: Analisei todos os diálogos e encontrei que se dividem em quatro categorias:

A primeira é completamente nociva, sem proveito algum, tal como as maldições das pessoas ou palavrões e coisas desse estilo, que quem as diz comete uma grande estupidez.

A segunda tem um prejuízo por um lado e um benefício por outro, como sejam os elogios às pessoas. Por um lado o elogiado [e os que escutam] aprendem o que é bom fazer, mas, por outro lado, esse elogio é algo que vai encolerizar o inimigo daquele indivíduo, e tentará prejudicá-lo. Por esse motivo, é preferível abster-se deste tipo de diálogos.

A terceira são aquelas coisas que não têm nenhum proveito nem nenhum dano, como é o caso da maioria dos diálogos das pessoas comuns, [como por exemplo] como foi construída tal parede, ou como foi construído o portão, o descrever a beleza da casa de fulano, ou a quantidade de torres de tal cidade, e coisas desse estilo. Apesar de todas estas coisas estarem dentro da categoria das coisas permitidas [de falar], isso não quer dizer que tenham algum proveito.

A quarta categoria contém aqueles diálogos cujo conteúdo é útil na sua totalidade, como as conversas sobre temas de sabedoria, de boas qualidades, ou das necessidades básicas do ser humano, como as necessárias para nos mantermos com vida e preservarmos [a nossa saúde]. Sobre estes assuntos é sim permitido falar.

Cada vez que escuto [ou participo de uma conversa], analiso-a. Se corresponderem à quarta categoria então converso, mas se pertence a alguma das outras três categorias, então fico calado.

Disseram os sábios de musar [ética]: este homem é digno de imitar.

E eu digo que a fala, de acordo com a Torá, se divide em cinco géneros: 1) Os que são um preceito, 2) Os que fomos advertidos [para não falar], 3) Desprezíveis, 4) Desejados e 5) Permitidos.

Na primeira categoria, os que são um preceito, incluem-se a leitura da Torá e o seu estudo, que é um preceito específico, como foi dito “E falarás delas” (Deut. 6:7), até ao ponto que [a sua importância] foi equiparada à de todos os preceitos [em conjunto].

A segunda categoria, as coisas que nos estão vedadas de falar, como o falso testemunho, a mentira, falatórios, maldições, palavrões e maledicências, tal como a Torá nos adverte em vários versículos.

A terceira classe refere-se às [conversas] desprezíveis, que não têm nenhum proveito para a alma do Homem, nem bom, nem mau. Como a maioria das coisas que as pessoas contam acerca do que aconteceu, ou quais eram os costumes de tal rei no seu palácio, ou qual foi o motivo da morte de fulano, ou como enriqueceu sicrano. Este tipo de diálogos foram chamados pelos sábios “Conversas vãs” e os piedosos esforçam-se por evitar este tipo de conversa. Conta-se acerca de Rab, aluno de Rabi Chiá, que nunca teve conversas vãs na sua vida. A esta categoria também pertencem aquelas conversas onde algum valor importante é desprezado, ou alguma baixa qualidade, seja moral ou racional, é enaltecida.

A quarta categoria pertence aos diálogos desejados, quer dizer, quando se fala acerca da importância [e elogio] de alguma boa qualidade, tanto das racionais como das morais, ou, pelo contrário, denegrir as más qualidades dos dois tipos [tanto as racionais como as morais]. Incentivar o espírito na direção das [coisas] elevadas, seja através de relatos e cantos, ou igualmente evitar, através desses mesmos meios, a baixeza. Do mesmo modo, elogiar as pessoas importantes e exaltar as suas boas qualidades, para serem imitados pelas demais pessoas. Igualmente menosprezar [a atitude de] os malvados, para que as suas ações sejam desprezadas aos olhos das pessoas e se afastem deles e não queiram imitá-los.

A quinta categoria, as conversas permitidas, refere-se às coisas que são lícitas falar para o seu comércio e manutenção, alimentos e bebidas, vestuário e demais coisas necessárias para a sua subsistência, tudo isto é permitido.

No entanto, esta categoria não é nem desejada nem desprezada. Se desejar pode falar sobre estes assuntos o quanto quiser, ou, se assim preferir, pode não falar nada destes assuntos.

Nesta categoria [enquadram-se] as pessoas que são elogiadas por fugir a este tipo de conversa. Os sábios do Musar já advertiram de não ter este tipo de conversa em abundância, mas quanto às conversas que se enquadram na categoria das vedadas (a segunda categoria), ou das desprezíveis (a terceira categoria), não é necessária advertência alguma, onde se impõe guardar um absoluto silêncio. [E não falar de coisas que estão proibidas]. Ao contrário, os diálogos cujo tema são preceitos (a primeira categoria), ou os desejados (a quarta categoria), se a pessoa pudesse falar deles todo o dia, seria o ideal.

No entanto há que ter cuidado com duas coisas: a primeira, que os seus atos sejam coerentes com as suas palavras, tal como disseram: “Belas são as palavras que saem da boca de quem as pratica.”, a isto se referiram ao dizer: “Não é a prédica o essencial, mas sim a prática.” e os sábios elogiavam quem lhes ensinava as boas qualidades dizendo: “Prega, pois tu és digno de pregar.” e disse o rei David: “Regozijai-vos no Eterno, ó justos. O elogio é belo para os justos.” (Sal. 23:1)

A segunda é ser breve, quer dizer, que se esforce em poder dizer muitas coisas com poucas palavras e não ao contrário. Isto é o que disseram os sábios: “Constantemente deve o mestre ensinar aos seus alunos o caminho sintético”.

É preciso que saibas que as canções, qualquer que seja a língua, devem ser selecionadas de acordo com a classificação de categorias que mencionamos no que diz respeito às conversas. Esclareço este ponto apesar de ser evidente, pois tenho visto anciãos e pessoas piedosas, pessoas de [muita] Torá, que, nos festejos, como nos casamentos ou parecidos, quando se quer entoar uma canção, [em honra dos homenageados] se as canções forem em qualquer língua [sem ser em hebraico], apesar do tema da canção ser a valentia ou a generosidade, e nesse caso se enquadrar na quarta categoria (dos desejados), ou [se o tema da canção for] acerca das virtudes do vinho, são [do mesmo modo] recusadas terminantemente. Mas se a canção for em hebraico, são aceites independentemente do conteúdo da canção, apesar de se tratar de coisas enquadradas na segunda categoria, do que nos está vedado, ou na terceira categoria, das desprezíveis. [Sem dúvida agir assim, ou seja, aceitar ou rejeitar as canções segundo a língua, independentemente do seu conteúdo] é um total disparate, porque não é a língua [o que as qualifica ou desqualifica], mas sim o conteúdo, pois se o seu conteúdo é bom, então deve dizê-lo, em qualquer língua que seja, e se a intenção da canção for algo desprezível, independentemente da língua, não deve entoá-la.

Mais um esclarecimento tenho para acrescentar acerca deste ponto, e é que, se houver duas canções, cujo tema em ambas seja aumentar a paixão e enaltecê-la, e se se agradará muito [às pessoas com esta canção], apesar de ser uma baixeza que se insere na categoria dos diálogos desprezíveis, pois inculca e incentiva uma baixa qualidade, tal como mencionei no quarto capítulo da introdução ao Pirkei Avot; se uma dessas duas canções é noutra língua qualquer e a outra em hebraico, ouvi-la em hebraico é uma afronta mais grave para a Torá, devido ao carácter exemplar do idioma hebraico, o qual não é digno utilizar senão para coisas elevadas. [A coisa] é pior, se acrescentarem versículos da Torá ou do Cântico dos Cânticos para esse tipo de canções, em cujo caso, já sai do grupo dos diálogos desprezíveis para se qualificar na categoria dos diálogos vedados. Pois a Torá proíbe que se faça com as profecias qualquer tipo de cantos [ou “slogans”] baixos para coisas desprezíveis.

Como já mencionei que o assunto da maledicência [Lashon Hará] entra dentro da categoria das conversas vedadas, vi oportuno esclarecer este tema, e recordar algumas coisas das que foram ditas a esse respeito. Pois o ser humano ignora que se trata da transgressão mais grave entre o Homem e o seu próximo, que se comete frequentemente. Ainda para mais tendo em conta o que disseram os sábios, que nenhuma pessoa está limpa do pó [quer dizer, não da calúnia em si mas de algo que ainda não chega a ser calúnia, mas está muito perto de o ser] da maledicência  (Avak Lashon Hará), e quem me dera que se pudesse salvar da maledicência em si.

A maledicência [Lashon Hará] é quando se relatam os erros ou defeitos de um indivíduo, ou desprezar a qualquer judeu, através de qualquer tipo de humilhação, apesar de na verdade o humilhado realmente ter esse defeito que foi relatado. Pois a maledicência não se trata de dizer sobre uma pessoa coisas que não sejam verdade, pois [quando não é verdade] isto denomina-se calúnia, [Motzí shem rá al chaveró –  tirar mau nome ao seu companheiro] mas a maledicência é humilhar um indivíduo, mesmo que com coisas que são verdade. Tanto quem diz [a maledicência] como quem ouve, estão a cometer uma transgressão. Disseram os sábios: “São três os que a maledicência mata: quem diz, quem escuta e aquele de quem se diz [o defeito].” Mais ainda disseram: “Quem escuta a maledicência peca mais do que quem a diz.”

O pó da maledicência é [por exemplo] falar dos defeitos de uma pessoa sem os especificar. Assim disse o rei Salomão, com respeito a este assunto: às vezes a pessoa transmite aos outros sem reparar algum defeito de um companheiro, sendo outra a sua intenção: “Como um louco que lança tochas acesas, setas e morte, assim é o homem que engana o próximo e diz: ‘Mas não o fiz eu na brincadeira?’ (Prov. 26:18-19) [Existe um relato no qual] um dos alunos de Rabí enalteceu em público um livro que o próprio autor lhe mostrou. E admoestou Rabí a ação de enaltecer em público o autor desse livro dizendo-lhe: “Afasta-te da maledicência.” O que lhe quis dizer [Rabí ao seu aluno, foi] tu provocas um dano [ao autor] ao elogiá-lo em público, pois entre os assistentes certamente se encontram pessoas que gostam [desse autor] e pessoas que o detestam, e então, aqueles que o criticam, ao ouvir os teus elogios, deverão sublinhar também os defeitos e os erros [desse autor]. Isto é o ponto ideal de afastamento da maledicência.

E o que a Mishná expressa: “A sentença sobre os nossos antepassados não foi selada senão pela [transgressão] da maledicência. Quer dizer, no acontecimento dos espiões que Moisés enviou para espiar a Terra de Israel, sobre os que foi dito: “E trouxeram as humilhações da terra” (Num. 13:32), disseram os sábios “Se os que não disseram calúnias, senão somente contra as árvores e contra as pedras, foram submetidos a semelhante castigo, aquele que fala dos defeitos do seu próximo, quanto mais grave será [o castigo]!” E assim se expressou a Toseftá [conjunto de dizeres dos sábios da época da Mishná, que não foram compilados na Mishná, mas sim na Toseftá – que literalmente quer dizer “acrescentados”]. Três coisas o Homem tem que pagar neste mundo e não tem parte no mundo vindouro: Idolatria, relações sexuais proibidas e assassinato, e a [gravidade da] maledicência [equipara-se] aos três juntos.” e disseram no Talmud: “Quando fizeram idolatria [o bezerro de ouro], foi utilizado o adjetivo ‘grande’, tal como diz: ‘Cometeu este povo um pecado grande’ (Ex. 32:31) e sobre as relações sexuais proibidas também foi utilizado o adjetivo ‘grande’, como disse [José]: ‘Como farei um mal tão grande?’ (Gen. 39:9) e no que diz respeito ao assassinato, também foi utilizado o adjetivo ‘grande’, como disse [Caim]: ‘Grande é a minha dor para poder carregá-la’ (Gen. 4:13). Mas quanto à maledicência, utilizou-se a palavra ‘grandes’ [no plural], querendo dizer que é equiparável às três juntas, é o que diz: ‘Uma língua que fala coisas grandes’ (Sal. 12:4). Muito falaram os sábios acerca do pecado da maledicência, e o mais grave que disseram sobre este tema: “Todo aquele que conta maledicências, renega dos princípios básicos do judaísmo, como está escrito: ‘A nossa língua faremos poderosa, nossos lábios estão connosco, quem é senhor sobre nós?’ (Sal. 12:5)

Apesar de me ter estendido bastante, referi-te apenas uma parte de tudo o que disseram no que diz respeito a este pecado; para que a pessoa se afaste com todas as suas forças, e tente permanecer em silêncio, refiro-me a esta terceira categoria de diálogos [Os desprezíveis].