Parashat Chucat

A guerra com o rei de Arad  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O mais provável é que tudo isto tenha acontecido aos quarenta anos da saída do Egito. Quer dizer, depois do povo já ter sofrido vários golpes, das abundantes queixas do povo, do pedido de carne, dos espiões, de Corach, etc. Toda aquela geração de escravos que saiu do Egito já morreu. Também morreu Miriam, houve falta de água, morre Aarão e já tinha sido decretada a morte de Moisés.

Como se tudo isto fosse pouco, Edom, seus irmãos, comportam-se de maneira muito hostil e não os querem deixar passar pelo seu território para poderem entrar na Terra Prometida para finalmente se poderem instalar e deixarem de viver em tendas errantes. Edom desafia-os, mas Moisés, por ordem de De’s, comporta-se com Edom com fraternidade. Israel não vai começar uma guerra contra os seus irmãos.

Esta negativa de Edom faz com que o povo de Israel tenha que contornar todo território de Edom e dirigir-se a Moav (hoje em dia é a zona das montanhas do sul da Jordânia, em frente ao mar morto), um território muito quente, árido e montanhoso.

O rei de Arad toma coragem para lutar contra Israel, porque interpretou que o motivo pelo qual Israel não lutou contra Edom e se retirou foi porque o povo estava atemorizado, quer dizer, o que lhe dá força para lutar é supor que o povo de Israel está atemorizado e se sente débil.

Perante a ameaça do rei de Arad, o povo reage com elevação. Não acontece como nas vezes anteriores, em que se queixaram perante Moisés ou perante De’s. Não entram em pânico nem reagem hostilmente, quer dizer, não agem confiando na sua própria força.

Desta vez agem com muita emuná — fé em De’s. –  Não fazem apenas uma simples promessa, mas sim uma «promessa a De’s». É importante notar que não se trata de uma promessa comum. Pelos detalhes que se dizem na promessa vê-se que não foram impulsados por algo material, e que também já não têm a mentalidade de escravos que tinham ao sair do Egito. Falam com De’s na segunda pessoa: Se entregares, os entregares nas nossas mãos… quer dizer, sentem-se próximos de De’s. Também não se dirigem a Moisés para reclamar, mas sim sabem e são conscientes de que tudo depende de De’s.

E repetem o verbo duas vezes: Se entregares, os entregares nas nossas mãos. Quer dizer, «tu e só tu». Confiam em De’s e só em De’s.

Também notamos que tudo está escrito no singular, quer dizer, que todo o povo está unido.

Eles pediram a De’s que entregasse o rei de Arad nas suas mãos. De’s entregou-lho, mas não diz «nas suas mãos». Vemos que essa vitória não chegou de cima sem terem que fazer nenhum esforço. O povo esteve disposto a fazer a sua parte. Não pretendia que tudo lhe caísse no colo gratuitamente. O que está a acontecer agora é exatamente o contrário do que aconteceu com a geração dos espiões. Aqui eles estão dispostos a lutar e confiam em De’s.

Não estão a fazer uma guerra por interesse próprio. Estão dispostos a entregar todos os despojos de guerra a De’s, quer dizer, para eles é uma guerra em nome de De’s e pela honra de De’s.

Este é o motivo pelo qual, uma vez que ganharam a guerra, não entraram na terra de Israel. Com esta atitude conseguem mudar uma ideia que tinha começado a popularizar-se entre os povos de Canãa, pois já duas vezes o povo não guerreara, e os cananeus pensavam que era porque não podiam ou porque tinham medo. Aqui, com esta atitude, fica demonstrado a todos os povos que o motivo pelo qual eles não lutam é porque ainda não vão entrar na Terra Prometida. Quer dizer, santificam o nome de De’s, pois anteriormente, com o pensamento que reinava entre os cananeus, tinha-se profanado o nome de De’s, pois os cananeus supunham que De’s não podia contra eles.

Já houve um precedente de algo parecido com Abraão, quando ele foi resgatar o seu sobrinho Lot. Apesar de Lot não ser tão idealista nem seguir os caminhos de Abraão, vemos que Abraão saiu na mesma atrás dele e o resgatou. Os filhos de Abraão agem agora do mesmo modo. O rei de Arad tomou alguns cativos de entre o povo de Israel, e, do mesmo modo, o povo sai para os resgatar.

Por tudo isto é que De’s escutou a voz do povo. Israel lutou, destruiu-os e aniquilou-os a todos.

O lugar chamou-se Chormá – destruição – que era precisamente onde tinham caído os da geração dos espiões, que teimaram em ir à luta contra os cananeus, apesar de De’s ter decretado que não o fizessem, e ali nos diz a Torá que foram perseguidos pelos seus inimigos até Chormá. Isto mostra que se trata de uma geração diferente da anterior. Esta geração não teme, não se queixa perante Moisés, não esperam milagres, não se comportam como crianças, mas sim como pessoas com maturidade, e estão dispostos a entrar na Terra apenas quando De’s assim o determinar.

Vemos que os quarenta anos que De’s conduziu o povo pelo deserto serviram para acabar com todo esse povo queixoso e temeroso, a quem não importava tanto o caminho de De’s nem a sua vontade, e que preferiam comer carne e voltar para o Egito. Agora surge outra geração que é digna de entrar na Terra Prometida.