Parasha Tzav – Shabat HaGadol

Texto do escritor brasileiro Moacyr Scliar

Gostaria de partilhar um texto do escritor brasileiro Moacyr Scliar. Espero que o possam utilizar no Seder de Pesach, junto ao texto tradicional. [Apresentaremos excertos selecionados por Edith Blaustein em 2008 do texto original de Moacyr Scliar, «Um Seder para os nossos dias»]

Ao iniciar o Seder

Esta mesa em torno a qual nos reunimos, esta mesa com as matzót e com as ervas amargas, esta mesa de Pessach com sua toalha imaculada, esta mesa não é uma mesa; é mágica embarcação com a qual navegamos pelas brumas do passado, em busca das memórias de nosso povo.

A esta mesa sentemo-nos, pois.

Somos muitos, nesta noite.

Esta mesa em torno a qual nos reunimos, esta mesa com as matzót e com as ervas amargas, esta mesa de Pessach com sua toalha imaculada, esta mesa não é uma mesa; é mágica embarcação com a qual navegamos pelas brumas do passado, em busca das memórias de nosso povo.

A esta mesa sentemo-nos, pois.

Somos muitos, nesta noite.

Somos os que estão e os que já se foram; somos os pais e os filhos, e somos também os nossos antepassados. Somos um povo inteiro, em torno a esta mesa. Aqui estamos, para celebrar, aqui estamos para dar testemunho.

Dar testemunho é a missão maior do judaísmo. Dar testemunho é distinguir entre a luz e as trevas, entre o justo e o injusto. É relembrar os tempos que passaram para que deles se extraia o presente a sua lição.

Antes de HaLachmaniá

Este é o pão da pobreza que comeram os nossos antepassados na terra do Egito. Quem tiver fome – e muitos são os que têm fome, neste mundo em que vivemos – que venha e coma. Quem estiver necessitado – e muitos são os que amargam necessidades, neste mundo em que vivemos – que venha e celebre conosco o Pessach.

É o legado ético de nosso povo, a mensagem contida neste simples alimento, neste pão ázimo que o sustentou no deserto, e que o vem sustentando ao longo das gerações. É preciso ser justo e solidário, é preciso amparar o fraco e ajudar o desvalido.

O deserto que hoje temos de atravessar não é uma extensão de areia estéril, calcinada pelo sol implacável. É o deserto da desconfiança, da hostilidade, da alienação de seres humanos. Para esta travessia temos de nos munir das reservas morais que o judaísmo acumulou, das poucas e simples verdades que constituem a sabedoria do povo. Ama teu próximo como a ti mesmo. Reparte com ele teu pão. Convida-o para tua mesa. Ajuda-o a atravessar o deserto de sua existência.

Antes de Ma Nishtaná

Tu me perguntas, meu filho, porque é diferente esta noite de todas as noites. Porque todas as noites comemos chamets e matzá, e esta noite somente matzá. Porque todas as noites comemos verduras diversas, e esta noite somente maror.

Porque molhamos os alimentos duas vezes. Porque comemos reclinados.

Eu te agradeço, meu filho. Agradeço-te por perguntares. Porque, se me perguntas, não posso esquecer; se indagas, não posso ficar calado. Por tua voz inocente, meu filho, fala a nossa consciência. Tua voz me conduz a verdade.

Por que esta noite e diferente de todas as noites, meu filho? Porque nesta noite lembramos.

Lembramos os que foram escravos no Egito, aqueles sobre cujo dorso estalava o látego do Faraó.

Lembramos a fome, a cansaço, a suor, a sangue, as lagrimas. Lembramos a desamparo dos oprimidos diante da arrogância dos poderosos.

Lembramos com alívio: é o passado.

Lembramos com tristeza: é o presente.

Ainda existem Faraós. Ainda existem escravos.

Antes da leitura dos Quatro Filhos:

Não sejas como o ingênuo, que ignora os dramas de seu mundo, Não sejas como o perverso, que os conhece, mas nada faz para mudar a situação.

Pergunta, meu filho, pergunta tudo o que queres saber – a dúvida é o caminho para o conhecimento.

Mas quando te tornares sábio, procura usar a tua sabedoria em benefício dos outros. Reparte-a, como hoje repartimos nossa matzá, Segue o conselho de nossos sábios, e lembra a saída do Egito, não só na noite de Pessach, mas todos os dias de tua vida.