Seminário em Palma conta com show gratuito de música Judaica e em Ladino

Dezenas de pessoas reuniram-se em Palma de Mallorca no fim de semana passado, para um seminário especial para os Bnei Anussim patrocinado pela Shavei Israel.

O Shabaton recebeu, como convidado especial, o rabino-chefe de Madrid, o Rabino Moshe Ben Dahan.

O tema geral do seminário, que incluiu aulas, orações e refeições, foi “A Relevância do judaísmo nos dias atuais.” O Rabino Eliyahu Birnbaum, diretor educacional da Shavei Israel, e o Presidente da Shavei Israel, Michael Freund, voaram especialmente de Israel, para o fim de semana.

Após o seminário, a Shavei organizou na noite de sábado um show livre de música judaica e Ladino. A apresentação foi realizada no Fórum Caixa em Palma e, Ioel Munjeh, um músico Bnei Anussim que agora vive na cidade israelense de Tsfat (Safed), foi a estrela da noite.

Confira abaixo um pouco do que foi o show de Ioel!

 

 

Vídeos de Ioel Munjeh:

Cantando “Od Avinu Hai”

http://www.youtube.com/watch?v=XoepsR62TNU

Cantando “Gesher Tsar Meod”

http://www.youtube.com/watch?v=x0gg7L7hJ30

JACOB LOPEZ, Palma de Mallorca,1672

A expulsão dos judeus de Oran

6a00d8349889d469e2014e8842c36e970d-800wiNo ano de 1672, encontramos um importante relato na história dos cripto-judeus de Mallorca, Espanha.

Um Navio chegou no porto de Palma de Mallorca com muitos judeus que fugiam do Norte da África. Fernando Fajardo, o Marquês de Vélez e protegido da rainha Mariana (mãe de Carlos ‘O Enfeitiçado’) tinha decretado a expulsão de 500 judeus que viviam na cidade de Oran, no norte da Argélia moderna, que estavam sob domínio espanhol desde que a cidade foi conquistada pelo Cardeal Cisneros em 1509. Mas, concordando com suas mudanças para a cidade portuária de Livorno, a nordeste da península italiana, que havia sido declarada porto livre em 1590.

Parece que um grande número de judeus já haviam estado em Mallorca, quase trezentos anos antes, após o assalto em Call em agosto de 1391, que causou a conversão forçada de centenas de judeus. Alguns conseguiram escapar, seja durante os motins sangrentos, seja nas semanas e meses que se seguiram e, apesar dos decretos que limitavam sua saída da ilha. Supõe-se que a maior parte chegou a Oran e de lá foram distribuídos entre outras cidades, como Ténès e Mostaghanem, todos na costa oeste da moderna Argélia.
Três anos de prisão

Devido à expulsão, o navio chegou carregado com uma dezena de judeus ao porto de Mallorca. Entre eles estava um jovem de cerca de 16 anos, chamado Jacob Lopez, que esperava encontrar sua noiva na cidade toscana. No momento em que o navio chegou ao Porto Pi, porto onde estavam ancorados os navios estrangeiros, os guardiões da Inquisição encarregados de monitorar a pureza da Espanha subiram no navio. Os judeus foram cuidadosamente examinados e os jovens despertaram as suspeitas dos guardas, sendo presos e permitindo que o navio continuasse seu caminho a Livorno, sem eles.

O menino permaneceu cerca de três anos na prisão, enquanto a Inquisição investigava seus detalhes. Após o envio de mensagens para 14 tribunais inquisitoriais na Península Ibérica, receberam informações de Madrid, sobre uma família Lopez, descendentes de judeus que fugiram em direção a Málaga e de lá para o Norte de África. Supostamente ali haviam abandonado o Cristianismo e teriam abraçado a fé de seus antepassados judeus.

Cruzando informações concluiu-se que Jacob era realmente Alonso Lopez, filho da família, que arriscou sua vida ao voltar para o território espanhol. Na verdade já tinham tentado sair de Oran vários anos antes, com a publicação do decreto de Fajardo, mas ao chegar ao porto de Nice, de onde continuariam a viagem até Livorno foram capturados por piratas e trazidos de volta à terra que habitavam, onde passaram vários meses na prisão, até que foram resgatados, e agora novamente se arriscavam no caminho à Livorno.
Relaxado ao braço secular

O jovem “marrano” não negou as acusações e afirmou que permaneceu fiel a sua fé ancestral. O Inquisitor Pedro de Aliaga apresentou documentos para Inquisitor Maior Rodriguez de Cossio, que assinou sua sentença de morte. Mas a Inquisição, como uma instituição religiosa que era, não queria matar ninguém, de modo que o réu foi considerado “relaxado ao braço secular”, permitindo a sentença.

No dia 12 de janeiro de 1675, multidões se reuniram perto da porta de Jesus, ao norte da cidade de Palma, onde estão hoje, provavelmente, os edifícios do Institut Joan Alcover na Avinguda Alemanha de Palma, ou talvez perto da faculdade Lluís Vives, onde estudei na minha juventude.

Jacob Lopez subiu à fogueira aonde mais uma vez rejeitou a oportunidade de se arrepender de sua apostasia ao cristianismo católico e permaneceu fiel ao judaísmo, para que então, ateassem fogo à estaca e o queimassem vivo.
Exemplo para os Cripto-Judeus

Seu exemplo repercutiu de imediato sobre as famílias dos descendentes de judeus, chamados xuetas, moradores da cidade, que haviam se convertido ao cristianismo três séculos antes. Logo eles se organizaram para exigir, em segredo, só para si, sua lealdade ao judaísmo. No entanto, dois anos depois, foram presos cerca de 270 “judaizantes” e então começaria a odisséia dos Xuetas Maiorquinos, mas isso é outra história!

A Excomunhão dos Mallorquinos em Ténès

A História dos Judeus que escaparam de Mallorca em 1391

 

Tenes
Tenes

A fuga do ano de 1391

A cidade de Ténès está na metade do caminho entre a capital de Oran e a capital Argel, na costa da Argélia, bem “abaixo” da ilha de Ibiza, nas Ilhas Baleares. Há uma pequena praia que divide a costa íngreme aonde lá, foi fundada pelos fenícios, a primeira cidade da região, Cartennas, há cerca de 2.500 anos.

Em 1391, durante um grande massacre e conversões forçadas dos judeus ao cristianismo em Mallorca, muitos fugiram da ilha e se estabeleceram nas cidades do norte da Argélia, Ténès, Konstantin, Beghaïa, etc.

A chegada desses grupos, e suponho que de muitos outros perseguidos na Península Ibérica, causou uma grande perturbação nas comunidades judaicas já existentes no norte da África.A História dos Judeus que escaparam de Mallorca em 1391

Aqui transcrevo uma “resposta” enviada por aquele que foi o rabino de Mallorca, Rabbi Shim’on ben Tsemah Duran, que se instalou na cidade de Argel, à comunidade judaica de Ténès, que protestava contra o “tratamento” com o qual eram recebido os novos imigrantes de Mallorca. Inveja, arrogância, excomunhões: Uma briga completa.

A ‘Resposta’, como a maioria destas cartas legais, está repleta de termos haláchicos, alguns muito complicados, incluindo palavras em grego de fundamentos da legislatura judaica, como “responsa” ou “Sheelot uTshuvot” em hebraico.
A RESPOSTA III, 46

Rashbetz
Rashbetz

Sheelot uTshuvot de RaSHBaTS (Rabino Shim’on Ben Tsemah), Parte III, n º 46.

Te escrivo que, desde que se estabeleceu a comunidade que chegou de Mallorca em sua cidade, divergiram sobre a questão dos pagamentos e impostos para o rei da comunidade original, uma vez que eles pagavam duas moedas de ouro e um oitavo de imposto ao rei cada mês, enquanto que a antiga comunidade pagava três de ouro, já que assim o rei estabeleceu e portanto, assim era o costume.

Inclusive, mesmo depois de o rei ceder a sua parte ao juiz, não adicionava e nem subtraia nada. E agora levantam-se os líderes da “velha” e exigiam que os ‘novos’ paguem o salário proporcional e queriam acrescentar aos ‘novos’ três oitavos e meio, rebaixando-os. E os “novos” não aceitaram, dizendo que “eles não têm nenhuma briga com eles, e que não se preocupam se não com a lei real. E para quem vão reclamar, se o Criador os diferenciou? Nós com o nosso e vocês com os seus.” E quando viram isso, os ‘velhos’ decidiram se separar dos ‘novos’ na alimentação, não comendo a carne abatida por eles, não bebendo seu vinho e nem visitando seus doentes, não circuncidavam seus filhos, e não permaneciam na sinagoga quando estes oravam, e não homenageavam um dos ‘novos’ para que leiam a Torá, e tudo isso sob pena de excomunhão. E agora me pergunto se os ‘velhos’ estão certos em suas reclamações sobre os “novos” e se estes atos são corretos e legais.
RESPOSTA:

Todo mundo sabe que o pagamento de impostos para o rei é um direito real, como está escrito no livro de Esdras (Esdras 4:13), que não se deve ignorar esta lei dos Sábios, e assim está explícito no primeiro capítulo de Baba Batra (Talmud) que tudo que o rei impõe é lei real e é um direito estabelecido, portanto, não se pode mudar nada do que está estabelecido, uma vez que a nossa regra é a de que “a lei do reino é a lei “, conforme determinado no tratado de Nedarim (Talmud) em matéria aduaneira e em Baba Cama (Talmud) sobre a utilização de dinheiro, e em Gittin (Talmud) sobre a questão de documentos judiciais de não-judeus, e em Baba Batra (Talmud) sobre o comércio de mercadorias dentro dos não-judeus. E para quem sabe estas questões está claro que o direito real é lei, e quem toma algo de algum companheiro transgredindo a lei real, realiza um roubo e, portanto, já que o rei impôs para cada comunidade seus aumentos ou recessos, ninguém pode exigir algo do outro, e quem o faz, é um assaltante, D’us nos livre, para que não exista tal coisa em Israel! E mesmo que reclamem dizendo que somos mais importantes do que eles, nada se pode fazer e se o rei deseja favorecer ou prejudicar alguma comunidade, assim o pode fazer com o que você possui.

E a prova é que no Tratado de Baba Batra, Rav Ashe diz que ” o “parataxe”, a cidade contribuirá com ele, que os cidadãos o escondam, mas o “anádeixis”, que D’us o ajude”.

E o Rabeinu Chananael explica que o “parataxe” (παράταξις) é uma pessoa que não tem emprego, e você deve esconde-lo das pessoas dizendo que é um inútil, e assim estará isento de impostos, mas ele deve ajudar os cidadãos de sua comunidade, assim como eles o ajudam. Mas o “anádeixis ‘(ἀνάδειξις) não são os cidadãos que o escondem, mas o próprio rei que deu-lhe uma carta o isentando dos impostos, e este é o significado de “anádeixis” ‘dispensado’ ou ‘leve’. E o Talmud de Jerusalém em Baba Cama diz que do momento que foi fixado os impostos sobre os cidadãos, quem dá mais e quem dá menos, ninguém pode ferir os outros, por exemplo:

“Se você ver que a água transborda da vala do seu amigo e está prestes a entrar em seu campo (e isso ira lhe causar prejuízo), caso ainda não tenha entrado, você pode desviar para não prejudicá-lo” (ou seja, você pode construir uma parede que impeça a entrada de água para o seu campo, apesar de que assim, entrará na de seu vizinho) “, mas se a água já entrou em seu campo, você não pode desvia-la para o campo de seu vizinho.” A partir disso, aprendemos que a partir que já existe a fixação dos encargos para cada um, ninguém tem o direito de transferi-los para o vizinho. E também é dito:

“Antes de aplicar o “Chrys-argyra” pode-se reivindicar que o outro faça o seu trabalho’, mas após ser aplicada a” Chrys-argyra” não se pode mais”.

O “Chrys-argyra” (χρυσ-ἄργυρα) é ‘xícara de prata dourada’, em grego, e significa que, se o rei ordenou impostos sobre taças de ouro e prata e encontrou uma nas mãos de um cidadão, se foi visto antes entrar na cidade, este tem o direito de dizer que ele não é um artesão e dizer quem fez o copo, para se isentar da comissão real. Mas se isso acontece depois que ele entra na cidade e já fixaram a tarifa aos cidadãos não se pode usar essa desculpa, porque a tarifa já foi imposta a toda a cidade. E ele também diz:

“Xeno-Pyrgo” antes de chegar ao Romanos pode-se suborná-los, mas quando já chegou, é proibido.”

O significado é que, quando o rei viaja de um lugar para outro e seus soldados dormem em tendas, quando eles vêm para as cidades, pedindo abrigo para os judeus, são chamados de “xeno-Pyrgo” (‘Xeno’ – ξένω – significa ‘alojamento’ e ‘Pyrgo’ – πύργος – é o ‘regimento’ ou ‘torre’), e antes que os romanos entrem na cidade pode-se suborná-los para que, quando entrem não fiquem em sua casa, mas quando já entraram e pediram acomodação na cidade é proibido os subornar para se isentar, já que vai poupar dinheiro às custas de seus companheiros, porque se não dormem n sua casa, irão para outra casa, pois o descanso destes será nesta cidade.

E tudo isso nos ensina que o que é estabelecido por leis reais sobre os cidadãos da comunidade não deve-se ser alterado para prejudicar os outros.

Assim, tendo em vista, que os antigos habitantes da cidade não podem reclamar que os “novos” se favorecem com seus impostos, os atos de excomunhão são ilegais e têm de ser abolidos, e não quero seguir escrevendo para não ofende-los. E que o Senhor lhes dê a paz!

Dois saques ao Call de Palma de Mallorca

Jewish Heritage Tour Pic2

Um trecho do livro de Miquel Fortesa, “Eles descendentes dos Judeus Conversos de Mallorca”. Editorial Moll, Palma de Mallorca, 1972, p. 48-52.

Não há muita diferença entre o que aconteceu com os judeus em toda a Diáspora com o que aconteceu com os seus irmãos de sangue, o xuetas de Mallorca, incluindo os saques.

No início do século XIX, 24 de fevereiro de 1809 e 6 de novembro de 1823, o Call (do hebraico Cahal = Congregação) ou seja, as ruas habitadas pelos xuetas da capital Mallorquina foram atacadas e saqueadas, de acordo com os cronistas contemporâneos Bover e Desbrull, citados por John Llabrés Bernal em “Notícias relações históricas de Mallorca”, Século XIX, Volumes I e II, 1958, e Josep Tarongí em seu livro “Algo sobre o status religioso e social da ilha de Mallorca”, 1877.

 

O PRIMEIRO SAQUE

Em 22 de fevereiro de 1808 o governo enviou um dos dois batalhões do regimento Provincial, responsáveis pela praça da ilha de Mallorca, embarcar para o continente. Lembremos que neste período, estamos em guerra contra Napoleão e no dia anterior, Zaragoza havia caído para os franceses após um terrível cerco que deixou cerca de cinquenta mil mortos.

Os soldados, cerca de trezentos, que estavam sendo enviados para a península eram Mallorquinos e não tinham nenhuma vontade de ir para a guerra, sendo assim foram declarados insubordinados e, dois dias depois, deixaram o quartel a gritos ultrajantes.

De acordo com os cronistas, uma “mão invisível” se ocupou de direcioná-los ao Call da cidade, lhes explicando que “os que moram na Calle eram a causa da guerra”.

Devemos considerar o ressentimento que as tropas tinham contra os habitantes do Call, já que estes, muito contra a sua vontade, foram proibidos, não apenas de ocupar posições oficiais, mas também de possuir armas, fazendo com que raramente fossem admitidos nas milícias.

Os soldados haviam alcançado a igreja de S. Nicolás e de lá foram carregados de pedras na direção da área habitada pelos xuetas, atirando nas janelas da casa de John Bonnin, rico comerciante que pagou para se livrar do alistamento, quebrando portas e móveis, e fazendo o mesmo com as casas vizinhas. O assalto dos militantes durou desde o meio-dia até as quatro da tarde, e apedrejaram, até mesmo, o general que veio para apaziguá-los. Finalmente tiveram que voltar para o quartel, mas os civis assumiram o caos, saqueando as casas e queimando nas ruas os imóveis e pertences no meio de uma grande festa.

Os militantes que haviam começado o assalto tiveram que intervir, pois não haviam outros na Ilha, e se colocaram a patrulhar as ruas sem deixar ninguém sair de casa. Na casa de Moixina, na rua de S. Miquel fizeram grandes estragos e tiveram que deixar sentinelas em suas portas. “As jóias de pratas estavam atiradas entre pedaços de renda com tule fino e panos de comércio. Homens indefesos foram cruelmente espancados, mulheres e crianças, cujos gritos se misturavam com o barulho dos amotinados. Durante oito dias, mantido à custa dos vizinhos, uma estação de guarda foi alojada na antiga capela de S. Cristóbal de la Bolsería … ”

O SEGUNDO SAQUE

Na noite de 5 à 6 de novembro de 1823, às 2 da manhã, foi retirada a lápide da Constituição por ordem das autoridades e se recolheu as armas dos três batalhões nacionais, cujo comandante era Don Baltasar Comellas.

Era o fim do Triênio Liberal, apenas 24 horas antes do Presidente das Cortes, Rafael de Riego, ser enforcado e, enquanto os Cem Mil Filhos de São Luís apoiavam a restauração do absolutismo de Fernando VII.

Os xuetas que haviam recebido a igualdade das mãos da maltratada Constituição de Cadiz resistiam em se desprender dela, mas, no fim, tiveram que entregar as armas que tinham finalmente recebido. O povo se entusiasmou contra os xuetas e passaram por suas casas e ruas deixando tudo em destroços e realizando um saqueio voraz, queimando os caros móveis, desabando portas aos gritos desaforados de “Viva o rei!”,”Viva Fernando!”,”Viva a Fé!”.

Quando em Madrid gritavam: “Viva as cadeias!”, em Palma diziam que os que prateiros e os comerciantes foram os autores da Constituição, liderados por um Petatxo. Fizeram uma grande fogueira na rua aonde atiraram livros de contas e de valores comerciais, objetos de arte inúteis para a ganância.

Na manhã seguinte, grupos de mulheres passavam na Rua da Argentería para zombar dos oprimidos: “Pobre gente! aqui não os deixaram com nada. Olha, aqui também destruíram… pobres!” E caiam na gargalhada …

O Regresso dos Chuetas de Maiorca

Nudownloadma pequena ilha da costa da Espanha, uma tragédia que teve início há mais de seis séculos, parece ter chegado ao seu fim.

Pela primeira vez desde que seus ancestrais judeus foram forçados a se converter ao catolicismo nos séculos XIV e XV, os Chuetas de Palma de Maiorca, foram formalmente, reconhecidos como judeus por uma importante autoridade rabínica israelense, o Rabino Nissim Karelitz de Bnei Brak.

Este é um importante passo, que abrirá as portas para milhares de Chuetas que queiram retornar às suas raízes e reunir-se ao povo judeu.

Quem são estas pessoas?

Ninguém sabe com certeza quando chegaram os primeiros judeus a Ilha de Maiorca, pesquisadores apontam para o início do século V.

Por volta do fim do século XIII, a situação dos judeus começou a deteriorar-se extremamente. Em 1305, irromperam ataques contra judeus e o primeiro libelo de sangue ocorreu em 1309, quando muitos judeus foram falsamente acusados de assassinar crianças judias.

O evento marcante, entretanto, sucedeu em 1391 quando pogroms antijudaicos ocorreram em quase toda a Espanha.

No dia 2 de agosto deste mesmo ano, os motins e a violência chegaram a Maiorca, onde centenas de judeus foram massacrados e outros convertidos à força. Em 1435, os judeus remanescentes foram ou assassinados ou arrastados às pias de batismo, e assim a comunidade judaica de Maiorca foi destruída.

Os nativos maiorquinos nunca aceitaram os convertidos e começaram a referir-se a eles como Chuetas, palavra que refere-se a porco em castelhano. Muitos continuaram praticando o judaísmo em segredo, arriscando assim suas vidas e o seu bem-estar para permanecerem fieis aos caminhos de seus antepassados.

Consequentemente, a Inquisição tornou-se particularmente ativa na área, caçando a todos os suspeitos de praticar judaísmo secretamente. Em 1691 cerca de 300 anos depois das conversões forçadas, 37 Chuetas foram assassinados pela Inquisição em Palma, pelo “pecado” de “reincidir” no judaísmo.

Desde o começo, os Chuetas tiveram que viver com a hostilidade de seus vizinhos católicos, os quais nunca os aceitaram como verdadeiros cristãos e se negaram a casar-se com eles, fenômeno que durou até o início da era moderna.

De fato, somente quando os franceses capturaram Maiorca no início do século XIX, a Inquisição foi abolida naquela área, porém nem isso trouxe o fim da discriminação contra os Chuetas.

Escritores como a francesa George Sand no século XIX e o inglês Robert Graves no século XX, escreveram sobre os Chuetas com muita simpatia, lamentando o ódio ao qual eram sujeitos.

Ironicamente, o ódio dirigido aos Chuetas ao longo das gerações só serviu para reforçar sua identidade judaica e sua ligação com o judaísmo.

Restrições legais contra eles finalizaram somente em 1931, quando a república espanhola foi incorporada, e somente nos últimos 40 a 50 anos é que começaram a ocorrer matrimônios mistos entre os Chuetas e os maiorquinos católicos.

Como consequência, durante gerações, os Chuetas têm vivido entre dois mundos, os católicos maiorquinos os denominam judeus e os judeus os consideram católicos.

Estima-se que 15000 a 20000 Chuetas ainda vivem em Maiorca, e nos últimos anos um número cada vez maior expressa seu interesse em reclamar suas raízes judaicas.

Agora, graças ao dito haláchico do Rabino Karelitz, seu sonho tornou-se realidade.

Em sua resolução, o Rabino Karelitz escreveu: “devido ao fato deles (os Chuetas) terem guardado ao longo das gerações e terem se casado somente uns com os outros, todos os que tem relação com as gerações passadas são judeus, irmãos do povo de Israel, a nação de D-us”.

Não apenas isso, o Rabino Karelitz escreveu ainda que devem realizar-se esforços para aproximar os Chuetas a sua religião judaica e os mesmos devem ser alentados a adotar uma vida de Torá e observância das mitzvot.

A decisão tem um peso enorme, já que o Rabino Karelitz lidera uma das cortes rabínicas “charedí” mais importantes de Israel, na cidade de Bnei Brak. É considerado um dos mais famosos árbitros da lei judaica e é neto do famoso “Chazon Ish”, um dos maiores e conhecidos rabinos do século XX.

No início do mês, viajei a Maiorca para transmitir aos Chuetas a decisão do Rabino Karelitz e para encorajá-los a realizar a viagem de regresso ao mundo judaico.

Uma das noites, era domingo, em uma sala repleta de pessoas, comentei a decisão aos Chuetas, que ficaram sumamente emocionados e começaram a aplaudir e a chorar. Muitos disseram que nunca pensaram que uma decisão assim pudesse ser tomada enquanto eles vivessem.

Uma jovem Chueta, de aproximadamente 20 anos, aproximou-se de mim com os olhos ainda chorosos, e me relatou as experiências que havia tido na escola, poucos anos antes, quando foi humilhada por sua identidade Chueta.

“Sempre soube que sou judia, e sempre o senti em meu coração”, me disse. “Porém agora, graças a decisão do Rabino, é oficial, e estamos recebendo a aceitação do povo de Israel. Não posso acreditar!”

Creio que o povo judeu tem uma responsabilidade histórica e deve ajudar aos Chuetas e facilitar-lhes seu retorno. Temos que ajudar – e a nós mesmos – àqueles que queiram retornar ao judaísmo.

Durante os séculos, a Inquisição tentou com todos os seus esforços e energia, afastar os Chuetas de nós. Nossa tarefa é demonstrar determinação e dar-lhes as boas vindas a sua casa.

Dezenas de pessoas participaram do painel sobre ‘Chuetas’ em Palma de Mallorca

Brian Blum

OLYMPUS DIGITAL CAMERANa quinta-feira passada, véspera do Yom Kipur, o primeiro de uma série de quatro seminários patrocinados pela Shavei Israel para ‘Chuetas’ em Palma de Mallorca, foi realizado com sucesso. Os seminários adicionais acontecerão nos dias 17 de outubro, 14 de novembro e 12 de dezembro.50 pessoas da região de Palma, em sua maioria judeus e ‘Chuetas’ (conhecidos, também, pelo termo hebraico como Bnei Anussim: descendentes de judeus que foram obrigados a se converter ao catolicismo há mais de 500 anos atrás, e que os historiadores geralmente se referem a estes pelo nome depreciativo ‘Marranos’) participaram do seminário, que contou com um painel que envolveu a discussão se os ‘Chuetas’ devem voltar formalmente ao Judaísmo.

O painel incluiu: o emissário da Shavei Israel para a região, o Rabino Nissan Ben Avraham; Andreu Aguiló Diaz, um artista ‘Chueta’ que vive na área de Palma, e Miquel Segura, um jornalista ‘Chueta’ que voltou formalmente ao judaísmo com ajuda da Shavei Israel, em 2010. O painel foi moderado pelo conhecido historiador local e editor Lleonard Muntaner, que tem focado extensivamente nos judeus de Mallorca.

Segura, que organizou o evento para a Shavei Israel, comentou, durante o seminário, que toda esta série representa um verdadeiro marco para os ‘Chuetas’ de Palma de Mallorca. “Até agora, têmos realizado dezenas de conferências e simpósios, publicado muitos livros, e, todos, sobre o nosso passado. Na quinta-feira, abrimos um novo caminho. Nós dissemos: ‘vamos falar sobre a nossa identidade do futuro’. Os próximos eventos vão ter sequência a partir disso”.

Mais informações sobre seminários anteriores da Shavei Israel e sobre a vida judaica na região de Palma em geral, no site da Shavei.

 

Receita para Pessach desde Palma de Mallorca

Artigo publicado no site da Bnei Brit em Inglês: (http://www.bnaibrith.org/magazine/mallorca_recipe.cfm)

 

 

Mallorcan_Almond_Torte-300x212Gato de Amendoas

Um famoso autor e Chef, Antoní Piña, é uma das maiores autoridades na área da cozinha, nas Ilhas Baleares. Tem dedicado grande parte de sua carreira em descobrir e aperfeiçoar vários dos famosos pratos de Mallorca, assim como este delicioso bolo sefaradita, para Pessach.

As notas do Chef Piña se encontram no final da receita.

Receita:

Você pode moer as amêndoas ou comprar farinha de amêndoa!

Ingredientes:

2 xícaras + 1 colher de chá de farinha de amêndoa
1 + ¼ de xícara de açúcar
5 ovos
Cascas raladas de 1 limão
1 colher de chá de canela
1 colher de sopa de café (não instantâneo)
1 colher de sopa de óleo ou margarina
Um punhado de farinha de Matzá
1 colher de sopa de açúcar de confeiteiro

Procedimento:

– Pré-aqueça o forno a 180 graus.
– Passe a margarina ou o óleo num molde de assadeira e espalhe Farinha de Matzá sobre ele.
– Separe as gemas das claras.
– Bata as gemas com o açúcar até dobrar seu volume inicial.
– Em outra tigela bata as claras até que estas tomem consistência.
– Adicione as gemas as claras.
– Adicione a farinha de amêndoas, o café, a canela e as cascas de limão e misture bem.
– Asse a 180 graus nos primeiros 15 minutos, em seguida, abaixe o forno para 160 graus e deixe durante os próximos 25 minutos.
– Retire o molde do forno e deixe descansar por cinco minutos.
– Cuidadosamente retire o bolo do molde.
– Espalhe em cima o açúcar de confeiteiro.
– E sirva frio!

Notas:

Esta é uma iguaria da ilha de Mallorca, popular especialmente entre as famílias chuetas. Seus ingredientes, a forma e a qualidade da preparação refletem sua herança culinária judaica. Hoje, podemos encontrar suas origens refletidas, também, em outras comunidades sefaraditas.

Na Itália, ele é conhecido como “Bocca di Dama”, exceto que a versão atual é feita com farinha e este é servido na hora de quebrar o jejum de Yom Kipur. Na Turquia, surpreendentemente, é o mesmo que em Mallorca, mas com uma pequena mudança: os judeus turcos usam nozes ao invés de amêndoas e chamam de “Gato de Muez de Pesah”. No Marrocos é conhecido pelo nome de “Pallebe aux Amandes”, e como na Itália, é feito com farinha.

Estes exemplos confirmam que os judeus em toda a diáspora se adaptaram ao seu local de assentamento, mudando aromas, mas, mantendo-se fiel às mesmas tradições!