O museu judaico de Belmonte reabre suas portas após uma renovação de 350 mil dólares

A cidade de Belmonte renovou e reabriu seu museu judaico – o maior museu do mundo sobre os Bnei Anussim – os descendentes de judeus forçados a se converter ao catolicismo há 500 anos atrás. O projeto contou com um orçamento no valor de US$ 350.000 e está programado para começar a funcionar no dia da homenagem ao Dia Anual da Cultura Judaica Europeia, que acontece em setembro.

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1º Congresso de Identidade e Memória Sefaradi em Portugal

No mês passado, ocorreu um congresso sem precedentes em Portugal: três dias de conferências acadêmicas, lideradas por renomados historiadores, sobre o passado judaico em Portugal.

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Plantando árvores em honra a Tu B’Shvat

Os alunos do Rabino Elisha Salas, emissário da Shavei Israel para Portugal e Espanha, decidiram adotar o belo costume de plantar árvores no feriado de Tu B’Shvat.

Em Tu B’Shvat celebramos o ano novo das árvores, e a Torá compara o homem como a árvore do campo. Plantar uma árvore é uma mensagem de solidariedade para com as gerações futuras, que somente estas terão a árvore plantada na sua glória, quando ela crescer.

No domingo passado – desafiando as respectivas chuva, neve e frio – as comunidades de Alicante, Belmonte e Lisboa saíram ao encontro da natureza.

Em Belmonte, as festividades começaram cedo, na véspera do Shabat. Os estudantes reuniram-se com o Rabino Salas e durante o dia sagrado de descanso, realizaram um tradicional “seder” (ritual) repleto de saborosas frutas e vinhos.

O Rabino Salas voltou na própria sexta-feira à tarde de Israel, após ter participado de uma Feira de Turismo, realizda pelo Ministério do Turismo, promovendo a Red de Juderías Portuguesa, rota turística que passa por todos os locais judaicos históricos. Mas não havia porque se preocupar! Os diligentes estudantes do rabino prepararam todo o Shabat, cozinharam, receberam os convidados, prepararam a mesa festiva do Beit HaAnussim (centro de estudos da Shavei Israel em Belmonte) e até prepararam um guia em Português para oficiar o seder, segundo a antiga tradição cabalística.

Aqui apresentamos algumas imagens do grupo de Belmonte plantando uma árvore:

A seguir, Lisboa:

E enfim, Alicante:

Feira de Turismo:

Bnei Anussim da Colômbia recebem um novo Sefer Torá

Com grande alegria, a comunidade Bnei Anussim de Barranquilla, Colômbia teve a honra de celebrar a recepção de um novo Sefer Torá, através da tradicional cerimônia de “Hachnasat Sefer Torá”. O evento festivo foi preenchido por muita dança e música com os rolos da Torá, expressando o laço indissolúvel entre a vida judaica e as leis de Moisés. Temos fotos da celebração – é possível ver o Sefer sendo levado em uma procissão e depois, a dança na sinagoga.

Hachnasat Sefer Torá foi precedida por um grande Shabaton no qual participaram as comunidades Bnei Anussim do longo da costa colombiana: Cartagena, Santa Marta e Valledupar.

Estas comunidades sionistas crescentes são compostas seja por descendentes de Anussim – que redescobriram nos últimos anos suas raízes – tanto por pessoas de passado não-judaico, que escolheram o caminho da conversão. Estes todos são apoiados pelo emissário da Shavei Israel na Colômbia, o Rabino Shimon Yehoshua. As instalações locais incluem uma yeshiva, mikvê (banho ritual) e uma escola primária Talmud Torá para as crianças. Alimentos Kosher também estão disponíves.

Temos mais algumas fotos de um serviço de oração da manhã conjunta que aconteceu em Cali, com a participação de membros da comunidade Magen Abraham.

Rabino de Belmonte – 500 anos de tradição judaica

Representante de todos os judeus de Belmonte, o Rabino Elisha Salas concede uma entrevista ao País Positivo desmitificando o facto de a comunidade judaica ser considerada fechada e pouco receptiva a visitas de pessoas exteriores à comunidade.

Rabino de Belmonte, Elisha Salas
Rabino de Belmonte, Elisha Salas

Com um poder de oratória notável recebe os convidados dentro da Sinagoga. Começa por explicar a disposição das pessoas: “homens em baixo com kipá sobre a cabeça e as mulheres no piso superior de cabelos cobertos”

É um membro ativo em Belmonte que prima por promover e divulgar a cultura judaica. As ações pela Rede de Judiarias de Portugal ajudam o seu trabalho?

A comunidade judaica de Belmonte é um pequeno organismo que sozinho não consegue disseminar 500 anos de história da presença judaica em Portugal, precisamos de um organismo mais amplo e forte para o fazer e a Rede de Judiarias de Portugal vem desempenhar, na perfeição esse papal. É necessário desenterrar a história judaica, leva-las às pessoas e expor a riqueza que se encontra escondida no território português.

Há na sua opinião, muito trabalho por efetuar?

Acredito que sim. Todos os organismos trabalharam para melhorar, preservar e conservar o patrimônio local, agora devem-se unir e criar uma rota única de forma a eu o turista não perca tempo com as viagens e fique perdido quando necessita de alguma informação adicional. O trabalho em rede, em comunidade é fundamental e a Rede de Judiarias de Portugal está a trabalhar nesse sentido.

Recebe a visitas de muitos turistas judeus?

Todos os turistas que visitam Belmonte ficam encantados com a região e querem conhecer mais do país, a sua curiosidade fica aguçada e a Rede de Judiarias desempenha um papel fundamental ao criar rotas devidamente assinaladas e estruturadas para que estas pessoas satisfaçam a sua curiosidade e regressem.

Criadas as Rotas é necessário criar condições para receber os turistas que têm regras diferentes da cultura portuguesa. Nota que já existe essa sensibilidade?

Já existem alguns restaurantes que servem comida kosher. Desloquei-me ao local para ensinar e me certificar de que a comida é confeccionada mediante as nossas regras e certifiquei esses restaurantes. Atualmente já existem queijos, compotas, carnes e bebidas que podem ser adquiridas e que têm a certificação kosher.

 

Artigo publicado no jornal País Positivo

Os gritos silenciosos das vítimas da Inquisição na Sicília

Por Michael Freund
Jerusalem Post
19 de janeiro de 2017

 

Elevando-se sob a Piazza Marina perto do mar, em Palermo, na Sicília, está uma estrutura medieval ornamentada que esconde evidências de um dos mais escuros capítulos da história europeia, dentro de suas paredes.

Com suas muralhas desgastadas e uma imponente arquitetura de fortaleza, o Palazzo Chiaramonte, ou Palácio Steri, como é mais conhecido, é um dos locais mais importantes da cidade costeira, um lugar envolvido em uma tormenta que muitos preferem esquecer.

De 1601 a 1782, o local serviu como a sede da “Santa Inquisição”, uma instituição que usou meios decididamente profanos para caçar suspeitos de hereges, sectários e, claro, judaizantes secretos ou cripto-judeus.

Mas se tratava de muito mais do que apenas um complexo administrativo.

O edifício abrigava celas onde os prisioneiros eram torturados pelos zelotes inquisitoriais, que aparentemente não conseguiram ver a ironia em rasgar a carne de pessoas em nome da fé ou destruir seu espírito, por causa da alma.

Em vários quartos do Steri, majestosos  grafites gravados por prisioneiros aguardando seu destino foram preservados, encarnando as últimas esperanças e sonhos de inúmeros homens e mulheres cujo único crime foi o fracasso em seguir o caminho papal.

Como judeu e ser humano, fui dominado pela aura de sofrimento que cada célula continha. Em uma sala, as letras hebraicas são visíveis em dois lugares na parede, evidência tangível de que os judeus sicilianos forçosamente convertidos e suspeitos de cometer “recaídas” ao praticar o judaísmo, passaram suas últimas horas aqui.

Em outro, um judeu anônimo, obviamente talentoso e desolado, havia esboçado meticulosamente um desenho detalhado de Jerusalém, uma cidade que deve ter sonhado em conhecer, embora nunca tenha tido o mérito.

Enquanto olhava para aquelas cenas desalentadoras, percebi que as gravuras nas paredes das celas da prisão do Steri Palace eram os gritos silenciosos das vítimas da Inquisição, chamando-nos séculos mais tarde, suplicando para que não fossem esquecidos.

Entre os que morreram dentro dos Steri, haviam descendentes da antiga comunidade judaica da Sicília, que possivelmente datava da era romana.

No final do século XIV, os judeus da Sicília haviam sido confinados a guetos e submetidos a massacres e conversões forçadas ao catolicismo.

O aumento da perseguição nos anos seguintes atingiu seu clímax em 1492, quando os monarcas espanhóis Ferdinando e Isabela, que controlavam a Sicília, emitiram o Edito de Expulsão, que ordenava a saída de todos os judeus que ainda permaneciam em seu reino.

Havia mais de 50 comunidades judaicas espalhadas pela Sicília, com pelo menos 37.000 pessoas e possivelmente muitos mais. Os historiadores estimam que 10% da população de Palermo na época era judaica.

Quando a data da expulsão chegou, em 12 de janeiro de 1493, muitos deixaram o reinado, contudo um grande número de judeus foram forçosamente convertidos, conhecidos, mais tarde, como Anussim (a quem os historiadores se referem pelo termo depreciativo “Marranos”). Estes foram proibidos de sair e passaram grande parte de suas vidas sendo suspeitos da Inquisição, que dedicou bastante tempo em caçá-los.

Na verdade, o primeiro auto-da-fé na Sicília ocorreu em Palermo, em junho de 1511, quando os inquisidores executaram, em praça pública, nove Anussim sicilianos e queimou-os na fogueira, em frente a toda uma multidão.

Com isso, a história dos judeus sicilianos deveria presumivelmente ter chegado ao fim, sufocada pelo ódio e pela opressão.

Mas contra todas as probabilidades, e apesar de todos os perigos que enfrentaram, muitos dos Anussim continuaram a transmitir sua herança judaica de geração em geração, preservando vários costumes judaicos e apegando-se à identidade de seus antepassados.

Essa coragem foi recompensada recentemente em uma cerimônia notável que assisti em Palermo no aniversário da expulsão de 1493. Em um grande gesto de reconciliação, a Arquidiocese local devolveu oficialmente o local da Grande Sinagoga de Palermo, que havia pertencido anteriormente, ao povo judeu.

Trabalhando em conjunto com o Instituto Siciliano de Estudos Judaicos, a Shavei Israel – organização que fundei e presido – abrirá a primeira sinagoga e Beit Midrash (casa de estudos) em Palermo, em mais de 500 anos.

Estes serão supervisionados pelo Rabino Pinhas Punturello, antigo rabino-chefe de Nápoles, que é o emissário de Shavei Israel para a Sicília, e servirá de centro educativo, cultural e espiritual para o crescente número de pessoas, em toda a Sicília, que estão redescobrindo suas raízes judaicas, permitindo que se reconectem com a fé de seus antepassados.

Enquanto eu segurava na minha mão a grande e pesada chave para o local onde a antiga sinagoga tinha estado uma vez, não pude deixar de pensar sobre a indestrutibilidade do espírito judeu, pois nem a expulsão e nem a Inquisição foram capazes de anular o judaísmo siciliano.

Os gritos daqueles que já foram mantidos nas masmorras do palácio de Steri podem ter ficado em silêncio, mas em breve, com a ajuda de Deus, os sons das canções de Shabat recitadas por seus descendentes, voltarão a ressoar nas ruas de Palermo.

Se isso não é um testemunho da eternidade de Israel, o que é?

Judeus do Curdistão querem mais Reconhecimento

Descendentes de judeus da região do Curdistão do Iraque estão pedindo mais reconhecimento. Depois de anos escondendo suas raízes judaicas, querem a liberdade de escolher sua identidade, como relata Judit Neurink da Deutsche Welle, diretamente de Irbil.

“Israel deve nos aceitar”, diz Sherko Sami Rachamim, um curdo com raízes judaicas, que vive e trabalha na região do Curdistão no Iraque. Durante anos eles têm buscado transferir-se com sua família para Israel, “mas os israelenses fecharam suas portas”.

Ele diz que muitos judeus que se converteram ao Islã, assim como ele, sentem o mesmo. Rachamim é um dos milhares dos chamados Benjews -do Curdistão iraquiano – cujos avôs se converteram durante a perseguição aos judeus antes e depois da fundação do Estado de Israel. Na década de 1950, dois terços dos cerca de 150 mil judeus que viviam no Iraque fugiram para Israel, ou para outro lugar. Outros se converteram ou deixaram o país durante a década de 1970, quando o ditador iraquiano Saddam Hussein retomou a perseguição.

Embora alguns dos judeus convertidos se tornaram muçulmanos devotos, muitos são muçulmanos apenas de nome. Como Rachamim, que encolhe os ombros quando questionado sobre sua fé. “Eu não estou interessado no Islã.” Sua esposa não usa um lenço e ele não educou seus três filhos de acordo com as leis do Islã, pois ele se sente judeu.

“As pessoas da cidade de Koya me conhecem por minha crítica ao Islã. Às vezes, os amigos me dizem para calar a boca, para minha própria segurança”, ele sorri, como se fosse uma piada. “Eu considero a religião uma coisa privada.”

Depois que a região curda ganhou autonomia, de facto, de Saddam em 1991, Israel organizou duas operações secretas para evacuar judeus – e filhos de convertidos – do Curdistão. Os pais de Rachamim foram transportados por via aérea em uma destas.

Seus filhos os visitaram em Israel, mas descobriram mais tarde que não lhes era permitido juntar-se a eles. Após 10 meses, seus pais retornaram ao Curdistão. Mesmo que Rachamim já havia vendido sua casa para se mudar para Israel, ele não foi aceito. “Porque meu avô e meu pai eram judeus, eles não nos aceitam”, disse ele a DW. Rachamim tem dificuldade em engolir que Israel só aceita a herança judaica através da linha da mãe. A linhagem judaica de sua esposa também passa pela linha masculina de seu pai, cuja mãe se converteu.

 

Mantendo contato

Durante anos, tem havido laços estreitos entre a maioria dos Benjews no Curdistão e seus parentes em Israel, diz ele. “Antes dos telefones celulares, usariamos o sistema de três chamadas, ligando através de outro país.”

Desde o ano passado, o ministério para assuntos religiosos na região do Curdistão teve um representante especial para a minoria religiosa judaica, que estabeleceu boas relações com Israel. No entanto, a agência governamental não foi criada para facilitar as pessoas que saem para Israel, diz Sherzad Mamsani, que foi nomeado para o cargo.

“Nós não somos um consulado para Israel, nem queremos trazer os judeus curdos ao Curdistão. Mas ambos os grupos podem viajar de um lado para outro, e ficaríamos muito felizes se alguns deles vierem investir aqui, ao invés de investir apenas no Irã e na Turquia”, disse ele a DW.

Ao mesmo tempo, Mamsani está tentando restaurar a herança judaica no Curdistão iraquiano. Ele viajou recentemente para os Estados Unidos, onde falou ao Congresso e pediu apoio para restaurar locais como os túmulos dos profetas Nahum, Eliezer e Daniel.

 

Uma busca de identidade

Na cidade natal de Rachamim, em Koya – que era uma cidade comercial – muitos Benjews permaneceram para construir a identidade da comunidade. Benjews aqui são chamados de “primos”, e para eles não faz diferença se a linhagem corre pelo lado masculino ou feminino. O casamento entre a comunidade acontece, mas também há casamentos fora do grupo.

A herança judaica em Koya ainda pode ser encontrada nos antigos bairros judaicos. A sinagoga foi demolida anos atrás, mas a maioria de Koya ainda sabe onde estava. “Agora há um restaurante”, diz Rachamim.

Inicialmente, Sharzad Mamsani queria abrir uma sinagoga na região do Curdistão, mas agora diz que mudou de idéia. “Com o Irã e o Daesh [termo árabe para” Estado Islâmico”- ed.] tão pertos, que garantias temos para que as pessoas em uma sinagoga sejam protegidas? Durante 70 anos, as pessoas oraram secretamente em suas casas, e as vidas das pessoas são muito mais importantes do que ter uma sinagoga”.

Sherzad Mamsani
Sherzad Mamsani

Mamsani, que foi vítima de um ataque islâmico nos anos 90, em que perdeu uma mão, diz que devido à volatilidade na região é difícil avaliar qual será o papel do Esado Islâmico no futuro. “Nós já esperamos por 70 anos, então podemos esperar um pouco mais.”

No entanto, Rachamim diz que definitivamente frequentaria uma sinagoga, se houvesse uma na cidade. “E muitos outros Benjews também.”

A maioria deles não tem nenhum conhecimento real da religião judaica, hábitos e orações e é por isso que Mamsani está por abrir um centro cultural em Irbil – o Centro Assenath – em homenagem ao famoso rabino do século 17 que dirigia uma universidade judaica no Curdistão.

“No centro, as crianças de todas as religiões aprenderão sobre o Judaísmo. Lá haverá um rabino, mas tratará de ensinar e não de converter”, diz Mamsani. O objetivo principal, diz ele, será mudar a imagem e os preconceitos que muitos na região do Curdistão ainda têm sobre os judeus, como resultado de anos de perseguição.

 

Este artigo apareceu originalmente no site da Deutsche Welle.