O judeu que lutou contra a censura da Inquisição

Manuscrito raro de um judeu italiano: requerimento raivoso do judeu de Ferrara para as autoridades da Inquisição requerindo que o fim da censura de seus livros impressos.

Continue reading “O judeu que lutou contra a censura da Inquisição”

Judeus e descendentes de Bnei Anussim celebram Purim na Itália, Portugal e El Salvador

Os judeus e Bnei Anussim das comunidades das quais a Shavei Israel trabalha na Itália, Portugal e El Salvador, entraram no espírito de Purim este ano – e os nossos fotógrafos conseguiram capturar o humor.

Vamos começar a nossa ‘turnê mundial’ pela Itália. Abaixo imagens do que aconteceu no início da semana passada em Palermo.

E aqui, o que rolou na comunidade italiana de Bnei Anussim de San Nicandro:

Viajando um pouco para o oeste, paramos em Portugal onde Purim foi comemorado com o emissário da Shavei Israel, o Rabino Elisha Salas:

Para nossa parada final, cruzamos o oceano e chegamos à El Salvador onde a comunidade de Beit Israel se destacou com dua festa de Purim:

Os gritos silenciosos das vítimas da Inquisição na Sicília

Por Michael Freund
Jerusalem Post
19 de janeiro de 2017

 

Elevando-se sob a Piazza Marina perto do mar, em Palermo, na Sicília, está uma estrutura medieval ornamentada que esconde evidências de um dos mais escuros capítulos da história europeia, dentro de suas paredes.

Com suas muralhas desgastadas e uma imponente arquitetura de fortaleza, o Palazzo Chiaramonte, ou Palácio Steri, como é mais conhecido, é um dos locais mais importantes da cidade costeira, um lugar envolvido em uma tormenta que muitos preferem esquecer.

De 1601 a 1782, o local serviu como a sede da “Santa Inquisição”, uma instituição que usou meios decididamente profanos para caçar suspeitos de hereges, sectários e, claro, judaizantes secretos ou cripto-judeus.

Mas se tratava de muito mais do que apenas um complexo administrativo.

O edifício abrigava celas onde os prisioneiros eram torturados pelos zelotes inquisitoriais, que aparentemente não conseguiram ver a ironia em rasgar a carne de pessoas em nome da fé ou destruir seu espírito, por causa da alma.

Em vários quartos do Steri, majestosos  grafites gravados por prisioneiros aguardando seu destino foram preservados, encarnando as últimas esperanças e sonhos de inúmeros homens e mulheres cujo único crime foi o fracasso em seguir o caminho papal.

Como judeu e ser humano, fui dominado pela aura de sofrimento que cada célula continha. Em uma sala, as letras hebraicas são visíveis em dois lugares na parede, evidência tangível de que os judeus sicilianos forçosamente convertidos e suspeitos de cometer “recaídas” ao praticar o judaísmo, passaram suas últimas horas aqui.

Em outro, um judeu anônimo, obviamente talentoso e desolado, havia esboçado meticulosamente um desenho detalhado de Jerusalém, uma cidade que deve ter sonhado em conhecer, embora nunca tenha tido o mérito.

Enquanto olhava para aquelas cenas desalentadoras, percebi que as gravuras nas paredes das celas da prisão do Steri Palace eram os gritos silenciosos das vítimas da Inquisição, chamando-nos séculos mais tarde, suplicando para que não fossem esquecidos.

Entre os que morreram dentro dos Steri, haviam descendentes da antiga comunidade judaica da Sicília, que possivelmente datava da era romana.

No final do século XIV, os judeus da Sicília haviam sido confinados a guetos e submetidos a massacres e conversões forçadas ao catolicismo.

O aumento da perseguição nos anos seguintes atingiu seu clímax em 1492, quando os monarcas espanhóis Ferdinando e Isabela, que controlavam a Sicília, emitiram o Edito de Expulsão, que ordenava a saída de todos os judeus que ainda permaneciam em seu reino.

Havia mais de 50 comunidades judaicas espalhadas pela Sicília, com pelo menos 37.000 pessoas e possivelmente muitos mais. Os historiadores estimam que 10% da população de Palermo na época era judaica.

Quando a data da expulsão chegou, em 12 de janeiro de 1493, muitos deixaram o reinado, contudo um grande número de judeus foram forçosamente convertidos, conhecidos, mais tarde, como Anussim (a quem os historiadores se referem pelo termo depreciativo “Marranos”). Estes foram proibidos de sair e passaram grande parte de suas vidas sendo suspeitos da Inquisição, que dedicou bastante tempo em caçá-los.

Na verdade, o primeiro auto-da-fé na Sicília ocorreu em Palermo, em junho de 1511, quando os inquisidores executaram, em praça pública, nove Anussim sicilianos e queimou-os na fogueira, em frente a toda uma multidão.

Com isso, a história dos judeus sicilianos deveria presumivelmente ter chegado ao fim, sufocada pelo ódio e pela opressão.

Mas contra todas as probabilidades, e apesar de todos os perigos que enfrentaram, muitos dos Anussim continuaram a transmitir sua herança judaica de geração em geração, preservando vários costumes judaicos e apegando-se à identidade de seus antepassados.

Essa coragem foi recompensada recentemente em uma cerimônia notável que assisti em Palermo no aniversário da expulsão de 1493. Em um grande gesto de reconciliação, a Arquidiocese local devolveu oficialmente o local da Grande Sinagoga de Palermo, que havia pertencido anteriormente, ao povo judeu.

Trabalhando em conjunto com o Instituto Siciliano de Estudos Judaicos, a Shavei Israel – organização que fundei e presido – abrirá a primeira sinagoga e Beit Midrash (casa de estudos) em Palermo, em mais de 500 anos.

Estes serão supervisionados pelo Rabino Pinhas Punturello, antigo rabino-chefe de Nápoles, que é o emissário de Shavei Israel para a Sicília, e servirá de centro educativo, cultural e espiritual para o crescente número de pessoas, em toda a Sicília, que estão redescobrindo suas raízes judaicas, permitindo que se reconectem com a fé de seus antepassados.

Enquanto eu segurava na minha mão a grande e pesada chave para o local onde a antiga sinagoga tinha estado uma vez, não pude deixar de pensar sobre a indestrutibilidade do espírito judeu, pois nem a expulsão e nem a Inquisição foram capazes de anular o judaísmo siciliano.

Os gritos daqueles que já foram mantidos nas masmorras do palácio de Steri podem ter ficado em silêncio, mas em breve, com a ajuda de Deus, os sons das canções de Shabat recitadas por seus descendentes, voltarão a ressoar nas ruas de Palermo.

Se isso não é um testemunho da eternidade de Israel, o que é?

A primeira Sinagoga de Palermo em 500 Anos a ser inaugurada em Sicilia

Mais de 500 anos após a expulsão dos judeus da Sicília, a pequena comunidade judaica de Palermo deve comemorar a abertura da sua primeira sinagoga desde a Inquisição espanhola.

Em uma cerimônia que acontecerá na quinta-feira, 12 de janeiro de 2017, o Arcebispo de Palermo, Corrado Lorefice, transferirá oficialmente para a comunidade judaica uma instalação de propriedade da igreja e o mosteiro de São Nicolau Tolentino, que foi construída sobre as ruínas do Grande sinagoga de Palermo.

A data para a entrega também é significativa: o prazo para a expulsão de todos judeus da Itália (por ordem da Rainha Isabel I de Castela e do Rei Fernando de Aragão), 12 de janeiro de 1493.

“Desde que aprendi sobre a história da Sicília, meu objetivo foi estabelecer as bases para o estabelecimento da primeira comunidade judaica em Palermo em mais de cinco séculos”, disse o presidente da Shavei Israel, Michael Freund. “Isso é o que torna tão importante a cerimônia desta semana: vamos estabelecer, juntamente com o ISSE [Instituto Siciliano de Estudos Judaicos], a primeira sinagoga de Palermo e casa de estudo judaica, desde a expulsão. Estou muito comovido que esta, estará localizada ao lado de onde a Grande Sinagoga de Palermo uma vez esteve e eu sou grato ao arcebispo de Palermo por ter a visão e a coragem de fazer um grande gesto de reconciliação para com o povo judeu”.

A comunidade judaica local em Palermo é pequena, contando apenas com 60-7o pessoas, mas tem um líder dinâmico, o emissário da Shavei Israel, Rabino Pinhas Punturello, que será, agora, também, o rabino da nova sinagoga.

“É um milagre que depois de mais de 500 anos ainda haja pessoas em Sicília que orgulhosamente se agarram às suas raízes judaicas, testemunhando o fato de que nem a expulsão e nem a Inquisição foram capazes de extinguir a eterna centelha judaica de seus corações”, Freund disse. “Com a ajuda de D’us, os sons das rezas do Shabat e as orações judaicas voltarão a ser ouvidas nas ruas de Palermo”.

A abertura da nova sinagoga na Sicília tem recebido ampla cobertura da mídia. Aqui estão alguns dos artigos:

Jerusalem Post

Time of Israel

Israel National News

The Yeshiva World

Na foto acima: o Arcebispo de Palermo Corrado Lorefice (à esquerda) com o emissário da Shavei Israel para a Sicília, o Rabino Pinhas Punturello (à direita).

Palermo recebe os Bnei Anussim italianos em um Shabaton patrocinado pela Shavei Israel

Mais de cinquenta convidados de toda a Itália “desceram” para Palermo, a capital pitoresca da Sicília – ilha no sul do país, para participar de um Shabaton no fim de semana passado, organizado pela UCEI – União das Comunidades Judaicas Italianas e pela Shavei Israel.

Enquanto que a UCEI organiza Shabatonim semelhantes para a comunidade, duas vezes por ano, esta foi a primeira vez que tal encontro foi realizado em Palermo – em grande parte como um reconhecimento pelo trabalho que a Shavei Israel e seu emissário, o Rabino Pinchas Punterello têm fazendo com os Bnei Anussim da região, desde a nomeação do rabino, em 2013.

O objetivo da Shavei Israel no sul da Itália tem sido fortalecer as comunidades Bnei Anussim locais em pequenas cidades nas regiões de Puglia, Campania, Sicília e Calábria.

Os Bnei Anussim do sul da Itália são descendentes de judeus espanhóis que foram forçados a se converter ao catolicismo em 1492 ou escapar da Inquisição. Mas, quando os monarcas espanhóis capturaram a região um século mais tarde, uma nova série de perseguições começaram, incluindo novas conversões forçadas e expulsões. Apesar desta situação difícil em que viviam, os Bnei Anussim se agarram a sua identidade judaica, transmitindo-a de geração em geração. A Shavei Israel tem sido fundamental para alimentar o ressurgimento moderno dos Bnei Anussim no sul da Itália.

O Shabaton começou na quinta-feira à noite com um seminário especial sobre o tema “tzedaká” (caridade) na Universidade de Palermo. O seminário contou com apresentações e um painel de discussão com o Rabino Roberto Della Roca, diretor de cultura da UCEI; Gadi Piperno, que também representou a UCEI; Rabino Umberto Piperno, Rabino-Chefe de Nápoles; Leonardo Samona, chefe do Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Palermo; e o Rabino Punturello. A professora da Universidade de Palermo, Luciana Pepi – um dos membros mais ativos da comunidade Bnei Anussim – foi a moderadora.

A Sexta-feira incluiu orações, um jantar de Shabat e um painel onde os membros da comunidade de Bnei Anussim contaram suas histórias pessoais.
“Foi muito emocionante”, comenta o Rabino Punturello. “Muitas pessoas na Sicília expressaram que, sem a Shavei Israel, a comunidade que já começamos a construir aqui, nunca poderia ser uma realidade”.

Apresentamos abaixo uma série de fotos antes e depois Shabat.

Seguem algumas fotos do seminário.

Abaixo algumas fotos da Havdalá na noite de sábado.

Os participantes do Shabaton também oraram na infame prisão Steri em Palermo, que serviu como sede da inquisição de 1601-1782, e uma célula de espera para os judeus que aguardavam sua terrível execução de morte na fogueira através do auto-de-fé. O Rabino Punturello começou, nos últimos anos, a celebrar as cerimônias de acender velas de Chanuká nas masmorras de Steri.

Aqui estão um par de fotos de um Shabaton anterior (o Rabino Punturello está no meio em ambas as fotos):

O Renascimento do Histórico Judaísmo Italiano

Não é surpreendente ouvir que a vida judaica na Itália constitui um rico capítulo dentro da história judaica, através dos tempos. Podemos facilmente captar a sua dimensão mencionando, somente, luminares como Leone Ebreo (Don Yehuda Abarbanel), o célebre pensador medieval; Rabi Moshe Chaim Luzzatto, o estudioso e cabalista cujos escritos continuam a brilhar no pensamento judeu; ou Primo Levi, o judeu italiano que sobreviveu ao Holocausto e relacionou esta experiência com a lucidez do mundo. Mas quantas vezes ouvimos sobre os descendentes de uma comunidade que foi destruída e seu povo expulso, cerca de quinhentos anos antes de começarem a retornar à sua identidade religiosa? É exatamente isso que tem acontecido com os judeus italianos na Sicília – a ilha do sul da Itália que já foi um emirado árabe – mesmo que, não tenha qualquer comunidade judaica organizada.

Como parte das atividades dos “Dias Europeus da Cultura Judaica”, trezentas pessoas, entre estas descendentes de Bnei Anussim, reuniram-se em Palermo, na Sicília, no dia 18 de setembro, para celebrar a cultura judaica. A iniciativa italiana ocorreu em mais de 70 localidades, este ano com o tema, “línguas hebraicas e dialetos.” Em Palermo as atividades foram divididas entre visitas a sítios judaicos, música e uma conferência na qual o emissário da Shavei Israel para o Sul da Itália e Sicília, o Rabino Pinchas Punturello, participou juntamente com vários palestrantes, no campo da linguística hebraica com suas manifestações na Itália. Veja as fotos aqui.

As visitas cobriram a área da Guidecca, o Arquivo Histórico Comunal e o Palácio Marchesi, enquanto que para o encerramento das atividades, o conjunto Tahev Shir realizou um concerto centrado na música sefardita e asquenazita. Os eventos foram organizados pela Shavei Israel em coordenação com o município e organizações culturais locais. Veja as fotos aqui.

Através dessas atividades, os descendentes de judeus que foram forçados a adotar o catolicismo tiveram a oportunidade de se reconectar com suas raízes judaicas. Seus antepassados, embora forçados a abandonar o judaísmo, mantiveram secretamente uma aparência de sua identidade judaica, apesar do terror e da opressão que a Inquisição representava. Nos últimos anos, tanto no sul da Itália quanto na Sicília, muitos estão tomando o caminho de volta para suas raízes.

“O retorno do povo judeu é um testemunho notável do poder da memória coletiva judaica, juntamente com nosso dever histórico e moral de chegar até eles, recebendo-os de volta para o povo judeu”, afirma Michael Freund, presidente da Shavei Israel, a principal organização que trabalha com os Bnei Anussim na Itália e no mundo.

Traçando brevemente a história do judeu siciliano, este provavelmente data dos anos anteriores à destruição do Segundo Templo e do exílio judaico. Embora saibamos que após a destruição do Templo muitos judeus chegaram como escravos, ao longo dos séculos, a comunidade floresceu, apesar de múltiplas perseguições e execuções de, inclusive, grandes rabinos e eruditos. No século XIV e sob a pressão do regime espanhol a situação deteriorou-se de tal forma que os guetos foram estabelecidos, e para aqueles relutantes em abraçar o cristianismo em suas vidas diárias, tornou-se uma situação terrível, atingindo o seu pico com a expulsão definitiva dos judeus (52 comunidades em toda a Sicília ). Esta expulsão datada de 1510, estima que cerca de 37.000 judeus foram expulsos. Aqueles que permaneceram foram convertidos a força, com o olho ubíquo da Inquisição sempre vigilante de qualquer atividade religiosa ilegal entre os judeus italianos.

Muitos se mudaram para regiões italianas vizinhas como Nápoles e Calábria, assim como muitos judeus espanhóis fizeram, entre eles o renomado Don Isaac Abarbanel, erudito e empresário que tinha servido como ministro na Espanha. A Inquisição no sul da Itália durou até o século 17 e possivelmente até mais tarde, queimando Bnei Anussim e seus descendentes. Ainda assim, não pôde impedir que a identidade judaica fosse transmitida de geração em geração, tornando possível que hoje, alguns desses descendentes, estejam lentamente empreendendo o caminho de retorno às suas raízes judaicas.

“A celebração da cultura judaica de Palermo enfatiza a força do espírito judaico e o fato tocante de perceber mais uma vez como, nem mesmo a expulsão e a Inquisição, conseguiram extinguir a eterna centelha judaica”, conclui Freund.

Perfil Shavei Israel: Fabian Spagnoli – uma questão de identidade leva de volta para casa, para Israel

03/06/2013

Fabian-Spagnoli-203x300Fabian Spagnoli não sabe por que o homem da pequena loja na Espanha disse isso. Spagnoli tinha ido comprar um cobertor novo para sua cama. O homem na loja olhou para ele e disse direto: “Você é judeu.” Spagnoli e o lojista começaram a conversar e os dois se tornaram grandes amigos. O lojista, que era judeu, começou a ensinar Spagnoli coisas sobre judaísmo, sinagoga e oração. “A vida é um mistério”, diz Spagnoli. “É um equilíbrio entre nossas vontades pessoais e o que D’s quer. Claramente, estava escrito que este homem tinha que me dizer isso. É algo que não é lógico. Além do materialismo.”

Seja qual foi o motivo, o resultado deste “curioso” encontro tem sido uma grande mudança de vida para Spagnoli, que no início deste ano mudou-se para Israel com sua esposa e sua filha de 10 anos. Spagnoli, 50 anos, está agora explorando suas raízes como parte dos Bnei Anussim (um descendente de judeus que foram convertidos à força ao catolicismo, cerca de 500 anos atrás, e que são muitas vezes referidos pelos historiadores pelo nome depreciativo de ‘Marranos’) no Machon Miriam Instituto de Shavei Israel para Conversão e Retorno.

Spagnoli já se sentia um peixe fora d’água muito antes do incidente do cobertor. Nascido na Argentina, sua família emigrou para a América do Sul da Suíça após a Segunda Guerra Mundial. Mas o avô de Spagnoli não era de lá também, ele nasceu na Itália e seu nome – Spagnoli – significa “povo da Espanha” em italiano.

 

“Eu tinha um problema de identidade real”, Spagnoli admite. “Quando eu tinha 15 anos, eu costumava me perguntar: quem sou eu? Quem são meus ancestrais? Eu não me sentia totalmente argentino já que costumava viajar a cada verão para a Suíça para visitar meus parentes que ainda estavam lá. ”

Para tornar as coisas ainda mais complicadas, o pai de Spagnoli, embora não descrevendo-se um judeu, revelou uma história da família: a razão pela qual os Spagnolis – “pessoas da Espanha” – estavam na Itália, era em primeiro lugar porque eles eram judeus que haviam fugido da Inquisição. O jovem Spagnoli ficou completamente confuso!

Após o colegial, Spagnoli viajou pela Europa à procura de um lugar de conexão, mas acabou por regressar à Argentina para estudar Direito. Foi lá que ele conheceu sua esposa. Em 2001, porém, a crise econômica na Argentina enviou os Spagnolis para sua própria diáspora pessoal. “Minha esposa estava grávida e perdi meu emprego. A empresa fechou.”, diz ele. Decidiram, então, se estabelecer na Itália, na pequena cidade de Perugia, cidade natal de seu avô. Abriram uma hospedaria com cama e café-da-manhã e assim Spagnoli se sentiu finalmente à vontade. Mas não era para durar!

As palavras de seu pai e do lojista espanhol continuam a reverberar. Ele sabia que era judeu. “Na Itália, todos os escritórios públicos e escolas tem uma cruz”, diz ele. “Eu não queria viver em uma cultura católica. O fogo dentro de mim ainda estava queimando.”

Ainda na Itália, Spagnoli conheceu a Shavei Israel através da Internet. Ele começou a participar de seminários para Bnei Anussim (ele viajaria até a Espanha, uma vez que a Shavei ainda não tinha começado o seu trabalho no sul da Itália).

Sua convicção era cada vez mais forte. Sua jornada o levou a se casar com uma mulher judia. E o seu passado não era de Bnei Anussim ou oculto como o dele: ela cresceu em uma área judaica de Buenos Aires e seu pai, um imigrante da Ucrânia, era membro completo da comunidade judaica de lá. Como resultado, os Spagnolis eram legalmente elegíveis para fazer aliá sob a Lei do Retorno do Estado de Israel.

“Essa é a magia da vida”, diz Spagnoli. “Primeiro, eu estou em um seminário para Bnei Anussim em Barcelona, e agora estamos aqui em Israel. Há uma parte da vida que nós mesmos podemos gerenciar e outra parte que está além de nós. Pode chamar de destino … Eu não gostava desta palavra. Mas, agora, estando aqui, acho que poderia ser isso. ”

A esposa e a filha de Spagnoli já estão em Israel há três anos, mas Spagnoli ficou na Itália para cuidar de seu pai doente, que também se mudou para a cidade de sua família. Quando o pai de Spagnoli faleceu no ano passado, seu filho finalmente foi capaz de fazer aliá.

Spagnoli agora participa das novas aulas de língua italiana no Machon Miriam em Jerusalém ministradas pelo mais novo emissário da Shavei Israel, o rabino Pinchas Punturello. E já encontrou trabalho em uma operadora de viagens que se aproveita de sua proficiência em espanhol e italiano para o trabalho. (A esposa de Spagnoli também trabalha lá).

“Foi um desafio contar aos amigos na Itália que eu estava vindo para cá”, ele confessa. “Eles disseram -, há uma série de problemas em Israel”. Spagnoli aproveita esta falta de conhecimento sobre o Oriente Médio para “explicar às pessoas como aqui realmente é” e por vezes faz a função de comentarista em Israel em vários programas de rádio transmitidos na Argentina. Seu sonho é ainda maior. “Eu gostaria de ajudar a abrir um canal de notícias 24 horas, como a CNN, saindo de Israel”, diz ele.

Neste meio tempo, ele diz estar muito satisfeito com a decisão que tomou de vir para cá. E ele está particularmente satisfeito que sua filha está crescendo em um ambiente israelense ao invés de “uma cultura não-judaica na Europa.” Em última análise, ele acrescenta, “não há nenhum outro lugar para ir”.

Ainda assim, Spagnoli não tem ilusões. “Agora que estamos em Israel, a parte romântica da história, o flerte e o namoro, acabaram. Eu vou trabalhar e tomo o ônibus como qualquer outro cidadão israelense”. “Nem sempre é fácil. Mas é sempre fascinante.”

“Todo mundo aqui tem uma história, um livro sobre eles”, diz Spagnoli. “Eu gosto disso. Porque eu tenho o meu livro, também.”