O judeu que lutou contra a censura da Inquisição

Manuscrito raro de um judeu italiano: requerimento raivoso do judeu de Ferrara para as autoridades da Inquisição requerindo que o fim da censura de seus livros impressos.

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A razão para a criação da Inquisição – Análise dos autores e perspectiva do professor Netanyahu

464Em um simpósio realizado em várias universidades de Nova York e Filadélfia, em abril de 1983, fazia parte uma apresentação do Professor Bentzion Netanyahu, famoso pesquisador israelense que dedicou grande parte de seus esforços para a questão da Inquisição espanhola e os judeus sefarditas. O título de seu discurso foi: “motivos ou desculpas? A razão para a Inquisição”.

O documento foi traduzido do Inglês por Angel Alcala e publicado no livro Inquisição Espanhola e mentalidade inquisitorial, da editorial Ariel, SA Barcelona. Ele examinou cuidadosamente as possíveis causas que levaram os Reis Católicos estabelecerem a Inquisição em seus respectivos reinos.
Llorente

O Professor Netanyahu recorre pelos diferentes autores que opinaram sobre as origens da Inquisição espanhola, começando com Juan Antonio Llorente, em seu livro História Crítica da Inquisição da Espanha, publicado no início do século XIX. Este foi o primeiro historiador que se atreveu a dizer que a verdadeira razão para o estabelecimento de tal instituição não era para extirpar a heresia judaica florescente que existia, clandestinamente, entre os conversos. Segundo Llorente, a verdadeira razão se concentrava em dois personagens: o Papa Sisto IV e o Rei Fernando II de Aragão. O Rei procurou fazê-lo por razões financeiras ou mesmo políticas, enquanto que o bispo de Roma também cobiçava receita para a Cúria Romana, como tinha sido desde a Inquisição de Aragão, em 1232, e também (por que não?), para aumentar o poder papal na Península Ibérica.

Ranke

Cita abaixo o pronunciamento de Leopold von Ranke, que em 1827 também negou que esta foi fundada por motivos religiosos, mas sim, na verdade, se tratava de um tribunal real com “poderes espirituais”, e, o verdadeiro motivo seria fortalecer a monarquia absoluta nos reinos ibéricos. Sua famosa citação diz que “a Inquisição parece ter sido inventado para privar os ricos de sua propriedade e os poderosos de sua autoridade”.

Hefele

Além desses, o famoso autor Karl Joseph von Hefele opinou em seu livro “The Life and Times of Cardeal Ximenez”, 1885, que os Reis Católicos encontravam na Inquisição, ‘o meio mais eficaz para manter a coroa entre todos as camadas, desde o clero até a nobreza, em benefício do poder absoluto da autoridade soberana’, e se baseia no fato de que eles (os judeus) são julgados como inimigos do Santo Ofício. Mas ele acrescenta que o principal motivo foi o problema dos judeus secretos que “ameaçavam abandonar tanto a nacionalidade espanhola como a fé cristã”. Segundo Hefele, os cripto-judeus conseguiram ocupar um grande número de cargos eclesiásticos e municipais, assim como casamentos ligados com a nobreza. Tudo isso foi devido a grande tenacidade dos judeus e dos cripto-judeus em atrair o espanhol ao judaísmo, deixando para trás sua fé cristã. Assim, vêmos como para Hefele, a verdadeira razão para o estabelecimento da Inquisição era precisamente o perigo que representava os marranos para o povo espanhol e para a religião católica. Afirmando que os judeus realizavam uma ampla campanha de proselitismo.

Claro que isso vai contra todas as evidências históricas já conhecido em seu próprio tempo e nos tempos modernos, em que as conversões ao judaísmo eram proibidas para todos os cristãos e em todos os estados atingidos, punível duramente pela pena de morte. O professor Netanyahu sobre tais observações, comenta “como um grande sábio poderia perder seu senso de equilíbrio com tais afirmações?”.414420

Amador de los Rios

O próximo historiador revisto pelo Professor Netanyahu é José Amador de los Rios, na sua obra ‘Estudos históricos, políticos e literários sobre os judeus da Espanha’, de 1848. Ele argumenta que “nasceu o pensamento da unidade política da Espanha, e nasceu, como não poderia deixar de nascer, envolto na unidade religiosa. Para criar e para sustentar a primeira, a segunda condição era necessária. Não podia se defender com armas, que estavam cumprindo a função de alargar as fronteiras do império, aonde não havia uniformidade de crença, aonde não havia identidade de interesses, colide com o impossível o esforço humano”. E a Inquisição ajudou a conseguir esta “condição necessária”. E assim, continua: “Por isso, considerando-se a paz interna da monarquia recém-formada… os Reis Católicos não podiam deixar de pensar sobre a escolha de um meio que preencheria seus desejos obedientemente respondendo a necessidade do tempo em que viviam, e mais ainda, do século que viria… o que poderia ser mais óbvio e simples no momento em que se criavam tribunais superiores para proteger as liberdades civis de todas as classes do Estado, do que estabelecer um, que se ocupasse apenas em colocar todos a salvo dos perigos que os ameaçavam, em uma solução completa? Eis aqui como explico o nascimento, sem repugnância, do tribunal mais odioso que a Espanha e, do qual recebeu, em determinados momentos, talvez os mais importante serviços”.

O Professor Netanyahu desfaz completamente as teorias de Amador de los Rios, dizendo que as guerras de religião ainda não tinham aparecido, e não se podia prever o que aconteceria no próximo século, mesmo que, apenas algumas décadas longe da criação do Tribunal.

Menéndez Pelayo

O tema da unidade religiosa foi repetido e reforçado por Don Marcelino Menéndez Pelayo em sua “História do heterodoxo espanhol”, que continua a dizer que “a opinião nacional sobre o Tribunal da Fé não deve ser procurada nos gritos, intrigas e subornos de famílias e conversos judaizantes que caminharam para chegar ao Santo Tribunal… mas sim no testemunho unânime dos nossos grandes escritores, do que sentiam e pensavam alto na Espanha desde a época dos Reis Católicos, aos juramentos que prestavam como uma voz alta a multidões que se reuniam em autos-da-fé, e a essa popularidade sem precedentes, durante três séculos, sem qualquer mudança, disfrutou de um pódio que, apenas à opinião popular tinha força, e que em si só, poderia contar”. Este encontrou a razão para o estabelecimento da Inquisição na vontade de remover a heresia ilegal que eram os judeus conversos ou marranos, a maioria dos quais seriam manifestos judaizantes secretos. Segundo Menendez Pelayo estes criptojudeus faziam parte do antigo movimento de proselitismo judeu que tentou fazer proselitismo entre os cristãos espanhóis, incutindo idéias panteístas”. “Gabirol pode passar como o Spinoza do século XI” e “o perigo judaico também ameaçava o cristianismo na Cabala aonde o dualismo e as tendências maniqueístas eram absorvidas pelas informações do panteísmo”. Aos espanhóis cristãos, diz Don Marcelino, influenciava tanto a Cabalá teórica quanto a prática.

Claro que isso não implica em absoluto que existia justiça no Tribunal, diz Netanyahu, nem podemos encontrar tal “testemunho unânime” dos escritores espanhóis, embora concedido o apoio popular mas, insuficiente, para explicar o fenômeno. Menéndez Pelayo tampouco fornece evidências claras de que o estudo da Cabala influenciou os cristãos.

Don Marcelino também aponta para crimes rituais e profanação de objetos religiosos cristãos, supostamente praticados pelos judeus e marranos, dando-lhes mais do que uma credibilidade suficiente para criar a Inquisição “a este ponto chegou a fama negra dos convertidos” e assim, desta maneira, só podiam “estar condenados às chamas”.

Em conclusão, o Professor Netanyahu rejeita todas as razões dadas pelos autores citados, incluindo outros autores das teses, procurando alguma para explicar a sua própria opinião, a verdadeira razão para a criação do Tribunal da Santa Fé.

Seu ponto de vista

E aqui, o Professor Bentzion Netanyahu propõe sua visão. Ele assumi que a grande maioria das pessoas que são obrigadas a se converter em 1391 já eram judeus que haviam perdido todos os laços com o cumprimento dos mandamentos judaicos, três gerações até as datas em que a Inquisição foi criada em 1470-1480, tanto se o fizeram pois foram forçados a se converter, como se o fizeram em um sentido secreto de alívio, pelo desaparecimento dos muros altos que os separavam do resto da população. Tanto que, nada os tinha impedido de se misturarem com a nobreza e a igreja, e, então, precisamente por isso despertaram a desconfiança da população cristã que estava determinada em vê-los como judaizantes, como evidenciado pela detecção e condenação em alguns poucos casos”. Assim nasceu, diz Netanyahu, a idéia do falso cristianismo de convertidos, seu judaísmo em segredo, assim como outros encargos que lhes foram associados”.

 

O Professor Bentzion Netanyahu nasceu em Varsóvia em 1910 e morreu em abril de 2012, em Jerusalém, com 102 anos de idade. Ele publicou grandes obras, entre elas:

Hebraico:
חמשת אבות הציונות, בהוצאת ידיעות אחרונות 2004
דון יצחק אברבנאל – מדינאי והוגה – דעות , הוצאת שוקן , 2005.

Inglês :
Don Isaac Abravanel, Estadista e filósofo, publicação da Sociedade judaica da América. 1953.
Os marranos de Espanha: Do fim do século 14 ao início do século 16, De acordo com fontes contemporâneas hebreias. Fontes, American Academy for Jewish Research. 1966.
Alonso de Espina: Foi um cristão-novo?: Anais da Academia Americana de pesquisa judaica. Vol. 43, pp ?. 107-165 . 1976.
As origens da Inquisição na Espanha no século XV, Random House. 1995.

Em espanhol :
Da anarquia à Inquisição Trad . Ciriaco Morón Arroyo . Os livros esfera. 2005.

Tomem esta, Inquisidores!

A rainha Isabel da Espanha deve estar dando voltas na sua sepultura.

Após cinco séculos que a déspota espanhola pretendeu apagar todos os vestígios de vida judaica na Península Ibérica, um crescente número de descendentes de suas vítimas está agora emergindo das sombras, buscando reivindicar a sua herança a tanto tempo perdida..

Uma destas pessoas é Nuria Guasch Vidal, cujos ancestrais foram forçados à conversão para o Catolicismo na Espanha. Correndo um grande risco, seus ancestrais preservaram secretamente a sua estimada, ainda que oculta, identidade judaica. Transmitindo-a de geração em geração, clandestinamente desafiando a Inquisição Espanhola e seus sequazes.

Como uma criança, crescendo próximo à Barcelona, Nuria nunca entendeu exatamente porque a sua família não comemorava Natal ou ia à igreja como os seus vizinhos; ou porque em todas as noites de sexta-feira eles arrumavam a mesa de jantar de maneira especial e tocavam o pão no sal antes de comê-lo no início da refeição.

Somente quando o seu avô de oitenta e oito anos de idade, no seu leito de morte, puxou-a a um lado é que Nuria começou aprender a respeito da verdade sobre a sua família e seu passado.

Depois de firmemente instruí-la para não permitir a entrada de nenhum padre no quarto uma vez que ele estivesse morto, o avô de Nuria disse criptamente: “Eu quero que medites sobre a tua herança e penses por ti mesma. Então encontrarás a resposta para todas as perguntas que tens estado perguntando. É teu dever retornar.”

Para Nuria, aquelas palavras tiveram um profundo impacto na sua vida, impulsando-a numa missão de autodescobrimento. Sua pesquisa e persistente indagação com outros familiares deixaram pouca margem a dúvidas: seus ancestrais foram judeus. E se não fosse pela perseguição que tiveram que enfrentar nas mãos da Inquisição, teriam permanecido como tal.

Quem sabe quanto sofrimento e trauma eles foram forçados a enfrentar, vivendo publicamente como católicos mas secretamente como judeus, rodeados por hostilidade, antagonismo e ódio declarado?

Através dos registros da Inquisição, nós sabemos que os seus praticantes usaram uma variedade de métodos covardemente projetados para descobrir e acabar com qualquer cinza judaica na Espanha. Tortura, informantes, denúncias e execuções públicas eram parte do reinado de terror que eles infligiam sobre qualquer suspeito de “reincidência” no Judaísmo.

De acordo com o historiador Cecil Roth, mais de trinta mil judaizantes foram executados pelos fanáticos da Inquisição na Espanha e Portugal, muitos deles queimados vivos numa estaca diante de animadas multidões de espectadores, enquanto que centenas de milhares de outros foram julgados e condenados pelas cortes da Inquisição por seguirem costumes judaicos.

A maioria das pessoas provavelmente não imagina, mas a Inquisição continuou funcionando por séculos, caçando e perseguindo “judeus secretos” em lugares tão distantes como Angola e América do Sul. Foi somente no século XIX que as perseguições foram formalmente  encerradas.

“Desde o início da história, talvez,” escreve Roth na sua obra, História dos Marranos (A History of the Marranos), “ em nenhum lugar na face da terra uma perseguição tão sistemática e tão prolongada tenha sido perpetrada por uma causa tão inocente.”

No domingo passado, contudo, a triste e trágica jornada dos ancestrais de Nuria finalmente chegou a um final feliz. Juntamente com o seu esposo, Nuria apresentou-se perante uma corte rabínica, que formalmente recebeu-os de volta ao povo de Israel.

Nuria estava determinada a trazer de volta à vida aquilo que Fernando e Isabel, os monarcas da Espanha no século XV, quiseram destruir através da Inquisição e da expulsão.

O seu retorno ao Judaísmo foi o auge de uma busca espiritual, que conduziu-os ao estudo com um rabino ortodoxo em Barcelona, que aceitou e recebeu-os  com cordialidade e compreensão.

Lentamente mas com certeza, eles fizeram do Judaísmo o ponto focal de suas vidas, adotando os rituais e o estilo de vida de judeus tradicionais. Eles agora freqüentam regularmente a sinagoga, observam o Shabat e comem comida kasher.

Nuria até mesmo organizou um grupo local de ativistas, que tomou para si a ingrata tarefa  de defender o bom nome de Israel na mídia espanhola local, onde o Estado Judeu é atacado com freqüência e bastante ferocidade, por seus críticos.

Após a corte rabínica aceitá-los, Nuria decidiu tornar-se “Nurit” e Edward tomou o nome de “Itzhak”, inspirado no patriarca bíblico que quase foi sacrificado no altar, sendo salvo no último momento pela intervenção Divina. Edward não poderia ter escolhido um nome mais apropriado.

Quando vi a Nuria no dia seguinte, ela estava no Muro das Lamentações, seus olhos cheios de lágrimas. A primeira coisa que ela fez quando aproximou-se à antiga relíquia do Templo Sagrado, contou ela, foi tocar as suas pedras. Ela então lançou o seu olhar ao céu e falou para o seu avô: “Eu consegui, vô! Eu retornei! Eu sou judia!”

Escutando esta estória, fiquei muito comovido. Que maior testamento poderia haver para a força da alma judaica, para o eterno e inquebrantável espírito da pintele Yid, a centelha judaica que nunca pode ser extinguida?

Através da Espanha e do resto do mundo hispânico, há incalculáveis milhares, possivelmente mais, que ainda carregam esta centelha com eles, desejando com intensidade retornar para o seu povo, voltar para a casa novamente, para a fé e a crença que tão cruelmente foram-lhes arrancadas através dos séculos.

O povo judeu deve isto a eles e a seus ancestrais, reconhecer a angústia e o sofrimento por eles enfrentados e facilitar o seu retorno ao Judaísmo.

Os descendentes dos Anussim (palavra hebraica que significa: “aqueles que foram forçados”) estão lutando com profundas questões de identidade, história e fé. Eles não devem ter que fazê-lo sozinhos.

Especificamente, há uma série de passos que podem e devem ser tomados para ajudá-los, incluindo a publicação de mais material em espanhol sobre tópicos judaicos, a abertura de pequenas e acessíveis bibliotecas judaicas através da Espanha e aumentar a atenção sobre eles entre rabinos e líderes comunitários para assim facilitar a sua reintegração nas comunidades judaicas.

Israel deveria também considerar o estabelecimento de um memorial nacional às vítimas da Inquisição e deveria pressionar o governo espanhol para fazer o mesmo. Esta seria uma medida altamente simbólica, contudo importante. A qual iria tanto educar as futuras gerações sobre o trauma da Inquisição, como conceder às suas vítimas o reconhecimento que tão justamente merecem.

Quando tantos jovens judeus estão abandonando suas raízes, Israel tem agora uma oportunidade de recuperar os inumeráveis irmãos a tanto tempo perdidos. Da Espanha ao Brasil e ao sudoeste dos Estados Unidos, o número de Anussim surgindo abertamente está aumentando rapidamente.

Há chegada a hora de dar-lhes as boas-vindas de volta à casa.