O quê você faz quando encara de frente a inquisição espanhola?

“Ninguém”, a sátira Monty Python continua, “espera a Inquisição Espanhola”, e o mesmo vale para os visitantes do Museu do Prado em Madrid. Virando em uma esquina no segundo andar, os espectadores se deparam com a pintura de Emilio Sala Francés de 1889 “A Expulsão dos Judeus da Espanha”.

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Presidente da Shavei Israel: a Rainha Esther inspirou os judeus Anussim a preservarem sua fé

Fonte: JerusalemOnline

Em uma entrevista exclusiva com o JerusalemOnline, o presidente da Shavei Israel Michael Freund falou sobre a importância da história de Purim para os judeus Anussim que foram forçados a se converter ao catolicismo após a Inquisição espanhola, assim como seus descendentes.

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Os gritos silenciosos das vítimas da Inquisição na Sicília

Por Michael Freund
Jerusalem Post
19 de janeiro de 2017

 

Elevando-se sob a Piazza Marina perto do mar, em Palermo, na Sicília, está uma estrutura medieval ornamentada que esconde evidências de um dos mais escuros capítulos da história europeia, dentro de suas paredes.

Com suas muralhas desgastadas e uma imponente arquitetura de fortaleza, o Palazzo Chiaramonte, ou Palácio Steri, como é mais conhecido, é um dos locais mais importantes da cidade costeira, um lugar envolvido em uma tormenta que muitos preferem esquecer.

De 1601 a 1782, o local serviu como a sede da “Santa Inquisição”, uma instituição que usou meios decididamente profanos para caçar suspeitos de hereges, sectários e, claro, judaizantes secretos ou cripto-judeus.

Mas se tratava de muito mais do que apenas um complexo administrativo.

O edifício abrigava celas onde os prisioneiros eram torturados pelos zelotes inquisitoriais, que aparentemente não conseguiram ver a ironia em rasgar a carne de pessoas em nome da fé ou destruir seu espírito, por causa da alma.

Em vários quartos do Steri, majestosos  grafites gravados por prisioneiros aguardando seu destino foram preservados, encarnando as últimas esperanças e sonhos de inúmeros homens e mulheres cujo único crime foi o fracasso em seguir o caminho papal.

Como judeu e ser humano, fui dominado pela aura de sofrimento que cada célula continha. Em uma sala, as letras hebraicas são visíveis em dois lugares na parede, evidência tangível de que os judeus sicilianos forçosamente convertidos e suspeitos de cometer “recaídas” ao praticar o judaísmo, passaram suas últimas horas aqui.

Em outro, um judeu anônimo, obviamente talentoso e desolado, havia esboçado meticulosamente um desenho detalhado de Jerusalém, uma cidade que deve ter sonhado em conhecer, embora nunca tenha tido o mérito.

Enquanto olhava para aquelas cenas desalentadoras, percebi que as gravuras nas paredes das celas da prisão do Steri Palace eram os gritos silenciosos das vítimas da Inquisição, chamando-nos séculos mais tarde, suplicando para que não fossem esquecidos.

Entre os que morreram dentro dos Steri, haviam descendentes da antiga comunidade judaica da Sicília, que possivelmente datava da era romana.

No final do século XIV, os judeus da Sicília haviam sido confinados a guetos e submetidos a massacres e conversões forçadas ao catolicismo.

O aumento da perseguição nos anos seguintes atingiu seu clímax em 1492, quando os monarcas espanhóis Ferdinando e Isabela, que controlavam a Sicília, emitiram o Edito de Expulsão, que ordenava a saída de todos os judeus que ainda permaneciam em seu reino.

Havia mais de 50 comunidades judaicas espalhadas pela Sicília, com pelo menos 37.000 pessoas e possivelmente muitos mais. Os historiadores estimam que 10% da população de Palermo na época era judaica.

Quando a data da expulsão chegou, em 12 de janeiro de 1493, muitos deixaram o reinado, contudo um grande número de judeus foram forçosamente convertidos, conhecidos, mais tarde, como Anussim (a quem os historiadores se referem pelo termo depreciativo “Marranos”). Estes foram proibidos de sair e passaram grande parte de suas vidas sendo suspeitos da Inquisição, que dedicou bastante tempo em caçá-los.

Na verdade, o primeiro auto-da-fé na Sicília ocorreu em Palermo, em junho de 1511, quando os inquisidores executaram, em praça pública, nove Anussim sicilianos e queimou-os na fogueira, em frente a toda uma multidão.

Com isso, a história dos judeus sicilianos deveria presumivelmente ter chegado ao fim, sufocada pelo ódio e pela opressão.

Mas contra todas as probabilidades, e apesar de todos os perigos que enfrentaram, muitos dos Anussim continuaram a transmitir sua herança judaica de geração em geração, preservando vários costumes judaicos e apegando-se à identidade de seus antepassados.

Essa coragem foi recompensada recentemente em uma cerimônia notável que assisti em Palermo no aniversário da expulsão de 1493. Em um grande gesto de reconciliação, a Arquidiocese local devolveu oficialmente o local da Grande Sinagoga de Palermo, que havia pertencido anteriormente, ao povo judeu.

Trabalhando em conjunto com o Instituto Siciliano de Estudos Judaicos, a Shavei Israel – organização que fundei e presido – abrirá a primeira sinagoga e Beit Midrash (casa de estudos) em Palermo, em mais de 500 anos.

Estes serão supervisionados pelo Rabino Pinhas Punturello, antigo rabino-chefe de Nápoles, que é o emissário de Shavei Israel para a Sicília, e servirá de centro educativo, cultural e espiritual para o crescente número de pessoas, em toda a Sicília, que estão redescobrindo suas raízes judaicas, permitindo que se reconectem com a fé de seus antepassados.

Enquanto eu segurava na minha mão a grande e pesada chave para o local onde a antiga sinagoga tinha estado uma vez, não pude deixar de pensar sobre a indestrutibilidade do espírito judeu, pois nem a expulsão e nem a Inquisição foram capazes de anular o judaísmo siciliano.

Os gritos daqueles que já foram mantidos nas masmorras do palácio de Steri podem ter ficado em silêncio, mas em breve, com a ajuda de Deus, os sons das canções de Shabat recitadas por seus descendentes, voltarão a ressoar nas ruas de Palermo.

Se isso não é um testemunho da eternidade de Israel, o que é?

O Renascimento do Histórico Judaísmo Italiano

Não é surpreendente ouvir que a vida judaica na Itália constitui um rico capítulo dentro da história judaica, através dos tempos. Podemos facilmente captar a sua dimensão mencionando, somente, luminares como Leone Ebreo (Don Yehuda Abarbanel), o célebre pensador medieval; Rabi Moshe Chaim Luzzatto, o estudioso e cabalista cujos escritos continuam a brilhar no pensamento judeu; ou Primo Levi, o judeu italiano que sobreviveu ao Holocausto e relacionou esta experiência com a lucidez do mundo. Mas quantas vezes ouvimos sobre os descendentes de uma comunidade que foi destruída e seu povo expulso, cerca de quinhentos anos antes de começarem a retornar à sua identidade religiosa? É exatamente isso que tem acontecido com os judeus italianos na Sicília – a ilha do sul da Itália que já foi um emirado árabe – mesmo que, não tenha qualquer comunidade judaica organizada.

Como parte das atividades dos “Dias Europeus da Cultura Judaica”, trezentas pessoas, entre estas descendentes de Bnei Anussim, reuniram-se em Palermo, na Sicília, no dia 18 de setembro, para celebrar a cultura judaica. A iniciativa italiana ocorreu em mais de 70 localidades, este ano com o tema, “línguas hebraicas e dialetos.” Em Palermo as atividades foram divididas entre visitas a sítios judaicos, música e uma conferência na qual o emissário da Shavei Israel para o Sul da Itália e Sicília, o Rabino Pinchas Punturello, participou juntamente com vários palestrantes, no campo da linguística hebraica com suas manifestações na Itália. Veja as fotos aqui.

As visitas cobriram a área da Guidecca, o Arquivo Histórico Comunal e o Palácio Marchesi, enquanto que para o encerramento das atividades, o conjunto Tahev Shir realizou um concerto centrado na música sefardita e asquenazita. Os eventos foram organizados pela Shavei Israel em coordenação com o município e organizações culturais locais. Veja as fotos aqui.

Através dessas atividades, os descendentes de judeus que foram forçados a adotar o catolicismo tiveram a oportunidade de se reconectar com suas raízes judaicas. Seus antepassados, embora forçados a abandonar o judaísmo, mantiveram secretamente uma aparência de sua identidade judaica, apesar do terror e da opressão que a Inquisição representava. Nos últimos anos, tanto no sul da Itália quanto na Sicília, muitos estão tomando o caminho de volta para suas raízes.

“O retorno do povo judeu é um testemunho notável do poder da memória coletiva judaica, juntamente com nosso dever histórico e moral de chegar até eles, recebendo-os de volta para o povo judeu”, afirma Michael Freund, presidente da Shavei Israel, a principal organização que trabalha com os Bnei Anussim na Itália e no mundo.

Traçando brevemente a história do judeu siciliano, este provavelmente data dos anos anteriores à destruição do Segundo Templo e do exílio judaico. Embora saibamos que após a destruição do Templo muitos judeus chegaram como escravos, ao longo dos séculos, a comunidade floresceu, apesar de múltiplas perseguições e execuções de, inclusive, grandes rabinos e eruditos. No século XIV e sob a pressão do regime espanhol a situação deteriorou-se de tal forma que os guetos foram estabelecidos, e para aqueles relutantes em abraçar o cristianismo em suas vidas diárias, tornou-se uma situação terrível, atingindo o seu pico com a expulsão definitiva dos judeus (52 comunidades em toda a Sicília ). Esta expulsão datada de 1510, estima que cerca de 37.000 judeus foram expulsos. Aqueles que permaneceram foram convertidos a força, com o olho ubíquo da Inquisição sempre vigilante de qualquer atividade religiosa ilegal entre os judeus italianos.

Muitos se mudaram para regiões italianas vizinhas como Nápoles e Calábria, assim como muitos judeus espanhóis fizeram, entre eles o renomado Don Isaac Abarbanel, erudito e empresário que tinha servido como ministro na Espanha. A Inquisição no sul da Itália durou até o século 17 e possivelmente até mais tarde, queimando Bnei Anussim e seus descendentes. Ainda assim, não pôde impedir que a identidade judaica fosse transmitida de geração em geração, tornando possível que hoje, alguns desses descendentes, estejam lentamente empreendendo o caminho de retorno às suas raízes judaicas.

“A celebração da cultura judaica de Palermo enfatiza a força do espírito judaico e o fato tocante de perceber mais uma vez como, nem mesmo a expulsão e a Inquisição, conseguiram extinguir a eterna centelha judaica”, conclui Freund.

Como os judeus guardavam o Purim durante os tempos da Inquisição?

Apesar da perseguição implacável, os judeus encontraram uma maneira de observar o Purim durante a Inquisição espanhola.

Em 1391, massacres anti-judaicos varreram a Espanha, fazendo com que judeus fossem obrigados a escolher entre se converter ao cristianismo ou serem assassinados. Cerca de 20.000 judeus espanhóis se tornaram cristãos durante este período e muitos mais continuaram a converter ao longo do século 15, sob coerção. No entanto, muitos desses judeus que foram convertidos sob a espada continuaram a praticar o judaísmo em segredo. Isso perturbou muito os espanhóis, que viram que muitos judeus “escondidos” continuavam a fazer parte dos altos escalões da sociedade espanhola, como já eram desde a Idade de Ouro da Espanha muçulmana.marranos-300x261

Deste modo, em 1492, a rainha Isabel e D. Fernando expulsaram do seu reino todos aqueles judeus acusados de seguirem praticando a fé judaica. Em um primeiro momento, a Inquisição espanhola foi criada para caçar os judeus que continuavam a praticar sua fé em segredo. Cerca de 165.000 judeus fugiram da Espanha, 50.000 foram batizados e algo como 20.000 morrem, tentando deixar a Espanha em 1492. Enquanto isso, 31,912 “hereges” foram queimados nas fogueiras da Espanha, e outros 17.659 foram queimados em efígie – ou seja, simbolicamente, substituídos por um boneco de pano. Para os judeus secretos, conhecidos como “Anussim” – conversos ou marranos – que viviam sob o jugo da Inquisição e, portanto, em constante medo de que seriam descobertos, a festa de Purim tinha um significado especial, já que a Rainha Esther também foi forçado a praticar o judaísmo em segredo.

Para os Anussim da Espanha, Portugal e América Latina, Purim não era um dia de festa com crianças fazendo barulho e adultos consumindo álcool. Pois, se celebrassem desta forma, seriam descobertos pela Inquisição. Ao invés disso, os Anussim, que corriam perigo de vida, jejuavam por três dias, assim como a Rainha Ester jejuou quando os judeus da Pérsia foram ameaçados de aniquilação.

Como resultado, a Inquisição utilizou o Jejum de Esther como um indicador de judeus engajando-se em atividades religiosas “proibidas”. Além disso, um jejum de três dias não era considerado saudável. De acordo com Gabriel de Granada, um garoto de 13 anos de idade, interrogado pela Inquisição no México em 1643, as mulheres de sua família dividiam os três dias de jejum entre elas. Leonor de Pina, que foi preso pela Inquisição portuguesa em 1619, registrou que suas filhas jejuavam por três dias, durante o dia, enquanto durante a noite, comiam. Contudo, quando comiam, se abstinham de comer carne.

Estudiosos dos Anussim sustentam a idéia de que os judeus secretos de Espanha, Portugal e América Latina viram no jejum particular de três dias como um substituto para as Mitzvot públicas de: ler a Megilá na sinagoga e enviar presentes com comida para familiares e amigos – sendo estas ações que chamavam a atenção da Inquisição. O professor Moshe Orfali da Universidade Bar Ilan afirma que os Anussim jejuavam, muitas vezes, como uma forma de demonstrar o seu remorso por serem forçados a violar a Torá.

Curiosamente, os Anussim também transformaram a rainha Esther em “Santa Esther,” como um meio de disfarçar sua fé judaica durante a Inquisição. Os Anussim frequentemente ofereciam todas as suas orações para esta “santa”. Assim, mesmo que os Anussim hajam perdido muito de sua herança judaica ao longo dos séculos, eles nunca esqueceram a Rainha Esther, ou as palavras da Megilá que proclamam: “E esses dias de Purim nunca deixarão os judeus, e sua lembrança jamais será perdida entre seus descendentes”.

 

Por: Rachel Avraham, traduzido do site UnitedWithIsrael.org

O Papa Lunático e a Disputa com os Judeus

Pelo Rabino Nissan Ben Avraham
A Disputa de TortosaFOTO-Concilio

Na segunda metade do século XIV, viajava pela Europa um frade dominicano, nascido em Valência, que era conhecido por seu antissemitismo virulento. Uma de suas expressões favoritas era “batismo ou morte” baseada no terrível desastre de 1391 onde se expandiu por Castela e Aragão uma terrível onda de ataques contra as comunidades judaicas, muitas dessas comunidades judaicas espanholas desapareceram, seja porque seus habitantes morreram ou porque foram forçados a se converter ao cristianismo, ou mesmo, por ambos motivos.

Este frade se chamava Vicent Ferrer, nascido em Valência em 1350, conhecido por um carisma que incendiava seu público, o público cristão, já que os judeus, que também eram obrigados a comparecer as igrejas quando Ferrer dava seus sermões, não tinham motivos para se emocionar, sendo que, normalmente, eram humilhados pelos cristãos. E assim, este mesmo frade é acusado de preparar o terreno para as conversões forçadas que ocorreram no ano de 1391 – evento mencionado acima – em todas as regiões, muitas das quais, costumava pregar. Os próprios cristãos lhe davam todo o crédito pelo “sucesso” alcançado, ao destruir muitas comunidades judaicas neste ano.

Mas o tempo passou e Ferrer percebeu que ainda haviam muitos judeus vivendo nas terras da Península Ibérica, e haviam, até mesmo, restaurado algumas comunidades que estavam sob ruínas. Isso preocupou muito Vicent Ferrer. Portanto, ele contatou um convertido chamado Maestre Geroni de Santa Fe, anteriormente conhecido como Yehoshua Ha-Lorqui, para participar de uma disputa pública entre judeus e cristãos, na qual buscaria convencê-los de seus erros por não aceitar o cristianismo. Os judeus então apelidaram a este converso – utilizando um trocadilho com as iniciais de seu nome M, G, D e F – de ‘Megadef ‘ (MeGaDeF), que significa em hebraico ‘calunioso’.

Este tal Geronimo havia sido um companheiro do velho rabino de Burgos, que abjurou do judaísmo adotando o nome de Pablo de Santa Maria, e que, em vinte e cinco anos tornou-se bispo de sua cidade natal. De acordo com o seu gentílico, Maestre Geroni era de Lorca, e abjurou do judaísmo logo após seu companheiro de Burgos, na trágica década de 1390. Independentemente se sua conversão foi sincera ou não, os resultados foram fatais para as comunidades judaicas de Castilla e Aragão, uma vez que Geronimo se dedicou a perseguir os seus antigos irmãos.

Naqueles tempos havia um papa que residia na coroa de Aragão no castelo de Penyíscola, atualmente na província de Castelló, pois não o aceitavam em Roma. Este foi o famoso Papa Luna, Pedro Martínez de Luna e Pérez de Gotor, ou, o Papa Bento 13, que, apesar de ter sido rejeitado pela Cúria “continuou nos seus treze” (dizia: “Sou Papa, e sou 13”). Seu médico pessoal era, justamente, Maestre Geronimo, o judeu renegado.

Para reafirmar sua autoridade no mundo cristão Geronimo considerou rentável participar da disputa pública entre os judeus e cristãos na cidade de Tortosa, localizada a cerca de 70 km ao norte de Penyíscola, embora tudo leva a creer que algumas das sessões aconteceram mais próximas de sua cidade sede. Atualmente, o Papa Luna é considerado um “antipapa”, um herege.

Convocaram cerca de vinte rabinos das regiões vizinhas de Aragon, incluindo os rabinos: Rabi Zerachiá Halevi, o ministro Don Vidal ben Benveniste, Rabi Mathias Hayitsharí, Don Shmuel Halevi, Rabi Moshe ben Musa, Don Todros (Theodoros) el Constantín, Don Yosef ben Ardot, Don Meir Jaligua, Don Estrug Halevi, Rabi Yosef Albo, Don Yosef Halevi, Rabi Yom Tov-Carcusa, Abu Ganda, Don Yosef Albalag, o sábio Bonjueu e Rabi Todros ben Yijya de Girona.

Os rabinos foram convocados a abandonar suas comunidades e viajar para o local da disputa, sob a ameaça de serem severamente multados se não chegassem a tempo. A primeira sessão foi realizada no dia 07 de fevereiro de 1413 e a 67ª – e última – sessão, em 13 de novembro de 1414.

Tudo indica que o Papa Luna, pelo menos na primeira parte da disputa, se comportou corretamente com os judeus, como um juiz justo, criticando Geronimo (e também os rabinos) cada vez que desviavam do assunto ou transgrediam as regras a disputa. Os rabinos também tiveram disputas entre eles, uma vez que alguns deles, como o Rabi Estrug, Don Todros e o Rabi Mathias, se aventuraram a proferir exclamações que enfureceram o Papa Luna, arriscando, assim, a vida de todos. Portanto, eles tiveram que estabelecer regras de participação entre si, com as quais definiram que apenas um rabino lideraria o debate e os outros deveriam permanecer no papel de espectadores.

A grande questão era se jesus nazarenho, era o verdadeiro Messias ou não, com base em textos bíblicos e na literatura talmúdica.

O primeiro tema discutido foi a famosa frase do profeta Eliyahu (Talmud, Tratado de Sanhedrin 97a), que afirma “o mundo durará seis mil anos, e no sétimo será destruído: os primeiros dois mil serão de caos, os outros dois mil de Torá, e os últimos dois mil, serão os tempos de Mashiach”. Os cristãos queriam concluir, baseando-se nesta declaração, de que já o Messias já deveria ter chegado desde o início do quinto milênio, enquanto que os judeus argumentavam que até o fim do sexto milênio poderia aparecer o verdadeiro Messias. E assim, seguiram com outras questões talmúdicas.

A crônica, parcial, que possuímos hoje é a do rabino Shlomo Ibn Verga, que nasceu em Sevilha em 1460, escrita em um livro ‘Shevet Yehudah’ ou ‘Tribo de Judá’, que contém o testemunho de um certo rabino Yehuda Verga (talvez parente dele) que testemunhou a disputa.

Infelizmente, não temos toda a disputa por escrito, mas sabemos que causou muitos problemas para as comunidades judaicas, que já estavam em uma posição muito difícil. Tanto se a disputa terminasse favoravel aos judeus ou não, a ira dos cristãos cairia sobre eles: se perdessem, teriam que abandonar a sua fé e se converter ao cristianismo, e se ganhassem, seria por seus “truques” e “magias negras”, e, obviamente, não, simplesmente, por ter razão. Então, de qualquer maneira, tendiam a perder, como em todas as disputas.

De qualquer forma, presume-se que se tivessem perdido a disputa, teriam sido forçados a se converter ao cristianismo, o que pode dar crédito à versão judaica que diz que os rabinos conseguiram corretamente se defender contra as acusações do ‘Megadef’. Não nos esqueçamos de que estavam a somente, dois décadas e mea do ano sombrio de 1391, e o cheiro de fogo e sangue derramado, ainda pairava no ar. Faltavam menos de oitenta anos para a expulsão dos judeus daquelas terras, e os fanáticos como Vicent Ferrer e Geronimo de Santa Fe, já atiçavam o fogo que consumiu mais tarde todas as comunidades judaicas da Península Ibérica, que tanto contribuíram para a ciência, literatura, medicina e, é claro, a literatura rabínica.

JACOB LOPEZ, Palma de Mallorca,1672

A expulsão dos judeus de Oran

6a00d8349889d469e2014e8842c36e970d-800wiNo ano de 1672, encontramos um importante relato na história dos cripto-judeus de Mallorca, Espanha.

Um Navio chegou no porto de Palma de Mallorca com muitos judeus que fugiam do Norte da África. Fernando Fajardo, o Marquês de Vélez e protegido da rainha Mariana (mãe de Carlos ‘O Enfeitiçado’) tinha decretado a expulsão de 500 judeus que viviam na cidade de Oran, no norte da Argélia moderna, que estavam sob domínio espanhol desde que a cidade foi conquistada pelo Cardeal Cisneros em 1509. Mas, concordando com suas mudanças para a cidade portuária de Livorno, a nordeste da península italiana, que havia sido declarada porto livre em 1590.

Parece que um grande número de judeus já haviam estado em Mallorca, quase trezentos anos antes, após o assalto em Call em agosto de 1391, que causou a conversão forçada de centenas de judeus. Alguns conseguiram escapar, seja durante os motins sangrentos, seja nas semanas e meses que se seguiram e, apesar dos decretos que limitavam sua saída da ilha. Supõe-se que a maior parte chegou a Oran e de lá foram distribuídos entre outras cidades, como Ténès e Mostaghanem, todos na costa oeste da moderna Argélia.
Três anos de prisão

Devido à expulsão, o navio chegou carregado com uma dezena de judeus ao porto de Mallorca. Entre eles estava um jovem de cerca de 16 anos, chamado Jacob Lopez, que esperava encontrar sua noiva na cidade toscana. No momento em que o navio chegou ao Porto Pi, porto onde estavam ancorados os navios estrangeiros, os guardiões da Inquisição encarregados de monitorar a pureza da Espanha subiram no navio. Os judeus foram cuidadosamente examinados e os jovens despertaram as suspeitas dos guardas, sendo presos e permitindo que o navio continuasse seu caminho a Livorno, sem eles.

O menino permaneceu cerca de três anos na prisão, enquanto a Inquisição investigava seus detalhes. Após o envio de mensagens para 14 tribunais inquisitoriais na Península Ibérica, receberam informações de Madrid, sobre uma família Lopez, descendentes de judeus que fugiram em direção a Málaga e de lá para o Norte de África. Supostamente ali haviam abandonado o Cristianismo e teriam abraçado a fé de seus antepassados judeus.

Cruzando informações concluiu-se que Jacob era realmente Alonso Lopez, filho da família, que arriscou sua vida ao voltar para o território espanhol. Na verdade já tinham tentado sair de Oran vários anos antes, com a publicação do decreto de Fajardo, mas ao chegar ao porto de Nice, de onde continuariam a viagem até Livorno foram capturados por piratas e trazidos de volta à terra que habitavam, onde passaram vários meses na prisão, até que foram resgatados, e agora novamente se arriscavam no caminho à Livorno.
Relaxado ao braço secular

O jovem “marrano” não negou as acusações e afirmou que permaneceu fiel a sua fé ancestral. O Inquisitor Pedro de Aliaga apresentou documentos para Inquisitor Maior Rodriguez de Cossio, que assinou sua sentença de morte. Mas a Inquisição, como uma instituição religiosa que era, não queria matar ninguém, de modo que o réu foi considerado “relaxado ao braço secular”, permitindo a sentença.

No dia 12 de janeiro de 1675, multidões se reuniram perto da porta de Jesus, ao norte da cidade de Palma, onde estão hoje, provavelmente, os edifícios do Institut Joan Alcover na Avinguda Alemanha de Palma, ou talvez perto da faculdade Lluís Vives, onde estudei na minha juventude.

Jacob Lopez subiu à fogueira aonde mais uma vez rejeitou a oportunidade de se arrepender de sua apostasia ao cristianismo católico e permaneceu fiel ao judaísmo, para que então, ateassem fogo à estaca e o queimassem vivo.
Exemplo para os Cripto-Judeus

Seu exemplo repercutiu de imediato sobre as famílias dos descendentes de judeus, chamados xuetas, moradores da cidade, que haviam se convertido ao cristianismo três séculos antes. Logo eles se organizaram para exigir, em segredo, só para si, sua lealdade ao judaísmo. No entanto, dois anos depois, foram presos cerca de 270 “judaizantes” e então começaria a odisséia dos Xuetas Maiorquinos, mas isso é outra história!