Um Mar de Pessoas

Comentários sobre a festa de Pessach

 

As três festas de peregrinação (Shloshet Haregalim)Shloshethreglim2-300x211

A festa de Pessach é uma das três festas chamadas de “festas de peregrinação”, juntamente com Shavuot e Sucot. O significado desta expressão é que, nestas três datas, o povo de Israel deveria deixar suas casas e campos para chegar a Jerusalém e participar das festividades do Templo.

Para poder chegar a tempo, tinham que deixar suas casas uma ou duas semanas antes do início da festa, em grandes caravanas de peregrinos, juntamente com toda a família e, alguns animais para os sacrifícios do Templo.

Se fosse em Pessach, deveriam pensar não somente em um cordeiro para a noite do Seder, mas também em algum outro animal para o abate de “Chagiga” – isto é, o sacrifício de ‘festa’ sacrificado pela manhã e que podia ser consumido nos dois primeiros dias e durante a primeira noite. Certamente trariam muitos outros animais para comer durante a semana que durava Pessach ou Sucot, uma vez que neste feriado, a alegria é ‘obrigatória’ e o dito talmúdico diz que “não há alegria sem carne (de gado) e vinho”.

Nem todos possuíam animais suficientes para trazer ou mesmo como trazê-los ao Templo, então vinham os pastores a Jerusalém, com grandes rebanhos de gado, maiores e menores, proporcionando aos peregrinos, mais esta opção.
Um mar de pessoas

Definitivamente um dos primeiros efeitos destas peregrinações é o contato direto, durante todo o período da festa, com milhares de outras pessoas, até então desconhecidas e das quais, muito provavelmente, nunca os verá novamente. Um mar de pessoas subindo as escadas em direção ao Templo, desde a cidade de David, no período do Primeiro Templo, ou a partir da colina ocidental, durante o Segundo Templo. Todos já se haviam banhado nas vários ‘mikva’ot’ que haviam nas redondezas, antes de poderem entrar nos recintos sagrados do Monte do Templo.

Esse contato, esse sentir-se parte de um enorme grupo de pessoas com o mesmo objetivo, no mesmo sentido, fora de todos os efeitos espirituais que ocorrem graças aos sacrifícios e à presença no templo, muda completamente a perspectiva das pessoas que participam do evento.

Em um estudo publicado na National Geographic, em Israel, a Sra. Laura Spini explica sobre a festa hindu que acontece na cidade de Allahabad, a cada primavera. Chegam dezenas de milhões de pessoas a localidade para, por uma semana, banhar-se no rio Ganges, transformando o evento na, provavelmente, maior festa religiosa do mundo. Uma equipe de psicólogos liderados pelo Dr. Steven Fitting, da Universidade britânica de St. Andrews, buscaram examinar os efeitos de viver em duras condições de peregrinação nos participantes do chamado, Maha Kumbh Mela.
Identidade Coletiva

Se poderia pensar que o indivíduo perde a sua personalidade particular neste momento, podendo levar à perder sua capacidade de pensar com sabedoria e agir com moralidade, características estas, tão básicas, que nos tornam humanos. Mas o estudo mostra que esses encontros são importantes e até mesmo, essenciais para a sociedade. Realmente nos ajudam a consolidar um sentimento de identidade coletiva, ajudando a criar novas relações com os outros e inclusive, melhorar a nossa sensação física.

É verdade que existe diferença entre a multidão física e a psicológica. Ou seja, não é o mesmo quando muitas pessoas se juntam no metro ou até mesmo em um festival de musica, de quando têm um objetivo em comum a realizar. Neste último caso, aprendemos a usar a palavra “nós” em vez da palavra “eu”, mas, sem perder a identidade particular.

Ao participar de um grupo grande, a pessoa pode mudar sua maneira de ver o mundo, diz o psicólogo Mark Levine, colega do Dr. Racor. Reações à superlotação, música alta e local de acampamento, quando realizadas em um mesmo objetivo, principalmente quando se trata de um grande evento religioso, se distinguem das que, no passado, poderiam ser consideradas “normais”.
Contato com a Shechiná

É claro que esta é apenas uma das grandes vantagens da peregrinação ao Templo de Jerusalém, já que o principal é o contato direto com a Presença Divina, muito evidente no Templo. Este contato que gerava o bom humor necessário para que, as pessoas muito qualificadas, chegassem ao nível da profecia.

Mas mesmo quando não se alcançava a profecia, se podia chegar a um estado de espírito próximo da santidade que permitia uma melhor conexão com o Criador, através das orações ou da melhor compreensão das mensagens da Torá e de outros livros do ‘Tanakh’.

O simples contato físico com pessoas santas que frequentavam a peregrinação e se misturavam com o resto dos fiéis, já causava uma grande impressão na alma e condicionava o comportamento de todos os presentes que voltavam, em seguida, fortificados à rotina em suas respectivas casas.

Por tudo isso, esperamos impacientes o momento em que possamos retomar a verdadeira peregrinação. É verdade que, hoje, grandes multidões chegam ao ‘Kotel’, o muro de contenção do Monte do Templo, o lugar mais próximo do Santuário que se pode chegar. Mas, ainda, estamos muito longe do que foi nos dias dos Templos, da peregrinação com um verdadeiro contato com a ‘Shechiná’.

“Que o Templo seja reconstruído em breve, nos nossos dias… “

Orgulho Nacional – Comentários sobre a festa de Purim

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Críticas sobre o comportamento de Mordechai

Muitos autores, seguindo o comportamento dos judeus da época de Mordechai ‘o judeu’, criticam duramente o comportamento deste último durante a “crise de Haman”.

Como sabemos, Haman foi promovido ao posto de primeiro-ministro no governo do Rei Achashverosh (Xerxes), recebendo a honra de que todos os cidadãos do reino deveriam ajoelhar-se para ele, quando passasse. Contudo, pode ser, que esta honra ocultava uma medida preventiva que evitava uma tentativa de assassinato contra sua pessoa.

Mordechai recusou a prostrar-se diante do ministro, e ao ficar sabendo que tal “transgressor” era judeu, Haman decidiu exterminar todo o povo de Israel!

Os companheiros de Mordechai o haviam avisado que seu comportamento traria grandes desgraças, como, de fato, aconteceu e, portanto, o acusavam do desastre que se aproximava.

Como Mordechai pôde fazer tal coisa, colocando em risco não só a si mesmo, mas toda a sua geração e as que viriam depois?
Mordechai ‘o judeu’

Mordechai era um homem velho, que já era membro da Grande Corte de Israel (o Sinédrio) antes da destruição do Primeiro Templo, e foi um dos primeiros a voltar para sua terra natal e começar a reconstrução do Templo após o Exílio babilônico, como consta no segundo capítulo do livro de Ezra (Ezra 2:2).

Este livro nos mostra como, em seguida, os judeus são forçados a parar a construção do Templo e da cidade de Jerusalém por ordem do rei, que tinha sido enganado por alguns emissários amalequitas que haviam chegada da Terra Santa (Ezra 4:5, 4: 24).

Para contrabalancear este “lobby” dos amalequitas, os novos imigrantes judeus enviaram Mordechai ao palácio real aonde se tornou um membro do Tribunal Persa.
O pecado do povo

Na verdade, devemos nos perguntar como foi possível que o Criador impediu a reconstrução de Seu templo em Jerusalém? É claro que algo muito mais grave aconteceu que despertou a ira do Criador para com o Seu povo.

A resposta é simples. O povo, exilado por mau comportamento, havia chegado a Babilônia. Mas, apos 70 anos de exílio, chegava ao trono o rei Ciro que permitiu a eles retornar à sua pátria e reconstruir o Templo. Esperava-se que todos os exilados se levantassem, agarrassem seus pertences e retornassem à sua pátria ancestral. Em contrapartida, o número de judeus que retornaram foi de 42.360 cidadãos, 7.337 escravos e 200 cantores.

Não apenas desprezavam o grande presente do Criador, que devolvia a terra tão bonita para seu amado povo, mas também desmentiam a profecia de Yermyahu (Jeremias) que havia anunciado que, após 70 anos de exílio, os judeus poderiam voltar a reconstruir o país ancestral e o Templo do Criador (Yermyahu 29:10). Nem levaram em consideração que o número de participantes influencia no numero dos mandamentos a cumprir, e que enquanto a maioria dos Filhos de Israel não estão na Terra de Israel, a força dos mandamentos é drasticamente diminuída para um valor simbólico carente da santidade que existiria se todos estivessem presentes.
A “vitória”

E para piorar a situação, quando o Rei Achashverosh realizou uma festa deslumbrante comemorando sua “vitória” sobre o profeta Yermyahu (e o Criador, que havia sido anunciado), os habitantes judeus de Shushan, a capital, não encontram ‘desculpas’ para não participar do banquete. Como podiam celebrar que o Rei Achashverosh tinha “ganhado” do Criador?!

Neste momento, dizem os sábios, os judeus haviam assinado sua sentença de morte, seu extermínio. Faltava apenas uma desculpa para implementá-lo.

O pecado havia sido múltiplo: a falta de iniciativa em deixar o seu ser particular no exílio para reconstituir o lar nacional do povo em ruínas e a falta de orgulho nacional que lhes permitiu participar da festa de Achashverosh.
O antídoto

O antídoto deveria ser a restauração deste orgulho nacional, o sentimento de pertencer ao mesmo povo, um povo santo, com uma missão universal.

Por não se curvar a Haman o amalequita, Mordechai estava tentando inspirar o resto de seus irmãos, que o olhavam com inveja. É verdade que ao obter a resposta cruel de Haman muitos ficam confusos e não sabem se admiram ou criticam a Mordechai, mas quando este juiz toma as rédeas da liderança e ordena a todos um período de três dias de jejum, para apoiar espiritualmente a rainha, infiltrada no castelo, todos respondem de forma positiva. Este esforço conjunto que dá forças a Esther para anular a influência sinistra de Haman sobre o Rei.
Organizando uma nova Aliá

Além disso, muitos deles, pela situação que passavam, decidem naquele momento recolher seus pertences e se preparar para Aliá, a imigração para Israel, embora demoraram para se organizar e de facto realizá-la, como vêmos na continuação do livro de Ezra.

A isso devemos acrescentar o valor que tinha aqueles que já haviam retornado à Terra Santa e que se atreveram, incentivados pelos três profetas Chagai, Zechariá e Malachí (Ageu, Zacarias e Malaquias), a transgredir as ordens do rei e continuar construindo o Templo, como podemos ver nos capítulos 5 e 6 do livro de Ezra.

Em Purim celebramos, então, não apenas o milagre divino que salvou as pessoas de extermínio planejado pelos amalequitas, mas a restauração, ainda que muito parcial e efêmera, do, perdido, sentimento nacional e do orgulho de pertencer a um povo tão especial!

O pecado dos espiões e a destruição do templo

Comentário sobre Tisha BeAv – o dia nove do mês de Av

Como sabemos, o dia 9 do mês de Av é um dia de luto nacional. As razões são muitas, começando com a punição recebida pelo povo que, instigados pelos espiões, decidiram não entrar na Terra Prometida, passando pela destruição dos dois templos em Jerusalém, e chegando a expulsão dos judeus da Espanha há quinhentos e vinte e um anos e a destruição do povoado israelense de Gush Katif, há apenas oito anos.

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Por que jejuamos?

Cinco jejuns foram decretados por nossos sábios em memória a diferentes desgraças que aconteceram ao nosso povo e um foi estabelecido pela Torá como expiação pelos nossos pecados. Yom Kipur e 9 de Av, são jejuns que começam ao pôr do sol e terminam com a saída das estrelas do dia seguinte. Os demais jejuns começam de madrugada e terminam com a saída de estrelas, no mesmo dia.

jejUma vez uma pessoa me explicou os jejuns de uma maneira fácil de lembrar: homem e mulher (Esther e Gedalia), branco e preto (Yom Kipur, em que nos vestimos de branco e 9 de Av em que lamentamos a destruição do Templo) e, finalmente, de curto e longo prazo (10 de Tevet, que é o mais curto de todos os jejuns, já que ocorre no inverno e 17 de Tamuz, o mais longo de todos os jejuns que começam ao amanhecer, uma vez que é no verão).

Uma pergunta que certamente muitos de vocês têm feito é, por que os nossos sábios decretaram jejum em memória das tragédias, qual é o propósito destes e por que não outras formas de memória.

O Rambam (Maimônides), Rabi Moshe Ben Maimon, explica que o propósito do jejum não é o jejum em si, mas sim de a pessoa fazer Teshuvah e se arrepender de seus atos errados. Não apenas isso, mas todo aquele que jejua e não para para fazer um balanço da vida, não cumpriu com o propósito do jejum.

Através da conexão com o pecado de nossos antepassados, uma vez que todo jejum é uma situação diferente em que nossos antepassados pecaram, nos conectamos com nossos próprios erros e fazemos Teshuvá sobre eles.

No “Sefer Hatodaá”, do rabino Eliahu Ki Tov, este explica que o jejum é apenas um meio para alcançar o fim, que é o arrependimento e a correção dos atos. Como prova ele traz as palavras do Talmude no Tratado de Taanit, que diz que na época da Mishná, quando fixavam um jejum público, especialmente quando não caia chuva, traziam a arca da Sinagoga para a rua da cidade,colocavam cinzas em cima (símbolo de luto) e o Nasi (líder) e Av Beit Din (Juiz Supremo), os dois cargos mais importantes do Sinédrio, diziam algumas palavras. O mais velho dizia: Irmãos, não está dito sobre os homens de Ninvé que D’us viu seu luto e seu jejum, masn sim que D’us viu suas ações, porque se arrependeram e voltaram para o caminho certo.

Isso significa que o mesmo trecho do Talmud entende no livro de Jonas, que luto e o jejum da população de Ninvé não foi o que fez com que D’us os perdoasse, mas foi este luto que os ajudou a realizar uma avaliação geral de suas ações, se arrepender das negativas e voltar para o caminho certo.

Mesmo assim, a sensação de fome, o fato de nos sentirmos vazios, é o que nos ajuda a refletir. Fome ajuda-nos a sentir uma sensação de perda e de dano.

O Rebe Nachman escreve que a maioria dos nossos pecados acontece por causa que no momento do pecado acreditamos que não temos a força para superá-los. No entanto, o jejum, nos permite perceber que temos uma força interior muito forte que nos permite ficar sem comer o dia todo, e quando descobrimos essa força interior, criamos coragem para enfrentar outros desafios.

Existe uma grande relação entre os sacrifícios e o jejum. Em muitos livros judaicos de reza contém uma oração especial que é lida no final da principal reza (Amidah ou Shmona Esre) no dia de jejum. Esta diz:

“Soberano de todos os mundos, você sabe que nos tempos do Templo quem pecava trazia um sacrifício que deste sacrificavam apenas a gordura e o sangue, e por sua grande misericórdia Você os expiava. E agora eu jejuei, e meu sangue e minha gordura diminuíram. Seja Tua vontade que ao diminuir minha gordura e o meu sangue é como se eu tivesse os sacrificado no altar, e sejam assim aceitos”.

Ou seja, é dizer que assim como nos dias do Templo eram entregues sacrifícios para alcançar a expiação, da mesma forma nos jejuamos, e através do jejum nos arrependemos de nossas ações e esperamos que HaKadosh Baruch Hu nos expie com Sua grande misericórdia.

Por último, é sabido que cada palavra em hebraico tem uma raiz e com a mesma é possível compreender uma mensagem profunda. Uma das palavras hebraicas para jejum é Taanit. A raiz é um análogo, que em hebraico significa “respondeu”.

Ou seja, aquele que jejua da maneira correta, aproveitando o dia para fazer uma avaliação pessoal e assim voltar para o caminho certo, suas orações são respondidas, e seu jejum é aceito como se fosse apresentado como um sacrifício no altar, expiando, assim, todos os seus pecados .

Pessach ou Chag Hamatzot?

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Lembro de minha infância que, antes de cada feriado, estudávamos sobre o mesmo na escola. O que sempre me impressionou é o fato de cada um deles ter vários nomes, alguns relacionados com o evento histórico e outros em relação à agricultura. Fecho meus olhos e posso ver a lista de nomes no quadro, escrita pela Morá (professora).

Para o feriado da Páscoa Judaica, nos ensinaram quatro nomes: Chag HaPessach, Chag Hamatzot, Chag Haaviv (Festa da Primavera), Chag Hacheirut (Festa da Liberdade). No entanto, de forma grande e profunda, percebe-se que os dois primeiros são os principais e também, os mais incomuns!Principalmente porque Chag HaPessach não se refere historicamente ao feriado que celebra-se hoje!

Na Torá, o feriado que chamamos de Pessach, é conhecido como Chag Hamatzot, não como sinônimo mas sim como nome único, e assim está escrito: “E no dia quinze deste mês (Nisan), é Chag Hamatzot em honra à D’us, sete dias você deve comer matzot”(Vayicrá 23:6). A razão por que se come matzot durante sete dias é duplo. Por um lado (como o professor nos diz desde o jardim de infância), o povo judeu teve que sair rapidamente do Egito e não teve tempo para esperar que o pão fermentasse, essa precipitação durou sete dias, quando, no sétimo dia, os egípcios se afogaram no mar enquanto perseguiam o povo de Israel, que, cruzou triunfante o mar com a água aberta e o nome de D’us foi ostentado por todo o mundo.

Assim também consta na Torá que a matzá é o pão da aflição, lembrando os judeus do sofrimento que viveram no Egito e da escravidão amarga que sofreram. O fermento representa o orgulho, ele infla o pão assim como orgulho infla nossos corações. A Matzá é um pão sem fermento, para lembrar a humilhação que tiveram como escravos no Egito, sem orgulho nenhum, nem pessoal, já que davam aos homens tarefas de mulheres e às mulheres tarefas de homens, nem nacional, já que o povo estava escravizado e não era livre para agir de acordo com suas próprias leis (é importante lembrar que a Torá ainda não havia sido entregue então não havia ainda o conceito de Povo de Israel e sim filhos de Israel).

O nome Pessach, porém, aparece em um contexto diferente. E assim, a Torá nos diz: “E no primeiro mês (Nisan), no dia catorze do mês, é Pessach para Hashem” (Bamidbar 28:16), e em seguida, acrescenta: “E partiram de Ramsés no dia quinze do primeiro mês (Nisan), um dia depois de Pessach os filhos de Israel saíram às pressas, sob a vista de todos os egípcios”.(Bamidbar 33:3).

Isto é, no contexto da Torah, o Pessach é no dia 14 de Nisan, o dia em que o sacrifício foi feito no Egito, e dia que, quando o esplendor do Grande Templo de Jerusalém estava de pé, era realizado o sacrifício de Pessach. Parece então que 14 de Nisan não é somente Erev Pessach (Véspera da Festa) mas também um feriado em si.

Ao longo dos tempos, a festa foi renomeada de Pessach na Halacha e assim é conhecida por todos hoje. O tsadic (justo) Rabbi Levi Yitschac de Berditchev explica esta mudança de nomes da seguinte forma: logo após o pecado do Bezerro de Ouro ser perdoado, Moisés pede a D’us para “vê-Lo” e nossos sábios interpretam que pediu para conhecer os seus caminhos, D’us responde que ele poderá ver apenas Sua parte de trás e não o seu rosto (claro que isso é tudo uma metáfora, pois D’us não tem corpo). Assim passa Hashem por Moisés dizendo os 13 atributos de misericórdia, que recitamos quando queremos receber o perdão de D’us, no dia do Yom Kippur.

Conta a tradição que Moisés viu o nó do Tefilin (Tefilactérios) da cabeça de D’us. Ensinando-nos que, assim como o povo de Israel coloca o Tefilin aonde está escrito “Shema Israel”, mostrando o nosso amor por D’us e dizendo que Este é um, D’us tem no seu Tefilin os dizeres “quem é como o meu povo de Israel”, mostrando seu amor pelo seu povo, seu primogênito.

Explica Rabi Levi Yitschac de Berditchev que, assim como com o tefilin, o mesmo ocorre com o nome do feriado de Pessach. D’us o chama de Chag Hamatzot, elogiando a fé dos filhos de Israel, quando eles correram para fora do Egito mesmo sem as disposições necessárias para sobreviver no deserto, enquanto o povo de Israel chama de Chag HaPessach, louvando a D’us que saltou (Passach em hebraico) pelas casas de Israel na praga dos primogênitos e assim os salvou.

Queira D’us que nos encontre nesta festa cheios de Emunah (fé), como aquele primeiro Pessach no Egito e graças a mesma sejamos merecedores da redenção rapidamente e ver cumprida a profecia de Isaías “Nenhuma nação levantará a espada uma contra a outra, nem aprenderão mais a guerra”!

Pessach Kasher Ve Sameach!

A Hagadá – Beleza e Arte de uma Narrativa através dos Tempos

“E contarás ao teu filho…”

É interessante observar como a maneira de cumprir o mandamen­to de narrar um mesmo episódio – o Êxodo do Egito – Vehigadetá Lebinchá Bayom Hahú… (“E contarás a teu filho naquele dia…”), geração após geração, evoluiu, se adaptou, incorporou novos ele­mentos e versões, e principalmente, serviu de forma ímpar para manter viva uma das características básicas do povo judeu: sua imperativa missão de preservar a memória de seu passado, além de servir de ins­piração à criatividade artística de seus escribas, ilustradores e editores, como poucos livros o fizeram.

A Hagadá é uma de nossas mais antigas obras litúrgicas. Seu nome deriva da palavra hebraica “contar”.

Quando nos conscientizamos das muitas gerações de judeus que, em todos os países e continentes, em todas as línguas e culturas celebram o Seder como nós o fazemos, a nossa própria comemoração torna-se muito mais do que uma reunião familiar festiva, mas uma vivência da História Judaica.

A intenção da Hagadá é servir como base para a discussão do passado e das aspirações do futuro. E assim, condensando tempo e espaço para preservar a experiência judaica acu­mulada e poder revivê-la anualmente, a Hagadá atravessa os séculos.

 

 

Colocando “ordem” na festa – a Hagadá como guia do Seder

A Hagadá original foi concebida durante os tumultuosos aconteci­mentos do primeiro século da Era Comum. Foi produto de uma geração arrancada de suas raízes e quebrada em suas fileiras. Até então, a natureza do Judaísmo havia sido clara. Era um sistema sacrificatório cujas festividades religiosas giravam em torno de uma série de atos de cultos, desempenha­dos pela classe sacerdotal dentro do recinto do Templo de Jerusalém. Os peregrinos, em Jerusalém, passavam a véspera de Pessach consumindo o cordeiro pascal que haviam sacrifica­do no Templo na tarde daquele dia e narravam a história do Êxodo numa noite que parece ter sido celebra­da sem estruturação de uma ordem definida das orações.

Dois acontecimentos daquele primeiro século, porém, conspiraram para alterar este antiquíssimo padrão: o primeiro foi a destruição do Templo no ano 70 e o segundo foi a dispersão do povo em várias seitas, entre elas, o emergente Cristianismo. Diante deste quadro sentiu-se a necessi­dade de uma interpretação definitiva do Judaísmo. Esta, a Hagadá podia oferecer. Daí em diante, judeus se reuniriam anualmente para recordar seu passado, explicar o presente e planejar o futuro.

A Mishná, obra compilada por volta do século 3, já descreve o Seder de modo muito semelhante ao nosso:

O Kidush abria a celebração. As crianças formulavam perguntas a respeito da singularidade da festa. As perguntas eram respondidas com a descrição do Êxodo e um comentário ligando aquela descrição ao momento atual. Explicava-se o simbolismo do Seder. Os Salmos do Hallel (cantados originalmente pelos Levitas no Templo) eram entoados e algumas orações finais encerravam o Seder.

A Hagadá, desde esta época prema­tura, já transcendia a mera recordação do passado e tornou-se a história de mais de um período de perseguição e salvação. O Faraó da história personi­ficava opressores recentes e a salvação arquétipa dos egípcios trazia o eco de cada uma das libertações de Israel pelos séculos afora. Esta condensação da história em uma noite comemorativa é percebi­da na interpretação dada aos quatro copos de vinho, que se relacionam com diferentes atos da redenção.

Poucas obras litúrgicas judaicas alcançaram o nível de criatividade e beleza artística, obtido pela Hagadá através dos séculos. Seu conteúdo e sua função permitiram aos artistas, ilustra­dores e pintores uma liberdade ímpar para desempenhar sua arte e imagina­ção. E também, neste aspecto, a diver­sidade das diásporas e as diversas ten­dências artísticas do meio circundante, de cada período da História, estão pre­sentes nas Hagadot manuscritas e im­pressas, desde quando estas passaram a incorporar elementos ilustrativos, a partir da criação da primeira Hagadá ilustrada, em 1300 EC, a Bird´s Head Haggadah (“Hagadá cabeça de pássaro”). Assim, começaram a surgir Hagadot com elementos germânicos (asquenazis), sefaradis (ibéricos), orien­tais, renascentistas, pós-renascentistas, chegando até a modernidade da arte da ilustração contemporânea.

No século 20 surgiram novos estilos de Hagadot e o número de edições ex­clusivas floresceu havendo agora mais de 3.000 versões diferentes da Hagadá, cada uma refletindo e contando o Êxodo de acordo com os pontos de vista políticos, sociais e/ou religiosos do público-alvo a que se destina.

 

PERÍODO ANTERIOR À IMPRENSA

 

Cerca de 860 EC

Mais antiga Hagadá ainda exis­tente, é criada como parte do Sidur de Amram Gaon, líder da Yeshivá de Sura. Um fragmento deste manuscrito foi encontrado na Guenizá do Cairo.

 

Século 10 EC

Segunda mais antiga Hagadá ainda existente, é criada como parte do Sidur de Saadia Ben Yosef HaGaon, líder da Yeshivá de Sura, entre 928 e 942 EC. Seu título: Sidur Rav Saadia HaGaon. No seu texto fica claro que não há uma unifor­mização de conteúdo. Há omissões típicas do rito israelita antigo.

Século 13 EC

Criada a primeira Hagadá separada de um Sidur. Em 1300 EC surge a mais antiga Hagadá ilustrada, de rito as­quenazi, a Bird’s Head Haggadah (“Hagadá cabeça de pássaro”), assim chamada, pois vários personagens têm cabeça de pássaro, provavelmen­te devido ao mandamento da Torá de não adorar imagens humanas. É a primeira Hagadá a introduzir o co­zimento da Matzá. Encontra-se no Museu de Israel, em Jerusalém.

 

A HAGADÁ DE SARAJEVO (1350-1370 EC)

Encomendado para ser um presente de casamento, o manuscrito é de um requinte extraordinário, tendo sido confeccionado para caber na palma da mão. É composto por 109 páginas de pergaminho branco, cuidadosamente manuscritas e decoradas com ilumi­nuras em ouro e bronze e cores vivas, como vermelho e azul. Produzida de acordo com as tradições sefaradis, em estilo gótico-italiano predominante à época, na Catalunha, a Hagadá contém o brasão do Reino de Aragão.

O início da impressão de Hagadot foi lento. No século 16 foram editadas apenas 25 edições. Este número cresceu para 37 no século 17 e para 234 no século 18. No século 19 foram 1.269. Entre 1900 e 1960 já haviam sido impressas 1.100 edições.
História

Em 1492, com a expulsão dos judeus da Espanha, iniciou-se a odisséia dos judeus sefaradis em busca de um novo lar. A Hagadá também compartilhou este destino. Esteve na Itália, em Dubrovnik e, finalmente, no início do séc. XVI chegou a Sarajevo, onde permaneceu até a atualidade, apesar de todos os percalços.

O século 20 foi o mais conturbado na história do manuscrito. Em abril de 1941, quando os nazistas entraram em Sarajevo, um general alemão foi ao Museu Nacional de Sarajevo para “confiscar” a obra. O general ordenou uma busca no Museu, mas nada foi encontrado. A Hagadá já estava bem longe, escondida por um professor mu­çulmano, nas montanhas da Bósnia.

Durante a guerra civil de 1992 a 1995, na Bósnia-Herzegovina, o ma­nuscrito novamente desapareceu, foi escondido por um funcionário muçul­mano do Museu até o final da guerra.

Durante todo o século 20, a Hagadá só foi exposta em três ocasiões: em 1965, 1988 e 1995.

É considerada por especialistas como um dos mais valiosos objetos sacros judaicos.

 

PERÍODO PÓS-IMPRENSA

 

1482 EC

Primeira provável Hagadá impressa (apenas texto), em Guadalajara, na Espanha. Seu título: Hagadot Shel Pessach e seu autor Shlomo Ben Moshe Alkabez. Existe apenas uma cópia, na Biblioteca Nacional Universitária, em Jerusalém. O ano de 1482 é mera espe­culação, já que o impresso não contém data e local de publicação.

 

1486 EC

Primeira Hagadá impressa com­provada. Possuía apenas texto e foi impressa na gráfica da família Soncino, Itália. É de rito Germânico e o primeiro de dois volumes. O outro é um Machzor chamado Sidorello em italiano, de rito judaico romano (italiano).

 

1505 EC

Criada por Don Isaac Abravanel a primeira Hagadá com comentários, in­titulada Zevach Pessach, impressa em Constantinopla, atual Istambul. Esta Hagadá desde então já foi reimpressa em inglês mais de cem vezes.

 

1526-1527

Hagadá de Praga, primeira a ser impressa com texto e ilustrações, ainda existente. Usa xilogravuras para criar as ilustrações. Foi ilustrada e impressa por Gershon Ben Shlomó HaCohen, em Praga em 30/01/1526. É um marco das Hagadot impressas, com belas ilustrações, que captam com perfeição o sentimento do texto e serviu como protótipo para edições posteriores. Nela aparece pela primeira vez numa Hagadá impressa, a música de Pessach Adir Hu.

 

1545

A Hagadá Zevach Pessach de Don Isaac Abravanel é novamente editada, a primeira a ser impressa em Veneza. Foi impressa por um cristão, Marco Antonio Guistiani, já que judeus estavam proibi­dos de possuir gráficas próprias.

 

1561

Impressa a Hagadá de Mantua, Itália, usando o texto da Hagadá de Praga com mais ilustrações, pelo cristão Giácomo Eufinelli e supervisio­nada por Isaac Ben Shlomó Bassan. O tipo de expressão artística difere da de Praga (germânico), e inclui ilustrações nas margens, refletindo o período do Renascimento italiano.

 

1609

Em Veneza é impressa a primeira Hagadá contendo as Dez Pragas, pelo cristão Giovanni da Gara, auxiliado por Israel Daniel Zifroni. Chama-se Seder Hagadá Shel Pessach e é conhecidda como a Hagadá de Veneza de 1609. Surgiu com traduções simultâneas para o judeu-italiano, ladino e ídiche, que eram as línguas das comunidades judaicas de Veneza à época.

 

1697 e 1712

Edições da Hagadá de Amsterdam são impressas. É a primeira a usar ilus­trações em cobre e a incluir o mapa de Canaã com a rota do Êxodo, também o primeiro mapa impresso em hebraico. As ilustrações eram criações empres­tadas de um artista cristão, Mathaeus Merian da Basiléia, famoso em toda a Europa por suas ilustrações do Antigo e Novo Testamento. Esta Hagadá tornou-se muito popular entre as comunidades do sul da Europa e foi muitas vezes imitada.

A partir da segunda metade do século 17, com o surgimento de novos segmentos religiosos no judaísmo, multiplicam-se edições e versões de Hagadot nos ritos Reformista, Conservativo, Reconstrucionista, Hu-manista e até mesmo seculares.

Porém até o século 20 a maioria das Hagadot era baseada nas Hagadot de Praga (1526-1527), Mantua (1560), Veneza (1609) e Amsterdam(1695).

 
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Lançamento da Shavei Israel

Hagadá de Pêssach

De acordo com o rito dos Sábios do Marrocos.

Inclui o “BibhiluIstsánu Mimitsráim” –

Elaborada por David Salgado (Elamleh)