O DIREITO DE RETORNO (PARTE 3)

Na semana passada, publicámos uma nova parte da entrevista concedida pelo presidente e fundador da Shavei Israel, Michael Freund, à revista פנימה עלמה sobre os descendentes dos convertidos à força pela Inquisição. Aqui está a continuação deste artigo.

Um novo mundo

O México tornou-se o lar de muitos anussim que iam parar às costas do Novo Mundo na esperança de ficarem longe da Inquisição. Miriam, ou, como era conhecida anteriormente, Cindy Montiel Tepoz, é membro de uma destas famílias. Há apenas dois anos, aos 42 de idade, Miriam imigrou para Israel com o seu marido, um antigo pastor, e a sua filha de sete anos, Leah. Concluíram o processo de conversão recentemente, retornando oficialmente ao judaísmo. — Vimos de uma família muito coesa e muitos deles já se converteram. Alguns deles estão há muito tempo em Israel — diz Miriam. A sua avó materna chamava-se Salomé, uma forma do nome Shlomit, e o seu sobrenome era Del Toro Valencia. Linhagens de séculos anteriores mostram que esses nomes são característicos de Anussim. — A minha avó veio para o México, de Espanha, com os pais, em 1912, quando era bebé. Casou com o meu avô, chamado Roberto Tapuz Mani. Mani também é um nome associado a anussim. Juntos, criaram os seus 11 filhos. A casa da minha avó não tinha estátuas nem imagens, o que é muito raro no México, onde todas as casas têm estátuas e imagens de variadíssimos santos cristãos. Ela criou todos os filhos na fé em um D’us único. Quando eu tinha sete anos, a avó Salomé ensinou-nos a rezar, enfatizando que havia apenas um D’us em quem deveríamos acreditar. Todas essas práticas não tinham explicação.

Que outras práticas estranhas despertaram a sua curiosidade?

– A casa da minha avó tinha uma panela especial para o leite, que era para ser usada só para cozinhar os produtos lácteos. Todos os outros utensílios da cozinha eram destinados à carne. Nós não tínhamos ouvido nada nem sabíamos nada sobre o mundo kosher judaico. Sabíamos que o dia de descanso não era o domingo, mas que começava na sexta-feira ao pôr do sol. A avó também evitava celebrar os feriados locais e religiosos.

O pai de Miriam veio de uma família católica, mas a sua mãe, que depois de um tempo também se converteu ao judaísmo, educou os filhos no monoteísmo e não nos valores cristãos. – O meu pai não interferiu na educação que a minha mãe nos dava, apesar de a sua família nunca nos ter aceite ou entendido. Quando criança, eu também não entendia o cristianismo: Por que devo procurar o filho quando posso falar diretamente com o Pai? Sempre senti que não havia ali nada que satisfizesse a minha necessidade espiritual. Só encontrei significado mais tarde, na Torá.

Quando a sua avó faleceu, surgiu um vazio emocional e espiritual que levou a um processo de busca para grande parte da família. – Sempre houve uma busca espiritual na família, e sempre houve a questão do porquê  de não nos comportamos como cristãos, como todos os que nos rodeavam. Sabíamos que isso vinha da avó, mas não sabíamos porquê nem qual a fonte de todas essas práticas. De onde viemos, quase não existe um discurso assim. O cristianismo no México é muito dominante e não havia respostas para as perguntas que fazíamos. Não nos identificávamos com a atmosfera e a cultura local e, por outro lado, não tínhamos bases para os princípios em que fomos educados.

Quando Miriam tinha 12 anos, aconteceu a primeira mudança na vida da família: – A minha tia e o seu marido começaram a estudar judaísmo. Converteram-se há 35 anos e imigraram imediatamente para Israel. Através deles, fui exposta ao judaísmo, e a minha fé começou a tornar-se cada vez mais clara. Sempre quis entender por que temos práticas familiares diferentes e, de repente, eles vieram com um conhecimento claro e ensinaram-nos exatamente o que é o sábado e os 13 princípios de fé de Maimonides. Durante esse período, tudo começou a tornar-se mais claro e mais lógico para mim.

Da igreja ao Beit Midrash

Miriam conheceu o seu marido, Daniel Fuentes, de 45 anos, no seu trabalho. Daniel, então conhecido como Federico Fernando, era um cristão devoto, e foi até pastor. Casaram há cerca de nove anos, enquanto Miriam continuava a estudar judaísmo. Quatro anos após o casamento, em 2015, o seu marido também começou a estudar Torá, por sua própria vontade. – Ele já sabia o que era o sábado e conhecia o judaísmo, mas de longe.

Com o passar do tempo, os dois aprenderam a rezar e a guardar o Shabat e a alimentação kosher. – Poderíamos ter ficado no México. Eu trabalhava como advogada num local conhecido e estávamos em boa situação financeira. Mas quanto mais aprendemos, mais percebemos que não poderíamos realizar todo o nosso potencial lá. A nossa vida no México era boa, mas morar em Israel, e, especialmente, em Jerusalém, está a preencher-me e a fazer-me sentir como se tivesse voltado para casa. O judaísmo deu-me significado. Embora eu já conhecesse o meu marido antes e houvesse amor entre nós, o nosso relacionamento se tornou muito mais significativo depois de termos começado a estudar. A consciência da necessidade de manter a paz no lar muda a sua vida. Você vê a mudança na atmosfera em casa: Há mais santidade e calma. Também viemos para Israel por causa da educação judaica para a nossa filha, admite Miriam. – Já há 20 anos percebi que o judaísmo era a verdade, mas não avancei.

Apenas há dois meses, Miriam, Daniel e a sua filha Leah concluíram finalmente o processo de conversão. Eles agora vivem em Jerusalém e estão a aguardar receber o status oficial de imigração, para poderem estabelecer-se permanentemente no país. A organização Shavei Israel ajudou-os ao longo do caminho. – Tenho muita gratidão pelas pessoas da organização que nos apoiaram, – diz Miriam animadamente.

Saber que é Bnei Anussim influenciou-a?

– Saber que tenho raízes judaicas fortalece ainda mais a minha conexão com o judaísmo. Fortalece-me na adoração a D’us e no conhecimento de que Moisés é verdadeiro e de que os seus ensinamentos são verdadeiros. O facto de a nossa família ter de alguma forma conseguido transmitir tantos costumes antigos, originários do sofrimento da Inquisição, sublinha o poder do espírito judaico: A sarça ardente e a falta de comida, e a dedicação dos judeus nas condições mais difíceis.

Quais os principais desafios que enfrenta hoje?

– O idioma. Embora desejemos muito aprender hebraico, não é simples. Obviamente, há também a situação económica, que não pode ser ignorada. Israel é um país muito mais caro que o México, e ainda não temos ingressos. A minha principal preocupação é a nossa Leah, que ela se adapte facilmente à nova situação.

– Muitas vezes sinto-me perdida, – admite Miriam, – mas, ao mesmo tempo, sei que todos os desafios são temporários e que a terra de Israel é comprada com sofrimento, e com a ajuda de D’us tempos mais fáceis virão. Saber que a minha família e eu estamos na Terra Santa, que fazemos parte de uma comunidade, que tenho um lugar para rezar, que tudo ao meu redor é kosher e que há aqui pessoas boas, isso é uma bênção para mim. Agradeço a D’us que me deu a oportunidade de dar este passo.

O DIREITO DE RETORNO (PARTE 2)

Na semana passada, publicámos a primeira parte da entrevista dada pelo presidente e fundador da Shavei Israel, Michael Freund, à revista פנימה עלמה, sobre os descendentes dos convertidos à força pela Inquisição. Veja a segunda parte deste artigo:

Aconteceu há 500 anos. As pessoas estão a começar a procurar as suas raízes agora?

– Nos últimos 20 anos, assistimos a um crescente fenómeno de descendentes de anussim que procuram retornar às nossas raízes. Podemos ver isso desde Portugal e Espanha até ao Brasil ou ao Peru. Atravessa setores e estratos socioeconómicos.

Como explica o fenómeno?

– É difícil explicá-lo racionalmente. Abarbanel, que viveu na época da expulsão e foi ministro das Finanças do rei de Espanha, descreve a expulsão de Espanha no seu comentário ao livro de Deuteronómio e também de Isaías, e escreve que, no final dos dias, os anussim retornarão ao povo de Israel. Abarbanel escreve que, inicialmente, apenas retornarão nos seus corações, porque terão medo de se revelar como judeus, mas chegará o momento em que dirão abertamente «Queremos voltar». Penso que estamos a viver esse momento. As pessoas estão constantemente a aproximar-se de nós, contando-nos sobre o  seu passado familiar e as suas tradições judaicas.

Existem costumes que caracterizam os descendentes de anussim?

– Muitos se recordam das suas avós irem na sexta-feira até à cave, acenderem duas velas e dizerem algumas palavras que provavelmente nem entendiam. Conheci um professor universitário do norte de Portugal que  me disse que, quando era criança, os seus pais o proibiam de sair de casa à noite e contar estrelas porque era perigoso, e que isso era uma prática antiga da família. Os anussim saíam e contavam estrelas no céu para saber se o Shabat tinha acabado. Em algum momento, alguns deles foram capturados pela Inquisição. É por isso que a sua família adotou esse costume.

Há alguns anos conheci um diplomata da embaixada brasileira em Israel. Contou-me que vinha de uma família de anussim do norte do Brasil, onde muitas famílias tinham uma mesa de jantar com uma gaveta escondida no lugar do chefe de família. Nessa gaveta havia sempre um prato de carne de porco, de modo que, se um dos vizinhos viesse visitá-los de repente, tiravam imediatamente o prato com a carne de porco e colocavam-no no centro da mesa, para que ninguém desconfiasse que eles eram ainda judeus ou que tinham costumes judaicos.

Depois dele me contar isso, visitei o norte do Brasil, e pedi a quem me acompanhava que me levasse a uma loja de antiguidades, onde vi com os meus próprios olhos aquelas mesas com a gaveta oculta –, conta Freund com entusiasmo. – Até hoje existem famílias que não comem carne e leite juntos. Em alguns lugares, Purim, ou, como eles o chamavam, «Festival de Santa Esterica», tornou-se um dia festivo central para os anussim. Sentiam-se solidários com a figura de Ester, que também foi mantida à força no palácio do rei Achashverosh. Durante o festival as mulheres jejuavam, acendiam velas em homenagem à santa fictícia e preparavam com as suas filhas pratos kosher para o banquete de Purim.

O fechar de um ciclo Histórico

Nos séculos XVI e XVII, os anussim começaram a fugir também para Amsterdão. Nesse período, houve uma atitude muito positiva em relação aos anussim que queriam regressar ao judaísmo, e a comunidade de Amsterdão até imprimiu livros de oração para eles, traduzidos para o português. Há 200 anos, era muito mais fácil provar o judaísmo dos anussim. Hoje, 500 anos depois da expulsão e das conversões forçadas, a prova é cada vez mais difícil, e a maioria dos descendentes que desejam retornar ao judaísmo tem que ser convertida por um tribunal rabínico. – É uma situação empolgante –, partilha Freund, acrescentando que, em muitas dessas conversões, – quase se pode sentir a presença dos seus antepassados, a assistirem do céu e a ficarem felizes com o facto de, passados 500 anos, o ciclo histórico estar a ser fechado e os seus descendentes retornarem ao povo de Israel.

Hoje, muitos países têm comunidades inteiras de Bnei Anussim. Só na Colômbia, por exemplo, existem doze dessas comunidades. Cada comunidade inclui uma sinagoga, mikve, e, às vezes, até organizações específicas para a educação das crianças. Muitos dos descendentes de anussim tentam integrar-se nas comunidades judaicas existentes, que muitas vezes hesitam em aceitá-los. Mas em vez de baixarem os braços e desistirem, eles decidem criar comunidades independentes e converterem-se. Alguns querem imigrar para Israel e alguns preferem permanecer onde estão, a viver uma vida religiosa judaica.

– Muitas vezes as pessoas perguntam-se sobre qual é o seu motivo –, lembra Freund. – Que talvez eles estejam apenas à procura de fugir do seu país e queiram ir para o Estado de Israel? Mas essas pessoas estão a esquecer que não é fácil passar por uma conversão ortodoxa, com todos os requisitos que esta exige. Quando vemos os esforços que algumas destas pessoas fazem ao longo da vida para levar um estilo de vida judaico religioso, sem recursos e sem o apoio de uma comunidade judaica, apercebemo-nos de que são sinceros.

– Em El Salvador, onde há salários de cerca de um dólar por dia, há pessoas que economizaram de forma independente para comprar tefilin kosher, que custam várias centenas de shekels. Conseguir obter tefilin em tais condições é dedicação. Prevemos uma revolução espiritual que está a chegar, e está a crescer em intensidade. Cada vez mais pessoas estão a encontrar a verdade no judaísmo, o que é algo que não deveria assustar-nos, mas sim, pelo contrário, inspirar-nos.

Não deixem o Ladino morrer!

Pensando racionalmente, o legado da judiaria medieval espanhola já deveria ter desaparecido há muito tempo. A comunidade judaica espanhola, a maior e mais influente da Europa daquele tempo, foi expulsa em 1492 e dispersa aos quatro ventos, distribuindo-se ao longo do Médio Oriente, dos Balcãs e do Norte de África. Poucas culturas podem ter esperança de sobreviver a um trauma coletivo tão catastrófico, tendo sido os seus membros obrigados a reconstruir as suas vidas em terras estrangeiras.

No entanto, e contra todas as probabilidades, as tradições culturais linguísticas e religiosas únicas dos judeus espanhóis continuam vivas, e Israel e o povo judaico deveriam fazer mais para proteger e desenvolver esta parte tão importante do património do nosso povo.

Pude vislumbrar um pouco deste valioso legado no seder deste ano, quando me juntei à minha nora e à sua família, parte da qual é de origem judaico-turca, para celebrar a narração  anual do êxodo do Egito.

Subitamente, quase sem aviso, fui exposto a novas canções, diferentes melodias e até excertos de leitura em ladino, ou judaico-espanhol, um dialeto emotivo onde se misturam termos em espanhol antigo, hebraico e aramaico.

Tendo crescido com os costumes e melodias asquenazitas habituais, foi enriquecedor poder conhecer outras tradições judaicas, vividas com brio, e tão autênticas e legítimas como as nossas. Com um pouco de imaginação, podemos até visualizar um grupo de judeus espanhóis exilados sentados à mesa do seder em Izmir, Nápoles ou Serajevo nos séculos XVI ou XVII, a entoar algumas das mesmas melodias. A história do Ladino reflete de muitas maneiras a história dos últimos seis séculos do povo judaico, que sobreviveu à expulsão, à assimilação e ao genocídio.

Tal como o Ídiche, a língua franca de muitos judeus asquenazitas ao longo de muitas gerações, o Ladino serviu como tela cultural, uma tela utilizada por muitos judeus sefarditas para compor poesia, dissertar sobre a Torá e  debater questões de importância cultural e mística, bem como para divulgar investigações nos domínios da História, da Matemática ou da Astronomia.

Talvez a mais conhecida obra escrita em ladino seja o Meam Loez, um comentário sobre a Bíblia que combina exposições talmúdicas, midráshicas e haláchicas, iniciada pelo rabino Yaakov Culi em 1730 em Constantinopla e continuada por outros depois da sua morte. A obra, que está traduzida ao hebraico e ao inglês [e também ao espanhol], tem ganho cada vez mais popularidade, tanto entre sefarditas como entre asquenazitas.

Durante centenas de anos, até ao Holocausto, o ladino era a primeira língua para muitos judeus sefarditas na região do Mediterrâneo. Mas o assassinato de grandes números de judeus falantes de ladino, em locais tais como a Grécia e a Bósnia, por parte dos alemães e seus cúmplices na época da 2ª Guerra Mundial, colocou em perigo o bem-estar e o futuro deste idioma.

As estatísticas sobre o número de falantes de ladino que existem no mundo hoje em dia variam entre apenas dezenas de milhares a duzentas mil. Mas como a NBC News comentou há dois meses numa reportagem, “O que é indiscutível é que a maior parte dos falantes nativos de ladino são pessoas mais velhas, e a maior parte dos seus filhos cresceu a falar outra língua”. Por outras palavras, a riqueza desta língua e cultura está em perigo de extinção se não forem empregues maiores esforços para a preservar.

Felizmente, estão a ser postas em prática algumas medidas para impedir que isto aconteça. Este ano, pela segunda vez, teve lugar no Centro de História Judaica, em Nova Iorque, o Dia Internacional do Ladino, um dia anual organizado pela Federação Sefardita Americana e outras entidades, que incluiu um festival dedicado à música e cultura ladinas. Também houve eventos similares em outras cidades.

O Ministério da Cultura Israelita tem a Autoridade Nacional para a Cultura Ladina, estabelecida pelo Knesset

em 1996, que concede bolsas para encorajar os estudantes a aprender a língua, patrocina traduções e produz livros e CDs com histórias e canções em ladino.

Alguns especialistas, tais como o Dr. Eliezer Papo, da universidade de Ben-Gurion, e o Prof. David Blunis, que lidera o programa de estudos ladinos na Universidade Hebraica de Jerusalém, têm estado a trabalhar há anos para aumentar o conhecimento da população geral acerca do ladino, dando cursos e escrevendo artigos e livros.

E os alunos mais corajosos até podem encontrar vídeos com aulas para aprender ladino no YouTube!

Mas por várias razões, este idioma não tem conseguido a atenção merecida, recebendo menos recursos e fundos que outros programas similares que têm por objetivo reviver o Ídiche. Chegou a hora de mudarmos isto e de a cultura e tradições sefarditas e ladinas serem salvas e fortalecidas com o mesmo ardor investido na preservação do património cultural asquenazita.

As organizações judaicas norte-americanas, em conjunto com o governo israelita, deveriam estar a fazer mais para manter o ladino e a sua cultura vivos e de boa saúde – porque o ladino e tudo o que ele engloba são parte integrante da longa e sinuosa passagem do nosso povo pelo palco da História. Permitir que ele desapareça ou se transforme num fóssil seria uma afronta à história judaica e uma perda cultural insubstituível.

Há mais de sete décadas, os nazis desferiram sobre o Ladino e a sua cultura um golpe quase mortal. Através da indiferença e da apatia, corremos o risco de que o golpe se revele fatal, o que não podemos permitir que aconteça. 

Viagem à Nápoles Judaica Perdida

Viagem à Nápoles perdida

Passados quase 500 anos, descendentes de judeus marranos a viver no sul da Itália despertaram. Enquanto muitos aderiram à sua identidade cristã expressando apenas uma solidariedade simbólica com as suas raízes, outros procuram o retorno a Israel.

Ariel Bolstein

Este artigo foi originalmente publicado em hebraico na página de internet Israel Hayom.

Caminhar com Chiro d’Avino pelo centro de Nápoles é muito mais do que apenas ver as vistas. Como qualquer bom napolitano, Chiro conhece bem o labirinto de ruas e passagens estreitas, conhece cada casa e cada pedra, e também conhece a história da sua amada cidade, algo que não ocorre com o resto dos habitantes. Ao contrário da maioria da população, Chiro consegue mergulhar nas profundezas do passado e encontrar as camadas perdidas da Nápoles judaica. Com a sua dedicação, é capaz de “remover” os edifícios das igrejas ou ruínas contemporâneas e transporta-nos no tempo, na nossa imaginação, até às sinagogas que existiam naqueles locais há mais de 500 anos.

– Aqui era a Rua dos Judeus – Aponta ele para um muro alto que bloqueia a passagem. – E aqui viviam os marranos, os judeus que foram obrigados a converterem-se e a aceitar o cristianismo, mas que em segredo continuavam a viver uma vida judaica –

D’Avino, que usa uma estrela de David enorme ao peito, descende de marranos. De facto, o seu nome de família faz suspeitar imediatamente das suas raízes judaicas, já que se trata da palavra hebraica avinu, um cognome de Abraham. Contou-me com orgulho que este nome de família provém de judeus sefarditas do reino de Aragão, que também se deslocaram para França no século XIII. Segundo ele, o seu nome de família era muito comum na área de Soma e Zubiana, onde vivia uma comunidade judaica cujos cidadãos aparentemente foram forçados a converterem-se ao cristianismo em 1515. De acordo com os registos da Inquisição espanhola, quem quer que tivesse um nome judaico ou similar a judaico, era considerado “de sangue judaico”. Hoje em dia, em muitas caixas de correio de Nápoles podemos encontrar outros nomes de família típicos dos marranos: Simauna, Escallone, Cavaliera e outros. – Todos de origem judaica.

Naqueles dias sombrios, a conversão não retirou a ameaça aos descendentes de judeus. Aos que eram suspeitos de praticarem o judaísmo às escondidas esperavam-nos a tortura e a morte. O medo da Inquisição em Espanha e no sul da Itália era forte, e por causa disso muitos judeus abandonaram os costumes dos seus antepassados. Muitas gerações passaram desde que os seus descendentes se assimilaram completamente ao contexto cristão. No entanto, acontece que nem tudo se perdeu. Em algumas famílias, a tradição judaica passou de geração em geração, escondida e talvez alterada na sua forma, mas qualquer pessoa que esteja familiarizada com a vida local reconhece o desejo de preservar as tradições, mesmo que seja apenas de modo simbólico.

– Às vezes, em conversa, os nossos avós contam-nos uma tradição familiar incomum que não coincide com o padrão da vida normal da sua cidade natal– observa o rabino Pinchas Punturello, que trabalha desde Nápoles com os Bnei Anussim do sul da Itália –Contam-me, por exemplo, sobre o costume de enterrar todos os falecidos da família num determinado canto do cemitério, não entre as outras campas, ou uma tradição familiar de não rezar na igreja principal da cidade com o resto dos vizinhos mas sim numa pequena capela remota da antiga judiaria. –

– Estas gerações já não se lembram do porquê de fazerem estas coisas, mas sabem muito bem que é o que os seus antepassados faziam. Algumas vezes, a estranha prática é rezarem e efetuarem cerimónias religiosas tais como casamentos numa igreja pequenina dedicada ao espírito santo ou a Sta. Ana –Porquê Hannah [Ana]? –pergunta o rabino Puntarello –Porque no cristianismo Hannah é considerada a avó de Jesus, e esta atribuição familiar implica o judaísmo pré-cristão.

Os judeus católicos

O mesmo se passa com a família de Chiri, que vêm de uma pequena aldeia perto de Nápoles: Uma aversão inexplicável a visitar igrejas, com exceção dos rituais necessários, estranhas tradições de alimentos proibidos, histórias das avós. Quando se deu conta de que era descendente de judeus, Chiro decidiu converter-se, mas queixa-se de que os Bnei Anussim nem sempre são tratados favoravelmente pelas comunidades judaicas organizadas. As suspeitas que recaem sobre eles são um fator de dissuasão, e, na sua opinião, o povo judeu perdeu assim um número considerável de potenciais conversos. Mas as dificuldades não o detiveram, e Chiro completou o seu processo na década de 1980, quando ainda muito poucas pessoas tinham ouvido falar do processo de retorno dos Marranos. Depois da conversão, Chiro adicionou Moisés ao seu primeiro nome, tão característico de Nápoles.

De acordo com o rabino Punturello, quase todos os dias chegam novos Bnei Anussim. –É um caso de pós-modernidade. — Explica. –A nossa época levou à procura da identidade; as pessoas estão à procura de pertença e de raízes, mas a entrada na vida moderna destruiu todas as tradições e raízes na Itália. Também assistimos diariamente às provas que preservam os remanescentes dos Marranos.

Paradoxalmente, os arquivos da Inquisição ajudam no retorno. O braço investigador da Igreja Católica era conhecido pela sua guarda meticulosa dos documentos. Já aconteceu residentes do sul da Itália sentirem que tinham raízes judaicas, converterem-se ao judaísmo, e só depois, quando procuraram cuidadosamente nos arquivos, descobrirem que um dos seus antepassados tinha sido interrogado pela Polícia do Pensamento da Igreja. O rabino Punturello traz-nos uma estatística interessante: 70% das pessoas que se convertem ao judaísmo vêm a descobrir depois que provêm de uma família de Anussim, sem que tal fosse do seu conhecimento antes do processo. Não há uma explicação racional para isto.

Ainda é difícil apresentar uma estimativa da quantidade global de Anussim em Nápoles e no sul de Itália. No entanto, é claro que este fenómeno está em expansão, apesar de que cada ano que passa nos distancia mais daqueles tempos em que ramos completos da árvore familiar judaica foram arrancados à força. E nem toda a gente que descobre o seu passado judaico pretende regressar ao povo judeu. É difícil imaginar o que se sente quando uma pessoa descobre a sua verdadeira identidade depois de tantos anos vivendo a vida como italiano católico. Por vezes, diz o rabino Puntarello, depois do entusiasmo inicial pela descoberta das raízes, os descendentes dos Marranos desaparecem.

Há também casos de pessoas que vieram ter com o rabino Puntarello e contaram-lhe histórias ficcionais com a intenção de confirmar uma origem judaica que na realidade não têm. E para além daqueles que querem deliberadamente “falsificar” o seu judaísmo, há aqueles que são influenciados pelo que ouvem falar sobre os Marranos, pelas histórias dos outros, e, em total inocência, convencem-se de que pertencem ao grupo: –A narrativa coletiva da região afeta a memória específica de cada família— explica o rabino.

No entanto, a tradição oral, mesmo aquela que não está apoiada por provas científicas ou legais, pode levar uma pessoa a embarcar na longa jornada de retorno ao seu povo. – Muitas pessoas se converteram em Nápoles— diz o rabino Puntarello, que emigrou para Israel há oito anos. Nos últimos quatro anos em que tem estado em contacto com descendentes de Marranos como emissário da Shavei Israel, teve contacto com 200 “casos verdadeiros”. Para além de Nápoles, este fenómeno está a ganhar força em outras partes do sul da Itália: Calábria, Apúlia e especialmente Sicília, e os números reais são muito mais altos. Existe uma indicação deste facto em algo muito curioso: O sistema de impostos italiano permite que cada contribuinte doe 0,8% dos seus impostos a uma das comunidades religiosas à sua escolha. Surpreendentemente, o maior número de contribuições destas taxas para a comunidade judaica foi registado no sul da Itália, onde, de acordo com os registos estabelecidos, não há judeus reconhecidos. Os números divulgados pelo governo apontam assim para a existência de um grande número de Bnei Anussim, que expressam deste modo a sua identidade reprimida.

 

Trabalho com as Raízes

A organização Shavei Israel foi fundada por Michael Freund há cerca de 15 anos, em parte para ajudar os descendentes dos Marranos espalhados pelo mundo. A atividade no sul da Itália começou quando a União de Comunidades Judaicas da Itália se encontrou com um interessante fenómeno: Os membros da união quiseram promover dias culturais em vários locais de Itália, para divulgar a cultura judaica. Foram a vários lugares do Sul, e, embora esperassem algumas dezenas de participantes, depararam-se com centenas. Para além disso, no fim dos eventos, os palestrantes recebiam um sem fim de perguntas por parte de pessoas que diziam descender de Anussim.

De acordo com Freund, este despertar mostra o tremendo poder da centelha judaica, que nenhum obstáculo do mundo (nem mesmo as ameaças e a intimidação combinadas com o fator tempo) podem extinguir. –Os seus pais foram-nos retirados à força, foram levados contra a sua vontade, pela perseguição brutal da Inquisição. Agora que os seus filhos estão a bater à nossa porta a pedir para voltar para casa, temos o dever moral, histórico e judaico de os ajudar. –

 

Israel deveria ter a iniciativa de localizar os descendentes de Marranos?

–Em primeiro lugar, chegou a hora de o Estado de Israel e o povo judeu reconhecerem este fenómeno abençoado do retorno dos Anussim ao nosso povo e de agirem em conformidade, o que, em última instância, irá fortalecer o povo judeu e o Estado de Israel. Este é o fechar de um ciclo histórico sem precedentes na História das nações. Mesmo se alguém descobrir que tem raízes judaicas e escolher permanecer católico em Nápoles, o próprio facto de saber que tem uma ligação pessoal e familiar com os judeus vai torná-lo mais amistoso e atencioso para com o povo judeu, e certamente não será antissemita ou anti-Israel. –

De facto, os descendentes de Marranos querem ser amigos do povo de Israel. –Por exemplo, na pequena aldeia de Caltanista, no centro da Sicília, há uma comunidade que se autodenomina “Bnei Ephraim”. Eles sabem que têm origens judaicas, e, apesar de continuarem a praticar a religião cristã, estão gratos ao povo de Israel. São pessoas que, antes de rezarem na igreja, cantam o HaTikvá [hino de Israel].

No entanto, na maior parte das vezes, esta situação atrai (e muito bem) Marranos que, como Chiro D’Avino, querem tornar-se de novo parte integral do povo judeu. A Shavei Israel apoia-os. Os descendentes de Marranos no sul da Itália necessitam de assistência cultural e espiritual, e a organização faz tudo o que está ao seu alcance para os guiar nesta árdua jornada. Afinal, o retorno ao judaísmo depois de 500 ou 600 anos não é mesmo nada fácil.

No entanto, de acordo com todos os envolvidos, é certamente uma experiência maravilhosa.

Praticantes tradicionais

A internet desempenha um papel central na história do despertar dos Anussim. Ao logo dos últimos cem anos, os habitantes do sul da Itália, incluindo as pessoas que suspeitavam ter origem judaica, não tinham maneira de adquirir conhecimentos sobre judaísmo. O crescimento das tecnologias de informação contribuiu muito para a solução deste problema. Qualquer pessoa interessada na história da sua família pode aprender sobre o fenómeno dos Marranos, conhecer histórias parecidas à sua e encontrar assim inspiração e força para a continuação do seu processo. Assim surgiu uma comunidade virtual de Anussim nas redes sociais, considerada o catalisador da viagem de regresso ao judaísmo dos descendentes dos Anussim.

Mas hoje em dia, a marca dos Marranos do sul da Itália não está presente só no mundo virtual. Tal como dizíamos, Chiro anda pelas ruas estreitas do centro de Nápoles e parece estar a viajar no tempo. Na área conhecida como Bacoli floresce: aqui, na segunda metade do século XVI, era o centro da vida dos Marranos; aqui desenvolveram uma identidade de grupo baseada no cumprimento das antigas tradições judaicas. Para escapar à vigilância dos padres de Nápoles, algumas famílias deixaram as áreas próximas do mar na área da colina de Pozilipo e estabeleceram-se em Bacoli, que era na altura considerada outra cidade. Os antigos edifícios não têm pressa nenhuma em revelar os segredos do passado que encerram nas suas paredes, mas já foi encontrada uma mikve numa casa e uma sinagoga noutra.

Ao mesmo tempo, aparecem mais provas. Nos registos da Igreja de Sta. Ana, à qual pertence o bairro de Bacoli, não há registos de casamentos nem de batizados de Marranos até 1704. Incrivelmente, permaneceram fiéis à sua religião original e não se submeteram às regras cristãs.

A população de Bacoli permaneceu homogénea até à 2ª Guerra Mundial. O isolamento pode ter ajudado a manter certos costumes ao longo das várias gerações. Diz-se que mantiveram a circuncisão até inícios do séc. XX, e, ainda hoje, muitas famílias com o nome Cordoba continuam a circuncidar os seus filhos. Na opinião de Chiri, trata-se de uma família de mohels, [rabinos especialistas em circuncisões] e é por isso que ainda mantêm esse costume.

Os enterros em Bacoli também eram uma prática que preservava as tradições judaicas. Os corpos eram lavados pormenorizadamente por um homem especialmente treinado que os embrulhava em lençóis. Mesmo se fossem levados para o cemitério num caixão, eram removidos e enterrados na terra apenas com a mortalha. Até a memória de outros mandamentos, tais como a pureza familiar e o cumprimento do Shabat, não desapareceram completamente do local até à era moderna. No Shabat, as mulheres de Bacoli costumavam reunir-se nos pátios a lerem a Bíblia juntas.

A tradição culinária local, tal como explicada por Chiro, não deixa nenhum judeu indiferente. Em Bacoli só se cozinhava peixes com escamas, sobretudo sardinhas e anchovas. Se alguém perguntasse porque não havia marisco, as mulheres respondiam teimosamente que era difícil de preparar e que exigia muito tempo. Esta explicação não convencia ninguém, e a explicação que liga este costume com as regras de cashrut, passadas de mãe para filha de geração em geração, parece muito mais plausível.

De uma maneira ou de outra, as comunidades de Anussim preservaram-se sob condições impossíveis durante meio milénio; um milagre. O resultado deste milagre está agora à nossa porta. É de facto difícil reverter a História e rebobinar até ao tempo em que os Marranos foram separados do povo judeu, mas não é impossível.

 

Paz, Shalom, Salam, Fraternidade!

No passado dia 25 de Abril, o rabino Elisha Salas, emissário da Shavei Israel para Portugal e Espanha, participou, na cidade do Porto (Portugal), numa conferência intitulada “A Fraternidade na Europa das religiões do século XXI”.

Tratou-se de uma conferência organizada por um grupo independente de intelectuais e pensadores portugueses, com o propósito de explorar os vários contributos que as religiões monoteístas podem dar para a consecução do objetivo mundial de “agirmos uns com os outros em espírito de fraternidade”, tal como consta do texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Continue reading “Paz, Shalom, Salam, Fraternidade!”