Parashat Behaalotecha

A eleição do Sanedrin e o pedido de carne  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Logo que o tabernáculo foi instaurado e os Leviim foram consagrados para o serviço divino, instala-se um dilema na mente do povo (algo que ainda hoje em dia muitos se perguntam): «Se o povo não vai estar tão próximo de De’s, já que agora tudo se centra no tabernáculo, e além disso o povo não vai servir a De’s lá, mas sim quem servirá serão apenas os Leviim, então para quê esforçar-se tanto e impor-se tantas privações, se de todas as maneiras nunca vamos chegar ao nível de poder servir no tabernáculo e estar próximos de De’s?»

As pessoas do povo estavam dispostas a fazer um esforço e a privarem-se de coisas se com isso pudessem ganhar algo, quer dizer, chegar a um «bom posto», um status social melhor, ou uma categoria espiritual mais alta (Maamad), senão não se justificaria tanto esforço.

A resposta de De’s a este dilema é selecionar setenta sábios junto a Moisés para a condução do povo. Isto serve para demonstrar que não só os Leviim têm uma categoria elevada, mas sim que aqueles que andam pelos caminhos de De’s também podem chegar a um alto nível dentro do povo e, na realidade, essa é a verdadeira honra, já que o conseguiram por esforço próprio e não pela sua linhagem.

Portanto, o objetivo de De’s é que o povo chegue a este raciocínio. No entanto, ainda não se trata de um nível superior, porque o serviço divino deve ser lishmá (de forma desinteressada), e aqui a questão é: Para quê servir a De’s se não vou obter nenhum upgrade (subida de categoria) ou benefício extra?

Yehoshua não queria que as pessoas pensassem que se pode ter profecia enquanto se está no «acampamento», quer dizer, sem uma preparação adequada e um Perishut (isolamento) necessário.

É por isso que os setenta sábios selecionados tinham que estar à volta do tabernáculo, para que, dessa forma, todos vissem claramente que a profecia vinha de De’s, cuja presença se centra no tabernáculo. Se ficassem no acampamento e recebessem a profecia ali, então o povo, erradamente, poderia pensar que existe outra fonte de profecia e poder fora de De’s.

Agora bem: Porque é necessário que os setenta sábios que ajudarão Moisés sejam profetas?

Todos os líderes, inclusivamente no Sanedrin, podem enganar-se, mas alguém que tem Ruach Hakodesh é impossível que se engane. Dessa maneira pode dirigir o povo da forma mais correta possível.

E apesar da profecia ter acontecido a estes setenta sábios apenas uma vez nas suas vidas, isto foi suficiente para os iluminar ao longo de todo o caminho.

Rambam escreve, na introdução ao Guia dos Perplexos, que a verdade é como um relâmpago numa noite escura. Há quem fique encandeado pela intensidade do seu brilho, mas, depois de ele desaparecer, volta à mesma escuridão na qual estava submerso antes de o relâmpago ter aparecido. Outros, no entanto, ao receberem o raio de luz, não permanecem imóveis, cegando os seus olhos, mas sim aproveitam essa luz para poder ver os obstáculos que os aguardam no caminho, de modo a poder evitá-los e decidir o rumo dos seus futuros passos. Assim nos acontece a nós: Às vezes batemos de frente com um momento de verdade. Vemo-lo claro, patente, mas, passado o efeito do momento, voltamos à nossa vida rotineira, sem que essa perceção nos transforme no mais mínimo. Tal como quando vamos visitar alguém no hospital que tem problemas pulmonares devido ao fumo. É claro para nós que o cigarro é algo nocivo; talvez deixemos de fumar durante algumas horas. Mas depois, pouco a pouco, voltaremos aos nossos hábitos de sempre. Porquê? Porque nesse momento em que vimos as coisas claramente, não aproveitámos esse encontro com a verdade tomando as decisões necessárias, comprometendo-nos nesse momento a mudar algo no nosso comportamento.

É importante destacar que estes setenta sábios não eram pessoas comuns que de repente, magicamente, receberam um espírito especial, pois como é possível que o espírito passe de Moisés para gente comum sem preparação ou elevação espiritual alguma? Essa foi precisamente a admiração de Yehoshua, que os tomou por farsantes.

O que acontece aqui é que estas pessoas se prepararam; eram sábios, eram os líderes do povo, e portanto o mesirut nefesh (esforço) e a sabedoria prática que esse cargo lhes dava já os faziam especiais por si só. Então quando o Ruach descende sobre Moisés, trata-se de um nível de profecia inferior àquele que normalmente Moisés tinha, já que De’s se comunicava com ele diretamente e não através de nenhum Ruach.

Apesar disso, De’s não se revelou completamente, mas sim com uma nuvem, quer dizer, captaram mas não de forma perfeitamente clara, e sim como num dia com névoa, onde não se vê nitidamente. É claro que os setenta sábios não alcançaram o nível altíssimo da profecia de Moisés.

No que diz respeito ao pedido de carne por parte do povo, devemos saber que Moisés foi e será o ser humano que mais conhecia De’s, portanto, é impossível supor que Moisés pensasse que De’s não lhes podia providenciar carne. Então, como é possível que Moisés pergunte a De’s como será possível providenciar carne para todo o povo?

Na realidade, o que acontece, é que Moisés vê que o povo está com uma postura desafiante e atrevida. Pedem, exigem, e insistem em pôr De’s à prova constantemente. Então Moisés raciocina: Com uma atitude assim, por mais que lhes façamos as vontades, nunca vão estar satisfeitos.

De’s está de acordo com o que Moisés apresenta, mas responde-lhe que, se não lhes der carne, o povo vai pensar que a mão de De’s é limitada, quer dizer, que não lhes pode providenciar carne, e este tipo de raciocínio seria uma profanação do nome de De’s.

É por isso que De’s acede ao pedido de carne por parte do povo. Não se trata de que De’s lhes quisesse fazer a vontade ou cedesse aos seus caprichos, mas sim vai dar-lhes uma lição sem que por isso o nome de De’s se veja profanado.

Então De’s vai dar-lhes de comer carne, mas sob a condição de que o façam de um modo elevado. Não como o fazem os animais, mas sim que o façam como seres humanos.

Entre o povo, não todos aceitaram esta premissa, e teimaram em continuar com os seus caprichos, amontoando carne durante três dias e comendo selvaticamente, sem cuidar minimamente as pautas de higiene e saúde. Os que comeram como animais foram os que morreram.

Deste modo, por um lado, De’s demonstra-lhes que é todo-poderoso, e pode até providenciar carne no deserto, e, por outro lado, dá uma lição àqueles que agiram de forma selvagem, desafiante e atrevida, que insistiram em pôr De’s à prova constantemente. Esses são os que no fim foram castigados.