TISHA BEAV PELO MUNDO

As comunidades da Shavei Israel de diferentes partes do mundo partilharam fotografias connosco nos serviços religiosos, em luto pela destruição dos Templos e em memória de outras tragédias na história judaica que aconteceram em Tisha B’Av, o dia anual de jejum. Como de costume neste dia, as pessoas sentaram-se no chão, na sinagoga, para ouvir a leitura da Megilat Eichá – o livro de Lamentações.

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Parashat Vaetchanán

Objetivo do discurso de Moisés – Retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Esta parashá fala de muitos temas e é difícil estabelecer a relação entre eles. Qual é o fio condutor?

1º Parágrafo:

Servir a De’s. Não fazer figuras ou imagens de De’s. Não se trata de acreditar noutros deuses; refere-se a não dar formas ou imagens físicas a De’s, mesmo que o façam sem maldade e apenas por engano. Por isso devem recordar o momento em estiveram no monte Sinai, pois lá não viram imagem alguma.

2º Parágrafo:

Aqui diz-nos o que é que lhes sucederá se agirem contra De’s e fizerem idolatria. Faz alusão a um futuro quando se esquecerem de De’s e forem contra Ele, atrás de ídolos, abandonando-O. É por isso que lhes volta a repetir os Dez Mandamentos; para lhes recordar que só o Senhor é De’s. Não há outro fora dEle. Para que o indivíduo possa retornar do seu mau caminho, primeiro deve analisar a sua história e chegar a esta conclusão: Existe a possibilidade de voltar ao bom caminho. Uma vez que esta premissa estiver clara, então cuidará dos mandamentos de De’s.

3º Parágrafo:

Fala-nos acerca das cidades de refúgio. Entre os povos de Canaã, a vida não era muito valorizada. Vemos isto quando Abraão temia que Avimelech o matasse para ficar com a sua esposa, Sara. Agora que vão entrar na terra de Canaã, não devem adquirir essa má qualidade. É por isso que Moisés sublinha a importância de salvar a vida e fazer o que estiver nas nossas mãos para não ser derramado sangue inocente.

4º Parágrafo:

Até agora não lhes tinha dito quais eram os chukim e mishpatim. (No 1º parágrafo diz shemá el haChukim; agora diz shemá et haChukim.). Tinha falado em forma geral, agora fala de forma mais específica. A partir de agora vai especificar os preceitos. Moisés dá testemunho de que esteve entre eles e De’s no monte Sinai: Acreditastes em mim para eu ser intermediário entre De’s e vós. E comprometestes-vos a cumprir os preceitos, que são o vosso próprio bem.

5º Parágrafo:

Os Dez Mandamentos.

6º Parágrafo:

Moisés diz que se constituiu o intermediário entre o povo e De’s. Apesar de os Dez Mandamentos terem sido ouvidos pelo povo mais de perto, o resto dos preceitos e chukim também foram dados por De’s por intermédio de Moisés.

7º Parágrafo:

O Shemá Israel. Fala-nos de conhecer De’s, da unicidade de De’s de amar De’s com tudo o que possuímos. No parágrafo anterior falou-nos do básico e do que devemos fazer, mas agora diz-nos o principal, o resumo de toda a Torá.

8º Parágrafo:

Com todo o bem que há na Terra, não devemos esquecer-nos de De’s. Quando podem começar os problemas? Historicamente, o povo de Israel afasta-se de De’s e dos Seus preceitos quando está bem e não lhe falta nada.

9º Parágrafo:

Fazer o correto aos olhos de De’s para que a vida lhes corra bem. Outro motivo que os pode desviar é não fazer o correto perante De’s, quando são desconfiados e pedem provas da existência de Deus.

10º parágrafo:

Quando nos perguntarem para que são os preceitos, devemos responder que são para o nosso bem. É por isso que se deve explicar o sentido dos preceitos, o que há por trás dos preceitos, pois se estes se transformarem em algo técnico e ritual, sem haver entendimento da sua sabedoria, transformam-se numa carga e são desprezados.

11º parágrafo:

Não se assimilar aos povos da terra, mas sim destruí-los. Devem ser fiéis a De’s, pois estabelecemos um pacto com Ele e jurámos-Lhe fidelidade. O perigo é a assimilação. No que diz respeito aos povos idólatras, se eles não desejarem abandonar os deuses pagãos, então a solução dada é destruí-los. Por outro lado, recordar e ser fiéis ao pacto com De’s, pois são o povo escolhido.

Em resumo: Fala-nos das coisas que são importantes, que perigos esperam o povo de Israel e como os evitar.

PERFIL PESSOAL: ANGEL JOSELITO LOMBEIDA TOLEDO, DO EQUADOR

Trabalhamos com muitas comunidades de todo o mundo, e, de vez em quando, viremos apresentar-vos

algumas das pessoas locais que se disponibilizam como representantes voluntários. Essas pessoas

generosas ajudam-nos a organizar as nossas atividades da melhor maneira possível e a alcançar mais

pessoas nas suas respetivas regiões. Uma dessas pessoas é Angel Joselito ( Yosef ) Lombeida Toledo, de Guayaquil, no Ecuador.

A comunidade Beit Toldot está composta por aproximadamente dez famílias que decidiram reaproximar-se das suas raízes judaicas sob supervisão do rabino Shimon Yehoshua, emissário da Shavei Israel na Colômbia.

Os Bnei Anussim de Guayaquil vivem uma vida tradicional judaica e empregam todos os esforços para cumprir a Torá e os mandamentos, para aprender o Talmud e outros textos sagrados, celebrar as festividades judaicas e fortalecer a sua ligação com a Terra de Israel.

Angel era uma destas pessoas e tornou-se interessado em judaísmo depois de ler um artigo sobre o fenómeno e de saber que os seus antepassados eram de Espanha e que eram, de facto, descendentes de judeus. Angel começou a investigar as suas raízes e conseguiu converter-se em Barranquilla, juntamente com a sua família.

Graças ao apoio da Shavei Israel, Angel teve a oportunidade de visitar a Colômbia e estudar na comunidade Beit Hillel, em Bogotá, onde adquiriu muita experiência e conhecimentos. Presentemente está a trabalhar arduamente para melhorar a vida judaica na sua cidade natal e e manter a ligação com a Shavei Israel.  

– Esta é a oportunidade de os Bnei Anussim regressarem às suas raízes e se reunirem com o seu passado através da preparação e da perseverança da vida em comunidade. – Disse Angel.

Parashat Devarim

O vosso irmão Esav – Retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Antes de entrar na Terra de Israel, Moisés quer transmitir-nos uma mensagem muito importante.

Anteriormente, em Bamidbar 20, Moisés tinha enviado mensageiros ao rei de Edom, dirigindo-se-lhe muito fraternalmente e pedindo-lhe licença para passar pelo seu território a caminho da terra de Canaã. Edom recusa-se. Moisés insiste e tenta convencê-lo com palavras amáveis, mas Edom recusa-se novamente e posiciona-se frente a Israel em formação de batalha.

Moisés volta a repetir a História: Tal como Yaacov enviou mensageiros a Esav antes de regressar à terra de Canaã, Moisés envia mensageiros aos descendentes de Esav. São utilizadas palavras muito similares: Envía mensageiros, trata Esav como seu irmão, e é mencionada a terra de Seir. Isto é o que os sábios chamam Maasé avot siman le banim. (As ações dos patriarcas são um guia para os seus filhos).

Vemos que antes de entrar na Terra de Israel, os israelitas têm que passar pelo território de Esav.

Os israelitas vêm de um longo caminho, cansados, tendo andado durante 40 anos pelo deserto sem poder assentar, e agora que por fim estão tão perto, têm que ter em conta todos os caprichos de Esav, que se recusa a deixá-los passar? Qual é o mérito tão grande de Esav para De’s nos exigir que não o provoquemos nem lhe façamos o menor mal?

O Midrash Rabá diz-nos que Isaac deu a Esav uma só bênção («que pela sua espada viverá»), enquanto que Yaakov foi abençoado com 10 bênçãos. Então temos que ser muito cuidadosos em não lhe retirar esta bênção, caso contrário De’s retira-nos as nossas.

O que o midrash nos está a insinuar é que a bênção que Isaac deu a Esav deve ser respeitada. Por um lado, Isaac abençoou Esav para ele viver pela sua espada (quer dizer, que não seria vencido pela espada), e, por outro lado, Isaac abençoou Iaacov e fê-lo herdar a terra que De’s prometeu a Abraham. Agora bem: Se Iaacov enfrentar Esav, uma das bênçãos deixa de se cumprir: Se Iaacov ganhar, então Esav perde o seu poder militar e deste modo toda a sua autoestima cai. Por outro lado, também não pode deixar de se cumprir o que foi dito a Iaacov sobre a terra prometida a Abraham. É por isso que De’s quer evitar esta situação, e como Israel tem a possibilidade de entrar por outro lado, ordena-lhe que não provoque nem incite Esav.

Outro midrash diz-nos que o motivo pelo qual De’s faz questão de não enfrentarmos Esav é que Esav tem um grande mérito, que é o respeito ao seu pai.

Um terceiro midrash conta-nos que De’s quis recompensar Esav pela atitude que teve com Iaacov quando se reencontrou com ele, que não lhe fez mal, não o enfrentou, não se aproveitou da sua fraqueza nem fez uso ou exibiu a sua força. Ofereceu-se para lhe organizar uma escolta de proteção para o acompanhar e chama-o meu irmão. É por isso que agora De’s impede que Israel faça mal a Esav, e exige-lhe que o trate como um irmão.

Parashat Matot-Masei

As viagens pelo deserto – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Sabemos que a Torá não é um livro de História nem de Geografia, então, para quê nos relata tão detalhadamente cada uma das viagens e paragens feitas pelos israelitas durante a sua travessia pelo deserto?

Que podemos aprender de tudo isso?

Na realidade, o facto de a Torá nos relatar todas e cada uma das paragens não é um mero capricho mas sim algo de muita importância.

Em primeiro lugar, vemos que a Torá nos relata com muita precisão cada paragem onde chegavam. Isto dá-nos uma prova sobre a veracidade da Torá, pois são citados lugares verdadeiros e conhecidos onde os filhos de Israel acamparam.

Em segundo lugar, podemos ver que durante os quarenta anos, a maior parte do tempo estiveram assentados, acampando em locais fixos. Não andaram a caminhar durante os quarenta anos.

O terceiro ponto é para nos demonstrar outra das maravilhas que De’s fez pelo povo de Israel, pois não só os tirou do Egito e dividiu as águas do Mar Vermelho, como também os conduziu pelo deserto, grande e terrível, durante quarenta anos, fazendo-os chegar a lugares bons. Não iam à deriva.

O quarto ponto é para nos ensinar que De’s cumpriu a promessa que fez aos nossos patriarcas, que enviou o Seu emissário para os tirar da terra do Egito e para os conduzir à Terra Prometida.

O quinto ponto é que tudo foi feito de acordo com a vontade de De’s, não foram andando errantes pelo caminho; por ordem de De’s acampavam e por ordem de De’s viajavam.

O sexto ponto é vermos que era De’s quem os fazia chegar a cada lugar, não chegavam a um lugar por acaso; foi De’s quem quis que chegassem a cada um desses lugares, mesmo àqueles onde não havia água para beber, e fê-lo para pôr o povo à prova e ensinar-lhes uma lição importante para aprender.

Por último, para demonstrar quão grande é o amor e a fidelidade do povo de Israel para com De’s, em palavras do profeta: Recordo a mercê dos teus pais, e o amor da tua mocidade, quando foste atrás de mim pelo deserto, terra que não se semeia.

Uma nação, diversas faces

Michael Freund é o fundador e presidente da Shavei Israel – www.shavei.org – um grupo com sede em Jerusalém que ajuda e dá a mão a «judeus perdidos» que procuram retornar ao povo judeu. A Shavei Israel está ativa em nove países ao redor do mundo com uma variedade de comunidades incluindo os Bnei Menashe do nordeste da Índia, os Bnei Anussim (ou «Marranos») de Espanha, Portugal e América do Sul; os judeus subbotnik da Rússia; os «judeus escondidos» desde a era do Holocausto, da Polónia, os descendentes de judeus de Kaifeng, na China e outros. Além disso, Freund é correspondente e colunista do Jerusalem Post, e foi anteriormente vice-diretor de comunicações no Gabinete do Primeiro Ministro de Israel Binyamin Netanyahu, durante o seu primeiro mandato. Este artigo aparece na 7ª edição de Conversations, a revista do Institute for Jewish Ideas and Ideals.

Há mais de 20 anos, como estudante de licenciatura na Universidade de Princeton, encontrei-me a dividir quarto com um jovem luterano de Iowa, brilhante e religioso. Éramos, com certeza, uma dupla um tanto incomum, e ele nunca conseguiu entender o porquê de eu correr para os serviços de oração todos os dias, ou verificar os ingredientes de vários pacotes de comida. Mas ele era do tipo cosmopolita e estudioso, a sua mesa estava constantemente repleta de livros, e sua inteligência impressionante e curiosidade sobre o mundo originavam muitas vezes conversas intrigantes.

Por isso, quando lhe perguntei quantos judeus achava que moravam na América, fiquei bastante surpreendido quando ele respondeu, com toda a seriedade: – Deve haver pelo menos 50 milhões de judeus neste país. – Quando lhe pedi para explicar as bases do cálculo, o meu amigo encolheu os ombros e disse: – Bem, eu cresci numa cidade no meio da América. O nosso médico de família era judeu, o advogado do meu pai era judeu e o contabilista dele também. Há tantos judeus proeminentes em tantos campos, que simplesmente deve haver 50 milhões ou mais dos vossos por aí – Acrescentou. Somente depois de lhe mostrar um livro de referência que mencionava a população judaica mundial como sendo de aproximadamente 13 milhões, é que ele admitiu ter errado por muito na sua estimativa.

Costumo refletir várias vezes sobre essa conversa, uma vez que a mesma abordou algumas questões fundamentais, tais como a perceção sobre os judeus, o nosso papel na sociedade e o impacto que nós, como povo, exercemos sobre o mundo. Mas penso que isso, por sua vez, levanta outra questão, talvez até ainda mais importante, e que raramente é abordada com a seriedade que merece: Será que realmente interessa quantos judeus existem no mundo?

Tradicionalmente, é claro, nunca demos muita ênfase ao tamanho ou à dimensão do povo judeu. Nos últimos 2000 anos, vivendo à mercê dos outros, temo-nos concentrado mais na qualidade do que na quantidade. É por isso, possivelmente, que muitos judeus tendem a desconsiderar ou minimizar a importância dos nossos números, argumentando que o que realmente interessa é se estamos a trabalhar eficazmente para cumprir o nosso destino nacional. [I]

Mas eu acredito que esse modo de pensar é produto do exílio, uma função do facto de termos estado mais preocupados em sobreviver do que em prosperar, durante a longa e escura noite das nossas peregrinações em terras estrangeiras. Durante o processo, fomos perdendo de vista o papel importante que os números podem ter, e de facto têm, na vida de uma nação. E chegámos ao ponto de elevar a nossa fraqueza numérica até transformá-la num valor, infundir-lhe significado e agora considerá-la o ideal.

Nem as fontes nem a história judaica justificam essa visão, e está na hora de revisitarmos esta questão, não apenas porque é um exercício intelectual interessante, mas também devido à importância crítica que ela tem para moldar as políticas da nossa comunidade, o nosso futuro e a nossa visão do mundo.

É um princípio bem conhecido da crença judaica que o Criador escolheu o povo judeu para ser o Seu instrumento especial neste mundo. – E vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa – [ii], disse De’s a Moisés para ele dizer a Israel antes de lhes entregar a Torá no Monte Sinai.

Mais tarde, no livro de Devarim, o relacionamento especial de Israel com De’s é descrito em termos ainda mais íntimos: Vós sois os filhos do Senhor vosso De’s (…) Sois um povo santo ao Senhor vosso De’s, e o Senhor vos escolheu para que sejam o Seu próprio tesouro, de entre todos os povos que estão sobre a face da terra. [iii]

A partir desses versículos, fica claro que De’s não escolheu apenas uma família ou uma pequena tribo para servir os Seus propósitos neste mundo. Ele escolheu uma nação inteira, o povo de Israel. Então, vemos que obviamente é necessário um conjunto mínimo de pessoas para realizar a nossa missão sagrada, senão Ele poderia facilmente ter colocado a responsabilidade sobre apenas algumas poucas pessoas.

Por outras palavras, os números são importantes. Os críticos muitas vezes atacam esta linha de pensamento, afirmando que ter quantidade sem qualidade é de pouco valor para garantir o futuro judaico. Mas o que eles não percebem é que o oposto é igualmente verdadeiro. Um povo judeu pequeno e encolhido, consistindo apenas de um pequeno núcleo de membros comprometidos, dificilmente será capaz de enfrentar os desafios e ameaças à nossa sobrevivência, sejam eles físicos ou espirituais.

E talvez seja por isso que De’s prometeu aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob que o povo judeu seria um dia tão numeroso quanto as estrelas do céu ou a areia da praia. Só então poderemos estar em posição de cumprir o nosso papel.

De facto, mesmo uma leitura superficial da Torá e dos seus comentários revela que a força demográfica do povo judeu é repetidamente enfatizada nas promessas de De’s aos nossos antepassados:

E farei a tua semente como o pó da terra, assegura De’s a Abraão, dizendo-lhe: De tal modo que, se alguém puder contar o pó da terra, também poderá ser contada a tua descendência. [iv] Rashi entende essa promessa como literal, não metafórica, e explica o verso da seguinte forma: Assim como o pó não pode ser contado, assim também a tua semente estará além da contagem. [v]

Promessas semelhantes foram feitas a Isaac e Jacob [vi], e, quando Moisés se dirigiu a Israel antes da sua morte, também profetizou que De’s iria multiplicá-los «mil vezes» [vii]. Isso, diz Netziv, é uma promessa que diz respeito à qualidade e também à quantidade do povo judeu. [viii]

Mais de um milénio depois, durante o período herodiano, o povo judeu de facto cresceu e tornou-se uma força considerável no cenário mundial. Como notou o historiador Paul Johnson:

Um dos cálculos é que, durante o período herodiano, houvesse no mundo cerca de oito milhões de judeus, dos quais 2.350.000 a 2.500.000 viviam na Palestina, constituindo assim os judeus cerca de 10% do império romano. Esta nação em expansão e a diáspora fervilhante foram as fontes da riqueza e influência de Herodes. [ix] (negrito do autor)

É interessante notar que, aproximadamente na mesma época, o censo que os historiadores descrevem como o mais antigo do mundo preservado até aos nossos dias foi efetuado na China, no oitavo mês do ano 2 EC [x]. Segundo esse censo, havia um total de 57,5 milhões de chineses, ou seja, sete chineses por cada judeu vivo da mesma época.

Saltemos para frente 2000 anos até o presente, e os números são, claro, bastante diferentes, com a China tendo subido para mais de 1,1 mil milhões de pessoas, enquanto os judeus não chegam a mais de 13 milhões de almas no mundo inteiro.

Escusado será dizer que a diferença é atribuível a todas as expulsões e perseguições que nos têm cabido em sorte, que eliminaram um sem-número de judeus, deixando apenas um pequeno remanescente do que poderíamos ter sido.

Esta triste realidade foi colocada ainda mais em evidência no ano passado, quando o ilustre demógrafo Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica, divulgou um estudo arrepiante que concluiu que, se não fosse pelo Holocausto, haveria 32 milhões de judeus no mundo hoje. [xi]

O Holocausto, escreveu ele, causou um golpe mortal, particularmente nos judeus da Europa Oriental, devido à sua estrutura especialmente jovem. Isso, disse ele, causou danos demográficos significativos a longo prazo com ramificações muito para além do que estimamos.

De fato, como Della Pergola notou, a percentagem de judeus no mundo está hoje em constante declínio. Enquanto que antes da Segunda Guerra Mundial havia oito judeus por cada mil pessoas não-judias no mundo, o número agora é de apenas dois por cada mil, e a tendência é decrescente.

Estes dados são uma lembrança oportuna e angustiante da destruição inimaginável que o Holocausto causou. Não só reivindicou os seis milhões que foram assassinados pelos alemães e seus colaboradores, mas também subtraiu os seus filhos, netos, e todos os seus descendentes, privando para sempre o povo judeu de milhões de preciosas almas. Por outras palavras, a abrangência dos assassinatos, ampliada ao longo do tempo, torna-se cada vez mais extensa e incompreensível.

Imagine um mundo com um povo judeu vibrante e vasto, com mais do dobro do seu tamanho atual, sem ser perseguido pela constante ameaça da diminuição demográfica e da assimilação.

Considere por um momento as riquezas culturais e espirituais que estaríamos a produzir, as poderosas contribuições intelectuais e cerebrais para a humanidade que poderíamos estar a efetuar, e começará a perceber a verdadeira dimensão do que se perdeu.

De algum modo, ao longo dos séculos, na diáspora, enquanto fomos sendo coletivamente destruídos,  parece que nos afastámos desta abordagem. Mas talvez agora seja o momento de começar a pensar novamente nela. Afinal, os números contam sim, seja no basquetebol, nos negócios ou na diplomacia internacional. E, para fazer a diferença no mundo e cumprir a nossa missão nacional divina na nossa qualidade de judeus, precisamos de ter uma «equipa» muito maior e mais diversificada à nossa disposição.

Isto significa que não só precisamos de nos esforçar mais para manter os judeus judeus, mas também precisamos de expandir os nossos horizontes e procurar maneiras, em conformidade com a halachá, de aumentar os nossos números.

Um bom lugar para começar seria com descendentes de judeus, com comunidades que têm uma conexão histórica com o povo judeu e que agora estão interessados em retornar. Estes incluem os Bnei Menashe do nordeste da Índia, descendentes de uma tribo perdida de Israel, os Bnei Anussim de Espanha, Portugal e América do Sul (a quem os historiadores se referem pelo termo depreciativo «Marranos»), os Judeus Ocultos da Polónia da era do Holocausto, e outros.

Sem terem culpa nenhuma, os antepassados destas pessoas foram retirados à força do povo judeu, e nós temos o dever, para com eles e para com os seus descendentes, de os incluir e de lhes dar a oportunidade de voltarem para casa. Fazer isso não só corrigirá um erro histórico, mas também nos fortalecerá, numérica e espiritualmente.

Isto não é uma chamada ao proselitismo, nem um apelo para começarmos a converter gentios. A ideia é abrir a porta aos nossos irmãos perdidos, conhecidos como Zera Yisrael («a Semente de Israel»), e reforçar o vínculo entre nós.

Veja, por exemplo, os Bnei Anussim, cujos antepassados foram convertidos ao catolicismo à força durante os séculos XIV e XV em Espanha e Portugal, mas que continuaram a preservar a sua identidade judaica em segredo ao longo de gerações e gerações. Cinco séculos depois, um número crescente dos seus descendentes está a sair das sombras, procurando recuperar a sua herança judaica há muito perdida.

É um fenómeno de proporções inéditas, que se estende de Lisboa a Lima e de Madrid ao México. Em todo o mundo de língua espanhola e portuguesa surgem cada vez mais pessoas a querer explorar as raízes judaicas das suas famílias, que muitas vezes foram enterradas sob o peso da história.

A verdadeira dimensão dessa herança judaica foi evidenciada pelas descobertas de um notável artigo académico publicado no American Journal of Human Genetics no final de 2008, no qual uma equipa de biólogos declarou que 20% da população de Espanha e Portugal tem origem judaica sefardita [xii]. Como as populações destes dois países somadas excedem 50 milhões, isso significa que mais de 10 milhões de espanhóis e portugueses são descendentes de judeus.

Estas não são especulações mirabolantes, mas sim resultados puros e duros saídos diretamente duma placa de Petri dum laboratório. O estudo, liderado por Mark Jobling, da Universidade de Leicester, na Inglaterra, e Francesco Calafell, da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, analisou os cromossomas Y dos sefarditas em comunidades para onde os judeus tinham migrado após a expulsão de Espanha em 1492. As suas assinaturas cromossómicas foram então comparadas com os cromossomas Y de mais de 1.000 homens que vivem por todo o território de Espanha e Portugal. Como o cromossoma Y é passado de pai para filho, os geneticistas foram capazes de medir os dois grupos contrastando-os um com ou outro, levando à descoberta notável de que um quinto dos ibéricos é de ascendência judaica.

Pense nisso: é como se, de repente, um grande espelho tivesse sido colocado à frente de todos os espanhóis e portugueses, forçando-os a olhar para si mesmos e a ver a realidade da sua história nacional e individual.

Mas ainda mais interessante do que o que isto nos diz sobre o passado é o que pode dizer-nos sobre o futuro. Se Israel e o povo judeu empreenderem um esforço conjunto de estender a mão aos nossos irmãos genéticos da Península Ibérica, isso poderá ter um impacto profundo em vários de campos. O próprio facto de um grande número de espanhóis e portugueses ter ascendência judaica pode ter um efeito significativo sobre as suas atitudes em relação aos judeus e a Israel.

Como presidente da Shavei Israel, que trabalha com «judeus perdidos» ao redor do mundo, eu tenho visto isso várias vezes – quando uma pessoa descobre, ou redescobre, as suas raízes judaicas, desenvolve inevitavelmente uma certa afinidade com o povo judeu e uma maior simpatia por Israel e pelas causas judaicas. Obviamente, nem todos os milhões de descendentes de judeus vão querer ir a correr converter-se ao judaísmo ou tentar fazer aliá. Mas alguns, sem dúvida, retornarão ao nosso povo e fortalecerão as nossas fileiras.

A ideia de que estes «judeus perdidos» finalmente retornarão é antiga e está profundamente enraizada no pensamento judaico, mesmo que a maioria de nós não se aperceba disso.

Veja, por exemplo, a visão do profeta Isaías de que Naquele dia tocará um grande shofar e virão os que estavam perdidos na terra da Assíria e os que foram dispersos na terra do Egito, e se curvarão diante de De’s no monte santo em Jerusalém. [xiii] De acordo com Rashi, a primeira parte do versículo (os que estavam perdidos na terra da Assíria) significa aqueles que foram dispersos muito além do Rio Sambatyon [xiv], uma referência às Dez Tribos Perdidas de Israel que foram para o exílio há mais de 2700 anos [xv]. Por outras palavras: os seus descendentes, apesar de terem estado perdidos durante tantos séculos, na verdade regressarão.

O mesmo vale para os Bnei Anussim. O grande Don Isaac Abarbanel, que testemunhou a expulsão dos judeus de Espanha em 1492, escreve comovedoramente no seu comentário ao Sefer Devarim que muitos dos Bnei Anussim serão misturados entre eles [isto é, entre as nações] e considerados como eles, mas nos seus corações eles retornarão a De’s (…) e aqueles que deixam a religião [isto é, o judaísmo] por compulsão, sobre eles está escrito «e Ele retornará e os reunirá de entre os povos.» [xvi]

O ilustre rabino Tzadok HaKohen, de Lublin, vai ainda mais longe, afirmando que todos os descendentes de judeus retornarão um dia ao nosso povo. Na sua obra Resisei Layla, escreve que isso inclui até mesmo aqueles que são descendentes de judeus sem o saber: Porque de todos aqueles que são da Semente de Israel, ninguém será banido. [Xvii]

Desde o seu início, a nação de Israel foi dividida em 12 tribos, cada uma com as suas características, talentos e bênçãos únicas. De’s, na Sua sabedoria suprema, considerou necessário que o nosso povo fosse forjado em unidade através da diversidade, como uma orquestra composta de músicos diferentes, onde cada um toca o seu próprio instrumento, apesar de estarem todos a tocar a mesma música.

O mundo em que vivemos está a ficar cada vez mais pequeno, graças ao alcance da Internet. Para florescer nesta aldeia global, precisamos de judeus chineses, indianos e polacos tanto quanto de judeus americanos e australianos. Somos uma nação com muitas faces, e temos que aprender a fazer da nossa diversidade uma alavanca e a encará-la como uma força e não como uma fraqueza. Podemos nunca conseguir igualar a demografia da China, mas podemos e devemos procurar novas oportunidades de crescimento. É por isso que chegou a hora de empreender um esforço concertado de aproximação para com os descendentes de judeus.

O nosso estado precário como povo e as ameaças que enfrentamos no nosso país e no exterior assim o exigem. E assim o exige também, devo acrescentar, o nosso destino.

[i] Veja, por exemplo, Size is not the issue, de Jonathan Rosenblum, The Jerusalem Post, 8 de maio de 2009.

[ii] Shemot 19: 6

[iii] Devarim 14: 1-2

[iv] Bereshit 13:16

[v] Rashi, Loc. Cit.

[vi] Para a promessa a Isaac, veja Bereshit 26: 4; para a promessa a Jacob, Bereshit 28:14.

[vii] Devarim 1: 10-11.

[viii] Veja Haemek Davar de Netziv, Loc. Cit.

[ix] Paul Johnson, História dos Judeus (New York: Harper, 1988), 112.

[x] Denis Crispin Twitchett, Michael Loewe e John King Fairbank, The Cambridge History of China, Volume Um: The Ch’in and Han Empires 221 BC-AD 220 (New York, Cambridge University Press, 1986), 240.

[xi] Veja How many Jews would there be if not for the Holocaust?, Haaretz, 19 de abril de 2009.

[xii] S. Adams, E. Bosch, P. Balaresque, S. Ballereau, A. Lee, E. Arroyo, A. López-Parra, M. Aler, M. Grifo, M. Brion, The Genetic Legacy of Religious Diversity and Intolerance: Paternal Lineages of Christians, Jews, and Muslims in the Iberian Peninsula no American Journal of Human Genetics, Volume 83, Número 6, Páginas 725-736

[xiii] Isaías 27:13.

[xiv] Rashi, Loc. Cit. Para outros exemplos, veja o comentário de Radak sobre Jeremias 3:18 e o Metsudat David em Zacarias 10: 6.

[xv] Veja II Reis 18: 9-12.

[xvi] Veja Abarbanel sobre Devarim 30: 1-5.

[xvii] Veja Resisei Layla, letra Nun.

DO EQUADOR A JERUSALÉM: AJUDE UM MENINO A CUMPRIR O SEU SONHO DE FAZER BAR MITZVA

David Peretz é um menino judeu de doze anos de Jerusalém que, tal como os outros meninos judeus da sua idade, está a preparar-se para o seu bar mitzvá. No entanto, a história de David é bem diferente da da maioria dos outros meninos judeus da sua idade.

David e a sua família são do Equador, e o seu caminho para Jerusalém foi longo e complicado. David, junto com os seus dois irmãos e os seus pais, fez aliá do Equador há dois anos com o apoio da Shavei Israel. O caminho da sua família para o judaísmo começou em 2014, quando o seu pai, Yochanan, conheceu o rabino Shimon Yehoshua, o emissário da Shavei Israel na Colômbia. Participar em aulas online e aprender mais sobre a tradição judaica permitiu a Yochanan, esposa e filhos expressarem o seu verdadeiro amor por De’s e pela Torá.

A família Peretz decidiu passar pelo processo de conversão formal ao judaísmo em Miami, mas primeiro tiveram que passar um ano na Colômbia com a comunidade local, estudando sob supervisão e com o apoio do rabino Yehoshua. Depois de se converterem com sucesso, decidiram que, para viver o seu judaísmo com mais autenticidade, deveriam morar em Israel. Fizeram Aliá (imigração para Israel) e viveram em Carmiel, no norte do país, até que finalmente se mudaram para Jerusalém.

David e a sua família estão profundamente agradecidos por terem chegado tão longe, e a Shavei Israel esteve com eles ao longo de todo o caminho, desde a América do Sul até Israel. Agora você também pode juntar-se aos nossos esforços e ajudar a família Peretz a realizar o sonho de David de poder ter a sua celebração de bar mitzvá, modesta, simples, porém bonita e inesquecível, em Jerusalém.

Faça o seu donativo e seja parte da festa!