As duas faces da vida humana

Comentário sobre a Porção Semanal da Torá – Vayakhel e Pekudei

Retirado do livro “La Tora no esta en el cielo”, do Rabino Eliahu Birnbaum

 

Esta Parashá começa com um resumo das regras inerentes da construção do Mishkán, o santuário hebreu no deserto. E, surpreende o fato de que a primeira mitzvá mencionada seja, nada menos que, a de cuidar o Shabat, a proibição do trabalho em um dia semanal de contenção.

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Quando o “seguro” é confundido com o inerte

Comentário sobre a Porção Semanal de Ki Tissá

Extraído do livro “La Tora no esta en el cielo” do Rabino Eliahu Birnbaum 

Antes de subir ao Monte Sinai, Moshe adverte o Povo de Israel que permanecerá no alto do monte por quarenta dias e quarenta noites. Tempo este no qual o Criador lhe entregaria a Torá que deveria ser ensinada ao povo.

“E Moshe se atraso….”, diz a Torá, e o Talmud interpreta que o atraso não doi mais de 6 horas. De acordo com o cálculo do povo, Moshe devia ter descido com o amanhecer e não apareceu até o meio-dia.

Foram suficiente seis horas fugazes para que se cosumar uma das maiores tragédias espirituais da história do Povo de Israel. Carente de segurança, um povo que mantinha sua identidade de escravo dependente teve que materializar uma divinidade sem vontade própria, que se encontrasse abaixo do arbítrio de seus próprios criadores simulando orientar e governar. Frente a ausência de Moshe, carentes de seu carisma, a angústia não admite opções intermediárias. O povo, então, se dirige a Aharon e exige a construção de um bezerro de ouro que ocupe a posição de divindade de aí em diante.

A ansiedade resulta, normalmente, em atitudes radicais.

Frente a um atraso de seis horas, em meio a desesperação, ninguém pensou em uma solução transitória, tão próxima a eles. O próprio Aharon, irmão de Moshe, e sacerdote escolhido pelo Criador, tinha por sua vez preparação suficiente para assumir interinamente a liderança do povo até a volta de Moshe. Mas ninguém pediu tal coisa. Ao contrário, lhe exigiram que assuma a responsabilidade de construir o ídolo que suplementaria não somente a Moshe, mas também ao próprio D’s.

Acontece que, na desesperação, tanto antigamente quanto agora, tendem a não ver as soluções mais próximas. O povo inteiro deixa de olhar a sua volta e, olhando para horizontes afastados de outros povos inimigos tomam a decisão de imitá-los.

E é o que os deuses deles, dos outros, estão sempre aí, não nos abandonam, não se movem, não têm vontade. De maneira definitiva: não representam nenhum risco.

É necessário aprender algum ensinamento desta atitude, tão frequente, mesmo em nossos dias. Em busca de espiritualidade, muitos integrantes do nosso povo abandonam implicítamente a tradição que herdaram, mesmo quando nunca a hajam praticado sozinhos. Não lhe concedem, nem mesmo, o benefício da dúvida e se deixam seduzir por dezenas de outras doutrinas estranhas e afastadas, das quais a principal característica é o “exotismo”, a “distância” que representam  e a efetividade que possuem no contexto de suas próprias culturas.

Efetividade não maior do que, no decorrer de milhares de anos, tiveram o “corpus” normativo da Torá e toda nossa tradição para manter unido todo o Povo de Israel em suas relações particulares com outros povos e com o Criador. E segue germinando, adaptando-se ao contexto das novas formas de vida e projetando ao futuro a herança que desde tempos longíquos nos identifica.

O que é um templo senão uma concessão de D’s às necessidades do homem?!

Não é irrelevante, mesmo em épocas nas quais carecemos de um Beit Hamikdash, estudar as precisões da Torá sobre a construção e funcionamento do santuário. O conceito judeu do que deve ser um santuário está irredutivelmente relacionado com o conceito judaico de lar: o lugar no qual se oferece aquilo que possui, consagrando aquilo que existe.

Apesar da distância histórica e, por consequência, psicológica, que nos separa do Mishkan (santuário) e das regras relacionas às oferendas e sacrifícios, é possível, e mesmo necessário, aprender do Mishkan, do santuário que edificaram nossos ancestrais no deserto, e todos seus infinitos ensinamentos e valores que mantêm sua vigência intacta em nossos dias.

Não menos que o centro de convergência dos rituais de oferendas, o Mishkan era o fundamento da memória do povo. Um centro espiritual, cujo propósito e missão consistiam em manter viva a consciência do povo de Israel com respeito aos seus compromissos e obrigações adquiridos aos pés do Monte Sinai.

O Mishkan é um santuário que o povo leva consigo a todos os lugares. Não é D’s que o necessita e sim, os homens que o necessitam. Pois são os homens que o construíram como linha de comunicação direta entre o puramente espiritual e a existência cotidiana, humana, temporal. De algum modo, o Mishkan é uma concessão de D’s a natureza do homem. É a concessão de D’s para que o homem – com todas suas fraquezas -conte com um elemento material que o faça lembrar de suas obrigações transcendentais.

O Mishkan  inclui, a sua vez, quase todos os elementos que transformam um local fechado em um lar. Uma mesa, uma arca – ou armário -, um lavatório, um candelabro. Tudo – fora camas ou artefatos para repousar- que é comum ao conjunto de imóveis de uma casa e do santuário de D’s.

Tal semelhança tende a revelar que toda casa, todo lar, deve e pode – na concepção judaica – tender a igualar-se a um santuário. O “Baal HaBait” – o dono da casa – deve tentar garantir que seu lar possua o grau de pureza, santidade, espiritualidade, propensão a justiça e etc…, que havia no Mishkan, e no Templo de Jerusalém, assim como toda a construção que se compare a estes que existiu ou existirá. De maneira recíproca, a correlação física entre o santuário e o lar busca ensinar que o homem pode e devsentir-se no Mishkan como se estivesse em seu próprio lar.

A ausência, no Mishkan, de camas ou elementos com uma finalidade semelhante da a impressão de que a visita de cada pessoa no santuário é algo sempre novo. O dinamismo e a mudança são a única constância aceita frente  a expectativa perfeicionista da permanente renovação espiritual que inpira a Torá. A cama, móvel aonde o homem dorme, representa o fixo e imutável. Por outro lado, o Mishkan deve ser o lugar da permanente renovação espiritual para o judeu.

Em nossos dias, nos falta o Mishkan, assim como também o Mikdash. Não possuímos nenhum lugar no qual podemos atribuir santidade para cumprir nosso compromisso com o Criador. No lugar deste, instituímos o Beit Haknesset (snagoga) – “lugar de congregação”, pequeno santuário do qual depositamos as funções que outrora concebimos e aceitamos para moldar importantes destinos. O Beit Haknesset serve para nós como o lugar de orações, de estudo, de reflexão. Um lugar no qual o homem deve sentir-se em sua própria casa.

O compromisso do homem com D’s

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Terumá

Retirado do livro “La tora no esta en el cielo” do Rabino Eliahu Birnbaum

 

Esta Parashá nos fornece ensinamentos sobre os fundamentos imprescindiveis para construir uma identidade coletiva. “Fala aos filhos de Israel, que me tragam uma oferta alçada; de todo o homem cujo coração se mover voluntariamente, dele tomareis a minha oferta alçada”, ordena D’s a Moshe. “E esta é a oferta alçada que recebereis deles: ouro, e prata, e cobre… E faça para mim um santuário…”

Basta um minímo de suspeita para se questionar: “Será que D’s, sobre qualquer perspectiva, necessita que o povo contribua para a construção do santuário?”.

Outra vez, assim como acontece normalmente quando buscamos respostas simplistas, esta pergunta evoca o sujeito da questão. Não é D’s que necessita colaborações e nem santuários, e sim, o povo, cada indivíduo do Povo de Israel são aqueles que necessitam, realmente, de elementos materiais que sinifiquem um compromisso real, ações que reforcem uma coesão que os identifique como grupo consistente.

A colaboração econômica de cada indivíduo tem sido, sempre e contínua, um meio eficaz para avaliar, e eventualmente consolidar, o nível de compromisso das pessoas com a identidade coletiva a qual pertencem. Este é o compromisso que deve ser reafirmado a cada momento “cada um de acordo com sua possibilidade”, para que tenha sentido pensar em uma comunicação grupal com o Criador, para que seja acreditável a alternativa de um diálogo entre um grupo humano unânime com seu Redentor. Não é suficiente o “Naasê VeNishmá” – “Faremos e Ouviremos”, pronunciado aos pés do Monte Sinai. É necessário que o esforço coletivo se torne perceptível através de patentizar particularmente o sacríficio de cada indivíduo da congregação.

Até o momento relatado na Parashá, o Povo de Israel é atua como sujeito receptor: foi libertado do jugo egípcio pelo deserto adentro através de milagres e de modo não menos milagroso, recebeu seu sustento. Este é o momento em que o receptor de favores deve corresponder a generosidade divina tornando-se o transmissor. O sujeito passivo de D’s deve tornar-se um ator da sua própria história e realizar para sua divindade um monumento que sintetize sua singularidade frente aos outros povos.

A construção do santuário não está restringida a um setor especial do Povo de Israel. Pela própria essência do significado, e respeitando as possibilidades de cada um, trata-se de uma missão na qual qualquer omissão individual pode invalidá-la. Ninguém pode ficar de fora. Trata-se de um esforço conjunto, comum a todos os beneficiários das graças de D’s y do qual o valor quantitativo é relativo as possibilidades coletivas e individuais.

Mesmo hoje, este esquema permanece íntegro. A entrega individual, sem excessões, segue sendo uma condição necessária para a consistência de toda a identidade coletiva. A colaboração econômica em um projeto conjunto é representada hoje pela soliedariedade com os necessitados de cada comunidade assim como com as necessidade do Estado de Israel que não deixa de ser uma aposta coletiva ao bem-estar de toda a comunidade.

O sentido transcendental que a lei fornece a nossas vidas

Comentários sobre a Porção Semanal da Torá – Mishpatim

Traduzido do livro “La Tora No Esta en el Cielo” do Rabino Elyahu Birnbaum

 

“Estes são os estatutos que lhes proporás. Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça.” (Shemot 21:1-2)

A essência legislativa da Torá está localizada nesta Parashá. Não porque contenha o maior número de mandamentos (com 53, não muito atrás dos 63 da Parashá “Emor” e dos 74 da Parashá “Ki Tetzê”), mas sim, pois, seu próprio nome define seu caráter fundamental. “Mishpatim” significa leis. Uma vez que a maioria das pessoas considera que o judaísmo um compêndio sistemático de leis, é racional afirmar que a seção da Torá dedicada a “mishpatim” nos fornecerá a definição e os significados básicos de nossa religião.

A partir da teofonia momentânea no Sinai – da qual lemos na semana passada – a Torá vêm, agora, ensinar-nos que o D’s da revelação é simultaneamente o D’s que comanda e que ordena. A unidade do judaísmo se apoia na legislação totalizadora – holística, como se diz atualmente – que engloba todos os aspectos da vida, tanto da pessoa, quanto da comunidade. E, desde que o judaísmo se preocupa, não menos, com os acontecimentos sociais tanto quanto os religiosos, o mais notável desta Parashá parece ser a convergência entre o “civil” e o “ritual” -o entrelaçamento dos direitos e estragos em uma propriedade com a santidade do Shabat e detalhes de Kashrut.

Mishpatim começa com mais de sessenta versículos dedicados a legislação civil para então dirigir-nos imediatamente a proibição de oprimir um estrangeiro. Nos proíbe inclusive a opressão da terra, ao instruir-nos repousar a terra a cada sete anos – assim como devemos fazer com nossos escravos, empregados e animais, que devem descansar – não menos que nós mesmos – a cada sete anos. Cada aspecto da criação merece seu espaço específico e, por conseqüência, o Shabat – descanso e celebração nacional – é enfatizado tanto em consideração a nação como um todo, tanto como para cada indivíduo. A Parashá conclui com o tema de Kashrut, inculcando a mensagem de compaixão pelo mundo animal quando proíbe “cozinhar o filho com o leite de sua mãe”.

Contudo, o judaísmo é muito mais que um sistema legal, ainda que a legislação judaica seja importante e global. Apesar de que a tradução grega da Bíblia de dois mil anos, conhecida como “Septuaginta” traduza o termo hebraico “Torá” como “nomos” (ou seja, “normas”), o verdadeiro significado literal de “Torá” é ensinamento, referência que conota uma amplitude muito maior de que somente as leis, isoladas. Além disso, a Torá está repleta de histórias, contos e poemas cujos alcance são muito superiores a qualquer material legal. O Talmud (Lei Oral) é uma brilhante antologia de perguntas e respostas, discursos ontológicos, contos biográficos e metáforas morais. Caso não fosse o judaísmo uma religião “de direito”, seus textos mais importantes deveriam ser apresentados em uma estrutura similar ao direito romano ou inglês.

A mensagem desta Parashá nos ensina que a lei certamente oferece um sentido transcendente a nossas vidas cotidianas e também exige de nós um compromisso religioso visando o monoteísmo ético.

A custódia pessoal que exerce D’s sobre cada um de nós

Comentário sobre a Porção Semanal da Torá – Itró

 

Nos deparamos nesta Parashá com um dos legados mais importates que o judaísmo brindou a humanidade. Na Parashá de Itró são apresentados os dez mandamentos ao Povo de Israel. Continue reading “A custódia pessoal que exerce D’s sobre cada um de nós”

Redenção Material e Espiritual

A redenção de Israel do Egito é a raíz de todas as redenções, e é a base da existência de Israel até o presente, e é através desta que conquistaram o mérito de receber a Torá e entrar na terra de Israel. Sendo assim fomos instruídos a lembrá-la duas vezes por dia, de modo que nossos sábios acrescentaram esta lembrança às preces de Shacharit e Arvit. Deste modo, lembramos também no Birkat Hamazon (agradecimento após as refeições) e em outras orações.

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