A diferença entre paz e shalom

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Nassô

 

“O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz”. Esta é a bênção que a Torá instrui sair da boca dos Cohanim, os sacerdotes, para todo o povo de Israel.

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Os Espiões de Moisés

Comentário sobre a Porção Semanal da Torá – Bamidbar

 

Esta parashá nos apresenta um dos acontecimentos mais dramáticos e decisivos que aconteceram aos nossos patriarcas no deserto, em seu caminho desde Egito a terra prometida. O trajeto entre o Monte Sinai e Eretz Israel deveria durar alguns dias apenas. O povo saiu do Egito acompanhado pela nuvem Divina e através de grandes milagres se encaminhava para Ertz Israel.

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Adultos

Comentário sobre a Porção Semanal de Chukat

 

 

“Déja Vu”

Na porção da Torá de Chukat, nos deparamos com dois eventos que apontam a mesma direção. A “pedra” e a “cobra de cobre”.

Ao ler sobre o evento da pedra, quando Moshe a golpeia para que saia água pura, e assim saciar a sede do povo, sentimos um lampejo de “déjà vu” (sensação de já haver passado por esta situação).

Na verdade, já no capítulo 17 de Êxodo, na porção da Torá de Beshalach, o povo protesta contra a falta de água e Moshe recebe a ordem divina de golpear uma pedra com seu cajado, para assim, fazer sair água. Este manacial os acompanhou durante toda a longa jornada de quarenta anos no deserto.

Este pedido de água foi acompanhado por uma questão séria: “Está o Senhor conosco, ou não” (Id. 17: 7). O povo havia pensado que o Criador poderia haver-los abandonado, por não fornecer a água necessária para seus sustentos. É como a continuação do protesto do qual lemos no capítulo que antecede este pedido, (Êxodo 16: 3). “Nos trouxeram a este deserto para matar a toda esta congregação, de fome”. Trata-se de uma falta de confiança que nasce e nutre-se, obviamente, da falta de familiaridade, ou da experiência, com os caminhos do Criador. A única solução é deixá-los experimentar esses caminhos divinos.
Aprendizagem a Longo-Prazo

Durante os quarenta anos que permanecerão no deserto, passrão por uma longa experiência no deserto, e uma difícil aprendizagem. O Criador onipresente e onisciente os acompanha. Observa seus atos e pensamentos, reagindo imediatamente, como reagiu a profanação dos filhos de Aharon, do recém-inaugurado Tabernáculo.

Mas não quer ensinar-lhes com portentosos milagres súbitos, e sim através de um milagre que se repete uma e outra vez, todos os dias, exceto no Shabat. No qual, experimentavam cada um, pessoalmente, confiando em que “amanhã vamos ter o nosso Maná, assim como tivemos hoje”.

Quarenta anos se passaram quando chegamos na Parashá de Chukat. E, novamente, o episódio com a pedra, se repete.

Nossos sábios nos dizem que o manancial surgiu há quarenta anos, e suportou todos os anos de exílio pelo grande mérito de Miryam. O mérito das mulheres que enviam seus maridos para estudar até tarde da noite, esperando por eles com amor, entendendo que a bênção da casa depende do estudo da Torá. E o estudo da Torá depende deles, como seus alunos. Como disse o grande Rabi Akiva, “tudo o que tenho e que vocês podem ter, é mérito da minha esposa Rachel (que lhe permitiu estudar por muitos anos).” É a água que sacia a sede de sabedoria. Quando Miryam morre, o manancial seca, e o povo deve voltar a trabalhar para conseguir sua água.

 
Parecido, mas não idêntico

O povo protesta, como havia feito quarenta anos antes, e Moshe recebe uma resposta muito semelhante a aquela que recebeu pela primeira vez. Parecida, mas não idêntica. “Agarre seu cajado, reuna o povo, você e seu irmão Aharon, e falai à pedra perante seus olhos, e assim, lhes darão suas águas; e da água que retirarais da pedra, darais de beber à congregação e aos seus animais” (Bamidbar 20: 8).

Moshe se equivoca e, ao invés de “falar” com a pedra, ele a golpeia, assim como havia feito, com sucesso, na última vez. ‘Se pede para agarrar meu cajado, deve ser para golpear’ e não leva em consideração que se passaram quarenta anos. Supõe-se que neste momento tiveram tempo para amadurecer, já haviam se tornado “adultos”.

O golpe que pode, ou não, ser dado a criança, deve ser acompanhado de explicações, em nome de sua educação. Deve ser suave, sem raiva ou vingança, sempre mostrando o amor que está por trás disso. Deve ser realizado com a mão esquerda, a mais fraca. Acontece quando não há mais outras opções e não existe mais remédio. Ocorre em porções mínimas e, raramente. E em uma certa idade, já está proibido golpear, e a única coisa que conta é o ensinamento oral, as explicações.

Sim, o cajado deve estar presentes, para fazer lembrar o quão sério é o problema. Mas não para bater. Somos adultos.

 

 

Olhar em seus olhos

Sobre a questão da serpente, o ensinamento aqui é muito mais profundo.

Se aventuraram no grande deserto da Síria, local inóspito e cruel. Têm sede e temem as feras do deserto. E então, protestam.

Aparecem as cobras venenosos ou ‘ardentes’ (“serafim” – no hebraico), como chama a Torá. O que, ou quem, são essas cobras? Sabemos: cobra é igual a ‘Yetzer HaRá’, a inclinação má. Cobras aparecem e mordem as pessoas, e as pessoas morrem dessas mordidas.

Como sempre, vêm de encontro a Moshe para que interceda com o Criador e assim, possa salvá-los.

Mas desta vez, a reação de D’us é muito diferente. Ele diz a Moshe para preparar uma cobra de cobre e posicioná-la no topo do mastro, de modo que as pessoas a vejam e assim, se curem.

Que tipo de mágica é essa? Acrescentemos que, antes de dar a nossa explicação, deste episódio que os farmacêuticos retiraram a idéia do famoso símbolo da enfermagem: uma cobra enrolada em uma vara ou em um copo. É verdade que a versão grega explica dizendo que, do veneno de cobra são extraídos os concentrados que são a base das drogas farmacêuticas, mas nós apresentamos uma versão diferente.

Responde o Criador para o povo: “Basta de pedir magia, ajuda milagrosa para resolver seus problemas”. Agora são adultos.

Levante a cobra e a encare nos olhos. Reconheça o problema, onde nasceu, como se alimenta, como cresce. Olhe-a nos olhos e lute com ela. Agora vocês são adultos. Têm força. Não tenham medo: não é nada mais do que uma cobra. Assim como a serpente que Moshe agarrou pela cauda e esta transformou-se em vara na sua mão.

 

 

 
De Mal à Bom

A ‘inclinação para o mal’ é ruim porque a usamos mal. Deixamos nos levar por instintos mal-educados. Se aprendemos a usar essa mesma inclinação no caminho certo, esta, torna-se, automaticamente, uma “boa inclinação”. Se aprender a educar seus instintos, eles irão parar de incomodar e tornar-se-ão seu melhor aliado, sua maior ajuda, uma vez que o Criador lhe presenteou com este, para que os use, mas para usá-lo corretamente, é claro.

Vícios tornam-se virtudes. As virtudes são polidas e refinadas. O trabalho é difícil, sem dúvida. Talvez seja uma das principais tarefas que temos em nossa vida, ou talvez apenas a preparação necessária para levar a cabo uma missão muito mais importante. Ou talvez, ambos ao mesmo tempo.

Somos adultos, e exigimos dos adultos que trabalhem sobre si próprios para resolverem seus problemas. Podemos aconselhar, podemos fornecer os meios e as condições, mas o trabalho são os próprios adultos que devem fazer.

Somos adultos e aprendemos a confiar no Criador. Aprendemos a melhorar nossas habilidades e usá-las corretamente. Há falhas, sempre existem, “um homem justo cai sete vezes, e se levanta” (Provérbios 24:16). Os ímpios caem e se desesperam, enquanto que o justo se levanta, limpa a poeira da queda e retorna ao trabalho, sem nunca, nunca, perder a esperança.

Leite e Mel

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Shelach

 

Leite e Mel

Os Filhos de Israel chegaram às portas da Terra Prometida e se preparam para entrar e conquistá-la. Quase um ano se passou do momento em que estiveram aos pés do Monte Sinai, quando receberam a Torá e construíram o Tabernáculo. Em seguida, um caminho que deveria ter durado apenas 11 dias, acabou demorando quarenta dias que terminaram com a decisão de enviar espiões para a verificar a situação da Terra Prometida.

Quando os espiões retornam, após mais quarenta dias, declaram que, de fato, trata-se de “uma terra que emana leite e mel” (Números 13:27). Mas…

Há sempre um “mas” que estraga tudo.

Sendo que os frutos são tão bons, verifica-se que os habitantes do país, que os consomem diariamente, ‘são muito fortes e suas cidades inexpugnáveis. Também há gigantes…’.

Claro. Toda moeda tem dois lados. O que esperavam? E mesmo assim, a mão divina preparava tudo, de modo que suas forças, de nada lhe serviriam. “Uma terra que devora seus habitantes” (id. 13:32), acusam os espiões, explicando que a cada lugar que chegaram encontram, pelo menos, um funeral. Sem compreender que se tratava de uma intervenção divina, já que morriam os últimos cidadãos que poderiam, verdadeiramente, apresentar algum perigo aos filhos de Israel.

 

 

Sombra Divina

Em cada povo existem pessoas, poucos ou muitos, dignos de serem considerados verdadeiros “humanos”. Pessoas com virtudes bem desenvolvidas, bem cultivadas, que sabem como usar as habilidades que receberam, que se esforçam para obter novas habilidades com as quais possa praticar o bem com sua família, sua sociedade e o resto da humanidade. Pessoas que, sem dúvida, podem ser consideradas como representando a “imagem divina”, no verdadeiro sentido da palavra.

Graças a estas pessoas, que crescem dentro de cada uma das nações, o país no qual que vivem pode se desenvolver, crescer e prosperar. Estes são como um “guarda-chuva protetor” de seus compatriotas. Não existe nenhum país que não possua, muitos ou poucos, indivíduos assim. Temos de aprender a reconhecer e apreciar-los, onde quer que estejam.

Certamente não se parecem em nada com aquilo que consideramos ‘uma boa pessoa’, de acordo com os critérios de judeus, uma vez que, certamente, estarão imersos em idolatria, em ideologias erradas ou detenrão algumas falhas importantes que nos impedem de ver as virtudes que possuem e que praticam. Uma coisa não deve anular a outra, já que a pessoa humana é formada por diferentes facetas e nem todos são capazes de coordená-las entre si e encaixá-las, mutuamente, em um todo coerente. São estes os Justos Entre as Nações.

Acontece, então, que o país se deteriora de tal forma que estes poucos indivíduos com uma “imagem divina” simplesmente desaparecem do mapa. Ou porque os perseguem e os matam, ou porque se retiram para buscar um lugar mais calmo. E então, o país acaba ficando sem proteção. É um conjunto de letras em hebraico, intraduzível: a Torá diz que “foi retirado sua sombra sobre eles” (id. 14: 9), escrevendo ‘sombra’ com três letras hebraicas: ‘tsadik’, ‘lamed’ e ‘mem’ ‘(=‘tsilám’). Estas três letras, são as mesmas letras que formam a palavra B’Tselem – ‘a imagem’. Ao dizer que “retirou sua sombra”, também quer dizer que “a imagem (de D’us) os abandonou”.

Nossa obrigação, hoje e sempre, é ajudar de toda forma possível que estas pessoas conservem sua “imagem divina” para então, prosperar e influenciar positivamente sobre o resto da população. Como disse, isso pode ser muito “difícil” para um judeu, pois, certamente, essas pessoas são culpados de idolatria ou algum outro problema, mais ou menos graves. Como pode um judeus apoiar idólatras? Obviamente que isso não se trata de apoiar a idolatria, D’us nos livre! Somente o lado negativo de uma pessoa que, por sua grande desgraça, a pratica. Temos de aprender a definir, para nós e para eles, erros e acertos, para deixar claro que apoiamos-los apenas em atividades positivas. Claro que, se somos capazes de ajudá-los a se afastarem dos erros e focarem no atendimento ao Criador, esta será uma situação muito melhor, mas isso é uma outra questão…

 

 

Gigantes Instáveis

Os espiões regressam com amostras dos frutos do país. Os frutos da Terra Santa possuem propriedades especiais que dão uma força sobrenatural àqueles que os consomem. O que então fazer com esse poder? Esta é outra questão. Caso você tenha desenvolvido com êxito suas virtudes, e saiba como usar essas energias para praticar o bem. Caso contrário, estas serão usadas para causar grandes danos. A Torá diz que os habitantes eram “homens de ação”, uma expressão também usada para descrever as qualidades de cada um, virtudes ou defeitos. Possuíam medidas extraordinárias, muito além daquelas que podem ser encontradas em outros lugares. Pessoas altamente qualificadas. Mas, qualificadas para quê? Como utilizavam seus poderes, suas qualidades?

A Torá nos conta sobre uma espécie de gigantes chamados de “Nefilim”. Uma expressão estranha. A palavra vem do verbo ‘cair’, ou seja, eram os “caídos”, ou, mais propensos a cair. Por um lado, eles são gigantes, por outro lado, tendem a cair. São instáveis em sua grandeza.

Possuem talentos, habilidades e até mesmo algumas virtudes, mas não as tratam da maneira adequada e, portanto, tendem a perdê-las muito facilmente. Ou a deformá-las, ou mesmo, usá-las incorretamente.

 

 

Não Nega a Recompensa

Claramente podemos acrescentar que, sem a Torá, e todas suas indicações que explicam como praticar o bom uso das qualidades e como polir as virtudes, eles não poderiam ir muito longe. Ainda assim, devemos entender que o fato de que alguém que não tenha crescido com os ensinamentos da Torá, não significa que, automaticamente, este não irá fazer bom uso de seus talentos e não desenvolverá suas habilidades afim de ser uma boa pessoa. Para isto, “basta” que esteja interessado em melhorar, em se esforçar para ser uma boa pessoa, e, certamente, o Criador estará à sua disposição através dos meios necessários. De acordo com o interesse que demonstram em melhorar, aprenderão a fazer bom uso de suas qualidades. Caso contrário, seria uma grande injustiça punir aqueles que não tiveram oportunidade. Pelo contrário, o Criador não nega a recompensa merecida à qualquer uma das suas criaturas.

A Torá é uma ferramenta que nos permite alcançar “mais além” do que aquilo que poderíamos  alcançar com instrumentos meramente humanos. Ela nos permite obter todo o potencial oculto em cada uma das habilidades e talentos. Ela nos permite concentrar-los mais facilmente no objetivo real, no contato do homem com seu Criador.

 

 

Leite e Mel

Portanto, ao tratar de “gigantes instáveis”, estamos nos referindo a pessoas que confiaram em sua “grandeza” e não se preocuparam em se estabilizar. Pessoas que não se empenharam em construir uma base ampla e sólida para trabalhar e definir adequadamente cada uma de suas virtudes. dando-lhes o desenvolvimento prático que necessitam.

É o perigo daqueles que comem o fruto da Terra Santa: são frutas que fornecem forças sobrenaturais. Se usado para o bem, será extremamente positivo, contudo, caso sejam usados para o mal, serão bastante negativos. Aqueles que têm o grande prazer de viver na Terra da Profecia, a Terra Santa, devem ter muito cuidado com isso. Devem saber aproveitar as energias que nos dão os frutos deste país que emana leite e mel, concentrando-os na meta mais apropriada, sem permitir desperdiça-las em falsas metas.

Caso fizermos isso de acordo com as instruções da Torá, alcançaremos grandes sucessos, tanto a nível científico quanto espiritual. As instruções estão na bênção que dizemos após o consumo dos “Cinco Frutos”: “comer-los com santidade e pureza”. Um tema que merece um estudo mais aprofundado, em uma outra oportunidade…

A Pureza do Acampamento

Comentário sobre a Parashá de Naso

 

Proteção Garantida

Que alívio poder estar em nossas casas com nossas rotinas e nossos bons costumes, resultados de um duro trabalho de preparação e escolhas adequadas ao longo do tempo, adquirindo bastante experiência própria! Ao longo da vida, criamos à nossa volta algumas paredes de proteção para evitar más influências e afastar agentes nocivos. Criamos sistemas que nos avisam quando o perigo se aproxima, permitindo que tenhamos tempo para preparar-nos adequadamente para a luta e obter uma vitória relativamente fácil. Temos algumas proteções garantidas.

Apenas quando viajamos, quando deixamos nossas rotinas, é que precisamos de mais proteção. O primeiro passo para obtê-la, depende de nós mesmos. Devemos estar conscientes do perigo que se esconde na estrada e deixar os olhos bem abertos para reconhecer os riscos e as contingências que podem surgir.

 

Diferentes Cenários

Cada cenário apresenta seus perigos específicos. Portanto, cada contexto exige, também, a sua preparação específica. Não podemos iniciar uma viagem para o deserto, sem uma boa provisão de água, mesmo sabendo que existem mananciais ao longo do caminho, uma vez que existe a possibilidade que secaram, e assim, não haverá nenhuma outra possibilidade de se abastecer. Não podemos realizar excursões para a selva sem armas ou recursos que nos protejam dos animais, das cobras venenosas, dos insetos nocivos, e nem podemos confiar em encontrar água cristalina que não esteja contaminada ou com potenciais sanguessugas.

Os soldados que saem para alguma espécie de expedição de combate, sabem que devem ter suas armas propriamente limpas e prontas para uso. Devem treinar diariamente para montar e desmontar armas, separar as munições prontas para utilização – cada tipo de munição de acordo com a arma correspondente. Em muitas ocasiões, os soldados não são permitidos a, nem mesmo, removerem suas botas, e não estão autorizados a abandoar suas armas e nenhum momento.

Como vimos, o livro de Bamidbar é o livro do Caminho. O povo de Israel de despede do Monte Sinai, aonde receberam a Torá, em direção a Terra de Israel, a qual o Criador havia prometido a seus patriarcas. Nesta longa viagem eles devem cruzar um deserto com graves perigos à espreita, não somente físicos, como também espirituais.

 

A Pureza do Acampamento

Portanto, uma das primeiras ordens que recebem é limpar o campo de agentes nocivos.

O acampamento de Israel é dividido em três áreas: o próprio acampamento, a área dos levitas e a área do Tabernáculo. Cada zona possui suas próprias características, mais e menos sensíveis. E assim, a Torá comanda expulsar todos os impuros do campo até que resolvam seus estados de impureza.

Nossos sábios explicam que estas três áreas diferentes possuíam diferentes sensibilidades, como o verso diz, “Ordena aos filhos de Israel que lancem fora do arraial a todo o leproso, e a todo o que padece fluxo, e a todos os imundos por causa de contato com algum morto”.

 

A Pureza Social

Primeiro, estão os leprosos.

Já vimos que não se trata da lepra presente nos livros de medicina, mas uma espécie de doença psicossomática que aparecia como uma advertência e punição por um comportamento anti-social nefasto, por fofocas e pela difamação de seus pares ou família. Certamente, este comportamento resulta em uma deformação moral da pessoa que se sente acima dos outros e a faz pensar que todos estão abaixo dele. Um orgulho injusto e prejudicial.

Claro que, se nós mesmos não estamos satisfeitos, não poderemos realizar nosso trabalho. Deve haver um pouco de “orgulho” em nós, no nosso papel no mundo. Devemos confiar em nós mesmos e em nossas habilidades, para que possamos superar os problemas que surgem em nossas vidas.

Embora de modo algum possamos menosprezar os outros, a não ser aumentando nosso próprio valor através de nossas boas ações, quando o processo positivo se torna um desprezo pelos outros, a pessoa se torna um grave perigo para a sociedade. E na sociedade sobrenatural do povo de Israel, a mancha de lepra serve para removê-lo da sociedade.

Portanto, estes leprosos deveriam ser expulsos do acampamento até que fossem capazes de resolver o seu mau comportamento e poderem ser reintegrados à sociedade. O processo de reabilitação e purificação funciona como estudamos nas Parashiot de Metsora e Tazria assim como no livro de Levítico.

 

A Família

Em segundo lugar, existem aqueles que ameaçam a estabilidade da família.

Este é um problema que afeta a camada mais alta da pessoa humana, de modo que os erros que ocorrem nestas questões afetam apenas aqueles que querem entrar na área dos levitas.

O nome desta tribo vem do verbo ‘Liva’, que significa “acompanhar”, como foi dito quando nasceu Levi “desta vez meu marido me acompanhará”, também insinuando que os membros desta tribo “acompanham o Criador” ao serem responsáveis em cuidar e transportar o Tabernáculo. É muito clara também a insinuação de que as relações conjugais são comparadas com as relações íntimas entre o Criador e Seu povo – comparados em muitas ocasiões com o noivo e sua namorada ou o marido com sua mulher.

Deste modo, fica claro que qualquer ameaça à instituição do casamento ou contra os laços que devem conectar o marido com sua esposa, automaticamente impede a entrada deste sujeito na área dos levitas, assim como sua presença impura obstrui a relação íntima da nação com o criador.

No livro de Devarim existe um outro parágrafo, no capítulo 23, que fala da pureza do acampamento, concentrando-se especificamente sobre a impureza sexual. Chama a atenção para o fato de que precisamente nos casos de perigo, “o Senhor ‘anda’ dentro de seu acampamento para salvar-lhe e para entregar seus inimigos em suas mãos, para que, assim, seu acampamento seja santo, para que não veja em você algo negativo e fiqe longe de você.”

 

A Santidade da Vida

A terceira área é a área consagrada do Tabernáculo. Coisas que não eram tão sérias para impedir a entrada na área dos levitas e no resto do acampamento aqui tornam-se grave. Se trata do contato com a morte.

Qualquer pessoa que tenha sido colocado em contato direto ou indireto com a morte, de acordo com as orientações do Capítulo 19 deste livro de Bamidbar são impedidas de entrar nesta área consagrada.

O Tabernáculo é a fonte de vida para nós, e as almas traumatizadas pela morte não são capazes de explorar adequadamente as virtudes deste lugar e podem, inclusive, contaminar esta fonte com a sua mera presença pessimista. A vida é sagrada em si, e devemos não só salvaguardar esta santidade, mas também aumentá-la, cumprindo os mandamentos da Torá.

Quando entramos em contato com um cadáver humano, a nossa alma imortal passa por um trauma, um pessimismo espiritual que o faz pensar que não poderia exercer sua função de santificar o corpo e elevá-la acima da morte. No livro de Devarim (30: 15-20), aprendemos que o cumprimento dos mandamentos, a devoção ao Criador e o caminho que Ele nos indica, é o que nos dá a vida, e quando nos afastamos destes elementos, a morte vem para cima de nós.

Aqueles que entram em contato com experiência traumatizante da morte, poderiam pensar que a vida é frágil, que a santidade não pode fornecer a imortalidade esperada, e, assim, caíriam em um pessimismo prejudicial.

Antes de mais nada, estes devem purificar seus sentimentos e seus corpos, para então se livrar da má influência da morte, a negatividade, o pessimismo, o “anti-vida”, e só então poderão acessar a fonte da vida.

 

Fora da Nuvem

Nossos Sábios explicam que aqueles impuros, excluídos do campo de Israel também eram expulsos da proteção especial da Nuvem Divina, que cobria o campo de Israel.

Cabe lembrar que em lembrança a essa nuvem protetora é que comemoramos a festa de Sucot, do “das Cabanas”, que de acordo com uma das opiniões, se tratava precisamente dessa defesa divina sobrenatural que nos acompanhava durante toda a longa viagem através do deserto.

Mas esta proteção é diretamente dependente de nossos esforços diários, e aqueles que perderam a confiança em suas próprias forças, caíam então em uma impureza que parecia excluí-los da salvaguarda especial, delegando-os às forças da natureza, infinitamente inferiores ao sobrenatural.

 

Obtendo Santidade

Em nossas vidas privadas temos, também, em nossa personalidade, o aspecto social, familiar e da vida, que devemos preservar no seu estado de pureza espiritual e físico. Os meios para realizá-lo são os mandamentos da Torá e aas instruções que nossos Sábios nos passaram durante séculos de experiência e trabalho duro.

Pode-se dizer que estamos continuamente a caminho, constantemente alterando as regras que estavam anteriormente em vigor, enfrentando novos desafios. Com perigos incomuns aqueles que estamos expostos em nossa geração, devemos nos esforçar para ser dignos de muita Santidade, de uma vida verdadeira, tanto em nosso mundo, quanto no próximo. A solução não vem sozinha, devemos nos esforçar para alcançá-la, por adquiri-la e não a perder.

Os instrumentos, os mandamentos da Torá que serviram para nossos antepassados ​​e que discutimos aqui brevemente, servem perfeitamente para nos ajudar neste trabalho hoje em dia. Devemos, somente, entende-las corretamente, de acordo com as orientações de nossos Sábios transmitidas a nós nos Livros Sagrados do Midrash, do Talmud, dos livros de ética judaica. Devemos nos esforçar diariamente para evitar cometer erros na interpretação destas instruções e procurar saber como realizá-las.

Rotina e Estrada

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Bamidbar

 

 

A Boa Rotina

Muitas pessoas temem sair da rotina. Constroem a sua volta um mundo repleto de paredes intransponíveis, que lhes permite viver uma vida tranquila, sem a necessidade de repensar seus princípios, sem ter de lutar contra os possíveis adversários que possam surgir. Em sua rotina preparam todo o necessário para superar os possíveis perigos sem esforços exagerados que desgastem seus recursos.

Sem dúvida, existem muitas vantagens neste tipo de vida tranquila, que permite concentrar as forças em desenvolver a criatividade, ao invés de desperdiçá-las, repelindo inconvenientes. Quando vivemos uma vida tranquila e pacífica, podemos nos dedicar ao que realmente queremos, sem ter que preocupar-nos com a extinção de incêndios inesperados.

Quando a vida é bem planejada, temos tempo para um estudo mais profundo da Torá, examinando cada item e detalhe separadamente, com suas condições e desvantagens sem misturar um com o outro, um estudo de laboratório.

 

 

A saída do Castelo

O problema começa quando saimos deste castelo, seja porque caíram as muralhas ou pois não foram o suficiente para repelir os perigos. E, então, devemos direcionar nossos caminhos para um lugar melhor. De repente, percebemos que nossas rotinas foram alteradas e, não podemos mais, seguir nossas vidas como planejado inicialmente.

Isso não significa que a nossa educação haja sido pobre, e nem que as lições não foram devidamente registradas em nossa personalidade. Em absoluto. Somos humanos, e isso significa, entre outras coisas, que podemos esquecer, nos cansar, nos distrair e perder a direção e o norte. E é precisamente por isso que são tão importantes as rotinas adequadas.

Por esta razão é tão perigoso perder a direção na estrada. Perdemos uma muralha e ainda não alcançamos umbusinessmanwalkingdownroad2a outra cidade muralhada. Anteriormente haviam ladrões que lançavam contra as caravanas, ou animais ferozes à espreita na vegetação rasteira esperando para pôr em perigo os pedestres.

 

 

Estradas Intelectuais

Isto também se reflete nos caminhos intelectuais e espirituais. Enquanto estamos envolvidos por paredes de conhecimento sólido e coerente, podemos nos desenvolver em silêncio, devagar e calmamente, como deveria ser.

Até uma parede cair ou sermos forçados a sair ao ar livre. E, então, nosso mundo intelectual ou espiritual é colocado em sério risco.

A rotina dos últimos séculos entrou em colapso. Embarcamos em uma viagem para o desconhecido.

As novas descobertas: primeiro a televisão e em seguida, a Internet; a globalização; a perda de privacidade; a exposição a idéias estrangeiras; imagens que penetram sem aviso prévio ou permissão em nossa privacidade; e etc. Isto tudo faz com que nossas muralhas desmoronem e, qualquer tipo de rotina positiva, seja seriamente alterada.

 

 

Instruções para a Estrada

Para isso temos instruções que nos ajudam a enfrentar os perigos da estrada. Do mesmo modo que, antigamente, saía-se armado para as viagens – especialmente aquelas realizadas a noite – se contratava um bom guia que conhecesse o caminho a se enfrentar e localizavam com antecedência uma fonte de água limpa para caso necessitassem refrescar-se. Do nosso jeito, mais moderno, também levamos um bom guia conosco para nos mostrar as fontes da vida, e que nos fornece orientação e incentivo. Devemos também conhecer as novas armas que nos permitem uma defesa eficaz. E devemos aprender a usá-las corretamente.

O livro de Bamidbar se trata do livro da estrada. Neste livro consta, por vezes de maneira encriptada – como é habitual nos livros da Torá – estas precisas instruções. Ele fornece as ferramentas e armas necessárias para percorrer o caminho sem medo. Nosso guia para chegar ao nosso destino sem sofrer danos desnecessários.

 

 

“Truques” Vitais

Já no livro de Gênesis, aprendemos do nosso patriarca Yaacov uma primeira orientação a se ter em consideração antes de sair ao desconhecido. No capítulo 28, ele deixou sua casa, fugindo do seu irmão, e ao despertar de um sonho profético se armou com uma promessa que lhe ajudaria a superar os perigos da estrada e de sua permanência no exterior.

Yaacov era somente uma pessoa, e estava bem preparado para enfrentar os perigos, mas não faltaram problemas. Quando se trata de uma população inteira, ou quando se trata de uma pessoa menos preparada, é evidente que a preparação deverá ser mais trabalhosa.

Na porção da Torá de Bamidbar aprendemos as primeiras lições. Em primeiro lugar, um censo. Um bom alpinista sabe que objetos tem guardado e sabe exatamente aonde estão, para que seja capaz de encontrar tudo o que precisar sem ter que perder tempo buscando. Cada coisa possui seu lugar e este lugar é acessível, e assim, sou capaz de encontrá-lo cegamente, mesmo sob estresse. Existem suficientes peças de reposição e estão em boas condições.

 
O Acampamento e suas Qualidades

A distribuição bem ordenada em um acampamento permite que o general saiba como usar suas tropas em caso de perigo. Pois cada um possui suas qualidades, únicas e específicas  e, geralmente, conhece e é capaz de usá-las no momento certo: um é um bom atirador, outro é um especialista em tecnologias e outro tem uma força física incomparável. Cada um com sua ‘segulá’, seu tesouro, sua capacidade específica. Não são as mesmas capacidades que possuem as tribos de Dan ,Yehuda ou Naftali. Cada um tem a sua missão no acampamento e o lugar aonde é possível desempenhar seu papel com o máximo de precisão.

E no centro do acampamento estavam os levitas, que substituíram os primogênitos para executar a função mais importante: cuidar do tesouro dos tesouros e transportá-lo corretamente com sua cobertura. É o tesouro espiritual, o contato direto com o Criador, que deve ser mantido em uma proteção adequada em tempos normais e mais ainda em tempos conturbados.

O livro de Bamidbar nos proporcionará mais detalhes, mais e mais truques vitais que nos permitam atravessar o deserto árido e enfrentar o perigo que nos ameaça. Em cada palavra e expressão estão os detalhes, em quase todas as letras que enriquecem o contexto e adicionam uma nova visão, um subtópico que será muito útil, e muitas vezes vital, em nosso caminho.

Para governar é necessário compreender e guiar cada um dos governados

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Pinchas

 

A sucessão de Moshe na liderança de Israel é o tema central desta Parashá. Moshe sabe que morrerá e reza a D’us para que escolha um bom líder para guiar o povo quando ele não esteja mais.

“Então falou Moisés ao Senhor, dizendo: O Senhor, D’us dos espíritos de toda a carne, ponha um homem sobre esta congregação, Que saia diante deles, e que entre diante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar; para que a congregação do Senhor não seja como ovelhas que não têm pastor.”

Moshe não se preocupa por ele mesmo e sim, pelo povo. Se angustia com a possibilidade de que o povo se encontre sem um líder que lhes possa guiar.

Moshe conhece o povo, lhes serviu como um líder por quarenta anos. Neste momento roga a D’us que escolha, quando ainda esteja vivo, uma pessoa para sucedê-lo nesta dfícil missão.

Moshe quer participar da eleição do novo líder, quer assegurar-se que seja alguém que entenda as necessidade do povo. Ele deseja poder instruir este sucessor e treiná-lo para que, assim, possa adquirir a convicção de que todo o esforço que foi investido durante tantos anos não tenha sido em vão e não se perca pela falta de alguém que continue este trabalho.

Moshe especifica as qualidades que seu sucessor deve possuir. Antes de tudo deve ser “um homem sobre a congregação”, que atenda e entenda as necessidades do povo. Deve ser um homem sensível as expressões e ao que acontece com as pessoas. Deve ser sincero e possuir uma profunda vontade em ajudar ao próximo, a qualquer momento.

“Um homem que possa orientar e dirigir o povo, de acordo com suas necessidades”. Aquele que suceder Moshe na liderança do povo deve possuir uma linha e objetivos claros, porém deve também levar em consideração e saber canalizar as necessidades e inquietudes daqueles que são liderados.

Rashi em sua análise, indica que a pessoa que Moshe está buscando deve ser capaz de demonstrar sensibilidade com cada indivíduo. “D’us Você conhece o caráter de cada pessoa e Sabe que um não é igual ao outro. Escolha um pastor que saiba compreender e conceder a cada um deles de maneira individual”. Assim revela Moshe seu desejo, sentindo, por experiência própria, que um lider somente terá sucesso com o coletivo se souber alcançar cada indivíduo separadamente.

Moshe também exige para a congregação um homem “que saia diante deles, e que entre diante deles, e que os faça sair, e que os faça entrar”, em outras palavras, que seja um dirigente que acompanhe seu povo, “saindo e entrando com eles”. Não um dirigente como aqueles que os outros povos possuem, que enviam seus exércitos as guerras enquanto permanece no conforto de seus palácios. No povo de Israel, o rei, ou aquele que ocupa o papel de líder, sai a guerra encabeçando seu exército. Mesmo hoje, ao sair para o campo de batalha, os oficias do exército de Israel dizem “Acharai” (atrás de mim), e saem, com o oficial encabeçando o batalhão.

Contudo não se trata somente de “conduzir-los”, e sim, também, de trazê-los. Levar um povo a guerra é relativamente fácil. Aonde a maioria fracassa é em trazer o povo de volta a sua vida normal, tanto física como psicológica e, com certeza, espiritual.

O homem que Moshe busca como sucessor deve ser o protótipo do líder autêntico, realmente comprometido com a sorte daqueles que depositam nele, seus destinos. Deve ser, sempre, consciente dos objetivos dos quais deve dirigir e capaz de projetar e se responsabilizar pelas consequências de cada empreendimento que pretenda envolver sua comunidade.

Retirado do livro “La Tora no Esta en El Cielo”