Parashat Matot-Masei

As viagens pelo deserto – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Sabemos que a Torá não é um livro de História nem de Geografia, então, para quê nos relata tão detalhadamente cada uma das viagens e paragens feitas pelos israelitas durante a sua travessia pelo deserto?

Que podemos aprender de tudo isso?

Na realidade, o facto de a Torá nos relatar todas e cada uma das paragens não é um mero capricho mas sim algo de muita importância.

Em primeiro lugar, vemos que a Torá nos relata com muita precisão cada paragem onde chegavam. Isto dá-nos uma prova sobre a veracidade da Torá, pois são citados lugares verdadeiros e conhecidos onde os filhos de Israel acamparam.

Em segundo lugar, podemos ver que durante os quarenta anos, a maior parte do tempo estiveram assentados, acampando em locais fixos. Não andaram a caminhar durante os quarenta anos.

O terceiro ponto é para nos demonstrar outra das maravilhas que De’s fez pelo povo de Israel, pois não só os tirou do Egito e dividiu as águas do Mar Vermelho, como também os conduziu pelo deserto, grande e terrível, durante quarenta anos, fazendo-os chegar a lugares bons. Não iam à deriva.

O quarto ponto é para nos ensinar que De’s cumpriu a promessa que fez aos nossos patriarcas, que enviou o Seu emissário para os tirar da terra do Egito e para os conduzir à Terra Prometida.

O quinto ponto é que tudo foi feito de acordo com a vontade de De’s, não foram andando errantes pelo caminho; por ordem de De’s acampavam e por ordem de De’s viajavam.

O sexto ponto é vermos que era De’s quem os fazia chegar a cada lugar, não chegavam a um lugar por acaso; foi De’s quem quis que chegassem a cada um desses lugares, mesmo àqueles onde não havia água para beber, e fê-lo para pôr o povo à prova e ensinar-lhes uma lição importante para aprender.

Por último, para demonstrar quão grande é o amor e a fidelidade do povo de Israel para com De’s, em palavras do profeta: Recordo a mercê dos teus pais, e o amor da tua mocidade, quando foste atrás de mim pelo deserto, terra que não se semeia.

Parashat Pinchas

A escolha de Yehoshua – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Yehoshua pertencia à tribo de Efraim. A primeira vez que a Torá menciona Yehoshua é no contexto da guerra contra Amalec, logo após a saída do Egito. Vemos que se trata de uma pessoa ágil na luta, que é valente e que merece a confiança de Moisés e do povo. Por isso foi colocado à frente do exército contra Amalec.

Moisés, por ordem de De’s, abençoá-lo-á, para que ele tenha força e valentia. Assim está relatado no primeiro capítulo do livro de Yehoshua.

É forte e valente.

Teve sucesso em todas as guerras e os povos temeram-no, tal como De’s tinha predito. 

De onde provêm a força e a valentia de Yehoshua?

Na primeira guerra contra Amalec, a Torá relata-nos que quando Moisés levantava as suas mãos para o céu, triunfava Israel. Quer dizer que Yehoshua recebe uma influência espiritual do céu. A figura de Moisés é muito influente nele. Também cumpriu a sua missão até ao fim: matou todos os amalequitas que saíram ao seu encontro. Não fez como Saul, que deixou o rei vivo. Yehoshua é um enviado fiel que cumpre a sua missão até ao fim.

Quando Moisés sobe ao monte, Yehoshua sobe com ele até determinado ponto, depois fica ali à espera que Moisés regresse. Tem uma fidelidade e uma proximidade muito grandes a Moisés.

Era tal o apego de Yehoshua a Moisés, que se desliga de todos durante 40 dias, até ao ponto em que, quando Moisés voltou e se escutaram as vozes vindas do acampamento, Yehoshua se preocupa, e pensa que o povo está a ser atacado. Inquieta-se e preocupa-se pelo povo. Não pensa mal deles; o seu primeiro pensamento é que o povo está em perigo.

Outro detalhe que a Torá nos mostra é que Yehoshua não se separava de tenda de Moisés. Era como se fosse o seu guardião, como os Cohanim que cuidam do santuário.

Depois, De’s diz a Moisés: Yehoshua, aquele que está de pé diante de ti… Quer dizer, está sempre a servir Moisés e não se afasta dele.

Mais à frente vai dizer: Yehoshua, o servo de Moisés. E noutra passagem, diz ainda: Yehoshua, que serve Moisés desde a sua mocidade.

De onde vem este apego tão grande a Moisés?

Quando alguém se apega muito a outra pessoa é porque gosta muito dela e a tem em alta estima. Até ao ponto de Yehoshua zelar por Moisés, e quando os dois sábios que tinham sido selecionados para estar perante Moisés ficam e profetizam no acampamento, diz a Moisés que os aprisione. Assim como Pinchas zela por De’s, Yehoshua zela por Moisés.

O apego e vontade de servir Moisés chega ao ponto de que a Torá não nos diz que ele fosse casado ou que tivesse filhos, pelo menos durante o tempo em que Moisés foi vivo.

A Torá conta-nos que Moisés lhe mudou o nome, de Hoshea para Yehoshua, da mesma maneira que um pai escolhe o nome para o seu filho. Hoshea quer dizer «que salva». Yehoshua quer dizer «que De’s salva». Moisés ama Yehoshua como a um filho.

Yehoshua sempre viveu à sombra de Moisés. Não tem mal nenhum ser o segundo. Tal como diz o rei Salomão, é melhor ser cauda de leão do que cabeça de lobo. Não sempre aquilo que é novo e inovador é o que é importante; manter e continuar também é um grande objetivo.

Mas Yehoshua não é só uma sombra de Moisés. Vemo-lo a agir por iniciativa própria, por exemplo no caso dos espiões, quando, ao ouvi-los, rasga as suas vestes. Isto demonstra-nos que tem critério próprio, não vai atrás da maioria, não se deixa levar.

Para além disso, não fica calado; congrega todo o povo em torno de Moisés e fala-lhes palavras de valentia e de fé em De’s. Arrisca-se, e, apesar de o povo o querer linchar, ainda assim continua a falar.

Aí mesmo, De’s declara que ninguém entrará na terra de Israel, à exceção de Caleb e Yehoshua, pois eles foram fiéis a De’s. Quer dizer, não é que o faça por Moisés; o que Yehoshua tem na sua mente e o que o conduz é De’s, e como Moisés é o servo fiel de De’s, então, Yehoshua apega-se a ele.

Em Devarim 31:3 diz: O Senhor teu De’s irá diante de ti. Ele aniquilará os povos que estão diante de ti e os herdarás. Yehoshua, ele passará diante de ti, tal como De’s o disse. Vemos que, por um lado, a Torá diz-nos que Deus irá diante do povo, e, seguidamente, diz que Yehoshua irá diante deles, quer dizer, Yehoshua é o servo fiel de De’s, que faz exatamente o que De’s lhe ordena; é como se De’s o estivesse Ele próprio a fazer.

Yehoshua tem um grau de proximidade e providência divina muito altos, pois De’s assegura-lhe: Eu estarei contigo, tal como estive com Moisés.

Tal como com Moisés, De’s divide as águas do Mar Vermelho para o povo passar por terra seca. Também com Yehoshua, De’s divide o rio Jordão para o povo passar. Mais ainda, vemos no livro Yehoshua, 10, que De’s acede ao pedido de Yehoshua, quando este Lhe pede que o sol e a lua se detenham até que acabem a batalha. De’s faz por ele um milagre de tal magnitude que o sol e a lua se detêm.

Talvez o famoso sonho de Yossef, no qual ele vê que o sol e a lua se prostram diante dele, se cristaliza com Yehoshua, que é descendente de Yossef, pois Yehoshua ordenou que o sol e a lua se detivessem no céu e eles obedeceram como se fossem seus servos.

Tal como Moisés, em Yehoshua 24, ele foi chamado Servo de Deus. Mais ainda, é-nos dito que todo o povo de Israel serviu a De’s todos os dias de Yehoshua (nem com Moisés o povo chegou a esse nível, pois o próprio Moisés disse Até hoje não estão com De’s)

Como corolário de tudo isto, a virtude e a qualidade mais alta a que Yehoshua chega é que atinge o grau de profecia. Este é o nível mais elevado que o ser humano pode alcançar.

Este grau de profecia era um nível muito alto, pois, numa oportunidade, De’s fala-lhe com o mesmo nível de profecia de Moisés, Diber, enquanto que com o resto dos profetas utiliza-se sempre o termo Vaiomer.

O livro de Yehoshua diz-nos que De’s fala com Yehoshua catorze vezes.

Este é o significado de Um homem dotado de espírito, tal como diz o versículo 34:9: Yehoshua estava cheio de espírito de sabedoria. Quer dizer, era tão sábio que chegou a esse nível tão alto. Yehoshua sabia que De’s é o mais elevado, o mais verdadeiro e o único a que vale a pena apegar-se. Aquele que estava mais apegado e que mais sabia acerca de De’s era Moisés. Portanto, ele decide não se afastar de Moisés, para assim poder aprender e saber mais acerca da divindade.

É por tudo isto que Deus escolhe Yehoshua. Não se trata de algo gratuito, mas sim de que Yehoshua realmente era o indivíduo mais digno de suceder a Moisés. Não porque estava fisicamente próximo dele ou porque era o seu servidor, ou por favoritismo, mas sim porque Yehoshua, graças ao seu esforço, era o mais digno para ocupar esse posto.

Era um líder valente, fiel a De’s, com os objetivos bem claros e imbuído do espírito de De’s.

Parashat Balak

A força de uma maldição  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Vemos que Bilam está muito interessado em amaldiçoar o povo de Israel.

De’s impede-lho, mas, apesar disso, Bilam continua a tentar e a insistir, até ao ponto de que, seja consciente ou inconscientemente, parece-lhe entender que De’s lhe ordena ir.

O que é óbvio é que nada pode suceder sem que De’s assim o queira. Portanto, se De’s não quer amaldiçoar o povo de Israel, por mais que apareçam mil pseudoprofetas, bruxos, ou as pessoas mais importantes a tentar amaldiçoá-lo, não vão ter sucesso nem vão modificar a vontade de De’s. Não existe nenhuma força física, cósmica ou mística que possa limitar ou influenciar De’s.

Então a pergunta que surge é: Porque De’s interfere para impedir Bilam de amaldiçoar, se de todas as maneiras essa maldição não vai ter nenhum efeito?

De’s não quer que Bilam amaldiçoe o povo, não porque isso possa ter algum efeito, mas sim pelos seguintes motivos:

1) De’s ama o povo de Israel, tal como um pai ama os seus filhos. Assim como um pai não gosta que ninguém amaldiçoe o seu filho, nem sequer uma pessoa ordinária da rua, do mesmo modo, De’s também não quer que ninguém amaldiçoe Israel, não porque essa maldição possa ter algum efeito, mas sim porque Ele ama o Seu filho e não quer que ninguém fale mal dele.

2) A estratégia de Balac era amaldiçoar o povo e assim poder atacá-los e ganhar-lhes. Se De’s permitisse que Bilam amaldiçoasse o povo de Israel, isso iria ocasionar que Balac e o seu povo se entusiasmassem, tomassem coragem e saíssem em guerra contra Israel. Por um lado, De’s não quer que ninguém lute contra Israel, e, por outro, também não quer que o povo de Israel lute contra Moav, pois são os descendentes de Abraão, e se Balac atacasse Israel, Israel ver-se-ia obrigado a defender-se e iria ter que aniquilar Balac e Moav. Portanto, De’s impede isto desde o princípio.

3) Outro motivo é que, se permitisse que Bilam amaldiçoasse o povo de Israel, talvez este ficasse a saber e pudesse decair na sua autoestima e acreditar que já estava amaldiçoado, o que não seria conveniente logo antes de começar a conquista da terra de Israel. Neste momento mais do que nunca, o povo de Israel deve ter a confiança e a autoestima em alta.

Em resumo: 1. Não quer que ninguém fale mal de Israel. 2. Quer evitar uma guerra desnecessária e 3. Não quer que a autoestima de Israel seja prejudicada.

O motivo pelo qual De’s permite a Bilam ir, é para Balac escutar que não são amaldiçoados mas sim o contrário, são abençoados. Isto vai desanimá-lo e ele não vai querer sair para a guerra contra Israel.

Por outro lado, o motivo pelo qual o deixa ir é para demonstrar a todo o mundo que não se pode mudar a vontade de De’s. Nem sequer Bilam, com toda a grandeza que os povos lhe conferiam, e com todos os atributos do que ele mesmo se vangloriava, pode interceder para mencionar nem uma só palavra contra o que De’s decretou.

Isto fica mais satiricamente marcado quando o próprio Bilam, que está a caminho para ir amaldicoar o povo, ao zangar-se com o seu burro porque este se afasta do caminho, lhe diz que se tivesse ali uma espada o mataria imediatamente. O que é sarcástico é que, por um lado, ele pensa que pode destruir um povo inteiro com a força das suas palavras, mas para matar um burro precisa de uma espada e não pode matar com a sua palavra…

A lição é clara: O que De’s diz ou faz é absoluto, e não importa o que façam ou digam os demais povos ou bruxos. Devemos depositar a nossa confiança em De’s e saber que o que Ele diz é o que sucederá, e não prestar atenção a nenhum tipo de feitiçarias, bruxarias, o conjuras.

Parashat Chucat

A guerra com o rei de Arad  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O mais provável é que tudo isto tenha acontecido aos quarenta anos da saída do Egito. Quer dizer, depois do povo já ter sofrido vários golpes, das abundantes queixas do povo, do pedido de carne, dos espiões, de Corach, etc. Toda aquela geração de escravos que saiu do Egito já morreu. Também morreu Miriam, houve falta de água, morre Aarão e já tinha sido decretada a morte de Moisés.

Como se tudo isto fosse pouco, Edom, seus irmãos, comportam-se de maneira muito hostil e não os querem deixar passar pelo seu território para poderem entrar na Terra Prometida para finalmente se poderem instalar e deixarem de viver em tendas errantes. Edom desafia-os, mas Moisés, por ordem de De’s, comporta-se com Edom com fraternidade. Israel não vai começar uma guerra contra os seus irmãos.

Esta negativa de Edom faz com que o povo de Israel tenha que contornar todo território de Edom e dirigir-se a Moav (hoje em dia é a zona das montanhas do sul da Jordânia, em frente ao mar morto), um território muito quente, árido e montanhoso.

O rei de Arad toma coragem para lutar contra Israel, porque interpretou que o motivo pelo qual Israel não lutou contra Edom e se retirou foi porque o povo estava atemorizado, quer dizer, o que lhe dá força para lutar é supor que o povo de Israel está atemorizado e se sente débil.

Perante a ameaça do rei de Arad, o povo reage com elevação. Não acontece como nas vezes anteriores, em que se queixaram perante Moisés ou perante De’s. Não entram em pânico nem reagem hostilmente, quer dizer, não agem confiando na sua própria força.

Desta vez agem com muita emuná — fé em De’s. –  Não fazem apenas uma simples promessa, mas sim uma «promessa a De’s». É importante notar que não se trata de uma promessa comum. Pelos detalhes que se dizem na promessa vê-se que não foram impulsados por algo material, e que também já não têm a mentalidade de escravos que tinham ao sair do Egito. Falam com De’s na segunda pessoa: Se entregares, os entregares nas nossas mãos… quer dizer, sentem-se próximos de De’s. Também não se dirigem a Moisés para reclamar, mas sim sabem e são conscientes de que tudo depende de De’s.

E repetem o verbo duas vezes: Se entregares, os entregares nas nossas mãos. Quer dizer, «tu e só tu». Confiam em De’s e só em De’s.

Também notamos que tudo está escrito no singular, quer dizer, que todo o povo está unido.

Eles pediram a De’s que entregasse o rei de Arad nas suas mãos. De’s entregou-lho, mas não diz «nas suas mãos». Vemos que essa vitória não chegou de cima sem terem que fazer nenhum esforço. O povo esteve disposto a fazer a sua parte. Não pretendia que tudo lhe caísse no colo gratuitamente. O que está a acontecer agora é exatamente o contrário do que aconteceu com a geração dos espiões. Aqui eles estão dispostos a lutar e confiam em De’s.

Não estão a fazer uma guerra por interesse próprio. Estão dispostos a entregar todos os despojos de guerra a De’s, quer dizer, para eles é uma guerra em nome de De’s e pela honra de De’s.

Este é o motivo pelo qual, uma vez que ganharam a guerra, não entraram na terra de Israel. Com esta atitude conseguem mudar uma ideia que tinha começado a popularizar-se entre os povos de Canãa, pois já duas vezes o povo não guerreara, e os cananeus pensavam que era porque não podiam ou porque tinham medo. Aqui, com esta atitude, fica demonstrado a todos os povos que o motivo pelo qual eles não lutam é porque ainda não vão entrar na Terra Prometida. Quer dizer, santificam o nome de De’s, pois anteriormente, com o pensamento que reinava entre os cananeus, tinha-se profanado o nome de De’s, pois os cananeus supunham que De’s não podia contra eles.

Já houve um precedente de algo parecido com Abraão, quando ele foi resgatar o seu sobrinho Lot. Apesar de Lot não ser tão idealista nem seguir os caminhos de Abraão, vemos que Abraão saiu na mesma atrás dele e o resgatou. Os filhos de Abraão agem agora do mesmo modo. O rei de Arad tomou alguns cativos de entre o povo de Israel, e, do mesmo modo, o povo sai para os resgatar.

Por tudo isto é que De’s escutou a voz do povo. Israel lutou, destruiu-os e aniquilou-os a todos.

O lugar chamou-se Chormá – destruição – que era precisamente onde tinham caído os da geração dos espiões, que teimaram em ir à luta contra os cananeus, apesar de De’s ter decretado que não o fizessem, e ali nos diz a Torá que foram perseguidos pelos seus inimigos até Chormá. Isto mostra que se trata de uma geração diferente da anterior. Esta geração não teme, não se queixa perante Moisés, não esperam milagres, não se comportam como crianças, mas sim como pessoas com maturidade, e estão dispostos a entrar na Terra apenas quando De’s assim o determinar.

Vemos que os quarenta anos que De’s conduziu o povo pelo deserto serviram para acabar com todo esse povo queixoso e temeroso, a quem não importava tanto o caminho de De’s nem a sua vontade, e que preferiam comer carne e voltar para o Egito. Agora surge outra geração que é digna de entrar na Terra Prometida.

Parasha da Semana – Corach

Aarão e o Ketoret – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O texto conta-nos que todo o povo de Israel se queixou. Quer dizer, todos os representantes do povo vieram queixar-se de Moisés e Aarão. Vemos o que é algo muito grave.
A acusação é muito grave e drástica: Moisés e Aarão mataram o povo de De’s.
O povo atribui a Moisés e Aarão a morte destas pessoas. Não foi De’s que os matou, foram Moisés e Aarão.
Quando dizem que mataram o povo de De’s, não se estão a referir a Corach nem a Datan e Aviram, mas sim aos 250, pois os anteriores eram indivíduos, não eram «o povo». Além disso, entre os 250 havia representantes de todo povo. Eram pessoas de renome…
O que os levou a pensar assim foi o facto de terem sido Aarão e Moisés a sugerirem a prova do incenso. Eles pensaram que Moisés e Aarão os levaram a fazer algo que sabiam que os ia matar, de propósito, como aconteceu com os filhos de Aarão, quando um fogo de De’s e os matou. Eles pensaram que Moisés e Aarão os fizeram cair na armadilha para morrerem.
São vários os pecados destas pessoas:

  1. A queixa em si. Acusam diretamente. Não vêm perguntar ou investigar, o que mostra falta de confiança nos seus líderes e sentimento de zanga para com eles.
  2. Acusam-nos de terem matado o povo de De’s. Sugerem que Moisés e Aarão são injustos e que mataram pessoas inocentes.
  3. Dizem que mataram «o povo de De’s». Isto não é assim, eles não eram o povo de De’s. Povo de De’s são aqueles que são fiéis a De’s. Estas pessoas, tal como os 250 anteriores que se congregaram contra Moisés e Aarão, estão a revoltar-se contra De’s, portanto, não se podem denominar povo de De’s.
  4. Congregaram-se contra Moisés e Aarão. São insolentes e agressivos. Isto também denota uma falta de respeito perante os seus mestres e líderes.
  5. Estão a renegar de todo o bem que Moisés e Aarão fizeram por todo o povo desde que saíram do Egito.
  6. Põem em dúvida que aquilo que Moisés faz é por ordem de De’s.
    Esta acusação é muito grave, mas não suficientemente grave para causar a praga. Depois diz que «se congregaram», o mesmo termo utilizado para explicar o que fez Corach, que congregou o povo contra Moisés e Aarão, o que quer dizer que o assunto já está tomar um ar de rebelião popular. Antes tinha sido apenas uma queixa, agora já é mais desafiador, enfrentam-se a Moisés e Aarão e gritam-lhes que mataram o povo de De’s. Isto também mostra uma falta de respeito para com Moisés e Aarão.
    Perante esta situação, Moisés e Aarão dirigem os seus olhares para o santuário, como querendo aconselhar-se com De’s para saber o que fazer. É então que vêem que a Glória Divina se revela com fumo e fogo sobre o santuário.
    De’s diz-lhes que se afastem para poder destruir a congregação. Isto insinua que enquanto Moisés e Aarão estiverem entre eles, não haverá morte. São Moisés e Aarão que impedem a praga de começar, praga essa que matará o povo. Moisés e Aarão estão a salvar o povo, exatamente o contrário do que a congregação dizia sobre eles, que tinham matado o povo de De’s.
    Porque não pede e não intervém Moisés por eles para os salvar, tal como tinha feito em outras situações, quando a ira de De’s se acendeu contra o povo? O motivo é que Moisés não encontra nenhum argumento para poder defendê-los perante De’s. Nos outros casos havia argumentos válidos, e Moisés utilizou-os, mas aqui, Moisés vê que não tem nenhum fundamento para pedir por eles. É por isso que não reza por eles.
    O motivo pelo qual a salvação vai ser através do incenso é porque o povo pensava erradamente que o incenso era algo que matava, tal como aconteceu aos filhos de Aarão e agora aos 250 que também morrem perante De’s por um fogo, por oferecer incenso.
    Para tirar esta ideia errada do povo é que De’s vai utilizar precisamente o incenso para deter a morte. Para lhes demonstrar que não é o incenso que mata, pois aqui utiliza-se o incenso para salvar a vida.
    O que realmente mata é o pecado. Com os filhos de Aarão ou os 250, o que os matou não foi a oferta de incenso, como se este fosse algum “material radioativo“, cujo mero contacto produzisse a morte. O que acontece é que oferecê-lo fora do momento estipulado, isso é pecado, e por causa disso foram castigados com a morte. No entanto agora, Aarão, utilizando o incenso corretamente, vai salvá-los precisamente através dele.
    Porque é Aarão que vai com o incenso e não Moisés? Moisés quer limpar o nome de Aarão. Não quer que o povo pense mal dele. Não quer que o continuem a acusar. Moisés não se importa que sujem o seu próprio nome. O que quer é deixar limpo o nome de Aarão.
    A Torá diz que Aarão vai rapidamente deter a praga; exatamente o contrário daquilo de que o povo os tinha acusado: eles não matam o povo; pelo contrário, apressam-se a salvá-lo.
    Um ponto importante que é necessário sublinhar é que quando a Torá diz que Aarão ficou com o incenso entre os vivos e os mortos e a praga se deteve, diz-nos que Aarão fez Capará (Expiação) pelo povo com o incenso. Que quer dizer que fez Capará pelo povo?
    Este termo utiliza-se quando a Torá nos descreve o serviço de Yom Kipur, quando o sumo-sacerdote está frente ao cordeiro e faz Capará pela sua família e por todo o povo, e aí refere-se a que faz vidui, que quer dizer confessar todos os seus erros e arrepender-se.
    Portanto, aqui não se trata de Aarão colocar incenso e de repente a epidemia acabar; ele faz também vidui por eles, e agora que existe arrependimento e confissão do erro, então De’s perdoa-os e a praga detém-se. Com isto fica demonstrado que não são Moisés e Aarão nem nenhuma magia do incenso que mata; o pecado é que mata.
    Esta será também a mensagem da prova das varas. A vara de Aarão é a que vai florescer e dar frutos, enquanto as outras não. A vara representa a liderança. Normalmente, com a vara demonstra-se o poder; castiga-se, bate-se com ela. Mas no caso de Aarão, a sua liderança é justa, ao contrário das acusações do povo. Não só não é uma vara usada para bater ou castigar, mas é uma vara que chega a dar flores e frutos, quer dizer, uma liderança que é boa, suave e com frutos.

Parashat Behaalotecha

A eleição do Sanedrin e o pedido de carne  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Logo que o tabernáculo foi instaurado e os Leviim foram consagrados para o serviço divino, instala-se um dilema na mente do povo (algo que ainda hoje em dia muitos se perguntam): «Se o povo não vai estar tão próximo de De’s, já que agora tudo se centra no tabernáculo, e além disso o povo não vai servir a De’s lá, mas sim quem servirá serão apenas os Leviim, então para quê esforçar-se tanto e impor-se tantas privações, se de todas as maneiras nunca vamos chegar ao nível de poder servir no tabernáculo e estar próximos de De’s?»

As pessoas do povo estavam dispostas a fazer um esforço e a privarem-se de coisas se com isso pudessem ganhar algo, quer dizer, chegar a um «bom posto», um status social melhor, ou uma categoria espiritual mais alta (Maamad), senão não se justificaria tanto esforço.

A resposta de De’s a este dilema é selecionar setenta sábios junto a Moisés para a condução do povo. Isto serve para demonstrar que não só os Leviim têm uma categoria elevada, mas sim que aqueles que andam pelos caminhos de De’s também podem chegar a um alto nível dentro do povo e, na realidade, essa é a verdadeira honra, já que o conseguiram por esforço próprio e não pela sua linhagem.

Portanto, o objetivo de De’s é que o povo chegue a este raciocínio. No entanto, ainda não se trata de um nível superior, porque o serviço divino deve ser lishmá (de forma desinteressada), e aqui a questão é: Para quê servir a De’s se não vou obter nenhum upgrade (subida de categoria) ou benefício extra?

Yehoshua não queria que as pessoas pensassem que se pode ter profecia enquanto se está no «acampamento», quer dizer, sem uma preparação adequada e um Perishut (isolamento) necessário.

É por isso que os setenta sábios selecionados tinham que estar à volta do tabernáculo, para que, dessa forma, todos vissem claramente que a profecia vinha de De’s, cuja presença se centra no tabernáculo. Se ficassem no acampamento e recebessem a profecia ali, então o povo, erradamente, poderia pensar que existe outra fonte de profecia e poder fora de De’s.

Agora bem: Porque é necessário que os setenta sábios que ajudarão Moisés sejam profetas?

Todos os líderes, inclusivamente no Sanedrin, podem enganar-se, mas alguém que tem Ruach Hakodesh é impossível que se engane. Dessa maneira pode dirigir o povo da forma mais correta possível.

E apesar da profecia ter acontecido a estes setenta sábios apenas uma vez nas suas vidas, isto foi suficiente para os iluminar ao longo de todo o caminho.

Rambam escreve, na introdução ao Guia dos Perplexos, que a verdade é como um relâmpago numa noite escura. Há quem fique encandeado pela intensidade do seu brilho, mas, depois de ele desaparecer, volta à mesma escuridão na qual estava submerso antes de o relâmpago ter aparecido. Outros, no entanto, ao receberem o raio de luz, não permanecem imóveis, cegando os seus olhos, mas sim aproveitam essa luz para poder ver os obstáculos que os aguardam no caminho, de modo a poder evitá-los e decidir o rumo dos seus futuros passos. Assim nos acontece a nós: Às vezes batemos de frente com um momento de verdade. Vemo-lo claro, patente, mas, passado o efeito do momento, voltamos à nossa vida rotineira, sem que essa perceção nos transforme no mais mínimo. Tal como quando vamos visitar alguém no hospital que tem problemas pulmonares devido ao fumo. É claro para nós que o cigarro é algo nocivo; talvez deixemos de fumar durante algumas horas. Mas depois, pouco a pouco, voltaremos aos nossos hábitos de sempre. Porquê? Porque nesse momento em que vimos as coisas claramente, não aproveitámos esse encontro com a verdade tomando as decisões necessárias, comprometendo-nos nesse momento a mudar algo no nosso comportamento.

É importante destacar que estes setenta sábios não eram pessoas comuns que de repente, magicamente, receberam um espírito especial, pois como é possível que o espírito passe de Moisés para gente comum sem preparação ou elevação espiritual alguma? Essa foi precisamente a admiração de Yehoshua, que os tomou por farsantes.

O que acontece aqui é que estas pessoas se prepararam; eram sábios, eram os líderes do povo, e portanto o mesirut nefesh (esforço) e a sabedoria prática que esse cargo lhes dava já os faziam especiais por si só. Então quando o Ruach descende sobre Moisés, trata-se de um nível de profecia inferior àquele que normalmente Moisés tinha, já que De’s se comunicava com ele diretamente e não através de nenhum Ruach.

Apesar disso, De’s não se revelou completamente, mas sim com uma nuvem, quer dizer, captaram mas não de forma perfeitamente clara, e sim como num dia com névoa, onde não se vê nitidamente. É claro que os setenta sábios não alcançaram o nível altíssimo da profecia de Moisés.

No que diz respeito ao pedido de carne por parte do povo, devemos saber que Moisés foi e será o ser humano que mais conhecia De’s, portanto, é impossível supor que Moisés pensasse que De’s não lhes podia providenciar carne. Então, como é possível que Moisés pergunte a De’s como será possível providenciar carne para todo o povo?

Na realidade, o que acontece, é que Moisés vê que o povo está com uma postura desafiante e atrevida. Pedem, exigem, e insistem em pôr De’s à prova constantemente. Então Moisés raciocina: Com uma atitude assim, por mais que lhes façamos as vontades, nunca vão estar satisfeitos.

De’s está de acordo com o que Moisés apresenta, mas responde-lhe que, se não lhes der carne, o povo vai pensar que a mão de De’s é limitada, quer dizer, que não lhes pode providenciar carne, e este tipo de raciocínio seria uma profanação do nome de De’s.

É por isso que De’s acede ao pedido de carne por parte do povo. Não se trata de que De’s lhes quisesse fazer a vontade ou cedesse aos seus caprichos, mas sim vai dar-lhes uma lição sem que por isso o nome de De’s se veja profanado.

Então De’s vai dar-lhes de comer carne, mas sob a condição de que o façam de um modo elevado. Não como o fazem os animais, mas sim que o façam como seres humanos.

Entre o povo, não todos aceitaram esta premissa, e teimaram em continuar com os seus caprichos, amontoando carne durante três dias e comendo selvaticamente, sem cuidar minimamente as pautas de higiene e saúde. Os que comeram como animais foram os que morreram.

Deste modo, por um lado, De’s demonstra-lhes que é todo-poderoso, e pode até providenciar carne no deserto, e, por outro lado, dá uma lição àqueles que agiram de forma selvagem, desafiante e atrevida, que insistiram em pôr De’s à prova constantemente. Esses são os que no fim foram castigados.

Parashat Bamidbar

O censo e os Leviim – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

De’s, ao dizer-nos os limites da terra, fá-lo para que saibamos tudo o que temos que conquistar, mas também para que saibamos que só até aí se deve conquistar, e não mais. O nosso objetivo não é sermos imperialistas.
Nesta parashá encontramos várias coincidências: O povo no total são 603 mil pessoas; o valor numérico das palavras Bene Israel – “Filhos de Israel” é 603.
Diz-nos que havia 22.000 leviim e, em contraposição, havia 22.273 primogénitos, que são aqueles que foram trocados pelos leviim. Os leviim são poucos, quase 30% da população das demais tribos. Isto é assim porque o povo ia ter que os sustentar e dar-lhes territórios nas suas cidades. De’s não quis que fossem muitos para não se transformarem num peso para o povo, pois, se os leviim fossem muito numerosos, o povo, em vez de lhes dar o dízimo, iriam ter que lhes dar o 20% para os poder sustentar.
Se a Terra era dividida por goral — sorteio – , para quê saber quantos são em cada tribo?
Para demonstrar que o que saiu por goral — por sorteio — é o correto. Não só é necessário fazer Tzedek — justiça —, mas, para além disso, é necessário que essa justiça seja visível para todos.
Porquê quando eram contados os leviim no censo, contavam-se aqueles que tinham entre 30 e 50 anos, enquanto que, para o resto do exército (o resto do povo), eram contados desde os 20 aos 60 anos?
Isto é assim porque para o exército faz falta força física, enquanto que no santuário faz falta Shikul daat — maturidade inteletual e sensatez, e não ter maus pensamentos. É por isso que se preferia indivíduos mais maturos intelectualmente.
Como sabemos que agora o povo de Israel sai do monte Sinai para entrar na Terra de Israel? Se analisarmos mais à frente, quando a Torá nos relata que partiram do monte Sinai, notaremos que é a mesma data que diz aqui no princípio do livro Bamidbar, quando se ordena o censo. E aí vemos claramente que o povo se dirige à Terra de Israel. Para além disso, Moisés, nessa ocasião, tinha dito a Itró, seu sogro, que iam até a terra de Israel, tal como já tinha mencionado em Shemot.
Se vão para a terra de Israel, o mais provável é que tenham que preparar o exército para a luta e para a conquista, pelo que é lógico ter que os contar, para poder organizar o exército. Mas está escrito que De’s vai lutar por eles. Para quê então contar o povo para a guerra? A resposta é que, se bem que é De’s que nos faz triunfar, temos que fazer o nosso hishtadlut — o nosso esforço. De’s ajuda-nos derech hateva — de forma natural – , e não de forma milagrosa, tal como aconteceu por exemplo na Guerra dos Seis Dias.
Apesar de não ter sido de forma natural com o rei Ezequias, pois De’s feriu com uma peste os inimigos que estavam a sitiar a cidade de Jerusalém, de tal forma que todos os inimigos morreram e o povo de Israel não teve que lutar, nessa ocasião foi assim porque não havia outra opção para além do milagre.
Se bem que as tribos de Simeão e Levi receberam a mesma bênção por parte de Jacob (de que seriam dispersados entre as demais tribos), mais do que uma bênção foi uma reprimenda pelo que tinham feito ao povo de Shchem. Apesar disso, Levi melhorou até ao ponto de chegar a ser Nachalat HaShem — Herança de De’s –, enquanto que Simeão passou a ser a tribo menos numerosa. Isto foi assim porque perdeu muita gente por causa das diferentes pestes que De’s enviou ao povo como castigo pelas numerosas rebeliões que efetuaram no deserto, por exemplo com baal peor — idolatria. Isto demonstra que esta tribo estava muito envolvida nesses erros.
Qual é o objetivo do censo? Um reduzido número de indivíduos que servem a De’s, ou um grande povo que faz a vontade de De’s, não é o mesmo. É notavelmente mais louvável quando se pode ver uma pequena família no meio de um povo idólatra, que se desenvolve e se transforma num povo numeroso, conhecedor de De’s, e que se torna meritório de ouvir a voz do Criador. Que construa um santuário para Ele e que Ele se transforme no centro das suas vidas. Estes são os que foram denominados de tzivot HaShem— as Hostes de De’s – , e, tal como está escrito: Verov am, hadarat Melech – Quanto mais numeroso for o público, mais se notará o louvor ao Rei. Portanto, o facto de serem frutíferos e numerosos, isso, em si mesmo, já é um louvor a De’s.
Para além disto, o facto de serem tantos é uma prova de que De’s cumpriu o que tinha dito aos patriarcas, que se transformariam num povo muito numeroso.
Outro motivo é que, ao sermos conscientes de que se trata de um povo muito numeroso (aproximadamente 3 milhões de pessoas ou mais), torna-se mais notória a maravilhosa proteção divina, que não só tirou toda esta gente do Egito, como também os conduziu e os alimentou no deserto e os levou à Terra de Israel.
A tribo de Levi é quem leva o Aron — a Arca, ou seja, a mercavá — a carroça celestial, por isso se diz: Shuva HaShem (…) ribebot alfe Israel (Regressa, De’s, a residir entre as dezenas de milhares de Israel) Ribebot = dezenas de milhares. Ao dizer “dezenas”, no plural, devemos supor que pelo menos são duas, ou seja 20.000, e alfe = milhares, pelo menos dois, quer dizer 2000. No total são 22.000, que é o número dos integrantes da tribo de Levi.