A Rocha, cujas obras são de justiça!

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Haazinu
Uma Segurança Imutável

A Torá escolhe o termo ‘Rocha’ para se referir ao Criador no Cântico de Moisés, chamado ‘Haazinu’.

‘Rocha’ é uma expressão de força, segurança, que não se comove com a fúria dos ventos, das tempestades que varrem tudo ao seu redor. Quando buscamos um ponto de referência claro, seguro, imperturbável, nos dirigimos à “Rocha da Nossa Salvação”, o Criador do Mundo.

Mas poderíamos nos perguntar, para que toda esta segurança?

Em outras palavras, pode ser que Ele represente segurança, mas como podemos saber que merecemos essa ajuda, que somos dignos de ser ajudados?

Talvez trata-se, simplesmente, de uma auto-sugestão que nos ajuda a permanecer calmos em situações adversas, e nos ajuda a resolver nossos problemas com mais serenidade, enquanto que o Criador “não tem conhecimento de qualquer coisa”, por assim dizer.
A Confiança

A resposta a estas perguntas depende do conhecimento que tenhamos do Criador, depende de nossas próprias experiências, ou da experiência que escutamos de pessoas das quais podemos confiar. Quando vão acumulando-se tais experiências, nos tornamos, sem dúvida, capazes de atribuir um “comportamento específico” ao Criador. Quando, depois de uma oração que sai das profundezas do coração, recebemos um telefonema ou encontramos uma pessoa que oferece certa ajuda inesperada, poderíamos dizer que nada mais é do que um “acaso”, ou então, podemos reconhecer que o Criador ouviu nossas orações e nos enviou uma resposta.

Conta-se uma piada sobre um judeu que buscava desesperadamente uma vaga para estacionar perto de seu escritório e não encontrava. Este então ofereceu ao Criador: ‘Caso Você me ajude a encontrar uma vaga de estacionamento, eu faço uma doação de cem euros à sinagoga’. Mal havia terminado de fazer a oferta a D’s, ele encontra uma vaga e se apressa em dizer: ‘já não é mais necessário, consegui sozinho!’.

Quanto mais se conhece uma pessoa, melhor sabemos como e quando podemos confiar nesta. Caso seja alguém que nunca tenha nos falhado, que sempre teve uma resposta para nós, sabemos que trata-se de uma pessoa de confiança. Este é o significado da ‘fé’, da confiança. Nossa fé no Criador depende desta “coleção de experiências” que acumulamos e então, tornam-se parte integrante das nossas vidas.
Termos de Confiança

Um dos temas mais discutidos é o limite, ou as condições, desta confiança no Criador. Devemos confiar que Ele nos enviará o alimento necessário sem qualquer esforço de nossa parte? Quanto esforço podemos ou devemos investir sem cair em uma ‘confiança no trabalho’, que substitua a ‘confiança no Criador’?

A regra diz que isso depende das circunstâncias, do que neste momento é considerado certo e o nível espiritual de cada um.

Mas esta é também uma questão sensível uma vez que alguns podem considerar a si próprios em um nível muito elevado e assim acreditarem que não precisam realizar grandes esforços em seu trabalho, pois o Criador lhes enviará tudo o que precisam. E, por outro lado, outros que não se consideram bons o suficiente, podem passar longas horas de trabalho pois somente assim mereceriam a ajuda necessária.

Também deve levar-se em consideração, com muito cuidado, o significado de “necessário”.Deve, o Criador, nos proporcionar um bom computador, um bom carro e comida abundante, ou o suficiente que não morramos de fome? E, caso exista um equilíbrio, qual seria?

Trata-de um equívoco pensar que o Criador deve dar-nos exatamente aquilo que pedimos. Não é assim, nem mesmo de longe. É bem possível que Ele considere que o melhor para nós é precisamente o oposto daquilo que acreditamos que seja.

Então o que exatamente significa esta confiança no Criador? A confiança é acreditar que receberemos exatamente aquilo que é mais adequado para nós.

E se é assim, para que servem todas as nossas orações? São dois os objetivos principais: em primeiro lugar, realizar um esforço especial para ajudar-nos a lembrar que a ajuda vem Dele. Em segundo lugar, para nos ajudar a refletir se já fizemos tudo o que estava em nosso alcance antes de ‘perturbar’ o Criador com nossos pedidos.
Justificação do Juízo

O versículo da nossa Parasha que citamos (Deuteronômio 32:4), continua: “Sua obra é perfeita, todos os seus caminhos são justiça, D’s Leal, que não comete injustiças, que é justo e correto” .

Na realidade, estas palavras especificam o que já explicamos: Seus caminhos são justiça, sem nenhum mal, embora não sejamos capazes de entender tudo à primeira vista.

Este verso é parte da oração que familiares de um falecido realizam no momento dizer adeus ao ente, denominada “Tsiduk Hadin” ou “Justificação do Juízo”. Não há queixas sobre o que está acontecendo. Por mais que dói a ausência da pessoa querida que partiu, sabemos que o incidente é parte do sistema de justiça do Criador, que prepara para cada um não somente o mais justo, mas todo o necessário para alcançar o melhor.

Este versículo deve estar sempre presente em nossas mentes, em nossas palavras, tanto quando tudo vai bem, quanto quando, D’us me livre, as coisas não vão tão bem. Tudo está em Suas mãos, Suas boas mãos. E se o problema nos dá dores de cabeça, é para reparar algum dano que causamos ou para quebrar alguns grilhões que nos detinham e não podíamos vê-los, ou mesmo, para aumentar nossos méritos ao receber o problema sem protestar.

Ao posicioná-lo no início do Cântico de Haazinu, também serve para ensinar-nos que todos os detalhes da História Sagrada do Povo Santo de Israel, estão em muito boas mãos, e que qualquer incidente, acidente ou desastre que acontecem em nossa vida nacional também estão minuciosamente controlados por nossa “Rocha”.

Neste dia

Comentário sobre a porção semanal da Torá de Ki Tavô

Recém-recebida

“Neste dia você se tornou o povo do Senhor teu D’us”, diz a Torá (Devarim 27:9). E, então, nos perguntamos: a que dia se refere, exatamente?

Não se trata do dia em que saímos do Egito, e nem do dia em que recebemos a Torá no Monte Sinai, uma vez que este versículo foi dito quarenta anos após estes acontecimentos.

Nossos grandes comentaristas interpretam que, de acordo com a verdadeira exegese, no contexto geral refere-se à Torá, da qual devemos coniderar seus mandamentos como se “os recebêssemos todos os dias” – que a cada dia sejam como novos para você.

Mas devemos entender que esta explicação não é a mais simples, mas trata-se de uma exegese, um Midrash. Certamente o que dizem é uma verdade indiscutível, mas não deve ser a primeira mensagem que devemos entender deste verso.

 
A Entrada na Terra Santa

Sabemos que este é o momento em que o Povo de Israel se prepara para cruzar o Rio Yarden (o Jordão) para entrar na terra que o Criador tinha prometido aos nossos Patriarcas.

Deste modo, no parágrafo anterior (27:1-8) são mencionadas as instruções do altar que deve ser construído no Monte Eval, que deve ter escrito, com base em cal, as palavras da Torá de uma maneira tão explícita, que todos possam entender. Segundo a tradição, estas palavras foram escritas em setenta línguas, de modo que mesmo os outros povos pudessem entender.

Assim também o parágrafo seguinte ao versículo que citamos acima (27:11-26), discorre sobre o ato especial que deveria ser realizado no mesmo local, posicionando a Arca da Aliança entre o Monte Eval e o Monte Gerizim, e, então, lendo algumas bênçãos e maldições na presença de todo o público.

Portanto, deve ficar claro que, quando o verso diz “neste dia” refere-se ao dia em que o povo já está na terra prometida.

 
Sozinho em Casa

Isto pois, somente quando o povo de Israel está em sua casa, em sua pátria ancestral, pode ser considerado como o povo do Criador.

Para compreender este conceito um pouco melhor, temos que compreender que o verdadeiro valor dos mandamentos é somente quando nos encontramos em nosso país, na Terra de Israel.

A obrigação que consta na própria Torá de continuar cumprindo todos aqueles mandamentos que não estão diretamente relacionados com a Terra de Israel, é apenas para não esquecermos de como fazê-lo durante a nossa estadia no exílio. Explica o Midrash citado por Rashi em Devarim (11: 17-18) nos versos que discorrem sobre a saída para o exílio, que, apesar disso [de encontrar-nos fora de Israel], temos de continuar a cumprir as Mitzvot como MezuzáTefilin.

Yermiahu, o profeta, discursa longamente sobre a partida para o exílio e a maneira e o caminho de volta para casa. Especialmente a partir do capítulo 29 e no capítulo 31, quando diz: “erga sinais para você, fixe indicações…” (Jeremias 31:20), para assim, reconhecer o caminho de volta do exílio. Nossos sábios dizem que estes sinais são precisamente aqueles mandamentos que continuam a ser cumpridos durante o exílio, para que não esqueçamos como devemos fazê-lo.

Mas tudo isso significa que o verdadeiro lugar para o cumprimento destes mandamentos, verdadeiramente, é apenas na Terra de Israel.

O Rei Shlomo (Salomão), ao inaugurar o Templo, disse que quando os Filhos de Israel estiverem longe do Templo, devem se posicionar em direção a este para rezar, e, caso estejam no exterior devem se posicionar em direção à Terra Israel. A razão é que as orações devem ser “enviadas” para a Terra Santa e para o Templo Sagrado, uma vez que somente aí, podem ser escutadas.

 
Um Mundo com “Níveis”

Certamente isso pode parecer muito estranho. Como é possível que a nossa religião só possa ser cumprida em um lugar particular? Não é o Criador onipresente? Não é possível ouvir as nossas orações em qualquer parte do mundo?

Dado o que vimos antes, encontramos uma maior coerência: o povo é considerado como tal apenas quando está presente neste lugar específico, os mandamentos têm valor (valor real) apenas quando nos encontramos neste lugar santo, na Terra Santa.

O criador do mundo decidi construí-lo desta forma, constituído em uma escala de valores. Não somente uma escala espiritual, mas também valores físicos e materiais. Deste modo, o homem pode sempre alcançar níveis mais altos de sabedoria, experiência, espiritualidade e santidade. E existem também dias mais santos que outros, como o Shabat, as festividades, o Yom Kipur. E também, é claro, existem lugares mais santos do que outros: a Terra Santa, a Cidade Santa e o Templo Sagrado.

A santidade pode ser alcançada através de um esforço sobrenatural. Um japonês pode se tornar um membro do povo de Israel ao converter-se, sicenramente, ao judaísmo. Da mesma forma, podemos acrescentar santidade aos dias “normais”, quando, por exemplo, antecipamos o início do Shabat nos vinte minutos que prescrevem nossos Sábios. Do mesmo modo, a construção do templo pode ser expandida, é permitido expandir seu perímetro, assim como pode ser feito com o perímetro da cidade santa. E há profecias que discorrem sobre como a santidade da Terra Santa vai expandir muito além de suas fronteiras atuais.

Mas, de qualquer maneira, atualmente as fronteiras da Terra Santa são aquelas especificadas na Torá no livro de Bmidbar (Números 34:1-15). O Rei Davi tentou expandir seu reino além dessas fronteiras, mas não o fez da maneira certa, assim diz o Talmud, assim, estes locais nunca conquistaram a devida santidade.

“Neste dia você se tornou o povo do Senhor teu D’us”. Um ‘povo’ pode estar em qualquer lugar, mas o ‘Povo de D’us’ somente é possível na Terra Santa.

Amarrando as Pontas

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Vaetchanan
Compartimento secreto

O verso que nos impele a amar o Criador com todo o coração, toda a alma e toda a nossa força (Devarim 6:5), chama a nossa atenção. É certamente um dos versículos mais importantes de toda a Torá.

Naturalmente que, em razão de toda a importância que lhe atribuímos, devemos entender o que significa com “todo” o coração, com “toda” a alma, e etc. Assim, naturalmente, nossos sábios dedicaram grande atenção a este verso.

Parece que o coração é formado por compartimentos separados, alguns deles, inclusive, selados com selos de chumbo para evitar que os curiosos descubram nossos segredos. Existem lugares secretos em nossa personalidade que não permitem que ninguém saiba o que eles contêm. Queremos fechá-los, mesmo aos olhos do Criador.

Amá-lo com “todo” o coração, refere-se a abrir, mesmo este compartimento secreto, perante Ele. E isso é muito, muito difícil.

Existe uma “boa tendência” – ‘yetzer hatov’ e uma “má tendência”. Uma predisposição para o bem, para o que é certo, para aquilo que o Criador espera de nós. E uma inclinação egoísta, rebelde, que não se preocupa muito em pensar nos outros. A preferência individualista e egoísta tende, muitas vezes, a ser muito mal interpretada por nós mesmos, a transformando de antagônica à extrovertida. O versículo nos diz que isso não é verdade. Podemos e devemos amar o Criador com ambas as predisposições, com as quais Ele próprio colocou em nossos corações.
Escuta, Israel

O segredo está no versículo acima, um verso que, à primeira vista, parece menos importante: “Ouve, ó Israel: O Senhor é nosso D’us, o Senhor é Um” (Quando transcrevemos ‘o Senhor’, queremos dizer o Nome Divino, expresso na Torá pelo Tetragrama).

Aparenta ser uma frase nacionalista racista. ‘Israel’. E os demais povos?

E qual a notícia que nos transmite? Que D’s é Um? Nenhuma novidade para nós, já sabíamos isso, muito antes de receber a Torá.

Nossos sábios então nos ensinam que esta expressão é muito mais do que aparenta. ‘Um’ no hebraico da Torá, não é um número cardinal ou ordinal. “Um” é “único”, sem antes ou depois, sem qualquer possível companhia, sem uma divisão possível. Uma singularidade indescritível.
Unidade Universal

Mas não é somente isso, nos explicam. Este ‘Um’ não se refere apenas ao Criador, mas também a sua criação. Trata-se de um tema ‘teológico’ bem conhecido: “Como pode D’us criar coisas diferentes? Deveria haver uma coerência, se não igualdade, em tudo o que sai das mãos do Criador.”

Exatamente! Exclama a Torá. Tudo é ‘Um’! Tudo está conectado a tudo, tudo depende de tudo, tudo é uma repetição de tudo, com ênfases diferentes, perspectivas diferentes, cores diferentes ou sabores diferentes. O equilíbrio ecológico fica aquém e ridículo frente a esta unidade universal.

A verdade é que a ciência está começando a entender o que já dizíamos há mais de três mil e trezentos anos atrás. Os cientistas estão descobrindo que todos os tipos as células, são muito semelhantes, muito! Estão descobrindo que todas as raças não são tão diferentes, todas provêm da mesma origem (não, não chamam de Adam! Ainda não são capazes disso). Estão descobrindo que o comportamento dos minerais, plantas e animais possuem paralelos inexplicáveis.

Falta que compreendam que tudo depende do homem e de seu comportamento ético e moral. E o homem, por sua vez, depende do Criador. Tudo está relacionado, ligado, conectado. ‘Um’.

Depois de uma declaração tão dramática, um mandamento que diz: “Amarás o Senhor teu D’us com todo o coração”, não é tão novidade. Partições, diferenças, contradições, são pura ilusão, são miragens. Trata-se de um grande mal-entendido.
E as contradições?

Então, como devemos entender as contradições? Ah bem! Devemos estudar, devemos esforçar-nos para entender melhor as coisas. Não foi dito que é mais fácil. É nossa missão: “Ouve, ó Israel”. Uma ordem dirigida sobretudo para nós, o coração da humanidade, o centro que unifica todos os outros. As outras nações são ‘especializadas’ cada uma no seu domínio particular, e resulta mais difícil para eles encontrar um fator comum. Israel é o coração vivo que rega todos os outros membros e, portanto, tem mais consciência de unidade.

Rabi Moshe Chaim Luzzatto dedicou grande parte de seu livro, ‘Da’at Tvunot’ (traduzido para o português como ‘Sabedoria da Alma’), explicando este conceito, que é, aliás, um dos princípios de fé do judaísmo.

Ao não compreender o verdadeiro significado da expressão “o Senhor é Um”, as pessoas chegam a cometer erros graves. O Rabi Luzzatto examina, explica e corrige tais erros.
O centro de nossas vidas

Nós, judeus, repetimos este verso, pelo menos, duas vezes por dia: ao deitar-nos e ao levantar-se. Na oração da manhã e na da noite, em feriados e dias úteis, este versículo é o protagonista.

Quando damos as boas vindas ao recém-nascido, quando entra no Pacto de Abraão, declaramos: “…o Senhor é Um.” Dizem nossos sábios que estas devem ser as primeiras palavras a ensinar aos nossos filhos: “Escuta, Israel…”.

Em caso de perigo iminente, repetimos. Antes de fechar os olhos, à noite, recitamos estes versos. Ao despedir-nos deste mundo, deitados no leito de morte, é declarado “o Senhor é Um!”. Nossa vida gira em torno deste versículo, do qual conhecemos e reconhecemos sua importância. Cada um dá uma nova perspectiva, sem negar ou anular a outra.
Amarrando as pontas

Claro que não é suficiente, simplesmente, recitar ou testemunhar este verso. Devemos entender o que dizemos e devemos agir em conformidade. Isso já é mais complicado, como dissemos antes. Se nossas ações contradizem o que dizemos, qual o valor da declaração? Se insistirmos em manter um canto escuro em nosso coração, um departamento fechado e selado, que deixamos ‘desconectado’ ou ‘contrário’ a nossa obrigação, que serve declarar que “o Senhor é Um”?

Quanto mais pontas soltas conseguimos amarrar, mais perto estaremos no Mundo Perfeito.

Com o cumprimento dos mandamentos da Torá e as instruções que recebemos de nossos Sábios, demonstramos nosso compromisso com a tarefa imposta, mostramos que descobrimos a unidade divina em todos os seus aspectos. Gradualmente, ponta após o ponta, cada um de acordo com sua capacidade e possibilidade, aproximamos o mundo do grande ideal.

O D’us dos Espíritos

Comentário sobre a Porção Semanal de Pinchás

 

42 “estações”

O fim da viagem se aproxima. Após a saída do Egito, o povo se ‘entretém’ no deserto por quarenta anos pagando a dívida por haverem recusado entrar na Terra Prometida, quando estavam por fazê-lo.

São quase quarenta anos muito difíceis. Quase quarenta anos de raiva, nos quais parece não haver nenhuma profecia dirigida a Moshe. Vimos que entre os capítulos 19 e 20 passaram-se 38 anos de punição, sem qualquer referência, sem qualquer detalhe.

Parece que, inclusive, não avançaram muito. Das quarenta e duas “estações” que pararam na viagem, vinte e duas foram antes da punição ou no último ano, quando já entravam na Terra Prometida. São, então, vinte “estações” que passaram em trinta e oito anos. E, de acordo com nossos Sábios, mencionados por Rashi em Devarim 1:46, dezenove anos permaneceram no mesmo lugar, em Cadesh. Nos outros dezenove anos, realizaram uma viagem por ano.

O povo já está cansado, como vimos no capítulo 21 do livro de Bamidbar, e não têm muita paciência. Já querem chegar à Terra Prometida.

 

Sinais para as viagens

Acontece que esta viagem é muito mais complicada do que parece à primeira vista. Nossos sábios aprendem destas quarenta e duas “estações” – ou acampamentos do Povo, como sinais para as viagens que cada um de nós realiza durante toda sua vida em direção à uma determinada meta. Cada um com seu objetivo particular, com seus problemas, suas complicações, sua crise e suas pequenas vitórias. Alguns se complicam mais em uma certa “estação” e outros podem passar por ela rapidamente.

Se lermos corretamente as vicissitudes de cada um destes acampamentos, podemos extrair alguns dados importantes para nossa vida particular. Cada um com sua própria perspectiva particular, familiar, de acordo com as circunstâncias de cada geração, sociedade ou ambiente. Quase impossível transferir de um a outro o significado, a menos que haja estudado a fundo, com seus comentaristas clássicos do Talmud e do Midrash, que proporcionam visões por vezes extravagantes para aqueles que não têm a nitidez daqueles que dedicam intermináveis horas de estudo para decifrar os mistérios da Torá.

A Torá, como sabemos, não é um livro de história, mas um livro de profecias. Os dados históricos que aparecem nela estão lá para nos ensinar algo, hoje, três mil e trezentos anos depois. E não só aos indivíduos, mas principalmente para o povo de maneira geral.

Deste modo, estas quarenta e duas “estações” são também a jornada nacional através das diásporas. Emigrações e expulsões de um lugar ao outro, de um país para o outro. Existe um antes e um depois em cada uma destas estações. Uma causa e uma consequência. E, de acordo com a maneira com a qual lidamos com cada estação, os resultados serão mais fáceis ou mais duros.

Ao longo desta longa viagem, está o líder de Israel, chamando a atenção de cada membro do povo, ditando o ritmo e apontando o objetivo.

 

Ra’ya Mehemna

Moshe é o Ra’ya Mehemna, o Pastor Fiel, como o Zohar o chama. Um líder que considera cada indivíduo de seu rebanho, importante. Não poupa ninguém, todos merecem sua atenção e dedicação.

Se este líder houvesse nos acompanhado na entrada da Terra da Profecia, tudo teria sido muito diferente. As batalhas teriam tido outro aspecto, um outro resultado. Não houvéssemos esperado quatrocentos e oitenta anos para construir o Templo Sagrado. Tudo teria sido mais rápido.

Contudo não nos entusiasmamos com a velocidade das coisas se esta não for acompanhada pelo processo espiritual de cada parte do processo. Quando alguém avança muito rapidamente pode estar, assim, saltando etapas importantes do desenvolvimento, que serão necessárias nos momentos mais inusitados. E a queda, então, pode ser desastrosa.

Se este líder tivesse conduzido o Povo na entrada da Terra da Vida, poderíamos ter acreditado que já havíamos passado algumas fases do processo. Na verdade, foi quando este líder nos deixou que percebemos que somente estávamos deslumbrados com o brilho que emanava a figura de Moshe, um “Super-homem” que, inclusive, passou alguns dias com a Presença Divina. E, que nós não havíamos feito a lição de casa corretamente e ainda nos faltavam pontos essenciais para corrigir.

Se Moshe tivesse construído o Templo, este seria eterno e indestrutível, e a punição pelos pecados recairia diretamente sobre os membros do povo, com um grave perigo de passarmos por um extermínio imperdoável. O desaparecimento do líder neste estágio, teria causado uma grave crise no Povo. E assim, Moshe não poderia entrar na Terra da Profecia.

Moshe teria saltado etapas, inspirado as pessoas com coragem para tomarem medidas decisivas. Teria encontrado no coração de cada um e um as fontes necessárias para avançar em direção ao objetivo. Com o grave perigo de que as pessoas não tivessem feito seu dever de casa e descobrissem isso tarde demais.

 

Calma e paciência

Nos acostumamos, desde a época de nossos Patriarcas, que as coisas não são feitas desta maneira. Aprendemos a ter paciência para poder realizar nossos objetivos, calmamente, de maneira completa.

O que não voltu a acontecer é termos presenciado uma liderança como a de Moshe. O profeta Yechezkel (Ezequiel), entre outros, se queixava de que os líderes do povo não cumpriam com seus deveres de colocar os interesses nacionais à frente dos interesses pessoais. Mesmo David e Shlomo não se comparavam a Moshe.

“D’us dos Espíritos” – exclama Moshe (Bamidbar 27:16). “Este povo precisa de um líder que possa sair a frentes deles e chegar frente a eles…” Um líder que seja um exemplo para todos e cada um deles.

“D’us dos Espíritos” é uma expressão especial. Os “espíritos” são cada um dos filhos de Israel. Não há duas pessoas que pensam da mesma forma, que reajam da mesma maneira a um estímulo idêntico. Todos são independentes, têm sua própria personalidade e não querem se tornar parte de um ‘rebanho’. E assim, quem os lidere deve ter qualidades extraordinárias, já que o pastor terá muitas dificuldades quando estes não queiram ser parte do ‘rebanho’.

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Pastor dos espíritos

Na verdade, quando Moshe apela ao “D’us dos Espíritos” está implicando, ou afirmando, que o líder deve ser um “Pastor dos Espíritos”; alguém que possa entender as necessidades de todos, que possa se identificar com eles e lhes permita também, identificarem-se com ele. Pouca coisa, hein?

O Criador de fato responde que Yehoshua será aquele que guiará o Povo nesta nova fase. “Um homem que tem ‘espírito’ nele” (27:18 id.); “que pode ir com o espírito de cada um”, diz Rashi. Com uma grande diferença: Yehoshua não deslumbrava a ninguém. Não se tratava de um sol radiante, mas sim de uma lua cheia.

A lua, mesmo quando está cheia e brilhante, nos permite ver a luz de cada uma das estrelas, mesmo que pequenas. Permite que todos possam desenvolver sua própria personalidade, no seu ritmo. Isto atrasa um pouco o processo: não poderemos ir tão rápido como íamos com Moshe e levará séculos para construir o templo, havendo muitos tropeços no caminho. Contudo, será um processo mais seguro.

Cada líder tem suas vantagens e desvantagens. A grande vantagem de Moshe é que, conhecendo o potencial de cada um, pode ajudar a dissipar suas dúvidas, incentivar cada um a superar suas hesitações. A vantagem de Yehoshua é permitir, com o tempo, que todos possam descobrir sua própria estrada, que lute desde zero para atingir sua auto realização.

 

Psicologia sagrada

As quarenta e duas “estações” devem ser superadas, com qualquer líder que seja, nos ajudando e incentivando-nos a obter o melhor dos melhores. Nossas capacidades e nosso potencial é enorme, e por isso, facilmente nos perdemos. O líder que sabe penetrar os “espíritos” de cada indivíduo, deve saber guiar tanto o particular quanto a nação. Mas como penetrar o espírito dos outros? Que tipo de psicologia nos pode ajudar neste sentido?

O rabino-chefe de Israel, o Rabino Avraham Yitschak Hacohen Kook, explicava que na sabedoria da santidade do Judaísmo, na chamada “mística” ou “ciência oculta”, estão os ingredientes necessários para o grande líder ou para o pequeno psicólogo serem capazes conhecer os espíritos e orientar as pessoas. Não somente a aqueles que desviaram do caminho correto, mas também aqueles que conhecem o caminho e mesmo assim precisam de apoio, de uma respiração, um empurrão.

O D’us dos Espíritos continua nos guiando através de seus alunos fiéis, até que (falta pouco) o rei pelo qual esperamos, o Ungido pelo Criador, o verdadeiro e definitivo Mashiach (Messias), oriente não só aos filhos de seu povo, mas também ao resto das nações.

A Responsabilidade dos Pais Com Seus Filhos

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Ki Tetsê

 

Esta Parashá é, possivelmente, uma das mais estranhas da Torá. O tema central desta é o desvio moral de um filho de boa família, uma criança que, a principio, não teve uma infância difícil, que não sofreu fortes crises familaires e que tampouco sofreu de carências relevantes em sua educação.

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Juízes e Tribunais

Comentários sobre a porção semanal de Shoftim

 

Em cada cidade

A Torá nos ordena que em cada cidade deve haver um tribunal.

Já haviamos visto uma instituição de tribunais com Ytró, sogro de Moshe, quando o aconselhou a procurar as pessoas certas para ajudá-lo a resolver os problemas do povo. Agora então está a ordem de que, ao entrar na Terra Prometida, cada cidade, e cada pequeno povoado, deve ter seu próprio tribunal para resolver os problemas que surgem, sem ter a necessidade de se dirigir ao Grande Tribunal por cada situação.

A missão do Tribunal de Justiça não se limita a se certificar que “exista paz” entre os vizinhos, não é só para prevenir e evitar problemas maiores. Sua missão é levar a palavra de D’us ao povo, como diz Moshe a seu sogro: “Quando venham até mim para buscar o Criador”. Esta é a melhor situação para evitar que surjam problemas, como vemos no Midrash que critica severamente os tribunais que existiram na época dos juízes, que não conseguiram evitar o desastre que se abateu sobre Israel, há mais de três mil anos atrás. O Midrash diz que a missão dos juízes do tribunal é vestir suas roupas de viagem e viajar de aldeia em aldeia e de cidade em cidade para ensinar as pessoas como evitar erros e julgar aqueles que já os cometeram. Assim fazia Elkana e sua família, e com isso foi educado o filho, o profeta Samuel, que aprendeu a agir dessa maneira, viajando de uma cidade para outra para permitir que a Torá seja acessível a todos.

E quando o problema já ocorreu, o tribunal deve saber como corrigi-lo.

Tipos de tribunalBDHalichot

Sabemos que existem dois tipos de corte. O primeiro é um painel de três juízes, cuja principal função é resolver os pequenos problemas entre vizinhos, entre marido e mulher, empréstimos problemáticos, contas, etc. Estes juízes devem conhecer perfeitamente a Halachá para saber dar as respostas certas, obviamente. Embora a principal missão destes e se responsabilizar que haja paz e harmonia entre os moradores da cidade.

O segundo tipo de corte é o tribunal que lida com as questões mais graves, que podem resultar em penas de morte. Este tribunal deve ser composto por vinte juízes, cuja preparação deve ser muito mais cuidadosa do que a corte anterior. Ao ponto de que a Torá os chama de “Elohim” – termo hebraico geralmente usado para se ferir ao Criador e portanto, normalmente traduzido como “Deus”. Na verdade, o significado deste termo seria “aquele que tem o poder sobre a vida e a morte”, e isso se aplica principalmente ao Criador, mas também a estes juízes foi dado este poder.

O Talmud no tratado de Sanhedrin explica que algumas funções do tribunal deveriam estar nas mãos dos juízes mais experientes, aqueles denominados “Elohim”, mas por algumas razões especiais, mencionadas no tratado, foi preferido deixá-las com os juízes mais “simples”.

Não mencionamos uma terceira possibilidade: a de que um especialista, uma autoridade, aja como um único juiz. O Shulchan Aruch traz essa possibilidade, embora o Talmud não pareça gostar muito, afirmando que “apenas Um julga sozinho”, referindo-se ao fato de ser uma prerrogativa do Criador. De qualquer forma, esta foi uma situação muito comum pela Diáspora, quando nem sempre era possível montar um tribunal, e o rabino local era aquele que deveria resolver os problemas.

Critérios para a nomeação

Na teoria, os três juízes que formam o tribunal “simples” podem ser três judeus que estudaram o suficiente para cumprir com esta função. Anteriormente existiam alguns critérios pré-estabelecidos para nomear estes juízes, seguindo as instruções de Ytró a Moshe, mas o próprio Talmud afirma que, sempre que necessário e, em casos relativamente simples, podem ser aceitos pessoas menos qualificadas.

Nós, é claro, devemos fazer todo o possível para conseguir o tribunal mais experiente, com os juízes melhor preparados para desempenhar suas funções. Não se contentar com juízes medíocres, mas sim exigir o mais alto nível.

Portanto, é importante que recorramos, frequentemente, os rabinos de nossas comunidades com perguntas de todos os tipos, demonstrando nosso sincero interesse em saber a verdade pois nos identificando com a Vontade Divina.

Autodidatas

Atualmente, existe muita gente que acredita ser capaz de resolver tudo através de seus próprios esforços: lêem artigos publicados, ouvem aulas e possuem uma boa biblioteca de Torá em casa. Autodidatas. Tudo isso é importante, e cada um de nós deve se esforçar para explorar a Torá por conta própria e se tornar um verdadeiro especialista em todos os aspectos que pudermos. Ainda assim, somente isso não é suficiente quando se trata de tomar decisões – o que em hebraico chamamos de ‘Psak-din’. O certo é chegar ao rabino com uma pergunta acadêmica, ou seja, depois de investigar o assunto por conta própria e depois de ter analisado os prós e contras. Somente, então, ir ao mestre levantando suas dúvidas com todos os pontos de vista, de modo que o Rabino possa determinar a decisão final. Mesmo quando estamos convencidos de que sabemos a resposta, é importante se consultar com um rabino, já que muitas vezes existem detalhes que não foram considerados e que podem “virar o jogo”.

No momento em que se chega ao rabinos com perguntas, estes deverão se esforçar para oferecer as respostas a um nível muito mais elevado, e assim é criado um ambiente de aprendizagem mútuo. Quando o rabino necessita estipular um ‘Psak-din’ ou um ‘Psac-halacha’ mais complicado, ele irá incentivar seus companheiros a formar tribunais locais ou regionais para então tomar a decisão.

Erudição

Na verdade, nossos sábios já haviam escrito, há quase dois mil anos atrás, que a sabedoria nos nossos tempos tornou-se uma necessidade popular. Não é como antes, quando os sábios eram aqueles responsáveis a “forçar” os mais simples a querer estudar. Hoje em dia mesmo pessoas que podem parecer mais “simples” podem ser um poço de sabedoria e de desejo de saber mais. Os sábios de hoje têm a vantagem da experiência, de estarem familiarizados com mais questões e assim saber a devida ênfase a cada situação.

Em nossos dias, está mais claro que nunca que a necessidade de conhecer a vontade do Criador não é algo restrito a alguns estudiosos. É verdade que muitos precisam de um guia, alguém que lhes diga o que priorizar nos estudos, alguém que lhes introduza aos estudos de uma maneira adequada, diferente daquilo que estamos acostumados em escolas ou universidades.

E os pais, que sentem uma maior dificuldade de alcançar os níveis necessários para se tornarem seus próprios juízes, pelo menos saibam como educar e incentivar seus próprios filhos, para que, talvez, estes possam crescer e se tornar juízes.

A Visão

Comentários sobre a porção da Torá desta semana – Reê

 

A Bênção

Esta parashá de Reê é a parashá da vista, da visão. E, assim começa: Veja!

Mas o que devemos ver?

Primeiramente, que existe a bênção e a maldição. A bênção é quando o positivo progride enquanto que a maldição é quando o negativo prospera. A bênção depende do cumprimento do objetivo que o Criador impôs ao mundo. A maldição é resultado do não cumprimento desta nossa missão.

Esta, é uma visão que nos permite ver o mundo além da confusão caótica da qual tem desenvolvido desde o início da criação. Ao longo deste período de caos, a humanidade não pôde ver o sentido do mundo, o sentido da vida, o verdadeiro valor das coisas, tanto as pequenas quanto as grandes, que constituem o cosmos no qual vivemos.

Contudo, pouco a pouco, o mundo tem deixado o caos e tem sido mais e mais capaz de encontrar o sentido da vida e de tudo aquilo que acontece ao nosso redor. Não existem mais “deuses loucos que lutam entre si” e cuja a raiva devemos apaziguar com sacrifícios sangrentos. É verdade que ainda existe muita ignorância e que ainda existem milhões de pessoas que não sabem ler ou escrever, que não têm idéia do que estamos falando, e, obviamente, isso é um problema sério do qual devemos fazer de tudo para superá-lo. Mesmo entre aqueles que entendem que o mundo tem um dono, e um objetivo, estes simplesmente não entendem sua missão na vida e, assim, não sabem o que fazer para cumpri-la.

Para isso a Torá nos apresenta a Parashá Reê, para ajudar-nos a “ver” aquilo que o Criador nos dá.

A Visão do Templo

Esta visão está diretamente relacionada com o Templo. No capítulo 12, versículo 13, a Torá nos proibe de realizar oferendas em qualquer lugar que ‘vejamos’, mas sim, devemos trazê-los para o lugar no qual o Criador escolheu, que, como sabemos, está em Jerusalém, no local onde foi construído o Templo pelo Rei Shlomo.

O conceito de “lugar que vejamos”, se refere a nossa visão intelectual ou mesmo espiritual, com a qual poderíamos tirar conclusões erradas, sendo estas conclusões perigosas, especialmente neste temas, que poderiam resultar em uma alteração da ordem divina.

Sendo o Criador onisciente, uma vez que Ele criou todos os lugares e em todos os lugares Ele habita, não deveria haver nenhuma diferença entre diferentes localizações para poder se “encontrar” com ele. Assim, portanto, poderíamos pensar que todos os locais são dignos de servir como um “ponto de encontro” entre a divindade e a humanidade.

O Templo não se trata apenas de um lugar onde as oferendas são sacrificadas, mas, como dissemos, é este “ponto de encontro”. Durante a peregrinação do Povo de Israel pelo deserto, o Tabernáculo também foi chamado de a “Tenda do Encontro”, pois se tratava do encontro entre o homem e seu Criador. O mesmo se aplica ao Templo. O Rei Shlomo, no discurso de abertura do Templo (Reis 1 8:48), anunciou que todas as orações deveriam ser direcionadas a este lugar sagrado, para, então serem ouvidas pelo Criador. Por mais estranho que possa parecer, as rezas que não atingem este lugar sagrado, não “chegam” no destinatário. Este é um erro muito comum, já que muitos pensam que “como o Criador é onipresente, Ele não tem nenhum problema em ouvir as orações de qualquer parte do mundo”.

A Ordem Divina

Obviamente que Ele “pode” escutá-las! Mas não o quer. O Criador estabeleceu uma ordem que implica que as orações devem ser dirigidas a este lugar sagrado para que assim, possam resultar a reação esperada. Em outros lugares, pode existir uma ligeira sombra desta Presença Divina, mas não é nada em comparação à Presença Divina, a Shechiná, que se encontra no Templo. Isto significa que em outros lugares “não se nota” a presença do Criador, enquanto que, no Templo, quando está construído e o serviço Divino é realizado corretamente, através das pessoas certas, com as intenções corretas, respeitando as demais condições estabelecidas na Torá, não existe confusão. Quer dizer que no Templo não existe dúvida alguma de que a nossa oração foi ouvida e que a nossa voz chegou aos “ouvidos” do destinatário.

Há cerca de 2500 anos atrás, com a destruição do Primeiro Templo, perdemos tudo isso, uma vez que o Segundo Templo era apenas um modelo do primeiro, em tamanho real, mas que não tinha as qualidades especiais que se destacavam no primeiro. Ainda foi possível ver ‘milagres’ no Segundo Templo, mas, como se diz: “não se compara ao esplendor espiritual do original”.

A razão desta recaída nos revelam nossos sábios do Talmud e o Zohar. Estes nos ensinam que no final do período do Primeiro Templo desapareceu o sentimento nacional do Povo de Israel. As dez tribos desapareceram do mapa através do exílio de Sancheriv (Senaqueribe), e os poucos representantes destes que se refugiaram dentro do reinado de Judá, o reinado dos “judeus”, descendentes de Judá, já não eram suficientes para manter vivo o sentimento de “pertencer a uma nação”, a nação de Israel. Parece que o “judeu” se tornou, como chamado no livro Cuzari “uma relíquia dos filhos de Israel”, ou seja, uma pálida sombra do que era o Povo antes do Exílio da Babilônia. O problema, então, não é resolvido com a construção do Segundo Templo, mesmo que a maioria dos ‘judeus’ da Babilônia estivessem dispostos a voltar à sua pátria ancestral e reconstruir o Templo.

Unidade Nacional

A falta de unidade dentro do Povo de Israel é, portanto, um dos principais males, uma das doenças mais graves, talvez, a mais grave de todas. E quando não estamos conscientes da gravidade desta doença, não somos capazes de procurar e, assim, encontrar a solução.

Esta Parashá é sempre lida depois do Tisha BeAv, do dia 9 do mês de Av, no qual celebramos a destruição de ambos os Templos. Nossos sábios nunca se cansam de repetir que a razão desta destruição foi o “ódio gratuito”, o ódio sem motivo praticado, resultado desta falta de sentimento de “pertencer a uma mesma família”, ao mesmo povo.

E a solução, é claro, é o ‘amor livre’, o amor por nenhuma razão, mesmo quando o outro parece ‘não merecer’. Devemos reviver o sentimento nacional, todos nós pertencemos a uma mesma nação, apesar das diferenças que possam existir entre nós. Somos diferentes, cada um tem sua própria personalidade, e mesmo assim, somos parte de uma entidade nacional especial, com qualidades especiais e com objetivos especiais.

Sonhar

Devemos começar a sonhar, dormindo e acordados, com a reconstrução do Templo, e este sonho nos vai ajudar a procurar e encontrar uma maneira de levar a cabo esta missão, para o bem de nossa nação e de toda a humanidade. É mais urgente do que imaginamos e, estamos suficientemente preparados para realizar esta missão.

Às vezes os sonhos são mais reais do que aquilo que chamamos de “realidade”. Especialmente quando estes sonhos são a expressão daquilo que “sabemos”, que a alma sabe mas não é capaz de expressar. Quando não existem sonhos, o Talmud nos ensina, se trata de um sinal muito ruim. Em muitos casos, os sonhos são o único meio pelo qual a alma pode se expressar, e por causa disso, como podemos ver nesta mesma Parasha, devemos tomar cuidado com eles. Se são a expressão do que a Torá nos ensina, estes são muito importantes e devemos ‘mergulhar’ nestes antes mesmo de ir dormir. Devemos estudar as diferente opiniões e buscar os detalhes que nos interessem, de modo que, no sonho, possamos viver as facetas desconhecidas que a imaginação nos permite, através da fantasia e do lado sobrenatural da alma. Sonhar com o templo é um dos sonhos mais preciosos e significa que estamos bem ‘sintonizados’.