A luta de Yaacov com o anjo: O encontro histórico – Parashat Vayishlach

Extraído do livro Más allá del versículo, do Rabino Eliahu Birnbaum

«E ficou Yaacov só, e lutou um homem com ele até ao amanhecer. E disse a Yaacov: “deixa-me, pois chegou o amanhecer.” Mas Yaacov respondeu-lhe: “Não te deixarei ir, a não ser que me abençoes.” Então perguntou-lhe: “Como te chamas?” E respondeu: “Yaacov.” E disse o anjo: “O teu nome não será mais Yaacov, mas sim Israel, porque lutaste com De’s e com homens e prevaleceste.” E pediu-lhe Yaacov: “Diz-me, por favor o Teu Nome.” E o anjo respondeu: “Porque perguntas o Meu Nome?” E ali o abençoou.»

(Genesis, 32, 25-30)

Nesta parashá encontramo-nos com um dos relatos mais difíceis mas ao mesmo tempo mais interessantes da Torá: A luta entre o nosso patriarca Yaacov e um anjo.

A Torá não define claramente quem era a personagem com quem Yaacov lutou, mas com a continuação do texto, percebe-se que a sua luta foi com a presença Divina.

O combate de Yaacov com o anjo não está anunciado como sonho. No entanto, em torno deste relato está presente a aura misteriosa dos sonhos. Maimónides e Nachmanides interpretam este episódio da vida de Yaacov e diferem sobre se o que aconteceu foi sonho ou realidade. Continue reading “A luta de Yaacov com o anjo: O encontro histórico – Parashat Vayishlach”

Vá para o que você é

Comentário sobre a porção semanal da Torá de Lech Lechá

 

A Torá adota uma abordagem dedutiva da Criação. À medida que avançamos em seus capítulos, o objeto de sua atenção é cada vez mais específico. Quando chegamos à porção da Torá de Lech lechá, a parashá desta semana, nos dá a sensação de que tudo o que a precedeu era uma introdução para apresentar-nos a Avram. O Talmud explica que o pai de Avram era um fabricante de ídolos, objetos de adoração material e que é, contra esses ídolos, que Avram concentra sua rebelião. Avram não aceita o culto “horizontal” e a idolatria, extremamente difundidos em sua época e na verdade tenta superá-lo, escolhendo para si mesmo uma rebelião espiritual e, por sua vez, é escolhido por D’us para “descobrir” o monoteísmo.

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Acreditando em si mesmo

Comentário sobre a Porção Semanal – Noach

 

“Estas são as gerações de Noach; Noach era um homem justo, perfeito na sua geração…”
(Bereshit 6:9)

O sagrado Rabi Levi Itzchak de Berditchev em sua obra, Kedushas Levi, analisa o comentário de Rashi em Bereshit (7:7) “Mesmo Noach estava entre aquelas pessoas de pouca fé”.

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O pacto de cada um de nós

Comentário sobre a Porção Semanal da Torá – Nitzavim

 

Cada cultura proporciona diferentes formas de relacionamento e compromissos entre as pessoas e as instituições. Estas relações podem acontecer por escrito ou oralmente, através de emoções, intelecto e da lei. Nesta parashá, a Torá nos apresenta um compromisso diferente: o Pacto.

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A Mudança de Nome Representa uma Mudança de Destino

Comentário sobre a Porção Semanal da Torá – Vayshlach

 

A vida do patriarca Yaakov é representada pelas constantes crises entre seus sonhos e suas realidades.

Quando saiu da terra de Canaã, sonhou com a escada que determinou as experiências que viveria até seu retorno, ao sonhar com o embate com o anjo divino.

Desde seu próprio nascimento, teve que sempre enfrentar todos os tipos de conflitos e dificuldades – tanto internas quanto em relação ao mundo que o rodeava. Briga com seu irmão já antes do nascimento, mais tarde lhe compra a primogenitura, participa da enganação no episódio das bençãos de seu pai, defende seu direito a primogenitura e se encontra obrigado a fugir para Charán.

Em Charán, trabalha quatorze anos na fazenda de Laván, e é enganado por este, que entrega a Yaakov, Leah como esposa no lugar daquela que pensava casar, Rachel. Finalmente, mais tarde, foge de seu sogro e, repleto de medo e apreensão, se reencontra com seu irmão Esav. Depois sua filha Dina é violentada, seus filhos começam a odiar o favorito, Yossef que eventualmente “desaparece” e então, viaja até o Egito por razão da fome em Canaã, morrendo nesta terra estranha.

A vida de Yaakov é uma vida digna de estudo, analisando a reação dos homens quando correm riscos de serem arrasados pelas dificuldades e contratempos.

Neste marco é fácil observar três padrões habituais de conduta. A primeira alternativa deriva do otimismo ingênuo e radical, característico de Leibniz: “as dificuldades não existem, somente a imaginação do homem é responsável em criar o mal e suas conseqüências.”

Em segunda instância está aqueles que reconhecem a realidade com sua complexa amálgama de elementos positivos e negativos, contudo levantam as mãos, sentindo-se impotentes, quando surge uma dificuldade no caminho. Qualquer uma destas duas possibilidades, no entanto, nascem de uma distorsão da realidade objetiva ou subjetiva, são perigosas para o homem e o deixam passivo e indefeso frente a realidade.

A terceira alternativa, a única na qual uma pessoa pode resolver eficazmente sua relação com a realidade, é enfrentar-la com todo o conhecimento e força. Esta é a opção que representa a vida de Yaakov, quem enfrenta constantemente os desafios que vão surgindo, sem nunca render-se em sinal de impotência.

O momento crucial na luta de Yaakov acontece durante o embate noturno com o anjo. Neste relato é ignorado o limite entre o sonho e a realidade, entre o sonhar dormindo e o sonhar acordado.

Nos deparamos com um evento que parece um sonho, contudo este sonho projeta luminosamente suas conseqüências na realidade. Ao mudar – no apse do sonho – seu nome de Yaakov para Israel, é alterado, também, seu próprio destino particular e, com este, o destino de toda sua descendência.

O Povo e o Estado de Israel (sendo o nome que adotou sua descendência, no lugar de Yaakov ou mesmo Yehudá), fiéis ao arquétipo herdado, têm demonstrado freqüentemente que sabem lutar, enfrentar e defender-se. Contudo, mesmo hoje em dia, algumas vezes, o Povo de Israel encontra-se sozinho na escuridão noturna, até que surge o amanhecer e, mancando como resultado da luta, se enche de novas forças para continuar com seu caminho.

 

Retirado do livro “La Tora No Esta En El Cielo”, do Rabino Eliahu Birnbaum

O Pai da Fé

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Lech Lechá

 
História Sagrada

Aqui começa a nossa história, uma história sagrada, a história de uma família especial entre as outras famílias do mundo, a verdadeira Sagrada Família.

O que é tão especial nesta família, liderada pelos patriarcas Abraham, Itschac e Yaacov? Por que atrai a atenção, curiosidade, ódio e, por vezes, o desprezo ou admiração do restante das famílias do mundo? O que faz esta família atrair fortemente a atenção dos coreanos, ganenses e japoneses?

E o que quer dizer a “História Sagrada”?

Vamos começar respondendo a última pergunta. A “História Sagrada” é a história de fé no Criador do Mundo. Como foi evoluindo a confiança da família de Abraham no Criador e Senhor do mundo, para, então, ser digno de receber a Torá. E logo, as aventuras, os problemas, as quedas e as recuperações que levaram o Povo de Israel ao cumprimento da Torá.

 
Descubrindo o Criador

Abraham começa um longo processo de interação com o Criador que, desde os primórdios da criação, tinha se escondido de suas criaturas atrás de uma cortina de ‘Natureza’. Abraham é capaz de reconhecê-lo dentro e acima da natureza e trabalhar nesse sentido.

Este “aja em conformidade” apresenta alguns dilemas muito difíceis, algumas “provas” das quais vai saindo vitorioso, uma e outra vez. Torna-se o ‘Príncipe de D’s’ entre as cidades vizinhas. É capaz de defender a vida do ímpio, porque é capaz de reconhecer, mesmo nestes, a imagem divina básica em que foram criados. É otimista, sempre feliz e disposto em ver o lado positivo das coisas, sabendo colocar em verdadeiras proporções os defeitos das pessoas. Este é o lado positivo que nos permite consertar quando cometemos um erro, ao invés de cair no pessimismo da desgraça, que poderia levar-nos ao desespero.

E exige que os outros aprendam com seu exemplo e sigam seu caminho. Somos capazes de melhorar. Temos uma ferramenta interna, a consciência, que nos permite reconhecer nossos erros e permite que nos ocupemos em corrigir nosso caminho e reparar os danos que causamos.

Isso incomoda as pessoas. As pessoas preferem se fechar em seus defeitos “naturais”, sem forçar para encontrar uma solução. Pois a solução exige um esforço diário, a cada momento de nossas vidas, não só para alterar as condições em que vivemos mas, principalmente, para mudar a nós mesmos.

Abraham transmite esta mensagem, este modo de viver e de se comportar, para seu filho e para seu neto, cada um com uma personalidade completamente diferente, com forças de vida diferentes. Deste modo, os três formam uma base sólida sobre a qual um novo povo é construído, com características únicas no mapa dos povos do mundo.

 
O que é a fé?

Muito tem sido escrito sobre esta palavra e seu significado. A fé.

A palavra “fé” é sinônimo de “confiança”. No judaísmo, o termo “fé” a relação de confiança entre dois personagens. Uma pessoa pode ter fé em seu filho, ao “saber” que o filho vai se comportar corretamente, apesar dos desafios que enfrentará na vida. Essa confiança decorre de um conhecimento de como são as reações da criança em relação aos desafios. Cada experiência do filho, na presença do pai reforça a sua fé na criança, que mostra saber superar o desafio. A criança pode surpreender o pai com soluções que são, ainda, fora do campo de imaginação do pai, mas que são a resposta que a criança dá para os problemas que ele, e não o pai, enfrenta.

O mesmo podemos dizer da nossa relação com o Criador. Temos confiança nele. Nossa confiança não consiste – de nenhuma maneira – em pensar que D’s deve fazer o que queremos, que deve cumprir com os nossos pedidos. A confiança significa confiar que a resposta de D’s aos nossos pedidos é mais adequado para nós, mesmo que seja distante daquilo que imaginamos, ou esperávamos, como resposta.

Alguns acreditam que D’s “deve” responder aos nossos pedidos na maneira que esperamos. Este não é o ponto de vista do judaísmo. O Criador tem um plano para este mundo, e para nós, dentro deste mundo. Quanto mais integrados e identificados estamos com este plano divino, será mais fácil que Ele responda aos nossos pedidos “de maneira satisfatória”, pois será aquilo que Ele mesmo nos quer dar. Quando a pessoa está longe do plano divino, não há nenhuma garantia de que suas solicitações sejam atendidas, a menos que D’s considere necessário tal resposta para que a pessoa possa reagir positivamente, como explica o Rei Shlomo no discurso de abertura do templo (1 Reis 8: 41-43).

 
O Pai da Fé

Abraham é o pai da fé, que ensina seus filhos e seus alunos a viver consistentemente com esta confiança no Criador, por mais que as aparências “provem” o contrário.

A porção da Torá Lech Lecha é uma primeira janela aberta para a vida de Abraham,  com lutas que devem ser combatidas consigo mesmo, com os egípcios ou os sírios, que questionam o ponto de vista e o modo de vida de Abraham.

Em seus primeiros oitenta e cinco anos, o chamam de “a mula estéril”, não somente por não ter filhos, mas porque o seu caminho foi considerado “estéril “, sem nenhuma chance de crescer e se desenvolver. Um caminho para um indivíduo raro, fora da sociedade. E isto é parte do desafio em sua fé no Criador. E quando nasce seu primeiro filho, que não se sente capaz de seguir o caminho de seu pai e a luta que surge entre sua esposa e a mãe desta criança, é um novo desafio para ele.

Lendo nas entrelinhas da história de nosso pai Abraham vamos descobrindo o coração dos Patriarcas, que amavam o Senhor “e aprendiam as lições que nos transmitem, dispostos a aplicá-las em nossas vidas privadas. Estes capítulos, e as duas parashiot que se seguem, devem estar profundamente gravadas em nossas mentes, em nossos corações, e devem guiar-nos em tudo o que fazemos.

Saber falar

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Bereshit

 

A Profecia

Celebramos esta semana a festa de Simchat Torá, na qual se lê a última porção semanal e então, inicia-se um novo ciclo de leituras das porções semanais da Torá, com a porção de Bereshit.

Os cinco livros da Torá foram ditados pelo Abençoado Criador para nosso líder Moshe, que escreveu cada palavra que lhe era dita pelo Criador. O primeiro livro, o Livro da Criação (ou ‘genesis’ em grego), narra os acontecimentos que tiveram lugar muito antes de Moshe, muito antes de que alguém pudesse conhecê-los para assim, transmitir a outros. Sendo assim, tais acontecimentos só poderiam ter sido de conhecimento de Moshe, através de profecia.

A profecia é um dom precioso do Criador, é a possibilidade de estabelecer uma linha de contato entre o Criador e suas criaturas. Neste contato, podemos acessar o conhecimento que está muito além das possibilidades físicas ou intelectuais dos seres humanos. Não somente descobrir o que vai acontecer amanhã, mas inclusive, conhecer os segredos da vida.

Este contato profético é chamado em algumas passagens bíblicas como “diante de D’us”, como podemos ver neste livro (4:16) quando Cain deixou de estar “diante de D’us”. Ou, como vimos nos últimos versículos de Devarim (deuteronômio 34:10), que o Criador conheceu Moshe, “face a face”.
Condições

Claro que não qualquer pessoa pode autoproclamar-se “profeta”, e não qualquer um pode acessar este precioso contato. É necessário o cumprimento de condições muito estritas, que tornam a pessoa merituosa para alcançar este contato.

Não somente condições “pessoais”, particulares do profeta, conhecimentos dos segredos da profecia, a língua hebraica – na qual é transmitida, e o código especial para decifrar as mensagens. Devem possuir também, condições “ambientais”, como, por exemplo, que a maioria do povo de Israel habite a Terra Santa e que o nível espiritual da maioria de seus membros atinja um nível apropriado.

Dentro do povo de Israel, houve milhares de pessoas que, ao longo de sua história, atingiram diferentes graus de profecia, mas nenhum que chegou ao nivel do líder Moshe, que esteve muito além do que podemos imaginar, permitindo-lhe a honra de escrever a Torá sem trocar uma única letra, sem uma única falha.

Nossos sábios, receptores de muitos dos segredos da profecia, que não puderam receber toda esta profecia por razões “ambientais”, nos ensinam que os primeiros onze capítulos da Torá não podem ser entendidos literalmente, mas devem ser totalmente criptografados. Não somente estes, uma vez que toda a Torá esconde uma mensagem muito profunda – que pode ser sentida em muitas passagens, mas a partir do décimo segundo capítulo, ao menos, já parece que podemos entender alguma coisa. Lemos, então, as passagens da “história sagrada” dos nossos Patriarcas que escondem mensagens transcendentais em cada uma de suas palavras e inclusive de suas letras. Contudo, estes primeiros capítulos, devem ser totalmente criptografados.
Nomear

Uma das primeiras mensagens desta Parashá está no capítulo 2 (versículo 20), na qual diz que Adam nomeou a todos os animais, todas as aves e todos os animais do campo. Claramente não trata-se de escolhas aleatórias, pois nenhuma qualificação especial é necessária para isso e assim, não seria uma passagem digna de ser mencionada na Torá. Trata-se de uma habilidade extraordinária de capturar a essência dos seres e também um maravilhoso conhecimento das possibilidades de expressão, o que lhe permitiu dar o nome certo para cada um dos seres vivos.

Este dom é concedido também a todos os pais judeus, que “sintonizam-se”, no momento do nascimento de seus filhos, tornando-se capazes de dar o nome mais apropriado.

Isto é relativo a função da fala, que é exclusivo da humanidade. Não trata-se somente de se “comunicar” com outros membros da própria espécie, o que qualquer animal pode fazer. É ser capaz de expressar-se com palavras ‘novas’, abstratas, com sentimentos, um conhecimento muito além de nós mesmos ou de nosso ambiente.
Necessidade Básica

A função mais elevada desta capacidade é a profecia, a comunicação entre o homem e o Criador. E esta comunicação é um dos desejos, ou necessidades, mais básicas do ser humano que, tenta por todos os meios alcança-lo, normalmente, sem conseguir “acertar”.

Isto pois, como vimos, são necessárias algumas condições morais, espirituais, ser capaz de não mal utilizar o dom da fala, não insultar, não ficar com raiva, não falar mal de ninguém, não xingar e não mentir. Caso negligenciamos este dom e o utilizamos para coisas proibidas e impróprias, nos afastamos cada vez mais da possibilidade de um contato direto e consciente com o Criador.
Saber falar

Mesmo do ponto de vista mais profano, é terrivelmente inadequado depreciar-nos desmentindo nossas palavras, ou “sujando” com porcarias a maravilhosa capacidade que temos. Devemos saber como falar corretamente. Especialmente, quando compreendemos a verdadeira dimensão desse poder. Como podemos aproveitar essas condições, pelo menos aquelas que estão a nosso alcance?

Ao cumprirmos com nossa própria missão, influenciamos o crescimento de um ambiente positivo ao nosso redor e influenciamos para que aproximamos o momento no qual esta relação com o Criador será clara e transparente, novamente.