Parashat Vaiechi

Não há maior bênção do que a paz entre irmãos.

A Bênção de Efraim e Menashe

Jacob percebe que está prestes a morrer, e, para fazer um «testamento ético», convida os seus doze filhos para receberem uma bênção. Mas primeiro chama, para os abençoar, os seus dois netos, filhos de José: Efraim e Menashe.

Por que Jacob prioriza a bênção dos seus netos? Há um significado muito profundo na bênção dada por Jacob. Um dos mais belos costumes da vida judaica é que os pais abençoam os filhos no início do jantar de Shabat, todas as sexta-feiras à noite. As meninas recebem a bênção «Que De’s te faça como as matriarcas, Sara, Rebeca, Raquel e Léia.» Enquanto que aos meninos se diz: «Que De’s te faça como Efraim e Menashe».

Que aconteceu aos patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob? Porque foram Efraim e Menashe escolhidos em vez deles, para essa importante tradição?

Os nossos Sábios oferecem duas explicações:

Uma ideia é que Efraim e Menashe foram o primeiro grupo de irmãos que não brigaram. Os filhos de Abraão, Isaac e Ismael, não conseguiram dar-se bem e as suas divergências formaram a base do conflito árabe-israelita de hoje em dia.

Os dois filhos de Isaac, Jacob e Esav, eram tão contenciosos que Esav quis matar Jacob repetidamente e ordenou aos seus descendentes que fizessem o mesmo.

Os filhos de Jacob também caíram na violência ao vender o seu irmão Joseph como escravo.

Isto explica a razão pela qual, quando Jacob abençoou Efraim e Menashe, trocou intencionalmente as mãos, abençoando primeiro o mais novo e depois o mais velho. Jacob queria enfatizar que não deveria haver rivalidade entre esses dois irmãos (Génesis 48:13 e 14).

É com esse pensamento que os pais abençoam os seus filhos hoje em dia, pois não há maior bênção do que a paz entre irmãos.

Esse mesmo desejo é o que De’s tem em relação a todo o povo judeu.

Outra explicação para entender porque as crianças judias recebem a bênção de Efraim e Menashe é dada pelo rabino Shimshon Rafael Hirsch:

A primeira geração de judeus, Abraão, Isaac e Jacob, educou os seus filhos principalmente na terra de Israel. A Terra Sagrada é o ambiente judaico mais receptivo, sobre o qual o Talmud relata que «até o ar te faz sábio». Então, de certo modo, educá-los foi relativamente fácil. Mas depois, devido à fome, Jacob e a sua família foram para o Egito. A geração seguinte cresceria cercada por paganismo e imoralidade. Começava o desafio do judaísmo: Sobreviveria no meio de todas essas distrações e desafios da vida na diáspora?

Os netos, muito mais do que os filhos, são quem revela o fundamento e a futura direção da linhagem familiar. Ao longo dos anos, os pais judeus rezaram para que os seus filhos resistissem às tentações do exílio e pudessem manter orgulhosamente a sua forte identidade judaica.

Qual foi o resultado com Efraim e Menashe? Apesar de grandes obstáculos, eles cresceram no Egito e mantiveram sua adesão ao judaísmo. E é por essa razão que abençoamos os nossos filhos para serem como eles.

Autora: Edith Blaustein

Parashat Vaigash

Esta é a medida da grandeza de Yehuda: Não ficou preso em sua dor, mas cresceu espiritualmente, partindo da tragédia e usando-a como terreno fértil para a empatia, a compaixão, o perdão e até o auto-sacrifício.

Autora: Edith Blaustein

Circunstâncias difíceis e o nosso crescimento pessoal

O apelo de Yehuda a Yosef é um sinal de crescimento pessoal e de sua empatia com a dor de seu pai. No final da última parashá, Yosef, agora primeiro-ministro do Egito, colocou um copo valioso no saco de Biniamin quando os seus irmãos voltavam com comida para a casa de seu pai.

O copo foi descoberto e todos temiam que Biniamin não pudesse voltar para casa, porque a dor de Jacob seria fatal.

Numa das histórias mais pungentes da Torá, a Parashá desta semana começa com Yehuda oferecendo-se em vez de Biniamin. Perante esta cena, de alguma forma procurada por Yosef, ele se revela aos seus irmãos.

Toda a sua família será reunida sob a sua proteção no Egito: Seu pai, seus irmãos e todas as suas famílias viverão na terra de Goshen.


No capítulo 44, somos informados: Yehuda se aproximou dele e disse: «Rogo, meu senhor, para falar seu servo aos ouvidos de meu senhor, e não acenda sua fúria contra seu servo, que meu senhor é igual ao Faraó (18) (…) Agora, então, deixe seu servo permanecer em vez do menino como escravo de meu senhor, e o menino suba com seus irmãos. Porque como subirei a meu pai se o menino não estiver comigo? Para não ver o mal que viria a meu pai» (33 e 34).

Vemos que Yehuda passou por uma transformação pessoal desde o dia em que ele e seus irmãos deixaram Yosef num poço, há muitos anos. Naquela época, foi Yehuda quem sugeriu vender seu irmão (Gênesis 37:26). Sem ser o primogênito, Yehuda ocupa um papel central nessa história. Devemos nos perguntar: Porque sai ele para defender Biniamin e não o primogênito Ruben?

Uma das respostas pode ser encontrada no próprio texto; é-nos apresentada pelo Midrash Tanjuma, uma coleção de midrashim que remonta à era talmúdica.

Após a venda de José e a apresentação de suas roupas ensanguentadas por seus irmãos a Jacob, a Torá narra o episódio de Yehuda com Tamar (Cap. 38). O Midrash nos apresenta Yehuda trazendo a infeliz notícia da morte de Yosef a seu pai.

É então que De’s diz a Yehuda:
«Você ainda não tem filhos e não conhece o sofrimento pelos filhos. Você fez seu pai sofrer e fez com que ele acreditasse erroneamente que o filho dele foi devorado por animais selvagens. Você vai se casar e enterrar um filho, e então conhecerá a dor de criar filhos» (Midrash Tanjuma Vaigash 9, citado por Aviva Gottlieb Zornberg no grande livro da exegese bíblica O começo do desejo). É neste episódio que Yehuda sofre a perda de dois de seus filhos: Er e Onán.

Aparentemente, esse Midrash nos explica toda a narrativa de Yehuda e Tamar do capítulo 38, e parece nos dar a razão do castigo que Yehuda recebe por ter enganado seu pai. No entanto, é surpreendente que não seja citado nesse contexto até muito mais tarde, quando Jacob envia Yehuda antes de sua chegada para preparar sua chegada a Goshen (46:28), no momento em que toda a família se reconcilia e se reúne no Egito.

Que relação tem tudo isso com a pergunta inicial, por que Yehuda saiu para defender Biniamin?

Podemos estabelecer que isso é crucial, porque, em vez de nos dar a imagem de um De’s vingativo que mata um filho para vingar outro, já que este Midrash é posteriormente colocado num lugar que revela a reconciliação de Yehuda com seu pai, deduzimos uma lição moral através deste Midrash. Ele sugere que a experiência de dor e sofrimento de Yehuda também é a fonte de grandeza espiritual, crescimento e um altruísmo desenvolvido. Todos nós temos circunstâncias dolorosas em nossas vidas; elas podem nos afundar em dor e ressentimento ou, pelo contrário, podem ser a fonte do nosso crescimento pessoal.

Nosso Midrash diz que quando Yehuda fez seu pai sofrer pela perda de um filho, foi porque ele não conhecia a «dor pelos filhos». Então ele se casou, teve filhos e perdeu dois deles, trazendo a lição da «dor pelos filhos» para sua casa da maneira mais real e dolorosa possível.

De’s é cruel e vingativo? Não devemos entender que De’s tirou os filhos de Yehuda por causa de seu comportamento com o pai, o que seria um capricho cruel da Sua parte. O que o Midrash nos diz é o que tornou possível a reconciliação, o desejo de Yehuda de ter empatia com a experiência de seu pai, seu conhecimento da «dor pelos filhos». Idealmente, a empatia leva à compaixão, e vemos que esse sentimento em Yehuda era tão grande que ele não estava disposto a deixar seu pai perder seu precioso filho mais novo.

Isso nos leva a uma nova pergunta: por que Jacob deveria sentir mais a dor de perder Biniamin do que a de perder Yehuda, já que o ponto principal do discurso de Yehuda é ele ficar no Egito como substituto do seu irmão mais novo?

Ou porque Biniamin era o mais novo, ou porque ele era filho de sua amada Raquel, Yehuda sabia que Jacob tinha um relacionamento especial com seu filho mais novo, assim como o teve no passado com Yosef (Gênesis 44:30). Esse facto é o que torna extraordinária a compaixão de Yehuda. Não só podia ter empatia com o sofrimento de seu pai pela perda de um filho, mas também era capaz de lidar com seu ressentimento anterior por essa mesma situação, até perdoando-o por amar seus filhos de modo desigual.

Esta é a medida da grandeza de Yehuda: Não ficou preso em sua dor, mas cresceu espiritualmente, partindo da tragédia e usando-a como terreno fértil para a empatia, a compaixão, o perdão e até o auto-sacrifício.

Foi ele quem deu o passo adiante quando a hora o exigiu, porque era ele quem sabia que, para se redimir dos seus erros passados ​​e da dor acumulada, deveria se oferecer pela libertação dos outros.

Parashat Miketz

Os Jogos Olímpicos, criados pelos gregos e enquadrados sob o lema «Citius, Altius, Fortius», convidavam os indivíduos para uma competição de morte onde a glória era alcançada apenas pelo mais rápido, pelo mais alto e pelo mais forte de todos os concorrentes do grupo.

Hanukah: Citius, Altius, Fortius

Excerto do ensaio original de: Eng. Enrique Medresh, da publicação eletrónica Reflexiones sobre la Parashá.

Devemos saber que a batalha que Israel travou contra os gregos, e por cujo triunfo se celebra Hanukah, foi, ao contrário da travada em Purim, principalmente de natureza espiritual e não física, sendo por isso comemorada de uma maneira puramente espiritual – acendendo uma luzinha, muito simples e espiritual. Além disso, a alegria desta festa é reduzida, pois, nessa luta, um grande número de judeus – os chamados helenistas ou mityavnim, grandes admiradores da cultura grega, – tomaram o lado dos gregos, causando uma espécie de guerra civil.

Ao identificar as diferenças ideológicas existentes entre a filosofia grega e a Torá, descobrimos que a cultura grega surge da concepção de que estamos dentro de um universo perfeito e imutável, que sempre existiu e sempre existirá, que é governado por leis naturais igualmente imutáveis. E essa natureza representa um valor absoluto inquestionável, que o Homem somente pode descobrir e admirar. Sob esse esquema, o ser humano é a criatura mais desenvolvida, representando o ponto central, o objetivo, o pináculo do universo. De tal maneira que a beleza natural encontrada no homem é para eles a expressão mais alta da estética e do belo, e o filósofo, com suas as ideias elevadas, representa o pensamento mais sublime que se possa imaginar.

Em contraste com a concepção grega descrita acima, a Torá mostra-nos uma visão radicalmente diferente, ensinando-nos que vivemos num universo em mudança, que teve um começo e terá um fim, um universo que foi intencionalmente projetado e criado de maneira incompleta e que é governado por um De’s único que, transcendentalmente separado da Sua Criação, ocupa o lugar mais alto que existe, representando assim o centro do universo e a fonte da verdade e da sabedoria.

Dentro dessa luta ideológica, cada um dos três decretos que Antíoco IV (Selêucides), o governante grego, impôs ao povo de Israel, foi uma reação dos gregos à afronta que eles consideravam que a Torá apresentava à sua visão do universo.

Uma consequência óbvia das ideias fundamentais mantidas pelos gregos foram as suas ideias (erradas) sobre a concorrência. Por exemplo, ao conceber que o tempo é circular, sem o conceito elíptico de tempo que o judaísmo tem, eles tiveram necessariamente que concluir que não existe avanço ou progresso real, nem no Homem nem no cosmos. Esta perspectiva, somada aos outros princípios gregos mencionados acima, fez do Cosmos, do ponto de vista helénico, um lugar muito limitado.

Num universo concebido como fixo e limitado, os recursos a serem distribuídos são finitos e as descobertas por fazer são contadas, tornando cada indivíduo um potencial concorrente e oponente, naturalmente convidando a uma luta para conquistar esses recursos e descobertas.

Consequentemente, eram realizadas competições públicas frequentes em cada uma das áreas em que se pudesse demonstrar excelência. Tanto na cerâmica quanto na poesia, na pintura, na oratória e na arte dramática, a glória era a recompensa para quem demonstrasse superioridade. Os Jogos Olímpicos, criados pelos gregos e enquadrados sob o lema «Citius, Altius, Fortius», convidavam os indivíduos para uma competição de morte onde a glória era alcançada apenas pelo mais rápido, pelo mais alto e pelo mais forte de todos os concorrentes do grupo.

Obviamente, a competição é uma das atividades mais saudáveis ​​que existem. Acaba com a inércia, elimina a estagnação e a complacência, destacando aquilo que de mais valioso há no Homem, obrigando-o a dar o seu melhor. E isto é algo muito positivo.

O problema está no sentido que os gregos deram à concorrência.

Isso ocorre porque, quando colocamos uma pessoa a competir contra outras, negamos um dos princípios fundamentais da vida e do judaísmo – o valor da individualidade.

O judaísmo expressa-nos isso dizendo que «Adão foi criado como uma entidade exclusiva, com o objetivo de nos ensinar que cada indivíduo tem o valor de um mundo inteiro e que aquele que salva uma vida é considerado como se tivesse preservado o mundo inteiro … »

Da mesma forma, o Talmud ensina-nos que «todo artesão (oman) odeia aqueles que exercem o mesmo ofício». A lógica por trás desta afirmação é que, já que o indivíduo pode ser substituído pelos seus concorrentes, ele sente que não só não é indispensável; não é nem sequer necessário. Esse tipo de competição traz inveja, baixa autoestima e ódio. A harmonia autêntica e a consequente unidade são atingidas quando cada indivíduo percebe que os seus talentos, qualidades e características são únicos e apreciados.

Parashat Vaieshev

A Redenção estava no horizonte…

A Redenção que quase aconteceu (Uma oportunidade perdida)

Adaptação: Edith Blaustein

O meu rabino e professor, o rabino Yosef Dov Halevi Soloveitchik, Z’l, trouxe uma nova abordagem ao seguinte tópico, que nos ajudará a explicar este paralelismo e a dar-lhe um significado histórico importante. Este é o resumo do que ouvi dele:

O ponto de partida para a compreensão do exílio de Israel é a Aliança entre as partes (Génesis 15), onde Abraão foi informado sobre o exílio e a redenção que ocorreriam com os seus filhos. Depois da promessa de descendência: Não será ele quem te herdará, mas quem sair das tuas entranhas será quem te herdará (Gén. 15:4), e a promessa da terra: Eu sou De’s, que te tirei de Ur dos Caldeus, para te dar esta terra como possessão (ibidem, 7), foi estabelecida uma condição: Então De’s disse a Abrão:

Extraído do texto do rabino Dr. Daniel Tropper na antologia Potchim Shavua (Abrimos a semana), editado por Naftalí Rotemberg.

Sabe com certeza que os teus descendentes serão estrangeiros numa terra que não será deles e serão escravizados e oprimidos durante 400 anos (ibidem, 13). Mas também julgarei a nação a que servirão e depois disso sairão com grande riqueza (ibidem 14).

Por outras palavras, foi dito a Abraão que antes de a sua semente herdar aquela terra, seria exilada em outra terra. Mas que semente? O filho? O neto? Ou o bisneto? E para que terra serão exilados? Quando?

Muito mais foi oculto do que revelado, e, para descobrir as respostas, não temos outro caminho a seguir senão o dos eventos históricos.

O rabino Soloveitchik chega a estas conclusões: a partida de Jacob para Charan e o seu retorno à Terra de Israel podem ter sido, e talvez devessem ter sido, o exílio e a redenção sobre os quais Abraão, o nosso Patriarca, foi informado.

Esta é a interpretação do midrash de Génesis 37: 2 que Rashi traz: Jacob pediu para se estabelecer em paz. A que paz se refere? À paz da vinda do Messias. A Redenção estava no horizonte.

O Midrash sobre o versículo: Naquele tempo, Judá deixou os seus irmãos (Gén. 38:1) trata precisamente desse ponto. Diz o Midrash (Bereshit Rabba 85:1): As tribos estavam ocupadas na venda de Joseph, e Joseph estava ocupado no seu luto, Reuben estava ocupado no seu luto, e Jacob estava ocupado no seu luto, e Judá estava ocupado em procurar mulher, e De’s estava ocupado na vinda do Messias.

Nesta base, o rabino Soloveitchik sugere uma explicação original, perante estes versículos enigmáticos da Torá. No final da parashá da Torá Vaishlaj (Gén 36), quando é descrito o retorno de Jacob à Terra de Israel, a Torá explica as gerações que nasceram de Esav e conta os chefes de Esav e os seus reis. Dentro desta descrição está o versículo Estes foram os reis que reinaram na terra de Edom, antes que houvesse rei dos filhos de Israel.

Os exegetas encontram dificuldades em explicar este versículo, que sugere Saul e David várias centenas de anos antes de eles nascerem. Há quem veja Moisés no rei mencionado no versículo, já que sobre ele é dito: e houve um rei (Deut. 33:5).

Por outro lado, a explicação proposta pelo rabino Soloveitchik permite discernir, precisamente através da palavra «rei» que aqui aparece, o seu amplo significado no capítulo. No versículo que aparece antes da lista dos chefes de Esav, com a entrada de Jacob na Terra de Israel após o exílio, é dito: (Gén 35:11): E disse-lhe De’s:

Eu sou De’s Todo-Poderoso, sê frutífero e multiplica-te. Uma nação e um grupo de nações virão de ti; reis sairão dos teus flancos.

De que reino se está a falar? Do reinado do Messias, porque Jacob está prestes a entrar na Terra de Israel para realizar a Redenção. E é então que aparece a lista dos chefes de Esav, e nela o seguinte versículo: Estes foram os reis que reinaram na terra de Edom, antes que houvesse rei dos filhos de Israel. E, novamente, de que rei se está a falar? Do Messias, que está prestes a aparecer para redimir o mundo.

Daqui se depreende que a permanência em Charan devia ser a realização da profecia referente a uma terra que não será deles. O trabalho para Labão corresponderia ao versículo serão escravizados e oprimidos, enquanto os teus descendentes serão estrangeiros se refere a Jacob.

Se é assim, então o que aconteceu? Por que falhou essa Redenção?

Quanto ao versículo E estabeleceu-se Jacob na terra dos seus antepassados, na terra de Canaã, Rashi diz-nos: Jacob desejava estabelecer-se tranquilamente, e desfrutar dos dias do Messias. Mas sobreveio-lhe a ira contra Joseph. O «plano» falhou devido ao ódio entre irmãos, ódio que acabou por levar à venda de Joseph.

O rei Messias vem para estabelecer a paz no mundo (tal como exposto por Maimonides no fim das leis dos reis), e é impossível construir um tempo de paz sobre uma base de ódio entre irmãos. Foi assim que se perdeu uma oportunidade histórica.

Portanto, esta é a mensagem central da Haftará (parte dos Profetas que é lida todos os sábados após a leitura da Torá) da Parashá Vaieshev (que significa: «E ele se estabeleceu»): Por causa do triplo e do quádruplo crime de Israel não serão perdoados, por terem vendido um justo por dinheiro, e um pobre por um par de sapatos (Amós 2:6). A venda de irmãos também leva à destruição do Templo. Uma enorme perda histórica caiu sobre Jacob e os seus filhos: a Profecia de Abraão não se tornou realidade.

Cria-se então a necessidade de voltar a começar o processo, para cumprir as condições estabelecidas no Pacto entre as partes. Jacob desce uma segunda vez ao exterior, desta vez ao Egito, e lá concretiza-se a profecia do nosso patriarca Abraão.

A antologia Potchim Shavua, intelectuais israelitas escrevem sobre a Parashat Hashavua, compilada por Naftalí Rotemberg, foi publicada por Iediot Achronot, Tel Aviv, 2001.

Esta é, na minha opinião, a razão pela qual a Torá acentua a semelhança entre a descida de Jacob a Charan e a descida ao Egito: a história da descida da Terra é uma história que se repete como um círculo vicioso, e os filhos de Israel descem ao Egito com a esperança de que desta vez a Redenção seja cumprida, mas ainda não será a redenção final e última.

Parashat Vaishlach

Autora: Edith Blaustein

Elie Wiesel, no seu livro Mensageiros de De’s diz-nos: No seu sonho, Jacob viu uma escada cujo fim chegava ao céu. Ainda existe. Há quem a tenha visto, em algum lugar da Polónia, ao lado de uma estação de comboio abandonada, e um povo inteiro estava a subir em direção às nuvens ardentes. Esse era o caráter do medo que o nosso Jacob deve ter sentido.

Wiesel continua a descrever o nosso patriarca:

Um homem solitário, um sonho incandescente, um conflito. Dois irmãos, dois destinos. Amarrados e separados à noite. Um homem face à morte, um homem que imagina o seu futuro.

Um exame de si mesmo que implica um questionamento do seu passado. Memórias da primeira infância, das primeiras brigas com o seu irmão mais velho, triunfos seguidos de remorsos, os primeiros amores, a primeira e última deceção. Todos esses acontecimentos tinham-no conduzido ao confronto que acabava de ter com o seu tio Labão e o que teria amanhã com o seu irmão Esaú.

Jacob estava preocupado, o que era compreensível. Amanhã poderia morrer. O seu irmão, que ele não via há vinte anos, não compareceria sozinho ao encontro: Estaria acompanhado, pelo menos, por quatrocentos homens armados. O que aconteceria amanhã? Jacob estava com medo.

Na verdade, se ele tivesse o menor domínio sobre questões práticas, Jacob teria tentado descansar. Amanhã ele iria precisar de toda a sua energia, de todas as suas faculdades. Não conseguia, porque esta noite marcaria o início de uma nova aventura, a mais importante de todas.

Uma aventura estranha, misteriosa do princípio ao fim, de uma beleza avassaladora, intensa a ponto de nos fazer duvidar do que os nossos sentidos experimentam. Filósofos e poetas, rabinos e narradores, todos aspiraram lançar luz sobre o enigmático evento que ocorreu naquela noite, a poucos passos do rio Chabok. Um episódio contado na Bíblia com a sua sobriedade habitual e majestosa. Lembram-se?

Deixaram Jacob sozinho. E um homem lutou com ele até ao amanhecer. Quando viu que não o derrotara, deslocou-lhe a anca. E disse-lhe:

O dia está a chegar, deixa-me ir.

Jacob respondeu:

Não te deixarei ir, a menos que me abençoes.

E ele disse:

Qual é o teu nome?

Jacob respondeu:

Jacob.

O outro disse:

O teu nome não será mais Jacob, mas Israel, porque lutaste com De’s e o derrotaste.

Então Jacob pediu:

Peço-te que me digas o teu nome.

E ele respondeu:

Para quê o queres saber? E abençoou-o.

Jacob chamou aquele lugar Peniel:

Pois vi De’s face a face, e no entanto, continuo com vida.

Existem diferentes interpretações. Aqui as dimensões do episódio são modificadas: Testemunhamos um confronto entre Jacob e Jacob. O heroico sonhador e o inveterado fugitivo, o homem modesto e o fundador de uma nação, lutaram em Peniel numa batalha feroz e decisiva. E ganhou. Podia ser um anjo, o seu outro «eu» ou um homem, mas uma coisa é certa: O adversário foi derrotado. Agora Jacob estava preparado para enfrentar o seu irmão inimigo. Esse é, então, o significado principal deste episódio: A história de Israel ensina-nos que a verdadeira vitória do homem é aquela que ele consegue sobre si próprio.

Peniel: Encruzilhada, momento dramático para o espírito de Jacob. Já não estava satisfeito com a sua condição de filho de Isaac e neto de Abraão; desejava ter um nome que lhe pertencesse. Carregar com um significado completamente próprio e ligar-se a um evento que o imortalizasse.

Israel já não é decididamente o Jacob desorientado e sentimental que conhecemos até agora. Aprendeu a ser duro e determinado. A derrotar os seus adversários e inspirar respeito aos anjos. Sim, sem dúvida: Podia contemplar Peniel e lembrá-la com orgulho.

Parashat Vaietze

Elogios  a Lea

Autora: Edith Blaustein

Extraído do texto de Shulamit Hareven na Antologia Korot meBereshit, de Ruth Ravitzky.

Nos primeiros dias de Jacob, enquanto ainda tem a sua primeira identidade e não é Israel, há nele uma espécie de negação da discórdia. Uma negação da vida. Característica, diria um psicólogo moderno, do filho mimado da sua mãe, do filho preferido, cujo relacionamento com a sua mãe não é nem mais nem menos do que a vara com a qual ele mede o mundo.

Sem mais reflexão, o jovem Jacob assume o roubo, sem vacilar, sai ao caminho e chega à mesa do seu sogro (também irmão de sua mãe) quando trabalha para ele (estamos perante o primeiro retrato do que é uma relação entre sogro e genro).

Isaac também trouxe sua esposa através de um enviado (e não bebeu nem um copo de água na casa do seu sogro). Jacob não possui a independência masculina claramente estabelecida que caracteriza os líderes do povo. Também não é o criador de uma vida patriarcal, seu pai e avô não lhe serviram de exemplo. Ele é, pode dizer-se, um filho sem pai, «o filho da mamã», um homem cheio de imaginação, cuja força não se encontra no conflito direto. Ele é um homem encoberto.

A não aceitação das suas duas mulheres, Raquel e Lea, faz parte da negação do conflito em Jacob, uma parte do mundo imaginário em que ele se encontra.

Jacob diminui cada uma das irmãs: em Raquel recusa-se a ver a sua essência maternal; só vê a bela mulher por quem se apaixonou, e, em Lea, pelo contrário, só vê o aspeto maternal e não a sua dimensão de esposa / mulher.

O amor de Jacob por Raquel é o amor do sentimento (tão característico da adolescência).

Pelo contrário, Raquel não quer ser essa mulher que Jacob ama; ela não quer ser a mulher-mito, a mulher-menina: ela percebe muito claramente a pobreza humana essencial de uma situação fechada e coberta como esta, que não tem saída, e quer, expressamente, ser como sua irmã Lea.

Do ponto de vista simbólico, quando ela chega a Jacob com a exigência «Dá-me filhos, senão morro», ela está exigindo que ele pare de fazer dela a mulher extraída de sua imaginação errante, e que veja suas verdadeiras necessidades. Mas então «Jacob ficou muito zangado»: Zangou-se pelo próprio facto da exigência. Ele não lhe sugere que reze para ter um filho. Não lhe dá esperança alguma. Ele diz: Foi De’s quem te impediu de dar à luz. Noutras palavras, continua teimosamente a ver a esterilidade de Raquel como um princípio de De’s, como uma força especial, como uma parte da magia que é impossível mudar.

Em geral, Jacob não está inclinado a alterar situações, não discute com De’s, como fez Abraão no caso de Sodoma, ou como fez Isaac para pedir a De’s que abra o ventre de Rebeca. Jacob pensa que não tem o poder de mudar nada. Não tem forças para acreditar na possibilidade de uma mudança. Prefere permanecer na sua perceção de que existem forças mágicas que não estão sob seu domínio e que, portanto, não é obrigado a mudá-las.

Lea, cujos «olhos são meigos», numa leitura detalhada, não é aquela personagem fraca que só sabe ter filhos, que nós vemos assim, talvez por influência de Jacob, e que se projeta em nós até hoje.

A força vital de Lea é muito mais forte que a de Rachel, não só na sua fertilidade, que é consequência e não qualidade, mas na sua humanidade. Em nenhum texto é dito ou sugerido se Raquel tem forças para amar o seu marido. Raquel até vende a sua noite com o marido por umas mandrágoras. Lea ama-o e luta por ele. Aos olhos de Raquel, os filhos são o objetivo; aos olhos de Lea, os filhos são o meio para obter o amor de Jacob.

A personalidade realmente emotiva, possuidora da verdadeira força romântica, e não a aparente, de amor e de luta desesperada, é a de Lea e não a de Raquel.

Aos olhos de Lea, Jacob é marido só dela e ela não reconhece a ninguém o direito o partilhar (Ainda é pouco teres levado o meu marido?.. (Gen., 30:15) – como se ele também não fosse marido de Raquel). Este é a sua forma de amar.

Mas Jacob não via as coisas como eram; nunca percebeu que o mito que ele tanto desejava esteve sempre ao seu lado, na sua cama.

Lea é a «aborrecida», literalmente. Jacob persegue uma mentira, vai atrás de um engano de brilho luar distante, que nunca pode ser alcançado, já que que não vem de De’s, mas da magia. O próprio facto de as  mulheres de Jacob serem trocadas tem um certo esplendor. Ele passa uma noite inteira de amor com Lea-Raquel, sem perceber a diferença, e quando lhe mostram à luz do dia que a Raquel do seu coração é na verdade Lea, ele não percebe. Não entende o que lhe é pedido que entenda, não se curou do feitiço. A negação completa de qualquer conflito em que Jacob esteja envolvido obriga-o a continuar e a separar o «princípio Lea» do «princípio Raquel». Essa dicotomia enganosa, como se fossem princípios opostos, onde uma é a amada e a outra odiada, mantém Jacob preso. Na sua cama é criada a maldição da divisão, que será mantida posteriormente ao longo das gerações.

A força divina intervém aqui com dedicação. Como se quisesse ensinar a Jacob figurativamente que gastou todo o vigor da sua vida numa questão secundária: Raquel está enterrada na beira da estrada, enquanto Lea está enterrada no túmulo de Machpelá.

Parece que Jacob tivesse afastado Rachel para fora dos limites permitido e do possível, e assim introduziu nos seus filhos o princípio da diáspora. José, filho de Raquel, é retirado do círculo da vida na terra de Israel. A tribo de Efraim e a meia tribo de Menashé levam muito tempo para entrar em Israel. Eles não querem agir com energia, só quando são forçados a tomar o destino nas suas mãos, é que quebram o feitiço que pesava sobre Rachel e estabelecem-se permanentemente. O monte de Efraim nunca deixou de ser um lugar onde se praticava o paganismo. A diáspora está relacionada com os filhos de Rachel. E não apenas a dispersão, mas também esterilidade.

As duas mulheres estéreis mais importantes descritas mais adiante no Tanach são Chana, mãe de Samuel, e Michal, a filha de Saul. Ambas descendentes de Raquel, porque Chana pertence à tribo de Efraim e Michal à de Benjamim.

O fundamento da beleza e esterilidade da casa de Saul é um princípio totalmente pertencente a Raquel; embora Michal, filha de Saul, seja a única mulher no Tanach sobre a qual se diz (duas vezes) que amou um homem. À primeira vista, amou-o e exigiu ser dele. Apesar dessa tremenda independência, a maldição que pesava sobre Raquel permaneceu nela.

Como nos foi sugerido através das gerações, Raquel representa a esterilidade da diáspora. Mas os filhos de Raquel receberam uma compensação muito grande: beleza e graça pessoal, além da compensação monetária; não deveriam ser punidos porque não pecaram em nada.

Mas o ciclo da vida estabelece que o grande evento histórico, a revelação divina e não a mágica, tenha permanecido ao longo das gerações entre os filhos de Lea.

É comum no Tanach que um homem com uma responsabilidade histórica tenha algo mudado em seu nome. Então Abrão é Abraão, Sarai é Sara, Oshea é Yeoshua. Jacob é o único que, com sua entrada na corrente histórica, não recebe nenhuma mudança em nenhuma letra de seu nome, mas recebe uma mudança completa de identidade. Mais uma vez, a intervenção divina aparece, desta vez projetada em forma simbólica, quando o seu nome é mudado de Jacob para Israel após a sua luta com De’s.

Quando seu nome é mudado pela primeira vez, após a luta solitária na margem do rio, parece que o facto ainda não se enraizou: Jacob não muda. Coxeando e teimoso, continua à sua maneira. É necessária mais uma intervenção divina, e isso ocorre em Bet-El. Então Jacob é declarado Israel. Desta vez, da boca do próprio Santo, Bendito Seja.

Não há mais escapatória; deve enfrentar seu destino histórico, tornar-se um povo.

Mas, o que acontece imediatamente depois de Bet-El? A uma curta distância de ali, Raquel morre, ou como Jacob mais tarde dirá: «Raquel morreu-me». Literalmente: Raquel, a imaginária, aquela que nunca existiu, a Raquel da sua fantasia, «morreu para ele» no seu interior, ao lado da verdadeira Raquel (e, sem dúvida, infeliz), para que ele pudesse começar sua missão como Israel. E então a primeira coisa que ele faz é ir ver Isaac, seu pai. Retorna à fundação patriarcal. Ele não tem mais medo de Esav. Ele é Israel, que pode enfrentar os conflitos em sua vida. Isaac morre e ele é seu herdeiro.

Nem ouvimos dizer que Jacob-Israel chora Raquel com um lamento especial. Ele, artífice da palavra, não diz nada. Apressa-se a enterrá-la, coloca uma lápide, «e Israel viaja.» Não há descanso; o amor mágico foi enterrado numa sepultura apressada. O local onde uma pessoa é enterrada é muito importante para Jacob, ele é muito cuidadoso.

Este é o fim amargo de uma fantasia, que é enterrada rapidamente e sem lamentação ou choro.

Mas nenhum homem muda a sua maneira de ser de um dia para o outro, muito menos um homem como Jacob. Em pouco tempo volta a desviar-se com o episódio de José e, de certa maneira, também com  Benjamim.

Mais uma vez ele divide, novamente prefere o sentido mágico pessoal em detrimento da realidade que lhe é destinada, que entretanto se revestiu de uma maneira muito tangível: um grupo de filhos que estão zangados.

Ele renova o feitiço nos filhos de Rachel. E não lhes faz nenhum bem com isso. Joseph é punido pelos sonhos, pelos de seu pai e pelos dele. A punição é a diáspora. Jacob também, no final de sua vida, não pôde manter sua casa na Terra de Israel.

Ele não é um dos escavadores de poços, como seu pai e avô. Eles cavaram poços, ele colocou lápides. E terminou sua vida na diáspora, abrigado sob o poder de seu filho, que, por sua vez, estava sob as ordens de um governante estrangeiro. Realmente não é uma situação muito respeitável para o pai de um grande povo. No momento em que se desenvolve, com o apoio de Jacob, o fundamento de Raquel, todos descendem à diáspora.

Pode-se dizer que José é, em essência, o primeiro judeu diaspórico.

Viu-se inclusive obrigado a apoiar seus irmãos israelenses em momentos de necessidade. Nada de novo sob o sol.

Até à escravidão e a partida do Egito, o povo está sob a proteção temporária de um filho de Raquel. A redenção só pode vir das mãos de um filho de Lea: Moisés, da tribo de Levi. É ele quem reintegra o fundamento patriarcal e o princípio da terra. Ambos os princípios são sempre encontrados juntos na Bíblia: A terra de Canaã é a terra dos patriarcas, o local do monoteísmo.

José não saiu diminuído: as qualidades de Raquel, a inteligência, a rapidez, a graça que conquista o coração dos estranhos, tudo isso, juntamente com a recompensa material, são sinais da diáspora.

A possibilidade de se sair bem, de subir os degraus do poder estrangeiro, o carisma, têm sido  características de Raquel, a ladra do Trafim. (Em Gén., 31:19 Raquel rouba a seu pai estes elementos idolátricos que também são usados por Labão para adivinhação e feitiçaria).

Depois vem o trabalho forçado e a escravidão. De alguma forma, a diáspora vem de Raquel, uma consequência do erro do princípio da Raquel de Jacob, do engano. E não é em vão que Raquel é a mãe que chora por seus filhos exilados. Os filhos de Lea não foram para a diáspora? Sim. Mas aqui trata-se do sentido da diáspora: O distanciamento, a esterilidade, o temporal, são o eco do princípio de Raquel, consequência da mentira e da separação que aqui se encontram. A consequência é ficar de fora do grande «projeto» de De’s.

É muito estranho o modo como Jacob procurou com todas as suas forças, até seus últimos dias, perseverar na dicotomia sobre suas duas mulheres. De’s não lhe respondeu.

«As bênçãos de seu pai são mais importantes que as bênçãos de meu pai», diz Jacob a Joseph, e dá a ele e a seus filhos bênçãos de diferentes tipos. Mas antes de abençoar seus filhos, ele pede que seus netos, os filhos de Joseph, se coloquem de pé ao lado dos filhos de Lea, e não é atendido.

O divino não responde à magia privada. David constrói o reino e Moisés é o maior dos profetas, todos eles vêm dos filhos de Lea, Judá e Levi. O Monte do Templo e a capital não se encontrarão na herança dos filhos de Raquel. O Divino passou por cima do mágico e o deixou-o à beira do caminho.

O espírito, a poesia, a moral, o reinado, foram revelados aos filhos de Lea. E é claro que, no final, o próprio Jacob pede para ser enterrado ao seu lado, como se, em sua morte, ele mudasse e aceitasse a sentença divina. Permanece com seus antepassados, em sua terra e com sua verdadeira esposa.

A atração de Raquel é forte, vemo-lo em muitos escritores, que foram seduzidos por sua aparência. A imaginação continuou e a relevância poética foi atribuída a Raquel, e a qualidade «prosaica» a Lea. No entanto, essa diferenciação não tem fundamento. Não é atribuível a um fundamento poético, a diferença não passa de um engano. Há muita prosa turva e falta de imaginação, sem um remanescente de bondade, na essência de Raquel, a ladra dos Trafim. Até o ciúme e as disputas e o episódio das mandrágoras.

O nascimento e a morte da matriarca da estrada, quando a caravana quase não para. Por outro lado, há muita poesia na essência de Lea e na sua luta desesperada pela alma do homem que ama. Ela não tem esperança, porque Jacob nunca será um homem completo em sua alma, um homem com a bondade de De’s. Jacob diz ao Faraó que os anos de sua vida foram duros e amargos, e isso, é claro, é a verdade suprema. Um psicólogo moderno veria em suas contradições repetidas e não resolvidas a impossibilidade de se libertar da magia. Um relacionamento edipiano não resolvido, em sua impossibilidade de tolerar um conflito real, «conflito genital» em termos psicológicos, em sua falta de fé básica na possibilidade de mudança e em seu desejo de se sentir protegido até o fim de seus dias. Mas desta vez não estamos interessados em psicologia. Lea nunca conseguiu libertar Jacob do mundo assombrado em que ele estava preso, mesmo quando a força da moral e a energia da vida estavam do seu lado.

Muitos escritores continuaram no caminho do pecado de Jacob. Por exemplo, Tomas Mann em José e seus irmãos, sua preferência pelos belos e inteligentes deixa muitas suspeitas, enquanto os filhos de Lea recebem uma descrição quase caricatural. Ele insiste em ver a vitalidade nervosa especial dos filhos de Raquel como uma qualidade espiritual, e a dos filhos de Lea como um atributo materialista. Mann esquece que a graça que desperta a atenção e a estética não têm nada do divino no sentido mais elevado do termo, mas muito pelo contrário, é um tipo de compensação dada pela falta do divino.

A origem das qualidades espirituais, da essência divina, do princípio de Raquel, tem em vários autores um significado de olhar diaspórico. Uma linha direta leva-nos daqui a vários autores judeus norte-americanos dos nossos dias. Um olhar que prefere um princípio de beleza à força, imaginação à vitalidade, proteção estrangeira ao orgulho, astúcia ao simples. Pecam porque se separam entre duas possibilidades. Este é precisamente o pecado de Jacob, a dicotomia. Então, no seu tempo, Jacob transformou Raquel num mito, e Lea num monstro. Mann, entre outros, teima em ver os filhos de Lea como homens grandes que serviam apenas para a luta, um pouco tolos até. Isso é mais que um pecado literário, é uma cómoda filosofia de vida, sentimental, decadente, que não entra realmente em conflito com o princípio de Lea, pois é ela, e não outra, a fundadora da estirpe espiritual e física.

Parece que, precisamente, sua vida cinzenta, onde tudo é dado sem graça, sem coisas que se destacam, é o que reflete a verdade. E acaba sendo mais espiritual do que a graça vã e inteligente dos filhos de Raquel, fruto da imaginação de Jacob. Talvez tenha chegado a hora, do ponto de vista literário e metafísico, de rever mais de perto a essência de Lea e seus fundamentos.

Não a odiada pelo sonhador, mas, precisamente por causa dessa diferenciação, a amada pela força divina, destinada a ser a matriarca de uma grande religião e do grande povo. É a existência judaica em sua essência e sua surpreendente pluralidade, na qual a divisão de Raquel é incorporada às suas margens, porque tudo está incluído em Lea.

A antologia Korot meBereshit, mulheres israelenses escrevem sobre o livro Bereshit, compilado por Ruth Ravitzky, foi publicada por Iediot Ajronot, Tel Aviv, 1999.

Tradução livre de Edith Blaustein

Parashat Toldot

E Rebeca escuta

Extraído do texto de Avirma Golán na Antologia Korot meBereshit, de Ruth Ravitzky.

Rebeca, diz o rabino Adin Steinsaltz no seu maravilhoso comentário sobre a figura da segunda matriarca («Rebeca, a ovelha branca da família»), é uma mulher assertiva, que sabe sempre o que faz. Aos olhos de Steinsaltz, Rebeca tem um «poder de visão acima dos sentidos», semelhante ao poder de profecia, conforme descrito por Maimonides.

O homem de fé deve explicar a personalidade de Rebeca da maneira mais positiva possível; caso contrário, as suas ações não seriam compreendidas, uma vez que sua preferência pelo filho mais novo  em detrimento do primogénito e o enorme engano que ela faz ao marido suscitam perguntas difíceis. Quando a base de todas as análises é que Jacob tinha que ser o terceiro patriarca, o grande líder, que o seu nome foi mudado para Israel e que as doze tribos seriam descendência sua, não há problema em apresentar Rebeca como uma grande mulher, como aquela que complementa Isaac nas suas dúvidas e na sua fragilidade.

O rabino Steinsaltz propõe uma descrição que também pode ser aceite pelo leitor não religioso, que tenta interpretar as personagens bíblicas com a luz humana que ele entende. Rebeca, diz Steinsaltz, é o oposto absoluto de Isaac: Ela cresce numa família onde não se pode confiar em ninguém, deve ser ativa e agir sempre à sua maneira. Isaac, que sempre esteve rodeado de pessoas em quem podia confiar, num mundo hierárquico ordenado, não tem consciência do mundo do mal. O próprio Steinsaltz conta a história de Rebecca a partir de um mundo de fé absoluta (onde todos os relacionamentos e as causas são divinos); certamente não está interessado em que esta interpretação não saia destes limites. E, apesar disso, é difícil não relacionar a sua aguçada percepção com figura de Rebeca pequenina, que foge do seu cruel pai, que cai do camelo com um gesto engraçado, que entra com segurança na tenda de Sara e envolve Isaac num grande amor. Esta é a Rebeca que, quando os gémeos pulam dentro dela, não se queixa aos ouvidos do marido, mas dirige-se, com surpreendente coragem, a De’s: E foi procurar De’s. Há comentaristas que dizem que foi perguntar a Abraão, que ele era o intermediário. No entanto, não é uma explicação aceitável, que se vem impôr à surpresa dos homens perante descrição e o grito dela: Se é assim, porquê a mim?

E esta é a Rebeca que sabe muito bem, com uma percepção a roçar a crueldade, que Jacob é, dos seus dois filhos, aquele que está destinado a continuar a descendência. Não apenas porque o ama tanto, mas também pela sua profunda necessidade de influenciar e estabelecer o futuro. Nesse sentido, é Rebeca, e não Isaac, o verdadeiro líder. E com o sentido de missão que ela tem e não pouca megalomania (mesmo na medida necessária para quem se atreve a mudar o curso da História), decide rapidamente, com uma frieza de espírito e uma assertividade que provoca temor e que lhe é característica, trair o marido.

E Rebecca escuta. Isaac, que cinquenta anos antes da sua morte já estava sentado em casa e temia a cada segundo que a morte, tão conhecida por ele, chegasse e o levasse com ela, não conseguia diferenciar o importante do acessório. O seu coração sentía-se atraído pelo filho diferente dele, e  dirigiu-lhe a voz com amor. O cheiro do meu filho é como o cheiro do campo, disse ele ao filho errado. Rebecca ouviu tudo. Não só o que foi dito, mas também o que era necessário dizer e também o que seria dito. Os olhos de Isaac ficaram enevoados. Talvez ele nunca tenha visto com a certeza necessaria a um líder? Mas Rebecca, por outro lado, viu tudo: O passado, o presente e o futuro.

E assim, com uma segurança que congela, ela acalmou o seu filho mimado e confuso. Sobre mim a tua maldição, meu filho, disse ela, e, assim, só ela pagou o preço.

A antologia Korot meBereshit, mulheres israelenses escrevem sobre o livro Bereshit, compilado por Ruth Ravitzky, foi publicada por Iediot Ajronot, Tel Aviv, 1999.

Tradução livre de Edith Blaustein