O processo da redenção – Parashat Vaerá

«E ao ouvir o gemido dos filhos de Israel oprimidos pelos Egípcios lembrei-me deles. Por tanto, diz aos filhos de Israel: “Eu sou o Eterno e libertar-vos-ei dos trabalhos forçados do Egito e salvar-vos-ei da servidão com braço estendido e com grandes castigos. E considerar-vos-ei meu povo e serei vosso De’s, e sabereis que Eu sou o Eterno, vosso De’s, ao vos redimir dos trabalhos forçados no Egito. E vos conduzirei à terra que prometi dar a Abraham, a Isaac e a Yaacov, e dar-vo-la-ei por herança. Eu, o Eterno.”»

(Êxodo,6, 3-9)

A redenção (gueulá), segundo nos é revelado nestes versículos, não consiste num ato único e total, mas sim numa série de quatro etapas que configuram um processo histórico.

A redenção e a liberdade não se produzem geralmente de forma drástica mas sim como resultado de diferentes factos que provocam uma mudança na situação geral.

A redenção expressa-se nestes versículos através de cinco conceitos: tirar-vos-ei, salvar-vos-ei, redimir-vos-ei, considerar-vos-ei, levar-vos-ei. Continue reading “O processo da redenção – Parashat Vaerá”

Da escravidão à liberdade – Parashat Shemot

«E disse o faraó ao seu povo: “Eis que o povo de Israel aumenta cada vez mais e torna-se mais forte que nós. Ajamos, pois, astutamente com ele para impedir que continue a multiplicar-se, não vá acontecer que lute contra nós e consiga sair do país.” Então pôs sobre os hebreus obrigações de tributos e capatazes de trabalhos forçados, obrigando-os a edificar cidades de armazenamento para o faraó… E os egípcios obrigavam os filhos de Israel a servir com todo o rigor, amargurando-lhes a vida com pesados trabalhos de construção, com barro e com tijolos e com duros trabalhos no campo.»  (Êxodo, 1, 8-15)

Enquanto Génesis é o relato da criação do universo e do homem, o livro de Êxodo (Shemot) é o relato fiel da criação de uma nova nação.

Todos os relatos de Génesis posteriores à Criação giram em volta de personagens. No núcleo dos capítulos encontra-se sempre alguma personalidade: Adão, Caim, Noé… os Patriarcas…

Mas em Êxodo, já desde o primeiro capítulo se vislumbra o aparecimento do povo de Israel como uma entidade central. Com efeito, em Êxodo, os nomes e os detalhes dão lugar a uma nova figura: O povo de Israel.

Em Êxodo não há nomes nem individualidades, já que estes cedem o lugar à transcendência do coletivo. A geração dos grandes patriarcas desaparece, e, em seu lugar, surge o conceito de uma nova nação. Continue reading “Da escravidão à liberdade – Parashat Shemot”

Parashat Miketz

«E ao cabo de dois anos o faraó sonhou que estava junto ao rio, e do rio subiam sete vacas robustas, belas à vista, que pastavam na fértil terra contígua. E detrás delas subiam do rio outras sete vacas, mas muito escassas em carne, de aspeto desagradável pela sua magreza, que pararam junto às outras na margem do rio. E a vacas magras devoraram as gordas, e o faraó acordou.… »  (Genesis, 41:1-4 )

Nesta parashá encontramo-nos perante o homem dos múltiplos papéis: Yosef. Yosef é o sonhador e o decifrador de sonhos. É quem governa o Egito, sem, no entanto, esquecer o seu papel de filho e de irmão. É um homem que se relaciona ao mesmo tempo com as coisas materiais e com o espírito.

Na nossa parashá, o rei do Egito tem um sonho misterioso: Na primeira parte, sete vacas magras devoram sete vacas robustas e belas, e, na segunda parte, sete espigas fracas devoram sete espigas abundantes e belas. O que é extraordinário é que, mesmo depois de terem devorado os seres plenos e belos, os seres magros e desagradáveis permaneceram na mesma, sem que se tivesse produzido nenhuma mudança no seu aspeto.

O faraó estava preocupado: Os seus conselheiros tentaram inutilmente explicar o sonho. Ao não o conseguirem, torna-se necessário superar a humilhação e recorrer a Yosef, o conselheiro judeu, para pedir a sua opinião. Qual foi a sua contribuição para o Egito? Continue reading “Parashat Miketz”

Os sonhos: Utopia, profecia e realidade – Parashat Vaieshev

«E Yosef teve um sonho que contou aos seus irmãos, que o odiaram ainda mais do que antes. Contou-lhes: “Peço-vos que escuteis o sonho que tive. Estávamos a atar feixes no meio do campo, quando de repente a minha foice levantou-se e manteve-se de pé e as vossas foices inclinavam-se em volta dela, em círculo.” Então disseram: “Hás de reinar entre nós?” “Porventura hás de nos dominar?” E continuaram a odiá-lo, tanto pelos seus sonhos como pelas suas palavras. E teve outro sonho, e também o contou aos seus irmãos, dizendo: “Tive outro sonho. Eis que o sol, a lua e onze estrelas se prostravam perante mim.” E contou-o também a seu pai, que o reprendeu, dizendo: “Que sonho é este que tiveste? Por acaso eu e tua mãe prostrar-nos-emos diante de ti?” E os seus irmãos invejavam-no, mas o seu pai prestou atenção ao assunto…»  (Genesis, 37, 5-11)

A seguir às parashot Vaietze e Vayishlach, que se referiam ao nosso patriarca Yaacov, continuamos com o estudo das características e da importância que o livro Bereshit dá ao mundo dos sonhos, fenómeno que se repete nos seguintes livros da Torá. Os sonhos do Chumash que analisaremos são altamente significativos, tanto quando estes sonhos representam o presente, como quando constituem a causa que explica certos acontecimentos que hão de acontecer no futuro.

Todas as personagens do livro de Génesis sonham: Abraham põe o pacto em prática depois de ter caído numa sonolência; Yaacov, o nosso patriarca, com o seu sonho acerca do grande escadote, e o decifrador de sonhos, Yosef.

Todas a parashot que se referem aos nossos patriarcas caracterizam-se por uma surpreendente mistura de sonho e realidade. Por um lado, são-nos descritas as preocupações diárias no que diz respeito ao sustento, ao pão para comer e à roupa para vestir; a luta pela sobrevivência face à ameaça dos inimigos; a rutina do lar e do campo. Por outro lado, temos relatos sobre aparições, anjos, sonhos sobre coisas que não são deste mundo, promessas futuras, nomes simbólicos; tudo está entrelaçado de tal modo que não podemos distinguir entre sonho e realidade, entre pessoas e anjos, ou entre o passado e o futuro. Continue reading “Os sonhos: Utopia, profecia e realidade – Parashat Vaieshev”

A luta de Yaacov com o anjo: O encontro histórico – Parashat Vayishlach

Extraído do livro Más allá del versículo, do Rabino Eliahu Birnbaum

«E ficou Yaacov só, e lutou um homem com ele até ao amanhecer. E disse a Yaacov: “deixa-me, pois chegou o amanhecer.” Mas Yaacov respondeu-lhe: “Não te deixarei ir, a não ser que me abençoes.” Então perguntou-lhe: “Como te chamas?” E respondeu: “Yaacov.” E disse o anjo: “O teu nome não será mais Yaacov, mas sim Israel, porque lutaste com De’s e com homens e prevaleceste.” E pediu-lhe Yaacov: “Diz-me, por favor o Teu Nome.” E o anjo respondeu: “Porque perguntas o Meu Nome?” E ali o abençoou.»

(Genesis, 32, 25-30)

Nesta parashá encontramo-nos com um dos relatos mais difíceis mas ao mesmo tempo mais interessantes da Torá: A luta entre o nosso patriarca Yaacov e um anjo.

A Torá não define claramente quem era a personagem com quem Yaacov lutou, mas com a continuação do texto, percebe-se que a sua luta foi com a presença Divina.

O combate de Yaacov com o anjo não está anunciado como sonho. No entanto, em torno deste relato está presente a aura misteriosa dos sonhos. Maimónides e Nachmanides interpretam este episódio da vida de Yaacov e diferem sobre se o que aconteceu foi sonho ou realidade. Continue reading “A luta de Yaacov com o anjo: O encontro histórico – Parashat Vayishlach”

Interpretando sonhos e sonhadores – Parashat Vaietze

«E foi-se Yaacov de Beer Sheva para Charán. E fez-se de noite no caminho, porque o sol já se tinha posto… E sonhou com um escadote cuja base estava na terra e cujo topo chegava aos céus, e anjos de De’s subindo e descendo por ele, e eis que o Eterno estava sobre ele…»

Um dos sonhos mais maravilhosos que um homem alguma vez sonhou foi o sonho de Yaacov ao ir embora de casa do seu pai – ao fugir de casa do seu pai – rumo a Charan.

Já na antiguidade bíblica o sonho suscitou uma atitude de respeito e valorização, bem como uma certa desconfiança, e, por vezes, uma aberta reserva.

Esta ambivalência divide também o texto talmúdico e prolonga-se até aos nossos dias. A tensão entre uma atitude que vê no sonho uma possibilidade transcendente e a que o considera um fenómeno natural que não vai mais além da psique do indivíduo que sonha, gera, no seu movimento, a riqueza simbólica irredutível da vida onírica. Continue reading “Interpretando sonhos e sonhadores – Parashat Vaietze”

Vá para o que você é

Comentário sobre a porção semanal da Torá de Lech Lechá

 

A Torá adota uma abordagem dedutiva da Criação. À medida que avançamos em seus capítulos, o objeto de sua atenção é cada vez mais específico. Quando chegamos à porção da Torá de Lech lechá, a parashá desta semana, nos dá a sensação de que tudo o que a precedeu era uma introdução para apresentar-nos a Avram. O Talmud explica que o pai de Avram era um fabricante de ídolos, objetos de adoração material e que é, contra esses ídolos, que Avram concentra sua rebelião. Avram não aceita o culto “horizontal” e a idolatria, extremamente difundidos em sua época e na verdade tenta superá-lo, escolhendo para si mesmo uma rebelião espiritual e, por sua vez, é escolhido por D’us para “descobrir” o monoteísmo.

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