Parashat Vaierá

As mulheres como vítimas numa sociedade perversa

Autora: Edith Blaustein

Extraído do texto de Loji Brandes na antologia Korot meBereshit, de Ruth Ravitzky.

No episódio de Sodoma estão presentes todos os elementos necessários para um filme de ação de sucesso, daqueles feitos em Hollywood. Uma multidão maligna e sedenta de sangue, suspense, perigo, «super-homens» fortes e empreendedores que afinal são anjos, um final feliz e, é claro, um protagonista heroico que, no último momento, consegue escapar da explosão para se salvar, deixando os maus para trás, a uma distância considerável. Música. Fim.

A história desta parashá começa com uns homens que ameaçam levar os convidados de Lot. O perigo é iminente, o suspense aumenta, mas nós, leitores, não duvidamos; sorrimos com tranquilidade e segurança, sabendo que os convidados são anjos disfarçados e que, dentro de alguns momentos, De’s cumprirá o Seu decreto e exterminará os maus.

Na Torá, Lot é apresentado sob a influência moral de Abraão. Tal como o seu famoso tio, ele também realiza «Achnasat Orchim» (hospitalidade atenciosa para com os convidados). A descrição das boas-vindas que Lot dá aos anjos é muito semelhante à dada por Abraão. Sobre Abraão, é dito: E levantou os olhos … (Génesis, 18:1 em diante). E sobre Lot está escrito: E Lot viu-os, levantou-se para os receber e inclinou o rosto por terra … (Génesis 19: 1-3).

Abraão serve bolos e carne. Lot contenta-se em dar-lhes bebidas e matzot. No entanto, existem muitas semelhanças: um recebimento cálido e comida e água para se refrescarem. Eles chegam a casa de Lot ao entardecer, por isso aí passam a noite.

O autor da história cria uma forte relação entre Lot e Abraão, usando as mesmas palavras para aumentar a semelhança entre eles e justificar que Lot seja salvo, por ser inocente numa cidade malvada.

Nós, leitores, estamos destinados a ter sentimentos de afeto e carinho por Lot e a aplaudir no final da história. Mas há um elemento na história que mostra Lot com menos luz pastoral: O oferecimento que ele faz das suas filhas à multidão selvagem que está à espera em frente à sua casa. As suas filhas em troca de não acontecer nada aos convidados (Gén., 19-8).

Porque não se oferece a ele próprio? Qual é a natureza moral de um homem que prefere a paz dos seus convidados, estranhos, aos corpos, à honra e à vida das suas filhas?

Além disso, ficamos curiosos para saber que sentimento pretendia provocar em nós o autor bíblico em relação a Lot.

Felizmente, a Bíblia está longe de ser Hollywood. O final feliz não o é tanto, e aparecem outros elementos que nos levam a uma profunda reflexão. A história culmina com a vida familiar de Lot, as filhas, a mulher transformada em estátua de sal, como castigo exemplar, porque quis observar, com prazer, a morte de uma grande quantidade de seres humanos. Transformada numa estátua de sal, será observada por centenas de pessoas ao longo das gerações, talvez com prazer.

Não sabemos como se recuperaram as filhas de Lot do terrível trauma que o pai lhes provocou ao oferecê-las, mas sabemos que as jovens estupram o pai. Na primeira noite, a sua filha mais velha teve relações com ele e, na segunda noite, foi a vez da sua filha mais nova. A razão dada pelo próprio texto leva-nos a questionarmo-nos se devemos considerá-las heroínas que desejam salvar a humanidade. (Nota: isto de acordo com a interpretação segundo a qual elas pensavam que era o fim do mundo e que não havia mais homens). No entanto, o motivo é falso. Sujaram-se em vão, a elas mesmas e ao pai.

A complexidade é semelhante ao comportamento de Lot para com as suas filhas. Nos dois casos, cometeram atos em desacordo com a moral, mas não por razões instintivas, e sim por um elevado raciocínio moral. A ação das filhas poderia muito bem ser um castigo pelas intenções passadas de Lot para com elas, o que é percetível devido à semelhança das palavras usadas nos dois casos. Quando Lot sugere entregar as suas filhas diz: Aqui estão as minhas duas filhas, que não conheceram homem (Gén. 19-7), e quando as filhas planejam o estupro: … e não há homem na terra para se chegar a nós (Gén., 19-31). Depois do estupro, elas dizem sobre Lot: … e ele não soube do seu deitar nem do seu levantar (Génesis, 19:33 e 35).

A punição a Lot é exposta da maneira mais amada pelos autores bíblicos: «midá kenegued midá», justiça retributiva: Lot tentou levar as suas filhas para serem estupradas, e as suas filhas o estupraram. Lot planejava empurrar as suas filhas desde dentro da sua casa fechada para o exterior, e as suas filhas cometeram o estupro no lugar mais fechado que se possa imaginar: uma caverna. Lot tentou aliciar a multidão a aceitar o sacrifício descrevendo as suas filhas como virgens que não conheceram homem, e as suas filhas usaram esse mesmo conceito para justificar o estupro. Lot não pôde realizar o que estava disposto a fazer com as suas filhas, mas elas sim fizeram-no, noite após noite.

Despedimo-nos do herói de Sodoma, embriagado numa caverna, incapaz de diferenciar a direita da esquerda, sofrendo a humilhação de ter sido usado sexualmente pelas suas filhas.

Assim, o autor dá-nos a sua opinião sobre a proposta de Lot aos sodomitas.

Dentro de uma sociedade perversa, não há boas escolhas. Não dá para escolher entre bom e mau, mas apenas entre mau e pior ainda.

Não é por acaso que os nossos sábios escolheram, para demonstrar a maldade de Sodoma, exemplificá-la através da cama de Sodoma. Todos os visitantes que viessem a Sodoma tinham que se deitar naquela cama; se o comprimento da pessoa fosse maior do que o comprimento da cama, sofria a mutilação das pernas, e se fosse menor, os seus membros seriam esticados. Este exemplo não é apenas uma história; fala-nos sobre o caráter de uma sociedade perversa, onde todos devem ter as mesmas qualidades, sem haver lugar para as diferenças. É proibido ter nuances, a equivalência domina tudo.

Aos olhos dos homens maus, não há nada pior do que ser forasteiro. A crueldade sádica dos membros desta sociedade é dirigida aos estrangeiros, aos diferentes, àqueles que não são «como nós».

Sodoma é uma sociedade maligna, onde todos são considerados como um só homem para defender tudo o que é considerado «nosso», onde o outro, o diferente, é odiado por isso mesmo. O indivíduo é anulado dentro da maioria, no consenso. Não há nem uma criança que grite: «O rei vai nu!», e, se houvesse, levantar-se-iam contra ele imediatamente dizendo-lhe: – Cala a boca, traidor, o rei é dos nossos, não espetes um punhal pelas costas a esta nação!..

Mas o mais triste que surge das histórias de Sodoma é a falta de esperança que esta sociedade tem. Este turbilhão de maldade que se estende sem deixar ninguém de fora não pode ser detido. Não se consegue apagar o fogo do mal. O Molech da unidade queima e extermina até o fim. E toda a terra é engolida pelas nuvens de fumaça e enxofre e afoga-se em rios de sangue, terror e lágrimas.

A antologia Korot meBereshit, mulheres israelenses escrevem sobre o livro Bereshit, compilado por Ruth Ravitzky, foi publicada por Iediot Ajronot, Tel Aviv, 1999.

Tradução livre de Edith Blaustein.

Parashat Bereshit

Ki tov – Viu que era bom – Retirado do livro Ideas de Bereshit, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O primeiro que notamos é que o Bem é algo básico; é por isso que aparece desde o começo da Torá.

Rambam, no Guia dos Perplexos, terceira parte, capítulo 10, defende que tov quer dizer que existe, que é estável. O existir é algo bom. O contrário é o Mal, aquilo que destrói. Portanto, toda a existência material depende de De’s, e é Ele que faz com que tudo seja, portanto, é algo bom. Isto implica que nós, a quem foi ordenado andar nos Seus caminhos, também devemos fazer com que o mundo permaneça, que seja estável. Por outras palavras, devemos fazer o Bem.

No que diz respeito ao segundo dia, onde não diz: «E Viu De’s que era bom», isto é assim porque ainda não se tinha visto o benefício claro desta divisão das águas. Só no terceiro dia, quando aparece a terra que vai ser o prelúdio da vida vegetal, é que se vê o benefício, e então diz: «E Viu De’s que era bom».

Rashi acrescenta que, para que algo seja bom, deve ser completo. Se estiver pela metade não é bom. É por isso que esta frase vai ser dita somente no terceiro dia, que é quando fica concluída a tarefa com as águas.

O midrash diz-nos que o verdadeiro Bem é o homem justo. Quer dizer, o mundo por si mesmo não é algo bom nem mau, mas sim apenas um meio ao dispor do ser humano: se for bem utilizado, então, será bom.

É por isso que, quando homem foi criado, não foi dito «E Viu que era bom – ki tov –», pois é o ser humano que tem o livre arbítrio para fazer o Bem ou o Mal, portanto, ainda não se pode dizer se vai ser bom ou mau.

Esta é a causa pela qual é consagrado o dia de Shabat, que é quando acaba a criação física, e este é abençoado exatamente para nos demonstrar que o mundo material não é o principal e essencial mas sim só um meio, e que o mundo espiritual é o verdadeiro Bem, que é precisamente o que o Shabat nos traz.

No que diz respeito ao Mal, uma primeira resposta é que o Mal, ao princípio, não existia; ele aparece depois de o Homem comer da árvore da qual lhe tinha sido proibido comer; só quando Adão desobedece é que aparece o Mal. Se não tivesse desobedecido, não teria havido Mal. Tudo teria sido Bem. É o Homem quem faz o Mal.

Os sábios no midrash são mais ousados e defendem que quando diz tov meod – «muito bom» –, refere-se à morte. Assim diz Rabi Meir, pois a morte dá repouso aos justos e serve de advertência aos malvados. Que quer dizer «dá repouso aos justos»? Quer dizer que, durante toda a vida, o justo luta sem parar contra o mau impulso, contra as tentações e os desejos. Quando chega a morte, pode finalmente descansar de todo esse assédio e ameaça constante e pode desfrutar eternamente da presença divina. No que diz respeito aos malvados, é como uma advertência para não fazerem o mal, pois chegará o dia da sua morte e vão ter que prestar contas de tudo o que fizeram.

Rambam diz que todas as coisas naturais que nos parecem más, na realidade são acontecimentos naturais que são bons para a manutenção do mundo. A morte é uma consequência da matéria, pois somos feitos de matéria e a matéria destrói-se, e isso mantém o ciclo da vida. A morte dá lugar à nova geração. Assim se mantém o sistema, as gerações sucedem-se, e assim o mundo funciona.

Mesmo as limitações, sejam económicas ou outras, também são positivas, pois ajudam-nos a mantermo-nos no objetivo e a não nos desviarmos. Quando uma pessoa possui demasiado, o mais provável é que se desvie da meta para ir em busca do seu próprio prazer, pois dispõe dos meios para se poder permitir ter tempo livre para passear etc. Mergulha no mundo do prazer e esquece-se do verdadeiro objetivo.

Outro midrash diz: Tov refere-se ao mundo vindouro (recompensa) e tov meod refere-se ao Gueinom (castigo). O que isto significa é que é bom que exista a justiça, que o homem que se comporta corretamente merece ser recompensado e que aquele que não, levará um castigo. Quer dizer, a Torá não pensa como o cristianismo, que diz que não se deve castigar o culpado, mas sim que deve haver justiça e deve receber aquilo que justamente merecer.

Vejamos por exemplo, o sono. Poderíamos pensar que o sono é algo mau: faz-nos perder um terço do nosso dia, e, por conseguinte, um terço da nossa vida. No entanto, é bom, porque demonstra ao Homem que ele é limitado, que não pode tudo, que não tem um poder absoluto; não lhe é possível estar mais de dois dias sem dormir. Não pode ter tudo sob controlo o tempo todo.

O fantástico disto é que todas as coisas que consideraríamos más, os sábios consideram boas.

No que diz respeito ao mau instinto, como entra isto num mundo de Bem?

Diz Rabi Shimon que se não fosse pelo mau impulso, o Homem não construiria casas, não casaria, não procriaria, nem trabalharia. Quer dizer que o mau impulso pode ser usado para bem e pode retirar-se dele algo construtivo. Se não fosse pelas paixões físicas, então os animais e os seres humanos não se reproduziriam. Quer dizer: graças a isso é que o mundo se constrói e renova. Isto é sempre quando seja usado para o bem, senão seria muito destrutivo.

Por conseguinte, o mau instinto não é algo mau por si só. É o Homem que o pode utilizar para bem ou para mal. De’s não criou o mau instinto; De’s criou o instinto e o impulso, mas é o homem que o pode utilizar para fazer coisas corretas ou incorretas.

O Mal vem por causa da ausência de sabedoria, por causa da ignorância. Tal como o cego, que não pode ver e por isso tropeça e magoa-se, assim é aquela pessoa que não tem sabedoria. É como um cego que anda pela vida e tropeça e magoa-se ou magoa outros. É por isso que, nos dias messiânicos, quando toda a terra estiver cheia do conhecimento de De’s e de sabedoria, então as guerras já não existirão mais. A ausência do conhecimento – é o homem que não o quis adquirir – é que causa o Mal, não foi De’s quem criou o Mal. Tal como uma pessoa que compra um móvel para montar: O produto vem com instruções, mas a pessoa decide montá-lo sem as ler e o móvel fica mal montado. A culpa não é do fabricante, mas sim do cliente que não quis ler as instruções e agir de acordo com as mesmas.

De’s cria um mundo bom, estável e que se mantém. Tudo no seu conjunto é bom. Talvez se analisarmos um aspeto isolado do todo pode parecer-nos que é mau, mas quando o vemos a interagir no conjunto da Criação, vemos que é bom. Tal como uma peça preta de um quebra-cabeças com uma imagem de umas ilhas iluminadas pelo sol: Se olharmos para essa peça preta isoladamente, podemos pensar que é um erro, mas ao vê-la no seu lugar exato, vemos que se trata da sombra de uma palmeira, e ela então encaixa perfeitamente. O ser humano tem a capacidade e o dever de utilizar tudo isto para o Bem.

Parashat Haazinu

O objetivo do cântico de Haazinu – Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O objetivo deste cântico que De’s ordena a Moisés escrever é advertir o povo acerca do mal que lhe acontecerá no caso de se assimilar à cultura idólatra dos povos de Canaã, até ao ponto em que chegará a esquecer-se de De’s, que foi Quem formou o povo de Israel.

De’s adverte-os de que, no caso de O abandonarem, então Ele retirará deles a Sua providência divina, o que fará com que fiquem expostos às catástrofes naturais e às maldades dos demais povos.

No entanto, há uma esperança e um consolo: o povo, finalmente, entenderá que só a De’s deve servir. De’s impedirá que todo o povo de Israel seja aniquilado, para que o Seu Santo Nome não seja profanado. Vingar-se-á dos inimigos de Israel e expiará os pecados do Seu povo.

Contrariamente aos historiadores e a muitos dos líderes laicos do povo de Israel, que defendem que o povo de Israel se conduz do mesmo modo que os outros povos e que lhe ocorrem as mesmas coisas que a qualquer povo, a Torá sublinha de forma clara que não é assim.

O povo de Israel é o único povo que foi formado pelo próprio De’s, tal como diz o versículo: Ele é teu pai, teu fazedor e formador.

É o único povo a quem De’s dirige e instrui através de mandamentos justos, tanto para o indivíduo como para a sociedade em geral. Não são só leis para manter o equilíbrio e a paz social, mas sim também pautas e normas de comportamento para vida privada de cada indivíduo, que o ajudam a elevar-se e a evitar tornar-se depravado indo atrás dos prazeres e apetites materiais. Também os afasta de falsas ideias e cultos nocivos. Como diz: Encontrando-se no deserto numa terra desolada, trouxe-o ao redor (do monte Sinai) e instruiu-o.

É o único povo que é conduzido por De’s, seja em forma geral ou em forma particular, pois conta com a providência divina. É o que diz o versículo: Cuida-o como à menina dos Seus olhos. Tal como a águia que desperta a sua ninhada, voa sobre os seus filhotes, estende as suas asas, toma-os e leva-os sobre as suas asas.

Ele é o Senhor e dono do mundo, e é Ele que nos entregou a terra de Israel, e que nos expulsará dela por causa das nossas transgressões. Quando fez herdar a cada povo o seu território… E decretou as fronteiras das nações…

Destes pontos podemos deduzir que o povo de Israel não é igual aos demais povos:

  • Não foi o povo que se formou a si próprio nem surgiu de motu próprio; foi De’s que o constituiu.
  • Não é o povo que compõe as suas próprias leis e mandamentos de acordo com o seu próprio parecer, é De’s que lhes fornece um sistema de leis elevado, justo e equilibrado.
  • O povo não é dono da terra; toda ela pertence a De’s, e Ele entrega-a quem Ele considera justo.
  • Não é o povo que forja o seu destino; é De’s quem o salva e redime dos seus inimigos ou desgraças.

O objetivo destes versículos é De’s testemunhar de antemão tudo o que vai acontecer se abandonarem De’s, e adverti-los que não pensem que as desgraças que lhes acontecem são coisas naturais, tal como acontece com os demais povos. Estes versículos são um convite à reflexão, à observação da História e ao recordar dos tempos passados. De onde vêm? Quem os formou? E quem os guiou? Observar tudo o que De’s fez por eles e a maneira tão mal-agradecida na qual se comportaram com Ele.

Então verão que De’s é quem os conduz e quem vela pelo seu bem, e dessa maneira retornarão a Ele e o servirão. Então De’s voltará a eles, os salvará e lhes fornecerá a Sua proteção e manutenção com abundância, paz e harmonia.

Parashat Vaielech

Mitzvat Hakehel – Reunir todo o povo de Israel – Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Texto a analisar: Devarim 31:9-13

O primeiro que notamos é que quando diz esta Torá, não se refere a toda a Torá, pois a Torá ainda não estava acabada; faltavam acontecimentos que ainda não tinham sido escritos. É por isso que, mais à frente, 31:24-26 diz: E foi quando acabou de escrever as palavras desta Torá no livro, até que o completou (…) Tomai este livro da Torá e colocai-o o na arca do pacto do Eterno. Nesse versículo vê-se claramente que somente aí se completou a escrita da Torá. Portanto, o nosso versículo da parashá de Hakehel (E escreveu Moisés esta Torá), não se refere a toda a Torá.

O livro Devarim pode dividir-se da seguinte maneira: as três primeiras parashiot (Devarim, Vaetchanan e Ekev) tratam dos temas fundamentais do judaísmo, os que têm a ver com a fé em De’s e com as boas qualidades.

Depois, as próximas três (Ree, Shoftim e Ki Tetzé) são parashiot de mitzvot específicas.

A três seguintes (Ki Tavó, Netzavim e Vaielech) fazem finca-pé na importância de nos mantermos firmes e fiéis ao pacto.

As duas últimas (Haazinu e VeZot Habrachá) são as últimas palavras de Moisés, ditas em forma poética.

A expressão esta Torá já foi mencionada antes, na parashá Ki Tavó, e, tal como dissemos, essa parashá faz parte das parashiot que se referem a nos mantermos fiéis à Torá. Portanto, a nossa parashá não faz alusão aos cinco livros da Torá, mas sim àquelas partes da Torá que sublinham o facto de sermos fiéis ao Pacto.

E era precisamente isto que o rei tinha que ler. As partes do livro de Devarim que falam da importância de cumprir a Torá e manter o Pacto.

Por outras palavras: deve escrever todos os parágrafos que advertem sobre os benefícios e consequências do cumprimento dos preceitos (sem entrar nos detalhes dos preceitos), quer dizer, as bênçãos e as maldições e todos os parágrafos que nos incitam ao cumprimento de toda a Torá.

O motivo pelo qual é entregue aos cohanim e aos sábios, é porque os cohanim eram quem ensinava a Torá ao povo, e por isso era importante que tivessem estes parágrafos à mão para poder ensiná-los a toda a gente.

E é a isto que faz alusão quando diz que se devia ler a cada sete anos, pois a Torá deve sempre ser lida e estudada, e não só os cohanim e os sábios, mas sim todo o povo.

Portanto, vê-se claramente que a intenção deste preceito não é estudá-la e aprendê-la, mas sim renovar o Pacto entre o povo e De’s, lendo-a a cada sete anos.

O povo fez um Pacto com De’s no monte Sinai, e depois renovou-o aos quarenta anos em Arvot Moav. Se prestarmos atenção, veremos que nessas duas ocasiões são utilizadas as mesmas palavras mencionadas agora.

A cada sete anos, quando a ideia do Pacto consertado com De’s se vai esquecendo na consciência do povo, Moisés diz-lhes que é necessário renová-lo. É por isso que isto foi dito logo depois de Moisés ter reunido o povo inteiro para renovar o Pacto.

O que Moisés fez foi juntar todo o povo e renovar o Pacto, e agora diz-lhes que isso deve ser feito cada sete anos. É por isso que têm que vir todos: homens, mulheres e crianças, tal como aconteceu no monte Sinai.

É precisamente isto o que diz Rambam em Hilchot Chaguigá 3:1-3: É um preceito reunir todo Israel, homens, mulheres e crianças, ao finalizar o ano sabático, quando sobem ao santuário. Devem ler-se aos seus ouvidos parashiot que incentivem ao cumprimento dos preceitos e que os fortaleçam na religião verdadeira. Parashiot cujo objetivo é o cumprimento geral das mitzvot.

Quando se reunia e se lia tudo isso? No final do sétimo ano sabático, depois do primeiro dia da festa de Sucot, lia-se a Torá. E era o rei quem devia lê-la no pátio do Templo. O que é que o rei lia? Lia desde o princípio do livro de Devarim até à primeira parte do Shemá; depois saltava até à segunda parte do Shemá e depois saltava até às bênçãos e às maldições. (Acaba aqui a citação de Rambam em Hilchot Chaguigá).

O motivo pelo qual se lia exatamente estes parágrafos é porque neles vê-se claramente o incentivo para cumprir todos os preceitos.

Tal como quando um indivíduo quer juntar-se ao povo de Israel, o que se faz é explicar-lhe os princípios básicos do judaísmo, a existência de De’s, a Sua unicidade, que opera a justiça, etc. E sobre estes temas diz Rambam que nos devemos estender e abundar em detalhes, e depois ensinam-se de forma breve o resto dos preceitos. Com isto, é suficiente para entrar no Pacto.

É isto mesmo que se deve fazer a cada sete anos.

Porquê os sábios estipularam que era precisamente o rei quem devia ler esta Torá diante de todo o povo no fim dos sete anos? De onde aprenderam isto, se a Torá não disse nada ao respeito?

Se observarmos o parágrafo anterior ao nosso, ele fala-nos justamente de que Yehoshua seria quem faria entrar o povo de Israel na terra. E ele era precisamente o líder político do povo, aquele que exercia o cargo de rei.

É por isso que aprenderam que o rei é que devia ler tudo isto aos ouvidos do povo e renovar o Pacto com De’s. E porque o rei é o líder deles, é ele que tem a autoridade para comprometer e obrigar a todos a cumprir o Pacto, já que todo o povo o teme e obedece às suas palavras. Este é o motivo pelo qual deve ser lido pelo rei. Para além disso, desta maneira o Pacto ganha uma conotação muito mais solene e séria.

Porquê deve ser feito a cada sete anos? Porquê no ano sabático? Justamente depois do ano sabático, quando estão tranquilos, não estão atarefados com os trabalhos do campo e as dívidas foram perdoadas, então é quando têm a mente tranquila para poder pensar em tudo isto.

Mais um ponto a ter em conta é que precisamente agora as pessoas começavam novamente a se dedicar aos seus trabalhos. Por isso, antes de iniciarem os seus afazeres de rotina, a Torá ordena este ritual, para que o povo tenha o Pacto bem presente nas suas mentes. Tal como o fizeram no deserto com Moisés, onde reafirmaram o Pacto antes de entrar na terra, para não terem medo de tudo o que iam ter que enfrentar, assim também, a cada sete anos, repetem isto, para terem força e poderem enfrentar tudo aquilo com que se terão que deparar nos próximos anos de trabalho, e para a sua confiança e fé em De’s não se debilitarem.

Liam-se estes parágrafos no fim do ano sabático, antes de começar tudo novamente; desta maneira vão aprender que não devem temer nada, que o único caminho e a única fórmula para triunfar é fazer a vontade de De’s.

No momento em que vai começar a vida diária e a rotina, é quando é necessária uma dose extra de fé e temor a De’s para não tropeçar.

É por isso que se fazia em Sucot, pois nesta festa consciencializamo-nos de que tudo depende de De’s e não só de nós. Em Sucot recordamos que fomos atrás de De’s por caminhos inóspitos e Ele nos conduziu pelo deserto e fez com que nada nos faltasse.

Está escrito: Reunirás o povo, homens, mulheres, crianças e os estrangeiros que estejam nas tuas cidades, para que escutem e para que aprendam e temam o Eterno vosso De’s e cumpram todas as palavras desta Torá.

Porquê está escrito para que escutem e para que aprendam? Deveria ter dito para que escutem e aprendam.

O comentarista Or HaChaim diz que o motivo pelo qual se repete a palavra para duas vezes é porque se dirige tanto ao homem como à mulher. A maneira em que a mulher capta algo é geralmente diferente da maneira do homem: A mulher vivencia-o, recorda-o, e fá-lo. O homem, pelo contrário, é mais analítico: estuda-o, e aí é que se convence e se compromete.

O objetivo a que se deve chegar é temer a De’s, e isso vai levar-nos a cumprir todas as palavras desta Torá e cumprir os seus preceitos. É por isso que se repete duas vezes a palavra para, pois refere-se à internalização, seja da maneira feita pela mulher ou pelo homem. (Por experiência ou analiticamente).

Então, qual é o objetivo: Temer a De’s ou cumprir a Torá? Na realidade, os dois são o objetivo. Que o cumprimento dos preceitos seja com temor a De’s, com um profundo respeito reverencial. Que não seja um ato reflexo e automático, sem pensar no que faz ou onde isso o conduzirá.

O facto de ser o rei quem lhes lê tudo isto ajuda a gerar temor no povo.

O motivo pelo qual as crianças pequenas também devem estar presentes, apesar de ainda não entenderem, é para adquirirem temor a De’s. Não é para aprenderem os preceitos, pois, como dissemos, ainda não têm raciocínio; o objetivo é que, ao ver todo o povo e o rei a ler a palavra de De’s, eles adquiram uma tal experiência que fique gravada na sua memória e nunca seja esquecida.

Estas palavras voltam a repetir-se outra vez na Torá, e é precisamente no sopé do Monte Sinai. Ali diz: Cuida-te muito de não esqueceres o que viste com os teus olhos, e que não se afaste do teu coração todos os dias da tua vida. E ensinarás aos teus filhos e aos filhos dos teus filhos, o dia em que estiveste perante De’s no monte Chorev quando De’s disse: – Reúne-Me o povo e faz-lhe ouvir as Minhas palavras, que lhe ensinarão a temer-Me todos os dias que vivam sobre a terra e os seus filhos o aprenderão.

Não se trata só de recordar e renovar o Pacto. É algo que vai mais além; trata-se de reviver o Pacto. Não é algo meramente intelectual, mas também um acontecimento emocional; vivenciar o Pacto com De’s como se fôssemos nós que estamos de pé no monte Sinai aceitando os mandamentos de De’s.

Este é o motivo pelo qual não se fazia todos os anos em Sucot, pois seria algo muito rotineiro. Mas ao fazê-lo a cada sete anos, passa a ser algo mais especial. Como, por exemplo, quando se faz Bircat Hachamá (a bênção quando começa um novo ciclo solar), que ocorre uma vez a cada muitos anos. Apesar de ser somente uma bênção rabínica, é realizada do mesmo modo, com muita emoção e entusiasmo, porque é algo que ocorre a cada muitos anos.

Uma vez a cada sete anos a Torá fazia-nos reviver todo este evento para que, com alta emoção e no meio de todo o povo, o Pacto e o temor reverencial a De’s ficassem gravados no mais profundo do nosso ser.

É por isso que se fazia no santuário, pois o tabernáculo (como já explicámos) era como se fosse um monte Sinai portátil.

Rambam, em Hilchot Chaguigá 3:4 diz: Antes de o rei ler no sétimo ano, tocavam-se as trombetas em toda Jerusalém para reunir todo o povo e construia-se uma grande plataforma no santuário e o rei lia dali para que todos o escutassem e todo o povo se reunia ao redor dessa plataforma.

De aqui vemos que as trombetas fazem-nos recordar o som do Shofar no monte Sinai. As pessoas ao redor da plataforma recordam-nos todo o povo a rodear o monte Sinai para escutar a voz do Eterno.

Continua Rambam dizendo: Cada um deve ver-se a si mesmo como se estivesse a receber nesse momento a Torá e está a ouvi-la da boca de De’s.

O número sete é muito recorrente em todo este parágrafo, pois tem em total sete versículos, 140 palavras (20 × 7); sete vezes aparece o nome de De’s; deve ler-se no sétimo dia da festa de Sucot; essa festa cai no sétimo mês, e fazia-se a cada sete anos.

Tudo isto nos faz recordar quando saíram do Egito, e que ao fim de sete semanas (7 × 7) estiveram no sopé do Monte Sinai para fazer o Pacto com De’s.

O acontecimento do monte Sinai não foi chamado «Dia do Sinai» ou algo do género, mas sim precisamente: Yom HaKahal, e este preceito da nossa parashá chama-se precisamente a mitzvá Hakehel.

O dia em que todo o povo (Kahal) esteve frente a De’s, com temor reverencial, para se transformar no povo de De’s.

Parashat Nitzavim

A Teshuvá, o arrependimento– retirado do livro Ideas de Debarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Analizaremos o capítulo 30, versículos 1 a 10.

Aparentemente, o texto é muito repetitivo.

No versículo 1-2 D’us diz-nos: Então porás no teu coração (recapacitarás) e retornarás ao Eterno teu D’us, mas o que é que devemos pôr nosso coração? Se prestarmos atenção, esta mesma frase  (veHashevota el levavecha) volta repetir-se outra vez na Torá, em Deuteronómio 6:39, que nos diz que devemos recordar o que aconteceu no Egito e no monte Sinai, onde aprendemos que D’us é único e não há nada fora deEle, e “porás isso no teu coração”. Quer dizer, o que é que devemos pôr no nosso coração? Que D’us é único e não há nada fora dEle. Abandonar a idolatria.

Como vão atingir esta ideia, quer dizer, saber que não há outro fora de D’us? Isto atinge-se ao verem o que lhes vai acontecer quando abandonarem D’us; ao se cumprirem todas as maldições acerca das quais a Torá já tinha advertido, entenderão que não aconteceram por acaso, e então vão reconhecer D’us e assumir que não há nada fora dEle e que serviram deuses pagãos em vão.

Logo no versículo 2 diz-nos que devemos voltar ao Eterno nosso D’us escutar a Sua voz. O primeiro ponto, o de voltar a D’us, refere-se a abandonar o paganismo ou o ateísmo e voltar a reconhecer que existe um D’us único, e logo ouvir o que é que D’us nos ordena fazer. Ainda não estamos na parte prática, nas ações; trata-se de determinação, de vontade, apesar de ainda não se ter feito nada. E assim deve ser: primeiro é a vontade, a fidelidade e determinação, e depois as ações.

Os versículos 3, 4 e 5 dizem-nos que D’us vai tornar a nós, vai apiedar-se de nós, vai amar-nos e vai reunir-nos de entre as terras dos demais povos, vai levar-nos à terra de Israel e vai abençoar-nos.

Como o povo volta a D’us, então D’us vai recompensá-los da mesma maneira. Ele torna a eles. Temos que reconhecer que o facto de D’us se voltar a nós, depois do povo de Israel ter violado o Seu pacto, não é um dado adquirido mas sim um ato de bondade e misericórdia por parte de D’us. Mas também devemos notar, através do versículo, que não se trata meramente de voltar a D’us, mas sim de o devermos fazer com todo o coração e com toda a alma.

O versículo 6 diz-nos que D’us vai circuncidar o nosso coração e o dos nossos filhos para que possamos amar D’us com todo o nosso ser. Este é um nível superior aos anteriores, é o de servir a D’us com amor, com todo o coração e com todo o ser, e essa é a verdadeira vida. Aqui não só nos fala de nós, mas também dos nossos filhos, quer dizer que é algo mais firme, não é um arrebato impulsivo de arrependimento, mas sim algo constante, que continuará, não só nas nossas vidas mas também na dos nossos filhos.

No versículo 7, D’us responde igualmente num nível superior. Agora não só nos abençoa mas também diz que todas as maldições se vão virar contra os nossos inimigos. Porque eles nos odeiam enquanto que nós estamos com D’us, amamos D’us e o que queremos é fazer a Sua vontade e apegar-nos a Ele, então todo aquele que seja nosso inimigo, na realidade está a ser inimigo de D’us, pois nós só queremos andar no Seu caminho, e se isso os incomodar ou nos odiarem, então D’us ocupar-se-á deles, porque, na realidade, não se estão a revoltar contra nós mas sim contra Ele.

No versículo 8, para além de voltarmos a D’us e ouvirmos a Sua voz, a Torá fala-nos pela primeira vez de que vamos cumprir todos os preceitos. Isto vem sublinhar que, apesar de na diáspora se poderem cumprir os preceitos, é só na terra de Israel que se podem cumprir todos os preceitos, porque muitos deles dependem da terra de Israel.

No versículo 9, depois de chegarmos a esse nível de cumprir todos os preceitos com amor, se, além disso, buscarmos a D’us com todo nosso ser, D’us responder-nos-á, tal como respondeu aos patriarcas, pois agora nós estamos  a agir como eles agiram, então D’us trata-nos tal como os tratou e cuidou deles.

O versículo 10 é um resumo do nível superior mencionado no versículo nove. E então, quando estivermos nesse nível, vamos entender toda a Torá de uma forma mais profunda e superior.

Desta maneira, chegamos ao nível mais alto:

  1. Perfeição intelectual (com o pensamento)
  2. Um sentimento profundo e sincero para com D’us (vontade e sentimento) e
  3. Perfeição nos nossos atos (ações)

Parashat Ki Tavo

Servir a D’us com alegria – Retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

O tema de servir a D’us com alegria aparece na Torá seis vezes. Em todos os casos refere-se a situações nas quais estamos perante D’us, por exemplo Vaikrá 33:40: E alegrar-vos-eis perante o Eterno vosso D’us durante os sete dias. Devarim 12:7 diz: E comereis aí, perante o Eterno, vosso D’us, e vos alegrareis com toda a obra das vossas mãos, vós e a vossa família… Devarim 27: E te alegrarás diante do Eterno vosso D’us.

Vemos que a obrigação de nos alegrarmos ordena-se nas festas, produto de toda a abundância que D’us nos dá, e isso deve ser feito no santuário perante D’us.

Outro lugar onde nos é ordenado estarmos contentes é nas bênçãos do monte Eval e Guerizim. Fora destes casos não existe nenhum versículo que nos ordene estarmos contentes a todo o momento.

Na nossa parashá, Devarim 28:45-47 diz: Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens, por isso servirás os teus inimigos que o Eterno mandará contra ti.

As perguntas que nos surgem são:

  • Porque nos envia um castigo tão grave por não servir a D’us com alegria?
  • Por acaso alguma vez nos foi ordenado servir a D’us com alegria em todo o momento?
  • Por acaso é possível que um indivíduo, apesar de servir a D’us, seja castigado porque não o fez com alegria?
  • Aprende-se deste versículo que devemos estar alegres a todo momento?

Rambam, em Hilchot Iom Tov capítulo 6 diz: Tanto durante os sete dias de Sucot e de Pesach como no resto das festividades, é proibido pronunciar discursos fúnebres e jejuar. É dever do ser humano estar alegre e com o coração contente nesses dias. Tanto ele como os seus filhos, a sua esposa e os seus netos, e quem estiver com ele, tal como está escrito: Alegrar-te-ás na tua festaAssim, oferece-se por exemplo guloseimas às crianças, o marido oferece joias e roupas à mulher de acordo com o seu poder de compra, e os homens comem carne e bebem vinho, pois não há verdadeira alegria sem carne e vinho.

De aqui vemos claramente a obrigação de estarmos alegres nos dias festivos. No entanto, o próprio Rambam mais à frente diz: Quando um homem bebe, come e se alegra nas festas, não deve exagerar a beber vinho, nem se entregar à libertinagem, nem à gargalhada desmedida, pensando erradamente que quanto mais se entregar a tudo isto melhor estará a cumprir o preceito de se alegrar. Pois a embriaguez, a gargalhada desmedida e a libertinagem não são chamados regozijo, mas sim tolice e falta de bom senso. E não é isso o que nos foi ordenado, mas sim uma alegria onde existe regozijo pelo serviço divino, tal como está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens.» Disto se aprende que apenas se deve servir a D’us com alegria. E não é possível servi-Lo estando com atitudes vulgares ou desavergonhadas, ou estando embriagado.

Deste último parágrafo, Rambam não está necessariamente a legislar que se deve estar contente a todo o momento, mas sim que, nos momentos em que se deve servir a D’us, devemos estar num estado de regozijo que permita o serviço divino, não no estado de insensatez.

Mais adiante, Rambam volta a referir-se a este tema, em Hilchot Sucá VeLulav capítulo 8:15, e diz: A alegria que uma pessoa obtém ao cumprir os preceitos e amar a D’us, que os ditou, é uma maneira sublime de servir a D’us. Quem se abstiver deste regozijo merece castigo, pois está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com o coração contente.» Aquele que, mergulhado na sua arrogância, insiste em preservar o seu porte e a sua seriedade, considera-se um pecador e um tonto. A isto se referiu o rei Salomão ao dizer, em Provérbios: «Diante do Rei não te engrandeças.» Por outro lado, aquele que renuncia à sua honra perante D’us e não age de forma pedante, nem se honra a si próprio, esse é o indivíduo honorável, e de alta estima, que serve a D’us com amor, tal como disse David, rei de Israel, a Mical, que o recriminou por dançar diante da multidão, diante da arca de D’us. Samuel 26: 22: «Tornar-me-ei mais insignificante do que isso, humilhando-me muito mais.» Não há grandeza nem honra verdadeira se não aquela que se atinge regozijando-nos perante o Eterno.

Aqui Rambam não diz que é uma ordem servir a D’us com alegria; diz que é uma maneira sublime de servir a D’us. Outro ponto que se aprende com este parágrafo é que quem se abstiver deste regozijo merece castigo, pois está escrito: «Porque não serviste a D’us com alegria e com o coração contente.»

O motivo pelo qual merece um castigo é porque coloca a sua própria honra antes da de D’us. Quer dizer, por guardar o seu decoro e a sua postura, prefere não se alegrar perante D’us.

Existe outro texto no qual Rambam volta mencionar este tema, e é em Hilchot Teshuva: A Torá assegura-nos que, se a cumprirmos com alegria e bem predispostos e estudarmos sempre a sua sabedoria, então D’us preservar-nos-á de todos os impedimentos que nos impossibilitariam de a cumprir, tais como doenças, guerras… Por outro lado, a Torá adverte-nos que, se a abandonarmos de propósito para nos ocuparmos das vaidades deste mundo, o Juiz Verdadeiro privar-nos-á de todos os prazeres deste mundo…

Neste parágrafo, Rambam sublinha que quem serve a D’us com alegria será recompensado. No entanto, não diz que é uma obrigação servi-Lo com alegria. Por outro lado, diz que quem abandonar a Torá e   for atrás das vaidades deste mundo será castigado. Temos que ter atenção, pois não diz que será castigado quem não O servir com alegria.

Em conclusão: Em todos os textos onde Rambam analisa este ponto, vemos que não diz que é uma obrigação servir a D’us com alegria. Diz que quem assim o fizer é digno de louvor, mas em lado nenhum diz que é uma obrigação.

Mas, apesar de tudo isto, o versículo é categórico e proclama que receberão um castigo grave pelo facto de não terem servido a D’us com regozijo. No entanto, é impossível supor que a Torá imponha um castigo sem antes nos ter advertido ou dado uma ordem a esse respeito. O que temos que analisar é onde a Torá nos ordenou servi-Lo com alegria. Talvez não tenha utilizado estas mesmas palavras, mas referiu-se a isso.

Há comentaristas que dizem que o versículo que estamos a analisar deve ser entendido da seguinte maneira: «Porque não serviste a D’us quando gozavas de todo o bem estar, quando estavas em alegria, então perderás tudo isso». Quer dizer, devido ao facto de estares a usufruir dos prazeres deste mundo, e de teres tudo para servir a D’us, abandonaste-O e não O serviste, então mereces castigo.

É similar ao que disse Rambam: A Torá adverte-nos que, se a abandonarmos de propósito para nos ocuparmos das vaidades deste mundo, o Juiz Verdadeiro privar-nos-á de todos os prazeres deste mundo. A diferença é que Rambam diz que tudo isto acontece no caso de ser feito de propósito, enquanto os demais comentaristas defendem que isto será assim mesmo que seja feito sem querer, quer dizer, por estar mergulhado na alegria, esqueceu-se de D’us.

De acordo com estes comentaristas, o versículo, em vez de se ler:

Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente quando tinhas abundância de bens,

Deve ler-se:

Porque não serviste a D’us quando estavas com alegria e com o coração contente quando tinhas abundância de bens.

Talvez exista a possibilidade de que a Torá nos tenha sim advertido para servirmos a D’us com alegria.

Em Devarim 10:12: Servir ao Eterno, teu D’us, com todo o teu «lev» (coração) e com toda a tua «nefesh» (alma)

Em Devarim 11, o segundo parágrafo do Shemá, também diz: Para servi-Lo com todo «levavchem» (o vosso coração), e com toda «nafshechem» (a vossa alma).

EmDevarim 26: E cuidareis e cumprireis os mandamentos, com todo o teu «lev» (coração), e com toda a tua «nefesh» (alma)

Em Devarim 30 diz: Escutarás as Suas palavras (…) com todo o teu «lev» (coração) e com toda a tua «nefesh» (alma)

De todos estes versículos, podemos ver que, na realidade, a Torá diz-nos sim como servir a D’us: Com todo o «lev» (coração), e com toda a «nefesh» (alma). Por tanto, poderíamos concluir que quando diz: Porque não serviste a D’us com alegria e com coração contente, isto é sinónimo de: Com todo o teu «lev» (coração), e com toda a tua «nefesh» (alma)

Parasha Ki Tetze

E eliminarás o mal do meio de ti – retirado do livro Ideas de Devarim, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe.

Na Torá, este termo aparece 11 vezes, todas no livro de Deuteronómio.

  1. A primeira vez é com o filho rebelde 
  2. Depois com uma mulher que se prostitui estando comprometida e quando ainda vive na casa do seu pai
  3. A terceira vez é o caso de um homem que comete adultério com uma mulher casada
  4. A quarta, quando uma mulher comprometida se deixa violar e não faz nada para o impedir.
  5. A quinta é quando sequestram alguém e o vendem como escravo.
  6. Na parashá Ree aparece este termo quando se refere a um falso profeta
  7. Na parashá Shoftim é utilizada esta palavra para se referir a um idolatra
  8. Outra quando desobedece ao máximo tribunal de justiça
  9. Também sobre aquele que mata e vai buscar resguardo numa cidade de refugio
  10. É utilizado novamente quando as testemunhas conspiram para inventar uma acusação falsa contra outro indivíduo 
  11. Por último quando se encontra o cadáver de alguém no caminho e não se sabe quem o matou

Todos os casos que a Torá define como mal têm a ver com idolatria, transgressões sexuais graves, adultério e assassinato. 

O resto dos casos:

Aquele que não ouve os pais

Aquele que não ouve os sábios

Aquele que se revolta contra o tribunal de justiça

Falso testemunho 

O sequestrador 

Na realidade podemos notar que cada um destes casos está relacionado com os Dez Mandamentos.

É por isso que a Torá faz tanto finca-pé em eliminar este mal; pois vai contra as coisas pelas quais estabelecemos um pacto com De’s.

Assim, vemos que o assassinato, o adultério e o roubo/ sequestro estão literalmente proibidos nos Dez Mandamentos. Também a idolatria, o filho rebelde que não respeita os pais e os falsos testemunhos.

Este é o motivo pelo qual a Torá insiste tanto nestes temas e exige que sejam extirpados do acampamento.

O que vem fortalecer ainda mais esta ideia é o facto de, em Deut. 12:11 dizer: Por quanto ele te afasta do Eterno teu De’s, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão. Porque se alonga tanto este versículo? Teria sido suficiente dizer apenas: Por quanto ele te afasta do Eterno. Vemos que se alonga de propósito, utilizando as mesmas palavras usadas no primeiro e segundo mandamentos: Eu Sou o Eterno teu De’s, que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão.

De acordo com a concepção da Torá, o mal não é só aquilo que perjudica a sociedade, mas sim também aquelas coisas que não prejudicam os outros, mas que a Torá considera igualmente graves, como por exemplo relações sexuais proibidas tidas de mútuo acordo.

Porquê no livro de Deuteronómio aparecem todas estas coisas?

Porque é o livro que mais nos fala e sublinha o pacto com De’s, e aquilo que mais representa este pacto são os Dez Mandamentos; é por isso que aqui se alonga e nos faz notar a gravidade destes temas.