Acharei mot – Kedoshim

Para falar com as crianças

A parasha Kedoshim começa com um mandamento divino: «Sereis santos». O que significa ser santo? Como alguém se torna santo? As respostas aparecem em detalhe mais tarde, com uma longa lista de leis e decretos que De’s entrega ao povo de Israel. Ao cumprir as mitsvot, o homem aproxima-se das qualidades de De’s e torna-se santo como Ele. Desse modo, somos proibidos de roubar, enganar, oprimir, amaldiçoar um surdo e colocar um obstáculo diante de um cego. Devemos ajudar os pobres, guardar o Shabat, amar o estrangeiro, fazer um julgamento justo, respeitar os idosos e, acima de tudo, cumprir a mitzvá de «Amar o próximo como a nós mesmos.

Esta parasha é transmitida ao povo de maneira diferente do resto da Torá. Normalmente, Moisés transmite as palavras divinas primeiro a Aarão, a seus filhos e aos anciãos do povo, e somente depois são transmitidas ao resto do povo de Israel. Mas, nesta ocasião, Moisés reúne o povo inteiro, tanto o Cohen Gadol (sumo sacerdote) quanto o homem simples, e diz-lhes: Sereis santos. A todos juntos, de maneira igualitária, para mostrar que, sem o elemento mais pequeno do povo de Israel, os maiores não conseguirão alcançar a santidade.

Diante do cego não colocarás obstáculo

Há coisas que aparentemente nenhum de nós fará. Por exemplo, nenhum de nós colocaria um obstáculo diante de um cego no meio do caminho, nem mesmo de brincadeira.

Na Torá está escrito: diante do cego não colocarás obstáculo.

Será que se trata apenas de um cego que não vê?

Há situações em que cada um de nós é «cego». Por exemplo, eu, pessoalmente, sou «cega» em tudo o que esteja relacionado com automóveis. Não entendo nada sobre o assunto. Por outro lado, o meu amigo é «cego» em tudo o que está relacionado à bolsa de valores, títulos do tesouro e ações.

Assim como é proibido colocar um obstáculo diante de um cego que não vê, é proibido dar um conselho incorreto a um «cego» em certo assunto, que não entende o que é bom ou mau nesse tema.

Parasha Tzav – Shabat HaGadol

Texto do escritor brasileiro Moacyr Scliar

Gostaria de partilhar um texto do escritor brasileiro Moacyr Scliar. Espero que o possam utilizar no Seder de Pesach, junto ao texto tradicional. [Apresentaremos excertos selecionados por Edith Blaustein em 2008 do texto original de Moacyr Scliar, «Um Seder para os nossos dias»]

Ao iniciar o Seder

Esta mesa em torno a qual nos reunimos, esta mesa com as matzót e com as ervas amargas, esta mesa de Pessach com sua toalha imaculada, esta mesa não é uma mesa; é mágica embarcação com a qual navegamos pelas brumas do passado, em busca das memórias de nosso povo.

A esta mesa sentemo-nos, pois.

Somos muitos, nesta noite.

Esta mesa em torno a qual nos reunimos, esta mesa com as matzót e com as ervas amargas, esta mesa de Pessach com sua toalha imaculada, esta mesa não é uma mesa; é mágica embarcação com a qual navegamos pelas brumas do passado, em busca das memórias de nosso povo.

A esta mesa sentemo-nos, pois.

Somos muitos, nesta noite.

Somos os que estão e os que já se foram; somos os pais e os filhos, e somos também os nossos antepassados. Somos um povo inteiro, em torno a esta mesa. Aqui estamos, para celebrar, aqui estamos para dar testemunho.

Dar testemunho é a missão maior do judaísmo. Dar testemunho é distinguir entre a luz e as trevas, entre o justo e o injusto. É relembrar os tempos que passaram para que deles se extraia o presente a sua lição.

Antes de HaLachmaniá

Este é o pão da pobreza que comeram os nossos antepassados na terra do Egito. Quem tiver fome – e muitos são os que têm fome, neste mundo em que vivemos – que venha e coma. Quem estiver necessitado – e muitos são os que amargam necessidades, neste mundo em que vivemos – que venha e celebre conosco o Pessach.

É o legado ético de nosso povo, a mensagem contida neste simples alimento, neste pão ázimo que o sustentou no deserto, e que o vem sustentando ao longo das gerações. É preciso ser justo e solidário, é preciso amparar o fraco e ajudar o desvalido.

O deserto que hoje temos de atravessar não é uma extensão de areia estéril, calcinada pelo sol implacável. É o deserto da desconfiança, da hostilidade, da alienação de seres humanos. Para esta travessia temos de nos munir das reservas morais que o judaísmo acumulou, das poucas e simples verdades que constituem a sabedoria do povo. Ama teu próximo como a ti mesmo. Reparte com ele teu pão. Convida-o para tua mesa. Ajuda-o a atravessar o deserto de sua existência.

Antes de Ma Nishtaná

Tu me perguntas, meu filho, porque é diferente esta noite de todas as noites. Porque todas as noites comemos chamets e matzá, e esta noite somente matzá. Porque todas as noites comemos verduras diversas, e esta noite somente maror.

Porque molhamos os alimentos duas vezes. Porque comemos reclinados.

Eu te agradeço, meu filho. Agradeço-te por perguntares. Porque, se me perguntas, não posso esquecer; se indagas, não posso ficar calado. Por tua voz inocente, meu filho, fala a nossa consciência. Tua voz me conduz a verdade.

Por que esta noite e diferente de todas as noites, meu filho? Porque nesta noite lembramos.

Lembramos os que foram escravos no Egito, aqueles sobre cujo dorso estalava o látego do Faraó.

Lembramos a fome, a cansaço, a suor, a sangue, as lagrimas. Lembramos a desamparo dos oprimidos diante da arrogância dos poderosos.

Lembramos com alívio: é o passado.

Lembramos com tristeza: é o presente.

Ainda existem Faraós. Ainda existem escravos.

Antes da leitura dos Quatro Filhos:

Não sejas como o ingênuo, que ignora os dramas de seu mundo, Não sejas como o perverso, que os conhece, mas nada faz para mudar a situação.

Pergunta, meu filho, pergunta tudo o que queres saber – a dúvida é o caminho para o conhecimento.

Mas quando te tornares sábio, procura usar a tua sabedoria em benefício dos outros. Reparte-a, como hoje repartimos nossa matzá, Segue o conselho de nossos sábios, e lembra a saída do Egito, não só na noite de Pessach, mas todos os dias de tua vida.

Judeu indiano imigrante em Israel atacado em incidente racista em Tiberíades

Racismo em Israel como resultado do coronavírus

Am-Shalem Singson, de 28 anos, membro da comunidade judaica Bnei Menashe, originário de Manipur, na Índia, imigrante em Israel desde 2017, foi atacado no sábado em Tiberíades por dois homens.

Os atacantes gritaram referências racistas a Singson, incluindo tê-lo chamado de «chinês» e «corona», enquanto o espancavam e o chutavam no peito. Mais tarde, Singson foi hospitalizado no Centro Médico Baruch Padeh, em Tiberíades. Apesar de ter sofrido lesões no peito e pulmões, a sua situação é considerada estável. 

Singson, cuja mãe, avó e irmão também se mudaram para Israel com ele, vive em Tiberíades e frequenta uma Yeshiva Hesder em Ma’alot. — Eu disse aos dois agressores que eu nem sou chinês, mas sim judeu da comunidade Bnei Menashe, não que haja justificativa para atacar um chinês ou qualquer outra pessoa. Mas eles estavam totalmente loucos e me chutavam com força enquanto gritavam: «Corona! Corona!», — Disse Singson, da sua cama de hospital.

— Na Shavei Israel estamos chocados com o ataque cruel e racista a Am-Shalem Singson ontem em Tiberíades. Os Bnei Menashe são nossos irmãos e irmãs, e qualquer pessoa que levante a mão contra eles deve ser levada à justiça. Exijo que sejam tomadas medidas e peço à polícia para investigar este incidente imediatamente — disse Michael Freund, presidente da Shavei Israel. 

— O coronavírus não faz distinção entre diferentes tipos de israelenses com base na cor da pele ou no formato dos olhos, e ninguém deveria fazer essa distinção — continuou Freund.

Existem cerca de 6.500 membros da comunidade Bnei Menashe ainda vivendo no nordeste da Índia, enquanto aproximadamente 3.000 fizeram de Israel a sua casa desde meados dos anos 2000. Atualmente, 700 Bnei Menashe aguardam a aprovação do governo israelense para imigrar. O próprio Singson imigrou para Israel em 2017. Esta não é a primeira vez que aconteceu um episódio de racismo em Israel como resultado do coronavírus. No final de fevereiro, uma mãe nipo-americana de jerusalém, que imigrou para Israel há nove anos, falou com o The Jerusalem Post descrevendo um nível crescente e desconfortável de racismo contra asiáticos em Israel desde o início do surto de coronavírus. 

Parasha Ki Tissá – Elevarmo-nos perante as dificuldades

O que simboliza Amalek para cada um de nós hoje?

De’s ordena que Moisés levante as cabeças dos filhos de Israel para os contar, através do meio ciclo que cada um deveria trazer. Sem diferenças, tanto o mais rico quanto o mais pobre, todos participamos e formamos uma comunidade que dá, e não há ninguém que não tenha meios para contribuir.

Nesta parashá, o povo de Israel deve enfrentar dois inimigos muito poderosos: por um lado, a sua própria impaciência e falta de fé, que os leva a pecar com o bezerro de ouro e, por outro lado, o povo de Amalek.

O que simboliza Amalek para cada um de nós hoje?

Amalek é um estado espiritual que representa aquilo que esfria o nosso entusiasmo, que nos rouba a emoção de enfrentar desafios, é o que nos «amornece». Pode ser um comentário mesquinho, ou a nossa própria indecisão.

Nesta batalha contra Amalek, Moisés escalou uma montanha com Aaron e Ben Hur. Foram eles que seguraram seus braços para que Moisés não se cansasse. Enquanto os braços dele estavam estendidos para o céu, os israelitas venciam, mas quando ele não resistia ao peso de seus braços e os baixava, era Amalek o vencedor.

Daqui podemos deduzir claramente que não devemos baixar os braços diante das adversidades e das dificuldades que surgem no nosso caminho.

Amalek é tudo o que nos separa dos objetivos que estabelecemos para nós mesmos, portanto, devemos nos perguntar diariamente: o que fizemos hoje para derrotar Amalek?

Pessach está perto; nesta festa deixamos de ser escravos, nos livramos de nossos opressores internos e externos para embarcar na jornada em direção à Liberdade, para sermos profundamente nós mesmos.

Para conseguir iniciar esta jornada, para vencer Amalek, precisamos acima de tudo de «levantar a cabeça».

Edith Blaustein

Parashá Tetzavé – Shabat Zachor

O judaísmo convida-nos a ter um coração que entenda e escute

Recordar e não esquecer

O Maftir, o final da leitura da Torá da parashá Tetzavé, é de Deuteronómio 25:17 a 19, que dá o nome a este Shabat especial: Zajor. Lembra-te (Zajor) do que te fez Amalek no caminho quando deixaste o Egito … apagarás a memória de Amalek no céu. Não te esqueças. Aqui De’s ordena-nos duas ações: «lembra-te» e «não te esqueças».

Amalek representa para o judaísmo não apenas as pessoas que vieram enfrentar os filhos de Israel, mas todos aqueles que em cada geração carregam a bandeira do anti-semitismo. Aqueles que vêem no povo judeu a fonte de todo mal, aqueles que aproveitam todas as oportunidades para nos atacar.

Ler e ouvir

Na festa de Purim, é-nos ordenado ler a Megillah e todos dizemos uma bênção por ouvir a Megillah. Ler e ouvir estão inter-relacionados, mas não são a mesma coisa.

Ouvir é uma ação recôndita que envolve a profunda interiorização do que é ouvido. O judaísmo convida-nos a ter um coração que entenda e escute, através dos preceitos. O objetivo é que sejamos seres com um poder de escuta profundo em relação à nossa espiritualidade e às necessidades dos outros. Que relação tem isso com recordar e não esquecer?

Recordar e não esquecer

Em hebraico, zachor (lembrar, recordar) é semelhante a zachar (masculino). A ação de recordar é ativa, vai de fora para dentro. A leitura da Megillah permite-nos lembrar o que Amalek nos fez.

A memória, o não esquecer, está relacionada com a escuta, que é passiva, vai de dentro para fora e é uma ação tipicamente feminina.

Ester e Mordechai

A Megilla que lemos chama-se Ester. Ester significa ocultação, é aquilo que é interno que se desenrola e descobre através da Megillah.

Mordechai e Ester representam as duas essências que cada um de nós possui, são o lado masculino e o feminino.

Mordechai diz-nos o significado da memória, através da leitura da Megillah.

Esther induz-nos a não esquecer, através da audição da Megillah.

Neste Shabat, e na leitura da Megillah, todos estes elementos estão interligados: lendo e ouvindo, lembrando e não esquecendo, Ester e Mordechai, o feminino e o masculino.

Para aqueles que nunca desistem, que lutam contra a negação e o cepticismo, que continuam a sua busca de encontrar significado independentemente das circunstâncias, desejamos que, como os judeus de Shushan, encontrem luz, alegria, júbilo e dignidade (Ester 8:16)

Edith Blaustein

Parashat Trumá – a moeda de fogo

MiSheNichnas Adar marvin beSimchá!

A tzedaká

Esta semana começámos o mês de Adar e nossos sábios nos explicam que Mishenichnas Adar marvin besimchá, quando Adar entra, a alegria aumenta. Desta forma, já estamos anunciando a alegria da Festa de Purim. A Parashá desta semana, Trumá, é considerada a parashá da Tzedaká.

A Eterna Unidade do Povo de Israel

Na parashá passada, Moisés diz que cada membro do povo de Israel deve contribuir com o Machatzit hashekel, o meio ciclo, metade de uma unidade de peso que todos os judeus devem entregar. Nem os ricos podiam entregar mais, nem os pobres, menos. Essa quantia foi usada para a construção das bases do Santuário e para sacrifícios públicos na época do Beit Hamikdash. Esta entrega tem um simbolismo profundo, uma vez que são necessárias duas metades para alcançar a unidade; assim, o Machatzit Hashekel representa a unidade eterna do povo de Israel; todos devemos estar representados ao doar, todos com a mesma quantia, dos mais ricos aos mais pobres da cidade. Os exegetas explicam que De’s mostrou a Moisés uma moeda de fogo e disse-lhe: – Como esta devem entregar.

As diferentes formas de entrega pessoal

Na parashá Trumá, por outro lado, existem treze objetos que os filhos de Israel podem dar para o serviço do Santuário. Esses treze elementos representam as várias maneiras pelas quais temos que nos aproximar de De’s. Cada indivíduo deve encontrar o seu próprio caminho de entrega, descobrir a sua própria missão neste mundo para exaltar a sua existência e, assim, glorificar a De’s.

A alegria

Como podemos expressar nossa alegria? O fator mais especial da festa de Purim é: Mishloach manot ish lereu umatanot laevionim (enviar comida para os amigos e presentes para os pobres.) Quando damos, sentimos a mais profunda alegria, pois o que damos é a única coisa que teremos no nosso crédito no final das nossas vidas. Todos nós precisamos de dar, e é por isso que em Purim enviamos presentes para os nossos amigos, porque todos precisamos receber. A Moeda de Fogo que De’s mostrou a Moisés une todos esses elementos: o fogo não tem consistência, ao contrário da moeda, que é de metal. Devemos dar «com fogo», com a paixão que sentimos por sabermos que somos parte de um povo eterno; devemos entregar e entregarmo-nos para alcançar um estado de profunda e verdadeira alegria.

O povo do Livro, em muitas línguas

A Shavei Israel está trabalhando para esclarecer bem a Torá para pessoas de todas as origens, incluindo traduções em chinês, polonês e outros idiomas.

Quando o povo judeu se uniu à terra de Israel, recebemos a ordem de esculpir tábuas de pedra que «esclareceriam» a Torá. A Guemará, no Tatado Sotá, menciona que isso significa que foram esculpidas nas 70 línguas do mundo, da época. Durante milhares de anos, como o povo judeu viveu em muitos países diferentes e passou por muitas facetas diferentes de exílio, acabámos por adotar as línguas das nações entre as quais vivíamos.

Agora imagine pertencer a um desses lugares cuja língua não é incluída para as traduções do Tanach (Bíblia) e de outros textos sagrados… Por exemplo, se precisássemos aprender sobre nossa herança em um idioma tão diferente do hebraico ou do inglês como o chinês, isso pode levar algum tempo para ser resolvido.

A Shavei Israel e o nosso projeto do Ma’ani Center para preservar e educar sobre a herança dos dispersos de Israel continuam a ir aos quatro cantos da terra para trazer de volta judeus perdidos de muitas culturas e origens diferentes. Assim, tornou-se necessário, para promover o aprendizado judaico, que esses textos sejam traduzidos para algumas línguas incomuns. À sua maneira, como as tábuas de pedra, a Shavei está trabalhando para esclarecer bem a Torá para pessoas de todas as origens, incluindo traduções em chinês, polonês e outros idiomas.

Muitos volumes já foram concluídos e estão agora disponíveis em mais de dez idiomas diferentes, para serem usados conforme necessário. Esses textos apoiam aqueles que fazem a Aliá (que se mudam para Israel) de lugares distantes, bem como os que permanecem em seus países de origem e desejam explorar e recuperar sua herança judaica. Junte-se a nós para receber judeus de todo o mundo de volta às suas raízes.

Escrito por Michael Barnhard