Naomi Orkisa – de uma fazenda de cogumelos à um consultório odontológico

Durante o dia, ela trabalha em uma fazenda de cogumelos em uma colina nos arredores de Jerusalém. À noite, ela sonha com uma nova carreira: uma profissão em que não precise se inclinar tanto, como o faz nos campos.

Naomi Orkisa é uma das jovens e ambiciosas mulheres das quais a Shavei Israel está ajudando com os estudos no programa para auxiliares de consultório dentário e higienistas da escola odontológica do Hospital Hadassah. Naomi pertence a comunidade Bnei Moshe, uma pequena comunidade no Peru, fundada por dois irmãos católicos da cidade de Cajamarca, que, após terem lido e estudado a Torá, decidiram, em 1958, abraçar o judaísmo. A maioria da comunidade Bnei Moshe, desde então, se converteu ao judaísmo sob os auspícios do Rabinato Chefe de Israel e muitos, se mudaram para Israel.

Naomi cresceu em um lar muito pobre no Peru. A família fez o seu melhor para enfrentar às despesas através da venda de água – posuíam um poço no jardim e, já que não havia encanamento na área em que viviam, a água era uma mercadoria valiosa.

Desde que imigrou para Israel com sua família em 2004, Naomi, agora com 30 anos, tem sido responsável por cuidar de seus pais idosos, enquanto que, ao mesmo tempo, cuida de seu próprio filho. Agora que seu filho tem idade suficiente para ir para a escola, Naomi finalmente tem a oportunidade de melhorar a sua situação: tornar-se uma assistente dentária é um bilhete para fora da pobreza que a tem acompanhado por toda sua vida.

Mas dedicar tempo para assistir às aulas e estudar deixa muito menos tempo para se dedicar ao seu trabalho na fazenda de cogumelos. Isso significa uma queda significativa em seu salário (que chega a até 70%). E portanto nós da Shavei nos oferecemos para ajudá-la.

Temos corrido atrás de doadores que têm nos ajudado a realizar o sonho de Naomi e outras mulheres que também têm buscado uma vida mulher dentro de seu povo e habitando a Terra de Israel.

Esperamos conseguir continuar ajudando a estas fortes guerreiras a realizar seus sonhos!

Operação Menashe: Conheça Harel Kingbol, que está fazendo aliá de Mizoram

Harel Kingbol no Muro Ocidental, em 2010
Harel Kingbol no Muro Ocidental, em 2010

A Shavei Israel está, neste momento, se preparando intensamente para a “Operação Menashe ” – a próxima onda de Alyot de Bnei Menashe da Índia – que irá trazer 899 pessoas para Israel ao longo dos próximos 15 meses. O primeiro grupo de imigrantes é de Mizoram e chegará neste final desta semana! É a primeira operação deste tipo no estado indiano, com a segunda maior população Bnei Menashe, em quase 7 anos. Apresentamos para vocês a terceira em nossa série de perfis de famílias de Bnei Menashe que estarão chegando em breve no Estado judeu. Conheça, dessa vez, Harel Kingbol.

Por quase 20 anos, Harel Kingbol sonhou em fazer Alya para Israel a fim de que seus filhos “nunca enfrentassem os mesmos problemas e o sofrimento com o qual eu cresci”, diz ele. Para Kingbol, o sofrimento começou quando tinha 9 anos de idade, no seu Brit Milá (ritual de circuncisão). No estado indiano de Mizoram, onde vive, Kingbol explica que, nenhum médico realizaria a circuncisão nessa idade e, Kingbol e sua família ainda não faziam parte de uma comunidade de Bnei Menashe e, portanto, não tinham seu próprio Mohel (autoridade judaica que pratica o ritual de circuncisão).

No entanto, não foi a dor causada por este duro procedimento em uma idade avançada que causou o sofrimento de Kingbol. Seus jovens amigos o zombavam por sua decisão e, especialmente por sempre usar um Quipá (solidéu) e um Talit Katan (uma peça de roupa com franjas usado sob a camisa). “Eles tentavam derrubar minha quipá e puxar as cordas do Talit Katan, já que eu nunca os escondia”, ele lembra.

Mais tarde, Kingbol se juntou a um time de futebol semi-profissional em Kolkata (Calcutá). “Lá também enfrentei muitos problemas”, lamenta. “Após o diretor do clube descobrir que eu era judeu, eu raramente tive uma chance de jogar”.

Apesar das dificuldades, Kingbol permaneceu forte. “Tenho orgulho de ser judeu e de ser Bnei Menashe”, diz ele. Tanto que, Kingbol, aos 26 anos, foi nomeado um dos “Amigos” da Shavei Israel entre a comunidade Bnei Menashe, servindo como um líder comunitário e educador. Seu compromisso inabalável agora está prestes a ser recompensado: ele e sua família estão incluídos no programa de Alya do próximo grupo de Mizoram!

E nada muito cedo. Kingbol e sua esposa Hodaya têm dois filhos: Rachel, 3, e Nevo, de um ano de idade. Rachel já começou a fazer perguntas, diz Kingbol. “Ela é muito inteligente. Ela quer saber por quê somos diferentes do que as pessoas ao nosso redor. Por que não comemos carne de porco ou caranguejo? Sua mãe lhe diz que ‘se você comer essas coisas você não será saudável, por isso, se você quer crescer e se tornar uma linda menina, você deve comer kosher’. Eu, por outro lado, olho para o Salmo 126 [O Cântico dos que Ascendem, onde se lê “Quando D’us trouxe do cativeiro os que voltaram a Sion, estávamos como os que sonham… Os que semeiam com lágrimas colherão com cânticos de alegria”]. Eu sei como é difícil levar uma vida judaica fora da Terra Santa”.

Kingbol já experimentou um pouco do que está por vir: em 2010, ele fez parte de um grupo de líderes de Bnei Menashe que vieram para Israel em uma viagem patrocinada pela Shavei Israel. (Vide Foto)

Os pais de Kingbol sofreram na Índia também, por serem judeus. Seu pai trabalhou para o governo que, como Kingbol diz, não lhe permitia descansar no Shabat e nas festas. Quando o pai de Kingbol se tornou mais observador, ele se candidatou para uma pensão voluntária, mas a agência recusou. Levou vários anos antes de seu pedido ser finalmente aprovado.

Kingbol vive hoje com toda sua família, incluindo seus pais, em Aizawl, a capital de Mizoram. “Eu rezo para que meu pai e minha mãe, que me criaram para ser um judeu orgulhoso, e todos os meus irmãos e irmãs [ele tem dois], sejam capazes de retornar à Terra Prometida muito em breve”, diz ele.

Com a ajuda de Shavei Israel, este dia está se aproximando rapidamente, assim como também é mencionado no Salmo 126: “Grandes coisas fez o Senhor por nós, pelas quais estamos alegres!”.

Recuperando um dia perdido na Historia Judaica!

Hoje é o dia em que já estávamos preparados por tanto tempo. O dia que tinha me deixado acordada tantas e tantas noite. O dia em que finalmente podíamos recuperar a Historia Judaica de uma pequena aldeia escondido nas montanhas que servem como um observatório ao Rio Duero, que separa a Espanha de Portugal. A bela Villa de Fermoselle. Berço dos meus ancestrais por 550 anos antes de migrar para outras partes do mundo. Os judeus viviam lá como praticantes, então, como cripto-judeus, e, finalmente, por centenas de anos como católicos romanos.

Por razões que nunca vou saber, eu era descendente eleita para retornar às tradições de nossos pais e voltar ao mesmo tempo, aos meus ancestrais para recuperar seu passado judaico. Eu tinha vivido nesta bela aldeia, neste canto no noroeste da Espanha em busca dessas raízes diversas e eu andava pelas ruas tão familiares para mim, muitas vezes. Em cada um desses casos, as paredes me contavam coisas, uma voz muito baixa, cada vez me fornecendo um novo segredo. As paredes procederam cuidadosamente para ter certeza de que eu era digna de receber seus segredos.
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A vida de um marrano: Samuel Nuñez Ribiero

Fonte: www.chabad.org.br

 Contaremos aqui a história de uma famosa família de Marranos, cerca de duzentos anos após a expulsão da Espanha e Portugal.

Os Marranos daqueles países, vivendo em constante terror, tinham apenas uma esperança: escapar para algum país amigo para jogar fora aquele odioso disfarce e viverem abertamente como judeus.

Assim ocorria com a família Nunez. Durante muitas gerações, esta família mantivera sua fé judaica em segredo, e alguns membros da família tiveram morte violenta nas mãos da Inquisição. (Clara Nunez foi queimada em Sevilha, Espanha, em 1632, e no mesmo ano Isabel e Helen Nunez também foram condenadas à morte por sua lealdade à fé judaica). Um ramo da família, que vivia em Portugal, estava entre as mais conhecidas famílias nobres. Embora vivessem quase 250 anos depois da Expulsão da Espanha e Portugal, esta família ainda observava secretamente a religião judaica. Era liderada por Samuel Nunez, nascido em Portugal, e que se tornara um famoso médico. Fora nomeado Médico da Corte do Rei de Portugal. Além dos serviços que prestava à família real, toda a nobreza considerava um privilégio ser atendido por ele. O Dr. Nunez não era requisitado apenas como profissional, como também era convidado a todos os eventos sociais importantes. Além disso, quando ele organizava um banquete ou um baile em seu lindo palácio sobre o Rio Tejo, a elite da sociedade lisboeta estava entre seus convidados.

O Dr. Nunez ainda era jovem quando atingiu o auge do seu sucesso profissional e nos círculos sociais. Isso naturalmente provocou inveja entre os seus competidores, e a Inquisição deu a eles uma excelente oportunidade de tentar prejudicá-lo.

Embora na superfície o Dr. Nunez fosse um católico tão bom quanto qualquer outro cristão que freqüentasse a igreja, os líderes da Inquisição registraram os avisos dados pelos inimigos do médico. Eles conseguiram infiltrar um “agente” na casa da família Nunez, disfarçado de criado, para informar sobre o que acontecia no círculo familiar.

Finalmente o agente relatou que a família Nunez estava definitivamente praticando a religião judaica em segredo, pois todos os sábados, eles se recolhiam a uma sinagoga nos subterrâneos do palácio, onde jogavam fora o disfarce de cristãos e rezavam como verdadeiros judeus.

Embora os líderes da Inquisição conseguissem prender toda a família Nunez e colocá-la na prisão, sua alegria durou pouco, pois o Dr. Nunez era muito popular e tinha amigos influentes entre a nobreza. Estes convenceram o rei a libertar Dr. Nunez e sua família da prisão e permitir que se instalassem novamente no palácio como Médico da Corte.

Geralmente o rei era completamente influenciado por seu “padre confessor” – um sacerdote católico, mas nesse caso ele não lhe contou sua decisão (apoiado por toda a família real), dando ordens para que a família Nunez fosse libertada imediatamente e pudesse voltar à sua residência às margens do Tejo.

Havia uma condição, porém, que empanava a alegria da família Nunez durante sua libertação – dois funcionários da Inquisição deveriam residir com a família para certificar que eles não praticavam a religião judaica. Isso, obviamente, fez o Dr. Nunez planejar uma fuga. Mas como conseguir isso sob os olhos sempre vigilantes dos inquisidores?

O Dr. Nunez teve uma idéia ousada e brilhante. Organizou um banquete e convidou todas as pessoas importantes da cidade. Entre essas havia muitos funcionários de altos cargos que, embora suspeitassem dele no tocante à fé, ficaram felizes em aceitar o convite para o banquete, pois era considerado um privilégio estar presente.

O banquete terminou e o baile estava no auge quando o Dr. Nunez mandou a orquestra parar e fez a seguinte declaração chocante:

“Meus amigos! Tenho uma bela surpresa para vocês! Estão todos convidados a embarcarem em meu iate, que foi preparado para o vosso prazer. As diversões da noite continuarão ali, com o Capitão ao vosso serviço. Por aqui, Senhoras e Cavalheiros!”

Com estas palavras, Dr. Nunez saiu da sala, e todos os convidados o seguiram alegremente, deliciados com a surpresa.

Todos apanharam seus casacos e, conversando com animação, embarcaram no iate que balançava suavemente no embarcadouro do palácio.

O que os convidados não sabiam era que uma surpresa não muito agradável os esperava. Somente uma hora depois do embarque, eles perceberam que o iate estava se movendo! E a julgar pela velocidade, não era um iate, mas um barco enorme. Sim, eles estavam navegando para longe da costa de Portugal a toda velocidade, rumando para as praias mais amigáveis da Inglaterra. Bem, amigáveis para a família Nunez. O médico arranjara cada detalhe com a ajuda dos seus parentes, os Mendez, um dos quais tinha se casado com a filha de Nunez. Este conseguira vender em segredo parte de suas propriedades e outros bens, e tinha transferido o dinheiro para a Inglaterra através de mensageiros secretos. Assim ele conseguiu contratar um capitão britânico para levar seu barco ao Rio Tejo na noite do banquete, preparado para receber muitos passageiros.

O Dr. Nunez assegurou aos convidados que, assim que chegassem à costa inglesa, o barco voltaria imediatamente com eles para Portugal. Quanto ao Dr. Nunez, os convidados tinham de admitir que não era sua culpa o fato de ser obrigado pela Inquisição a deixar o país que estiveram tão pronto a aceitar seus serviços e seu conhecimento, mas não lhe permitira que ele e a família vivessem segundo sua fé e consciência.

Conforme fora arranjado com antecedência, a família Nunez foi transferida para outro barco que estava deixando a Inglaterra com outros marranos a caminho da Geórgia, na América, para estabelecer uma colônia. No verão de 1733, os Marranos, liderados pela família Nunez, chegaram a Savaná, na Geórgia. Foram calorosamente recebidos pelo governador inglês, James Oglethorpe, um homem tolerante e compreensivo.

Quando os administradores do território em Londres souberam que Oglethorpe tinha doado terra aos refugiados judeus, e que eles construíram casas e estavam bem estabelecidos, enviaram um protesto indignado ao Governador, dizendo: “Não queremos que a nova terra se torne uma colônia judaica!”
O Governador, porém, era um homem justo que percebera como tinha sorte de contar com refugiados tão valiosos. O Dr, Nunez certamente seria útil naquelas vastidões semi-desertas, pois poucos profissionais se aventuravam a viver naquele país pioneiro. Os outros refugiados, também, tinham levado seus ofícios e riquezas com eles, mas mesmo que não tivessem, o bondoso Governador não tinha intenção de fazer os recém-chegados sofrerem perseguição no novo país. Eles já tinham sofrido bastante em suas terras de origem.

Quando os administradores em Londres continuaram a insistir com Oglethorpe para expulsar os colonos judeus, ele fingiu levar a ordem em consideração. Porém os registros daqueles tempos, ainda preservados em Savaná, demonstram que não apenas ele não expulsou os judeus, como ao contrário, concedeu-lhes ainda mais terras e privilégios.

A História nos conta que o Dr. Nunez e sua família mais tarde se mudaram para Charleston, na Carolina do Sul. Porém alguns membros da família permaneceram em Savaná, cultivando as seis ricas propriedades que receberam do Governador Oglethorpe, pelos valiosos serviços prestados à colônia pela família Nunez. Posteriormente, o genro do Dr. Samuel Nunez mudou-se para Nova York e se tornou o líder espiritual da recém-fundada comunidade portuguesa. Um descendente deste ramo da família do Dr. Samuel Nunez Ribeiro foi prefeito de Nova York, Dr. Manuel Mordechai Noah, idealizador de um dos projetos de estabelecer uma colônia judaica na América.

Com certeza concordaremos que a família daquele nobre e corajoso médico, temente a D’us, Dr. Samuel Nunez Ribeiro, merece um local de destaque na História Judaica.

Um judeu encontra bondade na Polônia

As vezes, uma viagem ao passado nos brinda uma melhor compreensão do futuro.

Em recente viagem pelos intermináveis caminhos de campos verdes e montanhas arborizadas do sudeste da Polônia, foi fácil deixar-se levar pelo belo cenário.

Os belíssimos campos repletos de paisagens viva e de uma linda brisa nos dizem que a primavera ainda não chegou por essa tão fértil e frondosa terra.

Porém, logo impulsivamente, chega o inevitável, quando a memória do acontecido há algum tempo, rapidamente parece captar a impressionante paisagem.

A caminho de Kanczuga , uma pequena aldeia entre Rzeszow y Przemysl, onde vivem cerca de 3000 pessoas programei uma pequena parada. É um pequeno ponto no mapa, porém um importante lugar na história de minha família.

Antes do Holocausto, aproximadamente 40% da população de Kanczuga era judaica, e tem quem opine que este percentual era ainda maior. Até o dia de hoje, o símbolo oficial da municipalidade tem uma estrela de David no centro, como se fosse um reconhecimento oficial sobre o rol que tiveram os judeus na vida comunitária do município, ao longo dos séculos.

Entretanto, nada ficou visível que possa relatar acerca do passado, a não ser a memória.

Em 1942, os judeus de Kanczuga foram rodeados pela polícia nazista e polonesa. Depois de serem agrupados na Grande Sinagoga, foram levados ao alto da colina onde ficava o cemitério judaico e foram sistematicamente assassinados. A população local, celebrou o fato com um piquenique e um brinde em honra aos policiais, quando os assassinos começaram a disparar.

Toda a vitalidade e o verde que me rodeava, desapareceram repentinamente, enquanto pensava sobre o que havia ocorrido com meus familiares.

Utilizando um mapa e informações que recolhi na internet, localizei um pequeno edifício que em algum momento serviu de sinagoga. Ali dentro, 7 ou 8 operários poloneses trabalhavam na demolição da estrutura interna do lugar que seria transformado num ponto comercial. Pilhas de escombros estavam espalhados por toda a área e grandes buracos no teto faziam visíveis as paredes originais de ladrilho da casa de oração.

Enquanto caminhava pela desordem, não pude deixar de observar os olhos exclamativos dos operários me observando, olhavam para a kipá em minha cabeça e depois olhavam para mim novamente. Sem me preocupar, continuei caminhando pela obra tirando fotos e recitando uma oração, capítulos dos salmos, e me perguntei se este era verdadeiramente o lugar onde meus ancestrais entregaram seus corações ao criador.

Bastante emocionado, senti a necessidade de contar aos operários o que foi este lugar naquela época. Por alguma estranha razão, queria que eles soubessem que este lugar foi um recinto sagrado.

Um dos homens parecia falar um pouco de inglês, e eu tentei explicar-lhe que neste prédio funcionava uma sinagoga antes da guerra, e que minha família vivia nesta região. Ele sorriu um pouco incomodado, antes de ir-se, e me fez pensar que motivo eu teria para me preocupar em dizer-lhe o que disse.

Porém, após alguns minutos, quando me preparava para ir embora, esse mesmo trabalhador aproximou-se de mim pelas costas e bateu no meu ombro. Virei-me, sem estar seguro do que me esperava, ele me entregou umas folhas amarelas, rasgadas e empoeiradas.

Imediatamente, reconheci o texto em hebraico, e não estava acreditando no que tinha em minhas mãos, eram páginas de um Sidur (livro de orações judaicas), que estavam jogadas por mais de sessenta anos. Comecei a tremer só de pensar o que havia acontecido ao último judeu que esteve com aquele Sidur em suas mãos, durante a terrível época dos assassinatos realizados pelos nazistas.

Homens adultos não deveriam chorar, e principalmente na frente de outros. Porém não pude evitar e as lágrimas começaram a fluir. Os operários me rodearam, e mostraram as paredes e o teto, indicando que haviam encontrado estas folhas quando demoliam o edifício internamente.

Enquanto um me dava uns tapinhas nas costas tentando me consolar, os outros foram ao outro quarto. Não demorou muito, e um a um, retornavam trazendo montantes de folhas em hebraico. Sessões do Talmud, páginas da Mishné Torá de Maimônides, porções do Pentateuco e de serviços das grandes festas. Relíquias do judaísmo de Kanczuga, mas que agora estavam reduzidas a simples fragmentos escondidos entre as ruínas.

Um dos operários foi buscar mais e mais folhas, as quais eu as trouxe para serem enterradas numa guenizá como manda a tradição.

Os homens não pediram nada em troca, e quando chegou o momento de ir-me, nos demos as mãos. O capataz, prometeu juntar todas as páginas adicionais que fossem encontradas para que me fossem enviadas através de um contato local.

Nessa mesma tarde, após assistir a uma cerimônia de reinauguração do cemitério judaico local, me sentei com o prefeito de Kanczuga, Jacek Solek, em seu escritório.

No último ano, por iniciativa própria e com os recursos da própria municipalidade, Solek construiu um memorial aos judeus de Kanczuga no lugar da cova em comum, onde foram enterrados os judeus assassinados pelos nazistas e seus seguidores.

Quando contei ao prefeito sobre minha visita a sinagoga, só então percebi que não havia nenhuma placa, nenhum cartaz, nada que indicasse que em determinada época aquele prédio havia sido uma sinagoga.

Assim, sem ponderar muito, pedi-lhe que fizesse algo a respeito, educada porém firmemente me expressando, pois era importante que os residentes soubessem que num passado remoto houve presença judaica naquele lugar. O prefeito prometeu corrigir a situação, assegurando-me que o assunto seria tratado imediatamente. Então finalizamos a conversa.

Em menos de 24 horas depois, quando já me encontrava em Israel, recebi notícias da Polônia que relatavam que na última reunião da prefeitura de Kanczuga naquela mesma manhã, o prefeito recebeu aprovação para colocar um anúncio na sinagoga.

Quão bom seria se nossos próprios prefeitos em Israel atuassem de forma tão rápida e eficiente no tocante as inquietudes judaicas, pensei. Seguramente, o anti-semitismo é ainda freqüente na Polônia. Notei como muitas pessoas, jovens e adultos, nas cidades e pequenos povoados, apontavam para a kipá em minha cabeça e riam dizendo “xydowski” (judeu em polonês) uns aos outros. E não é difícil de ver pintura anti-semita nas paredes das ruas.

Mas assim mesmo, como fui testemunha em minha recente visita, também existem bons poloneses. Gente que sinceramente se arrependeram do que fizeram aos judeus em sua terra, e que desejam corrigir os erros da melhor forma possível. E pessoas que são verdadeiramente boas e que querem apenas fazer o bem.

Isto, não nos vai fazer esquecer nem por um momento o terrível passado, nem pode ser assim. A memória do Holocausto e as vítimas sempre viverão conosco até o fim dos dias, e não podemos perdoar aqueles que participaram no massacre, seja como executores ou como cúmplices.

Porém, assim como o prefeito e o operário de Kanczuga demonstraram, não devemos perder a oportunidade de criar uma relação com os polacos de bom coração. Fazendo isto, podemos pelo menos, corrigir algumas das injustiças históricas que foram cometidas aos nossos ancestrais, seja através da recuperação de objetos valiosos sentimentalmente ou através da preservação de lugares de interesse e importância para os judeus.

A vontade existe e o desejo também. Não apenas em Kanczuga, mas também em outros lugares como Warsaw, Krakow, Wroclaw e Lodz. Que vergonha seria deixar passar essa oportunidade.

Jovens polacos redescobrem suas raízes judaicas

Seminario de Shavei Israel en Polonia

Haaretz, 24 de Febrero 2008

LODZ – Antes de saber sobre suas raízes judaicas, Pinchas Zlotosvsky da Polônia era um skinhead com um intransigente desprezo pelos judeus. Foi o que disse este judeu ultra-ortodoxo ao jornal Haaretz no último fim de semana, durante a Conferência Anual da Shavei Israel para os “judeus escondidos”, ocorrida na cidade de Lodz, Polônia.

A transição na vida de Zlotosvsky ocorreu logo após sua mãe ter lhe dito que provinha de uma família judaica. “Seus pais”, disse, “a mandaram a um monastério quando era pequena para que pudesse sobreviver ao holocausto”.

Pinchas ficou sabendo também, que todos os seus parentes foram assassinados.

“Descobri que sou judeu de acordo com a lei judaica. Não pude olhar-me no espelho durante uma semana inteira quando deparei-me com esta realidade”, ele lembra. Após ter-se recuperado dessa comoção, vem passando os últimos anos redescobrindo suas raízes judaicas. Por isso mesmo, vem se tornando uma pessoa ativa dentro da comunidade judaica.

O retorno ao judaísmo de Zlotosvsky é o fato comum e dominante em muitos dos participantes da conferência, na qual foi restaurada o Conselho Rabínico da Polônia pela primeira vez desde 1930. Da cerimônia participaram o Rabino Chefe de Israel, Yona Metzger, e o Rabino Chefe da Polônia, Michael Schudrich.

Oficialmente sabe-se que havia cerca de 3 milhões de judeus polacos antes da Segunda Guerra Mundial. Hoje em dia, os números oficiais dizem que existem apenas 4000 judeus vivendo na Polônia, porém a realidade é que – pela halachá (lei judaica) – os números são provavelmente mais altos.

A discrepância surge devido ao fato de que milhares de judeus que sobreviveram a guerra, preferem não revelar sua identidade judaica com receio de perseguições anti-semitas da população.

De fato, existiram pogroms contra os judeus após a guerra, enquanto que as autoridades ignoram os linchamentos e assassinatos, e inclusive, algumas vezes, fizeram parte da matança de pessoas que lograram sobreviver à fúria nazista.

Outra porção significativa da população judaica consiste de pessoas como a mãe de Pinchas Zlotosvsky, que foram enviados aos monastérios para serem criadas como cristãos. Apesar dos esforços realizados por organizações judaicas para localizar estas pessoas, nem todos foram encontrados e muitos permanecem cristãos. Uma das razões para tal, é que muitas das famílias adotivas preferiram não revelar a seus filhos a verdade acerca de sua origem.

O anti-semitismo ainda prevalece na Polônia, conforme afirmam os rabinos de Lodz, Varsóvia, Cracóvia, Breslau e outras partes do país e que estiveram na conferência. Porém em paralelo, dizem haver uma nova aceitação do tema entre os judeus, especialmente nas grandes cidades. Esta atmosfera de abertura, dizem os rabinos, impulsiona a vários “judeus escondidos” a buscarem suas raízes.

A Organização de Michael Freund é verdadeiramente conhecida por seus esforços para localizar pessoas provenientes das 10 tribos perdidas espalhadas pelas remotas partes do mundo. A conferência, da qual participaram 150 polacos, homens e mulheres entre 18 e 40 anos, é parte dos esforços da organização para localizar “judeus escondidos” na Polônia.

Michael Freund, presidente da Organização Shavei Israel, disse: “A vida judaica na Polônia vem se fortalece ultimamente à medida que muitos jovens polacos descobrem a ascendência judaica de sua família, que até agora, permanecera escondida por medo de perseguições nazistas e comunistas”.