O judeu que lutou contra a censura da Inquisição

Manuscrito raro de um judeu italiano: requerimento raivoso do judeu de Ferrara para as autoridades da Inquisição requerindo que o fim da censura de seus livros impressos.

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O Papa Lunático e a Disputa com os Judeus

A Disputa de TortosaFOTO-Concilio

Na segunda metade do século XIV, viajava pela Europa um frade dominicano, nascido em Valência, que era conhecido por seu antissemitismo virulento. Uma de suas expressões favoritas era “batismo ou morte” baseada no terrível desastre de 1391 onde se expandiu por Castela e Aragão uma terrível onda de ataques contra as comunidades judaicas, muitas dessas comunidades judaicas espanholas desapareceram, seja porque seus habitantes morreram ou porque foram forçados a se converter ao cristianismo, ou mesmo, por ambos motivos.

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Artur Carlos de Barros Basto: o Dreyfus português!

Sessenta e cinco anos após a morte do Capitão Arthur Carlos de Barros Basto – fundador da comunidade judaica no Porto, e defensor apaixonado dos Bnei Anussim de Portugal – ainda se debate sua reintegração póstuma ao Exército Português. Barros Basto foi expulso do exército há quase sete décadas atrás pelo “crime” de proclamar com orgulho sua herança judaica!

A recomendação de reintegrar Barros Basto foi feita no fim de julho de 2012 pelo Parlamento Português, depois de quase 10 anos de lobby da Shavei Israel e a neta do capitão, Isabel Maria de Barros Lopes, que no ano passado apresentou um pedido formal ao presidente do parlamento Português. A Shavei Israel, então, lançou uma petição on-line amplamente divulgada para complementar o pedido de Lopes. A petição recebeu mais de 1.300 assinaturas.

O Capitão Barros Basto foi u552204_432442650150596_2037884314_nm soldado condecorado que comandava uma companhia de infantaria Portuguesa na I Guerra Mundial. Lutou nas trincheiras de Flandres, e participou da ofensiva aliada para libertar a Bélgica. Em 1937, no entanto, os militares Portugueses sumariamente o expulsaram de suas fileiras, humilhando-o injustamente, pois havia lançado uma campanha pública para despertar os Bnei Anussim de Portugal a regressar às suas raízes judaicas.

Barros Basto foi ele próprio parte dos Bnei Anussim – um descendente de judeus cujos antepassados tinham sido forçados a se converter ao catolicismo durante a época da Inquisição espanhola. Após a guerra, ele abraçou a fé de seus antepassados e foi submetido a um retorno formal ao judaísmo perante um tribunal rabínico no Marrocos espanhol. Vestindo seu uniforme militar e suas medalhas, viajou entre as cidades e aldeias do interior de Portugal, fazendo discursos empolgantes, conduzindo serviços judaicos e procurando inspirar outros a seguir seu exemplo.

Voltando-se aos judeus do mundo por ajuda, ele conseguiu levantar os fundos necessários para a construção da magnífica sinagoga Mekor Haim, que ainda existe na cidade do Porto, e abriu uma yeshiva que operou por nove anos, ensinando jovens Bnei Anussim sobre sua herança. Sozinho, também produziu um jornal judaico, HaLapid (a Tocha, em hebraico), além de ter sido responsável pela publicação de vários livros sobre a história judaica e Direito Português.

Mas sua prática aberta do judaísmo, e as milhares de pessoas que inspirou, não se compatibilizavam com o governo ou as autoridades da Igreja da época. Estes procuraram sufocar seu crescente movimento, trazendo-lhe encargos ligados à prática da religião judaica. O Conselho Superior de Disciplina do Exército Português concluiu que Barros Basto não tinha a “capacidade moral” para servir em suas fileiras.

E o que constituía como uma deficiência em moralidade? Incrivelmente, o militar “acusou” que Barros Basto tinha “realizado a operação de circuncisão de vários alunos de acordo com um preceito da religião israelita que professa” e, além do mais, “era excessivamente afetuoso com seus alunos”. Destituído de seu posto, a dispensa desonrosa quebrou Barros Basto psicologicamente, fisicamente e financeiramente. Ele também colocou um fim prematuro a seus esforços para despertar os Bnei Anussim de Portugal, muitos dos quais viram o tratamento dado a Barros Basto como um sinal de que as autoridades não tolerariam seus retornos ao judaísmo.

A situação de Barros Basto tem sido comparada ao de Alfred Dreyfus, o Oficial Maior francês que, por ser judeu, foi condenado por traição por falsas acusações em 1894 e também expulso do serviço militar. No entanto, ao contrário de Dreyfus, não houve um Émile Zola português, que denunciou publicamente a injustiça geral francesa. Mesmo após a queda da ditadura portuguesa em 1974, a família Barros Basto não foi capaz de obter um novo julgamento.

Ao longo dos anos, a Shavei Israel suscitou o apoio de um número de organizações judaicas americanas, incluindo a Conferência dos Presidentes, a União Ortodoxa e os sionistas religiosos da América. Em fevereiro de 2012, em parte como resultado de nossa longa campanha, uma comissão parlamentar aprovou por unanimidade o relatório, que reconheceu a base anti-semita da decisão de 1937 e pediu a reabilitação do capitão Basto. A aprovação final do relatório do Parlamento Português veio no final de Agosto deste mesmo ano.

Lopes, a neta de Barros Basto e hoje a vice-presidente da comunidade judaica no Porto, disse à imprensa que esta decisão “significa o fim de uma luta que tinha sido realizada por meu avô, minha avó, minha mãe e eu.” Ela acrescentou que a decisão significa que a luta de Barros Basto e seu sofrimento não foram “completamente sem sentido.”

A reintegração do capitão Barros Basto também nos dá esperança de que outros erros históricos e anti-semitas de discriminação podem algum dia ser consertadas com justiça. E, talvez mais do que tudo, ela demonstra que a advocacia e a atitude intrinsecamente judaica de “nunca desistir” pode – e deve – alcançar resultados tangíveis.

Com a conclusão do caso Basto Barros, uma mancha foi removida do nome de um homem nobre. Que sua alma finalmente possa descansar em paz!

O Gaon de Vilna e a identidade judaica

333Foi ha quase 215 anos atrás, em 19 de Tishrei, durante os dias de Sucot, que o rabino Eliahu, o Gaon (gênio, em hebraico) de Vilna devolveu sua alma ao Criador.

A maioria dos judeus contemporâneos já deve ter ouvido falar deste prodigo estudioso, seu vasto conhecimento e seu compromisso profundo em explorar todos os aspectos do conhecimento e da educação judaica.

Mas poucos estão familiarizados com a forma pela qual o mesmo contribuiu para o renascimento intelectual, espiritual e físico do Estado judaico moderno um século antes de Tehodor Herzl levantar a bandeira do sionismo político.

E à luz de alguns dos desafios enfrentados atualmente por Israel na arena internacional, vale a pena analisar a revolução do Gaon e algumas lições relevantes para hoje.

Na verdade, muito foi escrito sobre o desempenho escolar do Gaon de Vilna. Como o professor Jay M. Harris, de Harvard, disse uma vez, o Gaon de Vilna “estabeleceu uma forma revolucionária de estudo no mundo rabínico”.

O mesmo, reavivou o estudo do Talmud hierosolimitana e outros textos antigos, tentou criar harmonia entre as diferentes passagens que confundiam estudiosos em outras gerações e meticulosamente traçou as fontes dos pareceres do Shulchan Aruch (Código da Lei Judaica). Ele atravessou o vasto mar de tradições judaicas, corrigindo as inconsistências e fazendo as emendas necessárias, impulsionado por um desejo de verdade e exatidão.

Um homem profundamente humilde, o Gaon de Vilna, nunca tinha tido qualquer posição pública ou comunitária, completamente devotando-se aos textos de nosso povo. Mas a sua influência se estendeu muito além dos livros, em parte graças a uma ideia simples, mesmo que de muito peso mas que defendeu apaixonadamente: o povo judeu não deve ser passivo em trazer a sua própria redenção.

Embora essa crença foi contra o que a maioria dos judeus europeus pensavam naquele momento, de qualquer maneira, o Gaon incentivou seus alunos a fazer aliá, o que muitos fizeram em três grandes ondas que começaram em 1808.

Eventualmente, milhares de discípulos e suas famílias se mudaram para a terra de Israel. Como resultado, em meados do século XIX, a maioria da população de Jerusalém era judaica, pela primeira vez desde a invasão romana, e assim permanece desde então.

Tudo graças à visão de um único estudioso em uma sala de estudos na Lituânia.

A forte convicção do Gaon de Vilna sobre a necessidade de o povo judeu realizar coisas práticas sobre suas queixas sobre a sua antiga casa, foram excelentemente expressas no volume chamado de Kol Hathor, que foi escrito por seu aluno Rabino Hillel de Shklov.

O livro cita as palavras do profeta Isaías (54:2-3), que disse: ” Expanda (Archivi em hebraico) o lugar de sua tenda e estenda a sombra de seus quartos sem poupar-las … porque você vai espalhar-se para a direita e para a esquerda e seus descendentes herdarão as nações, e fara habitáveis as cidades assoladas.”

Kol Hathor diz em nome do Gaon de Vilna que estes versos são a chave para a redenção judaica, porque o que o profeta Isaías chamou de “Archivi” é um mandamento – uma chamada para ação em todo o mundo judeu se mudar para Israel e se estabelecer em todos os lugares da Terra.

Ele, assustadoramente, nota que a única alternativa para “Archivi” o crescimento judaico e a expansão, é “Achrivi” (hebraico para destruição). Em outras palavras, não há nenhuma possibilidade de recuo.

Finalmente, o Gaon diz, “sabemos de antemão que todos os tesouros preciosos incluídos na bênção de Archava (Expansão) só virão se o povo de Israel primeiro realizar as ações em um despertar da terra.”

Com estas palavras, o Gaon de Vilna estabeleceu um claro desafio para cada um dos judeus no mundo, delineando a nossa tarefa de não sentar-se passivamente e esperar a redenção no exílio, mas agir e trazê-la para nós.

Através desta nova abordagem, o Gaon tornou-se o precursor do sionismo moderno, um forte defensor do ativismo judaico e um restaurador da auto-confiança e da auto-estima dos judeus.

Viu e superou o impossível. Impulsionado por uma crença na justiça da causa e uma profunda fé no Criador, ele deixou para trás um legado de reivindicação judaica e restauração.

Depois de séculos de exílio e perseguição, o Gaon de Vilna nos ensinou uma lição muito importante, uma muito especial para estes dias: o povo judeu não é um prisioneiro do destino, mas sim um sócio de D’s na formação deste!

Uma lição que todos devem aprender.

Manduzio – O pai de tantos

Um camponês de uma vila no sul da Itália teve uma revelação, que levou à conversão em massa de seu grupo de seguidores e sua Aliya para Israel. As mulheres, que não se converteram, mantiveram a tradição por mais de cinco gerações.
San Nicandro, Itáliamaxresdefault

O sul da Itália é uma bela região. Belas paisagens, agricultura simples e gentis aldeões que criam uma atmosfera agradável e pastoral para qualquer um que vem para uma estadia. Esta semana, gostaria de descrever sobre uma das experiências mais interessantes e poderosas que tive durante minhas viagens entre as comunidades judaicas afastadas, ao redor do mundo.

Esta descrição é sobre o que aconteceu em torno da cidade de San Nicandro, que hoje possui cerca de 15 mil habitantes. A cidade está localizada na ponta da famosa “bota” italiana, não muito longe da cidade de Fuja.

A história dos conversos de San Nicandro é única. Constitui um símbolo e um exemplo não só em observar o judaísmo, mas também, principalmente, na sua transmissão de uma geração para a outra, sob condições de incerteza e até mesmo em famílias “mistas”.

Volto duas semanas para um Shabat que passei em San Nicandro. O acendimento das velas era um pouco antes das oito horas da noite. Desde as sete e meia, os membros da congregação já começavam a fluir em direção a pequena e pura sinagoga da comunidade. A sinagoga está localizada na rua principal da cidade. Em sua parede oriental está um grande quadro dos Dez Mandamentos.

Meus anfitriões me informaram que cerca de 30 pessoas vêm para o Shabat, nas orações da noite e cerca de 40 vêm para as orações da manhã. Apenas, se esqueceram de me dizer que destes, 37 eram mulheres e apenas três, homens…

Então, na verdade, havia um “quorum de Mulheres”, com uma cantora do sexo feminino, Constantina, uma viúva de cerca de 50 anos de idade. Ela sabia como envolver toda a congregação com melodias cativantes, com passagens de oração e músicas que foram adicionadas à oração clássica, pelo líder espiritual e fundador da comunidade, o Sr. Donato Manduzio, mais tarde conhecido como Levi Manduzio.

As orações do Shabat de manhã duraram cerca de quatro horas. As mulheres começaram a oração com a parte das ofertas de sacrifício, depois os ‘Versos de Louvor’, a leitura do Shemá e a Oração Silenciosa. Este foi o Shabat do novo mês, mas estes leram toda a oração de ‘Hallel’ (louvor), sem pular nada e cantando cada trecho. Algumas orações foram lidas em hebraico e outras em italiano.

Quando chegou o momento de retirar o rolo da Torá, entoaram todos o cântico de ‘Vayehi Binsoa’ – “Quando a Arca viajou…” e sete mulheres, leram cada uma, uma seção da porção semanal fazendo um breve sermão sobre a parte lida. No serviço vespertino as mulheres voltaram à sinagoga até encerrar o Shabat com a reza noturna e a ‘Havdalah’. Desta maneira, todas as mulheres da comunidade se reúnem três vezes na sinagoga, para as orações do Shabat.

A comunidade de San Nicandro de 5767 é uma continuação da de 5706 (1946), que depois de muitas lutas, converteram-se e tornaram-se parte do povo judeu. O que causou com que 74 homens e mulheres que não conheciam o judaísmo ou mesmo como os judeus eram, decidiram se converter de maneira haláchica e fazer Aliyah para Israel?
Um discípulo de Abraão

Toda mudança requer uma faísca. No nosso caso, esta apareceu na pessoa de Donato Manduzio (1885-1948). Donato era um camponês e um inválido da Primeira Guerra Mundia. Até seus 33 anos, não sabe ler e nem escrever. Quando completou 45 anos, descobriu a Bíblia.

Manduzio primeiro deixou sua aldeia, quando foi recrutado para o exército em 1915. Quando ferido e hospitalizado em 1918, começou a aprender o alfabeto italiano. Assim que aprendeu a ler, a sede de ler e aprender apenas havia começado. O dia em que Manduzio começou a ler a Bíblia é chamado de “The Birthday” (O Aniversário) por seus seguidores, porque um novo nascimento espiritual começou naquele dia.

A vida esp220px-Donato_Manduzioiritual de Manduzio estava repleta de constantes aparições e visões. Estas visões aparecem no diário de Manduzio em um rascunho com mais de 400 páginas, que tive o privilégio de segurar na minha mão. Ele esta armazenado na casa do presidente da comunidade de San Nicandro (estes diários, principalmente as visões, foram curiosamente pesquisados por Noa Hartum, de Kvutzat Yavneh, para um artigo).

Os diários descrevem a biografia espiritual de Manduzio, aonde sua primeira visão foi a que o levou a descobrir o judaísmo e divulgá-lo aos seus seguidores, na cidade de San Nicandro .

Os diários abrem com as palavras únicas e emocionantes do autor: “Nestas páginas, uma história curta e simples será relatada. Você lerá nelas como a luz se mostra ao longo da escuridão, a luz que dissipou as trevas da noite e distanciou as sombras da morte. Você, meu caro leitor, não rirá de minha escrita perversa e falha, porque em todos os dias da minha existência eu nunca passei sequer um dia numa sala de aula. Meu mestre e professor era o D´us de Abraão, que resgatou nosso antepassado, Abraão, da idolatria, e mostrou-lhe o caminho para a terra de Canaã”.

Em seu sonho , Manduzio vê a si mesmo em um campo arado no escuro. Enquanto ainda estava de pé ali, confuso e assustado, um homem aproximou-se dele segurando uma lamparina apagada e disse “Venha Manduzio e acenda a lamparina”. “Como posso acendê-la? Eu não tenho nenhum fósforo”, respondeu Manduzio. O homem estende a mão e retira um fósforo aceso de entre os dedos da mão de Manduzio. O homem ergue a lamparina, Manduzio a acende, e então se viu luz … Deste sonho, Manduzio percebeu que estava destinado a “difundir a palavra do Senhor ao público”.

E assim Manduzio que, sem dúvida, era uma personalidade carismática, começou a ensinar a Bíblia para seus amigos e vizinhos, juntamente com os mandamentos da religião judaica e se tornou o ímã das pessoas da cidade que desejavam sentido nas suas vidas. Muitas pessoas viram em Manduzio um homem sábio e conselheiro em muitos assuntos e se voltavam a ele para receber conselho e bênção.

Manduzio via-se como o mensageiro de D’us e começou a difundir a luz da Bíblia e do judaísmo. No entanto, ele não sabia que havia qualquer outros judeus no mundo. Uma certa vez, um policial que visitava a cidade em 1936, revelou-lhe que haviam judeus vivendo em Roma. Manduzio, animado, escreveu uma carta para o rabino-chefe de Roma, numa linguagem rebuscada , dizendo: “Encontrei meus irmãos perdidos!”.

Hoje, a comunidade de San Nicandro vive a sua sombra. Conheci uma senhora idosa de 80 anos que me contou como em sua juventude Manduzio a repreendia se não tivesse o cuidado de se vestir modestamente e com mangas compridas. Quando a perguntei se se lembrava dealgum ensinamento de Manduzio, ela começou a citar “o versículo diário”, o Salmo do dia para cada dia da semana, que Manduzio escreveu para ela. Ela segue murmurando-os até hoje.

Manduzio faleceu pouco tempo antes de seu rebanho fazer Aliya para a Terra de Israel. Ele foi enterrado no cemitério [local], distante das sepulturas cristãs. Há uma estrela de David em seu túmulo. Gravado em sua lápide está: “Donato Manduzio, nascido em 1885, viveu como um idólatra até 1930 mas, neste ano, recebeu uma revelação divina, foi chamado de Levi pelo Senhor, ou seja , um padre, e começou a espalhar sobre esta pedra escura, a unidade de D’us e o descanso do Shabat”.
Conversão Autodidática

Uma das primeiras pessoas a descobrir este grupo, e entrar em contato com eles foi Pinhas Lapid, um sargento da Brigada Judaica, na Itália. Mais tarde, ele escreveu um livro sobre a comunidade e sobre Manduzio (Reuven Mas Publishers, 1952).

Durante 1943, a Brigada Judaica da Palestina, que lutou a serviço do exército britânico para libertar a Itália da ocupação alemã, chegou ao sul da Itália. Toda vez que a brigada passava pela cidade, os membros da comunidade agitavam bandeiras israelenses em sua honra. Até que um dia, os soldados pararam perto deles e tentaram entender quem e o que eles eram. Foi assim que Pinhas Lapid começou a conhecer o grupo.

Mesmo que existam muitos casos na história judaica de conversões em grupo, dois fatores fizeram de San Nicandro algo tão especial e, na realidade, único.

Em primeiro lugar, esta foi uma conversão de um grupo de pessoas que não foram preparadas de antemão para a conversão. Ao contrário, estes se autoensinaram. A Conversão Autodidática foi uma inovação no campo das conversões de judeus. A conversão não é apenas um processo pessoal e íntimo, esta exige um tribunal religioso que aceite que o convertido abrace do povo judeu.

A pessoa que se converte sozinha, sem a presença de um tribunal rabínico, não é um convertido. E por isso havia, em San Nicandro, um tribunal rabínico que cuidava de todas as diversas fases necessárias de conversão (a aceitação dos mandamentos, a circuncisão, a imersão e etc).

Manduzio estava ciente de que o caminho que tinha traçado para o judaísmo tinha sido feito por conta própria, até mesmo comparando sua trajetória com a que nosso pai Abraão tomou. Em uma de suas cartas ao rabino-chefe de Roma, ele escreve, “Eu respondi que não tinha ouvido nada de ninguém, mas aceitei a revelação celestial, como fez nosso pai Abraão…”

Portanto, uma vez que não têm um professor da própria comunidade judaica, adotaram costumes um tanto quanto estranhos. Manduzio e “seu rebanho” no começo, apenas observavam os mandamentos baseados no texto bíblico literal. Eles leeiam a Torá e a partir disso definiam o que era permitido e o que era proibido, sem qualquer explicação da Lei Oral, que, não estava disponível para eles.

Eles cumpriam os versos, “Você não ateara fogo em nenhuma das vossas moradas no dia do sábado” ou “…não sairá ninguém do seu lugar no sétimo dia”, em seu significado literal. Eram inclusive cuidadosos em sacrificar o cordeiro Pascal no décimo quarto dia de ‘Nissan’, no período da tarde.

Outra maravilha é o tempo e o lugar em que ocorreu todo este episódio. Durante a Segunda Guerra Mundial e durante o reinado de Mussolini, não foi fácil ser judeu, não na Europa e não na Itália. Neste período em que os judeus tentavam sobreviver e salvar suas famílias, ocultando suas identidades, um grupo de pessoas surgia em San Nicandro que não só buscava unir o povo judeu, mas também declarava publicamente que eram judeus!

Mesmo na escola cristã, onde as crianças da comunidade estudavam, os filhos insistiam em ser chamados pelos seus nomes hebraicos.
Uma noite de Seder

Após Manduzio enviar algumas cartas para o rabino-chefe de Roma, o Rabino Angelo Saccardetti escreveu, “Devido às leis que foram aprovadas pelo governo de Sua Majestade (isto é , o governo de Mussolini) e a relação hostil da autoridade para com os judeus, vejo como meu dever aconselhá-los a adiar a conversão para um momento mais apropriado…”

O rabino-chefe finalmente escreveu para o grupo. Apesar de haver recebido várias cartas, ele se absteve de responder até receber a quarta carta. Ele tinha certeza de que alguém estava fazendo uma brincadeira com ele, pois nunca havia ouvido falar de tantos cristãos querendo se converter, especialmente vindo de uma cidade abandonada do sul da Itália. O rabino alertou tanto Manduzio quanto aos membros do grupo de que a conversão não era uma coisa fácil, que os judeus são um povo perseguido e discriminado em muitos países.

No entanto, as palavras de Manduzio e a seriedade do grupo manteve-se forte. O Rabino de Roma ouviu seu pedido e começou o processo de conversão do grupo. No entanto, a conversão não ocorreu de imediato, e sim somente após a Segunda Guerra Mundial ter chegado ao fim e a paz restaurada em todas as questões relativas aos judeus. E, em agosto de 1946, 74 pessoas foram convertidas por um tribunal rabínico enviado pelo rabino-chefe de Roma.

Em 1949, o grupo fez Aliya para Israel e estabeleceu-se no Moshav Alma. De lá, se dispersaram para vários outros lugares na Galiléia, Safed e arredores. Manduzio não chegou a ir para Israel, pois faleceu duas semanas antes da data da Aliya. No entanto, também não está claro se ele havia se convertido, uma vez que estava doente e não podia ser circuncidado.

Até hoje, uma tocha judaica arde em San Nicandro, bastante original e sem precedência ou instância semelhante em qualquer outro lugar do mundo. Os membros da comunidade que vivem em San Nicandro hoje se baseiam nas mulheres que não se converteram em 1946 e não imigraram para Israel em 1949. A comunidade de hoje ainda possui relações familiares e estão relacionados entre si, seja paternalmente ou maternalmente. As mulheres, ainda hoje, se encontram na noite do Seder, mantendo o Seder de Pessach juntos, como uma família.

Mesmo que não tenha sobrado nenhuma família judia em San Nicandro (nem mesmo uma) de acordo com a Halachá, as mulheres e as famílias dos convertidos continuam a viver como judeus em todos os sentidos. As mulheres guardam o Shabat e as festas, comem carne kosher trazida de Roma (depois de muito esforço), separam o leite da carne, preparam a Chala e as velas para o Shabat, rezam na sinagoga todos os sábados e festas, jejuam no Dia da Expiação (Yom Kippur) e são casadas com homens não-judeus…

Cinco gerações já mantem fiel este fenômeno da crença em um só Deus, observando os mandamentos e repassando a tradição judaica de geração em geração. O Comitê Italiano de Congregações [judias] continua a acompanhar o grupo, enviando-lhes um rabino a cada poucas semana, que permanece lá para o Shabat e continua a ensinar-lhes a Torá, tanto para as mulheres quanto para os poucos homens que desejam continuar mantendo a sua trajetória judaica.
O poder das mulheres

Qual é o segredo da existência e da observância deste grupo de convertidos que permaneceram em San Nicandro? Como se explica que os indivíduos continuam, particularmente, mantendo seu judaísmo? Como que a comunidade continua a observar uma vida religiosa, a guardar os mandamentos, as orações, as festas e manter uma sinagoga ativa sem nenhuma liderança espiritual? Na minha opinião, só há uma resposta: O poder das mulheres! Uma pessoa precisa ter que viajar todo o caminho até o sul da Itália para entender o poder dos mulheres.

Pelo que se sabe hoje em dia, mesmo no início, a maioria dos seguidores de Manduzio eram mulheres. Elas eram as únicas que começaram a estudar, rezar e observar os mandamentos e, foram verdadeiras discípulas em seu caminho judaico. Hoje, as filhas da comunidade se sentem judias. Apenas há alguns anos atrás, um rabino veio e revelou-lhes que eles não eram judeus, uma vez que nunca haviam se convertido.

Nas longas discussões que tive com as mulheres da comunidade e os poucos homens, que pertencem a elas, as mulheres repetidamente relatavam e salientavam sua fé judaica e o fato de serem parte do povo judeu, em todos os sentidos. “Você pode dizer o que quiser… Somos judias! Crescemos e fomos criadas como judias. Nascemos para o judaísmo desde o ventre de nossas mães… Recebemos o judaísmo como um tesouro de nossas mães e avós… Estaremos felizes em se converter, mas somos judias!”

Seu fervor e sua crença me convenceram de que este é um fenômeno verdadeiro e profundo.

Hoje, as mulheres membros da comunidade são casadas com homens não-judeus, como eles se chamam, “italianos” e não “hebreus”. “Mesmo que os homens não sejam da fé mosaica, eles respeitam a crença das mulheres e estão dispostos a dar-lhes a escolha de viver a sua vida judaica, observar o Shabat: não cozinhar para a família e os maridos, passar meio dia na sinagoga e etc. Assim como manter os feriados judaicos, não batizar seus filhos e, é claro, não se casar na igreja.

Às vezes, as mulheres judias de San Nicandro escondem seus costumes judaicos de seus maridos para “manter a paz na família” e não contam a seus maridos que estão indo à sinagoga para rezar ou que estão indo observar outros mandamentos; um tipo de cripto-judaísmo dentro da família…

Um dos mandamentos que as mulheres decidiram não observar para “manter a paz na família” foi a circuncisão de seus filhos, pois entendem a necessidade de respeitar o lado não-judeu da família e manter suas vidas “neutras” no seio da casa.

Geralmente, as filhas na família continuam a se identificar com a “Yiddeshe Mamma”, ao passo que os filhos optam por se identificar com o pai não-judeu e não aceitar a continuidade da tradição judaica dentro da sua família. Na verdade, temos aqui um fenômeno de uma “fé judaica feminina”, uma tradição que é passada de geração em geração, de mãe para filha, de avó para neta, um tipo de culto feminino que guarda um tesouro de uma geração para a próxima.

O lugar da mulher e sua força nesta região da Itália não é um fato tão óbvio. A sociedade italiana na época, especialmente a rural, possuia uma mentalidade patriarcal e não matriarcal. No entanto, apesar de tudo, essas mulheres encontraram a maneira de definir a sua influência no seio da família, uma espécie de – ‘A sabedoria das mulheres edifica a sua casa’ !

JACOB LOPEZ, Palma de Mallorca,1672

A expulsão dos judeus de Oran

6a00d8349889d469e2014e8842c36e970d-800wiNo ano de 1672, encontramos um importante relato na história dos cripto-judeus de Mallorca, Espanha.

Um Navio chegou no porto de Palma de Mallorca com muitos judeus que fugiam do Norte da África. Fernando Fajardo, o Marquês de Vélez e protegido da rainha Mariana (mãe de Carlos ‘O Enfeitiçado’) tinha decretado a expulsão de 500 judeus que viviam na cidade de Oran, no norte da Argélia moderna, que estavam sob domínio espanhol desde que a cidade foi conquistada pelo Cardeal Cisneros em 1509. Mas, concordando com suas mudanças para a cidade portuária de Livorno, a nordeste da península italiana, que havia sido declarada porto livre em 1590.

Parece que um grande número de judeus já haviam estado em Mallorca, quase trezentos anos antes, após o assalto em Call em agosto de 1391, que causou a conversão forçada de centenas de judeus. Alguns conseguiram escapar, seja durante os motins sangrentos, seja nas semanas e meses que se seguiram e, apesar dos decretos que limitavam sua saída da ilha. Supõe-se que a maior parte chegou a Oran e de lá foram distribuídos entre outras cidades, como Ténès e Mostaghanem, todos na costa oeste da moderna Argélia.
Três anos de prisão

Devido à expulsão, o navio chegou carregado com uma dezena de judeus ao porto de Mallorca. Entre eles estava um jovem de cerca de 16 anos, chamado Jacob Lopez, que esperava encontrar sua noiva na cidade toscana. No momento em que o navio chegou ao Porto Pi, porto onde estavam ancorados os navios estrangeiros, os guardiões da Inquisição encarregados de monitorar a pureza da Espanha subiram no navio. Os judeus foram cuidadosamente examinados e os jovens despertaram as suspeitas dos guardas, sendo presos e permitindo que o navio continuasse seu caminho a Livorno, sem eles.

O menino permaneceu cerca de três anos na prisão, enquanto a Inquisição investigava seus detalhes. Após o envio de mensagens para 14 tribunais inquisitoriais na Península Ibérica, receberam informações de Madrid, sobre uma família Lopez, descendentes de judeus que fugiram em direção a Málaga e de lá para o Norte de África. Supostamente ali haviam abandonado o Cristianismo e teriam abraçado a fé de seus antepassados judeus.

Cruzando informações concluiu-se que Jacob era realmente Alonso Lopez, filho da família, que arriscou sua vida ao voltar para o território espanhol. Na verdade já tinham tentado sair de Oran vários anos antes, com a publicação do decreto de Fajardo, mas ao chegar ao porto de Nice, de onde continuariam a viagem até Livorno foram capturados por piratas e trazidos de volta à terra que habitavam, onde passaram vários meses na prisão, até que foram resgatados, e agora novamente se arriscavam no caminho à Livorno.
Relaxado ao braço secular

O jovem “marrano” não negou as acusações e afirmou que permaneceu fiel a sua fé ancestral. O Inquisitor Pedro de Aliaga apresentou documentos para Inquisitor Maior Rodriguez de Cossio, que assinou sua sentença de morte. Mas a Inquisição, como uma instituição religiosa que era, não queria matar ninguém, de modo que o réu foi considerado “relaxado ao braço secular”, permitindo a sentença.

No dia 12 de janeiro de 1675, multidões se reuniram perto da porta de Jesus, ao norte da cidade de Palma, onde estão hoje, provavelmente, os edifícios do Institut Joan Alcover na Avinguda Alemanha de Palma, ou talvez perto da faculdade Lluís Vives, onde estudei na minha juventude.

Jacob Lopez subiu à fogueira aonde mais uma vez rejeitou a oportunidade de se arrepender de sua apostasia ao cristianismo católico e permaneceu fiel ao judaísmo, para que então, ateassem fogo à estaca e o queimassem vivo.
Exemplo para os Cripto-Judeus

Seu exemplo repercutiu de imediato sobre as famílias dos descendentes de judeus, chamados xuetas, moradores da cidade, que haviam se convertido ao cristianismo três séculos antes. Logo eles se organizaram para exigir, em segredo, só para si, sua lealdade ao judaísmo. No entanto, dois anos depois, foram presos cerca de 270 “judaizantes” e então começaria a odisséia dos Xuetas Maiorquinos, mas isso é outra história!

O pai do sionismo sefaradita

O sionismo moderno é uma criação Ashkenazi, ou pelo menos o que a maioria das pessoas pensam. Afinal de contas, a Organização Sionista Mundial foi fundada na Europa em 1897 e dominada por judeus Ashkenazim, que também formaram as massas dos pioneiros que construíram a terra e, em seguida, declararam a criação do Estado.

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