Seminário em Palma conta com show gratuito de música Judaica e em Ladino

Dezenas de pessoas reuniram-se em Palma de Mallorca no fim de semana passado, para um seminário especial para os Bnei Anussim patrocinado pela Shavei Israel.

O Shabaton recebeu, como convidado especial, o rabino-chefe de Madrid, o Rabino Moshe Ben Dahan.

O tema geral do seminário, que incluiu aulas, orações e refeições, foi “A Relevância do judaísmo nos dias atuais.” O Rabino Eliyahu Birnbaum, diretor educacional da Shavei Israel, e o Presidente da Shavei Israel, Michael Freund, voaram especialmente de Israel, para o fim de semana.

Após o seminário, a Shavei organizou na noite de sábado um show livre de música judaica e Ladino. A apresentação foi realizada no Fórum Caixa em Palma e, Ioel Munjeh, um músico Bnei Anussim que agora vive na cidade israelense de Tsfat (Safed), foi a estrela da noite.

Confira abaixo um pouco do que foi o show de Ioel!

 

 

Vídeos de Ioel Munjeh:

Cantando “Od Avinu Hai”

http://www.youtube.com/watch?v=XoepsR62TNU

Cantando “Gesher Tsar Meod”

http://www.youtube.com/watch?v=x0gg7L7hJ30

A Bíblia dos Anussim

LADINAR E ALJAMIAR

Parece que durante séculos os judeus espanhóis trataram de “ladinar” os textos sagrados originais em hebraico para o castelhano. O verbo “ladinar” significa – traduzir em ladino, ou língua românica falada nos países ibéricos. Para isso se poderia utilizar de duas possibilidades: o aljamiado, ou seja, escrever a tradução espanhola em letras hebraicas ou árabes (do árabe “Achami” – estrangeiro) ou escrevendo diretamente no alfabeto latino.

Tudo isso sugere que, embora o interesse nos textos judaicos sagrados fosse grande, já há muito tempo o hebraico original não era acessível, pelo menos não no nível popular (a maioria dos judeus de Castela não falavam hebraico).

Estes mesmos judeus após terem sido expulsos pelos Reis Católicos, em 1492, continuaram falando o castelhano e sentiam a necessidade de estudar os textos sagrados neste mesmo idioma.

‘ESPANHÓIS E PORTUGUESES’

Aqueles que chegam em Portugal na esperança de encontrar um novo lar onde pudessem praticar sua fé ancestral, são forçados pelo rei D. Manuel a se converter ao cristianismo. Muitos conseguem fugir para a Holanda aonde, embora chamados de ‘Portugueses’, continuaram falando o castelhano, inclusive, por várias décadas.

a1Contudo, o neto dos Reis Católicos, Carlos, torna-se regente dos Países Baixos, antes mesmo de se tornar rei de Castela e imperador da Áustria, e os exilados ‘Portugueses’ começaram a sentir a perseguição religiosa. Muitos destes continuaram sua jornada rumo a Itália continental e de lá ao Império Otomano para a segurança que Suleiman, o Magnífico, lhes conferia.

FERRARA

Uma das cidades italianas que abriram suas portas para estes fugitivos foi Ferrara, a primeira cidade moderna da Europa, às margens do Rio Pó. Esta tinha uma reputação como protetora dos expulsos da Espanha, já que em 1498 o Duque Hércules I d’Este, havia publicado um privilégio para os judeus espanhóis. Também chegou a esta cidade a família Abravanel e muitos outros judeus que tinham sido expulsos do reino de Nápoles, quando Charles I, em 1541, procede com a expulsão definitiva dos judeus, assinada por seu avô Fernando, o Católico. A partir de 1534, quem governou Ferrara foi o Duque Ercole II (ou Hércules) d’Este, filho de Alfonso I e da maquiavélica valenciana Lucrécia Bórgia (ou Borgia, em italiano).

Mais de cem anos após a invenção da imprensa por Johannes Gutenberg, por volta de 1450, já haviam centenas de bimpressoras em toda a Europa. Em 1553, dois exilados que haviam chegado em Ferrara, o “espanhol” Jeronimo de Vargas e o ‘Português’ Duarte Pinhel, de acordo com seus nomes “cristãos”, ou Yomtov Atías e Abraão Usque, em seus nomes hebraicos, imprimiram um Tanach (a Bíblia judaica), tão necessário para os fugitivos, na nova impressora hebraica que Usque tinha acabado de adquirir.

A BÍBLIA DE FERRARAb

Este Tanach é conhecido como “A Bíblia de Ferrara”.

O subtítulo do livro diz:

“Bíblia em Língua Espanhola traduzida palavra por palavra do Hebraico verdadeiro por muitos excelentes estudiosos, Vista e examinada pelo Santo Ofício da Inquisição. Com o ilustríssimo privilégio do Senhor Duque de Ferrara”.

Pouco tempo depois, em 1569, o cristão Casiodoro de Reina a usou como um importante recurso para a tradução chamada de a “Bíblia do Urso” ou “Bíblia Reina-Valera”. E assim afirma Reina em seu prefácio, onde ele diz:

“Da velha tradução espanhola do Antigo Testamento, impressa em Ferrara, que nos ajudou com tais necessidades mais do que qualquer outra que vimos até agora, não somente porque ela se mostrou mais bem sucedida do que outras em casos semelhantes, mas por nos dar o significado original e natural das palavras em hebreu, e as diferenças dos tempos verbais, como estão no mesmo texto,uma obra digna de maior valor (à juízo de todos os que a entendem) dentre as quais existem hoje: e por este apoio tão singular, do qual as outras traduções não gozaram, esperamos que a nossa não seja, pelo menos, inferior à qualquer uma delas”.

c1A BÍBLIA ANUSSIM

A edição foi impressa com pouco mais de 400 páginas de 4°, com duas colunas cada página e tipo de letra gótica, que era a mais popular na época.

Em sua introdução, Abraham Usque e Yomtov Atías expõem que, a tradução é feita ‘verbo por verbo’, ou seja, palavra por palavra, ‘e sem trocar uma palavra por duas, o que é muito difícil (para o leitor). Também buscam preservar a ordem das palavras do texto hebraico “nem antecipar e nem postergar umas as outras… mesmo que, para alguns, a linguagem possa parecer estranha e bárbaro, muito diferente da polida que se usa em nosso tempo”. Eles afirmam também que nela usaram “a linguagem utilizada pelos antigos hebreus espanhóis: que, apesar de algo parecer estranho mesmo para o hebraico, tem suas bases na antiguidade”.

A edição saiu duplicada pois alguns livros foram assinados por Jeronimo de Vargas e Duarte Pinhel e dedicados ao Duque Ercole, e outros os nomes eram Abraham Usque e Yomtov Atías e dedicados a Doña Gracia Nací (Nasi), o que demonstra a dupla personalidade dos infelizes exilados. Por um lado, sua lealdade ao duque e a identidade falsa de novos cristãos, e po outro, o agradecimento a princesa judia pelo apoio e suas verdadeiras identidades de judeus observantes.

Usque continuou publicando até 1558, livros de oração e de judaísmo em castelhano para Cristãos Novos que passavam por Ferrara, Veneza e outras cidades italianas em suas jornadas ao Império Otomano, onde podiam retornar à sua fé ancestral abertamente. Para ele, estes necessitavam destes livros para instruí-los no judaísmo, uma vez que os que tinham haviam perdido ou tinha sido danificados.d

Esta mesma Bíblia de Ferrara oferecia em seu prefácio para ‘o leitor’ uma lista dos livros que compõem a Bíblia com a tradução hebraica, a especificação de cada capítulo desde o livro de Bereshit até Neemias (situado após Divre Hayamim), a lista do Salmos em ordem alfabética em castelhano, os eventos e festas no ano de acordo com o livro “Seder Olam”, e muitos outros detalhes da história do povo de Israel incluídos no Tanach e mesmo de após ‘la desolación de la Casa’ (A Destruição do Segundo Templo de Jerusalém). Ao falar sobre os mais recentes eventos, a data se referia como ‘la desolación de la Casa’, ou seguindo a “criação do mundo”, para não seguir o calendário cristão. Ele também incluiu a lista de ‘Haftarot’ (Hafṭarot – trechos de livros dos Profetas que se lê aos sábados na sinagoga após a leitura da porção semanal da Torá). Indica as conclusões ‘petuchá’ (ponto) e ‘setumá’ (ponto que segue) tradicionais judaicas, com um C maiúsculo, e no lugar do Tetragrama escreve um A maiúsculo pontilhado (letra inicial do tradicional nome usado pelos judeus para se referir ao Criador: A’donay). Usa também a expressão judaica ‘Dio’ (Deu) sem o ‘s’ no final, para assim não escrever o nome inteiro.

Chega até a indicar um calendário que mostra se as Parashiot (Trechos semanais da Torá) se leem em conjunto ou separadamente, desde o ano 5313 (1553) até 5380 (1620), sendo assim, um período de 67 anos, talvez mais do que suficiente, em sua opinião, para voltar a aprender hebraico e voltar a vida judaica plenamente.

Encontramos, portanto, nesta Bíblia, não apenas um enorme tesouro de traduções precisas das palavras hebraicas para o castelhano, algumas tão frequentes nesta mas tão raras hoje em dia, como ‘Barragán’, que significa “forte”, ou o verbo ‘muchiguarse’ que significa ‘multiplicar-se’ e muitas outras expressões de museu, mas também, encontramos aqui uma fonte abundante de água para saciar a sede dos que procuram ver a perspectiva judaica das passagens bíblicas. Uma vez que, muitas vezes, como indicado no póprio prólogo, acrescenta-se uma ou duas palavras entre parênteses para dar a interpretação correta sobre a passagem, sempre partindo do ponto de vista rabínico e, geralmente, de acordo com a tradução do aramaico feita pelo sábio Onkelos.

Deveríamos nos dedicar, acredito eu, em publicar este preciosa Bíblia, agora com letras mais confortáveis para a leitura do que as letras góticas que permitem confundir o ‘s’ com o ‘f” e vice- versa e, onde o ‘u’ e ‘v ‘ estão escritas da mesma forma, para assim, disponibilizar ao público os tesouros escondidos nesta jóia dos Sefaradim Anussim.

Você pode conferir a versão facsimile no seguinte link: http://www.larramendi.es/i18n/catalogo_imagenes/grupo.cmd?path=1001869&posicion=1

O que é o Ladino?

PERGUNTA DA SEMANA: O que é o Ladino?images

RESPOSTA:
O Ladino, também conhecido como “judeo-espagnol” é um idioma que teve suas origens por volta de 1492, quando os judeus foram expulsos da Espanha. O espanhol falado pelos judeus no final do século 15, foi então influenciado pelas várias línguas mediterrâneas faladas nos diferentes lugares aonde os judeus foram viver e um novo idioma judaico foi criado.

Embora o Ladino tenha suas próprias características, ele e o espanhol não são tão diferentes. Há semelhanças fortes e evidentes, assim como existem, por exemplo, entre o Espanhol e o Português. Além do Espanhol o Ladino tem influência do árabe, do turco, do grego e inclusive do português. Continue lendo “O que é o Ladino?”

Antes que se esqueça o idioma – Parte 1

Istambul, Turquía

Até o século passado, Turquia era o lar de uma grande comunidade judaica e o centro vivo da cultura ladina, que tem sua origem na Espanha. 500 anos após o grande apogeu, em Istambul sentem tanto a decadência como o temor.

Existem aqueles que descrevem a história judaica como uma escada que se encontra apoiada na terra e sua parte superior chega até o céu. A escada é a analogia do povo judeu, o qual se encontra sempre em uma escada, as vezes sobe um degrau e as vezes desce dois. A existência judaica não é plana e horizontal, mas sim vertical. Outros descrevem a existência judaica como um péndulo de um relógio que não para nem por um minuto, as vezes está em cima e as vezes está em baixo. Parece que tais descrições caracterizam o judaismo turco até os dias de hoje.

No passado, os judeu foram bem recebidos no Império Turco Otomano; porém agora, os judeus vivem no país turco, um país muçulmano-laico, com determinado temor por sua sugurança. Em minha última visita a Turquia vi a grande preocupação com segurança que existe fora das sinagogas, nos edifícios comunitários e nos escritórios do Rabinato. O tema ficou ainda mais delicado após os vários atentados que ocorreram nas sinagogas, entre eles, as duas vezes ocorridas no Beit Kenesset “Neve Shalom”. A situação de segurança me levou ao passado, a época dos anussim de Espanha – de lá chegaram os judeus à Turquia, lugar onde poderiam viver como judeus com liberdade e sem temor.

Os momentos mais importantes da história judeu-turca são, em particular, a chegada dos expulsos de Espanha no século XV, a conversão ao islamismo do falso messias Shabetai Tzvi no século XVII e os atentados as sinagogas no seculo XX.

Nem a chegada dos judeus de Espanha, nem a grande decepção que causou Shabetai Tzvi aos judeus de Turquia e ao mundo judaico, preocupam aos judeus locais, mas já o terceito problema, a segurança pessoal e física, esse sim. Apesar da comunidade viver com seus vizinhos muçulmanos em relativa paz a cerca de 500 anos, hoje em dia não é fácil viver como uma minoria judaica num grande país muçulmano. A comunidade judaica é certamente uma minoria na Turquia de hoje; a população geral, dos quais 99% são muçulmanos, conta com quase 70 milhões de pessoas; a comunidade judaica de todo o país tem menos de 30 mil pessoas.

 

De onde provêm os judeus da Turquiaeuropa-haketia

Após a expulsão dos judeus de Espanha e Portugal, o Sultão Biazir II publicou um convite formal aos judeus para que viessem viver em seu território, e eles começaram a chegar ao Império em grande número. O Sultão sonhou em transformar o Império Otomano em uma potência internacional e intercultural, e como parte desta tendência se dirigiu aos centenas de milhares de judeus expulsos e lhes sugeriu viver em seu Império e desfrutar de completa liberdade de culto.

O Império Otomano incluía naqueles tempos não somente a Turquia, mas também a Grécia e parte dos Balcãs, como grande parte do Oriente Médio. A oferta do Sultão Biazir, deu nova esperança aos judeus sefaraditas perseguidos. Em 1492 o Sultão ordenou aos dirigentes das províncias do Império Otomano “não negar a entrada aos judeus ou criar dificuldades, mas sim recebê-los com alegría”. Os judeus vieram e na Turquia se estabeleceram principalmente em Istambul, Esmirna e Edirne.

“Vocês chamam a Fernando o rei sábio”, disse o Sultão, “porém, ao expulsar os judeus, condenou sua terra a pobreza e a nossa a riqueza!” Os judeus de fato de desempenharam em distintas tarefas no Império Otomano: os muçulmanos turcos não estavam interesados em empreendimentos comerciais e deixaram o comércio para as minorias religiosas. Tão pouco confiavam nos súbitos cristãos dos países que haviam conquistado fazia tão pouco tempo atrás, e por isso, naturalmente preferiam aos judeus.

Os expulsos de Espanha e Portugal encontraram em Istambul uma grande comunidade de judeus Romagnotes (judeus que viviam no Império Bizantino e que cuidaram seus costumes após a conquista do Império Otomano; de acordo a vários investigadores, estes judeus partiram da terra de Israel após a destruição do Segundo Templo, para a Ásia Menor e os Balcãs), italianos e asquenazitas. A chegada dos sefaraditas mudou a composição da comunidade. Tiveram cuidado em manter uma política da boa vizinhança entre os distintos grupos, porém as diferenças culturais eram tão grandes que não puderam arbitrar entre elas, tendo ocorrido apenas depois de muitos anos. Finalmente, os judeus Romagnotes foram os que se “assimilaram” dentre os judeus que chegaram de Espanha e adquiriram seus costumes.

Ao longo dos anos, os expulsos de Espanha passaram a ser o grupo dominante e determinante na vida cultural, comercial e medicinal do país. Durante 300 anos depois da expulsão, o êxito e a criatividade dos judeus Otomanos na Turquia e no resto dos países do Império estavam a um nível muito parecido ao da Idade de Ouro na Espanha. Quatro cidades otomanas – Istambul, Esmirna, Safed e Salonica – converteram-se nos centros do judaísmo sefaradita.

Uma das maiores inovações que os judeus trouxeram para o Império Otomano foi a imprensa. Em 1493, apenas um ano depois do exílio de Espanha, David e Shemuel Ibn Najmias estabeleceram a primeira máquina impresora hebraica em Istambul.

 

A cultura do Ladino

Os expulsos de Espanha, cuja língua era o judeu-espanhol, não só levaram consigo sua rica cultura judaica ao Império Otomano, que chegou ao seu apogeu na época de ouro, senão também, o idioma que os acompanhou durante séculos. Os judeus que chegaram a Turquia seguiram preservando sua língua original, parecia ser como uma tentativa de fixar a sua origem judaico-espanhola em pleno Império Otomano. As centenas de anos de estadia na Turquia não foram suficientes ara que os poetas, os escritores, os exegetas e os rabinos adotassem a língua turca; as obras foram escritas e transmitidas de forma completa em ladino.

El origen del ladino se encuentra en el español antiguo y se encuentran integradas palabras y dialectos del hebreo y el arameo. Hay quienes distinguen entre el idioma original en el que hablaban los judíos de España, el judeo-español o el “j’udaismo”, y el Ladino el cual se desarrolló en especial luego de la expulsión de España y se transformó en el idioma oficial de los judíos expulsados de los Balcanes, del imperio Otomano, del Norte de África y de todos lados a donde fueron llevados los expulsados de España.

O ladino foi escrito com letra Rashi ou com letras hebraicas quadradas. As vezes se escrevia o ladino em letras latinas e as vezes em letras redondas o qual era muito aceito em distintas comunidades espanholas.

Lamentavelmente o ladino começa a desaparecer. Os jovens já não o falam, nem tão pouco é uma língua falada. É certo que se está tentando “renovar” o idioma, porém de fato o principal uso da mesma ocorre em obras, no teatro, nas universidades, na liturgia, no folclore e na música.

Os judeus da Turquia conseguiram preservar o idioma durante 500 anos, porém no século XX ocorreu uma grande e dramática mudança. A identidade dos judeus turcos como exilados de Espanha já não é mais preservada com tanto rigor.

Os jovens da comunidade anseiam unir seu futuro com o futuro do país e tornarem-se turcos em todos os sentidos. Está claro que evitam falar o ladino publicamente. É lógico que os motivos de segurança influenciam. Em minha visita a Istambul adorava falar ladino com os anciãos da comunidade e os adultos; eles ainda desfrutam do ladino e se orgulham de poder falar o idioma que os une a seu passado.

Continuará…