O DIREITO DE RETORNO (PARTE 2)

Na semana passada, publicámos a primeira parte da entrevista dada pelo presidente e fundador da Shavei Israel, Michael Freund, à revista פנימה עלמה, sobre os descendentes dos convertidos à força pela Inquisição. Veja a segunda parte deste artigo:

Aconteceu há 500 anos. As pessoas estão a começar a procurar as suas raízes agora?

– Nos últimos 20 anos, assistimos a um crescente fenómeno de descendentes de anussim que procuram retornar às nossas raízes. Podemos ver isso desde Portugal e Espanha até ao Brasil ou ao Peru. Atravessa setores e estratos socioeconómicos.

Como explica o fenómeno?

– É difícil explicá-lo racionalmente. Abarbanel, que viveu na época da expulsão e foi ministro das Finanças do rei de Espanha, descreve a expulsão de Espanha no seu comentário ao livro de Deuteronómio e também de Isaías, e escreve que, no final dos dias, os anussim retornarão ao povo de Israel. Abarbanel escreve que, inicialmente, apenas retornarão nos seus corações, porque terão medo de se revelar como judeus, mas chegará o momento em que dirão abertamente «Queremos voltar». Penso que estamos a viver esse momento. As pessoas estão constantemente a aproximar-se de nós, contando-nos sobre o  seu passado familiar e as suas tradições judaicas.

Existem costumes que caracterizam os descendentes de anussim?

– Muitos se recordam das suas avós irem na sexta-feira até à cave, acenderem duas velas e dizerem algumas palavras que provavelmente nem entendiam. Conheci um professor universitário do norte de Portugal que  me disse que, quando era criança, os seus pais o proibiam de sair de casa à noite e contar estrelas porque era perigoso, e que isso era uma prática antiga da família. Os anussim saíam e contavam estrelas no céu para saber se o Shabat tinha acabado. Em algum momento, alguns deles foram capturados pela Inquisição. É por isso que a sua família adotou esse costume.

Há alguns anos conheci um diplomata da embaixada brasileira em Israel. Contou-me que vinha de uma família de anussim do norte do Brasil, onde muitas famílias tinham uma mesa de jantar com uma gaveta escondida no lugar do chefe de família. Nessa gaveta havia sempre um prato de carne de porco, de modo que, se um dos vizinhos viesse visitá-los de repente, tiravam imediatamente o prato com a carne de porco e colocavam-no no centro da mesa, para que ninguém desconfiasse que eles eram ainda judeus ou que tinham costumes judaicos.

Depois dele me contar isso, visitei o norte do Brasil, e pedi a quem me acompanhava que me levasse a uma loja de antiguidades, onde vi com os meus próprios olhos aquelas mesas com a gaveta oculta –, conta Freund com entusiasmo. – Até hoje existem famílias que não comem carne e leite juntos. Em alguns lugares, Purim, ou, como eles o chamavam, «Festival de Santa Esterica», tornou-se um dia festivo central para os anussim. Sentiam-se solidários com a figura de Ester, que também foi mantida à força no palácio do rei Achashverosh. Durante o festival as mulheres jejuavam, acendiam velas em homenagem à santa fictícia e preparavam com as suas filhas pratos kosher para o banquete de Purim.

O fechar de um ciclo Histórico

Nos séculos XVI e XVII, os anussim começaram a fugir também para Amsterdão. Nesse período, houve uma atitude muito positiva em relação aos anussim que queriam regressar ao judaísmo, e a comunidade de Amsterdão até imprimiu livros de oração para eles, traduzidos para o português. Há 200 anos, era muito mais fácil provar o judaísmo dos anussim. Hoje, 500 anos depois da expulsão e das conversões forçadas, a prova é cada vez mais difícil, e a maioria dos descendentes que desejam retornar ao judaísmo tem que ser convertida por um tribunal rabínico. – É uma situação empolgante –, partilha Freund, acrescentando que, em muitas dessas conversões, – quase se pode sentir a presença dos seus antepassados, a assistirem do céu e a ficarem felizes com o facto de, passados 500 anos, o ciclo histórico estar a ser fechado e os seus descendentes retornarem ao povo de Israel.

Hoje, muitos países têm comunidades inteiras de Bnei Anussim. Só na Colômbia, por exemplo, existem doze dessas comunidades. Cada comunidade inclui uma sinagoga, mikve, e, às vezes, até organizações específicas para a educação das crianças. Muitos dos descendentes de anussim tentam integrar-se nas comunidades judaicas existentes, que muitas vezes hesitam em aceitá-los. Mas em vez de baixarem os braços e desistirem, eles decidem criar comunidades independentes e converterem-se. Alguns querem imigrar para Israel e alguns preferem permanecer onde estão, a viver uma vida religiosa judaica.

– Muitas vezes as pessoas perguntam-se sobre qual é o seu motivo –, lembra Freund. – Que talvez eles estejam apenas à procura de fugir do seu país e queiram ir para o Estado de Israel? Mas essas pessoas estão a esquecer que não é fácil passar por uma conversão ortodoxa, com todos os requisitos que esta exige. Quando vemos os esforços que algumas destas pessoas fazem ao longo da vida para levar um estilo de vida judaico religioso, sem recursos e sem o apoio de uma comunidade judaica, apercebemo-nos de que são sinceros.

– Em El Salvador, onde há salários de cerca de um dólar por dia, há pessoas que economizaram de forma independente para comprar tefilin kosher, que custam várias centenas de shekels. Conseguir obter tefilin em tais condições é dedicação. Prevemos uma revolução espiritual que está a chegar, e está a crescer em intensidade. Cada vez mais pessoas estão a encontrar a verdade no judaísmo, o que é algo que não deveria assustar-nos, mas sim, pelo contrário, inspirar-nos.

TISHA BEAV PELO MUNDO

As comunidades da Shavei Israel de diferentes partes do mundo partilharam fotografias connosco nos serviços religiosos, em luto pela destruição dos Templos e em memória de outras tragédias na história judaica que aconteceram em Tisha B’Av, o dia anual de jejum. Como de costume neste dia, as pessoas sentaram-se no chão, na sinagoga, para ouvir a leitura da Megilat Eichá – o livro de Lamentações.

Ver artigo>

Uma nação, diversas faces

Michael Freund é o fundador e presidente da Shavei Israel – www.shavei.org – um grupo com sede em Jerusalém que ajuda e dá a mão a «judeus perdidos» que procuram retornar ao povo judeu. A Shavei Israel está ativa em nove países ao redor do mundo com uma variedade de comunidades incluindo os Bnei Menashe do nordeste da Índia, os Bnei Anussim (ou «Marranos») de Espanha, Portugal e América do Sul; os judeus subbotnik da Rússia; os «judeus escondidos» desde a era do Holocausto, da Polónia, os descendentes de judeus de Kaifeng, na China e outros. Além disso, Freund é correspondente e colunista do Jerusalem Post, e foi anteriormente vice-diretor de comunicações no Gabinete do Primeiro Ministro de Israel Binyamin Netanyahu, durante o seu primeiro mandato. Este artigo aparece na 7ª edição de Conversations, a revista do Institute for Jewish Ideas and Ideals.

Há mais de 20 anos, como estudante de licenciatura na Universidade de Princeton, encontrei-me a dividir quarto com um jovem luterano de Iowa, brilhante e religioso. Éramos, com certeza, uma dupla um tanto incomum, e ele nunca conseguiu entender o porquê de eu correr para os serviços de oração todos os dias, ou verificar os ingredientes de vários pacotes de comida. Mas ele era do tipo cosmopolita e estudioso, a sua mesa estava constantemente repleta de livros, e sua inteligência impressionante e curiosidade sobre o mundo originavam muitas vezes conversas intrigantes.

Por isso, quando lhe perguntei quantos judeus achava que moravam na América, fiquei bastante surpreendido quando ele respondeu, com toda a seriedade: – Deve haver pelo menos 50 milhões de judeus neste país. – Quando lhe pedi para explicar as bases do cálculo, o meu amigo encolheu os ombros e disse: – Bem, eu cresci numa cidade no meio da América. O nosso médico de família era judeu, o advogado do meu pai era judeu e o contabilista dele também. Há tantos judeus proeminentes em tantos campos, que simplesmente deve haver 50 milhões ou mais dos vossos por aí – Acrescentou. Somente depois de lhe mostrar um livro de referência que mencionava a população judaica mundial como sendo de aproximadamente 13 milhões, é que ele admitiu ter errado por muito na sua estimativa.

Costumo refletir várias vezes sobre essa conversa, uma vez que a mesma abordou algumas questões fundamentais, tais como a perceção sobre os judeus, o nosso papel na sociedade e o impacto que nós, como povo, exercemos sobre o mundo. Mas penso que isso, por sua vez, levanta outra questão, talvez até ainda mais importante, e que raramente é abordada com a seriedade que merece: Será que realmente interessa quantos judeus existem no mundo?

Tradicionalmente, é claro, nunca demos muita ênfase ao tamanho ou à dimensão do povo judeu. Nos últimos 2000 anos, vivendo à mercê dos outros, temo-nos concentrado mais na qualidade do que na quantidade. É por isso, possivelmente, que muitos judeus tendem a desconsiderar ou minimizar a importância dos nossos números, argumentando que o que realmente interessa é se estamos a trabalhar eficazmente para cumprir o nosso destino nacional. [I]

Mas eu acredito que esse modo de pensar é produto do exílio, uma função do facto de termos estado mais preocupados em sobreviver do que em prosperar, durante a longa e escura noite das nossas peregrinações em terras estrangeiras. Durante o processo, fomos perdendo de vista o papel importante que os números podem ter, e de facto têm, na vida de uma nação. E chegámos ao ponto de elevar a nossa fraqueza numérica até transformá-la num valor, infundir-lhe significado e agora considerá-la o ideal.

Nem as fontes nem a história judaica justificam essa visão, e está na hora de revisitarmos esta questão, não apenas porque é um exercício intelectual interessante, mas também devido à importância crítica que ela tem para moldar as políticas da nossa comunidade, o nosso futuro e a nossa visão do mundo.

É um princípio bem conhecido da crença judaica que o Criador escolheu o povo judeu para ser o Seu instrumento especial neste mundo. – E vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa – [ii], disse De’s a Moisés para ele dizer a Israel antes de lhes entregar a Torá no Monte Sinai.

Mais tarde, no livro de Devarim, o relacionamento especial de Israel com De’s é descrito em termos ainda mais íntimos: Vós sois os filhos do Senhor vosso De’s (…) Sois um povo santo ao Senhor vosso De’s, e o Senhor vos escolheu para que sejam o Seu próprio tesouro, de entre todos os povos que estão sobre a face da terra. [iii]

A partir desses versículos, fica claro que De’s não escolheu apenas uma família ou uma pequena tribo para servir os Seus propósitos neste mundo. Ele escolheu uma nação inteira, o povo de Israel. Então, vemos que obviamente é necessário um conjunto mínimo de pessoas para realizar a nossa missão sagrada, senão Ele poderia facilmente ter colocado a responsabilidade sobre apenas algumas poucas pessoas.

Por outras palavras, os números são importantes. Os críticos muitas vezes atacam esta linha de pensamento, afirmando que ter quantidade sem qualidade é de pouco valor para garantir o futuro judaico. Mas o que eles não percebem é que o oposto é igualmente verdadeiro. Um povo judeu pequeno e encolhido, consistindo apenas de um pequeno núcleo de membros comprometidos, dificilmente será capaz de enfrentar os desafios e ameaças à nossa sobrevivência, sejam eles físicos ou espirituais.

E talvez seja por isso que De’s prometeu aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob que o povo judeu seria um dia tão numeroso quanto as estrelas do céu ou a areia da praia. Só então poderemos estar em posição de cumprir o nosso papel.

De facto, mesmo uma leitura superficial da Torá e dos seus comentários revela que a força demográfica do povo judeu é repetidamente enfatizada nas promessas de De’s aos nossos antepassados:

E farei a tua semente como o pó da terra, assegura De’s a Abraão, dizendo-lhe: De tal modo que, se alguém puder contar o pó da terra, também poderá ser contada a tua descendência. [iv] Rashi entende essa promessa como literal, não metafórica, e explica o verso da seguinte forma: Assim como o pó não pode ser contado, assim também a tua semente estará além da contagem. [v]

Promessas semelhantes foram feitas a Isaac e Jacob [vi], e, quando Moisés se dirigiu a Israel antes da sua morte, também profetizou que De’s iria multiplicá-los «mil vezes» [vii]. Isso, diz Netziv, é uma promessa que diz respeito à qualidade e também à quantidade do povo judeu. [viii]

Mais de um milénio depois, durante o período herodiano, o povo judeu de facto cresceu e tornou-se uma força considerável no cenário mundial. Como notou o historiador Paul Johnson:

Um dos cálculos é que, durante o período herodiano, houvesse no mundo cerca de oito milhões de judeus, dos quais 2.350.000 a 2.500.000 viviam na Palestina, constituindo assim os judeus cerca de 10% do império romano. Esta nação em expansão e a diáspora fervilhante foram as fontes da riqueza e influência de Herodes. [ix] (negrito do autor)

É interessante notar que, aproximadamente na mesma época, o censo que os historiadores descrevem como o mais antigo do mundo preservado até aos nossos dias foi efetuado na China, no oitavo mês do ano 2 EC [x]. Segundo esse censo, havia um total de 57,5 milhões de chineses, ou seja, sete chineses por cada judeu vivo da mesma época.

Saltemos para frente 2000 anos até o presente, e os números são, claro, bastante diferentes, com a China tendo subido para mais de 1,1 mil milhões de pessoas, enquanto os judeus não chegam a mais de 13 milhões de almas no mundo inteiro.

Escusado será dizer que a diferença é atribuível a todas as expulsões e perseguições que nos têm cabido em sorte, que eliminaram um sem-número de judeus, deixando apenas um pequeno remanescente do que poderíamos ter sido.

Esta triste realidade foi colocada ainda mais em evidência no ano passado, quando o ilustre demógrafo Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica, divulgou um estudo arrepiante que concluiu que, se não fosse pelo Holocausto, haveria 32 milhões de judeus no mundo hoje. [xi]

O Holocausto, escreveu ele, causou um golpe mortal, particularmente nos judeus da Europa Oriental, devido à sua estrutura especialmente jovem. Isso, disse ele, causou danos demográficos significativos a longo prazo com ramificações muito para além do que estimamos.

De fato, como Della Pergola notou, a percentagem de judeus no mundo está hoje em constante declínio. Enquanto que antes da Segunda Guerra Mundial havia oito judeus por cada mil pessoas não-judias no mundo, o número agora é de apenas dois por cada mil, e a tendência é decrescente.

Estes dados são uma lembrança oportuna e angustiante da destruição inimaginável que o Holocausto causou. Não só reivindicou os seis milhões que foram assassinados pelos alemães e seus colaboradores, mas também subtraiu os seus filhos, netos, e todos os seus descendentes, privando para sempre o povo judeu de milhões de preciosas almas. Por outras palavras, a abrangência dos assassinatos, ampliada ao longo do tempo, torna-se cada vez mais extensa e incompreensível.

Imagine um mundo com um povo judeu vibrante e vasto, com mais do dobro do seu tamanho atual, sem ser perseguido pela constante ameaça da diminuição demográfica e da assimilação.

Considere por um momento as riquezas culturais e espirituais que estaríamos a produzir, as poderosas contribuições intelectuais e cerebrais para a humanidade que poderíamos estar a efetuar, e começará a perceber a verdadeira dimensão do que se perdeu.

De algum modo, ao longo dos séculos, na diáspora, enquanto fomos sendo coletivamente destruídos,  parece que nos afastámos desta abordagem. Mas talvez agora seja o momento de começar a pensar novamente nela. Afinal, os números contam sim, seja no basquetebol, nos negócios ou na diplomacia internacional. E, para fazer a diferença no mundo e cumprir a nossa missão nacional divina na nossa qualidade de judeus, precisamos de ter uma «equipa» muito maior e mais diversificada à nossa disposição.

Isto significa que não só precisamos de nos esforçar mais para manter os judeus judeus, mas também precisamos de expandir os nossos horizontes e procurar maneiras, em conformidade com a halachá, de aumentar os nossos números.

Um bom lugar para começar seria com descendentes de judeus, com comunidades que têm uma conexão histórica com o povo judeu e que agora estão interessados em retornar. Estes incluem os Bnei Menashe do nordeste da Índia, descendentes de uma tribo perdida de Israel, os Bnei Anussim de Espanha, Portugal e América do Sul (a quem os historiadores se referem pelo termo depreciativo «Marranos»), os Judeus Ocultos da Polónia da era do Holocausto, e outros.

Sem terem culpa nenhuma, os antepassados destas pessoas foram retirados à força do povo judeu, e nós temos o dever, para com eles e para com os seus descendentes, de os incluir e de lhes dar a oportunidade de voltarem para casa. Fazer isso não só corrigirá um erro histórico, mas também nos fortalecerá, numérica e espiritualmente.

Isto não é uma chamada ao proselitismo, nem um apelo para começarmos a converter gentios. A ideia é abrir a porta aos nossos irmãos perdidos, conhecidos como Zera Yisrael («a Semente de Israel»), e reforçar o vínculo entre nós.

Veja, por exemplo, os Bnei Anussim, cujos antepassados foram convertidos ao catolicismo à força durante os séculos XIV e XV em Espanha e Portugal, mas que continuaram a preservar a sua identidade judaica em segredo ao longo de gerações e gerações. Cinco séculos depois, um número crescente dos seus descendentes está a sair das sombras, procurando recuperar a sua herança judaica há muito perdida.

É um fenómeno de proporções inéditas, que se estende de Lisboa a Lima e de Madrid ao México. Em todo o mundo de língua espanhola e portuguesa surgem cada vez mais pessoas a querer explorar as raízes judaicas das suas famílias, que muitas vezes foram enterradas sob o peso da história.

A verdadeira dimensão dessa herança judaica foi evidenciada pelas descobertas de um notável artigo académico publicado no American Journal of Human Genetics no final de 2008, no qual uma equipa de biólogos declarou que 20% da população de Espanha e Portugal tem origem judaica sefardita [xii]. Como as populações destes dois países somadas excedem 50 milhões, isso significa que mais de 10 milhões de espanhóis e portugueses são descendentes de judeus.

Estas não são especulações mirabolantes, mas sim resultados puros e duros saídos diretamente duma placa de Petri dum laboratório. O estudo, liderado por Mark Jobling, da Universidade de Leicester, na Inglaterra, e Francesco Calafell, da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, analisou os cromossomas Y dos sefarditas em comunidades para onde os judeus tinham migrado após a expulsão de Espanha em 1492. As suas assinaturas cromossómicas foram então comparadas com os cromossomas Y de mais de 1.000 homens que vivem por todo o território de Espanha e Portugal. Como o cromossoma Y é passado de pai para filho, os geneticistas foram capazes de medir os dois grupos contrastando-os um com ou outro, levando à descoberta notável de que um quinto dos ibéricos é de ascendência judaica.

Pense nisso: é como se, de repente, um grande espelho tivesse sido colocado à frente de todos os espanhóis e portugueses, forçando-os a olhar para si mesmos e a ver a realidade da sua história nacional e individual.

Mas ainda mais interessante do que o que isto nos diz sobre o passado é o que pode dizer-nos sobre o futuro. Se Israel e o povo judeu empreenderem um esforço conjunto de estender a mão aos nossos irmãos genéticos da Península Ibérica, isso poderá ter um impacto profundo em vários de campos. O próprio facto de um grande número de espanhóis e portugueses ter ascendência judaica pode ter um efeito significativo sobre as suas atitudes em relação aos judeus e a Israel.

Como presidente da Shavei Israel, que trabalha com «judeus perdidos» ao redor do mundo, eu tenho visto isso várias vezes – quando uma pessoa descobre, ou redescobre, as suas raízes judaicas, desenvolve inevitavelmente uma certa afinidade com o povo judeu e uma maior simpatia por Israel e pelas causas judaicas. Obviamente, nem todos os milhões de descendentes de judeus vão querer ir a correr converter-se ao judaísmo ou tentar fazer aliá. Mas alguns, sem dúvida, retornarão ao nosso povo e fortalecerão as nossas fileiras.

A ideia de que estes «judeus perdidos» finalmente retornarão é antiga e está profundamente enraizada no pensamento judaico, mesmo que a maioria de nós não se aperceba disso.

Veja, por exemplo, a visão do profeta Isaías de que Naquele dia tocará um grande shofar e virão os que estavam perdidos na terra da Assíria e os que foram dispersos na terra do Egito, e se curvarão diante de De’s no monte santo em Jerusalém. [xiii] De acordo com Rashi, a primeira parte do versículo (os que estavam perdidos na terra da Assíria) significa aqueles que foram dispersos muito além do Rio Sambatyon [xiv], uma referência às Dez Tribos Perdidas de Israel que foram para o exílio há mais de 2700 anos [xv]. Por outras palavras: os seus descendentes, apesar de terem estado perdidos durante tantos séculos, na verdade regressarão.

O mesmo vale para os Bnei Anussim. O grande Don Isaac Abarbanel, que testemunhou a expulsão dos judeus de Espanha em 1492, escreve comovedoramente no seu comentário ao Sefer Devarim que muitos dos Bnei Anussim serão misturados entre eles [isto é, entre as nações] e considerados como eles, mas nos seus corações eles retornarão a De’s (…) e aqueles que deixam a religião [isto é, o judaísmo] por compulsão, sobre eles está escrito «e Ele retornará e os reunirá de entre os povos.» [xvi]

O ilustre rabino Tzadok HaKohen, de Lublin, vai ainda mais longe, afirmando que todos os descendentes de judeus retornarão um dia ao nosso povo. Na sua obra Resisei Layla, escreve que isso inclui até mesmo aqueles que são descendentes de judeus sem o saber: Porque de todos aqueles que são da Semente de Israel, ninguém será banido. [Xvii]

Desde o seu início, a nação de Israel foi dividida em 12 tribos, cada uma com as suas características, talentos e bênçãos únicas. De’s, na Sua sabedoria suprema, considerou necessário que o nosso povo fosse forjado em unidade através da diversidade, como uma orquestra composta de músicos diferentes, onde cada um toca o seu próprio instrumento, apesar de estarem todos a tocar a mesma música.

O mundo em que vivemos está a ficar cada vez mais pequeno, graças ao alcance da Internet. Para florescer nesta aldeia global, precisamos de judeus chineses, indianos e polacos tanto quanto de judeus americanos e australianos. Somos uma nação com muitas faces, e temos que aprender a fazer da nossa diversidade uma alavanca e a encará-la como uma força e não como uma fraqueza. Podemos nunca conseguir igualar a demografia da China, mas podemos e devemos procurar novas oportunidades de crescimento. É por isso que chegou a hora de empreender um esforço concertado de aproximação para com os descendentes de judeus.

O nosso estado precário como povo e as ameaças que enfrentamos no nosso país e no exterior assim o exigem. E assim o exige também, devo acrescentar, o nosso destino.

[i] Veja, por exemplo, Size is not the issue, de Jonathan Rosenblum, The Jerusalem Post, 8 de maio de 2009.

[ii] Shemot 19: 6

[iii] Devarim 14: 1-2

[iv] Bereshit 13:16

[v] Rashi, Loc. Cit.

[vi] Para a promessa a Isaac, veja Bereshit 26: 4; para a promessa a Jacob, Bereshit 28:14.

[vii] Devarim 1: 10-11.

[viii] Veja Haemek Davar de Netziv, Loc. Cit.

[ix] Paul Johnson, História dos Judeus (New York: Harper, 1988), 112.

[x] Denis Crispin Twitchett, Michael Loewe e John King Fairbank, The Cambridge History of China, Volume Um: The Ch’in and Han Empires 221 BC-AD 220 (New York, Cambridge University Press, 1986), 240.

[xi] Veja How many Jews would there be if not for the Holocaust?, Haaretz, 19 de abril de 2009.

[xii] S. Adams, E. Bosch, P. Balaresque, S. Ballereau, A. Lee, E. Arroyo, A. López-Parra, M. Aler, M. Grifo, M. Brion, The Genetic Legacy of Religious Diversity and Intolerance: Paternal Lineages of Christians, Jews, and Muslims in the Iberian Peninsula no American Journal of Human Genetics, Volume 83, Número 6, Páginas 725-736

[xiii] Isaías 27:13.

[xiv] Rashi, Loc. Cit. Para outros exemplos, veja o comentário de Radak sobre Jeremias 3:18 e o Metsudat David em Zacarias 10: 6.

[xv] Veja II Reis 18: 9-12.

[xvi] Veja Abarbanel sobre Devarim 30: 1-5.

[xvii] Veja Resisei Layla, letra Nun.

DO EQUADOR A JERUSALÉM: AJUDE UM MENINO A CUMPRIR O SEU SONHO DE FAZER BAR MITZVA

David Peretz é um menino judeu de doze anos de Jerusalém que, tal como os outros meninos judeus da sua idade, está a preparar-se para o seu bar mitzvá. No entanto, a história de David é bem diferente da da maioria dos outros meninos judeus da sua idade.

David e a sua família são do Equador, e o seu caminho para Jerusalém foi longo e complicado. David, junto com os seus dois irmãos e os seus pais, fez aliá do Equador há dois anos com o apoio da Shavei Israel. O caminho da sua família para o judaísmo começou em 2014, quando o seu pai, Yochanan, conheceu o rabino Shimon Yehoshua, o emissário da Shavei Israel na Colômbia. Participar em aulas online e aprender mais sobre a tradição judaica permitiu a Yochanan, esposa e filhos expressarem o seu verdadeiro amor por De’s e pela Torá.

A família Peretz decidiu passar pelo processo de conversão formal ao judaísmo em Miami, mas primeiro tiveram que passar um ano na Colômbia com a comunidade local, estudando sob supervisão e com o apoio do rabino Yehoshua. Depois de se converterem com sucesso, decidiram que, para viver o seu judaísmo com mais autenticidade, deveriam morar em Israel. Fizeram Aliá (imigração para Israel) e viveram em Carmiel, no norte do país, até que finalmente se mudaram para Jerusalém.

David e a sua família estão profundamente agradecidos por terem chegado tão longe, e a Shavei Israel esteve com eles ao longo de todo o caminho, desde a América do Sul até Israel. Agora você também pode juntar-se aos nossos esforços e ajudar a família Peretz a realizar o sonho de David de poder ter a sua celebração de bar mitzvá, modesta, simples, porém bonita e inesquecível, em Jerusalém.

Faça o seu donativo e seja parte da festa!

ALIÁ BNEI MENASHE: ELON HAOKIP

Ainda este ano, a Shavei Israel trará um grupo de 250 imigrantes Bnei Menashe do nordeste da Índia para Israel em Aliá.  

Entre eles está Elon Lunkhojang Haokip, de 55 anos. Um nativo de Manipur muito animado por realizar o seu sonho e retornar à terra dos seus antepassados.

Elon lembra-se de se começar a interessar pela sua herança judaica há cerca de vinte anos, quando soube que as origens da sua família remontam às Dez Tribos Perdidas de Israel. Elon começou a viver o estilo de vida de um judeu praticante, e escolheu usar os seus talentos para apoiar a sua comunidade. Desempenhou primeiro a função de chazan(cantor) no centro comunitário local de B.Vengnom, Beith Shalom, e, mais tarde, a de mohel, trazendo cerca de 1000 meninosBnei Menashe para o Pacto de Abraão.

Elon é casado e tem quatro filhos e uma filha que se juntarão a ele no caminho de regresso ao Estado judaico.

 — É como um sonho para mim, ir para a terra que eu sempre desejei, e este sonho está finalmente a tornar-se realidade, com a ajuda da Shavei Israel! — Exclamou Haokip, emocionado.

 *****************************

A data em que a família de Elon se poderá mudar para Israel, juntamente com os outros Bnei Menashe que farão Aliá com eles, depende em parte do financiamento. O custo por imigrante é de apenas US $ 1.000, o que cobre passagens aéreas e transporte da Índia para Israel, bem como alguns dos custos iniciais de absorção.  Por cada US $ 1.000 angariados, Elon ou outro Bnei Menashe poderá fazer a longa jornada de volta a Sião

Apoie a aliá dos Bnei Menashe e faça uma  verdadeira diferença!

PERFIS DA SHAVEI ISRAEL: MIQUEL SEGURA AGUILO DE MALLORCA

Continuamos a partilhar convosco as histórias de pessoas sem as quais as atividades da Shavei Israel com a intenção de reconectar judeus e descendentes de judeus às suas raízes não seriam tão eficazes e bem-sucedidas: os nossos representantes e líderes comunitários em todo o mundo. Um deles é Miquel Segura Aguilo de Mallorca, um Chueta que retornou ao judaísmo, jornalista e vice-presidente da Comunidade Judaica das Ilhas Baleares. Além dos seus esforços regulares para fortalecer, apoiar e desenvolver a sua comunidade, Miquel também investiu o seu tempo e o seu conhecimento na preservação da sua herança histórica, tendo publicado um livro emocionante que conta a história dos Chuetas.

A apresentação do livro “Os Chuetas: Uma História Inacabada” aconteceu na semana passada na sinagoga de Palma de Mallorca e atraiu mais de 60 visitantes. A maioria deles sentiu uma conexão pessoal com o assunto: a comunidade de Chuetas manteve as tradições judaicas em segredo por muitos anos e está numa etapa de crescente interesse em estudar a história dos seus antepassados.

O editor notou que a história moderna de Chuetas se divide em duas partes, como se pode ler no livro: a primeira é de 1994 a 2003, quando Miquel conheceu Michael Freund e se familiarizou com as atividades de Shavei, e a segunda é de 2003 até o presente, quando muitas pessoas mencionadas nesta história e o próprio autor iniciaram o seu processo formal de conversão e retornaram ao judaísmo.

Miquel explicou a sua escolha da Shavei Israel como o local da apresentação da seguinte forma: sem uma sinagoga, uma comunidade judaica e judaísmo, nada do que ele descreveu neste livro e nos anteriores faria sentido. Miquel reconhece o papel que a Shavei Israel desempenhou na sua vida e diz que para ele, a organização se tornou a porta para retornar à sua herança e ao seu povo.

HISTÓRIAS PESSOAIS DE BNEI ANUSSIM: UM NOVO PROJETO DO CENTRO MA’ANI.

Esta semana, o Centro Ma’ani da Shavei Israel lançou uma nova série de conferências para os Bnei Anussim e para todos os que estiverem interessados na sua fascinante história. Nos encontros mensais, os participantes vão partilhar as suas experiências pessoais, descrevendo o seu retorno às suas raízes judaicas e o seu caminho de volta ao judaísmo e ao Estado Judaico.

O primeiro evento da série atraiu tanto os estudantes do ulpan Machon Miriam, da Shavei Israel, quanto o público em geral. O orador convidado foi Leya Chaya Israel, que fez aliá há 5 anos e meio, de Espanha. Nascida em Alicante, interessou-se pela tradição judaica depois de participar num seminário da Shavei Israel em Barcelona, e continuou a estudar com o rabino Nissan ben Abraham, o nosso emissário em Palma de Mallorca.

Continuar lendo