Parashat Vaiechi

Não há maior bênção do que a paz entre irmãos.

A Bênção de Efraim e Menashe

Jacob percebe que está prestes a morrer, e, para fazer um «testamento ético», convida os seus doze filhos para receberem uma bênção. Mas primeiro chama, para os abençoar, os seus dois netos, filhos de José: Efraim e Menashe.

Por que Jacob prioriza a bênção dos seus netos? Há um significado muito profundo na bênção dada por Jacob. Um dos mais belos costumes da vida judaica é que os pais abençoam os filhos no início do jantar de Shabat, todas as sexta-feiras à noite. As meninas recebem a bênção «Que De’s te faça como as matriarcas, Sara, Rebeca, Raquel e Léia.» Enquanto que aos meninos se diz: «Que De’s te faça como Efraim e Menashe».

Que aconteceu aos patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob? Porque foram Efraim e Menashe escolhidos em vez deles, para essa importante tradição?

Os nossos Sábios oferecem duas explicações:

Uma ideia é que Efraim e Menashe foram o primeiro grupo de irmãos que não brigaram. Os filhos de Abraão, Isaac e Ismael, não conseguiram dar-se bem e as suas divergências formaram a base do conflito árabe-israelita de hoje em dia.

Os dois filhos de Isaac, Jacob e Esav, eram tão contenciosos que Esav quis matar Jacob repetidamente e ordenou aos seus descendentes que fizessem o mesmo.

Os filhos de Jacob também caíram na violência ao vender o seu irmão Joseph como escravo.

Isto explica a razão pela qual, quando Jacob abençoou Efraim e Menashe, trocou intencionalmente as mãos, abençoando primeiro o mais novo e depois o mais velho. Jacob queria enfatizar que não deveria haver rivalidade entre esses dois irmãos (Génesis 48:13 e 14).

É com esse pensamento que os pais abençoam os seus filhos hoje em dia, pois não há maior bênção do que a paz entre irmãos.

Esse mesmo desejo é o que De’s tem em relação a todo o povo judeu.

Outra explicação para entender porque as crianças judias recebem a bênção de Efraim e Menashe é dada pelo rabino Shimshon Rafael Hirsch:

A primeira geração de judeus, Abraão, Isaac e Jacob, educou os seus filhos principalmente na terra de Israel. A Terra Sagrada é o ambiente judaico mais receptivo, sobre o qual o Talmud relata que «até o ar te faz sábio». Então, de certo modo, educá-los foi relativamente fácil. Mas depois, devido à fome, Jacob e a sua família foram para o Egito. A geração seguinte cresceria cercada por paganismo e imoralidade. Começava o desafio do judaísmo: Sobreviveria no meio de todas essas distrações e desafios da vida na diáspora?

Os netos, muito mais do que os filhos, são quem revela o fundamento e a futura direção da linhagem familiar. Ao longo dos anos, os pais judeus rezaram para que os seus filhos resistissem às tentações do exílio e pudessem manter orgulhosamente a sua forte identidade judaica.

Qual foi o resultado com Efraim e Menashe? Apesar de grandes obstáculos, eles cresceram no Egito e mantiveram sua adesão ao judaísmo. E é por essa razão que abençoamos os nossos filhos para serem como eles.

Autora: Edith Blaustein

Uma visita inspiradora à Casa de Rav Kook

Visita de estudo à Casa de Rav Kook

O Centro Ma’ani da Shavei Israel realizou um evento especial em espanhol para os estudantes de Ora Jalfon no Machon Miriam, que consistiu numa visita de estudo à Casa de Rav Kook. Também participaram vários estudantes de língua espanhola de Midreshet Lindenbaum e Yeshivat Hakotel. No total, foram cerca de 30 participantes.

Hoje, a Casa de Rav Kook em Jerusalém é um museu visitado por diversos grupos turísticos, bem como por yeshivot, escolas, midrashot e ulpanot, tanto israelitas como da diáspora.

É a casa onde viveu o rabino Abraham Itzhak Hacohen Kook (1865 – 1935) a partir 1921, data em que foi estabelecido o Rabinato de Israel e o Rabino Kook foi nomeado o primeiro Rabino Chefe Ashkenazi de Israel sob o mandato britânico.

Graças aos fundos doados pelo filantropo americano Harry Fischel, a «Beit Harav», como é conhecida, foi inaugurada em 1923, na presença do Alto Comissário da Palestina, Herbert Samuel.

Um século depois, a casa permanece exatamente como era durante o tempo em que Rav Kook e a sua família moravam lá. Os móveis estão no mesmo lugar; nada mudou, ainda existe até mesmo uma sensação de santidade que emana das paredes….

No dia 25 de dezembro, a Beit Harav recebeu o grupo da Shavei Israel, juntamente com os alunos de Lindenbaum e de HaKotel. Foi emocionante para os alunos, assim como para mim, pois servi como guia para a visita. Numa conversa telefónica subsequente com alguns dos visitantes, ficou patente que todos tinham ficado impressionados com a personalidade multifacetada de Rav Kook – rabino, filósofo, poeta, escritor, consultor, cabalista – e que «sendo haredi, ele era tão aberto aos outros».

Os visitantes tiveram a oportunidade de conhecer os diferentes espaços, como o escritório particular do Rav ou o heder haorhim (sala de visitas), onde Albert Einstein esteve presente numa breve visita ao rabino!

O showroom e o Beit Hamidrash (sala de estudo), berço do que é hoje a Yeshivá Mercaz Harav, têm uma cadeira que foi enviada especialmente para o rabino pelo rei George da Inglaterra.

Outro objeto imbuído de significado e história é a tapeçaria que o fundador da Escola de Arte Betzalel, Boris Schatz, ofereceu a Rav Kook.

No fim, quis surpreender os meus visitantes com a música inspiradora Kanfei Ruah, que, na verdade, é um poema de Rav Kook.

Ben Adam, ale lemaala alé
Filho do homem, voa alto, voa sempre alto, pois há uma força profunda em ti. Asas de águia estão em ti.
Não as esqueças, usa-as, não seja que elas te esqueçam…
Filho do homem, voa alto, sempre alto …

Gostaria de agradecer a Chaya Castillo, diretora do departamento espanhol da Shavei Israel, pelo seu inestimável apoio na organização desta visita, bem como durante todo o programa.

~ Ora Jalfon

Parashat Vaigash

Esta é a medida da grandeza de Yehuda: Não ficou preso em sua dor, mas cresceu espiritualmente, partindo da tragédia e usando-a como terreno fértil para a empatia, a compaixão, o perdão e até o auto-sacrifício.

Autora: Edith Blaustein

Circunstâncias difíceis e o nosso crescimento pessoal

O apelo de Yehuda a Yosef é um sinal de crescimento pessoal e de sua empatia com a dor de seu pai. No final da última parashá, Yosef, agora primeiro-ministro do Egito, colocou um copo valioso no saco de Biniamin quando os seus irmãos voltavam com comida para a casa de seu pai.

O copo foi descoberto e todos temiam que Biniamin não pudesse voltar para casa, porque a dor de Jacob seria fatal.

Numa das histórias mais pungentes da Torá, a Parashá desta semana começa com Yehuda oferecendo-se em vez de Biniamin. Perante esta cena, de alguma forma procurada por Yosef, ele se revela aos seus irmãos.

Toda a sua família será reunida sob a sua proteção no Egito: Seu pai, seus irmãos e todas as suas famílias viverão na terra de Goshen.


No capítulo 44, somos informados: Yehuda se aproximou dele e disse: «Rogo, meu senhor, para falar seu servo aos ouvidos de meu senhor, e não acenda sua fúria contra seu servo, que meu senhor é igual ao Faraó (18) (…) Agora, então, deixe seu servo permanecer em vez do menino como escravo de meu senhor, e o menino suba com seus irmãos. Porque como subirei a meu pai se o menino não estiver comigo? Para não ver o mal que viria a meu pai» (33 e 34).

Vemos que Yehuda passou por uma transformação pessoal desde o dia em que ele e seus irmãos deixaram Yosef num poço, há muitos anos. Naquela época, foi Yehuda quem sugeriu vender seu irmão (Gênesis 37:26). Sem ser o primogênito, Yehuda ocupa um papel central nessa história. Devemos nos perguntar: Porque sai ele para defender Biniamin e não o primogênito Ruben?

Uma das respostas pode ser encontrada no próprio texto; é-nos apresentada pelo Midrash Tanjuma, uma coleção de midrashim que remonta à era talmúdica.

Após a venda de José e a apresentação de suas roupas ensanguentadas por seus irmãos a Jacob, a Torá narra o episódio de Yehuda com Tamar (Cap. 38). O Midrash nos apresenta Yehuda trazendo a infeliz notícia da morte de Yosef a seu pai.

É então que De’s diz a Yehuda:
«Você ainda não tem filhos e não conhece o sofrimento pelos filhos. Você fez seu pai sofrer e fez com que ele acreditasse erroneamente que o filho dele foi devorado por animais selvagens. Você vai se casar e enterrar um filho, e então conhecerá a dor de criar filhos» (Midrash Tanjuma Vaigash 9, citado por Aviva Gottlieb Zornberg no grande livro da exegese bíblica O começo do desejo). É neste episódio que Yehuda sofre a perda de dois de seus filhos: Er e Onán.

Aparentemente, esse Midrash nos explica toda a narrativa de Yehuda e Tamar do capítulo 38, e parece nos dar a razão do castigo que Yehuda recebe por ter enganado seu pai. No entanto, é surpreendente que não seja citado nesse contexto até muito mais tarde, quando Jacob envia Yehuda antes de sua chegada para preparar sua chegada a Goshen (46:28), no momento em que toda a família se reconcilia e se reúne no Egito.

Que relação tem tudo isso com a pergunta inicial, por que Yehuda saiu para defender Biniamin?

Podemos estabelecer que isso é crucial, porque, em vez de nos dar a imagem de um De’s vingativo que mata um filho para vingar outro, já que este Midrash é posteriormente colocado num lugar que revela a reconciliação de Yehuda com seu pai, deduzimos uma lição moral através deste Midrash. Ele sugere que a experiência de dor e sofrimento de Yehuda também é a fonte de grandeza espiritual, crescimento e um altruísmo desenvolvido. Todos nós temos circunstâncias dolorosas em nossas vidas; elas podem nos afundar em dor e ressentimento ou, pelo contrário, podem ser a fonte do nosso crescimento pessoal.

Nosso Midrash diz que quando Yehuda fez seu pai sofrer pela perda de um filho, foi porque ele não conhecia a «dor pelos filhos». Então ele se casou, teve filhos e perdeu dois deles, trazendo a lição da «dor pelos filhos» para sua casa da maneira mais real e dolorosa possível.

De’s é cruel e vingativo? Não devemos entender que De’s tirou os filhos de Yehuda por causa de seu comportamento com o pai, o que seria um capricho cruel da Sua parte. O que o Midrash nos diz é o que tornou possível a reconciliação, o desejo de Yehuda de ter empatia com a experiência de seu pai, seu conhecimento da «dor pelos filhos». Idealmente, a empatia leva à compaixão, e vemos que esse sentimento em Yehuda era tão grande que ele não estava disposto a deixar seu pai perder seu precioso filho mais novo.

Isso nos leva a uma nova pergunta: por que Jacob deveria sentir mais a dor de perder Biniamin do que a de perder Yehuda, já que o ponto principal do discurso de Yehuda é ele ficar no Egito como substituto do seu irmão mais novo?

Ou porque Biniamin era o mais novo, ou porque ele era filho de sua amada Raquel, Yehuda sabia que Jacob tinha um relacionamento especial com seu filho mais novo, assim como o teve no passado com Yosef (Gênesis 44:30). Esse facto é o que torna extraordinária a compaixão de Yehuda. Não só podia ter empatia com o sofrimento de seu pai pela perda de um filho, mas também era capaz de lidar com seu ressentimento anterior por essa mesma situação, até perdoando-o por amar seus filhos de modo desigual.

Esta é a medida da grandeza de Yehuda: Não ficou preso em sua dor, mas cresceu espiritualmente, partindo da tragédia e usando-a como terreno fértil para a empatia, a compaixão, o perdão e até o auto-sacrifício.

Foi ele quem deu o passo adiante quando a hora o exigiu, porque era ele quem sabia que, para se redimir dos seus erros passados ​​e da dor acumulada, deveria se oferecer pela libertação dos outros.

ACAMPAMENTO NA COLÔMBIA

As crianças das comunidades da Colômbia tiveram uma semana inesquecível, ao participarem de um acampamento espetacular!

Recentemente, as crianças das comunidades da Colômbia tiveram uma semana inesquecível, ao participarem de um acampamento espetacular, organizado pela Comunidade Judaica de Antioquia. O acampamento ofereceu atividades para 60 crianças, com idades compreendidas entre os 4 e os 12 anos, de todas as comunidades que formam o ACI Colômbia.

Na «Quinta Jerusalém», na cidade de Guarne, o acampamento começou com uma atividade dinâmica de apresentação, para que todas as crianças se sentissem parte de um grupo verdadeiramente unido.

A programação incluiu várias atividades tais como artesanato, fabrico de doces, jogos com água (está calor lá em Dezembro!), a «pista ensaboada», paintball, dança, aulas de Torah e orações. As crianças aprenderam muito sobre a importância da paz e da amizade, e no fim houve um kumzitz  (noite de fogueira com canções)

Damos os parabéns à comunidade de Antioquia pela sua iniciativa sob a direção de R. Elad Villegas. Muito bem!

Parashat Miketz

Os Jogos Olímpicos, criados pelos gregos e enquadrados sob o lema «Citius, Altius, Fortius», convidavam os indivíduos para uma competição de morte onde a glória era alcançada apenas pelo mais rápido, pelo mais alto e pelo mais forte de todos os concorrentes do grupo.

Hanukah: Citius, Altius, Fortius

Excerto do ensaio original de: Eng. Enrique Medresh, da publicação eletrónica Reflexiones sobre la Parashá.

Devemos saber que a batalha que Israel travou contra os gregos, e por cujo triunfo se celebra Hanukah, foi, ao contrário da travada em Purim, principalmente de natureza espiritual e não física, sendo por isso comemorada de uma maneira puramente espiritual – acendendo uma luzinha, muito simples e espiritual. Além disso, a alegria desta festa é reduzida, pois, nessa luta, um grande número de judeus – os chamados helenistas ou mityavnim, grandes admiradores da cultura grega, – tomaram o lado dos gregos, causando uma espécie de guerra civil.

Ao identificar as diferenças ideológicas existentes entre a filosofia grega e a Torá, descobrimos que a cultura grega surge da concepção de que estamos dentro de um universo perfeito e imutável, que sempre existiu e sempre existirá, que é governado por leis naturais igualmente imutáveis. E essa natureza representa um valor absoluto inquestionável, que o Homem somente pode descobrir e admirar. Sob esse esquema, o ser humano é a criatura mais desenvolvida, representando o ponto central, o objetivo, o pináculo do universo. De tal maneira que a beleza natural encontrada no homem é para eles a expressão mais alta da estética e do belo, e o filósofo, com suas as ideias elevadas, representa o pensamento mais sublime que se possa imaginar.

Em contraste com a concepção grega descrita acima, a Torá mostra-nos uma visão radicalmente diferente, ensinando-nos que vivemos num universo em mudança, que teve um começo e terá um fim, um universo que foi intencionalmente projetado e criado de maneira incompleta e que é governado por um De’s único que, transcendentalmente separado da Sua Criação, ocupa o lugar mais alto que existe, representando assim o centro do universo e a fonte da verdade e da sabedoria.

Dentro dessa luta ideológica, cada um dos três decretos que Antíoco IV (Selêucides), o governante grego, impôs ao povo de Israel, foi uma reação dos gregos à afronta que eles consideravam que a Torá apresentava à sua visão do universo.

Uma consequência óbvia das ideias fundamentais mantidas pelos gregos foram as suas ideias (erradas) sobre a concorrência. Por exemplo, ao conceber que o tempo é circular, sem o conceito elíptico de tempo que o judaísmo tem, eles tiveram necessariamente que concluir que não existe avanço ou progresso real, nem no Homem nem no cosmos. Esta perspectiva, somada aos outros princípios gregos mencionados acima, fez do Cosmos, do ponto de vista helénico, um lugar muito limitado.

Num universo concebido como fixo e limitado, os recursos a serem distribuídos são finitos e as descobertas por fazer são contadas, tornando cada indivíduo um potencial concorrente e oponente, naturalmente convidando a uma luta para conquistar esses recursos e descobertas.

Consequentemente, eram realizadas competições públicas frequentes em cada uma das áreas em que se pudesse demonstrar excelência. Tanto na cerâmica quanto na poesia, na pintura, na oratória e na arte dramática, a glória era a recompensa para quem demonstrasse superioridade. Os Jogos Olímpicos, criados pelos gregos e enquadrados sob o lema «Citius, Altius, Fortius», convidavam os indivíduos para uma competição de morte onde a glória era alcançada apenas pelo mais rápido, pelo mais alto e pelo mais forte de todos os concorrentes do grupo.

Obviamente, a competição é uma das atividades mais saudáveis ​​que existem. Acaba com a inércia, elimina a estagnação e a complacência, destacando aquilo que de mais valioso há no Homem, obrigando-o a dar o seu melhor. E isto é algo muito positivo.

O problema está no sentido que os gregos deram à concorrência.

Isso ocorre porque, quando colocamos uma pessoa a competir contra outras, negamos um dos princípios fundamentais da vida e do judaísmo – o valor da individualidade.

O judaísmo expressa-nos isso dizendo que «Adão foi criado como uma entidade exclusiva, com o objetivo de nos ensinar que cada indivíduo tem o valor de um mundo inteiro e que aquele que salva uma vida é considerado como se tivesse preservado o mundo inteiro … »

Da mesma forma, o Talmud ensina-nos que «todo artesão (oman) odeia aqueles que exercem o mesmo ofício». A lógica por trás desta afirmação é que, já que o indivíduo pode ser substituído pelos seus concorrentes, ele sente que não só não é indispensável; não é nem sequer necessário. Esse tipo de competição traz inveja, baixa autoestima e ódio. A harmonia autêntica e a consequente unidade são atingidas quando cada indivíduo percebe que os seus talentos, qualidades e características são únicos e apreciados.

A Shavei Israel publica o primeiro birkon em chinês

Os judeus Kaifeng são uma antiga comunidade judaica com uma história rica e dramática.  Hoje, cada vez mais dos seus descendentes estão interessados ​​em aprender sobre a sua herança cultural e espiritual.  Como parte dos seus esforços para preservar essa comunidade e fortalecer os seus laços com o judaísmo e o Estado Judaico, a Shavei Israel publicou o primeiro birkon (livro de bênçãos) em chinês mandarim.  O birkon inclui kiddush de Shabat, bênçãos e canções, e ajudará as comunidades judaicas de língua chinesa a manter a sua ligação com a tradição judaica.

A introdução do birkon foi preparada pelo presidente e fundador da Shavei Israel, Michael Freund, e pelo rabino Chanoch Avitzedek, e concentra-se no significado e na importância de guardar o Shabat.  A tradução para o chinês foi efetuada pelo coordenador da Shavei Israel para os judeus Kaifeng, Eran Barzilay, com a ajuda dos representantes da comunidade que passaram pelo processo de conversão formal e fizeram Aliyah para Israel.

Se fala chinês e deseja adquirir um exemplar, pode fazer o seu pedido na livraria da Shavei.

O DIREITO DE RETORNO (PARTE 2)

Na semana passada, publicámos a primeira parte da entrevista dada pelo presidente e fundador da Shavei Israel, Michael Freund, à revista פנימה עלמה, sobre os descendentes dos convertidos à força pela Inquisição. Veja a segunda parte deste artigo:

Aconteceu há 500 anos. As pessoas estão a começar a procurar as suas raízes agora?

– Nos últimos 20 anos, assistimos a um crescente fenómeno de descendentes de anussim que procuram retornar às nossas raízes. Podemos ver isso desde Portugal e Espanha até ao Brasil ou ao Peru. Atravessa setores e estratos socioeconómicos.

Como explica o fenómeno?

– É difícil explicá-lo racionalmente. Abarbanel, que viveu na época da expulsão e foi ministro das Finanças do rei de Espanha, descreve a expulsão de Espanha no seu comentário ao livro de Deuteronómio e também de Isaías, e escreve que, no final dos dias, os anussim retornarão ao povo de Israel. Abarbanel escreve que, inicialmente, apenas retornarão nos seus corações, porque terão medo de se revelar como judeus, mas chegará o momento em que dirão abertamente «Queremos voltar». Penso que estamos a viver esse momento. As pessoas estão constantemente a aproximar-se de nós, contando-nos sobre o  seu passado familiar e as suas tradições judaicas.

Existem costumes que caracterizam os descendentes de anussim?

– Muitos se recordam das suas avós irem na sexta-feira até à cave, acenderem duas velas e dizerem algumas palavras que provavelmente nem entendiam. Conheci um professor universitário do norte de Portugal que  me disse que, quando era criança, os seus pais o proibiam de sair de casa à noite e contar estrelas porque era perigoso, e que isso era uma prática antiga da família. Os anussim saíam e contavam estrelas no céu para saber se o Shabat tinha acabado. Em algum momento, alguns deles foram capturados pela Inquisição. É por isso que a sua família adotou esse costume.

Há alguns anos conheci um diplomata da embaixada brasileira em Israel. Contou-me que vinha de uma família de anussim do norte do Brasil, onde muitas famílias tinham uma mesa de jantar com uma gaveta escondida no lugar do chefe de família. Nessa gaveta havia sempre um prato de carne de porco, de modo que, se um dos vizinhos viesse visitá-los de repente, tiravam imediatamente o prato com a carne de porco e colocavam-no no centro da mesa, para que ninguém desconfiasse que eles eram ainda judeus ou que tinham costumes judaicos.

Depois dele me contar isso, visitei o norte do Brasil, e pedi a quem me acompanhava que me levasse a uma loja de antiguidades, onde vi com os meus próprios olhos aquelas mesas com a gaveta oculta –, conta Freund com entusiasmo. – Até hoje existem famílias que não comem carne e leite juntos. Em alguns lugares, Purim, ou, como eles o chamavam, «Festival de Santa Esterica», tornou-se um dia festivo central para os anussim. Sentiam-se solidários com a figura de Ester, que também foi mantida à força no palácio do rei Achashverosh. Durante o festival as mulheres jejuavam, acendiam velas em homenagem à santa fictícia e preparavam com as suas filhas pratos kosher para o banquete de Purim.

O fechar de um ciclo Histórico

Nos séculos XVI e XVII, os anussim começaram a fugir também para Amsterdão. Nesse período, houve uma atitude muito positiva em relação aos anussim que queriam regressar ao judaísmo, e a comunidade de Amsterdão até imprimiu livros de oração para eles, traduzidos para o português. Há 200 anos, era muito mais fácil provar o judaísmo dos anussim. Hoje, 500 anos depois da expulsão e das conversões forçadas, a prova é cada vez mais difícil, e a maioria dos descendentes que desejam retornar ao judaísmo tem que ser convertida por um tribunal rabínico. – É uma situação empolgante –, partilha Freund, acrescentando que, em muitas dessas conversões, – quase se pode sentir a presença dos seus antepassados, a assistirem do céu e a ficarem felizes com o facto de, passados 500 anos, o ciclo histórico estar a ser fechado e os seus descendentes retornarem ao povo de Israel.

Hoje, muitos países têm comunidades inteiras de Bnei Anussim. Só na Colômbia, por exemplo, existem doze dessas comunidades. Cada comunidade inclui uma sinagoga, mikve, e, às vezes, até organizações específicas para a educação das crianças. Muitos dos descendentes de anussim tentam integrar-se nas comunidades judaicas existentes, que muitas vezes hesitam em aceitá-los. Mas em vez de baixarem os braços e desistirem, eles decidem criar comunidades independentes e converterem-se. Alguns querem imigrar para Israel e alguns preferem permanecer onde estão, a viver uma vida religiosa judaica.

– Muitas vezes as pessoas perguntam-se sobre qual é o seu motivo –, lembra Freund. – Que talvez eles estejam apenas à procura de fugir do seu país e queiram ir para o Estado de Israel? Mas essas pessoas estão a esquecer que não é fácil passar por uma conversão ortodoxa, com todos os requisitos que esta exige. Quando vemos os esforços que algumas destas pessoas fazem ao longo da vida para levar um estilo de vida judaico religioso, sem recursos e sem o apoio de uma comunidade judaica, apercebemo-nos de que são sinceros.

– Em El Salvador, onde há salários de cerca de um dólar por dia, há pessoas que economizaram de forma independente para comprar tefilin kosher, que custam várias centenas de shekels. Conseguir obter tefilin em tais condições é dedicação. Prevemos uma revolução espiritual que está a chegar, e está a crescer em intensidade. Cada vez mais pessoas estão a encontrar a verdade no judaísmo, o que é algo que não deveria assustar-nos, mas sim, pelo contrário, inspirar-nos.