Festa da Polónia

Na quinta noite de Hanuka, a Shavei Israel promoveu uma festa especial de Hanuka para judeus polacos no seu Centro Maani de Jerusalém. O animado grupo de polacos, alguns vivendo em Israel e outros na Polónia, desfrutou da presença e participação de muitas pessoas especiais, incluindo três emissários e rabinos da Shavei Israel do passado e do presente: O Rabino Isaac Rappaport, o Rabino Boaz Pash e o Rabino Dawid Szychowski, atual rabino em Lodz. Também esteve presente Bogna Skoczylas, que colaborou connosco no passado fazendo traduções para o polaco.

O rabino Rappaport realizou a cerimónia de acendimento da vela de Hanuka, e os participantes ficaram muito entusiasmados por usar o Guia de Hanuka em polaco que a Shavei criou para eles e que depois lhes foi entregue como presente.

Depois de todos se sentarem e desfrutarem de alguns doces especiais de Hanuka, o rabino Rappaport deu uma aula de Torá e o rabino Pash fez um jogo de perguntas e respostas. Cantaram-se canções e fez-se um sentido lechaim. Os participantes disseram que o encontro foi ótimo e estamos ansiosos por fazer outro novamente em breve!

Hanukah pelo mundo – 2019 / 5780

As nossas comunidades têm estado a celebrar Hanukah!

Como sempre, as nossas comunidades por todo o mundo têm estado ocupadas a decorar, a acender velas, a cantar, a trocar presentes, a jogar dreidel, a comer especialidades deliciosas, e a enviar-nos montes de fotografias! Por outras palavras, as nossas comunidades têm estado a celebrar Hanukah!

Veja as fotos aqui e desfrute dos sorrisos e do sabor único que cada comunidade transmite à celebração da Festa das Luzes!

Cali - Chanukah 2019

Parashat Vaishlach

Autora: Edith Blaustein

Elie Wiesel, no seu livro Mensageiros de De’s diz-nos: No seu sonho, Jacob viu uma escada cujo fim chegava ao céu. Ainda existe. Há quem a tenha visto, em algum lugar da Polónia, ao lado de uma estação de comboio abandonada, e um povo inteiro estava a subir em direção às nuvens ardentes. Esse era o caráter do medo que o nosso Jacob deve ter sentido.

Wiesel continua a descrever o nosso patriarca:

Um homem solitário, um sonho incandescente, um conflito. Dois irmãos, dois destinos. Amarrados e separados à noite. Um homem face à morte, um homem que imagina o seu futuro.

Um exame de si mesmo que implica um questionamento do seu passado. Memórias da primeira infância, das primeiras brigas com o seu irmão mais velho, triunfos seguidos de remorsos, os primeiros amores, a primeira e última deceção. Todos esses acontecimentos tinham-no conduzido ao confronto que acabava de ter com o seu tio Labão e o que teria amanhã com o seu irmão Esaú.

Jacob estava preocupado, o que era compreensível. Amanhã poderia morrer. O seu irmão, que ele não via há vinte anos, não compareceria sozinho ao encontro: Estaria acompanhado, pelo menos, por quatrocentos homens armados. O que aconteceria amanhã? Jacob estava com medo.

Na verdade, se ele tivesse o menor domínio sobre questões práticas, Jacob teria tentado descansar. Amanhã ele iria precisar de toda a sua energia, de todas as suas faculdades. Não conseguia, porque esta noite marcaria o início de uma nova aventura, a mais importante de todas.

Uma aventura estranha, misteriosa do princípio ao fim, de uma beleza avassaladora, intensa a ponto de nos fazer duvidar do que os nossos sentidos experimentam. Filósofos e poetas, rabinos e narradores, todos aspiraram lançar luz sobre o enigmático evento que ocorreu naquela noite, a poucos passos do rio Chabok. Um episódio contado na Bíblia com a sua sobriedade habitual e majestosa. Lembram-se?

Deixaram Jacob sozinho. E um homem lutou com ele até ao amanhecer. Quando viu que não o derrotara, deslocou-lhe a anca. E disse-lhe:

O dia está a chegar, deixa-me ir.

Jacob respondeu:

Não te deixarei ir, a menos que me abençoes.

E ele disse:

Qual é o teu nome?

Jacob respondeu:

Jacob.

O outro disse:

O teu nome não será mais Jacob, mas Israel, porque lutaste com De’s e o derrotaste.

Então Jacob pediu:

Peço-te que me digas o teu nome.

E ele respondeu:

Para quê o queres saber? E abençoou-o.

Jacob chamou aquele lugar Peniel:

Pois vi De’s face a face, e no entanto, continuo com vida.

Existem diferentes interpretações. Aqui as dimensões do episódio são modificadas: Testemunhamos um confronto entre Jacob e Jacob. O heroico sonhador e o inveterado fugitivo, o homem modesto e o fundador de uma nação, lutaram em Peniel numa batalha feroz e decisiva. E ganhou. Podia ser um anjo, o seu outro «eu» ou um homem, mas uma coisa é certa: O adversário foi derrotado. Agora Jacob estava preparado para enfrentar o seu irmão inimigo. Esse é, então, o significado principal deste episódio: A história de Israel ensina-nos que a verdadeira vitória do homem é aquela que ele consegue sobre si próprio.

Peniel: Encruzilhada, momento dramático para o espírito de Jacob. Já não estava satisfeito com a sua condição de filho de Isaac e neto de Abraão; desejava ter um nome que lhe pertencesse. Carregar com um significado completamente próprio e ligar-se a um evento que o imortalizasse.

Israel já não é decididamente o Jacob desorientado e sentimental que conhecemos até agora. Aprendeu a ser duro e determinado. A derrotar os seus adversários e inspirar respeito aos anjos. Sim, sem dúvida: Podia contemplar Peniel e lembrá-la com orgulho.

Conferência: As tribos perdidas de Israel

Por Oro Jalfon

Foi uma agradável surpresa para mim, uma judia sefardita que nunca teve que lutar para preservar o seu judaísmo, participar de uma conferência sobre «As Tribos Perdidas de Israel», que ocorreu em 24 de novembro no Centro Ma’ani, em Jerusalém.

Edith Blaustein, vice-diretora geral encarregada da administração da Shavei Israel, foi a oradora que nos apresentou, a um grupo de ouvintes fascinado à volta de uma mesa no escritório do centro, os périplos dos dispersos de Israel, na sua vontade de ferro de continuarem apegados à tradição judaica e na sua determinação de voltar para casa, Eretz Israel.

A partir da divisão do reino de Israel e do subsequente exílio das tribos, Edith evocou a rota da seda, um conjunto de redes comerciais que trouxeram migrações culturais e identitárias, entre as quais se destaca o estabelecimento de uma comunidade judaica na China, «Os judeus de Kaifeng».

A Shavei Israel assumiu o desafio de transcender importantes fronteiras físicas e culturais e de responder ao despertar para Sião dos membros desta comunidade. Assim, episódios comoventes, tais como a recusa das jovens chinesas à proposta das madrichot (guias) israelitas de irem fazer um tiul por Israel sem levarem guarda-chuvas (elas geralmente não apanham sol!), ou o pedido de um membro Kaifeng de não tirar fotos no primeiro casamento desta comunidade realizado em Eretz Israel, atestam as imensas dificuldades dessa tarefa heróica.

Os Bnei Menashé, outra odisseia! Os descendentes da tribo de Menashé, estabelecida desde o século XVIII no nordeste da Índia, em Manipur e Mizoram, vivem um momento de florescimento do retorno às origens, graças aos centros de aprendizagem estabelecidos pela organização Shavei Israel.

Durante a sua apresentação, a professora Edith Blaustein mostrou-nos uma fotografia do rabino Shlomo Amar, ex Grande Rabino Sefardita de Israel, junto aos membros de um grupo de Bnei Menashe. Após dois anos de pesquisa, ficou claro e foi decretado que a tribo de Menashé tem raízes judaicas, o que levou à conversão do primeiro grupo na história desta comunidade.

Esta importante palestra foi organizada por Chaya Castillo, diretora do Departamento de Bnei Anusim, dos Judeus da Polônia e do Centro Ma’ani, no âmbito de uma série de conferências intituladas Higanu habaita, «chegamos a casa»!

Não deixe de verificar o nosso site para conhecer os próximos eventos!

Parashat Vaietze

Elogios  a Lea

Autora: Edith Blaustein

Extraído do texto de Shulamit Hareven na Antologia Korot meBereshit, de Ruth Ravitzky.

Nos primeiros dias de Jacob, enquanto ainda tem a sua primeira identidade e não é Israel, há nele uma espécie de negação da discórdia. Uma negação da vida. Característica, diria um psicólogo moderno, do filho mimado da sua mãe, do filho preferido, cujo relacionamento com a sua mãe não é nem mais nem menos do que a vara com a qual ele mede o mundo.

Sem mais reflexão, o jovem Jacob assume o roubo, sem vacilar, sai ao caminho e chega à mesa do seu sogro (também irmão de sua mãe) quando trabalha para ele (estamos perante o primeiro retrato do que é uma relação entre sogro e genro).

Isaac também trouxe sua esposa através de um enviado (e não bebeu nem um copo de água na casa do seu sogro). Jacob não possui a independência masculina claramente estabelecida que caracteriza os líderes do povo. Também não é o criador de uma vida patriarcal, seu pai e avô não lhe serviram de exemplo. Ele é, pode dizer-se, um filho sem pai, «o filho da mamã», um homem cheio de imaginação, cuja força não se encontra no conflito direto. Ele é um homem encoberto.

A não aceitação das suas duas mulheres, Raquel e Lea, faz parte da negação do conflito em Jacob, uma parte do mundo imaginário em que ele se encontra.

Jacob diminui cada uma das irmãs: em Raquel recusa-se a ver a sua essência maternal; só vê a bela mulher por quem se apaixonou, e, em Lea, pelo contrário, só vê o aspeto maternal e não a sua dimensão de esposa / mulher.

O amor de Jacob por Raquel é o amor do sentimento (tão característico da adolescência).

Pelo contrário, Raquel não quer ser essa mulher que Jacob ama; ela não quer ser a mulher-mito, a mulher-menina: ela percebe muito claramente a pobreza humana essencial de uma situação fechada e coberta como esta, que não tem saída, e quer, expressamente, ser como sua irmã Lea.

Do ponto de vista simbólico, quando ela chega a Jacob com a exigência «Dá-me filhos, senão morro», ela está exigindo que ele pare de fazer dela a mulher extraída de sua imaginação errante, e que veja suas verdadeiras necessidades. Mas então «Jacob ficou muito zangado»: Zangou-se pelo próprio facto da exigência. Ele não lhe sugere que reze para ter um filho. Não lhe dá esperança alguma. Ele diz: Foi De’s quem te impediu de dar à luz. Noutras palavras, continua teimosamente a ver a esterilidade de Raquel como um princípio de De’s, como uma força especial, como uma parte da magia que é impossível mudar.

Em geral, Jacob não está inclinado a alterar situações, não discute com De’s, como fez Abraão no caso de Sodoma, ou como fez Isaac para pedir a De’s que abra o ventre de Rebeca. Jacob pensa que não tem o poder de mudar nada. Não tem forças para acreditar na possibilidade de uma mudança. Prefere permanecer na sua perceção de que existem forças mágicas que não estão sob seu domínio e que, portanto, não é obrigado a mudá-las.

Lea, cujos «olhos são meigos», numa leitura detalhada, não é aquela personagem fraca que só sabe ter filhos, que nós vemos assim, talvez por influência de Jacob, e que se projeta em nós até hoje.

A força vital de Lea é muito mais forte que a de Rachel, não só na sua fertilidade, que é consequência e não qualidade, mas na sua humanidade. Em nenhum texto é dito ou sugerido se Raquel tem forças para amar o seu marido. Raquel até vende a sua noite com o marido por umas mandrágoras. Lea ama-o e luta por ele. Aos olhos de Raquel, os filhos são o objetivo; aos olhos de Lea, os filhos são o meio para obter o amor de Jacob.

A personalidade realmente emotiva, possuidora da verdadeira força romântica, e não a aparente, de amor e de luta desesperada, é a de Lea e não a de Raquel.

Aos olhos de Lea, Jacob é marido só dela e ela não reconhece a ninguém o direito o partilhar (Ainda é pouco teres levado o meu marido?.. (Gen., 30:15) – como se ele também não fosse marido de Raquel). Este é a sua forma de amar.

Mas Jacob não via as coisas como eram; nunca percebeu que o mito que ele tanto desejava esteve sempre ao seu lado, na sua cama.

Lea é a «aborrecida», literalmente. Jacob persegue uma mentira, vai atrás de um engano de brilho luar distante, que nunca pode ser alcançado, já que que não vem de De’s, mas da magia. O próprio facto de as  mulheres de Jacob serem trocadas tem um certo esplendor. Ele passa uma noite inteira de amor com Lea-Raquel, sem perceber a diferença, e quando lhe mostram à luz do dia que a Raquel do seu coração é na verdade Lea, ele não percebe. Não entende o que lhe é pedido que entenda, não se curou do feitiço. A negação completa de qualquer conflito em que Jacob esteja envolvido obriga-o a continuar e a separar o «princípio Lea» do «princípio Raquel». Essa dicotomia enganosa, como se fossem princípios opostos, onde uma é a amada e a outra odiada, mantém Jacob preso. Na sua cama é criada a maldição da divisão, que será mantida posteriormente ao longo das gerações.

A força divina intervém aqui com dedicação. Como se quisesse ensinar a Jacob figurativamente que gastou todo o vigor da sua vida numa questão secundária: Raquel está enterrada na beira da estrada, enquanto Lea está enterrada no túmulo de Machpelá.

Parece que Jacob tivesse afastado Rachel para fora dos limites permitido e do possível, e assim introduziu nos seus filhos o princípio da diáspora. José, filho de Raquel, é retirado do círculo da vida na terra de Israel. A tribo de Efraim e a meia tribo de Menashé levam muito tempo para entrar em Israel. Eles não querem agir com energia, só quando são forçados a tomar o destino nas suas mãos, é que quebram o feitiço que pesava sobre Rachel e estabelecem-se permanentemente. O monte de Efraim nunca deixou de ser um lugar onde se praticava o paganismo. A diáspora está relacionada com os filhos de Rachel. E não apenas a dispersão, mas também esterilidade.

As duas mulheres estéreis mais importantes descritas mais adiante no Tanach são Chana, mãe de Samuel, e Michal, a filha de Saul. Ambas descendentes de Raquel, porque Chana pertence à tribo de Efraim e Michal à de Benjamim.

O fundamento da beleza e esterilidade da casa de Saul é um princípio totalmente pertencente a Raquel; embora Michal, filha de Saul, seja a única mulher no Tanach sobre a qual se diz (duas vezes) que amou um homem. À primeira vista, amou-o e exigiu ser dele. Apesar dessa tremenda independência, a maldição que pesava sobre Raquel permaneceu nela.

Como nos foi sugerido através das gerações, Raquel representa a esterilidade da diáspora. Mas os filhos de Raquel receberam uma compensação muito grande: beleza e graça pessoal, além da compensação monetária; não deveriam ser punidos porque não pecaram em nada.

Mas o ciclo da vida estabelece que o grande evento histórico, a revelação divina e não a mágica, tenha permanecido ao longo das gerações entre os filhos de Lea.

É comum no Tanach que um homem com uma responsabilidade histórica tenha algo mudado em seu nome. Então Abrão é Abraão, Sarai é Sara, Oshea é Yeoshua. Jacob é o único que, com sua entrada na corrente histórica, não recebe nenhuma mudança em nenhuma letra de seu nome, mas recebe uma mudança completa de identidade. Mais uma vez, a intervenção divina aparece, desta vez projetada em forma simbólica, quando o seu nome é mudado de Jacob para Israel após a sua luta com De’s.

Quando seu nome é mudado pela primeira vez, após a luta solitária na margem do rio, parece que o facto ainda não se enraizou: Jacob não muda. Coxeando e teimoso, continua à sua maneira. É necessária mais uma intervenção divina, e isso ocorre em Bet-El. Então Jacob é declarado Israel. Desta vez, da boca do próprio Santo, Bendito Seja.

Não há mais escapatória; deve enfrentar seu destino histórico, tornar-se um povo.

Mas, o que acontece imediatamente depois de Bet-El? A uma curta distância de ali, Raquel morre, ou como Jacob mais tarde dirá: «Raquel morreu-me». Literalmente: Raquel, a imaginária, aquela que nunca existiu, a Raquel da sua fantasia, «morreu para ele» no seu interior, ao lado da verdadeira Raquel (e, sem dúvida, infeliz), para que ele pudesse começar sua missão como Israel. E então a primeira coisa que ele faz é ir ver Isaac, seu pai. Retorna à fundação patriarcal. Ele não tem mais medo de Esav. Ele é Israel, que pode enfrentar os conflitos em sua vida. Isaac morre e ele é seu herdeiro.

Nem ouvimos dizer que Jacob-Israel chora Raquel com um lamento especial. Ele, artífice da palavra, não diz nada. Apressa-se a enterrá-la, coloca uma lápide, «e Israel viaja.» Não há descanso; o amor mágico foi enterrado numa sepultura apressada. O local onde uma pessoa é enterrada é muito importante para Jacob, ele é muito cuidadoso.

Este é o fim amargo de uma fantasia, que é enterrada rapidamente e sem lamentação ou choro.

Mas nenhum homem muda a sua maneira de ser de um dia para o outro, muito menos um homem como Jacob. Em pouco tempo volta a desviar-se com o episódio de José e, de certa maneira, também com  Benjamim.

Mais uma vez ele divide, novamente prefere o sentido mágico pessoal em detrimento da realidade que lhe é destinada, que entretanto se revestiu de uma maneira muito tangível: um grupo de filhos que estão zangados.

Ele renova o feitiço nos filhos de Rachel. E não lhes faz nenhum bem com isso. Joseph é punido pelos sonhos, pelos de seu pai e pelos dele. A punição é a diáspora. Jacob também, no final de sua vida, não pôde manter sua casa na Terra de Israel.

Ele não é um dos escavadores de poços, como seu pai e avô. Eles cavaram poços, ele colocou lápides. E terminou sua vida na diáspora, abrigado sob o poder de seu filho, que, por sua vez, estava sob as ordens de um governante estrangeiro. Realmente não é uma situação muito respeitável para o pai de um grande povo. No momento em que se desenvolve, com o apoio de Jacob, o fundamento de Raquel, todos descendem à diáspora.

Pode-se dizer que José é, em essência, o primeiro judeu diaspórico.

Viu-se inclusive obrigado a apoiar seus irmãos israelenses em momentos de necessidade. Nada de novo sob o sol.

Até à escravidão e a partida do Egito, o povo está sob a proteção temporária de um filho de Raquel. A redenção só pode vir das mãos de um filho de Lea: Moisés, da tribo de Levi. É ele quem reintegra o fundamento patriarcal e o princípio da terra. Ambos os princípios são sempre encontrados juntos na Bíblia: A terra de Canaã é a terra dos patriarcas, o local do monoteísmo.

José não saiu diminuído: as qualidades de Raquel, a inteligência, a rapidez, a graça que conquista o coração dos estranhos, tudo isso, juntamente com a recompensa material, são sinais da diáspora.

A possibilidade de se sair bem, de subir os degraus do poder estrangeiro, o carisma, têm sido  características de Raquel, a ladra do Trafim. (Em Gén., 31:19 Raquel rouba a seu pai estes elementos idolátricos que também são usados por Labão para adivinhação e feitiçaria).

Depois vem o trabalho forçado e a escravidão. De alguma forma, a diáspora vem de Raquel, uma consequência do erro do princípio da Raquel de Jacob, do engano. E não é em vão que Raquel é a mãe que chora por seus filhos exilados. Os filhos de Lea não foram para a diáspora? Sim. Mas aqui trata-se do sentido da diáspora: O distanciamento, a esterilidade, o temporal, são o eco do princípio de Raquel, consequência da mentira e da separação que aqui se encontram. A consequência é ficar de fora do grande «projeto» de De’s.

É muito estranho o modo como Jacob procurou com todas as suas forças, até seus últimos dias, perseverar na dicotomia sobre suas duas mulheres. De’s não lhe respondeu.

«As bênçãos de seu pai são mais importantes que as bênçãos de meu pai», diz Jacob a Joseph, e dá a ele e a seus filhos bênçãos de diferentes tipos. Mas antes de abençoar seus filhos, ele pede que seus netos, os filhos de Joseph, se coloquem de pé ao lado dos filhos de Lea, e não é atendido.

O divino não responde à magia privada. David constrói o reino e Moisés é o maior dos profetas, todos eles vêm dos filhos de Lea, Judá e Levi. O Monte do Templo e a capital não se encontrarão na herança dos filhos de Raquel. O Divino passou por cima do mágico e o deixou-o à beira do caminho.

O espírito, a poesia, a moral, o reinado, foram revelados aos filhos de Lea. E é claro que, no final, o próprio Jacob pede para ser enterrado ao seu lado, como se, em sua morte, ele mudasse e aceitasse a sentença divina. Permanece com seus antepassados, em sua terra e com sua verdadeira esposa.

A atração de Raquel é forte, vemo-lo em muitos escritores, que foram seduzidos por sua aparência. A imaginação continuou e a relevância poética foi atribuída a Raquel, e a qualidade «prosaica» a Lea. No entanto, essa diferenciação não tem fundamento. Não é atribuível a um fundamento poético, a diferença não passa de um engano. Há muita prosa turva e falta de imaginação, sem um remanescente de bondade, na essência de Raquel, a ladra dos Trafim. Até o ciúme e as disputas e o episódio das mandrágoras.

O nascimento e a morte da matriarca da estrada, quando a caravana quase não para. Por outro lado, há muita poesia na essência de Lea e na sua luta desesperada pela alma do homem que ama. Ela não tem esperança, porque Jacob nunca será um homem completo em sua alma, um homem com a bondade de De’s. Jacob diz ao Faraó que os anos de sua vida foram duros e amargos, e isso, é claro, é a verdade suprema. Um psicólogo moderno veria em suas contradições repetidas e não resolvidas a impossibilidade de se libertar da magia. Um relacionamento edipiano não resolvido, em sua impossibilidade de tolerar um conflito real, «conflito genital» em termos psicológicos, em sua falta de fé básica na possibilidade de mudança e em seu desejo de se sentir protegido até o fim de seus dias. Mas desta vez não estamos interessados em psicologia. Lea nunca conseguiu libertar Jacob do mundo assombrado em que ele estava preso, mesmo quando a força da moral e a energia da vida estavam do seu lado.

Muitos escritores continuaram no caminho do pecado de Jacob. Por exemplo, Tomas Mann em José e seus irmãos, sua preferência pelos belos e inteligentes deixa muitas suspeitas, enquanto os filhos de Lea recebem uma descrição quase caricatural. Ele insiste em ver a vitalidade nervosa especial dos filhos de Raquel como uma qualidade espiritual, e a dos filhos de Lea como um atributo materialista. Mann esquece que a graça que desperta a atenção e a estética não têm nada do divino no sentido mais elevado do termo, mas muito pelo contrário, é um tipo de compensação dada pela falta do divino.

A origem das qualidades espirituais, da essência divina, do princípio de Raquel, tem em vários autores um significado de olhar diaspórico. Uma linha direta leva-nos daqui a vários autores judeus norte-americanos dos nossos dias. Um olhar que prefere um princípio de beleza à força, imaginação à vitalidade, proteção estrangeira ao orgulho, astúcia ao simples. Pecam porque se separam entre duas possibilidades. Este é precisamente o pecado de Jacob, a dicotomia. Então, no seu tempo, Jacob transformou Raquel num mito, e Lea num monstro. Mann, entre outros, teima em ver os filhos de Lea como homens grandes que serviam apenas para a luta, um pouco tolos até. Isso é mais que um pecado literário, é uma cómoda filosofia de vida, sentimental, decadente, que não entra realmente em conflito com o princípio de Lea, pois é ela, e não outra, a fundadora da estirpe espiritual e física.

Parece que, precisamente, sua vida cinzenta, onde tudo é dado sem graça, sem coisas que se destacam, é o que reflete a verdade. E acaba sendo mais espiritual do que a graça vã e inteligente dos filhos de Raquel, fruto da imaginação de Jacob. Talvez tenha chegado a hora, do ponto de vista literário e metafísico, de rever mais de perto a essência de Lea e seus fundamentos.

Não a odiada pelo sonhador, mas, precisamente por causa dessa diferenciação, a amada pela força divina, destinada a ser a matriarca de uma grande religião e do grande povo. É a existência judaica em sua essência e sua surpreendente pluralidade, na qual a divisão de Raquel é incorporada às suas margens, porque tudo está incluído em Lea.

A antologia Korot meBereshit, mulheres israelenses escrevem sobre o livro Bereshit, compilado por Ruth Ravitzky, foi publicada por Iediot Ajronot, Tel Aviv, 1999.

Tradução livre de Edith Blaustein

Parashá Chaiei Sarah

Sara, a verdadeira vítima da Akedá

Autora: Edith Blaustein

Não é em vão que, imediatamente após a história da Akedá, «o amarrar de Isaac», somos informados de que Sara morreu aos cento e vinte e sete anos. Rashi explica que a morte de Sara é narrada logo depois da Akedá, porque, como resultado de o seu filho ter sido levado ao altar e ter estado prestes a ser sacrificado pelo seu pai, a alma de Sara deixou o seu corpo e morreu. E acrescenta: Sara é a verdadeira vítima da Akedá.

Podemos ver Sara, que sofreu esterilidade até uma idade avançada, nas palavras da poetisa Rachel Bluwstein, que em 1928 escreveu o poema Uri:

Se eu tivesse um filho! Um menino pequenino,

moreno, com o cabelo encaracolado e inteligente.

Se eu lhe pudesse dar a mão e caminhar com ele lentamente

pelos caminhos do jardim.

Um menino.

Pequenino.

Chamar-lhe-ia Uri, o meu Uri!

Delicado e claro é este curto nome.

Pedaço de luz.

Ao meu menino moreninho,

– Uri!

Chamarei!

Ainda sentirei amargura, como Raquel, a matriarca.

Ainda rezarei, como Chana em Shiló.

Ainda esperarei

por ele.