Parashat Matot-Masei

As viagens pelo deserto – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Sabemos que a Torá não é um livro de História nem de Geografia, então, para quê nos relata tão detalhadamente cada uma das viagens e paragens feitas pelos israelitas durante a sua travessia pelo deserto?

Que podemos aprender de tudo isso?

Na realidade, o facto de a Torá nos relatar todas e cada uma das paragens não é um mero capricho mas sim algo de muita importância.

Em primeiro lugar, vemos que a Torá nos relata com muita precisão cada paragem onde chegavam. Isto dá-nos uma prova sobre a veracidade da Torá, pois são citados lugares verdadeiros e conhecidos onde os filhos de Israel acamparam.

Em segundo lugar, podemos ver que durante os quarenta anos, a maior parte do tempo estiveram assentados, acampando em locais fixos. Não andaram a caminhar durante os quarenta anos.

O terceiro ponto é para nos demonstrar outra das maravilhas que De’s fez pelo povo de Israel, pois não só os tirou do Egito e dividiu as águas do Mar Vermelho, como também os conduziu pelo deserto, grande e terrível, durante quarenta anos, fazendo-os chegar a lugares bons. Não iam à deriva.

O quarto ponto é para nos ensinar que De’s cumpriu a promessa que fez aos nossos patriarcas, que enviou o Seu emissário para os tirar da terra do Egito e para os conduzir à Terra Prometida.

O quinto ponto é que tudo foi feito de acordo com a vontade de De’s, não foram andando errantes pelo caminho; por ordem de De’s acampavam e por ordem de De’s viajavam.

O sexto ponto é vermos que era De’s quem os fazia chegar a cada lugar, não chegavam a um lugar por acaso; foi De’s quem quis que chegassem a cada um desses lugares, mesmo àqueles onde não havia água para beber, e fê-lo para pôr o povo à prova e ensinar-lhes uma lição importante para aprender.

Por último, para demonstrar quão grande é o amor e a fidelidade do povo de Israel para com De’s, em palavras do profeta: Recordo a mercê dos teus pais, e o amor da tua mocidade, quando foste atrás de mim pelo deserto, terra que não se semeia.

Uma nação, diversas faces

Michael Freund é o fundador e presidente da Shavei Israel – www.shavei.org – um grupo com sede em Jerusalém que ajuda e dá a mão a «judeus perdidos» que procuram retornar ao povo judeu. A Shavei Israel está ativa em nove países ao redor do mundo com uma variedade de comunidades incluindo os Bnei Menashe do nordeste da Índia, os Bnei Anussim (ou «Marranos») de Espanha, Portugal e América do Sul; os judeus subbotnik da Rússia; os «judeus escondidos» desde a era do Holocausto, da Polónia, os descendentes de judeus de Kaifeng, na China e outros. Além disso, Freund é correspondente e colunista do Jerusalem Post, e foi anteriormente vice-diretor de comunicações no Gabinete do Primeiro Ministro de Israel Binyamin Netanyahu, durante o seu primeiro mandato. Este artigo aparece na 7ª edição de Conversations, a revista do Institute for Jewish Ideas and Ideals.

Há mais de 20 anos, como estudante de licenciatura na Universidade de Princeton, encontrei-me a dividir quarto com um jovem luterano de Iowa, brilhante e religioso. Éramos, com certeza, uma dupla um tanto incomum, e ele nunca conseguiu entender o porquê de eu correr para os serviços de oração todos os dias, ou verificar os ingredientes de vários pacotes de comida. Mas ele era do tipo cosmopolita e estudioso, a sua mesa estava constantemente repleta de livros, e sua inteligência impressionante e curiosidade sobre o mundo originavam muitas vezes conversas intrigantes.

Por isso, quando lhe perguntei quantos judeus achava que moravam na América, fiquei bastante surpreendido quando ele respondeu, com toda a seriedade: – Deve haver pelo menos 50 milhões de judeus neste país. – Quando lhe pedi para explicar as bases do cálculo, o meu amigo encolheu os ombros e disse: – Bem, eu cresci numa cidade no meio da América. O nosso médico de família era judeu, o advogado do meu pai era judeu e o contabilista dele também. Há tantos judeus proeminentes em tantos campos, que simplesmente deve haver 50 milhões ou mais dos vossos por aí – Acrescentou. Somente depois de lhe mostrar um livro de referência que mencionava a população judaica mundial como sendo de aproximadamente 13 milhões, é que ele admitiu ter errado por muito na sua estimativa.

Costumo refletir várias vezes sobre essa conversa, uma vez que a mesma abordou algumas questões fundamentais, tais como a perceção sobre os judeus, o nosso papel na sociedade e o impacto que nós, como povo, exercemos sobre o mundo. Mas penso que isso, por sua vez, levanta outra questão, talvez até ainda mais importante, e que raramente é abordada com a seriedade que merece: Será que realmente interessa quantos judeus existem no mundo?

Tradicionalmente, é claro, nunca demos muita ênfase ao tamanho ou à dimensão do povo judeu. Nos últimos 2000 anos, vivendo à mercê dos outros, temo-nos concentrado mais na qualidade do que na quantidade. É por isso, possivelmente, que muitos judeus tendem a desconsiderar ou minimizar a importância dos nossos números, argumentando que o que realmente interessa é se estamos a trabalhar eficazmente para cumprir o nosso destino nacional. [I]

Mas eu acredito que esse modo de pensar é produto do exílio, uma função do facto de termos estado mais preocupados em sobreviver do que em prosperar, durante a longa e escura noite das nossas peregrinações em terras estrangeiras. Durante o processo, fomos perdendo de vista o papel importante que os números podem ter, e de facto têm, na vida de uma nação. E chegámos ao ponto de elevar a nossa fraqueza numérica até transformá-la num valor, infundir-lhe significado e agora considerá-la o ideal.

Nem as fontes nem a história judaica justificam essa visão, e está na hora de revisitarmos esta questão, não apenas porque é um exercício intelectual interessante, mas também devido à importância crítica que ela tem para moldar as políticas da nossa comunidade, o nosso futuro e a nossa visão do mundo.

É um princípio bem conhecido da crença judaica que o Criador escolheu o povo judeu para ser o Seu instrumento especial neste mundo. – E vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa – [ii], disse De’s a Moisés para ele dizer a Israel antes de lhes entregar a Torá no Monte Sinai.

Mais tarde, no livro de Devarim, o relacionamento especial de Israel com De’s é descrito em termos ainda mais íntimos: Vós sois os filhos do Senhor vosso De’s (…) Sois um povo santo ao Senhor vosso De’s, e o Senhor vos escolheu para que sejam o Seu próprio tesouro, de entre todos os povos que estão sobre a face da terra. [iii]

A partir desses versículos, fica claro que De’s não escolheu apenas uma família ou uma pequena tribo para servir os Seus propósitos neste mundo. Ele escolheu uma nação inteira, o povo de Israel. Então, vemos que obviamente é necessário um conjunto mínimo de pessoas para realizar a nossa missão sagrada, senão Ele poderia facilmente ter colocado a responsabilidade sobre apenas algumas poucas pessoas.

Por outras palavras, os números são importantes. Os críticos muitas vezes atacam esta linha de pensamento, afirmando que ter quantidade sem qualidade é de pouco valor para garantir o futuro judaico. Mas o que eles não percebem é que o oposto é igualmente verdadeiro. Um povo judeu pequeno e encolhido, consistindo apenas de um pequeno núcleo de membros comprometidos, dificilmente será capaz de enfrentar os desafios e ameaças à nossa sobrevivência, sejam eles físicos ou espirituais.

E talvez seja por isso que De’s prometeu aos patriarcas Abraão, Isaac e Jacob que o povo judeu seria um dia tão numeroso quanto as estrelas do céu ou a areia da praia. Só então poderemos estar em posição de cumprir o nosso papel.

De facto, mesmo uma leitura superficial da Torá e dos seus comentários revela que a força demográfica do povo judeu é repetidamente enfatizada nas promessas de De’s aos nossos antepassados:

E farei a tua semente como o pó da terra, assegura De’s a Abraão, dizendo-lhe: De tal modo que, se alguém puder contar o pó da terra, também poderá ser contada a tua descendência. [iv] Rashi entende essa promessa como literal, não metafórica, e explica o verso da seguinte forma: Assim como o pó não pode ser contado, assim também a tua semente estará além da contagem. [v]

Promessas semelhantes foram feitas a Isaac e Jacob [vi], e, quando Moisés se dirigiu a Israel antes da sua morte, também profetizou que De’s iria multiplicá-los «mil vezes» [vii]. Isso, diz Netziv, é uma promessa que diz respeito à qualidade e também à quantidade do povo judeu. [viii]

Mais de um milénio depois, durante o período herodiano, o povo judeu de facto cresceu e tornou-se uma força considerável no cenário mundial. Como notou o historiador Paul Johnson:

Um dos cálculos é que, durante o período herodiano, houvesse no mundo cerca de oito milhões de judeus, dos quais 2.350.000 a 2.500.000 viviam na Palestina, constituindo assim os judeus cerca de 10% do império romano. Esta nação em expansão e a diáspora fervilhante foram as fontes da riqueza e influência de Herodes. [ix] (negrito do autor)

É interessante notar que, aproximadamente na mesma época, o censo que os historiadores descrevem como o mais antigo do mundo preservado até aos nossos dias foi efetuado na China, no oitavo mês do ano 2 EC [x]. Segundo esse censo, havia um total de 57,5 milhões de chineses, ou seja, sete chineses por cada judeu vivo da mesma época.

Saltemos para frente 2000 anos até o presente, e os números são, claro, bastante diferentes, com a China tendo subido para mais de 1,1 mil milhões de pessoas, enquanto os judeus não chegam a mais de 13 milhões de almas no mundo inteiro.

Escusado será dizer que a diferença é atribuível a todas as expulsões e perseguições que nos têm cabido em sorte, que eliminaram um sem-número de judeus, deixando apenas um pequeno remanescente do que poderíamos ter sido.

Esta triste realidade foi colocada ainda mais em evidência no ano passado, quando o ilustre demógrafo Sergio Della Pergola, da Universidade Hebraica, divulgou um estudo arrepiante que concluiu que, se não fosse pelo Holocausto, haveria 32 milhões de judeus no mundo hoje. [xi]

O Holocausto, escreveu ele, causou um golpe mortal, particularmente nos judeus da Europa Oriental, devido à sua estrutura especialmente jovem. Isso, disse ele, causou danos demográficos significativos a longo prazo com ramificações muito para além do que estimamos.

De fato, como Della Pergola notou, a percentagem de judeus no mundo está hoje em constante declínio. Enquanto que antes da Segunda Guerra Mundial havia oito judeus por cada mil pessoas não-judias no mundo, o número agora é de apenas dois por cada mil, e a tendência é decrescente.

Estes dados são uma lembrança oportuna e angustiante da destruição inimaginável que o Holocausto causou. Não só reivindicou os seis milhões que foram assassinados pelos alemães e seus colaboradores, mas também subtraiu os seus filhos, netos, e todos os seus descendentes, privando para sempre o povo judeu de milhões de preciosas almas. Por outras palavras, a abrangência dos assassinatos, ampliada ao longo do tempo, torna-se cada vez mais extensa e incompreensível.

Imagine um mundo com um povo judeu vibrante e vasto, com mais do dobro do seu tamanho atual, sem ser perseguido pela constante ameaça da diminuição demográfica e da assimilação.

Considere por um momento as riquezas culturais e espirituais que estaríamos a produzir, as poderosas contribuições intelectuais e cerebrais para a humanidade que poderíamos estar a efetuar, e começará a perceber a verdadeira dimensão do que se perdeu.

De algum modo, ao longo dos séculos, na diáspora, enquanto fomos sendo coletivamente destruídos,  parece que nos afastámos desta abordagem. Mas talvez agora seja o momento de começar a pensar novamente nela. Afinal, os números contam sim, seja no basquetebol, nos negócios ou na diplomacia internacional. E, para fazer a diferença no mundo e cumprir a nossa missão nacional divina na nossa qualidade de judeus, precisamos de ter uma «equipa» muito maior e mais diversificada à nossa disposição.

Isto significa que não só precisamos de nos esforçar mais para manter os judeus judeus, mas também precisamos de expandir os nossos horizontes e procurar maneiras, em conformidade com a halachá, de aumentar os nossos números.

Um bom lugar para começar seria com descendentes de judeus, com comunidades que têm uma conexão histórica com o povo judeu e que agora estão interessados em retornar. Estes incluem os Bnei Menashe do nordeste da Índia, descendentes de uma tribo perdida de Israel, os Bnei Anussim de Espanha, Portugal e América do Sul (a quem os historiadores se referem pelo termo depreciativo «Marranos»), os Judeus Ocultos da Polónia da era do Holocausto, e outros.

Sem terem culpa nenhuma, os antepassados destas pessoas foram retirados à força do povo judeu, e nós temos o dever, para com eles e para com os seus descendentes, de os incluir e de lhes dar a oportunidade de voltarem para casa. Fazer isso não só corrigirá um erro histórico, mas também nos fortalecerá, numérica e espiritualmente.

Isto não é uma chamada ao proselitismo, nem um apelo para começarmos a converter gentios. A ideia é abrir a porta aos nossos irmãos perdidos, conhecidos como Zera Yisrael («a Semente de Israel»), e reforçar o vínculo entre nós.

Veja, por exemplo, os Bnei Anussim, cujos antepassados foram convertidos ao catolicismo à força durante os séculos XIV e XV em Espanha e Portugal, mas que continuaram a preservar a sua identidade judaica em segredo ao longo de gerações e gerações. Cinco séculos depois, um número crescente dos seus descendentes está a sair das sombras, procurando recuperar a sua herança judaica há muito perdida.

É um fenómeno de proporções inéditas, que se estende de Lisboa a Lima e de Madrid ao México. Em todo o mundo de língua espanhola e portuguesa surgem cada vez mais pessoas a querer explorar as raízes judaicas das suas famílias, que muitas vezes foram enterradas sob o peso da história.

A verdadeira dimensão dessa herança judaica foi evidenciada pelas descobertas de um notável artigo académico publicado no American Journal of Human Genetics no final de 2008, no qual uma equipa de biólogos declarou que 20% da população de Espanha e Portugal tem origem judaica sefardita [xii]. Como as populações destes dois países somadas excedem 50 milhões, isso significa que mais de 10 milhões de espanhóis e portugueses são descendentes de judeus.

Estas não são especulações mirabolantes, mas sim resultados puros e duros saídos diretamente duma placa de Petri dum laboratório. O estudo, liderado por Mark Jobling, da Universidade de Leicester, na Inglaterra, e Francesco Calafell, da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, analisou os cromossomas Y dos sefarditas em comunidades para onde os judeus tinham migrado após a expulsão de Espanha em 1492. As suas assinaturas cromossómicas foram então comparadas com os cromossomas Y de mais de 1.000 homens que vivem por todo o território de Espanha e Portugal. Como o cromossoma Y é passado de pai para filho, os geneticistas foram capazes de medir os dois grupos contrastando-os um com ou outro, levando à descoberta notável de que um quinto dos ibéricos é de ascendência judaica.

Pense nisso: é como se, de repente, um grande espelho tivesse sido colocado à frente de todos os espanhóis e portugueses, forçando-os a olhar para si mesmos e a ver a realidade da sua história nacional e individual.

Mas ainda mais interessante do que o que isto nos diz sobre o passado é o que pode dizer-nos sobre o futuro. Se Israel e o povo judeu empreenderem um esforço conjunto de estender a mão aos nossos irmãos genéticos da Península Ibérica, isso poderá ter um impacto profundo em vários de campos. O próprio facto de um grande número de espanhóis e portugueses ter ascendência judaica pode ter um efeito significativo sobre as suas atitudes em relação aos judeus e a Israel.

Como presidente da Shavei Israel, que trabalha com «judeus perdidos» ao redor do mundo, eu tenho visto isso várias vezes – quando uma pessoa descobre, ou redescobre, as suas raízes judaicas, desenvolve inevitavelmente uma certa afinidade com o povo judeu e uma maior simpatia por Israel e pelas causas judaicas. Obviamente, nem todos os milhões de descendentes de judeus vão querer ir a correr converter-se ao judaísmo ou tentar fazer aliá. Mas alguns, sem dúvida, retornarão ao nosso povo e fortalecerão as nossas fileiras.

A ideia de que estes «judeus perdidos» finalmente retornarão é antiga e está profundamente enraizada no pensamento judaico, mesmo que a maioria de nós não se aperceba disso.

Veja, por exemplo, a visão do profeta Isaías de que Naquele dia tocará um grande shofar e virão os que estavam perdidos na terra da Assíria e os que foram dispersos na terra do Egito, e se curvarão diante de De’s no monte santo em Jerusalém. [xiii] De acordo com Rashi, a primeira parte do versículo (os que estavam perdidos na terra da Assíria) significa aqueles que foram dispersos muito além do Rio Sambatyon [xiv], uma referência às Dez Tribos Perdidas de Israel que foram para o exílio há mais de 2700 anos [xv]. Por outras palavras: os seus descendentes, apesar de terem estado perdidos durante tantos séculos, na verdade regressarão.

O mesmo vale para os Bnei Anussim. O grande Don Isaac Abarbanel, que testemunhou a expulsão dos judeus de Espanha em 1492, escreve comovedoramente no seu comentário ao Sefer Devarim que muitos dos Bnei Anussim serão misturados entre eles [isto é, entre as nações] e considerados como eles, mas nos seus corações eles retornarão a De’s (…) e aqueles que deixam a religião [isto é, o judaísmo] por compulsão, sobre eles está escrito «e Ele retornará e os reunirá de entre os povos.» [xvi]

O ilustre rabino Tzadok HaKohen, de Lublin, vai ainda mais longe, afirmando que todos os descendentes de judeus retornarão um dia ao nosso povo. Na sua obra Resisei Layla, escreve que isso inclui até mesmo aqueles que são descendentes de judeus sem o saber: Porque de todos aqueles que são da Semente de Israel, ninguém será banido. [Xvii]

Desde o seu início, a nação de Israel foi dividida em 12 tribos, cada uma com as suas características, talentos e bênçãos únicas. De’s, na Sua sabedoria suprema, considerou necessário que o nosso povo fosse forjado em unidade através da diversidade, como uma orquestra composta de músicos diferentes, onde cada um toca o seu próprio instrumento, apesar de estarem todos a tocar a mesma música.

O mundo em que vivemos está a ficar cada vez mais pequeno, graças ao alcance da Internet. Para florescer nesta aldeia global, precisamos de judeus chineses, indianos e polacos tanto quanto de judeus americanos e australianos. Somos uma nação com muitas faces, e temos que aprender a fazer da nossa diversidade uma alavanca e a encará-la como uma força e não como uma fraqueza. Podemos nunca conseguir igualar a demografia da China, mas podemos e devemos procurar novas oportunidades de crescimento. É por isso que chegou a hora de empreender um esforço concertado de aproximação para com os descendentes de judeus.

O nosso estado precário como povo e as ameaças que enfrentamos no nosso país e no exterior assim o exigem. E assim o exige também, devo acrescentar, o nosso destino.

[i] Veja, por exemplo, Size is not the issue, de Jonathan Rosenblum, The Jerusalem Post, 8 de maio de 2009.

[ii] Shemot 19: 6

[iii] Devarim 14: 1-2

[iv] Bereshit 13:16

[v] Rashi, Loc. Cit.

[vi] Para a promessa a Isaac, veja Bereshit 26: 4; para a promessa a Jacob, Bereshit 28:14.

[vii] Devarim 1: 10-11.

[viii] Veja Haemek Davar de Netziv, Loc. Cit.

[ix] Paul Johnson, História dos Judeus (New York: Harper, 1988), 112.

[x] Denis Crispin Twitchett, Michael Loewe e John King Fairbank, The Cambridge History of China, Volume Um: The Ch’in and Han Empires 221 BC-AD 220 (New York, Cambridge University Press, 1986), 240.

[xi] Veja How many Jews would there be if not for the Holocaust?, Haaretz, 19 de abril de 2009.

[xii] S. Adams, E. Bosch, P. Balaresque, S. Ballereau, A. Lee, E. Arroyo, A. López-Parra, M. Aler, M. Grifo, M. Brion, The Genetic Legacy of Religious Diversity and Intolerance: Paternal Lineages of Christians, Jews, and Muslims in the Iberian Peninsula no American Journal of Human Genetics, Volume 83, Número 6, Páginas 725-736

[xiii] Isaías 27:13.

[xiv] Rashi, Loc. Cit. Para outros exemplos, veja o comentário de Radak sobre Jeremias 3:18 e o Metsudat David em Zacarias 10: 6.

[xv] Veja II Reis 18: 9-12.

[xvi] Veja Abarbanel sobre Devarim 30: 1-5.

[xvii] Veja Resisei Layla, letra Nun.

Parashat Pinchas

A escolha de Yehoshua – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Yehoshua pertencia à tribo de Efraim. A primeira vez que a Torá menciona Yehoshua é no contexto da guerra contra Amalec, logo após a saída do Egito. Vemos que se trata de uma pessoa ágil na luta, que é valente e que merece a confiança de Moisés e do povo. Por isso foi colocado à frente do exército contra Amalec.

Moisés, por ordem de De’s, abençoá-lo-á, para que ele tenha força e valentia. Assim está relatado no primeiro capítulo do livro de Yehoshua.

É forte e valente.

Teve sucesso em todas as guerras e os povos temeram-no, tal como De’s tinha predito. 

De onde provêm a força e a valentia de Yehoshua?

Na primeira guerra contra Amalec, a Torá relata-nos que quando Moisés levantava as suas mãos para o céu, triunfava Israel. Quer dizer que Yehoshua recebe uma influência espiritual do céu. A figura de Moisés é muito influente nele. Também cumpriu a sua missão até ao fim: matou todos os amalequitas que saíram ao seu encontro. Não fez como Saul, que deixou o rei vivo. Yehoshua é um enviado fiel que cumpre a sua missão até ao fim.

Quando Moisés sobe ao monte, Yehoshua sobe com ele até determinado ponto, depois fica ali à espera que Moisés regresse. Tem uma fidelidade e uma proximidade muito grandes a Moisés.

Era tal o apego de Yehoshua a Moisés, que se desliga de todos durante 40 dias, até ao ponto em que, quando Moisés voltou e se escutaram as vozes vindas do acampamento, Yehoshua se preocupa, e pensa que o povo está a ser atacado. Inquieta-se e preocupa-se pelo povo. Não pensa mal deles; o seu primeiro pensamento é que o povo está em perigo.

Outro detalhe que a Torá nos mostra é que Yehoshua não se separava de tenda de Moisés. Era como se fosse o seu guardião, como os Cohanim que cuidam do santuário.

Depois, De’s diz a Moisés: Yehoshua, aquele que está de pé diante de ti… Quer dizer, está sempre a servir Moisés e não se afasta dele.

Mais à frente vai dizer: Yehoshua, o servo de Moisés. E noutra passagem, diz ainda: Yehoshua, que serve Moisés desde a sua mocidade.

De onde vem este apego tão grande a Moisés?

Quando alguém se apega muito a outra pessoa é porque gosta muito dela e a tem em alta estima. Até ao ponto de Yehoshua zelar por Moisés, e quando os dois sábios que tinham sido selecionados para estar perante Moisés ficam e profetizam no acampamento, diz a Moisés que os aprisione. Assim como Pinchas zela por De’s, Yehoshua zela por Moisés.

O apego e vontade de servir Moisés chega ao ponto de que a Torá não nos diz que ele fosse casado ou que tivesse filhos, pelo menos durante o tempo em que Moisés foi vivo.

A Torá conta-nos que Moisés lhe mudou o nome, de Hoshea para Yehoshua, da mesma maneira que um pai escolhe o nome para o seu filho. Hoshea quer dizer «que salva». Yehoshua quer dizer «que De’s salva». Moisés ama Yehoshua como a um filho.

Yehoshua sempre viveu à sombra de Moisés. Não tem mal nenhum ser o segundo. Tal como diz o rei Salomão, é melhor ser cauda de leão do que cabeça de lobo. Não sempre aquilo que é novo e inovador é o que é importante; manter e continuar também é um grande objetivo.

Mas Yehoshua não é só uma sombra de Moisés. Vemo-lo a agir por iniciativa própria, por exemplo no caso dos espiões, quando, ao ouvi-los, rasga as suas vestes. Isto demonstra-nos que tem critério próprio, não vai atrás da maioria, não se deixa levar.

Para além disso, não fica calado; congrega todo o povo em torno de Moisés e fala-lhes palavras de valentia e de fé em De’s. Arrisca-se, e, apesar de o povo o querer linchar, ainda assim continua a falar.

Aí mesmo, De’s declara que ninguém entrará na terra de Israel, à exceção de Caleb e Yehoshua, pois eles foram fiéis a De’s. Quer dizer, não é que o faça por Moisés; o que Yehoshua tem na sua mente e o que o conduz é De’s, e como Moisés é o servo fiel de De’s, então, Yehoshua apega-se a ele.

Em Devarim 31:3 diz: O Senhor teu De’s irá diante de ti. Ele aniquilará os povos que estão diante de ti e os herdarás. Yehoshua, ele passará diante de ti, tal como De’s o disse. Vemos que, por um lado, a Torá diz-nos que Deus irá diante do povo, e, seguidamente, diz que Yehoshua irá diante deles, quer dizer, Yehoshua é o servo fiel de De’s, que faz exatamente o que De’s lhe ordena; é como se De’s o estivesse Ele próprio a fazer.

Yehoshua tem um grau de proximidade e providência divina muito altos, pois De’s assegura-lhe: Eu estarei contigo, tal como estive com Moisés.

Tal como com Moisés, De’s divide as águas do Mar Vermelho para o povo passar por terra seca. Também com Yehoshua, De’s divide o rio Jordão para o povo passar. Mais ainda, vemos no livro Yehoshua, 10, que De’s acede ao pedido de Yehoshua, quando este Lhe pede que o sol e a lua se detenham até que acabem a batalha. De’s faz por ele um milagre de tal magnitude que o sol e a lua se detêm.

Talvez o famoso sonho de Yossef, no qual ele vê que o sol e a lua se prostram diante dele, se cristaliza com Yehoshua, que é descendente de Yossef, pois Yehoshua ordenou que o sol e a lua se detivessem no céu e eles obedeceram como se fossem seus servos.

Tal como Moisés, em Yehoshua 24, ele foi chamado Servo de Deus. Mais ainda, é-nos dito que todo o povo de Israel serviu a De’s todos os dias de Yehoshua (nem com Moisés o povo chegou a esse nível, pois o próprio Moisés disse Até hoje não estão com De’s)

Como corolário de tudo isto, a virtude e a qualidade mais alta a que Yehoshua chega é que atinge o grau de profecia. Este é o nível mais elevado que o ser humano pode alcançar.

Este grau de profecia era um nível muito alto, pois, numa oportunidade, De’s fala-lhe com o mesmo nível de profecia de Moisés, Diber, enquanto que com o resto dos profetas utiliza-se sempre o termo Vaiomer.

O livro de Yehoshua diz-nos que De’s fala com Yehoshua catorze vezes.

Este é o significado de Um homem dotado de espírito, tal como diz o versículo 34:9: Yehoshua estava cheio de espírito de sabedoria. Quer dizer, era tão sábio que chegou a esse nível tão alto. Yehoshua sabia que De’s é o mais elevado, o mais verdadeiro e o único a que vale a pena apegar-se. Aquele que estava mais apegado e que mais sabia acerca de De’s era Moisés. Portanto, ele decide não se afastar de Moisés, para assim poder aprender e saber mais acerca da divindade.

É por tudo isto que Deus escolhe Yehoshua. Não se trata de algo gratuito, mas sim de que Yehoshua realmente era o indivíduo mais digno de suceder a Moisés. Não porque estava fisicamente próximo dele ou porque era o seu servidor, ou por favoritismo, mas sim porque Yehoshua, graças ao seu esforço, era o mais digno para ocupar esse posto.

Era um líder valente, fiel a De’s, com os objetivos bem claros e imbuído do espírito de De’s.

Parashat Shelach Lecha

A missão dos espiões  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

A primeira questão que temos que descartar é que Moisés tivesse alguma dúvida acerca de se tratar de uma boa terra. Portanto, o objetivo de Moisés ao enviar os espiões tinha que ser outro; o que ele pretendia era que o povo se entusiasmasse com a terra e se mostrasse desejoso de nela entrar.

Ele esperava que os espiões voltassem com a descrição da terra; é por isso que Moisés lhes diz que investiguem como é o povo que vive ali, se é forte ou fraco, se são muitos ou poucos. A intenção de Moisés não era uma questão de estratégia de guerra. Ele sabe que De’s está com eles e que De’s vai cumprir a Sua promessa de lhes entregar essa terra. O que ele quer demonstrar ao povo é que se trata de uma boa terra, que as pessoas que vivem lá são saudáveis e fortes; não se trata de uma terra que não fornece bom alimento ou bom clima aos seus habitantes. Além disso, ao dizer-nos que são muitos, isso demonstra-nos que há abundância e comida para todos.

O que Moisés pretendia também com o relatório dos espiões era que ficasse demonstrado que esta é uma terra que tem abundância de água e de frutos.

É por isso que é tão específico, e lhes diz que subam pelas montanhas. Como sabemos, a topografia da Terra de Israel tem uma cadeia montanhosa que atravessa o país de Sul a Norte, pela metade, desde Hebron até Haifa. A ideia de Moisés é que vejam a terra em geral. É por isso que lhes diz que vão pelas montanhas, porque desde o topo iriam poder observar em linhas gerais todo o país. Era uma missão que deveria ter durado poucos dias. No futuro, quando Josué envia dois espiões, estes regressam passados poucos dias, e, se não tivessem tido que se esconder do rei de Jericó, poderiam ter regressado ainda mais cedo.

No entanto, quando os espiões regressam ao cabo de quarenta dias, dão-nos um relatório detalhado de onde está instalado cada povo, falam-nos do Sul, do Oeste, (a zona costeira), do Este, (rio Jordão), e do Norte. Vemos que na realidade não andaram só pelas montanhas como Moisés lhes tinha recomendado, mas sim por todo lado, e foram muito específicos.

O que podemos ver claramente é que a intenção com que Moisés enviou os espiões era completamente diferente daquela que eles tinham em mente. Enquanto o objetivo de Moisés era incentivar o povo, os espiões tinham um objetivo de estratégia militar. Estavam preocupados pela guerra e por saber se tinham possibilidades de derrotar os cananeus.

Quando vêem que os povos da Terra Prometida são fortes e numerosos ficam desanimados, com medo, e contagiam o resto do povo dessa sensação.

Se prestarmos atenção veremos que no relatório dos espiões estão descritos os limites da Terra Prometida. Transmitem a ideia de que não vão ter por onde entrar; todas as fronteiras da Terra de Israel são impenetráveis; estão bem povoadas e bem defendidas. Em conclusão, não têm hipótese de poder entrar.

É devido ao facto de, na sua mente, terem um objetivo militar, que demoram tanto tempo. Deveriam ter voltado passados poucos dias, mas demoraram quarenta dias. É por isso que De’s se zanga com eles, e dá-lhes esse castigo dos quarenta anos. Além disso, esse lapso de tempo é o que vai permitir o surgimento de uma nova geração.

Isto poderia responder à contradição entre o que está escrito na nossa parashá e o que está escrito em Devarim. Aqui é-nos relatada a intenção com que Moisés enviou os espiões, para incentivar o povo. Em Devarim é-nos relatada a iniciativa do povo, que era uma questão de estratégia militar.

O que todo este acontecimento nos demonstra, é que aquela geração não estava pronta para entrar na Terra Prometida. Não é que De’s os tenha feito cair; tudo foi um nissaión, uma prova, para ver se estavam preparados. Tristemente, demonstraram que ainda não estavam preparados. Conservavam os seus medos e ainda não tinham suficiente confiança em De’s. É por isso que deverão esperar até que surja uma nova geração que esteja pronta para entrar na Terra de Israel.

Parashat Behaalotecha

A eleição do Sanedrin e o pedido de carne  – Retirado do livro Ideas de Bamidbar, dos rabinos Isaac Sakkal e Natan Menashe

Logo que o tabernáculo foi instaurado e os Leviim foram consagrados para o serviço divino, instala-se um dilema na mente do povo (algo que ainda hoje em dia muitos se perguntam): «Se o povo não vai estar tão próximo de De’s, já que agora tudo se centra no tabernáculo, e além disso o povo não vai servir a De’s lá, mas sim quem servirá serão apenas os Leviim, então para quê esforçar-se tanto e impor-se tantas privações, se de todas as maneiras nunca vamos chegar ao nível de poder servir no tabernáculo e estar próximos de De’s?»

As pessoas do povo estavam dispostas a fazer um esforço e a privarem-se de coisas se com isso pudessem ganhar algo, quer dizer, chegar a um «bom posto», um status social melhor, ou uma categoria espiritual mais alta (Maamad), senão não se justificaria tanto esforço.

A resposta de De’s a este dilema é selecionar setenta sábios junto a Moisés para a condução do povo. Isto serve para demonstrar que não só os Leviim têm uma categoria elevada, mas sim que aqueles que andam pelos caminhos de De’s também podem chegar a um alto nível dentro do povo e, na realidade, essa é a verdadeira honra, já que o conseguiram por esforço próprio e não pela sua linhagem.

Portanto, o objetivo de De’s é que o povo chegue a este raciocínio. No entanto, ainda não se trata de um nível superior, porque o serviço divino deve ser lishmá (de forma desinteressada), e aqui a questão é: Para quê servir a De’s se não vou obter nenhum upgrade (subida de categoria) ou benefício extra?

Yehoshua não queria que as pessoas pensassem que se pode ter profecia enquanto se está no «acampamento», quer dizer, sem uma preparação adequada e um Perishut (isolamento) necessário.

É por isso que os setenta sábios selecionados tinham que estar à volta do tabernáculo, para que, dessa forma, todos vissem claramente que a profecia vinha de De’s, cuja presença se centra no tabernáculo. Se ficassem no acampamento e recebessem a profecia ali, então o povo, erradamente, poderia pensar que existe outra fonte de profecia e poder fora de De’s.

Agora bem: Porque é necessário que os setenta sábios que ajudarão Moisés sejam profetas?

Todos os líderes, inclusivamente no Sanedrin, podem enganar-se, mas alguém que tem Ruach Hakodesh é impossível que se engane. Dessa maneira pode dirigir o povo da forma mais correta possível.

E apesar da profecia ter acontecido a estes setenta sábios apenas uma vez nas suas vidas, isto foi suficiente para os iluminar ao longo de todo o caminho.

Rambam escreve, na introdução ao Guia dos Perplexos, que a verdade é como um relâmpago numa noite escura. Há quem fique encandeado pela intensidade do seu brilho, mas, depois de ele desaparecer, volta à mesma escuridão na qual estava submerso antes de o relâmpago ter aparecido. Outros, no entanto, ao receberem o raio de luz, não permanecem imóveis, cegando os seus olhos, mas sim aproveitam essa luz para poder ver os obstáculos que os aguardam no caminho, de modo a poder evitá-los e decidir o rumo dos seus futuros passos. Assim nos acontece a nós: Às vezes batemos de frente com um momento de verdade. Vemo-lo claro, patente, mas, passado o efeito do momento, voltamos à nossa vida rotineira, sem que essa perceção nos transforme no mais mínimo. Tal como quando vamos visitar alguém no hospital que tem problemas pulmonares devido ao fumo. É claro para nós que o cigarro é algo nocivo; talvez deixemos de fumar durante algumas horas. Mas depois, pouco a pouco, voltaremos aos nossos hábitos de sempre. Porquê? Porque nesse momento em que vimos as coisas claramente, não aproveitámos esse encontro com a verdade tomando as decisões necessárias, comprometendo-nos nesse momento a mudar algo no nosso comportamento.

É importante destacar que estes setenta sábios não eram pessoas comuns que de repente, magicamente, receberam um espírito especial, pois como é possível que o espírito passe de Moisés para gente comum sem preparação ou elevação espiritual alguma? Essa foi precisamente a admiração de Yehoshua, que os tomou por farsantes.

O que acontece aqui é que estas pessoas se prepararam; eram sábios, eram os líderes do povo, e portanto o mesirut nefesh (esforço) e a sabedoria prática que esse cargo lhes dava já os faziam especiais por si só. Então quando o Ruach descende sobre Moisés, trata-se de um nível de profecia inferior àquele que normalmente Moisés tinha, já que De’s se comunicava com ele diretamente e não através de nenhum Ruach.

Apesar disso, De’s não se revelou completamente, mas sim com uma nuvem, quer dizer, captaram mas não de forma perfeitamente clara, e sim como num dia com névoa, onde não se vê nitidamente. É claro que os setenta sábios não alcançaram o nível altíssimo da profecia de Moisés.

No que diz respeito ao pedido de carne por parte do povo, devemos saber que Moisés foi e será o ser humano que mais conhecia De’s, portanto, é impossível supor que Moisés pensasse que De’s não lhes podia providenciar carne. Então, como é possível que Moisés pergunte a De’s como será possível providenciar carne para todo o povo?

Na realidade, o que acontece, é que Moisés vê que o povo está com uma postura desafiante e atrevida. Pedem, exigem, e insistem em pôr De’s à prova constantemente. Então Moisés raciocina: Com uma atitude assim, por mais que lhes façamos as vontades, nunca vão estar satisfeitos.

De’s está de acordo com o que Moisés apresenta, mas responde-lhe que, se não lhes der carne, o povo vai pensar que a mão de De’s é limitada, quer dizer, que não lhes pode providenciar carne, e este tipo de raciocínio seria uma profanação do nome de De’s.

É por isso que De’s acede ao pedido de carne por parte do povo. Não se trata de que De’s lhes quisesse fazer a vontade ou cedesse aos seus caprichos, mas sim vai dar-lhes uma lição sem que por isso o nome de De’s se veja profanado.

Então De’s vai dar-lhes de comer carne, mas sob a condição de que o façam de um modo elevado. Não como o fazem os animais, mas sim que o façam como seres humanos.

Entre o povo, não todos aceitaram esta premissa, e teimaram em continuar com os seus caprichos, amontoando carne durante três dias e comendo selvaticamente, sem cuidar minimamente as pautas de higiene e saúde. Os que comeram como animais foram os que morreram.

Deste modo, por um lado, De’s demonstra-lhes que é todo-poderoso, e pode até providenciar carne no deserto, e, por outro lado, dá uma lição àqueles que agiram de forma selvagem, desafiante e atrevida, que insistiram em pôr De’s à prova constantemente. Esses são os que no fim foram castigados.

FESTIVAL DO PATRIMÓNIO JUDAICO TEM LUGAR EM LODZ, NO LOCAL DE ANTIGO GUETO.

O Festival da Tranquilidade, realizado durante a festa judaica de Shavuot, incluiu várias oficinas com temas judaicos.Artigo de HAGAY HACOHEN

Durante a festa judaica de Shavuot, os habitantes de Lodz participaram no Festival da Tranquilidade, um festival que homenageou o património judaico da cidade, informou na terça-feira a organização Shavei Israel.

Antes da guerra, Lodz era uma importante cidade industrial na qual alemães, judeus, polacos e russos viviam lado a lado. Esta realidade é celebrada num festival anual em setembro chamado “Festival das Quatro Culturas”, e foi retratada no famoso romance de 1899 de Wladyslaw Reymont, The Promised Land. Em 1975, o diretor de cinema polaco Andrzej Wajda fez um filme baseado nesse romance.

Depois de os nazis ocuparem a Polónia, estabeleceram um gueto em Lodz e sobrelotaram-no com cerca de 200.000 judeus. Lodz tem atualmente uma pequena comunidade judaica, ainda em funcionamento.

O Festival da Tranquilidade começou com uma homenagem póstuma ao primeiro chefe da Brigada de Incêndio de Lodz, o judeu polaco Maurcy Gutentag. Foram realizadas palestras sobre a festa de Shavuot e história judaica, e uma visita aos locais de interesse judaico da cidade. O Rabino-chefe da Polónia, Michael Shudrich, foi convidado de honra do festival.

O festival foi realizado em cooperação com a Shavei Israel, uma organização judaica que tem como objetivo ajudar as pessoas com origens judaicas a reencontrarem a cultura dos seus antepassados.

A Polónia abrigou uma das maiores comunidades judaicas da Europa antes do Holocausto. O tamanho e a relativa segurança da comunidade judaica naquele país levaram à criação de poderosos tribunais chassídicos, assim como ao surgimento de escritores e ativistas radicais laicos falantes de ídiche.

Nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, o movimento Bund, um movimento político judaico-socialista não-sionista, lutou para que o povo judeu fosse reconhecido na Polónia como nação, a par do povo polaco.

O combatente judeu-polaco do Gueto de Varsóvia Marek Edelman estudou medicina em Lodz após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Notável cardiologista, Edelman foi membro ativo do movimento de resistência polaco contra a República Popular da Polónia e foi considerado e tratado como herói nacional na Polónia até sua morte em 2009.

AS COMUNIDADES DA SHAVEI ISRAEL CELEBRAM SHAVUOT

Esta semana, os judeus de todo o mundo celebraram Shavuot, uma das shalosh regalim (as três festas de peregrinação), que comemora a revelação da Torá ao povo judeu.

As comunidades da Shavei Israel dos locais mais distantes do mundo partilharam as suas fotografias a estudar Torá, a preparar deliciosos pratos lácteos e a decorar as sinagogas e centros comunitários com guirlandas de flores, de acordo com as tradições de Shavuot.

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