Parashat Vaerá

Num lugar onde todos os homens são livres e não há escravos, De’s é reconhecido como rei. Mas onde há senhores e escravos, Seu nome é profanado.

A Libertação de Israel

Baseado nos ensinamentos de  Rav Mordejai Elon

A partida do povo de Israel do Egito não é apenas um relato histórico, é a eterna busca do homem pela liberdade que é continuamente apresentada em cada geração. A libertação como conceito abstrato parece distante para nós, no entanto, na consciência judaica, é expressa em nosso comportamento diário com os que estão ao nosso redor.
Esse aspecto é mencionado no relato da partida do Egito, que simboliza a libertação da opressão de uns sobre outros e transcende a consciência universal.
Nesta Parashá, encontramos um facto pouco conhecido: no povo de Israel havia aqueles que tinham uma situação melhor e que podiam dar-se ao luxo de ter escravos do seu próprio povo. Quem o fazia não teve pressa de deixar o Egito.
Dentro do povo judeu, o particular e o universal estão interconectados e refletidos nos preceitos. Vejamos a mitzva de comer reclinado (Hasavah) na noite do Seder de Pessach. De acordo com nossos exegetas, não basta comer a matzá e beber os quatro copos de vinho, é necessário que isso seja feito em conformidade com a mitzva de nos reclinarmos, um símbolo de que aqueles que o fazem são homens livres. E os sábios dizem: “até o homem mais pobre deve obedecer ao preceito de comer reclinado”.
Por que comer reclinado é tão importante? Como aparece nos escritos de Maimonides: “Em cada geração, cada um deve sentir-se como se tivesse saído da escravidão no Egito, como está escrito, Ele nos redimiu”, isto é, todos nós temos um “Mitzraim (Egito) do qual devemos nos libertar.” Do mesmo modo, o primeiro dos Dez Mandamentos expressa: “Eu Sou o teu De’s, que te tirei da terra do Egito, de uma casa de servidão” (Êxodo 20-2). A casa de servidão, neste caso, não se refere ao Egito, mas à servidão que o povo de Israel infligiu a seus irmãos. Como é isso? No Egito, o povo tinha classes sociais e os mais ricos tinham escravos de seu próprio povo; convenientemente, eram eles os que desejavam adiar a saída do Egito.

Algo semelhante aconteceu na época do Primeiro Templo, conforme declarado pelo profeta Jeremias no capítulo 34, onde se diz que ele ordenou que o povo libertasse seu escravo ou escrava hebreus, para que ninguém usasse seus irmãos judeus como escravos. Mas então eles mudaram de ideia e trouxeram de volta os escravos e escravas que haviam libertado e os subjugaram. Então De’s disse: “Eu fiz um pacto com seus pais, disse De’s de Israel, no dia em que os tirei da terra do Egito, de uma casa de escravidão, dizendo: A cada sete anos libertará cada um o seu irmão hebreu que se lhes tiver vendido. Mas seus pais não me ouviram, nem inclinaram o ouvido.”
Visto que o povo não proclama liberdade aos seus irmãos e irmãs, o Altíssimo proclama a liberdade à espada para a praga e a fome, para que estas possam destruir a terra.
A própria essência de possuir escravos é uma profanação do nome divino, porque num lugar onde todos os homens são livres e não há escravos, De’s é reconhecido como rei. Mas onde há senhores e escravos, Seu nome é profanado, pois a presença divina está oculta aos homens.
Infelizmente, em muitos estágios da história do povo judeu, essa situação foi repetida. O problema no Egito, e o que é descrito em Jeremias sobre a escravidão do povo nas mãos do próprio povo, foi repetido em momentos diferentes, só que em cada período recebe outra denominação. Devemos enfatizar que é muito provável que esses judeus que compraram seus irmãos dos egípcios simplesmente o fizeram porque podiam receber mão de obra barata e pagar.
Isso nos remete a Moisés, que vem ao povo de Israel para propor que haverá liberdade, e alguém o impede de o dizer: “não vai dar, todo o sistema está estabelecido assim …”, ou, na linguagem do profeta Jeremias: “Mas seus pais não ouviram nem inclinaram o ouvido”.

É uma situação clara: por parte dos que escravizam, há um interesse econômico em deixar a situação como está e, por parte dos escravizados, é a única situação que eles conhecem. Não é em vão que a praga das trevas que aparecerá na próxima Parashá é considerada “dupla escuridão”, porque a pior escuridão é a escuridão onde se encontram aqueles que não têm consciência do estado em que estão e que, portanto, não podem conceber uma mudança na sua situação. Nessas circunstâncias e aos seus olhos “dois quilos de liberdade” valem menos que “cem gramas de pão”.
Agora podemos entender por que é tão importante que, no Seder de Pessach, mesmo quem é pobre possa comer reclinado, para ter consciência de que é um homem livre.
A partida do povo do Egito é, em primeira ordem, a redenção de Israel de si mesmos, numa situação em que nenhum judeu escraviza outro e, quando chegarmos a isto, pode então dar-se a partida do povo do Egito e a transformação do povo em “luz para as nações”.
Como dizem nossos sábios, o povo de Israel foi libertado pela mão divina porque não mudou seus nomes, roupas ou idioma, mas não apenas porque foram culturalmente preservados, mas também porque sofreram uma transformação socioeconômica que os libertou de se verem como senhores uns dos outros, vendo-se como todos iguais, para não profanar o nome divino no mundo.
O preceito de comer reclinado no Seder não recai apenas sobre os indivíduos, mas é uma obrigação de toda a comunidade cuidar dos pobres e dos necessitados, para que possam comer reclinados, sentindo-se verdadeiramente livres.
Enquanto houver um judeu que não possa comer reclinado, é possível pensar que, embora deixemos o Egito, o povo de Israel ainda não foi resgatado …
É então que entendemos o que Maimônides escreveu: cada um de nós deve sentir-se como se tivesse deixado o Egito e poderemos fazer isto ao nos preocuparmos e cuidarmos para que todos os pobres possam “comer reclinados”, sentindo-se livres.

Com base nos ensinamentos de Rav Mordechai Elon, para mais informações, consulte http: // www. elon.org/archives/archives.htm

YTZJAK LÓPEZ DE OLIVEIRA: UMA HISTÓRIA PESSOAL

Ytzjak López de Oliveira é responsável pela Casa Anussim, o centro de visitantes da Shavei Israel em Belmonte, Portugal.

Por trás de cada história estão as pessoas que as fazem acontecer. A história do centro de visitantes da Shavei Israel em Belmonte, Portugal, não é excepção. A pessoa por trás dele é Ytzjak López de Oliveira.

Ytzjak López de Oliveira é responsável pela Casa Anussim, o centro de visitantes da Shavei Israel em Belmonte, Portugal. Ytzjak nasceu em La Corunha, Galiza, Espanha. É descendente de Conversos (também chamados marranos) da «Raia», a zona fronteiriça entre Portugal e Espanha.

Depois de fundar a Comunidade Judaica Ner Tamid da Corunha, e sabendo a sua situação irregular no judaísmo, Ytzjak, um arquiteto paisagista de profissão, entrou em contacto com a Shavei Israel através do rabino Elisha Salas, que era na época o rabino da comunidade de Belmonte, Portugal. Sob a orientação e tutela do rabino Elisha Salas e o apoio inabalável da Shavei Israel, Ytzjak regressou ao judaísmo e continua estudando para expandir seus conhecimentos e aprofundar sua conexão com sua herança cultural.

– A minha casa, – explica Ytzjak, – que era originalmente o centro da Shavei Israel em Belmonte, ainda é um ponto de encontro para estudantes em processo de conversão e judeus em trânsito, que aqui, como o rabino Elisha me ensinou, receberão sempre umas boas-vindas calorosas no Shabat, feriados e em qualquer dia da semana. Ofereço-lhes principalmente comida sefardita, receitas de família e canções (até em Ladino), para que tenham boas lembranças da sua visita graças à Shavei Israel. –

Parashat Shemot

Quem é o Moisés que foge do Faraó e que é chamado perante a sarça ardente para libertar a nação de Israel? Quais são as mudanças que lhe ocorrem?

A crise de Moisés

E consentiu Moisés em morar com o homem e ele deu Tsipora, sua filha, para Moisés. E deu à luz um filho e chamou seu nome Guershom, porque disse: «Estrangeiro sou, em terra alheia.» E foi passado muitos dias, e morreu o rei do Egito, e suspiraram os filhos de Israel por causa do trabalho, e gemeram, e subiram os seus clamores a De’s pelo trabalho. E ouviu De’s os seus clamores e lembrou-se De’s da sua aliança com Abraão, Isaac e Jacob. E viu De’s os filhos de Israel, e conheceu-os. E Moisés estava a pastar o rebanho de Itró seu sogro, sacerdote de Midián, e levou o rebanho para trás do deserto, e veio a Choreb, monte de De’s. (Êxodo 2:21 a 3:1)

Com estes escassos versículos, a Torá fala-nos sobre a vida adulta de Moisés, a partir do momento em que sai para ver os seus irmãos até que regressa ao Egito, aos oitenta anos de idade.

Várias décadas são sintetizadas nestes três versículos. Todo o desenvolvimento espiritual e a construção do caráter do Moisés adulto são-nos ocultos. Quem é o Moisés que foge do Faraó e que é chamado perante a sarça ardente para libertar a nação de Israel? Quais são as mudanças que lhe ocorrem?

Mas antes de nos determos no conteúdo da Parasha, vamos comparar Moisés com outra grande personalidade: A de Abraão, nosso Patriarca.
Abraão também aparece na cena bíblica já na idade adulta, cheio de glória espiritual, depois de se ter transformado em Abraham Haivri, o hebreu, que vem do outro lado do rio, o escolhido pelo Altíssimo para a fundação do povo de Israel.

Embora pouco saibamos sobre estes dois pró-homens através do relato bíblico, o Midrash, no caso de Abraão, expande o nosso conhecimento, através da narração das suas aventuras em Haran e Ur Kasdim. Mas no caso de Moisés, o Midrash continua a mesma tendência bíblica da ocultação. Por quê?

A resposta está numa diferença básica entre estas duas personalidades, em relação à natureza desse período desconhecido das suas respectivas vidas. No caso de Moisés, a Torá conta-nos a sua vida «desde o berço até ao túmulo»; o silêncio na história ocorre no meio da sua vida. Conhecemos o nascimento do jovem levita, lemos sobre a sua infância no palácio do faraó e acompanhamos as suas ações de perto quando ele é um jovem que simpatiza com o destino dos seus irmãos e depois desaparece, e o texto mergulha num longo silêncio, que não se dissipa até ao seu reaparecimento várias décadas depois.

Este desaparecimento no meio da história é, portanto, parte integrante da própria história. A falta de eventos representa uma lacuna a ter em conta, o que indica o isolamento de Moisés do mundo, e a sua profunda transformação altera o curso da sua vida.

Ele não segue o mesmo caminho que seguira até àquele dia, mas está caminhando numa direção completamente nova: Afastamento e isolamento. O silêncio do texto é uma expressão da vida hermética que Moisés vive durante esses anos.

Uma análise cuidadosa da história revela-nos que o afastamento auto-imposto provém de uma crise. O que a causou e quais foram as suas consequências?

Para responder a isso, precisamos de rever o que aconteceu com Moisés antes da sua partida do Egito e o seu caráter espiritual naquele momento, como aparece no texto.

A Torá fornece-nos dois episódios: Um é o encontro com o homem egípcio que está batendo num escravo judeu, e o segundo é sobre o que aconteceu com Moisés quando viu dois judeus brigando.

Se tivermos que descrever a personalidade de Moisés com base nestes dois relatos, diríamos que é um jovem com alta sensibilidade moral, que não pode tolerar nenhuma expressão de injustiça. Uma profunda chama moral ilumina-o desde as profundezas da sua personalidade quando vê o egípcio atingindo o escravo judeu, e uma grande sensibilidade à injustiça se manifesta quando vê dois membros do povo judeu brigando.

No entanto, há uma qualidade adicional: A sua natureza sensível. Ele deve agir, por isso reage, tentando corrigir a situação: Ataca o egípcio para fazer justiça e repreende os dois judeus pela sua briga.

É importante destacar o contexto em que essas duas ações ocorrem: Até àquele momento Moisés tinha passado a sua vida no palácio do Faraó, sem que nada lhe faltasse. Conseguiu sempre tudo o que queria, não passou nenhuma necessidade, discriminação ou injustiça direcionada a ele ou aos que o rodeavam, até que enfrenta em primeira mão o sofrimento dos seus irmãos. A sua alma nobre e sensível, sem experiência nas turbulências da vida fora do palácio, confronta-o com a realidade obtusa do mundo e leva-o a uma profunda crise. Quando ele vê os dois judeus brigando, reage tentando separá-los, mas apercebe-se da profunda dificuldade de impor a justiça.

Antes dessa exposição à cruel realidade , ele nunca imaginaria uma nação tão oprimida e humilhada nas mãos de inimigos cruéis, por isso assume que é uma nação capaz de fazer tudo o que for necessário para alcançar a liberdade. Mas, ao ver a realidade socioeconómica a que foram resumidos, percebe que eles não têm nem o desejo nem a inclinação de se opor à sua situação amarga. Só encontra apatia e mais injustiça na maneira em que o povo escravizadao por um tirano vê o mundo. Estes seres que vivem em opressão reagem com desdém e zombaria às suas tentativas de impor justiça, o que aumenta em Moisés o sentimento de que nada pode ser feito e de que o que resta é desespero e depressão. Moisés tenta voltar as costas a essa realidade, fugindo para Midian, onde é confundido com um egípcio pelas filhas de Itró.

Passará um longo período até que Moisés consiga matar o seu egípcio interior, para poder se aproximar dos seus irmãos novamente. Das profundezas da sua alma ferida pela deceção, ele escolhe viver uma vida solitária, onde «leva o rebanho para trás do deserto»

E veio a Choreb, monte de De’s: A sua tentativa de isolamento confronta o seu desejo de encontrar De’s.

Não encontramos De’s na sociedade corrupta e agressiva, mas sim no deserto. É aí que Moisés encontra a espiritualidade e a sabedoria, o que lhe permitirá, sob a tutela divina, mudar a dura realidade e ser capaz de redimir os oprimidos. O único objetivo do episódio da sarça ardente é tirá-lo do seu isolamento e devolvê-lo à esfera de ação num nível histórico nacional, que é acompanhado pelo reconhecimento, por parte de Moisés, da transformação do nome de De’s, que lhe revela outra faceta do Altíssimo, Aquela que age no meio da realidade histórica da humanidade e que o acompanhará ao longo de toda a narrativa do livro de Shemot.

Autora: Edith Blaustein

Jerusalém: A Shavei Israel abre um novo instituto com aulas em inglês para facilitar o processo de conversão.

«Os Tribunais Rabínicos de Conversão do RCA nos Estados Unidos têm o padrão mais alto da conversão. Acreditamos que a Shavei Israel apresenta a mesma alta qualidade nos seus programas de conversão e estamos ansiosos por esta parceria…»

Esta é a notícia sobre a Shavei Israel que saiu no jornal online Israel National News no passado dia 13/01. Aqui fica a nossa tradução do artigo, pois temos muito gosto (e orgulho! 😉 ) em partilhar esta boa notícia convosco:

A Shavei Israel e o Rabbinical Council of America (RCA) [Conselho Rabínico dos Estados Unidos, uma das maiores organizações mundiais de rabinos ortodoxos] vão abrir em Jerusalém um instituto de conversão com aulas em inglês.

A organização sem fins lucrativos Shavei Israel, com sede em Jerusalém, em parceria com o Rabbinical Council of America (RCA) vai abrir em Jerusalém um novo instituto de conversão em inglês. O instituto, chamado Machon Milton, operará sob os auspícios do Rabinato de Israel e preparará candidatos para o processo de conversão.

O fundador e diretor da Shavei Israel, Michael Freund, disse que a sua organização e o RCA estão abrindo o instituto para ir ao encontro da crescente necessidade e procura por ele, já que existem poucas opções atualmente em Jerusalém para falantes de inglês que desejam se converter formalmente ao judaísmo. O instituto recebeu esse nome em memória do falecido avô de Freund, Milton Freund, que era um importante sionista e líder judeu.

Há já 15 anos que a Shavei Israel opera o Machon Miriam, um instituto de conversão único que dá aulas preparatórias em italiano, português e espanhol, e agora decidiu oferecer uma opção semelhante para falantes de inglês.

– Achámos que era o próximo passo lógico: Abrir um instituto em língua inglesa que proporcionasse um ambiente caloroso, solidário e acolhedor para aqueles que desejam vincular seu destino com o povo de Israel ou retornar às suas raízes – disse Freund.

– Sendo a principal organização rabínica dos Estados Unidos, o RCA era o parceiro perfeito para este empreendimento, e estamos exultantes por caminharmos de mãos dadas com ele nesta importante iniciativa- acrescentou Freund.

Freund e o diretor da secção para a região de Israel do RCA, o Rabino Reuven Tradburks, falaram sobre esta ideia já há vários anos, mas só recentemente se convenceram de que tinha chegado o momento certo para iniciar o programa.

– Agora que passei um tempo considerável com a equipa da Shavei Israel, estou ainda mais convencido do benefício que é para nós sermos parceiros desta organização – , disse ele. – Os funcionários são eficientes, eficazes e, o que é mais importante: Trabalham para o bem do povo judeu e para aqueles que desejam juntar-se ao povo judeu. Há muita preocupação, muitos sorrisos e calor.

O rabino Mark Dratch, vice-presidente executivo do RCA, disse: -Os Tribunais Rabínicos de Conversão do RCA nos Estados Unidos têm o padrão mais alto da conversão. Acreditamos que a Shavei Israel apresenta a mesma alta qualidade nos seus programas de conversão e estamos ansiosos por esta parceria com o RCA na ajuda às pessoas que procuram fazer parte do povo judeu.

Parashat Vaiechi

Não há maior bênção do que a paz entre irmãos.

A Bênção de Efraim e Menashe

Jacob percebe que está prestes a morrer, e, para fazer um «testamento ético», convida os seus doze filhos para receberem uma bênção. Mas primeiro chama, para os abençoar, os seus dois netos, filhos de José: Efraim e Menashe.

Por que Jacob prioriza a bênção dos seus netos? Há um significado muito profundo na bênção dada por Jacob. Um dos mais belos costumes da vida judaica é que os pais abençoam os filhos no início do jantar de Shabat, todas as sexta-feiras à noite. As meninas recebem a bênção «Que De’s te faça como as matriarcas, Sara, Rebeca, Raquel e Léia.» Enquanto que aos meninos se diz: «Que De’s te faça como Efraim e Menashe».

Que aconteceu aos patriarcas, Abraão, Isaac e Jacob? Porque foram Efraim e Menashe escolhidos em vez deles, para essa importante tradição?

Os nossos Sábios oferecem duas explicações:

Uma ideia é que Efraim e Menashe foram o primeiro grupo de irmãos que não brigaram. Os filhos de Abraão, Isaac e Ismael, não conseguiram dar-se bem e as suas divergências formaram a base do conflito árabe-israelita de hoje em dia.

Os dois filhos de Isaac, Jacob e Esav, eram tão contenciosos que Esav quis matar Jacob repetidamente e ordenou aos seus descendentes que fizessem o mesmo.

Os filhos de Jacob também caíram na violência ao vender o seu irmão Joseph como escravo.

Isto explica a razão pela qual, quando Jacob abençoou Efraim e Menashe, trocou intencionalmente as mãos, abençoando primeiro o mais novo e depois o mais velho. Jacob queria enfatizar que não deveria haver rivalidade entre esses dois irmãos (Génesis 48:13 e 14).

É com esse pensamento que os pais abençoam os seus filhos hoje em dia, pois não há maior bênção do que a paz entre irmãos.

Esse mesmo desejo é o que De’s tem em relação a todo o povo judeu.

Outra explicação para entender porque as crianças judias recebem a bênção de Efraim e Menashe é dada pelo rabino Shimshon Rafael Hirsch:

A primeira geração de judeus, Abraão, Isaac e Jacob, educou os seus filhos principalmente na terra de Israel. A Terra Sagrada é o ambiente judaico mais receptivo, sobre o qual o Talmud relata que «até o ar te faz sábio». Então, de certo modo, educá-los foi relativamente fácil. Mas depois, devido à fome, Jacob e a sua família foram para o Egito. A geração seguinte cresceria cercada por paganismo e imoralidade. Começava o desafio do judaísmo: Sobreviveria no meio de todas essas distrações e desafios da vida na diáspora?

Os netos, muito mais do que os filhos, são quem revela o fundamento e a futura direção da linhagem familiar. Ao longo dos anos, os pais judeus rezaram para que os seus filhos resistissem às tentações do exílio e pudessem manter orgulhosamente a sua forte identidade judaica.

Qual foi o resultado com Efraim e Menashe? Apesar de grandes obstáculos, eles cresceram no Egito e mantiveram sua adesão ao judaísmo. E é por essa razão que abençoamos os nossos filhos para serem como eles.

Autora: Edith Blaustein

Uma visita inspiradora à Casa de Rav Kook

Visita de estudo à Casa de Rav Kook

O Centro Ma’ani da Shavei Israel realizou um evento especial em espanhol para os estudantes de Ora Jalfon no Machon Miriam, que consistiu numa visita de estudo à Casa de Rav Kook. Também participaram vários estudantes de língua espanhola de Midreshet Lindenbaum e Yeshivat Hakotel. No total, foram cerca de 30 participantes.

Hoje, a Casa de Rav Kook em Jerusalém é um museu visitado por diversos grupos turísticos, bem como por yeshivot, escolas, midrashot e ulpanot, tanto israelitas como da diáspora.

É a casa onde viveu o rabino Abraham Itzhak Hacohen Kook (1865 – 1935) a partir 1921, data em que foi estabelecido o Rabinato de Israel e o Rabino Kook foi nomeado o primeiro Rabino Chefe Ashkenazi de Israel sob o mandato britânico.

Graças aos fundos doados pelo filantropo americano Harry Fischel, a «Beit Harav», como é conhecida, foi inaugurada em 1923, na presença do Alto Comissário da Palestina, Herbert Samuel.

Um século depois, a casa permanece exatamente como era durante o tempo em que Rav Kook e a sua família moravam lá. Os móveis estão no mesmo lugar; nada mudou, ainda existe até mesmo uma sensação de santidade que emana das paredes….

No dia 25 de dezembro, a Beit Harav recebeu o grupo da Shavei Israel, juntamente com os alunos de Lindenbaum e de HaKotel. Foi emocionante para os alunos, assim como para mim, pois servi como guia para a visita. Numa conversa telefónica subsequente com alguns dos visitantes, ficou patente que todos tinham ficado impressionados com a personalidade multifacetada de Rav Kook – rabino, filósofo, poeta, escritor, consultor, cabalista – e que «sendo haredi, ele era tão aberto aos outros».

Os visitantes tiveram a oportunidade de conhecer os diferentes espaços, como o escritório particular do Rav ou o heder haorhim (sala de visitas), onde Albert Einstein esteve presente numa breve visita ao rabino!

O showroom e o Beit Hamidrash (sala de estudo), berço do que é hoje a Yeshivá Mercaz Harav, têm uma cadeira que foi enviada especialmente para o rabino pelo rei George da Inglaterra.

Outro objeto imbuído de significado e história é a tapeçaria que o fundador da Escola de Arte Betzalel, Boris Schatz, ofereceu a Rav Kook.

No fim, quis surpreender os meus visitantes com a música inspiradora Kanfei Ruah, que, na verdade, é um poema de Rav Kook.

Ben Adam, ale lemaala alé
Filho do homem, voa alto, voa sempre alto, pois há uma força profunda em ti. Asas de águia estão em ti.
Não as esqueças, usa-as, não seja que elas te esqueçam…
Filho do homem, voa alto, sempre alto …

Gostaria de agradecer a Chaya Castillo, diretora do departamento espanhol da Shavei Israel, pelo seu inestimável apoio na organização desta visita, bem como durante todo o programa.

~ Ora Jalfon

Parashat Vaigash

Esta é a medida da grandeza de Yehuda: Não ficou preso em sua dor, mas cresceu espiritualmente, partindo da tragédia e usando-a como terreno fértil para a empatia, a compaixão, o perdão e até o auto-sacrifício.

Autora: Edith Blaustein

Circunstâncias difíceis e o nosso crescimento pessoal

O apelo de Yehuda a Yosef é um sinal de crescimento pessoal e de sua empatia com a dor de seu pai. No final da última parashá, Yosef, agora primeiro-ministro do Egito, colocou um copo valioso no saco de Biniamin quando os seus irmãos voltavam com comida para a casa de seu pai.

O copo foi descoberto e todos temiam que Biniamin não pudesse voltar para casa, porque a dor de Jacob seria fatal.

Numa das histórias mais pungentes da Torá, a Parashá desta semana começa com Yehuda oferecendo-se em vez de Biniamin. Perante esta cena, de alguma forma procurada por Yosef, ele se revela aos seus irmãos.

Toda a sua família será reunida sob a sua proteção no Egito: Seu pai, seus irmãos e todas as suas famílias viverão na terra de Goshen.


No capítulo 44, somos informados: Yehuda se aproximou dele e disse: «Rogo, meu senhor, para falar seu servo aos ouvidos de meu senhor, e não acenda sua fúria contra seu servo, que meu senhor é igual ao Faraó (18) (…) Agora, então, deixe seu servo permanecer em vez do menino como escravo de meu senhor, e o menino suba com seus irmãos. Porque como subirei a meu pai se o menino não estiver comigo? Para não ver o mal que viria a meu pai» (33 e 34).

Vemos que Yehuda passou por uma transformação pessoal desde o dia em que ele e seus irmãos deixaram Yosef num poço, há muitos anos. Naquela época, foi Yehuda quem sugeriu vender seu irmão (Gênesis 37:26). Sem ser o primogênito, Yehuda ocupa um papel central nessa história. Devemos nos perguntar: Porque sai ele para defender Biniamin e não o primogênito Ruben?

Uma das respostas pode ser encontrada no próprio texto; é-nos apresentada pelo Midrash Tanjuma, uma coleção de midrashim que remonta à era talmúdica.

Após a venda de José e a apresentação de suas roupas ensanguentadas por seus irmãos a Jacob, a Torá narra o episódio de Yehuda com Tamar (Cap. 38). O Midrash nos apresenta Yehuda trazendo a infeliz notícia da morte de Yosef a seu pai.

É então que De’s diz a Yehuda:
«Você ainda não tem filhos e não conhece o sofrimento pelos filhos. Você fez seu pai sofrer e fez com que ele acreditasse erroneamente que o filho dele foi devorado por animais selvagens. Você vai se casar e enterrar um filho, e então conhecerá a dor de criar filhos» (Midrash Tanjuma Vaigash 9, citado por Aviva Gottlieb Zornberg no grande livro da exegese bíblica O começo do desejo). É neste episódio que Yehuda sofre a perda de dois de seus filhos: Er e Onán.

Aparentemente, esse Midrash nos explica toda a narrativa de Yehuda e Tamar do capítulo 38, e parece nos dar a razão do castigo que Yehuda recebe por ter enganado seu pai. No entanto, é surpreendente que não seja citado nesse contexto até muito mais tarde, quando Jacob envia Yehuda antes de sua chegada para preparar sua chegada a Goshen (46:28), no momento em que toda a família se reconcilia e se reúne no Egito.

Que relação tem tudo isso com a pergunta inicial, por que Yehuda saiu para defender Biniamin?

Podemos estabelecer que isso é crucial, porque, em vez de nos dar a imagem de um De’s vingativo que mata um filho para vingar outro, já que este Midrash é posteriormente colocado num lugar que revela a reconciliação de Yehuda com seu pai, deduzimos uma lição moral através deste Midrash. Ele sugere que a experiência de dor e sofrimento de Yehuda também é a fonte de grandeza espiritual, crescimento e um altruísmo desenvolvido. Todos nós temos circunstâncias dolorosas em nossas vidas; elas podem nos afundar em dor e ressentimento ou, pelo contrário, podem ser a fonte do nosso crescimento pessoal.

Nosso Midrash diz que quando Yehuda fez seu pai sofrer pela perda de um filho, foi porque ele não conhecia a «dor pelos filhos». Então ele se casou, teve filhos e perdeu dois deles, trazendo a lição da «dor pelos filhos» para sua casa da maneira mais real e dolorosa possível.

De’s é cruel e vingativo? Não devemos entender que De’s tirou os filhos de Yehuda por causa de seu comportamento com o pai, o que seria um capricho cruel da Sua parte. O que o Midrash nos diz é o que tornou possível a reconciliação, o desejo de Yehuda de ter empatia com a experiência de seu pai, seu conhecimento da «dor pelos filhos». Idealmente, a empatia leva à compaixão, e vemos que esse sentimento em Yehuda era tão grande que ele não estava disposto a deixar seu pai perder seu precioso filho mais novo.

Isso nos leva a uma nova pergunta: por que Jacob deveria sentir mais a dor de perder Biniamin do que a de perder Yehuda, já que o ponto principal do discurso de Yehuda é ele ficar no Egito como substituto do seu irmão mais novo?

Ou porque Biniamin era o mais novo, ou porque ele era filho de sua amada Raquel, Yehuda sabia que Jacob tinha um relacionamento especial com seu filho mais novo, assim como o teve no passado com Yosef (Gênesis 44:30). Esse facto é o que torna extraordinária a compaixão de Yehuda. Não só podia ter empatia com o sofrimento de seu pai pela perda de um filho, mas também era capaz de lidar com seu ressentimento anterior por essa mesma situação, até perdoando-o por amar seus filhos de modo desigual.

Esta é a medida da grandeza de Yehuda: Não ficou preso em sua dor, mas cresceu espiritualmente, partindo da tragédia e usando-a como terreno fértil para a empatia, a compaixão, o perdão e até o auto-sacrifício.

Foi ele quem deu o passo adiante quando a hora o exigiu, porque era ele quem sabia que, para se redimir dos seus erros passados ​​e da dor acumulada, deveria se oferecer pela libertação dos outros.