Parashat Bo

Enquanto os egípcios viviam o seu declínio, o povo de Israel estava a nascer

Escuridão e luz

A Parasha Bo é uma das mais influentes e importantes das parshiot que lemos durante o ano. Ela conta-nos as três últimas pragas que De’s enviou ao Egito, incluindo a morte do primogénito. É aqui que recebemos os primeiros preceitos como comunidade e vemos a inclusão de «am rav», uma multidão de povos que decidem deixar o Egito juntamente com o povo de Israel.

A Parashá começa com De’s declarando a Moisés a razão pela qual as pragas atormentam o Egito: «Para que possas contar ao teu filho e ao filho do teu filho como Eu agi com o Egito e os sinais (as pragas) que Eu fiz entre eles, e saibam que fiz isso pelo povo de Israel» (Êxodo 10:2). A essência da educação é encontrada neste versículo; o relato da libertação da escravidão do Egito é o que forja a nossa identidade como povo e o que que devemos transmitir aos nossos filhos numa cadeia indestrutível, onde cada um de nós é um elo.

A educação é encontrada em cada uma das ações desta Parashá ou na sua ausência; se a luz simboliza tudo o que queremos que as novas gerações recebam, a escuridão que assola o Egito deixa-nos com ensinamentos profundos. A nona praga tem um efeito muito importante para a história e também para as gerações futuras: «Eles não se viram e ninguém se levantou do lugar por três dias, enquanto todos os israelitas tinham luz nas suas casas». (Êxodo 10:23) A Torá conta-nos a penúltima praga em três versos concisos. Nada conta sobre a reação dos mágicos egípcios, como nas pragas anteriores. Sabemos apenas que será uma escuridão que durará três dias e que poderá «ser tocada» (10:21); enquanto os egípcios estão paralisados, os israelitas «têm luz nas suas casas».

Que tipo de escuridão é essa que faz parar uma sociedade inteira, e como os membros do povo de Israel ficaram livres dos efeitos dela?

É pelos midrashim que sabemos que as trevas tinham as características da cegueira; era um facto único, uma manifestação real que atinge o coração da experiência humana.

A escuridão está associada ao temor, ao medo profundo pela falta de luz e pelo que nos pode acontecer na escuridão da noite. Muito mais neste caso, se pensarmos numa escuridão da qual não conhecemos a origem e que dura dias. A falta de luz é um símbolo do caos que existia antes da Criação. As primeiras palavras de De’s foram «Haja luz». A escuridão do Egito traz consigo o medo do caos e da destruição. Os egípcios testemunharam o declínio do seu mundo e dos valores que o sustentaram.

Para outros comentaristas, a escuridão não era física, mas psicológica, espiritual. «Melancolia» vem da palavra grega que significa «estado de ânimo negro». De acordo com essa explicação, o que os egípcios sofreram foi uma depressão social, aqueles três dias negros vividos em pânico e desolação. O rabino Yitzchak Meir Alter escreveu que a escuridão é maior quando não podemos ver o vizinho ou partilhar da sua dor, nem ele o pode fazer connosco. O resultado dessa escuridão é isolamento e alienação.

O contraste com o povo de Israel não poderia ser maior: Enquanto os egípcios viviam o seu declínio, o povo de Israel estava a nascer e reuniu-se em comunidade para receber de De’s os preceitos que celebram a sua liberdade. Eles foram redimidos na primavera e assemelham-se a esta estação em que as plantas renascem mas os frutos ainda não são vistos, assim como o povo de Israel, que brotou com a liberdade, mas a recepção da Torá e o facto de viver na Terra de Israel é que farão amadurecer os seus frutos.

É através da educação das novas gerações que podemos continuar com a luz que o povo de Israel obteve na redenção e que nos permitirá lutar como povo contra o obscurantismo da ignorância e contra as depressões que assolam o modo de vida ocidental.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *