Renascimento Judaico na América Central

Artigo por Rhona Lewis

É mais do que o corte de cabelo que transforma o bebé Yitzchak num rapaz. É mais do que o bolo cor-de-rosa e branco enfeitado com o número 12 que marca a passagem da Keren à idade adulta. É mais do que a Chupá, centros de mesa e danças por separado. É o renascimento do judaísmo e está a acontecer num cantinho longínquo do mundo — em El Salvador, na América Central. O rabino Elisha Salas tornou-se o rabino permanente desta comunidade em agosto deste ano e está lá para orientar estas pessoas, chamadas Bnei Anussim, na passagem pelos marcos da vida judaica.

Com raízes no passado

A presença judaica na América Latina vem dos séculos XVI e XVII, quando os judeus fugiram da Península Ibérica, onde a mão da Inquisição era muito pesada, começando assim a colonizar o Novo Mundo. Estes judeus começaram a praticar o judaísmo em segredo quando a Inquisição chegou à América Central e à América do Sul. Mais tarde, no princípio do século XIX, chegaram à América Latina judeus em busca de oportunidades de negócio e juntaram-se aos cripto-judeus. Entre os primeiros a chegar está Bernardo Haas, nascido na Alsácia, que chegou em 1868. Mais tarde chegaram mais imigrantes, a maior parte sefarditas do Egito, Turquia e Tunísia.

O presidente Maximiliano Hernandez Martinez era apoiante do fascismo e em 1939 fechou completamente as portas à imigração judaica. No entanto, El Salvador foi um dos primeiros países do mundo a reconhecer oficialmente o Estado de Israel em 1948. Antes da Guerra Civil de 1979, havia cerca de 300 judeus em El Salvador, a maioria na capital. A guerra durou 12 anos, até que foi assinado um acordo na cidade do México.

Hoje em dia, em toda a América Latina, em países como o Brasil, Colômbia, México, Costa rica e El Salvador, os descendentes dos Bnei Anussim (a quem os historiadores se referem com o termo pejorativo Marranos, que quer dizer “porcos”) estão a regressar às suas origens judaicas.

“Temos uma dívida para com eles e para com os seus antepassados, de lhes estender a mão e dar-lhes as boas vindas de volta a casa”, diz Michael Freund, fundador da Shavei Israel, uma organização sem fins de lucro que ajuda pessoas com origens judaicas interessadas em investigar a sua conexão ao judaísmo e ao povo judeu. Para tornar isto possível, o rabino da Shavei Israel Elisha Salas, nascido no Chile, está a trabalhar com a comunidade ortodoxa já estabelecida em El Salvador e a estabelecer contacto com os Bnei Anussim de Honduras e Guatemala.

San salvador hoje

Em 2013, Freund visitou a comunidade salvadorenha. “As pessoas daquela comunidade movem-se pela identidade. Passaram por uma jornada espiritual e chegaram à conclusão de que o judaísmo é a verdade e querem viver pelas suas normas”, disse ele sobre a sua viagem. Para ajudar esta jornada da comunidade, em junho de 2014 a Shavei Israel providenciou um rabino itinerante do México que os visitava regularmente.

À medida que a comunidade crescia no cumprimento das obrigações religiosas, alguns dos seus membros viajaram aos Estados Unidos, onde se converteram num Beit Din ortodoxo. “Eu queria retornar ao judaísmo porque estava a procurar uma maneira de me conectar com o Criador, e descobri que as leis judaicas constituem a melhor maneira de o fazer. Tenho muito orgulho em pertencer ao povo de Israel. Espero emigrar para Israel, porque é o melhor país do mundo para viver uma vida judaica em pleno”, disse o líder da comunidade salvadorenha, Eliyahu Franco.

O rabino Elisha Salas, que trabalhou como emissário da Shavei Israel em Portugal durante os últimos oito anos, está entusiasmado com a sua nova função de ajudar esta comunidade a crescer. “San Salvador tem uma comunidade estabelecida, forte, de aproximadamente duzentas pessoas, muitas das quais se converteram e vivem como judeus ortodoxos. Eu cheguei no princípio de Elul e deparei-me com um Minian que se encontrava todos os dias às 4h00 da manhã para recitar slichot”, diz-nos. A comunidade é jovem (a maior parte dos membros tem entre 20 e 55 anos de idade) e empenhada. Existe comida Kosher (nos supermercados em El Salvador há produtos com certificação OU) e o rabino Salas, como shochet, possibilita que haja carne para a comunidade. Depois de shacharit segue-se um shiur de halachá dado pelo rabino Salas. A comunidade adotou minhagim sefarditas. Depois de minchá e maariv, segue-se uma hora de estudo na qual cada chavruta estuda através de sefarim traduzidos ao Espanhol. “De momento os homens ainda não têm as competências linguísticas para lidar com a Guemará, mas estamos a trabalhar para mudar isso”, diz o rabino Salas.

Enquanto ainda não há escola judaica, o rabino Salas está a planear começar programas de ensino para as crianças, para que elas recebam educação judaica. “Como muitos lugares abrem seis dias por semana e as suas políticas antidiscriminação não lhes permitem dar aos judeus o dia livre em Shabat, 70% dos membros da comunidade não têm emprego fixo. Trabalham na construção e fazem pequenas reparações ou vendem artigos vários no mercado para poderem guardar Shabat”, diz o rabino Salas. Em Arménia, 40 km a noroeste de San Salvador, a comunidade, de aproximadamente 100 pessoas, é quase completamente shomer shabat, e, por consequência, os seus membros são desempregados.

O rabino Salas também está a trabalhar com Bnei Anussim nas Honduras e em Guatemala, onde grupos de judeus estão a demonstrar interesse no judaísmo. “O rabino Salas vai guiá-los e fortalecer as comunidades”, diz Freund. “Se os membros das comunidades assim quiserem, a Shavei Israel vai ajudá-los a virem para Israel, onde terão que passar por um processo de conversão formal. Todos os anos, dezenas de cripto-judeus espanhóis e portugueses concluem o processo em Machon Miriam, um instituto de conversão e retorno em Israel com aulas em espanhol, português e italiano, e seguidamente passam a conversão formal no Rabinato de Israel. Se alguém se quer converter, nós trabalhamos em colaboração com o Rabinato para facilitar o processo. Não se faz nenhum favor a ninguém quando se procuram atalhos”, diz Freund. “Abarbanel, tesoureiro do rei D. Fernando e da rainha D. Isabel de Espanha, escreve, em Devarim 30, que chegará um tempo em que os Anussim “voltarão a De’s no seu coração… E quando eles se voltarem para De’s e o seguirem… Cada um de acordo com a sua situação e as suas competências… De’s aproximá-los-á a Si””. Gosto de pensar que estas palavras estão a tornar-se realidade, diz Freund.

As raízes da Shavei Israel

Certo dia, quando trabalhava como diretor de comunicação sob o governo do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu em 1997, Michael Freund abriu um envelope que lhe chegou pelo correio. A carta era de um grupo no nordeste da Índia chamado Bnei Menashe. Diziam que eram descendentes da tribo de Menashe, uma das dez tribos perdidas de Israel, e estavam a pedir para voltar à Terra Prometida. “A minha reação inicial foi de não acreditar”, diz Freund. “Mas depois de deixar o cargo, em 1999, meti-me num avião e comecei a visitar essas comunidades”, diz ele. O que Freund descobriu levou-o a fundar a Shavei Israel em 2002.

“As pessoas são complexas e é preciso avaliar as afirmações sobre origens judaicas com uma mistura de abertura e algum ceticismo. Se alguém diz que ouviu uma voz quando estava sob a influência de algo, obviamente que isso não constitui uma prova convincente das raízes judaicas de pessoa”, diz Freund. Por todo mundo, as pessoas estão a tentar compreender as suas raízes judaicas. A Shavei Israel, com rabinos colocados em Espanha, Portugal, Brasil, Rússia, Itália, Colômbia, Chile e Polónia, está presente para ajudar quando as provas são fortes.

Em anos recentes, a Shavei Israel ajudou na imigração e integração de 3.500 judeus Bnei Menashe da Índia. “A Aliá é apenas o fim do princípio”, diz Freund. A Shavei Israel trabalha no sentido de ajudar na integração física e espiritual dos Bnei Menashe, ajudando-os a encontrar alojamento e emprego e conectando-nos com organizações religiosas e famílias de apadrinhamento. “Apesar de já terem ultrapassado a idade oficial para a entrada no exército, muitos dos jovens insistem em se juntar ao IDF, em unidades de combate. E são sempre os primeiros a aparecer para um minian. Dos cerca de 4.000 imigrantes integrados, apenas duas pessoas deixaram Israel… E em ambos casos foi porque casaram com judeus australianos”, diz Freund.

“Um estudo genético de 2008 Publicado pelo American Journal of Human Genetics, (Jornal Americano de Genética Humana) indica que cerca de 20% da população atual masculina da Península Ibérica tem raízes judaicas sefarditas. Isso não quer dizer que um de cada cinco homens nas ruas de Barcelona é judeu, mas sim indica quanto sangue judeu foi derramado há séculos e quantos descendentes de judeus ainda existem”, diz Freund.

“Lidar com o passado judaico nem sempre leva à aliá e à conversão e isso está muito bem, porque as pessoas têm o direito de escolher o que é melhor para si. É interessante que apesar do aumento do antissemitismo por todo o mundo, cada vez mais pessoas têm coragem de se identificar com as suas raízes judaicas. Quando o fazem, naturalmente que isso cria nelas uma maior afinidade com Israel e com o povo judeu. Mesmo se a pessoa se mantiver como católica praticante em Madrid, o conhecimento de que está ligada ao povo judeu, tanto histórica como biologicamente, vai fazê-la mais aberta a Israel”, diz Freund.

Castellanos: um Coronel do Exército salvadorenho, diplomata e salvador

Enquanto estava na Suíça durante a Segunda Guerra, José Arturo Castellanos Contreras ficou amigo de George Mandel, um homem de negócios judeu húngaro. Mandel, que mais tarde adotou o nome Mantello, contou-lhe o que estava a acontecer com os judeus. Castellanos designou Mandel para o cargo de Primeiro Secretário do consulado, um título fictício. Juntos emitiram passaportes e visas que identificavam entre 25.000 e 40.000 judeus europeus como cidadãos de El Salvador, salvando-os assim da morte. Para além de uma entrevista a Leon Uris pouco tempo antes da sua morte, Castellanos nunca falou sobre o seu papel de salvador.

Rhona Lewis

Rhona Lewis fez aliá há mais de 20 anos do Quénia e vive agora em Beit Shemesh. Escritora e jornalista, contribui frequentemente para a revista The Jewish Press’s Olam Yehudi e divide o seu tempo entre a família e o trabalho.

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