Parashat Chaiei Sarah

Retirado do livro Ideas de Bereshit, dos rabinos Isaak Sakkal e Natan Menashe.

Conhecendo Sara

Sara, esposa de Abraão:

Sara era irmã de Abraão por parte do pai, por isso a relação entre eles era mais próxima. Viveram juntos pelo menos 70 anos, se considerarmos que Abraão casou aos 75, ou quase 100, se calcularmos que casaram mais jovens.

Para Abraão, Sara era a sua esposa. Nenhuma outra mulher foi vista por ele como sua esposa, mas sim somente como concubinas.

Sara ia com ele para todo lado, nos bons e nos maus momentos. Vemos que Sara segue Abraão mesmo quando se expõe a ser tomada pela força.

Vemos que Sara, tal como Abraão, ocupa-se de aproximar as pessoas de De’s (et Col haNefesh asher asu beCharan— “todas as almas que fizeram em Charán”)

Sara sacrifica-se junto com Abraão. Abraão recebe convidados constantemente e às vezes de forma imprevista, e pede a Sara que lhes prepare refeições elaboradas, o que ela faz de boa vontade, sem se queixar. Para além disso, Sara fica na tenda; não pretende sobressair nem brilhar. Apesar de ser bela, não se quer mostrar.

Sara não interfere nos planos de Abraão. Nem sequer na Akedá, nem quando saíram de Ur Casdim. É sócia dele e é-lhe fiel.

Sara refere-se a Abraão como seu senhor (Adoni). Tem De’s na boca.

A Torá não nos diz que De’s tenha falado com Sara. Mas no que diz respeito a Agar, diz-nos que o anjo de De’s falou com ela quatro vezes. Outro aspeto que fica claro então é que ela não estava no mesmo nível que Abraão.

Sara oferece a sua escrava Agar a Abraão. O que se vê à simples vista é que Sara estava ansiosa por ter um filho, por isso deixa bem claro que lhe dá “a sua escrava”, quer dizer “a senhora sou eu; ela é a escrava”. E porque lha dá como esposa e não como concubina? Porque pensou que Abraão não ia tomar concubinas, pois até agora não o tinha feito, apesar de poder. (O mais provável é Abraão não o ter feito para não a magoar).
A Torá relata-nos apenas um episódio no qual Sara maltrata Agar e se dirige a Abraão com palavras duras (zangada). Podemos dizer que este incidente foi produto da cólera ou do medo de perder o seu lugar junto a Abraão.

Outro aspeto que observamos é que Sara se dirige a Ismael de forma pejorativa, não o chamando pelo seu nome. Sara vê Ismael como “o filho de Agar HaMitzrí”. Depois diz a Abraão que expulse a escrava, não diz “Agar” nem “Ismael”, mas sim “o filho dela” (apesar de Ismael ser também filho de Abraão), sem ter em conta o que Abraão iria sentir.

Por um lado, tínhamos dito que Sara não se intromete nas decisões de Abraão, mas aqui, ao ver que o seu filho está a ser mal influenciado, Sara toma as decisões e não consulta com o seu marido, apesar de serem decisões que lhe iriam causar dor.

Até agora tínhamos visto que Sara era passiva. O que podemos concluir é que Sara estava disposta a seguir Abraão. Sara é uma mulher com sentimentos femininos e fica magoada quando se sente a ela própria ou aos seus seres queridos sob ameaça (ela como esposa de Abraão, e o seu filho). Estas são relações que naturalmente uma mulher valoriza muito.

Porque De’s deu razão a Sara? De’s está de acordo com ela em que isto pode interferir com o projeto mais importante que é Ki beItzchak ikaré lechá zara — Isaac será o teu descendente.

Abraão dirige-se a Sara com muito respeito. Vemos que apesar de ela ser estéril — é a primeira coisa que a Torá nos conta sobre ela — Abraão espera pelo menos 60 anos, apesar de que, de acordo com a Halachá, depois de 10 anos sem filhos poderia divorciar-se ou tomar outra mulher. É importante ter filhos, mas vemos que Abraão não toma outra mulher até que Sara lho pede. Tudo isto para não a fazer sofrer, pois não a quer magoar.

Abraão só volta a casar depois de Sara falecer. Para Abraão, como dissemos, a sua única esposa foi Sara, pois assim está escrito: aos filhos das concubinas deu presentes, mas a Isaac, filho da sua esposa Sara…

Abraão não discute com Sara. Tenta agradá-la e entrega Agar nas suas mãos.

Vemos como Abraão se esforça em conseguir um lugar digno e honrado para enterrar Sara. Não a quer enterrar em qualquer lugar onde as pessoas pisem ou que chova em cima, etc., mas sim num lugar protegido, um lugar apropriado, e por isso paga um preço muito alto ($400.000), o que nos demostra o quanto a amava.

Apesar de o nome de Sara neste episódio aparecer apenas quatro vezes, vemos que diz metó — “a sua morta” —, e o significado destas palavras é óbvio. Como diz o Midrash: Ein HaIshá metá ela le baalá — a mulher unicamente morre para o seu marido — quer dizer que é ele quem mais sofre a morte dela.

Em resumo: Sara é fiel, consagrada ao seu marido, e sócia dele na grande tarefa de aproximar as pessoas a De’s. É a única mulher a quem De’s mudou o nome. As ações aparentemente incorretas que cometeu, cometeu-as levada pelo sentimento. Sara é nomeada mais vezes que as outras matriarcas: 55 vezes no total: 38 vezes Sara e 17 vezes Sarai.

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