Parashat Vaierá

Retirado do livro Ideas de Bereshit, dos rabinos Isaak Sakkal e Natan Menashe.

Anteriormente vimos que Abraão está no nível mais elevado de amor a De’s. Abandona tudo para se aproximar de De’s e ensina a sua casa a andar nos caminhos de De’s, justiça e equidade. Quer conhecer De’s e a maneira como Ele controla o mundo. Faz dois pactos com De’s. Todo ele era bondade, como De’s.

Agora devemos ver o outro aspeto, o temor a De’s. E para isso vem esta prova.

De’s não necessita de submeter Abraão a nenhuma prova. Ele já sabe tudo.

A palavra Nissaon em hebraico quer dizer “prova”. Tal como em português, a palavra “prova” pode utilizar-se para dizer que vamos submeter alguém a uma prova, como quando dizemos: “Vou pô-lo à prova para ver se é honesto ou não.” Mas a palavra “prova” também se pode utilizar para nos referirmos à demonstração de algo, como por exemplo, quando dizemos: “Estive no lugar X, e posso prová-lo.” É a este segundo significado que nos referimos aqui.

De’s vai demonstrar à humanidade inteira o que um homem deve estar disposto a fazer por De’s.
Vemos que Abraão leva isto muito a sério, considera todos os detalhes, não arranja desculpas. Há seis verbos num só versículo (Madrugou Abraão, aparelhou o seu burro, tomou dois servos consigo, partiu lenha para a oferenda, levantou-se e foi com eles ao lugar que De’s lhe indicou).

Abraão dirige-se por um caminho de três dias, tal como Moisés, que pediu ao faraó para fazer um caminho de três dias para sacrificar oferendas a De’s.

O motivo pelo qual De’s lhe diz que vá até ao Monte Moriá é que isso implica caminhar durante três dias, quer dizer, tem tempo suficiente para pensar. Não se trata de um ato impulsivo sem pensar; Abraão teve tempo para refletir. Abraão fá-lo porque está convencido, não se trata de um ato irrefletido.

Segundo a opinião de Rashi, a prova consistia em ver se Abraão estava disposto a dar algo por De’s, um sacrifício, e De’s afirma que Abraão estaria disposto a dar aquilo que mais lhe custaria.

Outra versão de Rashi é que isto demonstra que, apesar de Ismael ter feito o Brit Milá aos 13 anos, o que tem mais mérito do que fazê-lo aos oito dias, Isaac responde que nós temos o preceito de Kidush HaSem — santificar o nome de De’s — onde entregamos tudo por De’s, inclusive a própria vida.

De tudo o que nos foi relatado até agora acerca das ações de Abraão, fica claro sem lugar a dúvidas que o motor interno de Abraão é o amor a De’s. O que falta demonstrar é o temor a De’s. Aparentemente é como descer de nível, porque quem está no nível de amor a De’s está acima do nível do temor a De’s.

Outro nível de temor é fazer tudo al pi HaShem — conforme a vontade divina. Apesar de podermos supor que um profeta do nível de Abraão faz o que faz porque De’s lho diz e não por outro motivo, este ato da Akedá é o que o demonstra sem lugar a lugar há dúvidas.

Não é que Abraão aja por medo do castigo, pois perder o seu filho era realmente um grande castigo, e também não podemos pensar que o fazia esperando uma grande recompensa em troca, pois o seu filho era a melhor recompensa.

No entanto, mesmo entre quem obedece a De’s, existem diferentes níveis. Temos aqueles que o fazem porque o Rei o ordenou, mas fazem-no sem vontade, porque que não lhes resta outra alternativa. Mas também temos aqueles que o fazem com bom ânimo e com toda a sua vontade, pois a sua motivação é fazer a vontade de De’s, acima dos seus interesses pessoais. Aqui, Abraão põe todo seu amor a De’s ao serviço da ordem (decreto) de De’s (levanta-se cedo, etc.).

Abraão encontra-se num dilema. Por um lado, todo seu mundo girava ao redor de um De’s bondoso e misericordioso. Agora, de repente, De’s ordena-lhe algo que é contrário a esses princípios. Como enfrentar este dilema? O Midrash relata-nos que o Ietzer hará — o mau instinto— utilizou todos os meios (lógicos, sentimentais, etc.) para persuadir Abraão a não lhe obedecer.

Da resposta que Abraão dá a Isaac e aos seus dois servos vê-se que Abraão na realidade esperava e acreditava que De’s não ia permitir a morte de Isaac (não tinha 100% de certeza, mas era o mais provável de acordo com o que ele conhecia de De’s. No entanto estava disposto a ir até ao fim, mesmo que as coisas não fossem como ele pensava).

Mas Abraão não age esperando que alguém o pare. Ele continua e esforça-se por fazer tudo. Pega até na faca, quer dizer, quer demonstrar que está disposto a dar tudo por De’s, mesmo que De’s lhe peça o seu bem-amado filho.

Vemos que não foi algo fácil para Abraão. Ele estava muito unido ao seu filho e não só isso: o seu filho também estava muito apegado a ele. Isto é enfatizado, ao dizer duas vezes que foram juntos: Iachadab.

Há aqui uma contraposição de valores. Por um lado, a ordem de De’s, que está sobre tudo, e, por outro, Vachai baem — os preceitos são para a vida — e as qualidades com as que De’s controla o mundo. Mas na realidade não se contradizem. Em princípio devemos estar dispostos a dar tudo por De’s, mas na prática também aplicamos as qualidades com que De’s controla o mundo (misericórdia, bondade, etc.)

O nome Elokim aparece cinco vezes e o Shem HaSehem aparece outras cinco vezes. Porque se diz Elokim Nisá?

Utiliza-se este nome de De’s porque é o que se refere a Malchut — reinado — tal como no Shma Israel, HaShem Elokeinu… (Kabalat ou Malchut Shamaim — submeter-se ao jugo celestial).

Logo Abraão faz um sacrifício. Porquê agora? Agora que é conhecido como Iré Elokim — temeroso de De’s — ou seja, que está disposto a fazer tudo por De’s, agora pode fazer uma oferenda (korban olá) que é 100% para De’s. Alguém que é 80% para De’s, então a sua oferenda também é 80% para De’s e 20% para as suas intenções e interesses pessoais. Aquele que traz uma oferenda (korban olá) deve ver-se a si mesmo como Abraão, que está disposto a dar tudo por De’s.

A ordem é que ofereça Isaac e não a Sara, porque Isaac está mais próximo às suas ideias e é a sua continuação.

Abraão é a prova de até onde um ser humano deve chegar na sua relação com De’s. Ter a De’s sobre tudo, e por isso estar disposto a dar tudo por Ele. Abraão ensina-nos que não há neste mundo nada mais importante que De’s.

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