Yom Kipur

Retirado do livro O ser Judeu, de David Hayim Halevi Donin

E falou o Senhor a Moisés dizendo: “No décimo dia deste sétimo mês, é Dia de Expiação. Tereis Santa convocação e afligireis as vossas almas (…) Nenhum trabalho servil fareis nesse dia, porque é Dia de Expiação. (…) Porque toda a pessoa que não se afligir nesse mesmo dia será separada do seu povo. E qualquer pessoa que fizer qualquer trabalho nesse mesmo dia, eu a destruirei de entre o povo. Nenhum trabalho fareis. É uma lei perpétua pelas vossas gerações onde quer que estejais. Será um Shabat de completo repouso para vós e afligireis as vossas almas, começando aos nove dias do mês ao anoitecer, do anoitecer ao anoitecer, guardareis o vosso descanso.”  (Levítico 23:26-32)

O dia anterior a Iom Kipur é dia de preparação para o jejum:

Deve separar-se dinheiro para caridade e o mesmo deve ser levado à sinagoga antes dos serviços vespertinos para ser distribuído entre várias instituições, sejam de carácter religioso ou de beneficência social.

Devido ao facto de Iom Kipur não expiar pecados cometidos contra o próximo, a menos que a parte ofendida tenha aceitado perdoar o autor da má ação, este dia deve ser considerado como a data limite para a reconciliação, para expressar e solicitar o perdão. Não há diferença entre más ações cometidas contra bens materiais ou insultos. De’s não perdoa, a menos que a parte ofendida o tenha perdoado primeiro. No momento das tentativas de reconciliação, a parte ofendida deve sentir que é sua obrigação perdoar de todo o coração. Se persistir teimosamente em recusar, é considerada cruel; considera-se que ela própria se está a comportar erradamente e não como um digno filho de Israel.

A refeição ao entardecer, antes do jejum, deve ser festiva. No entanto, não se deve comer demasiado ou comer algo que possa causar sede, porque isto tornaria o jejum mais difícil.

Antes de deixar o lar para ir para a Sinagoga, é costume que o pai abençoe os filhos e filhas.

A Torá especifica que o jejum deve começar no nono dia, de maneira que o jejum de Iom Kipur começa na realidade antes do pôr-do-sol, quando ainda há luz, e só se conclui ao anoitecer do dia seguinte. Por “anoitecer” não se entende o pôr-do-sol, mas sim a chegada da noite, o que ocorre um pouco mais tarde, quando aparecem as estrelas. O tempo de espera depende da latitude geográfica.

O preceito bíblico “afligireis as vossas almas” observa-se como um jejum completo e total. Abstinência total de todo o alimento ou bebida durante o período completo (aproximadamente vinte e cinco horas).

No que diz respeito ao trabalho, o Dia da Expiação segue as mesmas regras do Shabat semanal, com as mesmas exceções no caso de um pessoa estar em perigo de vida. O que é proibido em Shabat é proibido em Iom Kipur, à exceção do próprio jejum, pois normalmente é proibido jejuar no Shabat porque isso diminuiria o prazer que esse dia deve proporcionar. Por isso todos os outros jejuns (à exceção de Iom Kipur), se coincidirem com Shabat, são adiados para o domingo ou antecipados para a quinta-feira. Mas se o dia de Iom Kipur coincidir com Shabat, é obrigatório jejuar e “afligir a alma”.

Há quem explique que jejuar com o propósito de expiação não contradiz as exigências do Shabat de oneg (prazer). Outros simplesmente consideram que a exigência de Iom Kipur tem precedência sobre o Shabat e fundamentam a sua opinião no facto de Iom Kipur ser denominado Shabat Shabatón, implicando que é o Sábado dos Sábados.

A Lei Oral ensina-nos que para além da proibição de comer e beber, o preceito de “afligireis as vossas almas” implica também a proibição de lavar-se ou tomar banho, usar cremes no corpo, usar calçado de couro e ter relações sexuais.

É proibido assear-se se isso for feito por prazer ou para contribuir para a pessoa se sentir mais confortável (shel taanug). O asseio realizado para limpar sujidade ou depois de fazer as necessidades fisiológicas é permitido (kedarcó tamid).

Uma pessoa doente ou cujos pés lhe doam pode calçar sapatos de couro. As crianças menores de nove anos não devem jejuar, porque isso poderia ser prejudicial para a sua saúde. A partir da idade de nove anos devem ser treinadas gradualmente para jejuar durante períodos cada vez maiores até chegar ao jejum completo. As meninas a partir dos doze anos e os rapazes a partir dos treze devem jejuar como os adultos.

O jejum de Iom Kipur apenas se pode quebrar por razões de doenças graves. Os fatores determinantes para a dispensa devem ser a opinião da própria pessoa ou a opinião do médico. Nestes casos deve solicitar-se a opinião de um rabino.

Uma mulher que está a dar à luz (desde o momento em que começa a sentir as dores do parto) e durante os três primeiros dias a seguir ao parto, não está autorizada a jejuar, mesmo se ela insistir em fazê-lo. Desde o terceiro ao sétimo dia depois do nascimento pode jejuar se assim o desejar, mas pode interromper o jejum se sentir necessidade de o fazer.

O serviço inicial de Iom Kipur chama-se Kol Nidrei (Todos os Votos), devido ao nome desta oração, que tem grande significado histórico e emocional. O serviço final de Iom Kipur, no dia seguinte, chama-se Neilá, que significa “fecho” (das portas). Fora do tempo em que a pessoa volta para a sua casa para descansar ou dormir, o tempo está todo dedicado à oração.

O uso de roupa branca em Iom Kipur é um costume consagrado pelo tempo e tem o propósito de recordar as mortalhas brancas com que os mortos são enterrados (tachrichim), suavizando desse modo o coração do crente. O branco também representa a pureza e simboliza a promessa profética: “Mesmo que os vossos pecados sejam de cor escarlate, serão branqueados como a neve” (Isaias 1:18)

A finalização de Iom Kipur é assinalada por um toque único e prolongado do shofar, que simboliza “quando soe longamente o corno de carneiro…” (Éxodo 19:13) que assinala a conclusão da Revelação no Monte Sinai. Na antiguidade, o som do shofar em Iom Kipur também marcava o começo do Ano do Jubileu.

Depois de Iom Kipur, deve-se começar os preparativos para a festa de Sucot, que é quatro dias depois, começando a construção da Sucá.

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