Parashat Nasó

O nazir: a obtenção do equilíbrio psicológico

Por Rabino Eliahu Birnbaum

«E disse o Eterno a Moisés: “Diz aos filhos de Israel: Quando alguém, seja homem ou mulher, fizer voto de consagração ao Eterno, abster-se-á de vinho e de bebidas fortes e não beberá vinagre de vinho, nem vinagre de bebidas fortes, nem licor de uvas algum. Nem sequer comerá uvas, sejam frescas ou secas.

Em todo o tempo do seu nazirato, não comerá nada feito da videira, desde as grainhas até às folhas. Em todo o tempo do seu nazirato não passará navalha pela sua cabeça. Enquanto transcorrer esse tempo de consagração ao Eterno, será santo e deixará crescer os cabelos ilimitadamente. Em todo esse tempo de consagração ao Eterno não se aproximará de cadáver algum. Nem sequer se impurificará por seu pai, por sua mãe, por seu irmão ou por sua irmã se morrerem, porque o diadema de De’s está sobre a sua cabeça. Todo o tempo do seu nazirato, será santo ao Eterno.”» (Números, 6, 1-10)

Entre os variados tópicos da parashat Nasó, o tópico do nazir (o nazareno consagrado) chama muito a atenção. Esta parashá destaca-se porque não só nos apresenta temas que lhe são próprios, mas também nos ensina certos elementos que são essenciais para o judaísmo.

Neste texto, encontramo-nos com o nazir, um homem que se afasta dos prazeres do mundo e se abstém totalmente da bebida. Existem três proibições para o nazir: beber vinho ou ingerir qualquer alimento derivado da videira, cortar a barba e o cabelo e receber impureza através do contacto com cadáveres.

O aspeto interessante e novo que a Torá nos apresenta através da imagem do nazir é que, apesar de nos ser imposto um conjunto de regras haláchicas bastante rígidas, existe também a consciência de que, no que diz respeito a certas esferas da vida, é impossível exigir uma conduta única, tanto no presente como nas gerações futuras. A Torá dá então autoridade ao Homem para escolher e impor a si mesmo uma certa forma de vida, que o aproxime aos preceitos e leis da Torá.

Esta atitude é relativamente moderna, já que contém elementos próprios de uma filosofia existencialista no que diz respeito ao Homem. No entanto, apesar de não estar familiarizada com esta corrente filosófica, é evidente que a Torá era possuidora da sabedoria necessária referente à alma humana e às suas necessidades existenciais.

A Torá refere-se à generalidade do povo, e também fornece os preceitos que têm o objetivo de levar cada um dos indivíduos do povo ao estado espiritual de santidade.

Por tanto, a Torá não exige o preceito de nezirut, já que nem toda a gente pode alcançar este estado espiritual. Mas por outro lado, para certos indivíduos cujas necessidades religiosas ou psicológicas exigem o estado de nezirut, é permitido escolher voluntariamente o cumprimento deste preceito.

Podemos considerar o nazir como um ser particular, diferente dos demais. A Torá permite também a existência de indivíduos especiais. Esta pessoa escolhe para si certos comportamentos singulares: deixa crescer o cabelo, evita certos alimentos etc. A Torá, no entanto, só permite levar a cabo comportamentos especiais se através deles o indivíduo chegar a um estágio social e religioso compatível com as normas básicas do judaísmo.

O indivíduo transforma-se em nazir por sua livre escolha. A Torá determina a moldura da nezirut, mas permite ao Homem determinar livremente o seu conteúdo. A nezirut pode constituir um meio psicológico que possibilite ao indivíduo dominar os seus instintos, como, por exemplo, no caso de uma pessoa que está dominada pela bebida e necessita libertar-se dela. A dependência da bebida é um pecado e, assim, a força necessária para alguém se libertar dela contém certo elemento de santidade. Na sociedade atual existem conjuntos de regras destinados a conseguir a desintoxicação das drogas e do álcool. Habitualmente este processo é levado a cabo através do afastamento da pessoa do seu meio habitual para evitar, deste modo, que esta entre em contacto com as substâncias nas quais está viciada e que lhe trazem consequências nocivas. De forma similar, através da nezirut, o indivíduo pode recuperar o equilíbrio psicológico.

O desejo do Criador não é que o Homem viva num estado de nezirut; pelo contrário, o Criador põe à disposição do Homem várias fontes de satisfação. A Torá considera que o Homem é ao mesmo tempo uma criatura natural e espiritual, e por isso necessita de certos prazeres. No entanto, De’s não está disposto a aceitar que o Homem seja regido apenas pelo hedonismo e pela sua necessidade de prazer pessoal.

Rabi Yehuda Halevi, na sua importante obra filosófica O Cuzarí, explica a relação do judeu com o mundo material que o rodeia: “O religioso ou servo de De’s não costuma, entre nós, afastar-se e separar-se do mundo como se este fosse uma carga, nem rejeita a vida, que é das principais ofertas do Criador. Com a vida, o Homem recorda as obrigações que Lhe deve pelos benefícios que recebe continuamente da Sua mão generosa… Ama o mundo e a vida repleta de dias, porque com eles conquista a vida eterna no outro mundo e estima que quanto mais bem fizer nesta vida, em maior grau subirá na outra.”

Em todas as religiões onde a ideia da redenção da alma humana constituir um dos seus elementos ecentrais, a nezirut ocupa um lugar importante e está relacionada com a santidade. Consideremos por um instante a atitude de outra filosofia religiosa, o budismo, no que diz respeito à nezirut, e descobriremos uma atitude que é a antítese total do judaísmo no que diz respeito ao mundo e à conduta humana.

De acordo com os princípios do budismo, cujo fundador viveu no século VI antes da era comum, a “pena” é o elemento central que rege este mundo. Todo o Bem do mundo é passageiro, e todos aqueles que estejam ligados a este Bem passageiro, acabarão em tristeza. A tristeza é eterna, e baseia-se na paixão. A paixão humana é que origina a tristeza, da qual é impossível libertar-se. Qual é então a solução? O suicídio não soluciona o problema, porque depois da sua morte o Homem terá que voltar à vida e sofrer novamente. Só se o Homem eliminar dentro de si todo o desejo, toda a paixão, se poderá redimir. A redenção consiste, então, na libertação de todo o desejo e paixão vital. O objetivo do Homem é superar as suas próprias paixões. Para conseguir a eliminação das paixões interiores, o budismo propõe a nezirut, que permitirá alcançar o estado de Nirvana. Segundo o budismo, o Homem redime-se a si mesmo. Não existe mundo superior ou força superior que o venha redimir. O objetivo que o budismo apresenta ao Homem é pessimista e negativo.

Existe uma diferença fundamental entre o conceito judaico da nezirut e o de outras religiões. A nezirut judaica inclui: o afastamento de certos elementos desnecessários, em especial aqueles que prejudicam o corpo, como o vinho, e um aspeto especial de santidade que se consegue através de certas características exteriores, como o fato de se evitar cortar a barba. O objetivo destas proibições é conseguir a concentração do pensamento do nazir em esferas espirituais, eliminando a preocupação pelo aspeto exterior e o cuidado da apresentação física e da beleza.

Contrariamente à nezirut de outras religiões, o judaísmo não exige a submissão da força instintiva e da natureza humana. O nazir judeu não é obrigado a deixar a sua vida familiar nem o seu casamento. Pelo contrário, é-lhe exigido que estabeleça uma família, tal como todos os outros homens do povo.

O judaísmo rejeita o ascetismo como forma de vida, e não acredita que este constitua o caminho para a santidade, ao contrário de outras religiões, desde o cristianismo até certas seitas orientais, que decretaram o afastamento do mundo e de todos os prazeres, para as pessoas se fecharem em mosteiros ou se refugiarem em locais elevados e afastados.

O Talmud diz: “O destino do Homem é prestar contas por tudo o que contemplou com os seus olhos e não comeu.” De’s criou o mundo e pô-lo à disposição do Homem para este o usar e desfrutar dele. A rejeição dos prazeres do mundo que Ele criou, é equivalente à rejeição de De’s, que nos oferece os prazeres. Por tanto, é nosso dever desfrutar do mundo, sempre dentro da moldura legal que a Torá nos impõe.

A Torá não considera que a natureza seja um elemento corrupto contra o qual é necessário lutar. Pelo contrário, o Homem deve viver dentro do contexto das suas tendências e necessidades saudáveis. O judaísmo diz “sim” à vida…

 

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