Não tenho outro país

Sabe aquelas coisas que despertam em nós as emoções mais intensas que o Sionismo nos inspira? Cantar o HaTikvá, assistir ao filme Exodus, ver inesperadamente um avião da El Al num sítio qualquer do mundo, ouvir a sirene de Yom haZicarón, ver os soldados do IDF… Ver os soldados do IDF, então, é mesmo especial – Particularmente se for numa cerimónia formal do IDF. Eu sou especialmente sensível a estes gatilhos emocionais. E continuo a sê-lo, mesmo após mais de uma década a viver em Israel. Aliás, agora talvez até o seja mais.

Eu já estava à espera de ficar emocionada enquanto assistia pela primeira vez ao tekes sium, a cerimónia de conclusão do treino básico na base militar Michve Alon. E fiquei mesmo. Conhecida pelos seus programas educacionais, Michve Alon é a primeira paragem dos muitos milhares de soldados solitários do mundo inteiro que vêm para Israel para servir no IDF, acabando a maioria deles por fazer aliá e ficar no país. Em Michve Alon recebem o treino básico, bem como aulas intensivas de hebraico para adquirirem as competências necessárias no idioma. Depois dos três meses de treino, há um tekes.

Tendo chegado cedo ao evento, fiquei espantada com a vastidão do local onde centenas e centenas de soldados em formação se preparavam para entrar, marchando. Tirei a minha máquina fotográfica assim que vi o nosso primo James, o nosso soldado solitário que foi quem motivou a nossa presença ali, naquela base no norte de Israel. Imediatamente a seguir começou a música e os soldados começaram a entrar marchando, unidade por unidade, com grandes sorrisos.

Vou-me inteirando dos procedimentos e observando os rostos destas centenas de novos soldados, claramente imigrantes de todos os cantos do mundo. Olho com orgulho para as numerosas bandeiras israelitas a esvoaçar sobre eles na briza da manhã, azul claro e branco brilhante. O sol passa devagar para trás das montanhas, dando à cena uma luz dourada maravilhosa. A banda está a tocar Jerusalém de Ouro. Eu estou a chorar.

As cerimónias podem ser por vezes longas e aborrecidas, cheias de discursos com demasiada pompa e circunstância. E até se poderia pensar que a rigidez do exército tornaria a cerimónia ainda mais rígida. Eu sei que estou a falar apenas desta cerimónia em particular, mas pense em todos os israelitas que conhece: As únicas vezes que se consegue pôr milhares de israelitas de pé, com atenção, sem se moverem e em silêncio é durante o toque das sirenes do Dia da Memória e do Dia do Holocausto, e, mesmo nessas ocasiões, é só por dois minutos.

Os convidados estão descontraídos. Os soldados um pouco menos. A minha câmara não para de disparar, pois quero captar a excitação vivida e o orgulho sem tamanho no rosto de cada um dos soldados. E não só dos soldados, mas também dos oficiais. E das suas famílias. E dos habitantes do kibutz local que vieram para mostrar o seu apoio. E da equipa do Programa para os Soldados Solitários da Nefesh beNefesh, que vem sempre a todas as cerimónias, sem exceção.

Agora os soldados fazem algo notável: Estão ajoelhados, e um deles levanta-se e diz alto as seguintes palavras, que são o título de uma canção muito conhecida em Israel: Ein li eretz acheret! [Não tenho outro país!]

De repente um oficial exclama: “Inglês!” e um soldado dos EUA levanta-se e traduz: “I have no other country!”

O oficial grita “Francês!”, e a frase é repetida em francês. Depois espanhol. Russo. Alemão. Italiano. Chinês. Finlandês. Ucraniano. Amárico. Kuki. Cada frase é recebida com um aplauso muito sentido, porque todos percebemos o empenho e o sacrifício por trás da decisão de cada soldado nascido fora de Israel, que não nasceu com a obrigação de servir no exército, mas escolheu fazê-lo.

Soldado Bnei Menashe que a Shavei Israel trouxe em aliá da Índia, logo após declarar “Não tenho outro país” em kuki. Foto de Laura Ben-David.

O oficial exclama: “Árabe!” Um soldado árabe israelita levanta-se e diz a frase em árabe, provocando um aplauso estrondoso. Pensávamos que nada nos surpreenderia mais… Mas eis que o oficial exclama: “Ídiche!”, e um jovem soldado religioso, com barba, levanta-se e recita a sua frase, provocando um aplauso igualmente forte.

Claramente que o simbolismo das duas línguas finais foi planeado. E serve muito bem o objetivo. o árabe e o ídiche são falados por dois segmentos opostos da sociedade israelita: os árabes e os judeus ultraortodoxos. Embora estes soldados sejam israelitas, ao contrário da maioria dos outros soldados participantes da cerimónia, provêm de populações que geralmente não servem no exército, por isso, neste contexto, os falantes de árabe e de ídiche têm muito mais em comum com o resto dos soldados do que se poderia supor…

É que eles também deixaram para trás a sua zona de conforto e fizeram uma escolha: escolheram Israel.

Artigo escrito por Laura Ben-David, Diretora de Marketing da Shavei Israel. Publicado originalmente pelo jornal Times of Israel.

One thought on “Não tenho outro país”

  1. Me senti na cerimônia, igualmente chorei. Obrigada por compartilhar . Um dia estarei nesse lugar também.

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