Parashat Miketz

«E ao cabo de dois anos o faraó sonhou que estava junto ao rio, e do rio subiam sete vacas robustas, belas à vista, que pastavam na fértil terra contígua. E detrás delas subiam do rio outras sete vacas, mas muito escassas em carne, de aspeto desagradável pela sua magreza, que pararam junto às outras na margem do rio. E a vacas magras devoraram as gordas, e o faraó acordou.… »  (Genesis, 41:1-4 )

Nesta parashá encontramo-nos perante o homem dos múltiplos papéis: Yosef. Yosef é o sonhador e o decifrador de sonhos. É quem governa o Egito, sem, no entanto, esquecer o seu papel de filho e de irmão. É um homem que se relaciona ao mesmo tempo com as coisas materiais e com o espírito.

Na nossa parashá, o rei do Egito tem um sonho misterioso: Na primeira parte, sete vacas magras devoram sete vacas robustas e belas, e, na segunda parte, sete espigas fracas devoram sete espigas abundantes e belas. O que é extraordinário é que, mesmo depois de terem devorado os seres plenos e belos, os seres magros e desagradáveis permaneceram na mesma, sem que se tivesse produzido nenhuma mudança no seu aspeto.

O faraó estava preocupado: Os seus conselheiros tentaram inutilmente explicar o sonho. Ao não o conseguirem, torna-se necessário superar a humilhação e recorrer a Yosef, o conselheiro judeu, para pedir a sua opinião. Qual foi a sua contribuição para o Egito?

O Egito era uma terra fluvial, que tinha todas as condições necessárias para nela se desenvolver uma grande civilização. É atravessada pelo Nilo, o que garante a sua riqueza permanente. As diferentes civilizações são geralmente fruto do esforço humano para dominar as condições naturais da sobrevivência, assegurando deste modo um futuro tranquilo. Se indagarmos no livro de Génesis, veremos que esta aspiração constituiu a base de todas as civilizações pagãs. A idolatria é a crença nas leis naturais que o Homem deseja dominar, ou, pelo menos, empregar em seu benefício, para assegurar deste modo a sua sobrevivência. A natureza pode assegurar a sobrevivência do Homem, mas é muito interessante observar que o Homem não se satisfaz com o que a natureza oferece, pretendendo obter dela um benefício maior. O problema é que quanto mais se desenvolve a cultura humana, maior é a exigência dessa cultura para assegurar a sua existência.

O Egito era um império muito desenvolvido naqueles tempos e o progresso da natureza e do país dependia das forças pagãs. As leis naturais, das quais dependem a existência, o bem-estar humano e o seu futuro, eram os próprios deuses. O Nilo era um dos deuses egípcios e a sua adoração tinha como objetivo assegurar que a vontade divina favorecesse as necessidades humanas. Mas a história de Yosef aponta para a existência de outra visão da realidade.

A proposta que Yosef faz ao faraó sobre a forma de se salvar da seca era uma proposta racional que não se baseava nos motivos pagãos. Esta proposta recusa o temor do faraó no que diz respeito ao futuro; temor que surgiu nele com base no sonho. A crença de Yosef de que era De’s que constituía a fonte do sonho e não os ídolos pagãos, permite-lhe não só decifrar o significado do sonho, mas também propor um caminho para aliviar as consequências negativas. Deste modo, Yosef, baseado no poder conferido pelo faraó, constrói silos para armazenar comida durante os anos maus. Yosef vende a quem precisa os bens que tinha acumulado.

Quando acabou o dinheiro em poder dos habitantes, estes pagaram com os seus bens e depois com as suas terras. Deste modo, no fim do período de seca, todas as terras do Egito, exceto a dos sacerdotes do faraó, pertenciam ao Faraó, e todos os habitantes do Egito, à exceção dos sacerdotes, tinham-se transformado em seus escravos.

Estas ações de Yosef mostram a contribuição de um dos primeiros judeus da História para o bem-estar de um império grande e importante como era o império egípcio. Yosef ensinou ao povo egípcio os fundamentos da psicanálise e do comunismo. Ensinou ao faraó e aos sacerdotes egípcios como interpretar o significado dos sonhos, evitando deste modo as suas consequências nefastas. A concentração dos alimentos para sua posterior distribuição e a eliminação da propriedade privada de dinheiro, bens e terras constituem um exemplo de comunismo, desprovido de partidos políticos e ideologias complicadas.

Yosef percebeu o elemento positivo da teoria marxista, que afirma que os processos económicos têm um significado histórico, e, deste modo, aproveitou situações especiais criadas durante os anos da seca para estabelecer um sistema económico mais justo e eficiente.

A conceção económica de Yosef incluía a maior parte dos elementos da economia moderna: A concentração dos meios de produção nas mãos de um poder central, e a sua distribuição justa e equitativa entre os trabalhadores. Yosef possuía um dom especial para o planejamento e gestão do sistema económico, e empregou este dom em benefício do Egito.

Como vimos, as qualidades especiais de Yosef não se limitavam ao campo material; manifestavam-se também através das suas características materiais e humanas. Com base nelas, foi capaz de penetrar no pensamento e nos sonhos do rei do Egito, para descortinar os seus segredos.

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