Interpretando sonhos e sonhadores – Parashat Vaietze

«E foi-se Yaacov de Beer Sheva para Charán. E fez-se de noite no caminho, porque o sol já se tinha posto… E sonhou com um escadote cuja base estava na terra e cujo topo chegava aos céus, e anjos de De’s subindo e descendo por ele, e eis que o Eterno estava sobre ele…»

Um dos sonhos mais maravilhosos que um homem alguma vez sonhou foi o sonho de Yaacov ao ir embora de casa do seu pai – ao fugir de casa do seu pai – rumo a Charan.

Já na antiguidade bíblica o sonho suscitou uma atitude de respeito e valorização, bem como uma certa desconfiança, e, por vezes, uma aberta reserva.

Esta ambivalência divide também o texto talmúdico e prolonga-se até aos nossos dias. A tensão entre uma atitude que vê no sonho uma possibilidade transcendente e a que o considera um fenómeno natural que não vai mais além da psique do indivíduo que sonha, gera, no seu movimento, a riqueza simbólica irredutível da vida onírica.

O sonho não é só o terreno onde surgem os símbolos; ele é o modo de expressão do simbólico por excelência. Por outras palavras, o sonho é símbolo que fascina, comove e clama para ser interpretado.

A conceção dos sonhos no judaísmo e no mundo moderno difere e dá origem a interpretações que não têm o mesmo tom nem a mesma orientação. O Rabino Kuk refere-se ao valor do sonho e ao seu alto significado como superação da realidade e como via de acesso à «verdade do ser» mais íntima do real.

Outros pensadores tentam definir o sonho como um «conjunto de vivências» que surgem ao dormir e que são recordadas ao acordar. Mas estas vivências são vividas durante o sonho como sendo a própria realidade.

Erich Fromm sublinha o desenvolvimento da conceção do sonho ao assinalar a importância do fenómeno onírico para a compreensão da vida inconsciente.

Na sua importante obra A interpretação dos sonhos, Freud fundamenta a sua conceção de que o sonho não é mais do que o desejo, expressado de diferentes modos.

Em Jung, a conceção do sonho retoma contacto com uma realidade transpessoal que se encarna nos arquétipos que povoam o inconsciente coletivo desde a mais remota antiguidade. Os arquétipos expressam-se em símbolos e imagens oníricas.

O sonho do escadote constitui a inauguração do ciclo de Yaacov, fundando o seu itinerário ascendente. O escadote assinala o caminho em direção ao «Alto». Mas não só isso: ele é o símbolo da comunicação sem interrupções entre o Homem e o Criador.

Os Seus anjos (também enviados, em hebraico bíblico) sobem e descem, comunicando os desígnios divinos.

Yaacov, ao acordar depois de ter ouvido a promessa Divina, chama ao lugar do seu sonho Bet-El, pois este não era senão, na sua opinião, a «Casa de De’s e Porta do Céu».

Trata-se de um pacto baseado na promessa e na fundação do lugar: Bet-El.

Este pacto contém a presença ativa de De’s no sonho e a resposta ativa de Yaacov ao acordar. O escadote é o mediador entre os dois momentos do pacto. O sublime e o terreno unem-se através da imagem do escadote.

Yaacov, que declara não saber que De’s estava ali, estabelece com o seu reconhecimento o conceito de Omnipresença Divina. Em qualquer lugar, em todos os lugares, De’s está presente. Mas o lugar da Sua Revelação não é já um lugar qualquer: Transforma-se na Sua Casa. Desde o extremo superior do escadote até ao inferior, transmite-se e confere-se o carácter sacro através do qual um simples lugar se transforma num lugar sagrado.

A parte inferior do escadote assenta na terra sobre a qual repousa Yaacov. O olhar onírico percorre o escadote para pousar finalmente na imagem do De’s da Promessa. A promessa eleva Yaacov; a ordem dos versículos corresponde a essa elevação, do geral ao particular. Da generalidade espacial: «A terra na qual estás deitado, dá-la-ei a ti e à tua descendência» e da generalidade temporal já anunciada: «Será a tua descendência como o pó da terra», à proximidade de um De’s tutelar: «Eis que Eu estou contigo…»

Também é possível interpretar este singular sonho de Yaacov a partir de um ponto de vista psicológico ou histórico.

O sonho de Yaacov, o sonho do escadote, é uma síntese da vida de Abraham e de Isaac, que de algum modo representam modelos opostos segundo o que é relatado na Torá sobre os seus modos de vida, apesar de tal não ser efetuado de modo explícito. Abraham responde a ordens celestiais, enquanto que Isaac se encontra amarrado à terra, não só fisicamente como também no seu coração, como fica demonstrado pelo seu amor por Esav. Evidentemente, Abraham caminha pela terra segundo disposições celestiais; obviamente também Isaac, o prisioneiro, aceita o jugo celestial. Mas só em Yaacov se conjugam estas duas bases no terreno simbólico e no real; nos sonhos e na vigília.

A luta entre a essência básica de Abraham e a de Isaac gera o escadote pelo qual desce o próprio De’s para responder às angústias da sua alma. Yaacov é abençoado através de todo o bem material, tendo estado unicamente com o seu cajado e o seu bornal, carente de tudo, com tão só uma pedra sob a sua cabeça. Também o seu avô, Abraham, abandonou a casa de seu pai e a sua terra, embora não fugindo, mas sim devido a uma ordem Divina e com uma meta conhecida, com uma finalidade. Yaacov foge da terra que era em si uma finalidade, por temor a seu irmão, rumo ao desconhecido. É o primeiro exilado.

O Midrash apresenta-nos uma explicação histórica sobre este sonho que parece extremamente atual e moderna, nestes nossos dias em que a conceção histórica tem um lugar tão importante. «Disse Rabi Shmuel Bar Nachman: Refere-se aos ministros das nações… De’s mostrou a Yaacov o ministro do reino da Babilónia a ascender durante setenta anos para logo descer; o ministro do reino de Média a ascender durante cinquenta e dois anos para logo descer, o ministro do reino da Grécia a ascender durante cem anos para logo descer, e o de Edom a ascender sem descer. Nesse momento Yaacov temeu e disse “Então, este não desce?”, ao que De’s lhe respondeu: “Mas tu não temas, meu servo, Yaacov, nem desmaies, Israel. (Jeremias 30:10); “e embora aparentemente vejas que ascende e se senta junto a Mim, de ali o descerei, como está dito: ‘Mesmo que subas aos cumes como a águia e faças o teu ninho nas estrelas, de lá te descerei.’» (Obadia 1:4)

De acordo com este Midrash, o sonho apresenta um quadro histórico da humanidade, a subida e a descida dos povos e das suas culturas até ao fim das gerações. A explicação do Midrash é que tal sonho não fala de Yaacov, o homem que foge de casa de seu pai, mas sim de Yaacov – Israel, da nação que vagueia pela terra e é conduzida, geração após geração, entre povos gigantes; nação exilada de toda a terra. O Midrash prevê a subida e a descida dos povos e dos reinos do Egipto, Assíria, Babilónia, Pérsia e Grécia, e a descida de Roma e dos seus descendentes, denominados com o nome Edom pela literatura do Midrash, pelos pensadores e versificadores, pelos poetas e pelos exegetas da Idade Média.

Este escadote – o tempo – no qual toda a ascensão depende de alguma descida e toda a construção se apoia nas ruínas de outra precedente, não é um escadote infinito: No cimo encontra-se De’s.

É deste modo que se desenrola o primeiro e o mais profundo sonho bíblico: Um escadote estava apoiado na terra e o seu cimo chegava aos céus. Sobre o seu topo estava apoiado De’s. O De’s de Abraham, o de Isaac, o De’s dos céus e da terra. E este escadote não é silenciosamente abstrato, mas sim intensamente vivo: Pelos seus degraus sobem e descem anjos…

A imagem do escadote do sonho de Yaacov – no seu caminho rumo ao exílio – vem fortalecer no seu coração a ideia fundamental que ensina que a vida do Homem não é horizontal, mas sim vertical, e tem depressões e alturas invisíveis, apesar de reais. A fim de lhe recordar que as lutas que o esperam no caminho que o conduz da sua casa à do enganador Labão representam apenas desafios para o seu espírito. Se os conseguir vencer, merecerá ser e será Yaacov (Israel).

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