Tomar

TOMAR

Chegamos a cidade de Tomar com quase nenhuma expectativa de encontrar vestigios judaicos – já que nos haviam comentado que não restava mais nada na cidade que remontasse ao passado judaico. Não obstante nos interessamos em conhecer a cidade com uma faísca de esperança.


De acordo com nossas pesquisas havia uma sinagoga em Tomar, mas nos equivocamos no caminho e chegamos a uma antiga fortaleza de Templários que possuía uma catedral. Foi grande nosso asombro ao deparar-nos com uma placa que dizia: A fortaleza de Tomar foi fundada por Gualdim Pais no ano de 1160 como ponto estratégico e sede da Ordem dos Templários, declarada patrimônio da UNESCO.

A Fortaleza de Tomar foi construída com arquitetura conhecida já na Terra Santa de Israel, aonde Gualdim havia vivido por 5 anos. Assim, curiosamente, o oratório românico da planta central foi inspirado no Templo de Jerusalém.

Sinagoga
Nos dirigimos depois ao escritório de turismo que nos indicaram aonde encontrar a Sinagoga. A rua se chama Sinagoga, e após caminhar três esquinas a encontramos.

Nos recebeu Teresa Serra Carvalho que nos apresentou a história judaica de Tomar. Sua família sempre viveu em Tomar e agora estão manifestando seu judaísmo. Resta apenas uma outra família que também dissimulou seu judaísmo e que somente o reconheceu nos últimos anos.

A sinagoga de Tomar é a mais antiga de Portugal e está em boas condições. Esta atesta a importância da comunidade judaica naquela época, uma vez que foi construída sob a ordem do Príncipe Henrique, assim como o bairro judeu, pela ajuda financeira que prestavam a corte.

A juderia era aberta ao nascer do sol e fechada com o pôr-do-sol. Ainda há marcas dos bloqueios nas portas.

A bimá (mesa aonde se apoia o Rolo da Torá para sua leitura) está no centro da sinagoga ao estilo sefaradi. A cortina que cobre o Aron (aonde se guarda o Rolo da Torá) é de veludo azul escrito com letras douradas, e foi doada pelo embaixador de Israel em Portugal. A Torá foi um presente de uma família da Califórnia, EUA e o Aron em si, foi doado por uma família da Inglaterra.

A sinagoga preserva a porta original do século XV, bem como as colunas centrais e o sistema acústico (cantaros embutidos nas paredes). Sua arquitetura é simples e de influência oriental. A planta é quase quadrangular com abóbadas de bordas sentadas em quatro colunas, maiúsculas decoradas com motivos vegetais e geométricos, e doze prateleiras anexadas às paredes. Esta decoração é toda carregada de simbolismo: as prateleiras representam as doze tribos de Israel, as colunas indicam as quatra matriarcas, as maiúsculas indicam o parentesco das matriarcas – duas iguais para as irmãs, Rachel e Leah e o resto diferente para Sara e Rivka. A parte na qual as mulheres oravam foi fechada. Na sinagoga há muitos elementos que foram doados por indivíduos, bem como lápides funerárias do cemitério de junho de Faro, s.XIV, e uma réplica de um túmulo da Sinagoga antiga de Belmonte, s XIII.


Ao lado da sinagoga, é possível ver o mikve. Tanto a sinagoga quanto o mikve serão reparados no início de novembro de 2017.

Bairro judeu
Tomar é uma cidade atualmente de 15.000 habitantes, de modo que o bairro judeu não é muito grande. O bairro judeu está localizado na Rua Dr. Joaquim Jacinto, que atravessa todo o Centro Histórico dando origem a uma área chamada “Levada”, da colina de Castelo Templario, de onde se conecta com a rota do Pe da Costa Bailo. O tronco central desta rua, hcerca de 170 metros, era o centro neurálgico da comunidade judaica, a atual Rua Nova, onde a Sinagoga está localizada.

 

História dos judeus de Tomar
Nos primeiros anos do século XIV já havia uma comunidade judaica em Tomar (como evidenciado pela inscrição de um túmulo funerário do rabino Joseph de Tomar, que morreu em 1315), que alcançou um grande desenvolvimento no século XV quando a sinagoga foi construída (entre 1430 e 1460). Foi usado como uma sinagoga até dezembro de 1496, quando o rei D. Manuel ordenou publicar (por imposição de sua noiva, a princesa Castellana Dona Isabel) um edital que deu termo aos judeus até outubro de 1497 para converterem-se ou deixar Portugal.

Os judeus convertidos foram chamados de “cristãos novos”, contudo houveram outros que, apesar de serem batizados, continuaram a praticar em segredo a religião, foram chamados de “Marranos” ou em termos acadêmicos Criptojudeus.

A sinagoga em 1516 torna-se uma prisão, depois uma capela. Em 1 de junho de 1885, a Sinagoga era uma casa de adobe simples que servia de palheiro, mais tarde foi transformada em armazém de mercadorias e por decreto de 29 de julho de 1921, o prédio foi classificado como um Monumento Nacional.

Dois anos depois, em 5 de maio de 1923, um engenheiro de mineração judeu-polonês e estudante de cultura judaica compra a Sinagoga recuperando-a do estado de abandono em que era e depois o proprietário doa ao Estado Português em 1939 com a condição de instalarem um museu luso-hebraico.

Tomar é uma cidade muito bonita, com os edifícios característicos de Portugal, com casas de não mais de três andares, com varandas que sobrescrevem das janelas, com muitas grades decoradas e coloridas. Recebe muitos turistas que vão visitar a fortaleza dos Templários e na Sinagoga encontramos-nos com visitantes de Israel e outros lugares, como testemunhou o livro de visitas.

 

Por Nora Goldfinger

Criadora da ONG Heme Aqui, que trabalha com pessoas com necessidades especiais através do Golf.

Nora está percorrendo algumas juderías de Espanha e Portugal e concordou em compartilhar conosco algumas de suas experiências.

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