A arte do amor a D’us

Comentário sobre a porção semanal da Torá – Ekev

 

Em toda religião existe uma dimensão objetiva e outra subjetiva.

As distintas crenças de cada religião e o caminho através do qual o homem vincula-se com ditas crenças compreendem a parte objetiva que existe nelas. O caráter da relação que estabelece o homem com Deus é a parte subjetiva da religião. Na história da filosofia e dos credos houve uma época na qual teve destaque, principalmente, a parte objetiva da religião, enquanto que na época moderna enfatizou-se a parte subjetiva.

A crença que obriga a uma demonstração da evidência de Deus ainda não é uma religião. Quem acredita na existência de Deus, porém não tem nenhuma relação com Ele, não é religioso. O filósofo fala da evidência de Deus, porém o indivíduo religioso não apenas tem conhecimento da Sua existência, mas também estabelece com Ele uma relação de amor, de segurança e de devoção. Esta relação é a parte subjetiva da religião.

O caminho preferido que deve escolher o homem para aproximar-se de Deus está condicionado a qualidade da concepção que tem d’Ele. Tem-se certeza que é a moral o valor que melhor define a Deus, será a moral o caminho de aproximar-se d’Ele.

No judaísmo existe um fluxo constante entre o motivo de amor e o motivo do dever. Esta orientação mostra um aspecto especial da concepção de Deus: o Deus do amor é também o Deus da lei.

O dever do amor aparece em muitos lugares da Bíblia como uma demanda absoluta que se exige do homem, uma espécie de ordem categórica.

O judaísmo é uma obrigação de amor e ensina ao homem judeu a forma de chegar a Ele. Existem aspectos nos quais a Bíblia prescreve o amor em forma clara e precisa: amor a Deus, amor ao próximo, amor ao estrangeiro ou prosélito. Porém, apesar de tudo, a concepção geral do judaísmo reitera e enfatiza a necessidade de amar a vida do ser humano. O objetivo dos deveres, obrigações e diversos valores da Bíblia é educar ao homem para que sejam atendidos os vários aspectos do amor, como auto-estima, amor ao cônjuge, amor à família, amor a Eretz Israel, amor a Bíblia e amor à sabedoria.

Existem distintos tipos de amor ou, melhor dizendo, distintas opiniões sobre este tema. Porém o mais difícil de entender é o amor a Deus, que se apresenta como uma exigência para criar o conhecimento que contém a razão humana. O homem ama a si mesmo, quer a sua esposa, ama a sua família, ama a sua pátria, quer prata e ouro. Tudo isto é relativamente fácil de amar, já que são elementos concretos, acessíveis ou, pelo menos, imagináveis. Porém, como conceber o amor a algo que não está dentro do mundo do palpável, lógico ou imaginável?

Para responder a esta pergunta devemos refletir sobre o resto dos versículos do capítulo que fala sobre o dever de amar.

“Cumprindo seus mandamentos e preceitos…”

O amor não permanece no mundo da imaginação. O significado do amor Divino, segundo estes versículos, é a disposição do ser para executar as obrigações contraídas com Deus.

Existem três caminhos centrais para alcançar o amor a Deus: o intelectual, ou seja, por meio do estudo; o sensível-emocional (senso-emotivo) e o da prática, quer dizer, cuidando das obrigações (preceitos).

Deus se revela no sistema cósmico e no sistema moral (axiológico), porque quando o homem estuda e entende, graças a sua inteligência as funções de ordem cósmico e moral, aproximam-se ao mesmo conhecimento de Deus.

O Rambam afirma que inclusive o amor, que é expressão de um sentimento, depende do nível intelectual do homem. A investigação intelectual sobre a ordem cósmico e moral de Deus atua como uma ponte que se estende entre Deus e o homem.

O caminho para chegar à devoção a Deus não reside unicamente na observação da Bíblia e seus deveres, mas abrange também os feitos concretos. O estudo de seus atos e o descobrimento de sua natureza pode produzir no indivíduo um sentimento de ebulição. O homem pode conhecer a Deus e chegar a amá-Lo através da percepção da natureza. Deus revela-se diante do homem também pelo caminho da natureza, por meio das manifestações estéticas, a beleza e a magnificência espiritual.

Através do coração conseguimos nos sujeitar a Deus, porque quando o coração governa, vence o intelecto. O homem se eleva por cima do mundo finito e se encontra com seu Criador. Trata-se de uma experiência pessoal, talvez mística, aonde o espírito do homem se aproxima de Deus. O livro de Salmos, que é prodigiosamente uma criação religiosa, descreve a experiência direta que emana do mundo dos sentimentos do homem frente a Deus e que não depende de nenhuma norma ou lei; é uma experiência não dirigida nem programada, cuja raiz se encontra na busca instintiva, involuntária, espontânea, de Deus.

Quando o homem cumpre com as obrigações Divinas, sujeita sua vontade a vontade de Deus e assim consegue a aproximação. O objetivo de uma vida normativa é elevar o homem ao plano espiritual, orientar seus impulsos biológicos e psicológicos, e conseguir um modo de vida sagrado, que lhe ensine a venerar o Criador.

A observância das qualidades de Deus e seus ensinamentos conduzem ao conhecimento e a evidência do poder Divino.

Desta forma, é possível explicar como a Bíblia pode exigir que se ame apesar do amor tratar-se de um sentimento e uma percepção, pois a devoção não se encontra apenas no mundo dos sentidos, mas também aparece na realidade e em sua prática cotidiana.

O judeu venera a Deus, não por temor ou por medo do castigo, senão por amor transparente e puro.

Devoção é a integridade que se eleva como um privilégio do homem de fé. Segundo escreve o Rambam, o homem deve viver por amor e pensar todo o tempo nele, como um apaixonado pensa todo o tempo na mulher amada e seus pensamentos estão apenas dedicados a este sentimento.

5 thoughts on “A arte do amor a D’us”

  1. Sim é muito Boa a conclusão do Rabino,e justa.Eu gostaria de ter um Rabino,por eu ser um neto de Judia não posso de da comunidade tradicional. Eu gostaria de ter uma cobertura. preciso não fui criado numa família judia so com as resas.mas busquei os ensinamentos do outro lado da minha família que manteve-se na fe com o Eterno. e quando eu descobri eu voltei mas não tenho cobertura de um Rabino.muito obrigado Shalom.

  2. Que D-s continue iluminando ao Rabino Eliahu. Este artigo só podia ser escrito por um judeu iluminado por HaShem. e eu digo : Cumpra as mitsvot por amor e não por medo !!

  3. Amar Hashen observando a natureza é difícil pois não tem apenas beleza e bondade, há também a crueldade dos factos em que o mais forte mata e devora o mais fraco. Observando apenas a natureza e querendo extrair dela a natureza e fins Divinos, a conclusão poderia ser terrível!

    Tem que se tentar ir para além. Há uma Bondade que ultrapassa a crueldade inerente à Natureza. Para amar Deus sem o conhecer nem compreender ( o que só a alguns, poucos e de forma imperfeita é dado) , só cemtrando-nos no mistério da Bondade que, por vezes, irrompe, até num simples animal, no meio da crueldade da Natureza.

    Essa Bondade inexplicável pode ser o ” dedo ” de Deus!

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