Proselitismo e Judaísmo – Noções de Judaísmo

Pelo Rabino Nissan Ben Avraham

 

Proselitismo ou não?

É sabido que o judaísmo não é uma religião proselitista. Muito pelo contrário, faz todo esforço para desencorajar potenciais candidatos.

Mas é importante entendermos a razão – ou as razões – para esse comportamento.

Por um lado, é verdade que as leis do judaísmo são explicitamente destinada aos judeus, por outro lado, existem algumas mensagens universais do judaísmo que são válidas e necessárias para toda a humanidade. Tanto o cristianismo quanto o islamismo nasceram da semente do judaísmo, embora tenham, em grande parte, cruelmente distorcido as mensagens, pregando a “necessidade” de espalhar sementes em todos os lugares, de modo que ninguém seja excluído da possibilidade de ser parte de suas religiões. E assim, nos perguntamos por que o judaísmo não fez o mesmo? Poderíamos, inclusive, dizer que, talvez, se tivesse feito não teria sido cruelmente perseguido por estas duas religiões.

 

Patriarcas

A verdade é que, desde do início remoto da revelação divina aos nossos patriarcas já era sentida a necessidade de proclamar esta mensagem. Como o verso em Gênesis (12: 5) diz: “e tomou Avram a Sarai, sua mulher, e Lot seu sobrinho, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que tinham feito em Haran”. Nossos sábios explicam que essas “almas” eram, na verdade, prosélitos.

Mais tarde (12:8), é dito que ele “construiu ali um altar dedicado ao Senhor e invocou o nome do Senhor”. A expressão ‘invocou’, se refere ao público interessado, do qual ensinou sobre o nome divino, ou seja, explicou os caminhos do Senhor e como praticar a justiça e a lei, como é dito sobre Avraham (18:19) “Porque eu o tenho conhecido, e sei que ele há de ordenar a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para agir com justiça e juízo”, que são dois pontos que o Senhor aprecia, como diz o Salmo 33 (5): “Ame a justiça e a retidão”. E mesmo os habitantes cananeus o reconheceram, como disseram (Gênesis 23:6). “príncipe poderoso és no meio de nós”. O mesmo aconteceu com seus filhos, Itzhak (Gênesis 26:25) e Iaacov (35: 7), que construiram altares para proclamar o caminho do Senhor a todos os interessados.

 

Um Novo Caminho

Mas o patriarca Iaacov começa um novo caminho, pois, no final, consegue construir uma casa, uma família em que todos seguem o caminho certo, e, portanto, repensa o caminho que deve, então, percorrer. Este é o significado da expressão (Gênesis 33:20) “E levantou ali um altar, e chamou-lhe: D’us, o D’us de Israel”, o que significa que a divindade já está “vinculada” a uma determinada família, a família de Iaacov.

Mais tarde, quando o povo de Israel saiu do Egito, muitos outros sairam com eles, como o verso (Êxodo 12:38) “uma grande multidão saiu com eles”. Alguns apenas aproveitaram a oportunidade para escapar da escravidão egípcia, mas muitos sentiram uma atração especial pelo Povo de Israel. Alguns, inclusive, devem ter alcançado a Terra de Israel, embora pareça que a grande maioria acabou não sobrevivendo o deserto, durante os longos quarenta anos.

Além disso, um povo, os Quenites, filhos de Itró, sogro de Moshé, seguiu fielmente o povo de Israel e se estabeleceram na Terra Prometida (ver Juízes 4:11) e continuaram com eles até a destruição do primeiro Templo, como podemos ver a profecia (Jr 35) que trata de sua lealdade inabalável.

E ainda mais tarde, o Rei Shlomó se casou com princesas de todo o mundo, colocando-se em perigo espiritual, pois pensou que sua influência seria suficientemente forte para fazer com que essas princesas compreendessem as verdades do judaísmo, mas estava errado, pois, embora, de fato, fosse suficientemente forte, tais assuntos ainda não tinha atingido a maturidade para tornar-se acessíveis, sem o perigo de sofrer nenhuma influência.

 

Desintegração do Paganismo

No final do Segundo Templo começou um período de desintegração da cultura pagã no Império Romano, e muitas pessoas se sentm atraídos pelo judaísmo. A nação dos edomitas, que viviam no sul de Israel, foi conquistada e muitos dos edomitas se converteram (não sabemos como e com que grau de força) para o judaísmo, e um deles foi o avô do Rei Herodes. Outras tribos semitas, vizinhos de Israel, também se converteram. O Talmud critica essa prática na dinastia dos Hasmoneus, quando pensavam que, certamente, dessa forma levantariam a honra de seu povo.

Os judeus que viviam fora das fronteiras da Terra Santa e estabeleceram colônias, com suas sinagogas e instituições e, assim, estiveram com ainda mais contato com muitos gregos e romanos. Quando, mais tarde, o cristianismo se espalhou, aqueles que haviam se convertido, foram os primeiros a se mudar para a nova religião, que era muito menos exigente em termos de mandamentos práticos.

 

Os Prosélitos e a Lepra

O Talmud diz, no Tratado de Kidushin que os conversos são difíceis para Israel como a lepra.

Esse comentário recebeu várias interpretações talmúdicas. Dado o contexto da época, é bom entender que os sábios eram contra a conversão, em muitos casos, por conveniência e não por convicção, e em outros casos, até mesmo forçados. Em parte, poderiam, assim, justificar o comportamento de alguns judeus que mal recebiam a chegada de pessoas que queriam entrar na sinagoga. O prosélito, diz o Talmud, são como a lepra!

Por isso, é importante compreender este significado exato.

Uma explicação diz que por causa que os convertidos não tinham muita experiência no cumprimento adequado do judaísmo, poderiam dar mau exemplo para os outros judeus. Outra explicação diz que pelo fato de que existem 36 lugares na Torá que se adverte a não causar nenhum dano ao converso, é muito difícil cumprir este mandamento corretamente, e são, portanto, difícil como a lepra. A terceira opinião diz que a razão que o povo foi para a Diáspora, foi precisamente para recolher seguidores entre todos os povos e convertê-los, e enquanto não o fazemos, não podemos ir para casa. Há também uma opinião que, ao contrário da primeira, argumenta que os conversos cumprem de maneira tão dedicada os cumprimento e os mandamentos, que envergonham assim os outros judeus. A interpretação final diz que uma das condições para que a Presença Divina habite entre nós é a de que o povo de Israel esteja organizado de acordo com suas famílias básicas, os descendentes das doze tribos originais.

Cada uma dessas interpretações é incompleta e apresenta uma visão muito parcial e, assim, é muito mais fácil compreender esta situação, juntando todas as facetas fornecidas, na forma mais adequada.

 

Integração no Povo

É claro que a mensagem da Torá tem dois níveis, um nacional e um universal, e, que é nosso dever, como entenderam os Patriarcas, ensinar o caminho do Senhor para todo o mundo. Eu questiono se é correto ou não incentivar indivíduos a integrar o povo de Israel e deixar o povo do qual pertencem, pois vimos opiniões conflitantes: alguns dizem que todos devem encontrar seu caminho dentro de seu próprio povo e outros dizem que devem se juntar ao povo de Israel. Por isso, a opinão de que devemos recolher as almas dos prosélitos que estão espalhadas entre os povos da diáspora, não é aceita por todos os sábios.

O Talmud diz, algumas páginas adiante, que o prosélito não faz parte de Israel enquanto não se casar com uma judia ou uma mulher, quando se case com um judeu. Mas se se casarem, ainda não estão integrados na congregação (ou “Call”, como era chamado na Catalunha), e refere-se ao último tema que vimos. Muitas vezes, há uma tendência de se manter entre “pessoas conhecidas” com outros que também fizeram o caminho para a verdade e finalmente encontraram a Torá de Israel. Acreditam que poderão causar um desequilíbrio ao se casar com alguém de raízes judaicas e preferem encontrar companhia com outros convertidos. Este é um erro.

Este é um outro fator, muito importante hoje em dia, que são as almas perdidas. Como podemos ver, ao longo da história judaica, muitos Filhos de Israel foram forçados a se converter a outras religiões. Mas de acordo com a Halachá Judaica, estes permaneceram em seu status anterior, e assim também, seus filhos. Podemos perder o fio da genealogia na família, mas certamente não, o perdão do Criador. E quando chegar a hora, a alma retornará ao seio do povo, mesmo que tenha que percorrer todo o mundo.

Portanto, é evidente que o Judaísmo não pode fechar suas portas para os recém-chegados, pelo contrário, deve tê-las bem abertas para receber todos aqueles que se perderam nas estradas do mundo, buscando constantemente o Caminho do Senhor.

One thought on “Proselitismo e Judaísmo – Noções de Judaísmo”

  1. B’H

    Boa tarde!

    Excelente o assunto aqui abordado.

    É válido salientar que a perseguição não foi somente à religião, se estendeu e se estende até nossos dias, aos chaves e chaverins, muitas vezes de forma velada, outras vezes de forma bastante visível. Outrossim, se aqueles que nasceram em famílias judaicas tiveram esse problema, imagine aqueles que descobriram suas raízes. O caminho dos marranos, dos criptos judeus, dos “cristãos novos”, tem sido algo inimaginável. Só quem o vivencia sabe o quanto isso é constrangedor nas caatingas dos sertões nordestinos do Brasil.
    Se somos uma reminiscência do passado distante, também somos uma dúvida aos olhos de muitos no momento presente.

    Shalom!

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