A Excomunhão dos Mallorquinos em Ténès

A História dos Judeus que escaparam de Mallorca em 1391

 

Tenes
Tenes

A fuga do ano de 1391

A cidade de Ténès está na metade do caminho entre a capital de Oran e a capital Argel, na costa da Argélia, bem “abaixo” da ilha de Ibiza, nas Ilhas Baleares. Há uma pequena praia que divide a costa íngreme aonde lá, foi fundada pelos fenícios, a primeira cidade da região, Cartennas, há cerca de 2.500 anos.

Em 1391, durante um grande massacre e conversões forçadas dos judeus ao cristianismo em Mallorca, muitos fugiram da ilha e se estabeleceram nas cidades do norte da Argélia, Ténès, Konstantin, Beghaïa, etc.

A chegada desses grupos, e suponho que de muitos outros perseguidos na Península Ibérica, causou uma grande perturbação nas comunidades judaicas já existentes no norte da África.A História dos Judeus que escaparam de Mallorca em 1391

Aqui transcrevo uma “resposta” enviada por aquele que foi o rabino de Mallorca, Rabbi Shim’on ben Tsemah Duran, que se instalou na cidade de Argel, à comunidade judaica de Ténès, que protestava contra o “tratamento” com o qual eram recebido os novos imigrantes de Mallorca. Inveja, arrogância, excomunhões: Uma briga completa.

A ‘Resposta’, como a maioria destas cartas legais, está repleta de termos haláchicos, alguns muito complicados, incluindo palavras em grego de fundamentos da legislatura judaica, como “responsa” ou “Sheelot uTshuvot” em hebraico.
A RESPOSTA III, 46

Rashbetz
Rashbetz

Sheelot uTshuvot de RaSHBaTS (Rabino Shim’on Ben Tsemah), Parte III, n º 46.

Te escrivo que, desde que se estabeleceu a comunidade que chegou de Mallorca em sua cidade, divergiram sobre a questão dos pagamentos e impostos para o rei da comunidade original, uma vez que eles pagavam duas moedas de ouro e um oitavo de imposto ao rei cada mês, enquanto que a antiga comunidade pagava três de ouro, já que assim o rei estabeleceu e portanto, assim era o costume.

Inclusive, mesmo depois de o rei ceder a sua parte ao juiz, não adicionava e nem subtraia nada. E agora levantam-se os líderes da “velha” e exigiam que os ‘novos’ paguem o salário proporcional e queriam acrescentar aos ‘novos’ três oitavos e meio, rebaixando-os. E os “novos” não aceitaram, dizendo que “eles não têm nenhuma briga com eles, e que não se preocupam se não com a lei real. E para quem vão reclamar, se o Criador os diferenciou? Nós com o nosso e vocês com os seus.” E quando viram isso, os ‘velhos’ decidiram se separar dos ‘novos’ na alimentação, não comendo a carne abatida por eles, não bebendo seu vinho e nem visitando seus doentes, não circuncidavam seus filhos, e não permaneciam na sinagoga quando estes oravam, e não homenageavam um dos ‘novos’ para que leiam a Torá, e tudo isso sob pena de excomunhão. E agora me pergunto se os ‘velhos’ estão certos em suas reclamações sobre os “novos” e se estes atos são corretos e legais.
RESPOSTA:

Todo mundo sabe que o pagamento de impostos para o rei é um direito real, como está escrito no livro de Esdras (Esdras 4:13), que não se deve ignorar esta lei dos Sábios, e assim está explícito no primeiro capítulo de Baba Batra (Talmud) que tudo que o rei impõe é lei real e é um direito estabelecido, portanto, não se pode mudar nada do que está estabelecido, uma vez que a nossa regra é a de que “a lei do reino é a lei “, conforme determinado no tratado de Nedarim (Talmud) em matéria aduaneira e em Baba Cama (Talmud) sobre a utilização de dinheiro, e em Gittin (Talmud) sobre a questão de documentos judiciais de não-judeus, e em Baba Batra (Talmud) sobre o comércio de mercadorias dentro dos não-judeus. E para quem sabe estas questões está claro que o direito real é lei, e quem toma algo de algum companheiro transgredindo a lei real, realiza um roubo e, portanto, já que o rei impôs para cada comunidade seus aumentos ou recessos, ninguém pode exigir algo do outro, e quem o faz, é um assaltante, D’us nos livre, para que não exista tal coisa em Israel! E mesmo que reclamem dizendo que somos mais importantes do que eles, nada se pode fazer e se o rei deseja favorecer ou prejudicar alguma comunidade, assim o pode fazer com o que você possui.

E a prova é que no Tratado de Baba Batra, Rav Ashe diz que ” o “parataxe”, a cidade contribuirá com ele, que os cidadãos o escondam, mas o “anádeixis”, que D’us o ajude”.

E o Rabeinu Chananael explica que o “parataxe” (παράταξις) é uma pessoa que não tem emprego, e você deve esconde-lo das pessoas dizendo que é um inútil, e assim estará isento de impostos, mas ele deve ajudar os cidadãos de sua comunidade, assim como eles o ajudam. Mas o “anádeixis ‘(ἀνάδειξις) não são os cidadãos que o escondem, mas o próprio rei que deu-lhe uma carta o isentando dos impostos, e este é o significado de “anádeixis” ‘dispensado’ ou ‘leve’. E o Talmud de Jerusalém em Baba Cama diz que do momento que foi fixado os impostos sobre os cidadãos, quem dá mais e quem dá menos, ninguém pode ferir os outros, por exemplo:

“Se você ver que a água transborda da vala do seu amigo e está prestes a entrar em seu campo (e isso ira lhe causar prejuízo), caso ainda não tenha entrado, você pode desviar para não prejudicá-lo” (ou seja, você pode construir uma parede que impeça a entrada de água para o seu campo, apesar de que assim, entrará na de seu vizinho) “, mas se a água já entrou em seu campo, você não pode desvia-la para o campo de seu vizinho.” A partir disso, aprendemos que a partir que já existe a fixação dos encargos para cada um, ninguém tem o direito de transferi-los para o vizinho. E também é dito:

“Antes de aplicar o “Chrys-argyra” pode-se reivindicar que o outro faça o seu trabalho’, mas após ser aplicada a” Chrys-argyra” não se pode mais”.

O “Chrys-argyra” (χρυσ-ἄργυρα) é ‘xícara de prata dourada’, em grego, e significa que, se o rei ordenou impostos sobre taças de ouro e prata e encontrou uma nas mãos de um cidadão, se foi visto antes entrar na cidade, este tem o direito de dizer que ele não é um artesão e dizer quem fez o copo, para se isentar da comissão real. Mas se isso acontece depois que ele entra na cidade e já fixaram a tarifa aos cidadãos não se pode usar essa desculpa, porque a tarifa já foi imposta a toda a cidade. E ele também diz:

“Xeno-Pyrgo” antes de chegar ao Romanos pode-se suborná-los, mas quando já chegou, é proibido.”

O significado é que, quando o rei viaja de um lugar para outro e seus soldados dormem em tendas, quando eles vêm para as cidades, pedindo abrigo para os judeus, são chamados de “xeno-Pyrgo” (‘Xeno’ – ξένω – significa ‘alojamento’ e ‘Pyrgo’ – πύργος – é o ‘regimento’ ou ‘torre’), e antes que os romanos entrem na cidade pode-se suborná-los para que, quando entrem não fiquem em sua casa, mas quando já entraram e pediram acomodação na cidade é proibido os subornar para se isentar, já que vai poupar dinheiro às custas de seus companheiros, porque se não dormem n sua casa, irão para outra casa, pois o descanso destes será nesta cidade.

E tudo isso nos ensina que o que é estabelecido por leis reais sobre os cidadãos da comunidade não deve-se ser alterado para prejudicar os outros.

Assim, tendo em vista, que os antigos habitantes da cidade não podem reclamar que os “novos” se favorecem com seus impostos, os atos de excomunhão são ilegais e têm de ser abolidos, e não quero seguir escrevendo para não ofende-los. E que o Senhor lhes dê a paz!

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