50 Anos do Falecimento do “Dreyfus Português”

Foi um dos grandes historiadores judeus, Cecil Roth, quem denominou ao Capitão do exército português, Arthur Carlos de Barros Basto, o “Dreyfus português”.Basto-238x300

Para entender melhor sua história de vida e porque foi assim denominado por um historiador de renome mundial, passaremos a conhecer melhor quem foi este judeu convertido, de família anussita (convertidos à força) e que este ano, 2011, fazem 50 anos de seu falecimento.

Possivelmente seu nome não seja tão familiar, porém, sua história merece ser relatada, por tratar-se de uma memória de tenaz velentia e heroísmo e seu último capítulo está ainda por ser escrito.

Entretanto, por um certo prisma, a história de Barros Basto é inclusive mais fascinante, já que diferentemente de seu homólogo francês, ele ainda não recebeu a exoneração e a acolhida que tanto merece. De fato, fazem mais de sete décadas que o exército português decidiu expulsar o Capitão Barros Basto retirando-lhe suas insignias, considerando esta medida “boa e positiva” e sem justificar nada além disso.

A verdade do incidente é, entretanto, muito mais inquietante.

O Capitão Barros Basto, era um dos descendentes de judeus cujos ancestrais foram forçados a se converter ao catolicismo durante a época da Inquisição em portugal. Conforme seus biógrafos, Dr. Elia Mea e o jornalista Inácio Steinhardt, Barros Basto era um soldado condecorado que dirigiu uma companhia de infantaria na Primeira Guerra Mundial, lutou nas trincheiras de Flandes e participou da ofensiva aliada para a libertação da Bélgica.

Depois de voltar da guerra, decidiu abraçar a fé de seus antepassados, fazendo formalmente, perante um tribunal rabínico no Marrocos espanhol, em dezembro de 1920, sua conversão.

Instalado na cidade portuguesa do Porto, casado com uma judia da comunidade de Lisboa, Barros Basto lançou-se em uma campanha pública para convencer a outros anussim que se apresentaram depois de séculos de clandestinidade, a retornarem a seu povo. O valente herói de guerra viajou por vilarejos nas zonas urbanas e rurais, em seu uniforme militar, já que mesmo após a guerra continuou servindo sua pátria, realizando os serviços judaicos essenciais e tentando inspirar os anussim para que seguissem seu exemplo.

Teve grande êxito ao construir a formosa Sinagoga Mekor Chaim, que existe até hoje na cidade do Porto, e abriu uma Yeshivá que funcionou por nove anos, onde ensinava a jovens anussim suas raízes e heranças. Barros Basto editou por mais de três décadas o memorável jornal que ele denominou Ha-Lapid (O Facho, como ele próprio o traduziu), e que foi o responsável pela divulgação para o mundo judaico de todo esse seu trabalho, de toda a sua obra, a “Obra do Resgate”.

Porém, sua aberta identificação com o judaísmo e as milhares de pessoas a quem inspirou, tornaram-se o seu grande problema e esta sua postura nada comum naqueles dias, não foi vista, segundo os historiadores, com bons olhos pelo governo português e as autoridades da Igreja de então. Eles tentaram sufocar seu movimento vitorioso, acusando-o injustamente de libertinagem moral.

Um processo judicial civil foi aberto contra Barros Basto, tendo sido o caso encerrado em 1937, por falta de evidências. Entretanto, nesse mesmo ano, o Ministro da Defesa português abriu um inquerito militar que culminou com a expulsão do herói de guerra português, Capitão Arthur Carlos de Barros Basto, do exército, humilhando-o injustamente e dando um ponto final aos seus esforços de trazer de volta para o judaísmo milhares de anussim portugueses.

Barros Basto, morreu no ano de 1961 a exatamente cinquenta anos atrás, na pobreza e tristeza total.

Assim, enquanto Alfred Dreyfus foi eventualmente perdoado em 1899 e reintegrado ao exército francês em 1906 com todas as honras, o Capitão Barros Basto foi enterrado sem rever suas insígnias, e o que é pior, até hoje, a injustiça ainda não foi corrigida.

Cerca de cinco anos atrás, estivemos a frente de uma campanha pública e massiva, para tentar persuadir o governo português de limpar o nome do Capitão Barros Basto.

Reuni com o embaixador de Portugal em Tel Aviv de então, fiz uma petição para que seu governo reconheça a inocência de Barros Basto e peça desculpa pelo mal que causou a sua família e ao povo judeu.

Petições similares foram enviadas ao governo português e seus representantes no exterior. Organização judaicas, entre elas a “Conference of Presidents”, “Orthodox Union” e “Religions Zionists of America” envolveram-se naquela campanha, escrevendo ao embaixador português em Wshington sobre o caso.

Um congressista americano, Gary Ackerman, membro do comitê de relações internacionais de então, também involveu-se, insistindo com os portugueses para que resolvam o caso do “Dreyfus Português”.

Infelizmente, todo esse esforço não obteve nenhum resultado concreto, e a mancha sobre o nome desse nobre homem ainda não foi retirada.

Por tanto, este ano, quando completam-se cinquenta anos de seu falecimento, precisamos retomar nossa campanha e fazer ainda mais pressão para que o governo português tome a decisão correta.

O Capitão Barros Basto arriscou sua carreira e sua reputação em nome de seu povo, o povo judeu. O mínimo que podemos fazer é ristituir a dignidade que lhe foi arrancada tão injustamente.

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