Yosef o Revolucionário

Comentário sobre a Porção Semanal de Miketz

Nesta parashá nos encontramos frente ao homem das múltiplas funções: Yosef.

Yosef o sonhador e o decifrador de sonhos. É quem governa o Egito, sem esquecer também sua função como filho e irmão. É um homem relacionado com as coisas materiais e com o espiritual também.

Nesta parashá, o rei do Egito tem um sonho misterioso: na primeira parte, sete vacas magras devoram sete vacas robustas e formosas; na segunda parte, sete espigas débeis devoram sete espigas abundantes e formosas. O extraordinário é que, mesmo depois de terem sido devorados os seres robustos e formosos, os seres magros e débeis permaneciam iguais, sem mudança alguma em sua aparência.

O faraó estava preocupado: seus conselheiros trataram inutilmente de explicar o sonho. Como não conseguiram convencê-lo, se fez necessário superar a humilhação e recorrer a Yosef, o conselheiro judeu, para pedir sua opinião. Qual foi sua contribuição ao Egito?

Egito era uma terra fluvial, que possuía todas as condições necessárias para que se desenvolvesse nela uma grande civilização. O Nilo a corta, garantindo sua riqueza permanente. As distintas civilizações são geralmente fruto do esforço humano por dominar as condições naturais de sobrevivência, assegurando deste modo um futuro tranqüilo. Ao consultarmos o livro do Gênesis, veremos que esta aspiração constituiu a base de todas as civilizações pagãs. A idolatria, é a crença nas leis naturais que o homem deseja dominar ou, pelo menos, empregar em seu benefício, para assegurar deste modo sua sobrevivência. A natureza pode garantir a existência do homem, porém é sumamente interessante observar que o homem não se satisfaz com o que a natureza lhe oferece, mas que pretende obter dela um benefício ainda maior. O problema é que quanto mais se desenvolve a cultura humana, maior é a exigência dessa cultura para assegurar sua existência.

O Egito era um império muito desenvolvido nesses tempos e o progresso da natureza e do país dependia das forças pagãs.

As leis naturais, das quais dependem a existência e o bem-estar humano e seu futuro, são os próprios deuses. O Nilo era um dos deuses egípcios e sua adoração tinha como objetivo assegurar que a vontade Divina favorecesse as necessidades humanas. Porém a história de Yosef aponta para a existência de outra visão da realidade.

A proposta que Yosef faz ao faraó sobre a forma de salvar o Egito da seca, era uma proposta racional que não se baseava em motivos pagãos. Esta proposta afasta o temor do faraó com respeito ao futuro; temor que surgiu nele com base no sonho. A crença de Yosef de que era D-us quem constituía a fonte do sonho e não os ídolos pagãos lhe permitem não apenas decifrar o significado do sonho, mas também propõe um caminho para aliviar as conseqüências do que teria de suceder. Mesmo sem ser possível evitar a seca, é possível atenuar suas conseqüências negativas. Deste modo Yosef, baseando-se nos poderes que lhe foram atribuídos pelo faraó, constrói grandes celeiros para armazenar comida durante os anos de fartura. E assim Yosef vende aos necessitados os bens que foram acumulados nos anos de mingua.

Quando se acabou o dinheiro em poder dos habitantes, estes pagaram com seus bens e depois com suas terras. Desta maneira, no fim do período da seca, todas as terras do Egito, exceto as dos sacerdotes do faraó, pertenciam a este, e todos os habitantes do Egito, exceto os sacerdotes, se tornaram seus escravos.

Estas ações de Yosef mostram a contribuição de um dos primeiros judeus da história ao bem-estar de um império grande e importante como o egípcio. Yosef ensinou ao povo egípcio os fundamentos da psicanálise e do comunismo. Ensinou ao faraó e aos sacerdotes egípcios como decifrar o significado dos sonhos, evitando deste modo suas conseqüências nefastas. A concentração dos alimentos para sua posterior distribuição e a eliminação da propriedade privada, como dinheiro, bens e terras, constituem um exemplo de comunismo desprovido de partidos políticos e ideologias complicadas.

Yosef percebeu o elemento positivo da teoria marxista, que afirma que os processos econômicos possuem significado histórico, e deste modo, aproveitou situações especiais, criadas durante os anos da seca, para estabelecer um sistema econômico mais justo e eficiente.

A concepção econômica de Yosef incluía a maior parte dos elementos da economia moderna; a concentração dos meios de produção em mãos de um poder central e sua distribuição justa e eqüitativa entre os trabalhadores. Yosef possuía um dom especial para a planificação e o manejo do sistema econômico e empregou este dom em benefício do Egito.

Segundo vimos, as qualidades especiais de Yosef não se reduziam ao campo do material, mas se manifestavam também através de suas qualidades espirituais e humanas. Com base nessas qualidades, foi capaz de penetrar no pensamento e nos sonhos do rei do Egito, para decifrar seus segredos.