Os Sonhos: Utopia, Profecia e Realidade

Comentário sobre a Porção Semanal de Vaieshev

Assim como as parashiot Vaietzé e Vaishlach, que se referiram ao nosso patriarca Yaacov, continuamos com o estudo das características e a importância que o livro Bereshit proporciona ao mundo dos sonhos; fenômeno que se repete nos livros seguintes da Torá. Os sonhos do Chumash (Pentateuco) que analisamos são sumamente significativos, tanto quando estes sonhos representam o presente, como quando constituem a causa que explica certos sucessos que iriam ocorrer no futuro.

Todos as personagens do livro de Gênesis sonham: Abraham concretiza o pacto depois de ter estado com muita sonolência; Yaacov, nosso patriarca, com seu sonho sobre a grande escada, e o decifrador de sonhos, Yosef.

Todas as parashiot que se referem aos nossos patriarcas estão caracterizadas por uma surpreendente combinação de sonho e realidade. Por um lado, são relatadas as preocupações diárias com respeito ao sustento, ao pão para comer e a vestimenta para cobrir-se; a luta pela sobrevivência frente à ameaça dos inimigos; a rotina do lugar e do campo. Em contrapartida, nos é relatado também sobre aparições, anjos, sonho relativo a coisas que não são deste mundo, promessas futuras, nomes simbólicos; tudo está misturado de maneira tal que não podemos distinguir entre sonho e realidade, entre pessoas e anjos ou entre o passado e o futuro.

Parece que a experiência se produz alternativamente em dois níveis que às vezes se unem e outras vezes voltam a se separar, afastando-se um do outro. O nível de realidade se caracteriza por seu materialismo e pela descrição de desejos e instintos humanos e, sobre eles, está o nível celestial, que às vezes parece carecer de toda relação com o que ocorre na terra. O gênero das histórias da Torá utiliza estes dois elementos.

Desprovida dos sonhos e das profecias, a realidade parece débil, pobre, reduzida a apenas um pequeno grão de areia e a ilusão de um instante; ilusão sem sentido, a ponto de nossos sábios afirmarem: “Todo aquele que transcorre sete dias sem experimentar um sonho, é mal”. A realidade sem sonhos é uma realidade ruim.

O típico do sonho é que o sonhador vê em si situações que são impossíveis na realidade material. Às vezes, por exemplo, o sonhador presencia, durante os escassos minutos em que procede ao sonho, o desenvolvimento completo de processos complicados, que deveriam suceder durante o período de muitos anos, e outras vezes, pode contemplar sucessos extraordinários, como espigas do campo ajoelhando-se diante de outra espiga ou vê como o sol, a lua e as estrelas se prosternam diante dele.

Yaacov, o pai, se sente muito próximo de seu filho Yosef. O pai sonha e o filho sonha. Os sonhos de ambos são totalmente diferentes, porém ambos sonham, existe uma continuidade entre os sonhos do pai e os sonhos do filho. Yaacov havia sonhado com uma escada apoiada na terra, cujo extremo superior chegava até o céu. Yosef complementa este sonho com um relacionado a terra, que constitui o caminho para esse mundo maravilhoso que o homem necessita.

Porém, por outro lado, o sonhador geralmente não é aceito no marco da sociedade. Pelo fato da sociedade aquiescer às normas, às leis e aos marcos, e o sonho transpassar essas normas, o sonhador torna-se estranho as tais normas. A sociedade, em última instância, não é capaz de incluir em seus sonhos aos seres excepcionais, cujo sonho não se refere apenas a um individuo, mas a toda a sociedade.

O Rav Kuk, em sua linguagem poética, nos explica a importância do sonho e a necessidade dos sonhos: “Os grandes sonhos constituem o fundamento do mundo. Os nívies são diferentes. Os sonhadores são profetas que falam através dos sonhos. Os sonhadores são poetas do futuro. Os grandes pensamentos dos sonhadores vêm redimir o mundo. Todos sonhamos que  D-us volta a Sion”.

Yosef foi perseguido por seus irmãos não apenas por causa da formosa manta que seu pai lhe ofertou. Os irmãos já não eram crianças pequenas, e podiam comprar vestimentas para eles mesmos. A razão é que eles tinham detectado em Yosef a imagem do revolucionário, aquele que não vive dentro dos padrões e do marco da vida diária, senão que é uma pessoa capaz de provocar mudanças. Os irmãos compreendem isso, com base nos sonhos de Yosef, e por isso tornam-se seus opositores.

Yosef considera que seus sonhos são proféticos e os relata a seus irmãos para explicar-lhes como irão suceder as coisas no futuro. Esta atitude é característica do sonhador, que considera que seu sonho representa a realidade objetiva. Entretanto, a sociedade e, nesse caso os irmãos de Yosef, se relacionam com o sonho como expressão subjetiva, carente de toda capacidade para descrever o presente ou antecipar o futuro.

De onde provem a força do sonho?

Caso nos referamos aos sonhos proféticos, é sua origem Divina o que lhes outorga sua autoridade previsível. Também, se explicamos o sonho como produto da imaginação e da expectativa, então sua força decorre da vontade que existe no sonhador de tornar seu sonho, uma realidade.