O que é o homem

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O que é o homem?

Seria o homem apenas um sistema de ossos, músculos, nervos e líquidos que atua sobre a base de impulsos químicos? Por acaso existem no homem outros componentes?

A pergunta sobre a natureza do homem é muito especial. Esta é uma pergunta importante, que está por cima de todas as demais questões de nossa vida, tão filosófica, que na realidade não estamos habituados a refletir sobre ela.

Gerações inteiras não se fizeram esta pergunta. Essas pessoas viveram, trabalharam e construíram seu mundo sem necessidade de perguntar acerca da existência humana. Não há dúvida, no entanto, que durante as últimas gerações o tema do homem voltou a ocupar o centro das atenções filosóficas.
O homem moderno, envolto em crises nos distintos aspectos de sua vida (sociedade, religião, moral), se questiona sobre a natureza humana e o objetivo de sua vida.

A preocupação dialética e constante acerca da imagem do homem se origina, em grande parte, no versículo: “E criou D-us o homem à Sua imagem, à imagem de D-us o Criou”. Daqui se pode ver que existe no homem um componente especial.

É certo, que a Torá não nos dá explicações nem detalhes sobre essa especialidade do homem. É possível que a natureza essencial do homem pode ser caracterizada mediante um dualismo básico: enquanto por um lado sua força física é ínfima em comparação com as forças da natureza, por outro lado, é precisamente o homem quem domina a natureza.

“E criou D-us o homem à Sua imagem…” Estas palavras representam, na tradição judaica, a declaração fundamental acerca da natureza humana e do significado do homem. O que estas palavras transcendentais tratam de transmitir não tem deixado nunca de interessar e preocupar o leitor da Bíblia.

Na realidade, as palavras “à nossa imagem e à nossa semelhança” ocultam mais do que revelam. Significa algo que não podemos compreender nem verificar.

O que é nossa imagem? O que é nossa semelhança? Qual é aquela nossa parte que nos eleva acima dos animais, a porção de nós mesmos que compartimos com D-us, como nenhuma outra criatura vivente faz? Em que se parece o homem a D-us e o que significa que foi criado à imagem de D-us?

Estas perguntas e muitas outras surgem ao estudar e pensar sobre os versículos que relatam a criação do homem.

Nas linhas seguintes apresentaremos três enfoques diferentes com respeito a especialidade do homem:

a. O homem racional.

b. O homem que escolhe.

c. O homem criador.

Cabe frisar que não estamos falando de três tipos de homens distintos, mas de aspectos que coexistem dentro do ser humano.

A primeira interpretação possível para explicar a criação do homem “à imagem de D-us” é mostrar sua capacidade racional, sua inteligência e sua consciência.

Quando D-us criou o homem colocou nele algo de seu próprio “Eu”. É certo que o criou de matéria corpórea igual a todas as criaturas, porém, incutiu no homem um elemento Divino que cada um de nós sente em seu interior. O homem é o único ser vivo que goza da capacidade do pensamento abstrato. O elemento Divino que existe em cada ser humano é o que permite sair do mundo material e alcançar o pensamento abstrato.

Já disse um filósofo: no exato momento em que o homem se deu conta que não apenas duas árvores mais duas árvores são quatro árvores, mas sim que dois mais dois sempre será quatro, nesse momento transcendeu o marco das demais criaturas, elevando-se acima delas para dominá-las. Se o homem não tivesse sido criado à imagem de D-us, não seria capaz de maneira alguma, de conceber pensamentos abstratos e utilizar sua inteligência para entender e desenvolver o mundo.

A segunda visão mostra a semelhança do homem a D-us em sua capacidade de livre arbítrio. Um ser humano sem o livre arbítrio não seria mais que uma marionete nas mãos de seu Criador. Que sentido teria o conceito de “à imagem de D-us” se não implicar a idéia do livre arbítrio? O conceito “à imagem e semelhança de D-us” significa ser livre para tomar decisões, em vez de cumprir o que diz os nossos instintos. Significa saber que algumas decisões são positivas enquanto outras são negativas e que é nossa tarefa saber diferenciá-las.

A imagem Divina que temos dentro de nós nos permite dizer não aos instintos. Privar-nos de comer, mesmo estando com fome. Podemos escolher não ter relações sexuais mesmo estando excitados sexualmente. Todo o conceito do ser humano reside em elevar-se sobre nossa natureza animal aprendendo a controlar nossos instintos.

A terceira visão explica a semelhança entre o homem e D-us de uma forma muito original, que considera e integra as visões apresentadas: o fato de que o homem foi criado à imagem de D-us o estimula a uma vida criativa.

D-us se revela ao homem na criação do mundo como Criador, Realizador, Construtor. O relato da criação tem como objetivo principal nos ensinar a criação humana à semelhança de D-us. O homem deve ser neste mundo de criatividade, o que D-us é no mundo da criação: criativo.

Esta terceira definição da semelhança humana a D-us, cria um paradoxo: o homem é criado e, no entanto cria, é um produto e, no entanto produz, pertence ao mundo, porém está por cima dele.

A religião judaica vê o homem como aquele que deve seguir a missão Divina sobre a terra. O homem é o criador que continuará  a  criação  iniciada  por D-us. O mundo foi criado, porém o homem tem a possibilidade e a obrigação moral-religiosa de seguir criando no mundo material e espiritual, para assim demonstrar sua semelhança a D-us.